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[Drive] Regalo [Didier; Renaud] - Lil - 09-01-2021

Renaud

Depois de um sábado prolongado, o jovem Blanco tinha se permitido dormir, o sono foi mais tranquilo com uma sensação de quem não estava carregando um mundo inteiro nas costas. Embora estivesse sozinho no próprio quarto, não se sentia de fato “só”, e talvez por isso, o moreno tinha se permitido dormir pesadamente e “descansar” após dias de estresse constante. Acordou já passando das 08 horas da manhã, se alongou sentindo as câimbras lhe atacarem, e tinha até um pouco de fome, mas nada excepcional, embora só o fato de não sentir enjoo ao acordar fosse uma vitória. Seguia a dieta e seus horários de alimentação à risca, comendo algo rápido, depois voltando para o quarto para tomar seus remédios, talvez só por isso tivesse acordado e não dormido a manhã toda, para não pular os horários estabelecidos pelo Dr. Vlahos.

Tomou um longo banho lavando os cabelos curtos, e em muitos dias sem se cuidar direito, sentiu no próprio rosto sinais de barba. Havia algum tempo desde a última vez que estivera no SPA para fazer a barba na cera, se atentou a quantidade de dias que já tinha se passado naquele caos que estava sua vida apenas naquela manhã de domingo. Mas acabou por decidir deixar os pelos curtos no rosto, resolveria isso na manhã seguinte, quando precisaria estar mais apresentável de fato. A quantos anos não se barbeava? Nem lembrava, mas ainda devia lembrar como se faz. Vestiu uma roupa confortável, calça jeans cinza desbotada, com os pés e os joelhos desgastados – era uma de suas peças mais confortáveis justamente por estar tão detonada -, regata branca porque estavam no alto do verão, e botou um suspensório bege claro, que quase sumiu no branco da regata que usava. As mãos ainda tinham curativos, e no domingo já tinha mais manejo para arrumar as bandagens na própria mão, por conta própria.

Já perto da hora do almoço, seguiu para cozinha novamente, levando celular e sua maleta de facas e demais utensílios pessoais de cozinha, tinha uma prova da eletiva de gastronomia na segunda-feira e o professor Funske já tinha adiantado que iriam cozinhar em um restaurante de verdade. Como não tinha ido a aula nessas duas semanas, tinha perdido as práticas em cozinha de rotação e quem ficaria em qual estação durante os preparos. Por isso iria tirar o domingo para praticar, chamaria Sasha para experimentar, mas o irmão já tinha programa marcado, e ficava feliz que ele estivesse saindo mais do que antes. E Isaac tinha o namorado para dar atenção, afinal a partir de segunda-feira o moreno mais velho voltava para o trabalho na delegacia e por isso, era bom que aproveitasse o fim de semana de folga do lado de Ethan.

O jovem Blanco amarrou o avental na cintura, percebendo como tinha perdido peso nos últimos dias, a peça lhe marcando bem a cintura. Deixou o celular de lado rolando uma playlist de jazz franceses dos quais gostava de ouvir quando estava cozinhando. Pegou a lista de estações que tinha copiado de um colega de turma e estava avaliando os pratos que seriam preparados, separou os alimentos que precisavam ser lavados e descascados, e separou uma a uma das panelas que usaria calmamente. Abriu sua maleta no conjunto de facas e separou uma a uma para lavar a amolar. Lembrou-se de deixar a carne fora da geladeira em um depósito descongelando, e estava repassando cada uma das etapas em voz baixa, estava difícil se concentrar para cozinhar como de costume. Na hora da avaliação não teria música para lhe entreter, apenas barulho e ordens vindas de Funske, então precisava estar com todas as informações bem memorizadas para não errar em nada.

Mas era um pouco triste cozinhar para ninguém já que o próprio Renaud não estava em seu melhor momento de paladar, além de quê, o princípio de pensamento de Funske era: “cozinhar não para si, mas para os outros! ”. Então não faria sentido se não houvesse ninguém para experimentar o que cozinharia. Seus pensamentos foram rápidos na figura da única pessoa livre naquele domingo, e a mera recordação do loiro, fez com que Renaud parasse de lavar e limpar as facas, sentindo o peito acelerar em antecipação. Respirou fundo um par de vezes, levando a mão livre ao peito, e sentindo o próprio batimento rápido e ansioso.

[...]

Não havia motivo para todo aquele nervosismo, havia?

Tinham trocado palavras duras no dia anterior, mas tinha dado permissão para que o loiro fizesse parte de sua vida não era?

Seria um crime tão imperdoável perguntar-lhe se poderia lhe acompanhar na cozinha?

[...]

Podemos chamar, mas ele pode não querer vir... e você vai ter de se contentar com isso...

[...]

A mera ideia de chamar Didier e ele poder recusar, lhe dava uma sensação de negação, de que não era tão importante ou mesmo necessário. Da mesma forma, sentia o coração acelerar na ideia de que ele aceitasse e viesse comer algo que tivesse preparado. Era um misto de sensações que lhe deixavam com dor de cabeça, mas não tinha uma resposta para aquela situação, que não, chamar e ver o que acontecia. Da mesma forma que sabia, que tinha escolha de negar ou aceitar, também tinha de admitir que Didier tinha os mesmos espaços, e que isso não significava que valia menos ou mais. Mas na prática, aquele sentimento era difícil de concretizar.

Digitou a mensagem para o loiro sentindo as mãos suadas por baixo das bandagens, mas não pensou demais e enviou, mesmo que depois sentisse que não deveria ter enviado. Agora era melhor continuar lavando legumes do que mexendo em algo afiado, não queria se causar outro acidente por estar ansioso.

“Estoy cocinando, en verdad practicando para un teste, entonces necesito de un evaluador… ¿Esta libre? ¿Podría ayudarme?

Att. Renaud.”

Didier

A conversa com Renaud tinha sido brutal. Apesar de terem chegado há um consenso de que queriam estar perto um do outro, o fato da briga toda ter acontecido ainda martelava em sua cabeça, e por Deus, não lembrava a última vez que tinha chorado tanto. Sem saber como chegou ao quarto, e sem passar por Isaac para agradecer como queria, voltou para a própria cama e se enrolou em voltas e mais voltas de lençol, amuado, mas esperançoso. Agora não tinha mais que se esconder de Renaud, e podia se preocupar com ele.

Não dormiu bem, mas seus sonhos nada tinham haver com o moreno. Das coisas que tinha dito a ele, algumas não eram nada sobre Renaud. Mas essas coisas resolveria com quem devesse resolver, e o tal do Dr. Vlahos.

Acordou muito cedo, o suficiente para que ainda tivesse escuro, e ao invés de voltar ao dormir, pegou alguns livros do curso para ler e deu adiantamento há alguns trabalhos que andava negligenciando esse tempo todo. Entre longos suspiros, rascunhos rápidos no caderno e escritas rápidas no teclado do computador em seu quarto, conseguiu adiantar boa parte, até quando deu umas 7 da manhã e voltou para a cama, para dormir assistindo os novos clipes dos artistas que acompanhava.

Era pouco mais de 8 da manhã quando acordou no susto com o toque de mensagem. Isso porque não andava recebendo mensagens há muito tempo. Quando olhou o remetente, sentiu que o coração acelerou prontamente,e não tinha sido do susto. Foi só assim que ficou consciente que seu corpo todo doía como se tivesse levado uma surra, mas que a euforia de saber que de fato, Renaud, com quem tinha se acertado há pouco, lhe queria por perto, era bem mais forte que o incômodo no corpo todo.

Mordeu o lábio inferior e se jogou sentado na cama, pronto para responder.

Si, lo puedo. Estaré ahí en un minuto.
Att. Didier

Demorou um pouco para pressionar o botão de enviar, especialmente porque era óbvio que nem ele era “perro” e nem podia ser a “mama” nessas circunstâncias. Essa falta de familiaridade com a situação toda lhe deixou um tanto desconfortável, mas como se fosse só o que tinha, segurou o celular com ambas as mãos e beijou a tela antes de saltar da cama para tomar um banho e se vestir.

Muitas trocas de roupa depois, sem saber se vestia algo para parecer elegante ou se vestia algo para estar vestido, enfim, optou por usar um dos seus shorts confortáveis de jeans, que tinham a barra desfiada um pouco mais longa e uma blusa caída com mangas curtas preta, os cabelos cacheados um pouco bagunçados e cheios por ter passado o dia todo rolando na cama. Deu uma tapeada nas olheiras para não aparecer tão desgraçado, inconscientemente, ainda tentando impressionar um pouco.

Não foi muito tempo depois que apareceu na cozinha, parando próximo quando ouviu o movimento dentro da mesma. Mas com cuidado, colocou a cabeça para observar Renaud que trabalhava na mesma, apertando os lábios um tanto hesitante.
- Hola...! – cumprimentou, revirando os olhos para si mesmo pela naturalidade de seu cumprimento nervoso. – Ah... eu posso entrar ou fico observando daqui? – perguntou, dando uma olhada na figura do moreno de sempre, embora ele estivesse com um conhecido jeans surrado, um suspensório apagado e o avental amarrado na cintura fina. Certamente tudo que tinha acontecido tinha afetado o moreno. Até barba ele tinha. - ... Barba? – repetiu em espanhol da mente para a boca, vendo o que talvez fosse sua primeira e última vez vendo pelos na cara do moreno.

Renaud

O jovem Blanco não estava conseguindo se concentrar em mais nada, estava lavando um repolho a exatos 12 minutos, enquanto a mente divagava se o loiro iria ou não responder sua mensagem, se ele estaria a fim de gastar parte do seu domingo em sua companhia, se ele não tinha nada melhor pra fazer. Não conseguia certamente chegar a qualquer resposta consistente, mas pelo menos, aquele repolho com certeza estava limpo. Quando o celular vibrou sobre a mesa pausando a música que rolava, pegou o aparelho com as mãos ainda molhadas, e a digital úmida não foi reconhecida pelo aparelho, mas a mensagem curta e objetiva de Didier, era possível de ver mesmo com a tela bloqueada. Renaud se pegou rindo sozinho, mesmo que fosse um sorriso singelo, sentia o peito acelerar, e um formigamento que surgia do estômago para o peito, uma expectativa intrigante, aquilo seria um vislumbre de felicidade? Sabia que se contentava com pouco, mas não queria desmerecer suas pequenas vitórias.

Tomou tempo descascando os legumes e demais vegetais que iria usar nas receitas, a mesa de refeição já comportava algumas vasilhas com os alimentos já descascados. Tinha separado os condimentos que iria usar, e tinha separado folhas, talos, flores comestíveis e um punhado de outros arranjos que fossem necessários para montagem de pratos. Estava ciente, que precisaria praticar o corte de carne vermelha e depois trabalhar com montagem de pratos. Cortar era com certeza sua especialidade, montagem era com certeza seu pior defeito. Quando o Blanco escutou o “Hola”, estava acabando de colocar uma panela de ferro com vinho e carne no forno pra cozinhar.

-- Ah! Oi! Estou pondo o Boeuf Bourguignon pra cozinhar, é o primeiro a ir pro fogo e o último que eu vou preparar hoje. -- Acabou explicando mais do que precisava para acompanhar um “olá” acerca do que estava fazendo. Puxou um pano de prato para enxugar as mãos, que não estavam molhadas, mas ajudava a omitir o nervosismo no mover inconstante dos dedos. Ouviu a pergunta de Didier e então se deu conta que estava ocupando espaço demais na mesa e se encaminhou até a mesma, abrindo um espaço onde Didier pudesse sentar e ter visão do que estava fazendo se quisesse é claro. E antes que lançasse qualquer comentário adicional, ouviu o loiro falar de sua barba, e por reflexo levou a mão até o queixo, ficou um pouco desconcertado, e estava sentindo uma tensão muito maior do que esperava daquele encontro:

-- Erh... eu tenho barba também, afinal já tenho 20 anos... - comentou a própria idade se sentindo ainda mais idiota por estar perdendo o rumo da conversa e sendo tomado por nervosismos. O jovem Blanco se encostou na mesa, abrindo um sorriso singelo e respirando fundo, tentando se acalmar daquela pequena confusão emocional. Pausou a playlist no celular e então voltou a atenção completamente para o loiro no espaço: -- Se bem que nem dá pra chamar isso de barba não é? Normalmente eu não tenho que me preocupar porque tiro na cera, mas sendo bem sincero eu tinha esquecido que tinha barba pra fazer hoje de manhã…! -- apontou pro próprio rosto, fazendo alguma graça, agora finalmente lançando um olhar mais atento para Didier e o observando nas roupas casuais, o rosto com alguma maquiagem, será que ele tinha dormido alguma coisa depois de toda aquela conversa? Cansado os dois estavam, mas se o sono tinha sido o suficiente para estar descansado no outro dia, aí era outra conversa:

-- Você parece mais disposto hoje, isso é bom. Conseguiu descansar pelo que dá pra ver -- o moreno mais novo, voltou atenção para o espaço que tinha arrumado: -- E a cozinha é dos dormitórios, você pode ficar onde se sentir mais confortável. -- pontuou o óbvio, não tinha direito de mandar ou desmandar no espaço: -- lhe chamei para pedir ajuda, provando e avaliando o que eu preparar, mas se quiser acompanhar o preparo dos pratos de perto eu não vou reclamar. -- comentou tentando voltar a atenção ao que tinha ido fazer na cozinha, mas achando toda aquela dinâmica um pouco estranha, mas ao mesmo tempo muito reconfortante por poder passar tempo de novo com Didier. A parte mais estranha era certamente manter distância, embora na frase anterior tivesse dito que ele podia se aproximar se quisesse, aquilo certamente era confuso, mas o que não era naquela nova dinâmica? Tinham de reaprender a conviver e respeitar os espaços individuais um do outro.

Renaud pegou a carne descongelada e uma de suas facas, mas antes de começar os cortes, espiou por cima do ombro na direção do loiro: -- A propósito Didier, obrigado por vir. -- sorriu discreto, antes de voltar a atenção ao que tinha de cortar, para não arrancar um pedaço dos dedos no processo por estar distraído.

Didier

O “Oi” de Renaud foi tão natural quanto o de Didier. O nervosismo dele deveria dizer muito de como a interação do dia anterior tinha sido marcante, porém, o próprio Didier estava tão travado ainda que sequer percebeu inicialmente que o moreno estava em pé de igualdade com o nervosismo. Honestamente, nem se preocupava com o que ele estava preparando, porque sabia que a comida de Renaud era gostosa. Era melhor focar na novidade, que era a barba. Isso tinha lhe deixado verdadeiramente intrigado.

Abanou com a mão quando ele disse que obviamente tinha barba, a expressão ainda surpresa.

- Lo sé que você tem barba. Até eu tenho barba. É só que... no la había visto. – respondeu, ouvindo então a narração de como ele tinha chegado naquele estado barbado. O fato de Renaud estar acostumado com a cera e ter esquecido por conta das muitas outras coisas ocorrendo fez Didier inconscientemente levar as mãos até o rosto, tocando a área do queixo, mandíbula e bigode para ter certeza que a sua também não tinha lembrado de crescer enquanto não percebia. Mas estava limpo.

Antes que Didier pudesse comentar qualquer outra coisa sobre a barba, talvez porque ainda estivesse pensando, Renaud disparou a falar sobre sua aparência e o convite, o que fez o loiro olhar para as próprias roupas e depois para o Blanco ainda sem saber completamente o que estava fazendo.

- Você também, Renaud... parece bem e disposto. – comentou, passando pelo moreno para procurar uma cadeira vazia para se sentar, puxando uma, mas não sentando imediatamente. – Não quero te molestar en la cocina. Vou só me sentar. – avisou, então ouvindo o agradecimento dele e abrindo um sorriso inconscientemente. – Gracias por me llamar. – respondeu igualmente, antes de sentar.

Renaud

Era tudo novidade naquela situação, não eram mais os mesmos de antes, mas eram ainda as mesmas pessoas, e essa estraheza somada a euforia momentânea de poder trocar tempo e palavras com o Didier, deixavam o jovem Blanco, inquieto e com um sorrisinho de canto de boca, como se estivesse pensando em algo engraçado. Renaud prosseguiu com o preparo dos pratos, colocando coisas para cozinhar, tentando focar em não ficar olhando para o loiro, para ficar reconfirmando que ele de fato estava ali:

-- Não se preocupe, não vai me incomodar se você acompanhar o preparo de perto. Amanhã durante a avaliação do prof. Funske muito provavelmente a cozinha vai estar lotada de alunos, já que vamos estar no restaurante dele, então eu vou ter pouco espaço pra transitar na estação que eu estiver.-- Espiou por cima do ombro na direção do loiro, não somente para mostrar interesse na conversa, mas porque olhar para ele era muito bom: -- No mais, como vou ficar na cozinha, justamente no preparo e montagem, duvido muito que o professor me deixe entrar com esse protótipo de barba de adolescente, então vou ter de me barbear, nem lembro a última vez que eu fiz isso sozinho. -- riu de forma singela fazendo um pouco de graça.

Os dedos das mãos estavam doloridos, e parou um tempo para massagear as mãos nos nós dos dedos, antes de por luvas plásticas, para manusear as peças de carne agora descongelada. As facas pareciam mais pesadas do que de costume, e cortar os filés estava um pouco mais difícil do que se lembrava. Era algo pra se tomar nota, poderia influenciar no seu tempo de preparo nas estações.

Didier

Com o aval de Renaud de que não tinha problemas sentar próximo da cozinha para vê-lo cozinhar, até puxou um pouco mais a cadeira. Gostava da comida do moreno, e assistir enquanto ele fazia as preparações lhe trazia uma boa nostalgia. E claro, podia até ser bem ignorante quanto a tudo que Renaud sentia porque nunca deu muita atenção aos sentimentos alheios, mas sabia que ele apreciava também aquele momento, ou aquele sorriso discreto não lhe saltaria os olhos tão facilmente.

Abriu um sorriso de volta com a brincadeira dele sobre a barba, aos poucos pensando na possibilidade que aqueles tocos de barba lhe possibilitavam. Observou o moreno enquanto ele tentava cortar com menos velocidade do que estava acostumado a ver, mas sem dar muita atenção inicial a isso, hesitou por um instante apenas antes de cuspir as palavras:

- Puedo afeitar la barba? - tentou tomar a oportunidade tão rápido que sequer pensou em falar francês. – Digo... puedo afeitar sua barba, se quiser. Apesar de não parecer, yo afeito mi barba com mais frequência que você. Puedo ayudar. – sugeriu, quase cruzando os dedos na expectativa de que ele aceitasse, afinal, era uma ótima oportunidade para tocar Renaud, e ficar mais um tempo com ele. Então, aos poucos percebeu que havia acabado de dizer que tinha mais pelos na cara que Renaud, o que lhe deixou levemente confuso. – Ahh... será que adianta dizer que tenho pelos en la cara quando não tenho metade da sua masculinidade? – bufou.

Renaud

O jovem Blanco tinha terminado de praticar os cortes de carne que faria no horário da prova, e já tinha deixado uma vasilha para imergi-los em temperos. Já tinha percebido que teria mais trabalho pra cortar do que gostaria, agora tinha de testar a parte de montagem. As coisas cozinhavam e o vapor facilmente tomava conta da cozinha pequena dos dormitórios quando ouviu o comentário em espanhol, entendeu mas não compreendeu, e foi necessário espiar por cima do ombro na direção do loiro.

Quando então ele repetiu a frase fazendo a proposta, sentiu um formigamento no estômago que era estranho, quase uma sensação eufórica da possibilidade de passar mais tempo com Didier. Tornou a voltar a atenção a comida, mas estava com um sorriso singelo no rosto: -- Ah, seria ótimo, com as minhas mãos ruins do jeito que estão, mesmo que eu fosse inventar de fazer sozinho, com certeza isso não daria certo. -- o tom de voz foi mais suave, do que das falas anteriores, o que reforçava que o Blanco estava satisfeito com a proposta. E quando escutou o complemento, então ficou mais notável que Renaud ergueu um sorrisinho diante do comentário de Didier:

-- Partindo do ponto de que, quem vai ao SPA pra fazer a barba e se depilar sou eu, essa questão de masculinidade é ponto totalmente questionável. -- brincou, dessa vez até soando com um pouco de graça. Pegou parte dos molhos que estava preparando e separou em pires diferentes, com uma colher pequena, e deixou sobre a mesa perto de Didier: -- Pode provar, molho branco de ervas, e molho com vinho, pra acompanhar a carne e os legumes cozidos, Eu não tenho como provar, então me diga o que acha. -- Nada muito elaborado, cebola, alho, alecrim fresco, algumas especiarias e pimentas de cheiro para deixar mais suave, e no outro molho, mais encorpado com vinho seco, tomilho, alho poró, louro e outras especiarias mais potentes:

-- Eu estou responsável pela montagem dos pratos com carne, então tirando os cortes e preparação eu fico com montagem para fazer, vou cronometrar o tempo de montagem, depois você prova, eu limpo a cozinha e estou livre para deixar meu protótipo de barba aos seus cuidados. -- comentou, tornando a dar atenção ao preparo dos alimentos, para então pode ir para montagem, as outras coisas já próximas do ponto de serem retiradas, ao menos, no controle geral de tempo, ainda estava dando conta.

Didier

A resposta positiva de Renaud para seu pedido lhe fez discretamente soltar um longo suspiro satisfeito, especialmente porque até o próprio Renaud parecia contente com a perspectiva de passarem mais tempo juntos. Assistiu enquanto ele terminava a preparação, rindo do comentário sobre ele ir ao Spa e fazer depilação, embora ele tivesse a desculpa da natação para isso. Mas de fato, Renaud era quase tão preocupado com a aparência quanto Didier. E os dois tinham momentos bem metrossexuais.

Observou enquanto ele trazia pires com os molhos, tirando uma colherada de um de cada vez, provando cada molho, mas apreciando mais o com sabor de vinho e temperos mais fortes, pois tinham um pouco mais de tempero familiar. Mas tinha achado ambos gostosos.
- Hmm...! Eu adoraria esse molho de vinho por cima de uns vegetais asados a la parrilla. Eles geralmente não tem muito sabor, então ficaria bem sabroso com uma carne. – comentou, bastante satisfeito em passar a colher pelo restinho do molho. – O molho branco também está bem sabroso, mas suave. Tem romero, sí? – Didier então abriu um sorriso largo. – Sua comida ainda está deliciosa.

Ouviu ele contar o que estaria fazendo na cozinha naquela prova e então arqueou a sobrancelha, estreitando os olhos para Renaud em uma provocação.

- E você melhorou la presentación del plato, Renaud? – brincou, pois bem sabia que a comida de Renaud era deliciosa, mas que beleza não era exatamente o forte das comidas do moreno.

Renaud

O jovem Blanco mudou as luvas plásticas que usava para manusear os alimentos crus, observando as bandagens se não estavam muito suadas, em tempo de ouvir os comentários de Didier sobre os molhos que havia preparado. Acenou positivamente, tomando nota de deixar uma poção bem generosa de legumes para o loiro em seu prato. e a ideia de preparar um prato que Didier achasse apetitoso lhe deixou mais empolgado, seria esse tipo de sensação que o prof. Funske estava falando?

-- Que bom, eu acho? Faz tempo que eu não sinto gosto da comida, por isso eu precisava de socorro. -- Ele deu de ombros, com um ar até leve, de quem fazia um gracejo, embora o ar cansado ainda pairasse sobre sua aparência de forma geral: --Sim, é Romero, uma versão que eu mesmo fiz, faz algum tempo, não estava com cabeça pra fazer invenções de temperos, então usei uma mistura que eu já tinha testado, nesse têm: alecrim selvagem, salsinha, alho e flor de sal, peguei uma variação do Marrocos na época pra testar.

Repôs as luvas plásticas, enquanto fatiava a carne recém cozida, expondo o meio avermelhado ao ponto, enquanto a parte externa apresentava uma cor brilhante pelo molho. Fatiou formando um desenho de flor, acrescentou os vegetais em formatos triangulares auxiliando o desenho, acrescentou o molho de vinho sobre a peça formando o desenho todo, e tomates cerejas pré-cortados em pequenas estrelas:

-- Tire suas próprias conclusões. -- Sorriu com o canto dos lábios, demonstrando um pouco de charme ao falar, estava longe do seu usual, muito longe em verdade, mas dava pra perceber o esforço que o jovem Blanco estava fazendo para relaxar e ficar mais confortável naquela conversa.

Montou o segundo prato com carne branca de ave, a faca bem amolada deslizava precisa, formando filés finos como papel, o segundo desenho também inspirado em uma flor, mas com aparência mais delicada nas camadas. Os vegetais estavam cortados em palitos finos, que concordavam com o aspecto do prato. Fechando com o desenho feito com o molho branco. Para acompanhar as duas carnes, tinha salteado arroz, porque gostava do sabor dele em acompanhamento com a carne: -- Eu não fiquei responsável pelos outros pratos, então fiz algo simples até pra não cansar. Minha sugestão de acompanhamento pra beber é água.

Didier

Supunha que quando também estava com um humor mais abatido, a comida não tinha sabor. E Renaud já vinha há algum tempo com esse aspecto mais abatido, dos problemas que ele andava enfrentando. Mas ao menos ainda achava energia para cozinhar e pensar receitas, então já era muito melhor que apenas se entregar ao marasmo.

Didier também tentava ficar menos sem jeito para lidar com Renaud, especialmente depois de tudo, mas ainda sentia que não estava perfeitamente natural. Exceto pelo fato de que fez uma expressão genuína de surpresa ao ver a apresentação do prato de Renaud, observando o moreno e em seguida a apresentação, batendo palmas quase que automaticamente quando ele concluiu o primeiro.

- Isso não é melhorar. Cambiaste de manos. – sorriu, embora não era como se Renaud fosse tão ruim assim. Era apenas que a comida dele de fato tinha uma aparência muito inferior ao sabor que apresentava. O segundo prato também ficou bem bonito, e fez Didier sacar o celular para tirar fotos em um ângulo bom. Podia não ser o estrela Arman Johnson, mas sabia como funcionavam fotos de comidas. – Puedo probarlas? – perguntou antes de pensar em tocar nos pratos. – Estão lindos.

Renaud

O fato de ver Didier tão empolgado com algo “simples” como comida era algo até reconfortante, nem sabia dizer de onde estava vindo aquele sentimento, mas como tudo em sua vida atualmente era uma sequência de novidades, apenas evitou de pensar demais sobre o fato, e aproveitou a sensação menos pesada no peito, que lhe permitia respirar sem tanta culpa. Descartou as luvas plásticas, e respondeu a pergunta de Didier com um aceno positivo:

-- Lhe chamei justamente para isso. Fique a vontade. -- Pontuou apenas colocando parte das coisas que tinha usado em seu devido lugar, estava acostumado demais ao modo de trabalhar na cozinha, por isso ia cozinhando, lavando e arrumando, em ponto, que ao terminar o preparo da comida, o local em si estava praticamente todo limpo; Após guardar suas facas de uso pessoal de volta na maleta depois de estarem devidamente higienizadas, acompanhou Didier sentando-se na mesa da cozinha do dormitório. Esperou que ele lhe atestasse se estava bom, ou apenas aceitável, dado as suas circunstâncias atuais não ficaria surpreso se a comida não estivesse tão boa, mas também tinha consciência que era muito mais exigente que a média de pessoas que conhecia:

-- E então? está comestível? -- a pergunta foi feita com genuíno ar de dúvida, como se houvesse a possibilidade da comida está ruim, e não o charminho costumeiro que o moreno mais novo costumava jogar, quando bem sabia que a comida estava impecável.

Didier

Com o aceno positivo de Renaud, Didier pegou o garfo, se perguntando por onde começar a provar os pratos preparados. Enquanto isso, o moreno pelo visto iria terminar de arrumar a cozinha. O loiro deixou de focar no pretenso Chef e começou cortando um pedaço de carne, comendo com o molho e os legumes, levando a boca rapidamente. Como não era surpreendente, considerando que o chef era Renaud, estava gostoso.

Aproveitou para pegar um pouco do outro prato também, tanto do frango quanto do arroz, dando uma garfada generosa. Suspirou feliz com a comida igualmente saborosa, supondo que mesmo que agora estivessem bonitas, Renaud não deixaria de fazer algo bem preparado.

Para se certificar, tirou mais um pedaço de cada prato, e depois mais outro, comendo-os intercalados, até que ouviu a voz do moreno atrás de si, lhe questionando se estavam bons. Levantou os talheres e olhou por cima do ombro para Renaud, encarando-o longamente ao notar que era uma pergunta genuína.

- Não. – respondeu com um quê irônico, deixando ele ver ambos os pratos pela metade enquanto colocava os talheres no lugar. – Están deliciosos.- foi mais honesto, limpando os lábios com o polegar. – Pensé que se aprendesse a arrumar os pratos, esqueceria como cozinhar. Pero me alegro saber que sua comida ainda é boa. Fazia tempo que não comia.

Renaud

O não irônico de Didier foi bem fácil de captar e se pegou desenhando um sorriso simples nos lábios. Vê os pratos pelas metade lhe dava uma sensação de dever cumprido, e era tão curioso tomar ciência dessas pequenas conquistas que se sentia um pouco uma criança por ter de reaprender a lidar com questões básicas de convivência:

-- Se eu lhe disser que eu tinha preguiça de arrumar os pratos você acredita? -- Comentou de forma despretensiosa: -- Eu não gosto tanto de alta gastronomia porque é muito cuidado com a apresentação pra uma comida de gosto duvidoso… mas agora vejo que é divertido assistir as outras pessoas surpresas ou tirando fotos dos pratos “bonitos”. -- comentou em tom de brincadeira, embora houvesse um ar de cansaço pairando sobre o Blanco, ainda assim dava pra notar que ao menos naquele momento o moreno mais novo não estava tenso:

-- Eu vou comer, lavar os pratos e podemos ir… -- ele fez uma pausa breve como se sentisse um leve desconforto em perguntar se ele faria sua barba em seu quarto ou no do loiro: -- Para o seu quarto. Se possível claro, o meu está…. um pouco bagunçado.

Claro que se sentiria um pouco estranho no quarto de Didier, mas tão pior seria se o loiro fosse no seu próprio quarto pra ver o espelho quebrado, os remédios em cima da bancada, papéis de trabalho e pilhas de atividades acumuladas. Não sabia se queria dividir aquela bagunça toda com o loiro ainda, talvez se sentisse muito invadido e forçado a explicar cada coisa, o que não queria naquele momento.

Pegou uma porção da própria comida, e tratou de se alimentar, da que não tinha álcool, embora não houvesse qualquer gosto na comida, decidiu confiar no que o loiro tinha lhe dito, se estava bom, então confiaria, mesmo que seu paladar estivesse lhe traindo nos últimos dias.

Didier

Didier arqueou a sobrancelha quando Renaud falou que a única coisa que o impedia de fazer pratos bem decorados era preguiça.
- No, señor. Não venha me decir ahora depois de anos fazendo pratos mal montados, só porque aprendeu a fazer todos bonitos que antes só tinha preguiça. No, no. – brincou, apertado os lábios, esperando Renaud também ter sua chance de comer. – E deixe que eu lavo os pratos. Comi metade da comida, poupe sus manos para a prova.

Antes que Renaud tivesse a chance de reclamar, pegou tudo que estava sujo. Tirou alguns depósitos de uso comum e etiquetas dos armários da cozinha comunitária do dormitório para guardar os poucos que sobraram para perguntar a Renaud se poderia petiscar depois com os filhos e rapidamente começou a lavar panelas. Só deu uma pausa quando ouviu o moreno falar sobre onde iriam fazer a barba dele.

Didier olhou por cima do ombro, lembrando que seu quarto estava genuínamente bagunçado também, já que desde a briga com o moreno, não tinha tido energia para nada. Tinha projetos de trabalho e livros marcados na mesa e no chão, suas roupas estavam em todo lugar, seus sapatos fora de ordem e sua cama ainda nem tinha sido feita. Mas sabendo que Renaud deveria ter também suas ressalvas quanto a lhe deixar entrar no quarto, supunha que não podia mais ficar omitindo esse lado de si.

- Si... desde que não se importe com mi desorden tambíen. – comentou, terminando de lavar todos os pratos e aproveitando para pegar os que Renaud já tinha comido. – Vamonos?

Renaud

Comeu um pouco ansioso de ter comentado algo que chateasse Didier, mesmo que estivessem agora em pé de igualdade, e não existisse uma obrigação de agradar o outro, não queria deliberadamente fazer algo que o chateasse. Mas para sua surpresa, as reações do loiro foram bem suaves, e aquilo lhe deixou menos tenso com toda a ideia de ir ao quarto do loiro. Terminou sua refeição e deixou que Didier tomasse conta das arrumações da cozinha, antes de rumarem de volta aos quartos dos dormitórios:

Poderia começar aquela frase com um pedido de desculpas por estar invadindo o espaço pessoal do outro, ou pedir desculpas por não ter deixado seu quarto disponível para a atividade em si, mas no fim, não falou nada imediatamente, tentando afastar aquela confusão mental: -- certamente não vou me incomodar.

Chegou ao quarto do loiro, e novamente, foi acometido pela recordação do dia que foi tentar falar com ele, e não conseguiu nem caminhar aquele curto espaço, no entanto com o próprio loiro, abrindo caminho, se sentiu mais impelido a seguir. Parecia fazer uma eternidade desde a última vez que estivera naquele ambiente, as roupas fora do lugar, os livros amontoados, a cama mal forrada, eram geralmente sinais de quando Didier estava chateado com sua mãe, ou cansado demais depois das vadiagens de rua, mas daquela vez sabia que não era por nenhum daqueles motivos, tinha sido ele que tinha causado aquela confusão toda. E isso lhe fez ficar estático no meio do caminho, com as mãos nos bolsos da calça de moletom, como se realmente não soubesse para onde se guiar dentro daquele ambiente:

-- Por onde quer começar? -- perguntou porque realmente não sabia como prosseguir ali, queria se sentir mais bem vindo, mas era notório que existia aqueles mesmos cacuetes de quando era criança, e não tinha permissão de estar nos lugares e simplesmente não queria incomodar ou fazer algo errado de propósito.


RE: [Drive] Regalo [Didier; Renaud] - Lil - 09-01-2021

Didier

Imaginou que seu quarto não fosse ser exatamente o local mais confortável para Renaud, já que depois de tanto tempo juntos, ele deveria reconhecer que a bagunça era um sinal de que tinham outras coisas em sua cabeça. E o mais recente era o próprio Renaud e aquela briga desconfortável dos dois. Fora isso, não era como se tivesse permitido o outro se acomodar de fato em seu quarto em nenhum momento. Talvez fosse um bom lugar para começar, e ao mesmo tempo, um péssimo lugar.

- Pode sentar donde quieras, desde que eu possa me mover perto de você. El baño parece ser um lugar melhor. – respondeu, convidando Renaud para fazer o que quisesse. Em geral, estava acostumado a ser mais mandão, mas talvez fosse melhor evitar, já que o moreno tinha particularmente lembrado que não era um cão, e portanto não precisava obedecer nada. – Recogeré las cosas. – avisou, indo um instante no banheiro para fazer um pequeno kit de barbeiro. Então parou um instante. – Cera ou barbeador? – perguntou, se questionando como deveria fazer a barba dele.

Só tinha que dar um jeito na falta de jeito dos dois. Incomodava-lhe um pouco saber que tinham todos aqueles dedos. Mas não queria deixar Renaud desconfortável de novo.

Renaud

O jovem Blanco estava um pouco perdido, tinha aceitado aquele convite, tinha decidido o que queria, mas sentia-se sem fôlego, como se estivesse fazendo as coisas de um jeito errado, mas porque era errado? Tentou reduzir um pouco a velocidade dos pensamentos para não ter uma crise de ansiedade ali mesmo, ouviu o comentário de Didier sobre sentar onde quisesse, e ergueu o olhar para o loiro. Em verdade, estava ali só por causa da barba? ou porque tinha o convidado para experimentar pratos pela manhã? Porque estava ali afinal?

O pensamento deu voltas na cabeça e quando Didier parou para lhe perguntar se queria cera ou barbeador, apenas não soube o que responder, e teve de respirar fundo. Estava fazendo as coisas errado, estava invertendo as prioridades ali, tinha criado coragem de chamar Didier naquele domingo, não porque quisesse ele em alguma daquelas atividades comuns, não somente isso, era principalmente porque queria passar tempo com ele, de novo, porque sentia falta.

Caminhou no quarto até perto do loiro, e estendeu a mão até a dele, esperando que ele lhe retribuísse o gesto, e acariciou a mesma, encarando-o mais de perto, do que tinham estado aquela manhã toda: -- A minha barba pode esperar um pouco, afinal ela não tem como fugir daqui. -- Nem forçou o tom de brincadeira, embora estivesse fazendo algum gracejo: -- Em verdade, eu não sei bem como dizer isso… mas podemos sentar e ficar um pouco juntos? Eu… tenho algumas coisas que eu não tive cabeça pra falar antes… que talvez você queira saber… já que você mesmo disse que queria poder se preocupar comigo.

Apertou a mão de Didier um pouco, como se estivesse pedindo “por favor” com o gesto, não sabia exatamente o que queria falar, mas queria estar perto do loiro de novo, sem todos aqueles estranhamentos, e assim como tinha conversado no dia anterior com Sasha e Isaac, não conseguia ser só um “amigo” pra Didier, queria se sentir próximo de novo. Mas a sensação de que era uma péssima companhia por estar desgraçado da cabeça só lhe deixava mais inquieto:

-- Só peço um pouco de paciência comigo, nem eu tô me aguentando desse jeito…!

Didier

Estava indo pegar tanto o barbeador quanto a cera, quando, distraído procurando o barbeador novo, sentiu Renaud pegar em sua mão. Talvez porque estivessem com todos aqueles dedos um com o outro, o toque pequeno do moreno fez com que prontamente fechasse a mão em torno da dele também, enquanto seu coração parava por um milésimo de segundo. Só então voltou-se para ele, ouvindo aquele gracejo sobre a barba que também não lhe deu vontade de rir.

Didier observou Renaud de perto, notando nele aquela ansiedade quase infantil de quando ele ainda não era nem um pouco bom com as palavras. E embora naquela época isso lhe desse uma vaga sensação de superioridade a Renaud, por fingir ser mais confiante, agora podia se igualar a ele no quão estranho era não saber o que fazer naquela situação.

Apertou os lábios de leve quando Renaud lhe fez o pedido para que sentassem um pouco juntos para conversar, e deixou o pescoço pender um pouco para o lado, antes de afirmar com a cabeça.

- Podemos sentar juntos, si. – Didier respondeu, entortando de leve o lábio enquanto observava a mão dele e a sua de esguelha. Enquanto guiava o moreno para que sentasse na cama, tomou a liberdade de entrelaçar os dedos nos dele mais firmemente, o que amenizou sua expressão por um instante. Porém Didier não entendeu exatamente o jeito que Renaud achava que estava se portando e pedia paciência por. – No sé lo que pasa contigo ainda, pero, se for sobre os gestos... perdoname também. – mostrou a mão, ainda incerto se isso tinha deixado Renaud desconfortável - Admito que ainda vou estranhar un poco esse jeito quisquilloso entre nosotros. Queria poder só morder sua barba ao invés de fazê-la... – sorriu com o canto da boca brevemente, sabendo que estava deixando Renaud desconfortável. - Pero, se algo que lo hice te deixou desconfortável, digame sin demora. Estou feliz... de estarmos nos falando de novo... e pelo convite... então não me deixe meter la pata. – confessou com certa apreensão.

Renaud

O fato de Didier ter lhe segurado a mão de volta com urgência lhe deu um alívio enorme, e aquele sentimento se alastrou em seu peito, deixando o ar mais fácil de entrar, deixou que os dedos fossem entrelaçados e seguiu até a cama onde se sentou acompanhando o loiro mais velho. Não afastou a mão do outro, e o observou atentamente enquanto ele falava, e não escondeu a surpresa quando ele lhe disse que queria morder sua barba, mas lhe deixou ainda mais surpreso o fato dele estar incomodado com a distância, não queria ser invasivo e cobrar uma intimidade que estavam reconstruindo ali, não queria atropelar as coisas, e pelo visto os dois estavam sendo tão cuidados ao ponto de se tornar desconfortável.

Segurou a mão de Didier com ambas, e levou até o próprio rosto, roçando a barba rala, por fazer, sentindo o calor da mão do outro, e beijo-lhe os dedos de forma carinhosa, porque tanto ele quanto o loiro a sua frente precisavam da afirmação daquela proximidade:

-- Bem… eu acho inusitado essa vontade de morder… mas não nego que provavelmente eu gostaria que fizesse. -- respondeu ao comentário engraçado do outro, embora ainda não conseguisse de fato rir: -- e você não fez nada de errado, é só porque eu não quero ser invasivo com você, nem forçar qualquer coisa… mas também não sei “ser distante” porque eu me acostumei demais com você perto de mim… e bem… eu não quero ser só seu amigo. -- comentou aquilo porque tinha bastante consciência de como se sentia em relação ao loiro, mas também tinha tantas coisas acontecendo sobre si mesmo, que não queria se jogar como uma caçamba de problemas sobre o outro, justamente porque gostava demais dele para fazer isso:

-- Quando a gente conversou eu disse que eu não tinha como lhe ajudar a resolver os seus problemas porque eu mal estava dando conta dos meus…-- o moreno falou, desviando o olhar para a mão de Didier que mantinha bem acolhida entre as suas, mas suspirou fundo, erguendo os olhos pra encarar o outro diretamente: -- A questão é que eu estou doente, e em tratamento, e eu não quero simplesmente jogar meus problemas em você, porque você tá com os seus pra lidar, eu me sinto um peso, e fico com receio de você cuidar de mim por pena, por mais que não haja nenhum comportamento recente seu que me dê motivos pra pensar assim… mas é fato, que a minha cabeça… pensa sempre no pior… como se eu estivesse incomodando você e todos ao meu redor… como se eu não fosse necessário, fosse algum tipo de estorvo… por isso eu não comentei que estava tão mal…!

A voz do Blanco foi diminuindo como se estivesse morrendo na garganta, como era difícil falar daquelas coisas.

Didier

Didier suspirou aliviado que Renaud não negava sua vontade de mordê-lo ou o desejo de ficar próximo, até lhe devolvendo o carinho com um beijo nos dedos que aqueceu o loiro por inteiro, e lhe deixou ansioso para poder de fato morder aquela barba por fazer. Porém o que lhe deixou com o sentimento renovado de que, embora estivessem estranhos agora, achariam seu próprio ritmo, foi a confirmação de Renaud de que ele não queria ficar naquela de amigos, e tampouco queria ficar longe de Didier. O espanhol até suspirou aliviado, e antes que percebesse, estava com a cabeça sobre o ombro ao seu lado, quase se aninhando nele, porque sabia que ele tinha o que falar ainda, mas precisava daquela proximidade.

- Gracias a Dios… - falou mais para si mesmo, roçando de leve o rosto no ombro de Renaud, levantando apenas porque tinha que ouvir o que ele iria dizer sobre a situação complicada que estava passando. Sabia sim que ele estava com problemas, ele já tinha mencionado isso, mas não entendia a extensão dos mesmos. Mas supunha que era algo grave, já que ele estava tomando remédios, e tinha emagrecido naquele período. Sentiu o coração apertar, porque Renaud nunca lhe parecia tão indefeso e pequeno, ou pelo menos não há muito tempo. O que quer que ele tivesse, era algo muito alienígena para Didier, uma vez que não o via nunca em médicos. Aos poucos, entretanto, talvez mesmo sem a explicação direta do moreno, começou a entender que o via sim em médicos. Regularmente com o doutor Vlahos. E que o doutor era um psiquiatra, e portanto, podia receitar remédios. – Ahh... está sendo tratado pelo doutor Vlahos... - aos poucos começou a perceber. – Que tienes, Renaud...?

Perguntou porque queria entender, mas antes mesmo que ele respondesse, franziu a testa e sacudiu a cabeça, e abanou a mão livre na frente do corpo como se pedisse para que Renaud parasse.

- No. No, no, no, no...! Primero, no eres un peso, Renaud. ¿Cuántas veces te lastimé y aún me quedo a mi lado? Sé que era un peso a propósito para ti. ¡Te debo el cuidado que tomaste conmigo! No porque me da pena. Te conozco lo suficientemente bien como para saber que no necesitas mi piedad. Quiero saber lo que tienes y ayudarte porque necesito devolverte la devoción que me diste, porque te quiero igual y porque quiero estar a tu lado, porque me gustas. Sé que no soy confiable, y no entiendo lo que hace tu enfermedad, pero quiero ayudarte, ¡cómo puedo...! No eres un estorbo. Tu eres...– Didier disparou sem pensar, tão sem pensar que esqueceu que falava francês, porque foi muito estranho ouvir de Renaud aquele tipo de sensação de se sentir insuficiente. Quando deu por si, parou subitamente, encarando o moreno. – Desculpa... eu não queria interromper... só... explique mais.

Renaud

O jovem Blanco sentiu o alívio em todos os gestos feitos por Didier, no final das contas embora quisesse dar espaço para que as coisas se acalmassem, talvez não fosse da natureza dos dois dar tempo para as coisas. Renaud tinha urgência em ocupar aquele sentimento de vazio que lhe perseguia como se fosse um ser estranho e desnecessário, e Didier precisava de afirmação de que sua proximidade não machucaria o moreno mais novo. Era algo que só se resolvia se falassem mais, e conversassem sobre os pensamentos que lhe assombravam. Deixou que o loiro se aninhasse ali perto de si, e retribuiu a proximidade acariciando as mãos com a ponta dos dedos.

As palavras ditas em espanhol lhe soaram tão familiares como se o idioma fosse o seu, a voz de Didier era mais natural falada daquele jeito, era muito ele, e já tinha se pego durante esses dias num misto de receio é saudade de ouvi-lo falar daquela forma. Mas indo contra seus pensamentos negativos, tudo que o loiro lhe falava eram palavras de apoio, e aquilo lhe fez suspirar de alívio, e desenhar um sorriso singelo nos lábios finos:

-- no hay necesidad de disculparse -- comentou no seu próprio jeito de falar espanhol, que o outro conhecia tão bem. Respirou fundo, sentindo o corpo um pouco tenso, e as mãos levemente perderam a temperatura pela ansiedade que lhe cortava em tratar do assunto ali, com o loiro: -- e sim, eu estou sendo tratado pelo Dr. Vlahos, apesar dele me acompanhar desde outubro no ano passado só em janeiro que eu comecei a levá-lo a sério, mas… foi só agora, há algumas semanas que eu percebi que não estou dando conta de mim, e fui pedir ajuda.

Falar com todas as letras que tinha ido pedir ajuda, era algo que devia no mínimo surpreender o loiro, ele sabia pela convivência desses anos que o jovem Blanco definitivamente não pedia ajuda, nem quando de fato precisava dela. Era um teimoso nato, e nisso os dois, tanto Renaud, quanto Didier se entendiam muito bem:

-- eu… eu tenho depressão… e isso está influenciando todo resto… comer, dormir, acordar, fazer qualquer coisa… e desde semana passada eu estou com uma medicação pra controlar meu humor… pra evitar que eu tenha crises como as que eu tive e fui parar na enfermaria… -- encarou o loiro, e embora quisesse parecer muito sólido e muito firme em dizer que estava em tratamento, mas falar daquilo lhe deixava tão consciente de que não estava bem, que era cansativo. Estava definitivamente cansado de estar doente e de ter que falar sobre isso para os outros, pois parecia um atestado de incompetência em gerenciar a própria vida.

Renaud apertou as mãos do loiro entre as suas, sentindo agora mais nitidamente o contraste das duas, as suas estando frias, enquanto a de Didier lhe pareciam tão quentes:

-- eu queria poder lhe dizer que as coisas estão indo bem e que logo tudo isso vai passar… mas a verdade é que eu não faço ideia de quando eu vou melhorar… eu só me sinto cansado… como se todo o sono do mundo não fosse suficiente pra dar conta desse cansaço… é uma sensação horrível…

Retorceu a expressão numa leve careta, porque era ainda pior quando colocava aquilo em palavras.

Didier

Para Didier, a ideia de Renaud, que costumava ser tão independente, ir pedir ajuda ao doutor Vlahos espontaneamente tinha sido bem marcante. Porque a única memória que tinha dele lhe pedindo ajuda para qualquer coisa tinha sido na ocasião do recital, talvez, e podia ver o quão ansioso ele estava com a ideia da mãe dele lhe ver cantar. Claro que ali era algo de crianças, agora os dois eram mais velhos, e Didier sabia que não era pouca coisa para abalar o moreno.

A medida que o francês começou a explicar, tudo que tinha acontecido ficava cada vez mais claro. Sentiu também uma pontada de culpa por ter brigado com ele quando provavelmente ele já estava naquele estado – supôs que também fosse sua culpa ele ter afundado um pouco mais naquele sentimento de exaustão – mas lhe restava reparar seus erros. Nem que fosse só encarar Renaud de volta e apertar de volta a mão dele com segurança de que estava ali por ele.

Virou o rosto de leve, pensativo sobre o que Renaud estava lhe dizendo, deixando os cabelos claros penderem um pouco sobre os ombros.

- No sé que fazer para ayudarte, no sé mucho sobre depressão, pero... farei o possível para lhe ayudar. No me gusta estar a oscuras e não fazer nada por você. Por eso, gracias por me decir todo. E continue me deciendo... estoy com você. De verdad. – respondeu para o moreno, colocando sua mão sobre as dele e trazendo ambas para perto de si, beijando-as longamente tal como o moreno tinha feito antes. – Tambien no sé se não está indo bien... pero para mi, ver você admitir o que sente é... diferente. Pero... no es malo. Porque agora te conoszco mejor... e cada vez que te conozco un poco más... tengo certeza que vou estar aqui por você, Renaud. – encostou brevemente a testa nas mãos que ainda segurava próximo ao rosto, e então devolveu elas para o colchão, para poder se aproximar um pouco. – E se estiver cansado, hambriento, o que sea... pode me llamar o vir aqui. Estoy aqui por ti.

Colocou uma perna por cima da de Renaud, e soltou-lhe as mãos para pegar o rosto do moreno, os polegares acariciando próximo a mandíbula.

- Pero só que sei fazer é eso... – aproximou-se do moreno, e então, mordiscou dele a linha do queixo, como se estivesse mastigando a barba dele. Então aproveitou para lhe distribuir alguns beijos pelo rosto, aproximando-se aos poucos e abraçando o corpo do moreno firmemente, até encará-lo daquela proximidade. Talvez por ter certeza que não era uma atitude exatamente normal depois que alguém dizia que tinha um problema tão sério, encarou o moreno com um ar preocupado, sem perceber que o rosto estava um pouco vermelho de nervoso, esperando que não tivesse tomado uma atitude errada. – Ayuda...?

Renaud

O moreno mais novo estava ansioso com a reação de Didier aos seus comentários, até porque o que estava falando era apenas a verdade, estava cansado de ficar constantemente se mantendo sólido e firme quando de fato estava bem longe disso. Era tão difícil se deixar cuidar pelos outros, mas também tinha percebido como era uma necessidade inerente de seu interior “ser cuidado” e principalmente de ter alguém que se importasse consigo. Encarou o loiro mais velho, porque era sua forma de ter a percepção de que ele estava absorvendo suas palavras, e ter as mãos dele em torno das suas lhe dava ao menos segurança de que ele estava lhe ouvindo. Se iria compreender, aquilo já era outra questão, e dependia mais do outro do que do próprio Blanco.

Sentiu o corpo todo estremecer quando o loiro mais velho lhe devolveu a carícia em suas mãos, o toque dos lábios de Didier sobre a superfície de sua pele, daquela forma tão carinhosa, lhe aqueceu por dentro, preenchendo-o com um tipo de sentimento indescritível. Era o tipo de emoção que gostaria que ficasse em si por muito tempo, mas era algo tão singelo, tão simples, aparentemente tão momentâneo que poderia sumir a qualquer momento se não o envolvesse com as mãos de volta da forma correta.

O Jovem Blanco não respondeu nada imediatamente, abriu e fechou a boca, mas não formou nenhuma frase, ouvir de Didier que queria saber como Renaud se sentia, e que aquilo servia para aproximar os dois, era uma novidade, e algo que em tempos passados, acharia que só serviria para afasta-los. Ter a realização desse momento, fez com que o sangue circulasse mais rápido por todo o corpo, junto com a sensação de calor e conforto, e provavelmente o jovem Blanco não tinha como perceber, mas estava com o rosto corado.

Não ofereceu qualquer resistência para a aproximação do loiro, e ao invés de sentir-se nervoso, a medida que Didier segurava seu rosto e lhe acariciava, sentiu todo o corpo relaxar, os ombros cederam um pouco, e a respiração suavizou em um suspiro curto. Fechou os olhos, e apenas se deixou ser conduzido pelas carícias do mais velho. Inclinou a cabeça de lado, dando passagem para que ele lhe distribuísse os toques pelo rosto, e em contrapartida envolveu a cintura masculina do outro, acariciando o mesmo com os polegares. Quando Didier finalmente lhe perguntou se aqueles gestos ajudavam, o encarou de perto, encostando a ponta do nariz, devolvendo um pouco das carícias recebidas:

-- ¡Tu eres mi sol Didier! -- murmurou para o outro, levando as mãos até a curva do pescoço do outro, acariciando a região, mantendo aquela proximidade, nem percebeu que os olhos estavam marejados, e embora quisesse muito chorar, não estava triste. Nem sabia como nomear aquele sentimento, mas não era devoção, não era deslumbre, estava sim, em parte todo machucado e dolorido por dentro, e sabia que estava triste por muitas coisas que vinham lhe ocorrendo; mas naquele momento, naquele quarto, o jovem Blanco queria chorar, queria muito se deixar desmontar ali nos braços do outro, porque podia, e porque sabia que o outro iria lhe segurar.

Aproximou os rostos ainda mais e uniu os lábios, sentindo as respirações se cruzarem, o coração saltou no peito, mas estava leve, como não sentia em muito tempo. Respirou fundo, contra a pele do outro, sentindo que uma lágrima estava fazendo caminho pela lateral do rosto até o queixo, mas os lábios se curvaram pra cima em um sorriso singelo. E manteve o beijo simples, acariciando a boca do outro com a sua própria, em um gesto cheio de carinho e nenhuma malícia.

Didier

As mãos em sua cintura e aquelas carícias suaves dos polegares lhe deram uma vida nova, diante do medo que tinha de estar estragando tudo aos olhos de Renaud. Se sentiu um pouco mais livre para distribuir aquelas carícias, mas não o suficiente para confiar que fazia mais bem que mal com as mesmas. No fim, foi quando viu o rosto corado dele e a expressão mudar daquele cansaço crônico para os olhos com um pouco mais de vida que seu coração disparou.

As mãos em seu pescoço lhe fizeram sorrir por um breve momento. Aquele tipo de carinho que tinha dado a Renaud era o tipo de carinho que estava mais acostumado a deixar para os meninos, porque era um carinho inocente. A diferença era que para o moreno, sentia cada um daqueles beijos e mordidas com todo o sentimento que há muito não confessava para ele. E a resposta dele certamente não podia ter sido melhor.

Didier crispou os lábios, apertando-os juntos e franziu a testa, sentindo que os olhos se encheram de água. Mas não eram lágrimas que queriam correr. Só estava muito feliz. Tão feliz que podia agora extravasar aquele tipo de gesto para o moreno e que ele lhe considerava algo tão brilhante em sua vida que merecia ser “o sol”. Abriu um riso largo, e deixou que ele lhe devolvesse as carícias bobas e singelas, fechando os lábios em um sorriso amplo ao sentir os dele roçando nos seus.

Por impulso, abraçou o moreno apertado, deixando que aquela distância fosse a mínima possível, pondo uma perna sobre a dele e enlaçando-o com a canela. Mas não queria mais do que aquilo naquele momento. Só queria aproveitar a proximidade e a liberdade para tocar Renaud novamente. E devolveu-lhe os beijos sobre os lábios, e sobre o rosto, e a testa, e a ponta do nariz, sobrancelha, pálpebras, cílios, e lábios. Os dedos afundaram nos cabelos escuros em um carinho singelo.

- Si soy tu sol, puedes ser mi cielo ... porque no puedo estar en otro lugar que no sea contigo. – Didier respondeu baixinho, então franzindo a testa e encarando Renaud com a cara de quem tinha ficado muito embaraçado com as próprias palavras. – Não ria... e-eu... ainda estou aprendendo... a ser... tão bom com as palavras como você! É de coração...! - encheu as bochechas involuntariamente, disfarçando a própria vergonha enquanto roubava mais um beijo dos lábios de Renaud.

Renaud

Como não sabia como descrever aquele sentimento, parou de tentar categorizá-lo, restava apenas aproveitar, era como abrir a janela de manhã e sentir a luz do sol entrar junto com a brisa salgada da praia pra afastar as sombras dos seus pensamentos pessimistas. Estar com Didier em outros tempos era um misto de confusões e desentendimentos, onde na mesma medida que era bom, era desconfortável. E agora, mesmo que estivesse todo machucado por dentro, conseguia sentir aquele calor bom do outro perto de si, conseguia não se sentir sozinho, estando perto de Didier a quem amava tanto, mas tanto, que era difícil achar as palavras certas para concretizar o momento.

Se deixou conduzir pelas carícias do outro, o abraço forte, que lhe pareceu bem mais apertado do que de costume, lhe fazendo perder um pouco o ar, até se distraiu que tinha choramingado, ou mesmo que estava plenamente corado com o sangue circulando rápido no rosto. Sentiu as madeixas escuras serem acariciadas, com carinho, e sem malícia, estava sendo tratado como gente e como uma pessoa querida, e ter percepção disso lhe dava uma vontade imensa de chorar ainda mais. Sentia o ar que lhe faltou no abraço se embolar na garganta. E retribuiu o abraço, envolvendo o corpo de Didier, mas ao invés de apertar com igual vigor, apenas o acariciou com o cuidado, de quem zela por algo precioso, esfregou o rosto contra o rosto do outro, pescoço e ombro, carinhoso, e até certo ponto, carente daquele tipo de afeto:

-- Não tenho como rir de você…pudera, olhe pra mim! Eu estou tão feliz que finalmente posso lhe amar… que eu posso sim demonstrar tudo… tudo…! Que não preciso mais guardar esses sentimentos só pra mim... que podemos dividir… e isso é tão surreal, que eu nem acho palavras boas o suficiente pra lhe dizer isso… da forma como e gostaria pelo menos… -- respirou fundo contra pele do outro, ainda mantendo aquela proximidade, e por mais que quisesse sentia os olhos ainda úmidos de quem se colocaria a chorar a qualquer momento. Mas respirar fundo, lhe fez engolir momentaneamente aquela vontade iminente de chorar, muito embora o coração estivesse acelerado demais com aqueles sentimentos novos que estavam ali. Renaud ergueu o rosto para encarar Didier de perto e manteve os braços em torno do corpo do outro para se certificar que eles estava ali junto e isso era real e não um sonho delirante:

-- Sabe… uma vez o Zac me disse que não entendia como eu e você conseguíamos lidar com um relacionamento vago e sem limites definidos, como o que a gente tinha… e eu na época desdenhei… mas na verdade, até que ele estava certo. -- respirou fundo, como quem tomava coragem enquanto organizava as ideias pra poder falar, puxou a mão do loiro e entrelaçou os dedos puxando-a para perto dos lábios para beijar e mordiscar sobre os mesmos: -- Eu não tenho condições de ficar esperando as coisas tomarem um rumo certo… ou mesmo ficar esperando aprovação dos outros… agora eu preciso de certezas… que as coisas sejam concretas… e principalmente, preciso de você... Didier, quer ser meu namorado...?!

Didier

Quando sentiu as mãos de Renaud passearem tão carinhosas por suas costas, lhe tocando como se fosse algo muito valioso, que o sentimento de coração aquecido ficou ainda mais intenso. As palavras de Renaud foram como um choque em contraste com aquele toque suave, porque não conseguia entender em que ponto daquele relacionamento torto dos dois, tinham impedido um ao outro de amarem e serem amados como mereciam. Aliás, sabia sim o porquê. Não sabia amar, além do carinho supérfluo que tinha para com os filhotes, e a amizade estranha e distante com Isaac, e o sentimento hesitante, receoso e intenso que tinha com Renaud. Como podia amar, e deixar que ele lhe amasse, e amá-lo se todos os sentimentos de amor que tinha sentido antes de chegar em St. Clavier tinham sido tão tortos? Mas agora podia sentir intensamente as palavras de Renaud. E era por isso que tinha tanto medo de sair de St. Clavier, e estava tão irritado... ali é que tinha aprendido o que lhe era mais precioso.

Não tinha nem o que responder quando o moreno lhe encarou diretamente e lhe lembrou, com outras palavras, que tinham perdido tanto tempo com aquele relacionamento esquisito dos dois. Mas o que podiam fazer naquela época? Não que fossem mais maduros agora para saber o que estavam fazendo - seria mentira -, mas agora que podiam ver o que tinha de errado, estavam em passos de bebê tentando fazer o certo.

Sentiu as mãos mais uma vez ir aos lábios de Renaud, ele lhe mordiscando os dedos num carinho singelo. Até concordava com o começo da fala dele, mas não imaginava certamente que rumo elas tomariam, com medo de que ele fosse lhe reafirmar a dolorosa verdade de que não sabiam o que estavam fazendo. Mas foi exatamente o contrário.

- ... Si... si! Lo quiero! - respondeu após alguns segundos desnorteado com o pedido do moreno. Encarou-o longamente, a respiração lhe faltando em uma sensação esquisita de ter o corpo assomado por algo que lhe travava, mas seu corpo todo parecia pesar tal qual uma pluma. Estava paralisado. Mas o que lhe paralisava era felicidade. De repente, levou ambas as mãos ao rosto de Renaud, e beijou-lhe os lábios mais uma vez, um suspiro sonoro de alívio escapando após a carícia. - Si...

O corpo pareceu se desmontar aos poucos, derretendo sobre Renaud em um abraço.

- Zac não entendia, pero sé que quando empezamos... no sabiamos como ser namorados... acho que ainda não sabemos... pero ahora pelo menos percebemos o quanto somos importantes um pro outro... nos faltava la honestidad. - Didier se permitiu encostar a cabeça no peito de Renaud, os braços agarrados a ele. Queria só continuar naquela proximidade. - Errado como fosse... você foi meu primeiro namorado... e agora é o segundo... se siente correcto. - sentiu engasgar as palavras na garganta, pensando que poderia ter sido tão melhor para os dois desde o princípio. Mas não podia mudar o cão e o dono que foram. E os abusos. Mas também tiveram bons momentos antes, que não queria esquecer. - Perdoname por também não ter feito esse pedido antes... apesar de muito querer... - respirou fundo, erguendo o rosto para encarar Renaud, os olhos marejados, mas ainda segurando as próprias emoções, porque aquele momento era muito feliz para desperdiçar com lágrimas. - Quer ser meu namorado também, Renaud...? - brincou, sabendo que a resposta era positiva. Mas tinha a necessidade de replicar a pergunta, porque aquela vontade - e agora aquele relacionamento - era uma via de duas mãos.

Renaud

Para Renaud as reações de Didier não eram difíceis de ler, conseguia entender nos suspiros e na forma como ele lhe encarava que havia alívio na expressão do outro. Embora tivesse ficado nervoso em organizar as palavras para verbalizar seu pedido, era como se o nó na garganta tivesse desatado e agora tudo estivesse solto e leve. Era estranho, mas não era um estranhamento ruim, e se sentir “leve” era algo que precisava nesses últimos dias de turbulência. Retribuiu o beijo simples que recebera nos lábios, e era bom poder retribuir e ser retribuído, parecia agora tudo tão simples, e fácil de fazer e aceitar, que se sentia bobo de ter complicado isso antes. Mas o jovem Blanco tentava ao menos ser paciente consigo mesmo, relacionamento sérios nunca foram sua especialidade nem de longe, teria de aprender tudo agora que já tinha 20 anos nas costas.

Guardou bem o corpo de Didier entre seus braços, acariciando-o com a ponta as palmas das mãos de forma carinhosa, deixando que ele se aninhasse em seu corpo, e apesar de ter se sentindo tão fraco e patético ao longo dos últimos dias, ao menos naquele instante, se sentia plenamente capaz de dar carinho. E o pensamento lhe fez desenhar um sorriso simples nós lábios finos, e mesmo que não fosse plenamente expressivo, pra quem lhe conhecia, como o outro bem conhecia, perceberia facilmente que havia felicidade edificando aquele simples ato de sorrir.

—Sim. — respondeu simples e direto ao pedido feito pelo loiro: — eu já lhe disse ontem que estava desculpado, as outras coisas a gente vai aprendendo como fazer juntos, tudo é novidade pra mim também.

O jovem Blanco se aproveitou daquela proximidade, para levar a própria mão a de Didier, trazendo-a ao encontro de sua boca. Beijando-lhe o topo e roçando os lábios deixando um rastro morno até os nós dos dedos, e parou ali, arranhando com os dentes sobre o dedo anelar, envolveu o mesmo entre os dentes e pressionou a mordida com força o suficiente para deixar uma marca, mas sem de fato machucá-lo, em seguida, encarou o loiro sustentando um olhar escuro confidente: — Eu não tenho nenhum anel de compromisso, mas até a marca sumir eu lhe arrumo um… e eu não tinha planejado nada disso, mas agora, depois de ter falado… agora estou… feliz?! — beijou-lhe novamente sobre a área recém marcada: — É... eu estou feliz sim. — riu baixo com a constatação óbvia, pensar que eram namorados strictus sensus lhe deixava feliz, e ao mesmo tempo um pouco amedrontado, porque não tinha muitos parâmetros do que fazer, mas ainda assim só poderia seguir em frente, e queria seguir com Didier ao seu lado.

Didier

Se perguntava quando tinha sido a última vez que se sentiu tão seguro nos braços de alguém. Renaud, por muito tempo, lhe passava uma sensação de insegurança com o charme que disfarçava tantos sentimentos desagradáveis dentro de si, muito como sua autoconfiança e agressividade. Mas agora que estava sendo honesto, e que se sentia vulnerável de verdade perto do moreno, é que conseguia se sentir seguro naquele abraço firme, mesmo que em seu interior, Renaud se sentisse vacilante por conta da doença.

Deixou a mão livre para ele, sentindo um arrepio de antecipação perpassar seu corpo quando ele beijou seus dedos e roçou os lábios sobre sua mão. Os dedos que cravaram em seu dedo foram firmes o suficiente para lhe arrancar um “tch” prontamente, mas não puxou a mão, porque sabia que Renaud poderia morder bem mais forte, e mesmo assim, ainda segurava sua mão com toda delicadeza. E quando parou, notou a marca dos dentes nos dedos, e levantou os olhos azuis para encará-lo, sem entender inicialmente o que aquela marca significava.

A medida que ouvia que aquela marca era um anel temporário de compromisso, abaixou o olhar para observá-la de novo, sentindo o calor se espalhar dali para seu rosto. Sentia o rosto queimar. Mordeu o lábio inferior com aquele beijo carinhoso e a constatação que apenas se tornarem namorados causava tanta felicidade, para os dois. Mas há muito não via um sorriso em Renaud, e na verdade, não sabia inteiramente se tinha visto aquele sorriso nele vez alguma.

- Se essa marca sumir antes de você me voltar com um anel... eu vou até você e peço outra. Quantas vezes precisar! – falou com um falso tom de irritação, franzindo a testa para disfarçar o nervosismo, sem saber como reagir, e sem ideia do que fazer para retribuir o presente, já que estava longe de ser tão hábil ou romântico como bem sabia que Renaud conseguia ser. – Gracias...!

Segurou o rosto de Renaud com ambas as mãos, o que lhe deixou ainda mais encantado pelo dedo marcado pelo moreno, e atacou-lhe mais uma vez com beijos no rosto inteiro, como se fosse uma brincadeira, propositalmente derrubando-o sobre a cama abaixo de si. Respirou profundamente, apoiando uma mão de cada lado do corpo do moreno, e então, encarou-o por alguns segundos, cerrando os lábios e tomando-lhe uma das mãos. Levou-a até o próprio peito, tentando não entregar o sorriso óbvio que queria sair em sua boca.

- Você faz muito mal para o meu coração... mira como late, Renaud... – riu brevemente, fazendo um bico em seguida, num misto de sentimentos tão intenso que não sabia se queria mais rir ou chorar, mas antes de fazer qualquer um dos dois, se aproximou do moreno, usando uma das mãos para afastar-lhe os fios escuros da testa e beijar-lhe longamente ali. – Essa marca me vale mais do que qualquer coisa que possa me comprar... assim como você aqui me vale mais do que essa marca... mas não tenho nada a oferecer em troca... então espero que me aceite no lugar... – brincou, abrindo um sorriso largo. – Mi cariño... – beijou-o mais uma vez na ponta do nariz. – Mi cielo... – beijou-o brevemente sobre os lábios. – Mi novio. – jogou-se ao lado do moreno com carinho, aproveitando o conforto da cama e de se aninhar no corpo dele. – Te amo, Renaud.

Renaud

A verdade para o jovem Blanco era que não sabia ainda como lidar com aquela nova situação em que estava, nem sabia se tinham tido tempo o suficiente pra digerir todos os assuntos que tinham trocado, se estava digerindo bem sua terapia ou mesmo os remédios, mas tinha uma inquietude que lhe corroía por dentro, serpenteando seu estômago, lhe tirando o ar e deixando seu coração pequeno. Um conjunto novo de sentimentos, que tão brevemente tinha aprendido a nomear, e agora queria dividir com Didier cada uma de suas novas descobertas, era como se estivessem se conhecendo tudo de novo,embora já se conhecessem a tanto tempo. Era tudo muito novo, embora também fosse tão familiar. Mas conseguia perceber em si que a inquietação que sentia ia além de medos ou ansiedade mediante o desconhecido e um relacionamento sério, estava inquieto porque estava feliz em ter reciprocidade vinda de Didier Callas.

Não desenhou nenhuma reação física que impedisse o avanço do loiro sobre si, e se deixou ser preenchido por beijos, o cheiro de Didier lhe envolvia, e sabia, tinha convicção que dos lugares que queria estar, um deles era ali, entre os braços de seu amado, podendo demonstrar o que sentia, e ser aceito daquela forma. Por mais que soubesse que fosse um momento fugaz de paz, onde conseguia momentaneamente esquecer-se de suas lamentações, sabia que depois, quando tudo fosse tempestade e estivesse inquieto pela tristeza que lhe consumia, não estaria mais tão sozinho. Aos poucos conseguia absorver aquele cenário inédito de sua vida, onde por mais que se sentisse só, tinha pessoas, tinha amigos, tinha um namorado, tinha amor. Sorriu diante de cada carícia recebida, retribuindo carinho com carinho, e um olhar confidente para o outro.

Levou a mão até os fios longos de Didier, lhe acariciando e trazendo uma mecha do mesmo para farejar: -- eu me sinto um pouco ingrato, pois lhe falei tantas coisas difíceis ontem, e hoje estou aqui, trocando palavras doces com você, me permitindo lhe dar carinho, e me permitindo receber… -- o moreno mais novo suspirou longamente, encarando o outro na curta distância entre os rostos: -- eu me sinto de muitas formas, as vezes triste, as vezes feliz, e um infinito entre um e o outro, agora eu estou bem, porque estou aqui, com você, e é algo que queria a muito tempo fazer. Me sentir estando com você…

Renaud enlaçou o corpo de Didier, abraçando-o e o envolvendo, com carinho, com cuidado de quem estava envolvendo algo precioso, e ao mesmo tempo, farejou o outro, se deixando afundar no meio dos fios claros, como se estivesse se entregando aquele momento de intimidade: -- eu te amo tanto… tanto… que me falta ar… que me falta as palavras… mas eu sinto, e está tudo aqui Didier, eu sou essa bagunça, eu sou esse emaranhado de pessoa, mas eu sei que lhe amo, e que lhe quer.o mais que tudo, então obrigado por aceitar ter este Renaud na sua vida.

Talvez fosse apenas o fato de estar sensível pela medicação, fosse o fato de estar segurando tantas palavras por tanto tempo, se sentia piegas quando falava demais, nem sabia se podia considerar aquilo romantismo. Mas tinha plena consciência que estava sendo honesto, então se fosse para escolher, preferia não sentir vergonha das coisas que dizia, e nem de estar se expondo daquela forma. Afinal, agora eram namorados, devia ser pelo menos natural, que os dois se mostrassem mais vulneráveis do que sempre, e se não fosse comum aos outros, seria agora para eles.

Didier

Sentiu o toque de Renaud em uma das mechas de seu cabelo e observou o moreno longamente, um tanto ainda fascinado que todas as grandes complicações entre eles tinham se dissolvido em meio a tantos sentimentos agradáveis de agora. Não que tivessem sido palavras fáceis, ou decisões fáceis, e provavelmente não haveria tempo além do que esse tempo para que chegassem a essa conclusão de que se amavam, porque só naquele momento tinham tão pouco a perder que se permitiam ser frágeis o suficiente diante um do outro.

As palavras do moreno eram muito simples, mas sabia que aquelas emoções que ele descrevia iam muito mais fundo do que conseguia entender apenas com um adjetivo.Abraçou o corpo de Renaud ao seu lado, ouvindo como ele se sentia e também se questionando se havia alguma outra palavra para descrever seu estado senão feliz por estar ali com ele. Mas também havia incontáveis outros sentimentos que não conseguiria colocar em palavras, mesmo se quisesse.

As palavras de Renaud enquanto ele agarrava sua cintura lhe deram a impressão que sentiam exatamente o mesmo, e por conta disso, não conseguiam fazer jus em palavras as coisas que queriam dizer. Mas se ele se definia como uma bagunça de ser humano, o que era Didier então? Não se daria o trabalho a pensar demais sobre isso, afinal, queria aproveitar a respiração dele em sua nuca, que não sentia há tempo já, e aquela proximidade entre os dois, agora muito mais do que tinham antes.

- Nosotros somos pessoas bagunçadas... e compartimos dos mesmos sentimentos um com o outro...se hicimos cosas que magoaram um ao outro, se hablamos de coisas difíceis, precisávamos fazer isso. E se ahora trocamos palabras de amor, é porque precisamos... e fico feliz que você está entendendo o quanto é amado, Renaud. Porque me sinto amado con la misma intensidad, e agradeço que você também aceita essa bagunça de Didier ao seu lado. – comentou, levando a mão até a testa do moreno, tirando os fios escuros da frente da mesma, beijando-o brevemente ali. – Tengo mucho que quero fazer com você novo e de novo... quiero probar sua comida, afetar su barba, te abraçar mais, te beijar mais, te tocar mais... e quiero acordar no meio da noite com você ao meu lado... podemos, de ahora en adelante...? Não precisa ser agora… mas com o tempo...

Renaud

Se tinha algo que não imaginaria em muito tempo, seria estar deitado na mesma cama que Didier, falando sobre como se amavam, se gostavam e queriam estar sempre juntos um com o outro, e embora consumisse amplamente literatura romântica, até para o Blanco, parecia um desenvolvimento muito maluco de brigas, caos até a reconciliação. Mas essa era a vida real, longe da ficção onde as coisas seguem um plano de fatos sequenciados, a vida dos dois, era toda intrincada e cheia de altos e baixos, e por mais que quisesse fazer jus aos seus livros de drama preferido, não teria metade da disposição de passar dias ou anos longe do loiro buscando uma evolução mental e emocional que não chegaria tão cedo.

Se deixou ser beijado e abraçado, retribuindo cada gesto de afeto, reafirmando para o outro, que estava agradado daquela proximidade, e que ela era consentida para o outro. Aquela altura tinha esquecido que precisava arrumar sua barba, e a proposta de passarem mais tempo juntos, inclusive dormirem juntos, não no sentido sexual da coisa, lhe tirou uma expressão de surpresa, bem clara nas sobrancelhas arqueadas. O moreno mais novo, desenhou um sorriso simples nos lábios finos:

-- Mesmo que eu quisesse dormir agora, eu não conseguiria, iria ficar lhe observando, e repensando se estou vivendo a realidade, ou se estou delirando, e isso tudo aqui é fruto da minha cabeça querendo paz entre nós dois. -- comentou num tom leve, claramente soando como uma brincadeira que era: -- E sim, podemos testar dormir juntos, eu tenho sérios problemas pra dormir, então você vai ter todas os motivos, para me abraçar, cuidar e dar atenção, e eu não vou reclamar.

Renaud envolveu Didier em um abraço mais forte, se reclinando sobre ele, farejando e distribuindo beijos carinhosos quase como se fosse uma brincadeira, ou um novo hábito entre os dois, “distribuição farta de beijos sem segundas intenções” era um nome muito comprido, certamente não lembraria depois. Mas gostava da sensação de se sentir próximo, íntimo, único e insubstituível:

-- Então, se despede da barba, amanhã vou cozinhar e não posso estar com ela. -- comentou em tom simples e leve, que tinha conseguido construir ao longo de toda aquela conversa. Era certamente algo pra se orgulhar de levar na próxima conversa com o Dr. Vlahos.

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