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[Drive] Little Knight [Ludwig; Karen] - Lil - 08-29-2021

Ludwig

Desde a visita de sua mãe, em que tinha sido motivado a dar várias voltas pela cidade para apresentar Cerise a ela (e ensiná-la a andar de ônibus também), Ludwig percebeu que haviam alguns lugares que não visitava há algum tempo. Com a câmera em mãos, decidiu dar uma volta na cidade naquele sábado longe da academia, pronto para tirar fotos de lugares que não teve tempo de mostrar a mãe, e o primeiro que pensou foi um parque mais amplo em um bairro próximo a St. Clavier.

O parque lhe trazia boas lembranças. Para começar, ele tinha um belo canteiro de flores perenes bem organizado. Depois, tinham os insetos, que eram esquisitos, mas fascinantes, principalmente as borboletas que rondavam as flores por ali. Terceiro porque bem lembrava de sua interação com Karen há muito tempo, em que tinha sido desrespeitoso de tentar tirar uma foto dele.

Deu uma volta pelo parque até encontrar algumas ervas daninhas bonitas que deixavam a grama parecendo um buquê. E enquanto não eram as fotos de ação que gostava de tirar, sua mãe iria gostar muito. Só parou quando ouviu vozes a distância, lhe chamando atenção para três garotos que não deveriam ter 9 anos ainda, falando bem animados, um deles carregando um graveto que brandia de um lado a outro.

- É com isso que a gente vai acordar o gigante! – ele falou valente.

- A gente não devia fazer isso...! – um deles, mais magrelo, falou, acovardado.

- É por isso que você não tem graça! – um loiro empurrou o rapaz magro, que empurrou ele de volta berrando um “eu tenho sim!”.

Ludwig virou o pescoço para ver até onde eles iam, notando que os três praticamente cercaram uma figura conhecida sentada abaixo de uma árvore: Karen. Se animou para ir atrás do adulto conhecido, mas notou que era para lá que os meninos estavam indo. Se aproximou por trás deles, que mal deram atenção para si, isso até Ludwig notar que o líder dos três estava tentando esticar o graveto para acordar Karen com uma cutucada. Antes que percebesse, segurou o menino pela camiseta, puxando apenas para que ele parasse de tentar.

- N-Não pode fazer isso. É falta de educação... – tentou argumentar, mas o tom pouco firme não ajudava muito.

Karen

Karen já tinha se acostumado tanto a voltar para Cerise e descansar dos seus trabalhos, inclusive sempre indo visitar a funerária ou o apartamento de Diodoro, que se não fosse tão inconveniente, teria até pensado em um lugar fixo para o qual voltar na pequena cidade. Além de ser um lugar tranquilo, podia ficar de olho no irmão mais novo que tinha reencontrado, mesmo que a distância e que ele nunca mais quisesse lhe ver, com razão.

Por isso depois de dar uma olhada de um par de horas na casa que ele morava e compartilhava com a namorada, seguiu andando um pouco sem rumo pela cidade pitoresca até encontrar um dos parques na área residencial. Usava jeans, coturnos, uma camisa básica branca e um boné que ajudava a disfarçar a cicatriz que chamava muita atenção pelo dia. No parque, ele seguiu para longe dos caminhos e bancos, encontrou uma sombra agradável e quieta debaixo de uma árvore de folhagem densa e se sentou, as pernas e braços cruzados, aproveitando um pouco da tranquilidade da cidade que não aproveitaria em uma situação normal de trabalho.

Mas a sua pretensão de descanso foi incomodada por algumas vozes infantis, das quais ele esperava ter se livrado ao se distanciar dos parques infantis e dos caminhos de ladrilhos. Primeiro as vozes estavam longe, mas não foi nada difícil ouvir mais sussurros e o som de passos se aproximando. Não se importava com as crianças, e se elas ficassem muito irritantes, podia só mudar de lugar. Mas era melhor não levantar a cabeça para encará-las de volta e ouvir gritos e choros de desespero... os gritos e choros eram os piores.

O que ele não esperava, de toda aquela situação infantil, era ouvir uma voz muito baixa, mas muito conhecida. Karen franziu o cenho, e até foi impulsionado a abrir os olhos e descobrir que era Lui que estava ali, ironicamente. Mas resolveu continuar com os olhos fechados, no seu sono fingido, para saber no que aquela situação iria resultar.

Ludwig

Os meninos olharam para o garoto que tinha interrompido a diversão deles com atenção por longos segundos. A voz era de menino, mas ele tinha cabelos longos, e estava usando uma camiseta preta e um bolero de couro que lembrava uma jaquetinha curta, que combinava com uma saia de couro e tecido em várias texturas costuradas sobre uma calça de tecido folgada, e usava coturnos com salto. A visão era tão espalhafatosa que os meninos todos abriram a boca, surpresos. Mas o líder deles logo retomou a ideia anterior de enfrentar quem quer que viesse pela frente.

- Solta! A gente vai acordar ele sim, se a gente quiser! Não tem pra que obedecer uma menina esquisita!! – o garotinho fez birra, e o outro amigo dele deu uma cotovelada nele para sussurrar “eu não acho que seja uma menina”, mas foi ignorado.

- P-p-pois...! Seus pais deveriam lhe dar um castigo... por ser desrespeitoso com os mais v-velhos...! – Ludwig murmurou tímido, até porque não podia dizer que o menino poderia se meter em encrencas, já que Karen era muito legal. - ... I-isso é... claro que sei que pode não ser o caso... porque você deve ter seus m-motivos para ser desrespeitoso... e talvez eu esteja sendo insensível... usando seus pais como desculpa... mas... é errado...!

O menino começou a ficar irritado com aquele gaguejado incerto, e a indecisão do outro de lhe dar uma bronca porque era errado, apenas. O menor inflou, vermelho, e puxou o graveto da mão de Ludwig de uma vez.

- Tente me impedir! – o garoto deu língua, então avançando para bater em Karen com o graveto, mas Ludwig o segurou pela camiseta. – Me solta!!

- N-não pode...!

- Solta ele!! – outro dos meninos falou, indo pegar o braço de Ludwig, o outro se juntando para tentar libertar o amigo, até que Ludwig estivesse sendo sacudido por três garotos mais novos.

Com a força que não tinha, o mais japonês se esticou para pegar o graveto da mão do outro garoto, que protestou enquanto se debatia, e jogou o galho para o outro lado. Ou tentou. Porque com a força que tinha, o pedaço de madeira não foi muito longe.

- Ahh! Que saco! – o menino do graveto se sacudiu, então empurrando Ludwig para fora do caminho, caindo na grama, derrubando todos de uma vez, desequilibrados. – Intrometida! Bruxa! A bruxa e o monstro dela! – ele agarrou um pouco da grama e jogou na direção de Lui, irritado. – Vamo embora! Esse parque é um saco mesmo...!

Ludwig ficou mais feliz que o delinquentezinho malcriado ia embora. Assistiu enquanto ele e os amigos se levantavam, olhando para trás uma última vez para o gigante que deveria estar morto, porque até então, depois daquele barulho todo próximo, ainda não tinha acordado. Foi inevitável não olhar para o mais velho e sorrir pensando que ele tinha o sono muito pesado. Só que porque crianças não sabiam bem como parar, o menino mais cheinho encheu o peito e deu um tapa no amigo.

- Apanhou de uma menina...!

- Apanhou da menina...! – o outro se juntou, o que fez o líder dos dois inflar.

- Eu não preciso do graveto! – ele berrou, irritado, e então apanhou do chão algumas pedrinhas já a alguma distância de Ludwig e Karen, e atirou uma, que bateu na árvore onde Karen estava dormindo, e isso chamou a atenção do garoto. – Eu vou acordar ele sim, se eu quiser, e menina nenhuma vai me impedir! – o garoto deu língua novamente, antes de jogar outra pedra.

Lui, pensando que de fato as pedras poderiam incomodar e machucar Karen, se levantou num tropeço e ficou na frente do mais velho, fazendo uma barreira para as pedrinhas, sacudindo os braços desesperadamente para tentar fazer o máximo de barreira que conseguia. E quanto mais ele se sacudia, mais os meninos tentavam pegar pedras para jogar, mas a mira deles era muito ruim, e os braços muito fracos, exceto pelo mais persistente, que ainda conseguiu lhe atingir com algumas pedrinhas no braço e na barriga, mas pelo menos nenhuma tinha funcionado em Karen. Já estava cansando da situação e de bater os braços, quando sentiu uma pedra atingir certeira sua sobrancelha, o que lhe deixou desnorteado. E deixou os garotos desnorteados também, porque eles pararam imediatamente, assustados. Ludwig levou a mão até a testa, e notou que a pedrada, por mais fraca que fosse, tinha cortado um pouco da sua sobrancelha e estava sangrando mais do que deveria. E talvez não tivesse ficado bravo antes, com toda a malcriação do trio de crianças, mas eles deveriam saber já naquela idade que não havia motivo para machucarem um estranho que descansava no parque, e poderiam ter incomodado seu amigo, assim como lhe machucaram. E agora olhavam todos para o japonês como um trio de gatos assustados no meio da pista, sem saber o que fazer, que poderia ter sido impedido se eles tivessem lhe ouvido.

E isso efervesceu dentro de Ludwig que levantou do chão, desajeitado, o rosto vermelho e as bochechas infladas de irritação.

- S-seus teimosos e malcriados!! As pessoas vêm aqui pra descansar e vocês vem aprontar e machucam alguém, e agora ficam arrependidos das travessuras!? Vocês estavam errados desde o começo! Se vocês fossem adultos, seriam presos e jogariam a chave fora!!! Se eu fosse o pai de vocês, e-e-eu juro que dava uma surra pra vocês verem que isso dói!! As pessoas não são brinquedos e precisam ser respeitadas!! Um dia vocês vão encontrar com uma pessoa realmente má e se machucarem, e isso não é bom!! Ouçam os adultos para não se tornarem um bando de imprestáveis!!! – Ludwig esbravejou, esbravejou o que tinha na cabeça, mesmo que a bronca não fizesse muito sentido, e esbravejou em alto e bom tom, tanto que sentiu a voz falhar e o ar faltar, porque havia muito tempo desde a última vez que tinha falado tão alto.

Os meninos se assustaram, o mais magrinho até com os olhos lacrimejando, até que o mais sensato dos três agarrou os amigos pelo braço pensando que daria super mal para eles, e correu, sendo seguido pelos amigos. Ludwig então colocou as mãos sobre os joelhos, respirando fundo. Aquela certamente já tinha sido uma saída frenética.

Karen

O desenrolar da conversa serviu apenas para que Karen confirmasse que quem tinha impedido a empreitada das crianças tinha sido Lui. Ele se manteve ainda com os olhos fechados por um tempo, até ouvir a tentativa de sermão do adolescente que estava aparentemente concentrado em lhe defender de, no mínimo, ser acordado. Era não tanto inédito quanto engraçado, até porque ele não sabia ser muito firme nas palavras contra as crianças implicantes.

Karen só entreabriu os olhos quando ouviu um barulho um pouco mais alto e característico do que as vozes fracas em discussão. Ele olhou para o lado debaixo da aba do boné para ver que não só Lui, mas os garotos tinham caído numa situação muito inusitada. A última coisa que ele esperava, ao se sentar para descansar num parque no meio de uma cidade no interior da França, era ser defendido por um adolescente que mal conseguia falar alto - isso porque ser atormentado aqui e ali por crianças, além de assustá-las e despertar o espírito de justiça, era bem comum quando estava de folga.

Ele continuou apenas observando o grupo de crianças desafiando o adolescente, e quando eles pretendiam ir embora, mudaram de ideia para começar a jogar algumas pedras. Até pensou em se levantar pelo menos para terminar de assustar as crianças, mas ficou completamente sem reação - o que era uma novidade - por ver que Lui tinha se colocado na sua frente sacudindo os braços como se aquilo pudesse mesmo lhe defender da chuva de pedras. Não parecia nada sério, até uma das pedras acertar o rosto do garoto, e Karen finalmente ficou mais atento para saber o que aconteceria. Bom, ao menos a pedra certeira tinha assustado os meninos que pararam de atacar, e não bastasse aquilo, ouviu a voz em um tom bem mais firme do que tinha ouvido até então, vinda do garoto. Ele até se surpreendeu com o conjunto de novidades, e só quando os meninos saíram correndo e Lui cedeu para apoiar as mãos nos joelhos, aparentemente exausto da situação, foi que estendeu uma das mãos para segurá-lo pelo pulso fino, puxando-o com facilidade para se sentar sobre as suas pernas cruzadas.

- Acho que foi a primeira vez que ouvi sua voz em alto e bom som. - Karen disse, com o menino perto demais para ver o sangue escorrendo pelo corte na sobrancelha. Ele puxou a manga da camisa e estendeu até pressionar contra o corte, para limpar o sangue. - Você está bem?

Ludwig

Ludwig estava descansando da súbita realidade de falar firme pela primeira vez em muito tempo com as mãos apoiadas nos joelhos. Tinha se surpreendido até consigo mesmo. Era um fato que não falava alto, não importa o quanto tentasse, mas naquele momento tinha falado alto o suficiente para ser ouvido pelos garotos, e bem ouvido. Isso lhe surpreendeu muito. Só não mais que a mão que subitamente lhe puxou para o chão, e não teve tempo sequer de emitir um som em protesto, mas quando olhou para quem tinha lhe puxado, o dono da voz e do colo era ninguém menos que Karen.

O garotou arregalou os olhos para a figura do outro pelo susto de ser puxado, mas logo que sentiu a manga da camisa dele em sua testa, abriu um sorriso largo, nem sequer ligando para o corte.

- Karen-san! Karen-san! Não é? Você viu…! – Ludwig exclamou com a voz bem mais contida que anteriormente. – Eu c-consegui falar alto...! Foi como você disse...! – talvez Karen nem lembrasse mais que tinha lhe dito que a cicatriz não o impedia de falar alto. E embora Ludwig não entendesse completamente, estava feliz por ter confirmado que tinha mesmo aquele poder e imaginava ter agradado Karen ao falar com a voz normal, já que ele parecia preocupado porque se metia em encrencas por sua falta de confiança. As bochechas ficaram rosadas de alegria, o sorriso pregado no rosto enquanto olhava satisfeito para o gigante que pressionava a manga na sua sobrancelha.

Porém de repente, o sorriso de Ludwig se desfez e ele ergueu mais as sobrancelhas, olhando fixamente para Karen como um bichinho abandonado.

- Ahhh...!! E-e-eu te acordei fazendo barulho...!! Me desculpa...!

Karen

Karen não era o tipo de pessoa que sorria com frequência ou naturalmente - geralmente sorrisos no canto dos lábios significavam outra coisa que não diversão -, mas a resposta para a expressão de animação de Lui com a própria postura foi sorrir de volta enquanto ele retornava ao tom convencional orgulhoso de si mesmo sobre como tinha conseguido falar alto e enfrentar os garotos.

Ele não tirou a manga da testa dele, esperando que o sangramento parasse, uma mancha enorme vermelha se formando no tecido da roupa, e nem percebeu que ainda estava rindo da animação dele, até ele mesmo sumir com o sorriso e colocar uma expressão preocupada no rosto. Logo o motivo da mudança de expressão veio no pedido de desculpas por ter lhe acordado fazendo barulho, e Karen acabou sorrindo de lado de novo.

- Não me acordou, eu estava acordado. - ele respondeu de volta a expressão convencional, tirando a manga do corte para ver que ainda escorria um pouco de sangue. Cortes no rosto eram sempre péssimos para estancar e ele sabia bem. - Mas ainda bem que estava, ou não teria visto você tentando me defender. Ninguém nunca fez isso por mim.

Ludwig

Ludwig tinha que admitir: Karen não era a pessoa que mais sorria. Ele era um pouco fechado. Mas vê-lo de tão bom humor lhe levantou ainda mais a sensação de que tinha feito um bom trabalho em protegê-lo, mesmo que no fim das contas tivesse falhado em fazer isso. E agora ele devolvia o favor tentando estancar o sangue de sua testa com a manga da camisa, o que estava se provando difícil. Esperava ter dinheiro para poder pagar a limpeza daquela roupa.

O garoto voltou a sorrir quando ele avisou que estava acordado, o que lhe renovou a sensação de alívio. Não bastasse isso, ele ainda parecia feliz de ter sido defendido para variar, e Ludwig bem sabia que tinha contado mais de uma vez com a ajuda do zelador.

- Hehe! Eu consegui pagar uma das vezes que você me ajudou, Karen-san...! M-mas com certeza você me ajudou muito mais vezes. – Ludwig comentou, levando o dedo de leve ao corte para saber se já estava um pouco mais estancado. – Aqueles meninos me deixaram bravo... de verdade... não é certo provocar uma pessoa que está me paz e descansando. E não é porque você é grandão que não precise ser protegido. Todo mundo tem uma hora que é frágil.

O menino entortou os lábios de leve, pensando sobre a situação anterior, e então franzindo de leve a testa, com um longo suspiro. Ajeitou-se na grama frente a Karen, de modo a deixá-lo confortável sem seu peso no colo, mas mantendo alguma proximidade.

- S-só que eu não sei também das circunstâncias dos meninos. Posso ter sido i-insensível. Eu preferia tentar te salvar de um buraco no chão. Não que eu ache que consiga te levantar... mas eu conseguiria ajuda. – Ludwig comentou, erguendo os olhos escuros para o outro. Ter feito algo que lhe orgulhava de si mesmo claramente tinha dado a Ludwig uma vontade renovada de conversar. – O que vai fazer agora que tá acordado, Karen-san...?

Karen

De novo, Karen foi obrigado a sorrir da ingenuidade do garoto sobre ser provocado e precisar ser protegido a despeito do tamanho, mas ele podia só pensar aquilo porque não fazia ideia do que fazia da vida. Mais absurdo ainda era ouvir que todo mundo tinha uma hora de fragilidade, mas ele não comentou mais nada, além de tirar a manga da testa dele e conferir que o sangramento tinha parado, limpando as manchas de sangue ao redor do rosto dele também, talvez com mais força do que pretendia, já que não estava acostumado a medir a própria força.

Ele ajustou a posição sentado a sua frente, mas Karen aproximou os calcanhares para impedir que ele se afastasse demais, e agora que não precisava usar a manga para terminar de estancar o ferimento, ele passou os braços em volta do corpo do menor e apoiou o queixo no ombro dele.

- Você está falando melhor agora. - Karen apontou aquele detalhe, adicionando logo em seguida: - Eu não ia querer ajuda de outras pessoas, então você ia ter que conseguir me ajudar sozinho.

Ele só ergueu o rosto, tirando o queixo do apoio do ombro do garoto quando ele perguntou, parecendo mais animado, sobre o que faria agora que estava acordado.

- O que você quer fazer?

Ludwig

Ficou bastante feliz quando o sangramento parou e Karen pode tirar a camisa do corte em sua testa, notando que tinha deixado uma mancha enorme de sangue que talvez fosse melhor lavar. Ludwig não se incomodou em se aproximado ainda mais de Karen, com os braços dele em volta de seu corpo e a cabeça em seu ombro. Na verdade, sentindo o rosto de Karen próximo ao seu, acabou sorrindo, as bochechas queimando de leve mas ao mesmo tempo, pensando que o mais velho lembrava um cachorro grande, esperando alguém fazer algo de interessante.

Abriu um sorriso largo quando ele elogiou o jeito que estava falando, e riu da ideia de ajudar Karen sozinho.

- E-eu com certeza não conseguiria s-sozinho... mas eu ia tentar. – Ludwig afirmou, fazendo um movimento leve de reverência com a cabeça. Então voltou-se para o moreno quando ele se afastou um pouco, encostando brevemente contra o peito dele, achando a situação um tanto menos embaraçosa quanto mais se acostumava com Karen. – Você já comeu, Karen-san? P-p-podemos ir numa loja aqui perto... pra comprar uma camisa nova pra v-você... e... depois comer alguma... coisa... s-sei lá..

Apesar de achar que a situação era mais natural, a proposta do que definitivamente parecia um encontro fez com que apertasse os lábios. Mas então Ludwig olhou mais uma vez para a camisa manchada e levantou subitamente, tomando cuidado para não bater em Karen.

- I-i-isso...! É para comprar a c-c-camisa nova...! P-porque eu sujei a sua... – tentou argumentar, mas levantar subitamente fez com que o garoto se sentisse zonzo, provavelmente pelo sangue que tinha perdido. Ludwig suou frio um instante, e seu corpo todo despencou em Karen, amortecido. - ...D-d-desculpa...! Eu fiquei tonto... p-podemos ficar só mais uns minutos aqui...? Acho que foi o sangue...

Karen

Karen concordou com um aceno de cabeça para a sugestão pronta dele de irem comer alguma coisa e comprar uma camisa nova. Não que precisasse de uma nova, uma mancha de sangue era só mais um dia ordinário na sua vida, mas estava sempre aproveitando mais a companhia muito simples e ingênua do garoto a sua frente e a verdade era que gostava da sensação que já tinha até esquecido como era.

Mas antes de seguirem com a proposta, Lui se levantou rápido o suficiente para que cambaleasse e caísse de novo em sua direção, e não foi nada difícil segurar o garoto que parecia sempre mais leve, a despeito da quantidade de roupa e de tecido que ele usava. Ajustou-o facilmente com os braços em volta do tronco fino para que ele se encostasse em seu peito e ficasse mais confortável, e até deu uma risada breve de imaginar que ele conseguia ficar tonto com aquela quantidade de sangue perdido.

- Não pode se levantar rápido assim. - Karen explicou. - Aqui está bom, também. O que veio fazer aqui? Além de me defender?

Ludwig

Tão logo caiu, foi amparado pelos braços de Karen mais uma vez. Sorriu para o outro sujeito, feliz por ter sido auxiliado, mas os braços dele em volta de seu tronco lhe aninharam contra o peito de Karen, e até estava confortável naquela situação, mas crispou os lábios sentindo-se tão confortável no abraço que o sangue subiu até suas bochechas. Imaginava que se o zelador não lhe deixasse tão confortável e cuidado, estaria em pânico naquela proximidade toda.

- Ah... e-e-e-eu vim passear...! T-tirar fotos... para minha mãe...! – explicou, feliz que talvez o assunto tirasse sua cabeça da sensação reconfortante do corpo de Karen. Pegou a câmera pequena do bolso, bem menor que aquela semiprofissional com a qual andava hora ou outra. – A-Ah! Mas não tirei fotos suas... n-não se preocupe... n-nem que tenha dado t-tempo, porque quando cheguei e-eu vi os meninos e... – tentou se explicar, e então riu. – Minha mãe fez muitas perguntas sobre v-você... ela é super protetora... ficou se sentindo mal quando eu disse que você me ajudou várias vezes, e que é zelador em St. Clavier... – então abriu os olhos de forma muito expressiva, se colocando sentado e sacudindo as mãos a frente para tentar fazer com que Karen não entendesse mal sua mãe. – M-m-mas ela não estava lhe julgando, não! Ela lhe achou muito gentil!

Karen

Karen podia passar o resto da tarde sentado na grama baixa do parque e aproveitando a companhia de Lui, mesmo que não trocassem uma palavra sequer. Era estranho pensar que quando chegou a Cerise, a única coisa que pensava era como cidades pequenas eram inconvenientes para passar despercebido. Mas que diferença fazia passar despercebido se quando era percebido, as pessoas não saíam correndo ou chamando a polícia?

Ele seguiu usando Lui de apoio, os braços em volta do rapaz enquanto ele explicava que tinha ido tirar fotos para mostrar à mãe, e só então Karen lembrou da senhora ingênua que tinha até associado ao rapaz ao encontrar perdida na cidade. Mas algo lhe deixou levemente incomodado na linha de pensamentos dele e Karen apoiou o queixo no ombro do rapaz.

- Eu lhe ajudei porque quis, ela não devia se sentir mal. - ele respondeu primeiro, e só então virou o rosto um pouco na direção do de Lui. - E eu não sou zelador em St. Clavier. Eu não trabalho lá.

Embora a maior parte da suposição de que ele era zelador em St. Clavier tivesse partido de Lui, Karen não tinha contrariado a ideia do rapaz. Agora, estranhamente, queria deixar claro que aquela informação era errada.

Ludwig

Ludwig tinha que admitir que era bem confortável estar ali aninhado no corpo de Karen. Ele era gigante, e era muito gentil mesmo estando parcialmente apoiado em seu corpo. Era quase um momento relaxante estar ali aproveitando só o ruído de poucos transeuntes e das árvores sacudindo. Talvez fosse meio triste explicar sua mãe, mas entendia de onde vinham todas as perguntas dela.

- Ahh, n-não... ela ficou mal por ter feito m-muitas perguntas, como se estivesse d-d-desconfiada que você é uma pessoa que queria me fazer ma- Ludwig então parou subitamente a explicação e virou o rosto na direção de Karen, o corpo todo acompanhando o movimento logo em seguida. Os olhos escuros estavam bem surpresos com o comentário do sujeito. – Não é...??

Então o japonês encarou o outro longamente, tentando lembrar se alguma vez tinha ouvido da boca dele que era um zelador. E aí lembrou que não tinha. Só tinha assumido que ele trabalhava em St. Clavier, e o queixo caiu devagar, e o rosto de Ludwig tomado de um vermelho intenso.

- M-m-m-m-me d-d-desculpe..! E-e-eu assumi que v-v-você era...! N-Nossa... como sou insensível...! P-perdão, Karen-san. – o pequeno se curvou mesmo sentado, em um pedido de desculpas exagerado. – É-é que nos vimos em St. Clavier... e... que vergonha...! Esse tempo todo e-eu achando... e errando... s-seu trabalho...

Karen

A surpresa de Lui para o fato de que não era zelador em St. Clavier deixou Karen mais entretido. Ele afastou o rosto do apoio no ombro dele e o menino se virou quase completamente em sua direção, quase abismado pela nova informação. Mas ao invés de ficar indignado que tinha sido enganado aquele tempo todo, ele só se culpou por ter deduzido errado e imposto o pensamento em Karen. Por mais que combinasse com o garoto, não era uma reação que ele esperava de qualquer pessoa. E era bem genuína. Ele acabou rindo do exagero dele, e tentou tirar um pouco da culpa.

- Não se preocupe, eu não corrigi antes. - Karen respondeu, dobrando as pernas para conseguir apoiar os cotovelos nelas, deixando o espaço entre as pernas ainda para que Lui permanecesse ali. - Eu vim à cidade para trabalhar para uma pessoa em St. Clavier, mas o serviço acabou. Acho que acabei gostando daqui…

Ele apoiou o rosto nas costas da mão, encarando Lui de perto, pouco se importando se alguém ao redor acharia a dupla excessivamente estranha - e eles eram.

- Quer saber com o que trabalho?

Ludwig

O garoto quase fez um bico com a risada de Karen, até porque não gostava de assumir nada sobre ninguém, e talvez pudesse ter ofendido o mais velho, se ele não gostasse da ideia de ser um zelador, ou talvez se estivesse desempregado e poderia ter lembrado ele que está desempregado. Mil coisas passaram na cabeça de Ludwig, mas ele tinha certeza que mais da metade delas era só a ansiedade. Suspirou aliviado quando Karen disse que não precisava se preocupar, mas levou ambas as mãos ao rosto, ainda sentindo-o queimar.

- Ahh, então por isso que não me c-corrigiu quando eu disse que trabalhava em St. Clavier… - Ludwig acrescentou, ainda pensando que tinha sido seu erro simplesmente assumir o que ele fazia. E daquela vez, nem iria começar pensando se ele era algum tipo de empreiteiro. Ele tinha o porte de alguém que trabalhava construindo coisas, mas podia estar completamente errado ali de novo.

Ludwig notou como Karen estava próximo, lhe encarando diretamente com os olhos diferentes, e as sobrancelhas do garoto se ergueram enquanto devolvia o mesmo olhar direto do outro, apertando os lábios enquanto sentia o rosto quente, agora sem motivo.

- S-se não se importar…! A-assim eu não cometo o mesmo erro de novo…

Karen

Certamente não era aquele o motivo de não ter corrigido o erro do garoto, mas deixou estar. Era até uma sensação estranha, conversar com alguém que não tinha medo dele e que nem duvidava de que sua expressão denunciava o tipo de trabalho que fazia. Se pegou apreciando o momento de calmaria e de ingenuidade de Lui, mas quando ele concordou que gostaria de saber com o que trabalhava para não cometer o mesmo erro, foi levado à realidade de que ele podia até ser muito ingênuo, mas não a ponto de manter a expressão calma ao saber que matava pessoas para viver.

- Talvez um outro dia. - Karen respondeu, mantendo a expressão calma, encarando-o de perto, e levou uma das mãos livres até o cabelo dele, colocando os fios para trás para conferir o corte na testa que já tinha parado de sangrar. - Já está melhor, você não queria ir comer alguma coisa? Vamos?

Ele só esperou uma confirmação de Lui para se levantar e daquela vez ele mesmo o ajudou a ficar de pé, já que da outra vez, o garoto tinha ficado tonto. Por alguns estranhos momentos, ele conseguia ser uma pessoa bem longe do que os outros imaginavam, era interessante ter aquela convivência inesperada com o adolescente ingênuo. Interessante e relaxante.

[thread encerrada]