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[Drive] Midnight Call [Karen; Ludwig] - Lil - 09-12-2021 Karen
Havia algo muito estranho em reencontrar com o rapaz que devia ser seu irmão mais novo, mas com quem não tinha uma ligação sequer há mais de vinte anos. Tinha passado uma vida inteira buscando pelo rapaz, tentando seguir um princípio vago que era a única coisa que restara de sua família que também não existia mais. Era um pensamento confuso e não sabia nem o que pensar, nem o que sentir, se é que ainda sabia como distinguir sentimentos. Ao deixar a casa e o irmão para trás, saiu andando completamente sem rumo pela cidade pequena, não sabia para onde ir ou o que fazer. Podia procurar trabalho, se distrair, voltar à funerária ou ao apartamento do agente funerário, mas a coisa que perpassou a sua cabeça naquele momento de incerteza foi a lembrança de um garoto muito preocupado em quem tinha esbarrado da primeira vez que reencontrara o irmão. O desvio de caminho foi consciente daquela vez. Andou por muito tempo, a ponto da noite cair na cidade quando ele finalmente alcançou as proximidades do terreno em volta dos dormitórios da Academia St. Clavier, onde já tinha ido mais de uma vez por conta do trabalho inusitado que tinha levado-o até Cerise. Não era como se esperasse esbarrar por acaso com o rapaz daquela vez, mas algumas pesquisas de informações no meio do caminho lhe fizeram encontrar o que precisava. Parou fora dos limites da escola, sentando-se no chão sobre a grama e recostando-se ao muro que delimitava os terrenos da escola. “Venha me encontrar.”, foi a única coisa que enviou numa mensagem curta para o número do celular do garoto estudante de St. Clavier. Ludwig
O dia de aulas de Ludwig foi bem cheio, do tipo que conseguiria deixar qualquer dos outros alunos mais preguiçosos morto de cansado. Mas o pequeno estava animado para a aula de fotografia que teria no clube pela tarde, supostamente, uma aula para que melhorasse suas fotografias de movimento. E depois poderia testar tentando correr atrás dos jogadores de rugby no campo, desde que tentasse não tropeçar mais de quatro vezes como foi da última vez. Oliver não teria paciência para esperar a máquina lavar sua roupa por tanto tempo. Como previu, a aula foi muito divertida. Tiraram muitas fotos dos membros do clube fazendo coisas bobas, e até mesmo Ludwig foi modelo, em uma foto na qual tinha tentado correr, mas para a alegria de quem fotografava, não o fazia muito habilidosamente. Se despediu com educação e só então começou a sentir o cansaço, mais ainda quando tomou um banho e partiu para jantar algo gostoso na cafeteria, Não demorou, e voltou para o quarto de barriga cheia para começar seus estudos enquanto Oliver não voltava. Confortável, com seu pijama preto de cruzinhas, sentou-se à mesinha com os livros que tinha que estudar e abriu o caderno para começar a revisão. Porém, quando pensou em ler a primeira questão de matemática, ouviu o toque do celular. Puxou-o para si e olhou a tela. Não sabia quem tinha mandado a mensagem, e não sabia o que “venha me encontrar” queria dizer, mas já que a pessoa tinha seu número, deveria ser alguém que conhecia. Lui levantou da mesinha e calçou as meias e os sapatos antes de caminhar pela sala comunal dos alunos, pelos corredores, procurando quem quer que estivesse lhe dizendo para encontrar.Quando chegou na porta do dormitório, começou a ficar confuso. “Onde você tá? ಠ_ಠ eu já olhei o dormitório todo ₍₍ ᕕ(´◓⌓◔)ᕗ⁾⁾” Continuou sua busca do lado de fora do dormitório, calmamente olhando ao redor, cruzando os braços porque a noite estava mais fria que seu pijama conseguia esquentar. Karen
Karen ignorou o celular por um tempo, aproveitando o descanso incomum no lugar silencioso. Fora dos limites dos dormitórios e da Academia, não havia movimento e barulho das centenas de alunos que moravam em St. Clavier. Por um instante, até esqueceu o que tinha ido buscar ali, até receber a mensagem de volta no celular com um pouco de incredulidade. Primeiro, ele não devia saber quem era exatamente, já que não tinha seu número, mas ainda assim estava procurando pelo remetente da mensagem? Segundo… estivera aquele tempo todo lhe procurando sem nem saber quem era? O rapaz com certeza ultrapassava os limites da ingenuidade. Encarou a tela do celular por um instante, e antes de responder alguma coisa, levantou-se, andando ao longo do muro na direção do que seria a entrada dos dormitórios, mas não chegou aos portões de fato. Parou no caminho, encostado de novo ao muro para responder à mensagem. “Ainda estou esperando”, propositalmente, não respondeu onde estava. Será que ele continuaria procurando? Ou desistiria? Seria mais interessante se pudesse observá-lo no meio do processo, mas se resignou a esperar onde estava até o próximo sinal dele. Ludwig
Lui tomou um susto com a vibração do celular na mão, talvez porque estivesse muito ocupado em procurar. Quase derrubou o mesmo no chão. A mensagem que tinha acabado de chegar era do mesmo remetente, e lhe dizia que ainda estava esperando. Mas aonde? Franziu a testa e crispou os lábios antes de olhar de um lado para o outro, procurando qualquer sinal de vida. Seria uma pegadinha de algum aluno mais velho? Daquelas lendas de St. Clavier que o seu amigo Yure volta e meia se envolvia? Supunha que deveria continuar procurando, por isso começou a andar ao redor do dormitório, tomando um susto novamente quando encontrou um par de rapazes conversando no escuro, para os quais deu um sorriso sem graça antes de tentar correr e deixá-los em paz. Andou em direção ao prédio antigo, mas pensou que poderia ter alguns delinquentes por lá pela noite e deu meia volta antes de encontrar um banco onde sentar, já perto do muro da escola. Um tanto cansado, suspirou profundamente e se encolheu, pernas e braços, para passar um pouco do frio. “Eu dei outra volta, mas não tinha ninguém esperando (●´⌓`●) Sentei no banco aqui, perto do muro. ꒰⁎×﹏×⁎꒱՞༘✡ Tá frio! Pode mandar localização em tempo real? E quem é? ( ́・ω・`)” Karen
Karen ainda rodou em volta dos muros da escola, não teve como observar se o rapaz ainda estava lhe procurando. Se ele desistisse, poderia até encontrar o caminho até os dormitórios dele. Na verdade, poderia voltar para a cidade e esquecer que tinha andado até ali. Mas já que estava lá... estava surpreendentemente empenhado em se distrair com o garoto e encontrá-lo diretamente. Depois de rodar alguns minutos em volta do terreno da escola, sem propriamente tentar entrar ou invadir, como era bem comum, recebeu outra mensagem no celular. Até achou interessante que ele ainda estivesse lhe mandando as mensagens e empenhado em lhe encontrar mesmo sem qualquer informação útil. Parou encostado ao muro mais uma vez, agora perto da entrada. “Estou fora do muro, venha aqui” respondeu, agora se questionando se ele iria mesmo sem ter respondido quem era. Seria muita ingenuidade do rapaz, mas já tinha provado que ele era bastante ingênuo, se ele respondesse daquele jeito para qualquer pessoa estranha, precisava tomar mais cuidado do garoto. Ludwig
A mensagem que Ludwig recebeu de volta não foi exatamente a que mais esperava. Não tinha nenhuma localização no mapa de onde a pessoa poderia estar. Não que a localização dentro de St. Clavier funcionasse perfeitamente bem, mas ao menos o celular lhe diria quente ou frio. Porém, a despeito de não ser algo muito específico – supôs que a pessoa não soubesse usar o maps – já era mas próximo de um lugar que nas mensagens anteriores. “Já vou! (งツ)ว”, respondeu rapidamente o remetente misterioso. Então levou um tempo curto para chegar até à entrada, porque o jeito mais fácil de sair da escola para ir para o muro do lado de fora era por lá. Como já estava um pouco mais tarde, o caminho estava mais desabitado e escuro que gostaria, mas tentou não se incomodar nem com isso nem com o friozinho que fazia em seu pijama. Olhou de um lado a outro quando chegou ao portão, e avistou uma figura alta logo de cara. Abriu um sorriso largo por finalmente ter achado a pessoa que estava lhe mandando mensagens, e caminhou até o sujeito, notando na metade do caminho que naquela altura e com aquele porte, a única pessoa que poderia estar lhe esperando seria o zelador que encontrara tantas vezes longe de St. Clavier. - Karen-san! Boa noite! - Ludwig cumprimentou erguendo a mão, dando um passinho mais apressado para se aproximar do outro, então animadamente olhando para o próprio celular. - Vou registrar seu número. Eu não sabia quem era...! Karen
A resposta da mensagem foi pronta. O celular vibrou em sua mão em pouco tempo e viu a mensagem dele de que estava indo. Arqueou a sobrancelha, um misto de incredulidade e irritação, ambos pelo fato de que ele ainda estava empenhado em encontrar o remetente misterioso da mensagem. Encostou-se de lado no muro, as mãos nos bolsos, o celular agora esquecido, já que imaginava que o rapaz conseguisse encontrá-lo depois das novas instruções. E foi exatamente o que aconteceu, depois de longos minutos, quando Lui apareceu a passos breves, depois de lhe identificar na baixa iluminação da noite, cumprimentando-o de forma relativamente animada, para uma pessoa com toda a intensidade dele. Segurou a mão que ele lhe estendeu para cumprimentar, mas ao invés de apenas devolver o cumprimento, puxou-o pela mão para mais perto, podendo encará-lo melhor daquela distância, especificamente de cima. - Você não sabia que era eu, por que veio? - reclamou com o rapaz, o tom mais suave do que ríspido. Não soltou a mão dele, o que o atrapalhou também para salvar alguma informação no celular. - Você devia ter uma noção melhor do perigo. Não deve sair por aí encontrando estranhos. Continuou encarando-o por um instante até sentir o corpo relaxar um pouco mais, sentando-se encostado ao muro e mantendo o aperto na mão dele. - Sente comigo. - esperou ser atendido, ainda mantendo a mão dele de refém. - Você está com uma roupa de criança. Ludwig
Ludwig calmamente se aproximou de Karen e esperava que ele lhe cumprimentasse de volta, mas a primeira coisa que fez foi lhe segurar pela mão e puxar seu corpo para perto. Sentiu os dedos tremerem, mas não foi de medo. Aos poucos, sentiu o rosto ficar quente, quase como quando seus professores lhe chamavam para responder perguntas na frente do quadro, e embora não tivesse nem força nem vontade para se desvencilhar, olhou para a mão e depois para Karen, encolhendo a cabeça entre os ombros como se pudesse sumir com a própria vergonha daquela forma. Antes que pudesse dizer qualquer coisa sobre a mão para ele, ele lhe lançou uma série de perguntas que não sabia muito bem como responder, abrindo a boca, um tanto confuso. - P-por que p-podia ser alguém conhecido... já q-que tinha meu t-t-telefone...! - Ludwig tentou respirar fundo, mas não conseguiu exatamente devolver o olhar de Karen como fez algumas outras vezes, olhando para todo lugar, volta e meia parando sobre o mais velho, outros momentos pela mão, outros momentos em seus pés. Então respirou muito mais fundo, engolindo em seco, então sacudindo a cabeça em afirmação de modo insistente. - M-mas ainda bem q-que eu vim... j-já que era o Karen-s-s-san...! O garoto mordeu o próprio lábio inferior, já começando a ficar vermelho até as orelhas, notando a insistência dele segurar sua mão. Já já pararia de respirar. Apesar de conviver na academia há algum tempo e saber que os ocidentais tinham mais liberdade de aproximação que os japoneses, o fato do zelador se aproximar de si lhe dava todo um senso de inquietação. - A-a-a-m-m-mã... - tentou começar, apontando o indicador com cuidado para as duas mãos, mas sua voz muito pequena foi atropelada pelo pedido para que sentassem juntos. O garoto mais uma vez assentiu com a cabeça, mas crispou os lábios e inchou de leve as bochechas quando ele lhe disse que estava infantil. – É-é o meu p-pijama...! Se o Karen-san n-não tivesse ligado, eu iria dorm... Então mais uma vez raciocinou que geralmente seus encontros com o zelador tinham sido muito ao acaso. Se encontraram no parque, na cidade, no cemitério... mas quantas dessas vezes ele tinha lhe contatado? A despeito do rosto permanecer quente, por ele não ter soltado sua mão, conseguiu finalmente erguer o olhar para o moreno. - K-Karen-san... desculpe perguntar, mas... está tudo bem? - questionou com a voz pequena como sempre, embora com bem menos tropeços que anteriormente, a expressão um tanto preocupada. Sentou-se ao lado dele devagar, encostado no muro. Karen
Já estava acostumado com o jeito baixo que o outro falava e com as reações exageradas a qualquer comentário ou contato, mas Lui parecia excessivamente sensível aos comentários ou gestos. Teria até dado mais atenção aos trejeitos do rapaz, testando-o em alguns pontos, mas só esperou que ele lhe acompanhasse, sentado no chão também naquelas roupas que ele dizia ser o pijama. Não percebeu o detalhe de início, mas ainda estava segurando a mão pequena apoiada ao lado do corpo entre os dois. - Isso é um pijama bem infantil. – comentou depois de uma segunda olhada na roupa dele, percebendo que mesmo sentado ao seu lado, ele parecia pequeno do mesmo jeito. – Da próxima vez, não siga as mensagens de um estranho. Mesmo que tenha seu telefone. Karen inclinou a cabeça um pouco na direção de Lui, até o ombro encostar no do menor. Até lembrou do último encontro dos dois em que o tinha usado de apoio por alguns longos instantes em que o oriental tentava se manter firme de pé sob o seu peso. Saiu dos pensamentos quando ele perguntou se havia algo de errado e daquela vez, nem se preocupou em insistir para que ele falasse mais alto, no silêncio daquele horário na noite, era fácil ouvi-lo falar. – Não. – respondeu, mexendo nos dedos de Lui como uma distração quase inconsciente. Ludwig
Não podia fazer muita coisa quanto ao pijama ser bem infantil. Achava bonitinho, e combinava com as coisas que tinham no seu guarda-roupa. Não ligava muito se parecia de criança: era confortável e lhe agradava. Uma pena que o Karen não apreciava também. Tal como a saia masculina que usou em outro dos dias em que se viram. Entortou de leve o lábio e então, meio hesitante, fechou o punho da mão que estava livre. - M-mas eu vou... continuar usando assim mesmo...! E-eu gosto... - respondeu, lembrando que ele mesmo tinha dito que não era porque uma pessoa lhe dizia que tinha algo que não gostava que ele precisava se livrar dessa coisa. Embora supusesse que a ideia de seguir um estranho que tivesse seu telefone fosse mesmo uma ideia meio ruim. A voz ficou um pouco mais baixa, porque não se arrependia de todo, já que graças a seu descuido tinha encontrado o zelador. - Eu... v-vou tomar mais cuidado... Sem que esperasse, enquanto estavam os dois sentados com o muro as costas, Karen se inclinou mais para seu lado, até que seus ombros se tocaram. Observou o gesto, e então seguiu com o olhar de volta para as mãos, porque ele insistia em tocar em seus dedos, e isso estava lhe deixando com o rosto muito quente e a expressão nervosa. Apertou os dedos do pé com o incômodo que não era de todo mal vindo, até ouvir a resposta do mais velho, que significava que sua suspeita do comportamento estranho estava correta. - Ah...! - Ludwig entrou em um breve pânico, então segurando a mão de Karen com mais firmeza, embora não fosse nenhum pouco de força a mais, e embora quisesse vê-lo de frente, não sabia como não incomodar o fato de que ele descansava encostado em seu ombro. Moveu a mão de vários jeitos, mas não conseguiu achar uma posição menos incômoda. Então, já zonzo de desespero, levou a mão até o rosto de Karen, virando-o em sua direção. - D-d-desculpa... o-o que aconteceu, Karen-san....? E-está doente...? Q-quer conversar...? E-eu posso ajudar... como eu puder...! Karen
A reação mais inesperada de Karen foi rir diante do comentário dele de que usaria o pijama de qualquer jeito. Era impressionante rir daquele comentário simples com tanta facilidade, considerando tudo que tinha em mente até ali. Nem teve muito tempo de concordar com as palavras do menor, ou de aprovar a atitude dele de não se deixar levar pelos comentários alheios, a sua negativa para a pergunta se estava bem deixou o garoto ainda mais inquieto e quase desesperado. Não percebeu a tentativa dele de apertar mais a sua mão e não esperava que mais perguntas viessem, mas finalmente ele arrumou alguma coisa para fazer e ergueu a mão até o seu rosto, puxando-o para que o encarasse de perto. O encarou de perto, enumerando as questões mentalmente e pensando no que responder primeiro, ou se responderia. Mas ainda ficou em silêncio por um instante, entretido com a expressão nervosa do rapaz. - Não estou doente. - respondeu primeiro, considerando as outras perguntas. - Não acho que você pode me ajudar. De novo, ficou em silêncio, só porque estava considerando exatamente o que falar, como falar, e se deveria falar algo mais para o rapaz ingênuo. Não era como se ele fosse sair espalhando seus comentários para as pessoas ao redor dele, também não era como se eles lhe prestassem alguma ameaça. O fato estranho era que conversar com Lui era fácil, até mesmo leve. Continuou o encarando naquela posição levemente curvada, medindo as palavras mentalmente, e o incômodo no pescoço lhe fez pensar em outra coisa. - Você é muito pequeno. – não mudou a postura, e sem pensar duas vezes, adicionou – Eu encontrei meu irmão. – tão fácil quanto tinha mentido sobre almas para que ele não tirasse fotos suas, era igualmente fácil dizer uma verdade tão séria que qualquer inimigo seu gostaria de saber. Ludwig
Ficou até aliviado de saber que Karen não estava doente, mas lhe deixou um pouco angustiado saber também que não poderia ajudá-lo em seu problema. Crispou os lábios levemente, observando-o próximo, sequer notando a pose e situação dos dois, apenas tomado pela preocupação de ajudar o outro. O silêncio dele ao menos lhe dizia que a situação era complicada, e supôs que não devesse interferir demais naquilo que Karen não queria que interferisse. O que ele fez, depois do longo silêncio, foi apenas ressaltar que era um menino pequeno. Notou então que a posição em que havia deixado o outro era bem desconfortável para um homem alto como ele. Então tirou a mão do rosto de Karen, com um pedido de ‘desculpa’ mais baixo até que o usual para a voz de Lui. Porém logo ouviu o mais velho falar sobre ter visto o irmão, e isso fez com que o pequeno fosse de branco a muito branco. - Ahh... m-m-mas... K-Karen-san... v-você disse que não tinha f-família... f-foi um es-es-es-es-pírito..? - o mais novo pareceu chocado demais, então os olhos levemente trêmulos tentando focar no moreno. - Deve ter sido... assustador pra você. M-mas... os espíritos n-não querem fazer mal... e s-s-se você precisar eu posso p-pedir a minha mãe pra mostrar um exorcism... - a voz então foi freiando aos poucos, enquanto o moreno começava a perceber que não era bem isso que Karen queria dizer. Ele tinha encontrado o irmão. Isso provavelmente dizia que o irmão estava perdido. Deveria ser algum tipo de familia que ele não sabia que tinha, até de repente aparecer para ele. O rosto ficou vermelho de tirar tantas conclusões de prévia. - Desculpe...! Eu entendi errado...! O pequeno então observou o mais velho com os olhos escuros, atento a ele por não saber como fazer. - Ah... parece complicado... m-mas... p-pode ser algo bom, não...? Encontrar um irmão... ter família... - Lui comentou, então abaixando ainda mais a cabeça. - Q-q-quer dizer... não estou julgando... nem quero me meter... m-m-mas... me parece bom... não estar sozinho... Karen
O pedido de desculpa de Lui passou completamente despercebido. Mesmo sem a mão dele em seu rosto, não mudou a posição em que já estava, inclinado na direção dele, com o rosto virado para o lado e voltado para baixo. Tudo aquilo pareceu bem irrelevante quando Lui pareceu exasperado, preocupado com o fato de que se ele não tinha família, como tinha surpreendentemente comentado em outro encontro ocasional dos dois, então só poderia ter encontrado com o espírito do irmão. Poderia ser um pensamento trágico, dado o seu histórico de busca, mas a sua reação imediata na presença do garoto foi rir. Uma risada curta, que escapou aos lábios de alguém como Karen, que sequer conseguia se lembrar de como rir. Talvez tivesse sido a risada desavisada, mas ele pareceu associar em seguida que o seu primeiro pensamento estava errado. - Você se assusta demais para quem deveria estar acostumado com espíritos. - comentou, particularmente sobre o nervosismo dele de ter imaginado primeiro seu irmão como um espírito. Tão logo ele entendeu do que se tratava, teve uma visão diferente do fato de que tinha encontrado com sua família supostamente morta. O traço do que era uma risada ficou para trás e a expressão se tornou séria de novo, como o convencional, mas não desviou os olhos de Lui, ainda naquela posição com o rosto virado para o lado. O pensamento dele era bem positivo, de que teria sido uma coisa boa, reencontrar seu irmão. Claro que aquele pensamento só lhe remetia ao fato de que tinha quase matado o rapaz e o dilema ainda lhe deixava perturbado, com a cabeça doendo. E se estava sozinho antes, quando tinha desistido de procurar pelo mais novo, estava ainda mais sozinho agora, que o tinha afastado de vez. Mas a sensação de solidão não era exatamente o problema. E enquanto encarava Lui longamente, sem responder nada pelos segundos que se seguiram ao comentário dele, a resposta em sua mente foi apenas racional. - Eu não estou sozinho agora. Estou com você. Estar acompanhado era mais estranho do que ter estado sozinho a vida toda, ainda assim, com Lui, parecia apenas fácil e natural. Ludwig
A risada de Karen foi um excelente indicativo que não estava no caminho certo com seu raciocínio. Gostava de ver o zelador rir, claro, pois ele parecia um tipo mais sério, mas estava verdadeiramente tentando ajudar, e não esperava ofendê-lo. Era bom saber que não tinha sido esse o caso. Inchou as bochechas discretamente quando ele falou que pra quem estava acostumado com fantasmas, tinha muito medo, mas não era bem esse o caso. Ou não imaginava que fosse. - B-bom... nem todo mundo está acostumado com eles... e-e... você poderia ter ficado com medo... - comentou, pois bem sabia que ele se incomodava com essas questões de espírito se incomodava Karen ter a foto tirada. Porém aos poucos, com sua conversa, o moreno mais alto foi voltando ao estado sério usual. Na verdade, até podia ver que ele estava mais reflexivo. Talvez não tivesse ido nada bem entre ele e o irmão, e considerando que era um caso complicado, talvez ele também não tivesse em vista nenhuma melhora de relacionamento. Não tinha intenção de deixá-lo mais triste com isso, por isso acabou pondo inconscientemente uma expressão preocupada. Nem imaginava o que podia fazer para ele ficar melhor, além de ouvi-lo. Também não queria perguntar demais e acabar incomodando o mais velho. A resposta que ele lhe desse era o suficiente. O pensamento longo de Karen lhe deixou nervoso, mas a resposta lhe deixou mais ainda. Sentiu o corpo todo esquentar, mesmo que estivesse muito frio naquela noite e estivesse apenas de pijama. O rosto, que já estava vermelho, ficou ainda mais. Não sabia que tinha aquela responsabilidade toda consigo, nem que o zelador lhe considerava tanto, pois para Ludwig, se ele se sentia menos sozinho em sua companhia era porque de certa forma, estava ajudando Karen, independente de saber toda a história ou de poder interferir nela. Apertou os lábios e então soltou o rosto do mais velho, a outra mão indo até a dele que segurava a sua, apertando os dedos dele firmemente com uma mão e sobre a mesma com a outra, apesar de que mal tinha força para parecer ser firme. - U-Un...! E-e eu... estou com você, Karen-san...! – então abaixou a cabeça e respirou fundo, tentando ser um amigo firme e presente que nem ele contava que fosse. - M-mesmo que eu não possa fazer nada... s-se... v-você não se incomodar de estar comigo... e-e-eu lhe faço companhia... sempre que precisar... – a voz foi ficando mais baixa, e então Lui levou o dedo indicador ao rosto, coçando de leve a bochecha. - M-mas... você vai ter que avisar... que é você... porque eu não devia ter encontrado com um estranho... - tentou brincar, esperando que isso aliviasse um pouco o clima para Karen. Karen
A iluminação naquele lugar e àquela hora da noite não era boa, mas ainda assim, dava para ver que havia algo de diferente na tonalidade da pele de Lui. Não deu tanta atenção quanto deveria, piscando demoradamente, começando a sentir o cansaço da sua rotina mais recente somada à preocupação com o que tinha feito ao irmão. Continuava na mesma posição inclinado na direção de Lui, ignorando o desconforto que já era tão comum a sua vida inteira. Ele tirou a mão de seu rosto para segurar a sua de volta, reforçando que lhe faria companhia quando precisasse. E quando é que tinha precisado de alguma coisa da última vez? Realmente precisava de companhia? Se não, por que motivo tinha ido encontrar com o garoto? Lui era uma boa mudança de ares para tudo com o que já estava acostumado. Concordou com um aceno de cabeça quando ele disse que teria que avisar sorrindo discreto para a especificação do garoto. - Muito bem. - respondeu, escorregando um pouco encostado ao muro para que ficasse mais baixo, até conseguir apoiar o cotovelo no chão e encostar a cabeça ao ombro dele. - Eu vou avisar da próxima vez. Fechou os olhos e continuou ali, permitindo-se relaxar mais do que faria em qualquer outro lugar em que estivesse acostumado a estar. Não lembrava da última vez em que tinha descansado perto de alguém, mas manteve os olhos fechados, aproveitando a proximidade inédita para se permitir descansar um pouco mais. - Vou só descansar uns minutos. Ludwig
Sorriu satisfeito consigo mesmo ao receber o “muito bem” de Karen. Então estava certo em pedir para o outro avisar. De todo modo, registraria o número dele em seu celular, pois assim saberia quem era prontamente, mesmo que o mais velho esquecesse. Quem sabe poderia mandar mensagens para ele também, mas não de fotos, porque ele não gostava. Na verdade, nem imaginava o que o zelador tinha interesse, mas talvez pudesse perguntar a ele por mensagem. Quem sabe assim pudesse vê-lo em alguma ocasião em que não estivesse preso em uma cova, sendo incomodado por bullies ou mesmo, porque ele estava triste. Karen se arrumou em uma posição que Ludwig só poderia julgar como desconfortável. Porém, se ele não estava incomodado e conseguia descansar ali, então não incomodaria. Provavelmente o mais velho tinha passado por um dia complicado reencontrando a família perdida, ou não teria ido atrás de companhia no fim das contas, especialmente da sua companhia. Não podia fazer muito por ele, mas se ele tinha a pretensão de descansar, isso ao menos podia tentar garantir ao moreno. - Un. - foi a única resposta que deu ao pedido dele de descansar alguns minutos, os dedos ainda segurados pela mão de Karen se movendo um pouco. Já não se sentia tão desconfortável com aquela proximidade, afinal, ele tinha ido ali buscar algum tipo de conforto. Se Lui estranhava aquela proximidade, era provavelmente por ser um japonezinho bem tradicional. Já o outro vinha da Europa, ele certamente achava mais natural aqueles toques. A cabeça em seu ombro só buscava um lugar para deitar, e tentou deixá-lo apoiado, apesar de ser um pouco de peso sobre si. - Com licença... A mão livre que não sabia onde colocar moveu-se em direção ao rosto do mais velho. Mas não tocou o mesmo novamente. Ao invés disso, levou os dedos até os cabelos curtos de Karen, fazendo-lhe um afago suave, como sua mãe costumava fazer consigo quando estava triste. A diferença é que se sentia confortável para deitar no colo dela, o que não ofereceria porque seria muito embaraçoso, e porque Karen não precisava deitar no chão sujo dos entornos da Academia. Engoliu em seco, e, ainda um tanto nervoso, encostou o rosto próximo a cabeça dele em seu ombro, esperando que fosse de algum alento para o outro. Acabou foi relaxando no lugar de Karen, sentindo-se confortável em estar com ele, porque ele era um adulto muito quieto e muito agradável. Os dedos aos poucos pararam de se mover, e Lui, que estava perto da hora de dormir, começou a parecer estar com sono. Karen
Só entendeu o pedido de licença quando ele levantou a mão para lhe tocar os cabelos. Aquele gesto de qualquer outra pessoa teria lhe feito provavelmente quebrar o pulso alheio, mas deixou que o rapaz tocasse sua cabeça num afago discreto. A última vez que tinha sentido aquilo, provavelmente, fora quando ainda era muito novo até para lembrar da sensação, mas não era ruim. Especificamente porque Lui não lhe apresentava ameaça alguma, provavelmente nem se tentasse. Não demorou muito e ele mesmo apoiou a cabeça contra a sua, permitindo a proximidade do garoto mesmo que sua intenção fosse descansar. Não era como se fosse de fato dormir no meio de um local tão aberto quanto aquele, embora fosse bem inabitado também, mas com pouco tempo percebeu que quem tinha adormecido era o próprio Lui. Deixou que ele descansasse também, afinal, se ele estava de pijama, já devia ter passado da hora de dormir, o que era irônico, pensar que alguém naquela idade ainda tinha hora de dormir. Depois de uns longos minutos, resolveu mudar de posição, afastando o rosto do ombro dele e deixando que ele se apoiasse em seu ombro também. Moveu-se com mais discrição do que faria normalmente, ele ainda se moveu um pouco, mas não chegou a acordar, acomodando-se mais próximo do seu corpo. Ficou parado ali por alguns longos minutos e até afastou o cabelo da frente do rosto dele algumas vezes, mas logo o que chamou atenção foi o vibrar constante de um celular que não era seu. Observou Lui para saber se aquilo seria suficiente para acordá-lo, mas se resignou a chamar a atenção dele. - Ei, seu celular. Lui
Lui teve um sonho muito agradável. Não sabia exatamente sobre o que era, mas lembrava de ter uma sensação de segurança grande, de estar em casa, com sua família e amigos antigos, e também pensando nos amigos novos. Raramente lembrava de seus sonhos porque quando estava inquieto tomava remédios para dormir, e quando estava muito inquieto, tinha pesadelos horríveis. Mas o calor próximo ao seu corpo e a apesar do chão duro, a posição confortável, lhe fizeram ficar bem. A mão, embora mais folgada, ainda estava com a de Karen, e a outra, que acariciava a cabeça dele, nem percebeu quando deslizou do cansaço, mas se prendeu ao braço dele, no qual se recostou para cochilar. Em resposta, se sentiu mais acomodado próximo a um grande corpo quentinho, e de tão confortável, até babou um pouco no canto do lábio. Só mudava da cara relaxada quando sentia os cabelos serem tirados da frente do rosto, e franzia o nariz brevemente. Estava no outro mundo quando ouviu o chamado de uma voz firme. Abriu os olhos relutante e levou a mão da mão ao mesmo, esfregando com a almofada próxima ao pulso, não parecendo decididamente acordado. - [... Já vou, mãe... cinco minutinhos...] – respondeu em japonês, ainda completamente encostado em Karen, mas estendendo a mão para ele e fechando algumas vezes como se pedisse o celular. Esperou que ele entregasse, mas não sem antes notar que era Karen quem estava ali, não sua mãe. Agarrou o braço dele de novo, a cabeça ainda encostada no moreno alto. Abriu um sorriso discreto, a cara enfiada no músculo do braço do outro. – Mmnnn... seu braço é fofinho, Karen-san... tipo... chikuwabu... - claramente deveria estar dormindo ainda. Karen
A resposta de Lui veio com mais atraso do que as palavras dele costumavam vir em resposta - embora elas tivessem melhorado consideravelmente nos últimos tempos. Ele levou a mão até o rosto para esfregar os olhos cansados e murmurou uma resposta que Karen não conseguiu identificar, nem tanto pelo volume da voz usualmente baixo, mas pelo próprio idioma. A mão que tinha esfregado os olhos se estendeu na espera de que entregasse o celular, mas não era como se estivesse em posse do objeto, só sabia que estava vibrando e devia vir de Lui, de algum dos bolsos dele, provavelmente. O garoto não se moveu muito de onde estava e nem parecia disposto a acordar, muito confortável enroscado em seu braço e com a cabeça enfiada ali. Mas outra resposta veio num francês mais compreensível quando ele disse que seu braço era fofinho. Arqueou as sobrancelhas diante da resposta dele, poderia até deixar o garoto descansar um pouco mais, mas não fazia ideia de até quando ele ia ficar dormindo ali, e o celular continuava a vibrar numa frequência até irritante com mensagens em série. - Você devia ver suas mensagens. - voltou a falar para Lui, mas não era como se estivesse muito empenhado em se mexer ou acordá-lo do sono agradável. Estava acostumado a dormir até sentado, mas para o garoto que ficava se agarrando ao seu braço, não devia ser muito bom. Estendeu a mão livre para tocar no topo da cabeça dele, afagando os cabelos com menos delicadeza do que pretendia. - Acorde, você não pode ficar dormindo aqui fora, garoto. Ludwig
Ludwig de certa forma sabia que não poderia dormir ali. Estava de pijama, e um pijama pedia uma cama quentinha em um lençol fofinho. Gostava do braço de Karen, mas não era a mesma coisa que voltar para os dormitórios. Desencostou do mais alto aos poucos, e então estendeu a mão para pegar o celular, notando que de fato havia algumas mensagens. O nome: Oliver. Ou ele deveria estar preocupado, ou tinha esquecido de novo como se usava o celular. Esfregou os olhos com as costas da mão e então soltou Karen para responder as mensagens, os polegares movendo-se mais rápido do que deveria ser normal para um usuário comum de celular, completando com louvor uma mensagem com um desenho em ASCII de um gatinho com uma cara séria dizendo “já vou”. Riu, não que estivesse bravo, mas a enxurrada de mensagens de Oliver tinha lhe lembrado que uma hora tinha que voltar para a academia. - Uahhhh.... – bocejou, e então esticou os braços para cima. – Hmmm... Karen-san...tenho que ir... meu amigo está preocupado. – explicou, então levantando-se devagar do local onde estava e batendo a terra da roupa. Só então voltou seu olhar para o moreno mais velho, os lábios bem cerrados. Estava com um ar ligeiramente preocupado. – Vai ficar tudo bem com você, Karen-san...? Se... quiser conversar mais... pode me ligar... Então Lui encolheu os ombros, meio acanhado, os cabelos caindo de novo por cima do rosto. - Quer dizer... eu dormi mais que falei né... mas... mesmo assim... – tentou se corrigir. Karen
Karen apenas observou o outro se mover preguiçosamente até responder as mensagens insistentes no celular. Para alguém que não parecia com a menor vontade de se levantar, os dedos de Lui eram bem ágeis até mesmo com caracteres que ele desconhecia num celular. Logo ele se recompôs, mesmo com a expressão de preguiça e o longo bocejo, colocou-se de pé para voltar aos dormitórios. Karen, por outro lado, continuou sentado no mesmo lugar, observando-o de baixo daquela vez, numa posição bem inédita, e concordou com um aceno de cabeça sobre o fato dele ter que voltar para o amigo preocupado. Acabou sorrindo com a preocupação dele e a sugestão de ligar para conversar mais. - Eu sempre fico bem. - respondeu, para reforçar o estado melhorado para o garoto. - Não gosto de ligações. A sua negativa sobre gostar de ligações certamente o incentivou a esconder mais a cabeça também, além de estar constrangido com o fato de que tinha dormido mais do que tinha falado. Ainda assim, era extremamente incomum e agradável que alguém conseguisse dormir ao seu lado sem se preocupar em perder a vida. Podia não ter protegido sua família como tinha ensinado, mas a breve convivência com aquele rapaz ingênuo tinha lhe deixado bem melhor, mentalmente. - Quando eu quiser conversar, virei pessoalmente. - apoiou-se no chão para se levantar, voltando a distância dos dois. - Chame se precisar. Passou a mão pesada no topo da cabeça dele, sem saber medir o peso do braço, mas aproveitou a sensação mais leve para seguir o seu caminho também de volta para outra companhia estranha e inofensiva em sua vida, que incluía um teto também. Era estranho ter aquele tipo de convivência, mas era bom. [encerrada] |