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[Drive][14 anos] Rasuras do Passado [Lilú (17 anos); Jade (15 anos)] - Printable Version +- Academia St. Clavier (http://academiastclavier.com.br) +-- Forum: Registro (http://academiastclavier.com.br/forumdisplay.php?fid=7) +--- Forum: Lixeira (http://academiastclavier.com.br/forumdisplay.php?fid=92) +--- Thread: [Drive][14 anos] Rasuras do Passado [Lilú (17 anos); Jade (15 anos)] (/showthread.php?tid=101) |
[Drive][14 anos] Rasuras do Passado [Lilú (17 anos); Jade (15 anos)] - Lil - 08-29-2021 Lilú
O tempo era algo que Livié não gostava de prestar atenção, normalmente se não tivesse nenhum compromisso de manhã seu dia começava no horário da tarde e seguia noite adentro de serviço em serviço até ter o dinheiro pra tocar as contas. Mas sua vida estava virando de novo, naquelas voltas estranhas que parece que está melhorando, mas não dá pra confiar porque quando a esmola é demais o santo desconfia. Depois de ter sido “apadrinhada” e agora ser uma funcionária do cabaré Cordeliers tinha novas obrigações, que incluiam ter de prestar contas a mulher que lhe dava um teto e comida. Não era de todo ruim, pensar que mesmo em um dia de trabalho ruim, ainda teria comida, e uma cama lhe esperando. Porém, não estava nem perto de se acostumar a ter alguém mandando e dizendo o que fazer e em quê trabalhar. Não era novidade a mais nova entrar em algum atrito com sua madrinha, por qualquer motivo que fosse, a verdade era que Lilú era uma adolescente geniosa, como todo jovem é, e a cafetina estava bem acostumada a por toda essa personalidade na linha. -- Eu já disse o que aconteceu, o que mais você quer? um documento em duas vias com tudo registrado em cartório?! -- Lilú abriu a porta da sala, entrando na mesma, sendo seguida de perto pela cafetina que a encarava com um olhar estreito: -- Um pouco de respeito? E abaixe o tom de voz, não está falando com um marginal de rua aqui. -- a mulher fechou a porta atrás de si, mas não se sentou e continuou encarando a mais nova, que mesmo sendo mais nova, já era mais alta e não dava pra olhar ela de cima. -- Eu não sei onde eu to sendo desrespeitosa, eu só não entendo porque tô levando sermão como se fosse uma criança. -- a loira se encostou a uma das mesas e cruzou os braços. -- Estamos conversando como duas pessoas adultas, mas se você acredita estar levando um sermão, quem está te colocando na posição de criança é você mesma. -- a mulher mais velha, caminhou em passos lentos ao até próximo da loira mais nova: -- você tem noção das coisas que faz, e sabe que tem liberdade até certo ponto, e isso só existe com um acordo entre mim e você, se começar a fazer as coisas cruzando essa linha você perde liberdade. -- O outro sujeito lá que deveria tá escutando essas merd-...!-- antes que pudesse terminar a sentença Lilú teve o rosto apertado firmemente entre os dedos magros cheio de anéis, e foi forçada a encarar a mulher mais baixa, que não teve nenhuma alteração em sua expressão. -- Eu acolhi você, e não o outro sujeito, por isso que é você que tem de me prestar contas do que faz e não ele. Se ele morrer numa vala eu não ligo, mas se você sumir porque tá procurando briga, aí é da minha conta. -- talvez fosse o fato de Lilú saber que aquela preocupação não era infundada, que isso lhe deixasse mais irritada, sabia que tinha pisado na bola com o cliente e ter batido boca e resolvido chutar ele por dois quarteirões certamente não seria bom pra reputação do cabaré, só não contava que o infeliz fosse capacho de traficante e isso pudesse gerar alguma consequência pra mulher, não queria admitir nada daquilo, sabia que se fizesse alguma merda quem pagava era ela, mas agora tinha de se preocupar porque as coisas que fazia atingiam outras pessoas. Lilú deu um tapa com as costas da mão contra a mão da mulher, se desvencilhando a pegada firme: -- Eu entendi, eu sei que fiz merda, você quer o quê? um pedido de desculpas formal? Desculpa, satisfeita? -- Não. -- a mulher devolveu um olhar de reprovação: --Não adianta manter a pose arredia principalmente quando você já admitiu sua culpa. -- Olha aqui, você não é minha mãe pra tá me cobrando tudo isso não, eu trabalho pra você, e trabalho bem, e é isso! -- É justamente porque eu não sou sua mãe, que eu posso lhe ajudar aqui do lado de fora não é? -- as palavras foram certeiras e tiraram da mais nova, muito mais reação fazendo-a bater contra o tampo da mesa: -- O que você acha que pode falar dela ein? -- Lilú rosnou de volta, com os dentes cerrados. -- Nada, só que ela não está aqui, e nem vai estar pelos próximo anos ou pra sempre, perpétua não quer dizer pra sempre? Você estudou mais que eu, deve saber. -- a mulher mais velha, depositou a mão sobre o tampo da mesa e encarou Lilú de baixo pra cima: -- Eu não vou ficar lhe adulando Lilú, você não vai ser mimada aqui, não vai fazer o que quer e quando quer, siga as minhas regras e receba em troca liberdade e autonomia, escolha não seguir e pode ir embora. A loira mais nova abriu e fechou a boca, mas não falou nada, desviando o olhar e acenando positivamente: -- Desculpe por isso madrinha… não vai… não vai acontecer de novo…! A mulher mais velha apenas respirou fundo, encarando aquilo, e olhando sobre a mesa no cinzeiro onde deveria estar sua piteira e não estava, torcendo a expressão em desagrado: -- Muito bem, eu preciso de um cigarro agora, e você não dê as caras lá fora hoje de noite, tire o restante da noite de castigo pra pensar no que fez. A mulher fez passos curtos e alinhados pra fora da sala deixando Lilú ali, como se fosse uma criança numa sala de castigo com um chapéu de bobo na cabeça. Jade
Já fazia dois anos que Qadir tinha chegado a Cerise e sua vida tinha mudado consideravelmente. Ele até conseguia acompanhar a passagem dos meses e dos anos e saber exatamente há quanto tempo estava na cidade, o que era um bom começo. Também podia sair na rua de dia, receber um pouco de luz do sol, se acostumar pouco a pouco com o idioma novo e aprender tantas outras coisas no lugar em que Zazou tinha lhe deixado. Havia muitas mulheres mais velhas no Cabaré, e todas de lugares diferentes, falando línguas diferentes e se comportando de jeitos diferentes. Mas o mais diferente de tudo era que elas faziam o que Qadir era obrigado a fazer antes, para seus donos anteriores, como escravo sexual, e algumas delas pareciam gostar daquilo. Algumas vezes, Qadir até achava que as mulheres estavam no controle da situação, como ele nunca estivera. E aquele cenário lhe deixava curioso. Ele não tinha do que reclamar das mulheres do bordel, algumas eram mais pacientes, outras não ligavam para a sua presença, outras lhe usavam até de boneca. Pouco a pouco, aprendeu a falar como elas, agir como elas, se sentir mais confortável assim como as prostitutas do local. Qadir ainda dependia muito das mulheres e da madrinha, que era a pessoa que mais se importava com ele, assim como Zazou que aparecia de vez em quando. Ultimamente, estava começando a ter certeza de que quanto mais aprendesse com as mulheres da casa, mais poderia retribuir a ajuda que tinha recebido, e uma vez ou outra, até se arriscava a aparecer no bar num horário avançado, o que chamava a atenção de alguns clientes, mas que irritava e muito a madrinha. E era por isso que tinha sido mandado de novo para o escritório dela, porque tinha aparecido sem permissão, tinha falado com clientes, e estava prestes a receber um longo sermão. Mas Qadir gostava dos sermões, os sermões significavam que ele não tinha que levar mais surras. E ele lembrava, agora sabia contar: fazia dois anos que não levava uma surra. Esperando no escritório da madrinha, ele ficou sentado comportadamente diante da mesa, olhando para a profusão de informações desde os pôsteres bonitos na parede até as fotos antigas da madrinha com pessoas que ele não conhecia, algumas estatuetas e decorações na mesa cheia de papeis e com um abajur decorado com formas curvas e delicadas. Já tinha estado ali mais vezes do que podia contar, e sempre parecia ver uma coisa nova. E embora não fosse algo novo, os olhos desviaram curiosos para a piteira enfeitada que a madrinha sempre usava e que descansava no cinzeiro com algumas cinzas e bitucas de cigarro. Já fazia algum tempo que ele estava esperando. Dez minutos? Trinta? Uma hora? Qadir olhou para os lados e se levantou da cadeira, dando a volta na mesa e pegando a piteira para olhar mais de perto. Era só uma olhada por curiosidade, afinal, a madrinha estava sempre usando, e estava sempre bonita… ele tentou segurar o objeto entre os dedos longos do mesmo jeito que lembrava dela segurar, moveu a mão, procurou um reflexo seu numa bandeja de prata que estava na mesa atrás com copos de vidro e conhaque. Até tentou imitar o gesto da madrinha levando a piteira a boca, mas foi bem nesse instante que ouviu vozes alteradas e o som da porta se abrindo com força lhe fizeram quase se jogar no chão, debaixo da mesa, em uma posição fetal que não era tanto pelo fato de ser pego testando a piteira, mas por uma resposta já condicionada àqueles barulhos e vozes… dois anos atrás, significaria mais uma surra. A surra não veio, certamente, mas o tempo de Qadir se acalmar do susto, restando apenas o tremor na mão enquanto segurava a piteira com força entre os dedos, foi o tempo também de processar um pouco da conversa, no francês que ele já tinha se acostumado a entender muito bem e falar com um sotaque forte. Não conseguiu evitar de ouvir toda a conversa, identificando a voz da madrinha e uma voz feminina que era nova e ele talvez só tivesse ouvido uma ou duas vezes até então. Não sabia se devia sair e se anunciar, ou se devia continuar onde estava, mas a impossibilidade de se mover do susto inicial fez com que ele se resignasse a se esconder mais debaixo da mesa e esperasse a tempestade passar. Não queria ter ouvido a conversa, mas não teve como evitar. A última voz na sala foi da madrinha, e Qadir olhou no chão, e a piteira em sua mão, incerto se deveria sair finalmente debaixo da mesa ou não. Alguns minutos passaram quando ele resolveu ao menos se mover, engatinhando para fora do esconderijo, e se arrependeu logo da decisão, os olhos pousando sobre os pés femininos que não eram da madrinha. Lilú
Odiava aquela sensação de quem tinha pisado na bola, era fato que tinha sido sua vez de ser a pessoa idiota na situação, e detestava o fato da mulher estar certa sobre si, e que devia a ela muito mais respeito do que de fato demonstrava. Mas odiava ainda mais a sensação de que ela lhe lembrava demais sua mãe, e estar fazendo coisas que sua mãe de verdade reprovaria, saber que ela está lá por sua casa, e que não tinha nada que fizesse que pudesse mudar aquilo. Chegava a ter dor de cabeça, e se perderia em loop de pensamento negativos, se não tivesse notado a movimentação debaixo da mesa. Deu dois passos se afastando o suficiente pra ver que de fato tinha uma pessoa de baixo da mesa, e aquilo lhe fez o sangue subir, porque a última coisa que ela queria, era justamente que algum dos bisbilhoteiros do cabaré soubessem sobre sua vida, e isso virasse uma bola de neve de fofocas: -- Seu bisbilhoteiro safado! o que diabos você estava fazendo aí? -- a loira falou entre dentes, com o tom furioso, estava quase se abaixando para pegar o garoto pela camisa e sacudir, mas la no fundo da sua mente, já tinha vacilado com a madrinha o suficiente para uma vida, não ia descer os chutes no garoto, embora a sua vontade imediata fosse essa: -- Vamos saia daí de uma vez! Se ele não saísse ela certamente arrastaria ele pra fora, arrastar não configurava agressão não é mesmo? Jade
Qadir até tinha aprendido muito bem o francês naqueles últimos dois anos morando em Cerise, além de aprender algumas coisas de idiomas de outras garotas do bordel, mas a mistura do nervosismo com a intensidade da reclamação que ele ouviu da loira que lhe flagrou debaixo da mesa fez com que esquecesse completamente como entender o idioma. Mas ele não precisava entender o idioma para saber o que ela queria. A reação automática de Qadir foi encolher os ombros e se afastar mais, tentando se defender, porque até tinha aprendido um pouco de auto-preservação nos últimos anos. Ele segurou a piteira com força entre as duas mãos como se o maior problema também fosse manter a peça intacta, já que não era sua e não devia estar mexendo nela. Não tinha entendido as primeiras palavras da reclamação da jovem, mas a frase que se seguiu foi bem firme e ele fez sentido das palavras em francês lhe mandando sair debaixo da mesa. Qadir já estava acostumado ao tom autoritário, e mesmo quando não entendia as ordens, era sempre muito simples: se ele se afastava, sofreria muito mais depois; se ele se aproximava, sofria menos, mas na mesma hora. Ele finalmente saiu debaixo da mesa e ficou de pé de frente para a mulher que era bem mais alta que ele - o que não era difícil com o seu corpo pequeno e magro ainda em crescimento -, manteve a cabeça baixa, os ombros encolhidos e o corpo estava notavelmente trêmulo, um tremor que se espalhava partindo das mãos que apertavam a piteira. Ele devia se desculpar? Devia oferecer algum serviço? Chamá-la de senhora? Entre as inúmeras alternativas que surgiram em sua mente, ele só conseguiu abrir e fechar a boca algumas vezes, sem pronunciar nada. Na dúvida, era sempre melhor ficar em silêncio. Lilú
A demora do garoto de acatar o que tinha acabado de falar, lhe dava a ideia de que o moleque estava fazendo birra, e por isso começou a bater o pé contra o piso de forma impaciente. No entanto, o conjunto de reações dele lhe deixavam num misto de sentimentos, porque sabia por alto que ele era um moleque de vida desgraçada que a madrinha tinha posto debaixo da asa, mas ao mesmo tempo, tinha aquela impressão de que ele era apenas um guri mimado pela mulher mais velha. E embora em outros dias fosse uma pessoa mais condescendente com o sofrimento alheio, naquele dia em específico diante das coisas que tinha acabado de falar, se sentia exposta demais pra ficar de boas e deixar passar: -- Qual é o seu problema? Não vai falar nada? -- A loira comentou com tom irritado na fala, e cruzou os braços pra não ficar com as mãos livres e querer sacolejar o menor diante de si: -- O que você tava fazendo debaixo da mesa, ein? O fato dele estar com um objeto da madrinha em mãos lhe dava a impressão de que ele estava aprontando, embora o objeto se fosse vendido não valesse tanto dinheiro, pegar algo e se esconder era justamente o que um batedorzinho de carteira faria. Jade
Qadir até tinha aprendido a lidar com a madrinha, com a maioria das meninas do bordel que estavam lá desde que ele tinha chegado. Mas era muito ruim para lidar com pessoas novas, mais ainda pessoas novas alteradas. Quando a loira se impôs com uma voz ainda mais intensa perguntando qual o problema e se ele não ia falar nada, a sua resposta foi quase automática. - N-não senhora! - foi a primeira coisa que ele fez sentido em responder, os olhos fechados com força esperando pela surra que não veio. Ele arriscou abrir os olhos para ver que ela tinha cruzado os braços, e lhe perguntou o que estava fazendo debaixo da mesa. Qadir ainda a encarou de baixo para cima, incerto se devia responder ou não, mas apertou mais a piteira que era da madrinha em suas mãos e engoliu em seco, finalmente abrindo a boca para dar alguma satisfação. - Eu estava… esperando. E eu peguei pra ver de perto e… ouvi os gritos e… eu não queria apanhar. - era outra coisa que tinha aprendido também: era melhor responder quando era questionado, mesmo que não entendesse o idioma. Lilú
O fato do moreno menor com certeza não entender bem seu francês por ser um garoto gringo, deixava Lilú ainda mais impaciente com aquela situação, porque parecia que ele levava o dobro do tempo pra entender mesmo que fosse uma frase simples e direta. O fato dele lhe chamar de “senhora” também não lhe deixava nada feliz, embora parecesse sinal de respeito, para a loira aquilo era apenas ressaltar que parecia muito mais velha que ele, não tinha a aparência como a da Madrinha pra ganhar alcunha de “senhora”. Manteve os braços bem cruzados mas estava tão impaciente que começou a bater o pé no chão repetidas vezes, não fazia ideia do quanto aquele menino tinha ouvido da conversa, e o quanto ele tinha entendido, tinha dito e ouvido coisas muito pessoais pra simplesmente deixar passar. E novamente, mesmo sendo uma pergunta simples o menor parecia demorar muito mais tempo para processar o que tinha falado, do que deveria, fazendo com que a loira mais alta inconscientemente apertasse mais o próprio braço, demonstrando mais abertamente que estava inquieta. E quando finalmente veio algo do moreno mais novo, uma resposta incompleta e evasiva, estava acostumada demais a lidar com maloqueiros de rua pra saber quando alguém estava querendo “tirar o corpo fora” de uma possível bronca: -- “Esperando” pelo quê? Você aprontou alguma coisa ou estava aprontando, ein? -- o tom usado foi plenamente acusativo, embora dito pausadamente, para que o menor entendesse muito bem o francês que dizia: -- Se você não fez nada de errado devia ter avisado que estava na sala. E não se esgueirar como um rato, entende? como um ratinho se escondendo debaixo dos móveis como se um gato tivesse entrado na sala. A menos que você tivesse intenção sim, de ouvir o que estávamos conversando, e quisesse fazer fofoca das coisas que ouviu. Lilú sentia um misto de sentimentos, porque além de ter vacilado com a madrinha, e agora acontecimentos do seu passado poderiam simplesmente virar fofoca na boca de um garoto qualquer. A loira sequer percebeu como sua postura estava muito mais agressiva e impaciente do que antes, a ponto de se inclinar na direção do mais baixo, e lhe falar mais de perto: -- O que foi que você ouviu? Vamos lá, diga! Jade
A postura da loira, se possível, parecia mais ameaçadora, mas depois de um par de respostas, ela ainda não tinha lhe batido, o que era uma coisa boa e fez com que Qadir engolisse em seco, mais seguro de que não ia acabar jogado num quarto pequeno e escuro com muitas dores no corpo. - Eu esperando… pela madrinha! - Qadir se adiantou em responder, para tentar justificar que não estava esperando para ouvir a conversa. - E-ela... m-me pediu... pra esperar aqui... - adicionou com a voz se perdendo no caminho, porque ela parecia muito focada em reclamar do jeito que ele tinha se escondido, mas não podia evitar, alguns velhos hábitos não mudavam. - E-eu não queria ouvir, nem esconder... eu só... não sou bom com barulhos e gritos. O que não era inteiramente mentira, até porque, o som estridente da porta se abrindo junto com as vozes alteradas foi o que fez com que seu corpo reagisse automático para tentar se esconder e se proteger. E quando a loira se inclinou em sua direção e insistiu na pergunta sobre o que tinha ouvido, até sentiu como se o sangue todo tivesse descido para os pés. Tinha péssimas lembranças daquele tipo de tom. - T-tudo... eu ouvi tudo… d-desculpe. - ele respondeu, tremendo da cabeça aos pés, a ponto das juntas dos dedos ficarem um pouco esbranquiçadas do esforço em segurar a piteira. Lilú
Estava plenamente impaciente, e a forma quebrada com que o menor lhe respondia não ajudava a ter mais paciência, ainda assim esperou que ele falasse pedacinho por pedacinho, o que estava fazendo ali justamente naquele horário. No entanto quando o menor afirmou que tinha sim, ouvido tudo que tinham conversado, foi impossível conter o ímpeto de acertar o menor, porém, ao invés de estapear-lo como faria a um adulto bisbilhoteiro, a loira o tratou como faria com um maloqueiro menor fofoqueiro, e segurou-lhe pela bochecha, fechando os dedos com firmeza na pele escura, e forçando-o a encará-la diretamente: -- Ah então você escutou toda uma conversa particular que não era da sua conta! sabe como a gente chama isso em francês? oreille indiscrète! -- A mais velha não o soltou tão logo, o encarando intensamente com os olhos castanhos, e embora estivesse com muita raiva por diversos motivos, tinha de garantir que aquele menino franzino, que mal falava francês, não desse com a língua nos dentes sobre sua vida pessoal : -- Você tem de se considerar com sorte que fui eu que te encontrei aqui. -- Lilú não era o tipo de pessoa que iria espancar um garoto bem menor e mais novo que ela, porém, isso não significava que deixaria a situação passar, e que não ensinaria um ponto importante naquela vida que tinham, nem que fosse na base de uma leve chantagem: -- Preste atenção no meu francês, e eu vou falar devagar pra você entender, imagine, só imagine, se a madrinha descobre que justamente, você, uma pessoa que ela ajudou, estava se escondendo e bisbilhotando as conversas? Porque independente do motivo, você ficou calado alí em baixo ouvindo tudo que foi falado. Já pensou se não fosse eu? Se ela estivesse falando com um traficante? ou um Policial? -- Não estava mentindo naquele ponto, se for pra ficar curiando as conversas alheias tem de fazer aquilo sem ser descoberto no final, o semblante fechado da loira não deixava margem pra dúvidas, ela estava falando muito sério ali, independente da raiva que sentia: -- Você não quer ferrar a madrinha não é? Nenhum de nós quer, porque todos nós devemos muito a ela, tanto você quanto eu... Lilú soltou o rosto do mais novo e se afastou um passo para dar-lhe espaço, sabia que o apertão doeria por algum tempo, mas era melhor uma bochecha dolorida, do que a ideia inicial da loira de dar-lhe uma surra: -- Eu sou Livié, mas ninguém me chama assim, todo mundo me conhece como Lilú, qual o seu nome? Jade
A expectativa de levar uma surra não se tornou realidade, quando a loira se aproximou, ela estendeu a mão na direção de seu rosto, mas ao invés de um tapa, Qadir sentiu os dedos dela apertarem a sua bochecha com força, puxando o rosto para encará-la de volta. Qadir até abriu a boca, pronto a soltar uns "ai, ai, ai" involuntários, mas ele engoliu a resposta e ouviu a reclamação. Bom, ele certamente não discordava que estava com sorte, era bom ter feito algo errado e só levar um beliscão na bochecha ao invés de levar uma surra de chicote. Mas ela não soltou logo a sua bochecha e adiantou que ele estar escondido ali seria um péssimo problema para a madrinha, caso a pessoa com quem ela entrasse na sala fosse alguém perigoso. - Se eles não tivessem entrado gritando... - o garoto deixou o comentário escapar com a voz muito baixa, e talvez levasse uma surra mesmo, já que seu comentário implicava que ele só tinha se escondido por causa dos gritos e o barulho na porta. Mas ele respondeu num tom mais firme quando ela perguntou sobre querer dar trabalho à madrinha. - Não quero! Ela é boa comigo... diferente dos outros donos. Só então que ela lhe soltou a bochecha e ele alisou o rosto moreno, encarando-a de baixo ainda de um modo desconfiado mas menos temeroso. - Qadir... - ele respondeu o próprio nome. Lilú
A resposta imediata tentando se justificar fez com que Lilú ficasse brava, não era possível, ele era jovem, mas não podia ser tão ingênuo? Numa situação dessas mesmo com todo o problema o melhor era pedir licença e sair de perto das pessoas que falam alto. A loira rodou os olhos descrente, afinal ele não era tão novo, era bem mais baixo que ela, com certeza, mas a maioria dos garotos naquele idade eram, ao menos ele não parecia ter muito mais que uns 13 anos. E claro que citar a Madrinha na conversa mudava completamente a postura do rapazinho, e se perguntava porque a própria Madrinha tinha posto debaixo da asa um menino desses, mas também se perguntava porque ela tinha estendido a mão para ela, afinal Lilú era uma encrenqueira que mais causava dor de cabeça, no fim das contas, não podia julgar nenhuma decisão da mulher. Depois de ouvir o nome do rapaz, a loira ergueu a mão e deu um cascudo no topo da cabeça do menor, como faria com um moleque qualquer de sua rua que estava furtando os vizinhos. O objetivo não era doer, afinal já tinha descontado a raiva no beliscão da bochecha, o cascudo era mais como um aviso: - “Se eles não tivessem entrado gritando…” - a mulher fez uma voz infantil buscando imitar o tom do menor: - você acha mesmo que isso serve pra convencer alguém? Olha onde a gente tá, as pessoas aqui falam alto, as vezes berram mesmo, e você tentar se justificar assim, ao invés de só admitir que fez besteira, e digo mais, isso deixaria a madrinha ainda mais irritada, acredite Qadir, eu sei. A loira respirou fundo e pôs as mãos na cintura, buscando agora dois centavos de paciência, para tentar ao menos garantir que o mais novo não sairia por aí fuxicando seu passado para as outras meninas: - Vamos fazer assim Qadir, você não comenta com ninguém sobre o que ouviu hoje, principalmente sobre a minha vida, e eu não falo pra madrinha que você estava mexendo nas coisas dela. A loira encarou o mais novo, com os olhos castanhos estreitos, parecendo menos aborrecida do que no começo de toda aquela conversa, mas ainda assim havia irritação no seu rosto: - Se eu ouvir de alguma das outras meninas o que foi falado aqui hoje, eu vou saber que foi você que contou, porque a Madrinha não fala do passado de ninguém, por isso eu não sei nada sobre você. Obviamente as meninas mais velhas já deviam saber alguma coisa, mas ela como uma novata de poucas semanas, ainda tinha muita gente pra conhecer e muitas histórias pra ouvir. Mas tão certo como o dia é dia e a noite é noite, Lilú não queria contar a sua própria história pra ninguém ali. Jade
Qadir passou a mão na bochecha depois que ela lhe soltou, mas ela não deixou o seu comentário baixinho passar despercebido. E no instante seguinte, ele sentiu um cascudo no topo da cabeça que lhe fez levar as duas mãos para o local atingido, uma delas ainda segurava a piteira da madrinha. E ele estava bem preparado para ouvir o resto do sermão, mas nas palavras que vieram a seguir, ele sentiu algo não clicar na cabeça. A mulher a sua frente não era uma figura conhecida, e ele morava no bordel há muitos anos. Ele conhecia a maioria das meninas, algumas até lembravam aquela loira, e ele sabia que ela devia ser nova. Mas ainda assim, ela falou com um ar tão entendido da mulher que tinha lhe acolhido numa situação cruel, que ele sentiu o rosto esquentar, não de vergonha, mas de irritação. Ele mordeu o lábio inferior, sabia que não era para reclamar de volta, mas as palavras que vieram depois da jovem que parecia ter se acalmado não fizeram muito sentido em seus ouvidos. Ele não conseguiu evitar se sentir irritado com o jeito que ela tinha falado, como se fosse muito experiente, como se soubesse de tudo melhor que ele, e depois que percebeu que ela tinha parado de falar, ao invés de só assentir que não contaria nada para ninguém, a resposta na ponta da língua saiu antes que ele pudesse evitar. - Eu não fiz besteira! Eu estava aqui porque a madrinha me mandou esperar aqui! E eu não posso evitar quando eu não consigo ficar quieto ouvindo um grito ou um barulho alto! - ele respondeu num fôlego, o francês se enrolando em suas palavras, saindo com um sotaque muito forte puxando para a sua língua mãe. - Você não sabe de nada da madrinha! Você chegou agora e acha que entende as coisas, mas você é só uma menina nova igual as outras que vão e vêm e só deixam a madrinha irritada porque ficam fazendo as coisas erradas que dão mais trabalho pra ela! Eu que conheço a madrinha antes de você! Eu ia fazer tudo certo se ela deixasse!!! Você não sabe nada que deixa ela irritada nem que deixa ela feliz, não sabe nada!! Qadir trincou os dentes, segurando agora a piteira entre as duas mãos com tanta força que parecia capaz de quebrar o objeto pequeno. Mas ele manteve o olhar voltado para a loira a sua frente, mais decidido do que tinha sido até então. E se fosse pra levar um tapa por defender a madrinha, ele não se importaria de sentir a surra. Já tinha passado por coisa pior mesmo. Lilú
Esperava só que o menino entendesse o seu ponto, e pudessem fechar um acordo, talvez fosse esperar maturidade demais de um garoto aparentemente tão jovem e bobo, nem sabia de onde a madrinha arrumava aquelas pessoas, mas era fato, que ela atraia gente estranha pra si. A surpresa da loira foi até pontual nas sobrancelhas arqueadas diante da reação mais forte do rapazinho, ele parecia ter ficado irritado por ter dito que conhecia a madrinha, e a forma repetitiva como ele repetia que a conhecia e como sabia de tudo, e etc, etc, até parecia que ele estava enciumado por ter dito que conhecia a mãe dele melhor que ele. A loira não teve outra reação senão rir, afinal, aquele comportamento e irritação eram até engraçados: -- Nossa! Perdoe a risada, mas é porque agora dá pra entender porque a Madrinha continua te criando, no final você tem alguma “fibra”, e não é só um menino assustado que mal fala francês. -- a loira tomou um ar, porque a irritação infantil do outro era certamente divertida: -- Sim, eu vim trabalhar no bordel faz pouco tempo, mas eu já conhecia a madrinha, não sei a quanto tempo você tá na França, então não dá pra dizer se eu conheço antes de você ou não. - A loira apontou aquilo, com muito mais tranquilidade: - E sim também, eu fiz raiva pra ela, por isso eu ouvi por isso hoje, eu não preciso mentir ou esconder que fiz besteira. Eu admito as merdas que eu faço. - A loira repousou uma das mãos na cintura ainda olhando de cima pro menor: -- Já você, barulho alto continua não sendo desculpa, e não muda o que aconteceu. O fato é que você se escondeu e ouviu o que não deveria. E pior, nem quer admitir que isso é uma besteira. - Deu de ombros, agora com uma expressão de riso ao invés de irritação, em verdade, estava até provocando um pouco o rapaz, era um lado ruim da sua personalidade, mas ninguém é perfeito. Jade
A risada da loira a sua frente não lhe deixou nada mais feliz com aquele ar de quem achava que entendia mais do que ele. Não fosse a pele morena, certamente àquela altura já estaria vermelho de raiva até as orelhas. E nem melhorou o ânimo quando ela disse pra "perdoar a risada" e que ele tinha fibra, só ficava com mais vontade de dizer que ela não sabia nada. E que não conhecia a madrinha antes dele, claro, nem quando ela disse que já a conhecia há muito tempo. Ele também estava na França há muito tempo, e se nunca tinha visto a loira, ela não era importante, não como ele. E o jeito que ela continuava falando muito entendida só lhe deixou mais irritado, principalmente quando falou com aquele ar de que admitia o que fazia, diferente dele, que tinha se escondido, e que o fato de ter se assustado com o barulho não era desculpa pra nada. - Você não sabe nada de mim pra falar assim! - ele reclamou. - E eu não escondo nada da madrinha, nunca, se você quer saber! Eu mesmo posso dizer pra ela o que eu fiz, sem esperar que ela descubra pra me dar bronca depois. Qadir adicionou, e sem nem esperar uma resposta da loira, ele passou por ela, contendo muito a vontade de esbarrar nela no caminho para sair da sala. Ela se achava tão importante porque admitia as coisas pra madrinha? Ele também fazia aquilo e não precisava de ninguém pra dizer como ele tinha que falar com ela. Sem nem pensar muito, ele saiu pisando duro da sala, fechando a porta com um barulho alto ao passar, e ainda levando a piteira da madrinha, podia provar que era melhor do que a menina desobediente. [thread encerrada] |