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Rir é pecado? [Xavier] - Diodoro - 09-26-2021

Diodoro não era o tipo de pessoa que trabalhava distraído. Não costumeiramente. Porém, havia um tempo desde que tinham recebido algum convidado ilustre – vulgo, um morto – na funerária para todas as preparações para o funeral. Ao menos desde que tinha contratado Xavier, o máximo que tinha organizado foi um funeral em casa, e assim tinha evitado que o funcionário assustado se assustasse mais ainda. Mas não bastasse não querer assombrar Xavier com os eventos de um embalsamamento, tinha sido contratado por uma daquelas pequenas famílias com dinheiro de Cerise que faziam exigências por terceiros e achavam tudo ruim. Se estava sentindo pressão? Nunca. Só não tinha tomado café da manhã, e claramente estava enchendo o corpo de café. Sua mãe lhe mataria se soubesse.

Com toda sua habilidade, ficou trancado até quase 11 da manhã na sala dos fundos entre todos os processos, inclusive maquiagem. Fez a limpeza de tudo sem a ajuda de Xavier, para que ele não ficasse assustado demais com sangue no piso e afins. Agora, se ele tivesse que ver o velho monsieur Reynold para lhe ajudar a alocá-lo para um caixão, ele estaria até bem corado e saudável.

Saiu ainda um pouco nervoso com a reação de Xavier, porém impecavelmente limpo da sala, e a bata de trabalho ficou na porta, retornando a suas roupas pretas e dando um passo desatento, sem ver o rabo de Miro no caminho, que deu um MIAU rasgado e arranhou sua perna, lhe fazendo cair para frente e bater a testa direto no portal que dava para a recepção da funerária.

- ...!! – Diodoro mordeu a língua para não xingar, que era pecado, e se agachou no chão levando a mão a testa que estava quente o suficiente para que soubesse que ia ganhar um belo galo.


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Xavier - 09-28-2021

As coisas estavam finalmente indo bem para Xaiver. Depois do início de vida desastroso em Cerise com o acidente no porto e no cemitério, seguido da visita inesperada em seu apartamento e até do agente funerário mafioso italiano, ele estava começando a se adaptar. O mafioso não era tão mafioso e tinha até lhe dado um emprego como ajudante de serviços gerais na funerária, o que estava indo muito bem até ser assombrado por uma adolescente que ele tinha quase certeza de que não era uma pessoa viva, por mais que Diodoro insistisse que sim. Bom, se não estava sendo assombrado por fantasmas, seria assombrado pelos descontos no salário por causa do caixão quebrado no episódio da fantasminha.

Ele chegava à funerária logo cedo e saía no início da noite, não tinha muito o que fazer e ele ajudava pouco quando se tratava de lidar diretamente com corpos, o que agradecia internamente. Por outro lado, até ficava curioso de vez em quando, quando chegavam alguns corpos e Diodoro se trancava na sala dos fundos para poder dar um jeito na aparência dos mortos antes do enterro. A última coisa que Xavier precisava era ver um corpo de perto, especialmente aqueles de acidentes graves, mas enquanto varria o lugar e tirava a poeira, se pegava olhando discretamente na direção da sala de embalsamento.

Não prestou muita atenção em quanto tempo Diodoro ficou lá dentro, mas desistiu de espreitar e foi terminar o seu trabalho de organização na sala da frente. Ainda bem que não tinha nenhum cliente, porque ele não tinha cara nem preparo para atender alguém - não que a cara de Diodoro fosse melhor. Quando Xavier estava terminando de varrer a sala com os caixões na entrada, finalmente ouviu a aproximação de Diodoro e antes mesmo de se virar para perguntar o que faria depois, ouviu um baque alto e seco que fez com que ele quase pulasse no lugar, agarrando a vassoura com força, para só então perceber que depois do miado alto, Diodoro ainda tinha caído e batido a testa no portal.

- Caralho-- essa deve ter doído. - Xavier deu com a língua nos dentes antes de pensar duas vezes. Do jeito que estava alerta para a movimentação sobrenatural na funerária, nem tinha como ter achado graça da situação. - Cê tá bem?


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Diodoro - 10-02-2021

De certa forma, se sentiu aliviado ao ouvir Xavier xingar em seu lugar, já que não se permitia fazer isso. Miro estava mal humorado, correndo para sumir pela janela tão rápido quanto teve o rabo pisado, e Diodoro apenas pode responder silenciosamente que estava bem com um aceno de cabeça que terminou de deslocar seu cérebro depois da primeira sacudida. O agente funerário pegou no portal para se levantar, mas a tontura lhe fez cair de bunda no chão antes mesmo que pudesse terminar de esticar os joelhos.

- Por favor... – pediu, estendendo a mão para Xavier para que ele pelo menos lhe desse um apoio que sabia que não lhe derrubaria. Quando estava de pé, constatou claramente com a mão fora do caminho, através do vidro escuro da entrada que sua testa tinha um imenso galo vermelho. Era apenas de se esperar. Ao menos não tinha cortado a testa. – Obrigado.

Diodoro caminhou até a mesa de trabalho, onde tinha guardado os documentos do senhor de idade que enterrariam amanhã e que agora estava deitado na sua maca na sala lá trás. Precisava achar o boleto da família dele para confirmar o caixão e alguns detalhes do velório. Assim que pegou os papéis – um maço cheio deles, com informações divididas por letra – notou que um monte grande escorregou. E em geral isso não teria problema algum, não fosse porque tinha tirado as ligas dos grupos de papel antes, e todos voaram em todas as direções, flutuando em direção ao chão e saindo, obviamente da ordem.

Diodoro respirou fundo e agachou para começar a apanhar tudo, juntando os pequenos carnês em um montinho que ainda teria que separar.


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Xavier - 10-05-2021

Xavier ainda observou enquanto Diodoro tentava se erguer, mas ele conseguiu, de algum modo, se apoiar no portal e ainda cair de bunda de novo. Daquela vez, Xavier abafou um "pff" e tentou manter a expressão composta ao observar o outro caído no chão. Ouviu o pedido de ajuda para se levantar e deixou a vassoura de lado para poder ir até ele e segurar a mão, ajudando-o a levantar quase num impulso rápido.

Ele só respondeu ao agradecimento com um aceno de cabeça e voltou a pegar a vassoura para terminar a limpeza no salão de entrada, mas mal teve tempo de chegar à porta, ouviu mais um barulho inesperado, mas pelo menos ao se virar, Diodoro não tinha caído de novo, ao invés disso, tinha derrubado uma pilha de papeis que se espalharam no chão liso da funerária, e pela quantidade, devia dar algum trabalho de juntar tudo de novo.

Enquanto Diodoro tentava juntar os papeis que tinha bagunçado, Xavier ainda olhou dele para a bagunça no chão e para a vassoura, pensando se continuava o que estava fazendo ou se parava para oferecer ajuda. Acabou suspirando e deixou a vassoura de lado para ajudá-lo a recolher os papeis, sem seguir uma ordem específica, embora imaginasse que houvesse alguma.

- A pancada na cabeça foi ruim assim? - talvez a pancada na cabeça tivesse sido forte o suficiente para ele ficar um pouco desnorteado com o que estava fazendo, quem sabe?


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Diodoro - 10-11-2021

Diodoro só podia juntar uma quantidade limitada de papéis em pouco tempo, por mais que tivesse pressa de colocar todos de volta. Porém, sendo um bom funcionário, Xavier logo chegou ao seu resgate, o que lhe deixou aliviado. Se fosse sua irmã, que costumava trabalhar ali antes, ela provavelmente teria ajudado enquanto reclamava em italiano sobre o quão desastrado era. E o pior era que nem era desastrado!

- Não... acho. – o agente funerário respondeu a pergunta de Xavier com um movimento negativo da cabeça, mas pequena como fosse a sacudidela, ainda sentiu o peso na cabeça ao se mover.

Logo pegou os carnês que tinha derrubado no chão com ajuda de Xavier e agradeceu silenciosamente enquanto juntava os últimos embaixo da mesa. Subiu assim que todos estavam na sua mão, mas calculou mal o ângulo da subida e bateu a parte de trás da cabeça enquanto saía de debaixo da mesa para ficar em pé. Ao menos essa pancada não foi com tanta força, fazendo só um “tuc” breve. Mas ela foi um sinal forte de que o dia de Diodoro não ia ser fácil.

Depois das duas pancadas na cabeça, não recebeu mais nenhuma, porém, tropeçou no carpete de entrada quando foi tentar receber um cliente, perdeu o cartão da senhora para quem iria organizar o funeral e teve que buscar um monte de registros antigos para preencher outro. Os registros caíram em seu pé enquanto tentava carregar, além da poeira ter lhe causado uma crise breve de espirros com a qual teve que atender o telefone (e se ninguém lhe escutava quando estava normal, menos ainda sendo rude e espirrando horrores ao telefone com alguém cujo familiar faleceu recentemente). Depois de voltar para a sala com o falecido monsieur Reynold – que graças a Deus não teve nenhum vazamento de formaldeído ou nada do tipo – ainda derrubou café no chão, o que era o auge da falta de limpeza para Diodoro, afinal, aquele era seu ambiente de trabalho, e se café respingasse na roupa do velho Reynold, comeriam seu couro vivo, principalmente sua mãe.

Cansado, abatido e faminto de não ter tomado um café da manhã decente, depois de limpar a sala do fundo, Diodoro só fez mais uma verificação no corpo antes de voltar para sua mesa de trabalho e verificar que estava na hora do almoço. Merecia comer algo decente, pelo menos, depois de todo o trabalho.

- Hamburguer? – perguntou a Xavier enquanto pegava o telefone para ligar para o delivery de um restaurante que gostava.


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Xavier - 10-16-2021

Xavier já tinha percebido que Diodoro não era de conversar muito, o que tanto facilitava o seu trabalho quanto tornava entediante - às vezes um pouco assustador. Não era que fosse uma pessoa exatamente anti-social, mas o agente funerário era estranho, então talvez fosse melhor só manter o relacionamento profissional estritamente silencioso. Quando terminou de ajudá-lo com a bagunça no chão, ouviu ainda o som seco da cabeça dele batendo contra a mesa quando ele tentou se levantar e o encarou com uma expressão que podia parecer muito irritada, mas era mais a preocupação com o franzir de cenho de um rosto que já era naturalmente pouco amigável.

Ele não voltou a perguntar se o agente estava bem, entregou os papeis que tinha juntado e pegou a vassoura para voltar ao seu trabalho, mas teve a atenção desviada inúmeras vezes pela série de pequenos acidentes que ainda acompanharam Diodoro o resto do dia: o tropeção no carpete, mais papeis espalhados no chão, uma crise de espirros, e provavelmente algum acidente a mais na sala em que ele cuidava dos cadáveres, porque Xavier só ouviu a movimentação quando passou pela porta fechada, dividido entre a curiosidade de olhar lá dentro e o receio de olhar os cadáveres.

Xavier terminou tudo que tinha que limpar naquela manhã bem a tempo de Diodoro voltar para mesa de trabalho a perguntar se queria hambúrguer. Só tinha entendido a pergunta muito objetiva porque ele já tinha lhe perguntado mais de uma vez desde que tinha começado a trabalhar ali. Mas, como de costume, ele já estava acostumado a levar a própria comida.

- Não, tenho meu almoço. Posso ir comer agora? - ele perguntou.


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Diodoro - 10-17-2021

Oferecia o almoço por educação, mas Xavier ainda não tinha falhado de trazer a marmita de sempre. Tinha que respeitar a marmita dele, pois a comida sempre parecia fresca e com um cheiro ótimo. O erro de não cozinhar bem como as pessoas da sua família era não poder se alimentar melhor assim. Porém, o acerto era que hamburgueres eram muito gostosos, até os do Patchdonald’s, que não eram bem “caseiros”.

Concordou silenciosamente que Xavier podia ir comer. Enquanto isso, esperou o seu hambúrguer, a fome aumentando cada vez mais. Porém, sabia que o entregador da lanchonete era rápido e não demorou mais que 15 minutos para que um garoto alucinado de bicicleta parasse na sua porta. Diodoro pagou com dinheiro, deixando o ciclista com o troco, e olhou satisfeito para a sacolinha de papel quente, com mais amor do que olhava para qualquer coisa na vida.

Diodoro colocou uma placa de fechado para almoço foi até a área por trás da recepção, onde tinha um sofá onde podia comer tranquilo. Olhou Xavier também com seu almoço na mesinha do outro lado e pegou o hambúrguer, notando como o sacode da bicicleta tinha espalhado demais os molhos. Tirou as luvas para tirar o papel que envolvia o lanche e limpou um pouco o sanduíche com o papel para tornar menos bagunçado de comer. Ainda pensou em pegar um guardanapo, mas estava com tanta fome que a vontade maior foi de morder o sanduíche primeiro.

O agente funerário segurou o pão muito satisfeito com as duas mãos e deu uma mordida, ignorando o “splish” próximo. Só que depois de muito mastigar percebeu que estava comendo só pão com molho. Então olhou para o chão, onde estavam seus pés, e o hambúrguer inteiro estava ali caído, provavelmente tinha escorregado para fora do sanduíche, e ainda por cima tinha caído com o lado do molho para baixo.

- ... – Diodoro seguiu encarando o hambúrguer caído no chão e gradativamente seu semblante ficou mais triste. Pelo visto lhe restava comer só pão com molho.


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Xavier - 10-17-2021

Xavier seguiu até a pequena sala atrás da recepção para poder almoçar, já estava acostumado a fazer a própria comida, primeiro para poder economizar, segundo para que ele e o pai não morressem de fome depois que tinham sido deixados pela mulher da casa. Ele separou a marmita farta com porções de comida bem equilibradas e organizada, o que contrariava muito a sua aparência, e se sentou à mesinha para se servir enquanto o seu chefe esperava pelo hambúrguer.

Diodoro voltou para a sala para lhe fazer uma companhia silenciosa no almoço, como já estava bem acostumado, o agente funerário não costumava falar muito e ele não insistia também em puxar conversa com o outro que era de poucas palavras. Provavelmente por conta do almoço ser tão costumeiramente silencioso que Xavier ouviu um sonoro "plaft" quando o hambúrguer de almoço de Diodoro escorregou do pão até o chão, não só fazendo uma bagunça na sala, mas deixando o agente funerário com uma expressão desolada e sem almoço.

Xavier parou de mastigar enquanto encarava o outro, demorando alguns longos segundos a processar a cena a sua frente e a situação no mínimo ridícula em que o agente funerário tinha chegado. Talvez fosse o conjunto de todos os pequenos acidentes daquela manhã, juntos à situação deplorável e a expressão desolada de Diodoro, mas antes que Xavier pudesse conter o impulso, uma risada sonora escapou aos lábios e ele não conseguiu impedir a risada de só aumentar com a desgraça alheia.

- HAHAHAHAHAHAHAHAH! - Xavier tentou inutilmente cobrir a boca, mas a única coisa que deu pra fazer foi limpar a lágrima no canto do olho com a crise incessante de riso. - Mas que... merda... que 'cê fez hoje... hahahah! Que tá tudo... dando errado? HAHAHAH! - ele podia ter tentado se desculpar no meio do caminho, mas a intenção sumiu com a risada exagerada.


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Diodoro - 10-24-2021

Diodoro até pensou em levantar e limpar o chão com hambúrguer, mas a ideia de não ter mais almoço lhe deixou tão sem energia que apenas ficou encarando a comida caída. Ainda ia dar uma mordida no pão com molho mas a risada muito indiscreta de Xavier tomou conta do lugar de forma tão repentina que quase derrubou o pão também.

Encarou o funcionário com os dois olhos claros arregalados. Ele tinha alguns humores que conhecia até então: mal humorado e assustado. Era a primeira vez que via o rapaz rir tão livremente. Não só rir, como rir da sua desgraça. Não era muito cristão dele, mas estava tão acostumado com seus irmãos tirando sarro da sua cara que a risada foi menos chocante por ser uma risada, e foi mais chocante por ser de Xavier. Até perdeu a oportunidade de devolver a piada falando que ia descontar o bom humor do salário dele.

Mas pelo menos alguém estava rindo naquela situação. Sacudiu a cabeça negativamente e deu um suspiro, sem jeito, jogando os ombros já que não tinha lá muito o que fazer. Pensou até em levantar para pedir outro hambúrguer, mas assim que se pôs de pé, a sua barriga fez um sonoro “ROOOOONC”, lhe alertando que era bom o hambúrguer novo chegar rápido.


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Xavier - 11-12-2021

Fazia um bom tempo que Xavier não ria tão abertamente como daquela vez, provavelmente por conta da série de desgraças que tinha acontecido desde sua chegada a Cerise, então a situação muito ridícula de seu mais novo chefe foi a gota d'água para fazer com que se rendesse ao momento de descontração. Ele nem pensou que a falta de modos com o chefe podia lhe custar o emprego, mas o que importava àquela altura? Ele riu tanto e com tanta vontade que nem se esforçou em segurar.

Só quando a crise de riso diminuiu e ele limpou o canto do olho foi que Xavier, calado como o conhecia desde que tinha começado a trabalhar ali, se levantou para, o que Xavier imaginou, pedir mais comida? E foi o suficiente para que o som da sua risada fosse substituída por um "roonc" sonoro do estômago dele, e se só o hambúrguer caindo tinha sido motivo da risada de Xavier, ele não conseguiu conter a vontade de rir de novo com o som da barriga.

- Hoje não tá pra você, hein. - ele disse, puxando a tampa da sua marmita e separando partes iguais das porções de comida que ele tinha feito para si mesmo. Era bastante comida, como já estava acostumado, então não parecia um problema dividir em duas. Não era um prato também, mas era o que tinha em mãos. Ele terminou de separar tudo e estendeu a tampa cheia de comida para Diodoro. - Não é seu hambúrguer, mas dá pra matar a fome. Só não tenho mais talheres, cê tem algum por aí que não seja pra cortar morto?


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Diodoro - 11-15-2021

Geralmente Diodoro não ficava com vergonha da própria falta de sorte, afinal, a vida toda tinha sido o irmão com quem toda a família descontava a vontade de falar mal; também não era o tipo sortudo ou cheio de vida; enfim, era difícil que se sentisse constrangido por alguma coisa. Tanto era assim que a primeira risada de Xavier lhe surpreendeu mais por ser de Xavier do que por ser uma risada. Porém, quando ele reafirmou que não estava sendo um dia fácil, até ficou um tanto consciente de que era seu funcionário recém-contratado que estava lhe falando isso, e que toda a situação era um pouco patética demais até para Diodoro, que suspirou longamente, resignado.

Porém, Xavier começou a tirar comida da própria marmita e colocar na tampa, e antes que percebesse, ele tinha oferecido parte de seu almoço para Diodoro. Talvez para ele, fosse apenas um gesto de boa índole, mas para um franco-italiano faminto, cuja comida era uma forma de expressar familiaridade, o gesto era quase comovente. Exceto, claro, que o agente funerário só demonstrava a surpresa na cara, e olhe lá.

Respondeu silenciosamente que sim e então foi até a outra sala buscar alguns talheres que usava para comer as marmitas que pedia para a funerária, sentando-se a mesa com Xavier.

- Eu lavei. – falou, erguendo de leve a faca, implicando que tinha usado para cortar um morto em algum ponto da vida. Mas era mentira claro. Uma piada do bom humor que tinha se reestabelecido com a solidariedade do funcionário. – Obrigado. Mesmo. – agradeceu, pegando um pouco da comida oferecida a si, comendo bastante satisfeito.


RE: Rir é pecado? [Xavier] - Xavier - 11-16-2021

Xavier estava acostumado com as poucas palavras de Diodoro, então depois de ceder parte da sua comida para ele, o agente funerário saiu da sala para pegar os talheres. Xavier voltou a se servir e foi em tempo de vê-lo voltar e anunciar que tinha lavado a faca. A resposta automática de Xavier foi engasgar na comida e tossir algumas vezes, acreditando que ele tinha mesmo usado a faca para cortar os mortos e só tinha "lavado" para comer com ela.

- Você vai mesmo usar isso pra comer?! - ele perguntou, indignado e surpreso ao mesmo tempo, até ignorando o agradecimento alheio, porque perdeu a vontade de continuar comendo. - Eu não tô aqui faz muito tempo, mas cê sempre come essa comida de delivery? Cê não cozinha não? Ou tem alguém pra fazer sua comida?

Daquele tempo todo em que estava trabalhando na funerária, a conversa mais longa dos dois provavelmente tinha sido antes mesmo de ser contratado, com todo o desentendimento no cemitério, na cova, com o pé machucado e a sua tentativa de achar outro emprego depois de deixar o trabalho no porto. Talvez não devesse esperar alguma resposta produtiva de Diodoro, então voltou a se servir, olhando torto para a faca que ele usava nos cadáveres antes de continuar comendo.