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[Drive] Confidências Regradas a Nicotina [Leona; Carissa] - Lil - 09-21-2021 Leona
Os dias nunca foram tão turbulentos em Cerise para Leona, parecia que todas as coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo, e exigiam da loira muita atenção em tudo. Tinha arrumado a papelada de Adrian junto a Jack, para adiantar o processo de adoção da criança, em parte agradecia ao fato do amigo de longa data ter muitos contatos e descomplicar o processo burocrático. A dupla nacionalidade de Leona e o emprego estável facilitava o restante. Tivera de mudar a escala de trabalho com Carissa de forma que sempre tivesse alguém em casa para prestar auxílio a criança, fazendo com que Carissa passasse o turno da manhã na delegacia, e Leona tarde e noite. Tendo a madrugada como espaço onde as duas estavam em casa. Ao menos contar com Carissa para cuidar das coisas no apartamento junto a Adrian deixava Leona com uma sensação de segurança maior. Isso claro, até aquele manhã, onde Leona tinha sido chamada para ir a campo, e se estava sendo chamada, era porque a situação requeria muito mais do que os oficiais comuns poderiam oferecer. Exigia uma equipe forense, Carissa nem chegou a sair naquele dia para a delegacia, já que provavelmente a loira teria de passar a manhã resolvendo a nova situação, então emendaria o horário da tarde. Seguiu na viatura até o local, encontrando outros oficiais in loco, a área fechada, a equipe de papiloscopista avisou para usar luvas e máscara, era um corpo que já estava em processo de decomposição por estar exposto; Mas não era qualquer corpo, a memória de Leona era suficientemente precisa para lembrar detalhes pequenos das pessoas, mesmo que as tivesse encontrado por um momento breve. O corpo pequeno desfigurado, os longos cabelos loiros ondulados imundos ao ponto de sequer parecerem loiros, o espaço do rosto com os vãos dos olhos ocos, cheios de larvas, a pele ressecada e retorcida com a gengiva exposta. Não trabalhou na seção de casos especiais, portanto, não era usual encontrar corpos de crianças, por isso até mesmo para Leona, requeria um esforço considerável conter a enxurrada de pensamentos que tomavam sua mente naquele momento. Os oficiais conversavam entre si, procurando e tentando observar detalhes que levassem a identidade da garota mas Leona sabia quem era. E mesmo diante de um pequeno atraso na fala, anunciou para os demais qual a identidade da criança. A falta dos olhos no corpo fez seu pensamento correr diretamente para o caso de Kyle que estava tendo de lidar no momento. Mas todo o resto do cenário, do espancamento, da forma como o pequeno corpo foi surrado e maltratado, deixavam claro que era um crime passional, muito ódio tinha sido despejado sobre o corpo menor. O papiloscopista conseguia dar uma margem de horas em que a garota tinha morrido pelo tamanho das larvas que já tinham se transformado em moscas, e a pele retraída dos lábios mostrando a gengiva, indicavam que o corpo estava ali por aproximadamente: dois dias. Lembrava do caso de Adelaide, abandono por parte da mãe, investigação acima de um incêndio criminoso na fazenda sem motivo, não havia registro de pessoas que a odiassem para tal, uma florista, mãe solteira, vinda do interior, com uma filha que com certeza tinha perfil de comportamento preocupante. Leona seguiu o regulamento, depois que terminassem de fotografar e recolher todos os indícios criminais, o corpo seria despachado para autópsia, simultaneamente madame Dupont a responsável pela criança precisava ser avisada que a mesma tinha sido encontrada. Embora não fosse uma morte que fosse possível estar na conta do serial que estava buscando, imaginar que havia outra pessoa na cidade com perfil para fazer tal coisa era preocupante. Talvez tivesse sido motivado pela notícia que tinha sido infelizmente veiculada no jornal? Não era de se descartar, mas precisaria ver toda a ficha que envolvia a investigação sobre a mãe da criança, e se ela estava desaparecida a dois dias, devia haver um boletim de ocorrência sobre, logo saberia o local de onde ela tinha desaparecido, precisava excluir aquele caso, do maior, para destiná-lo a outro oficial que pudesse tomar conta. A conversa com madame Dupont foi regada a lágrimas e muita culpa, a mulher aparentemente em nenhum momento tinha conseguido formar vínculo com a criança. Na escola, os professores eram unânimes em apontar problemas no comportamento da criança: distante, com fugas frequentes, desenhos que apontavam a mãe, a floricultura, e principalmente o fato da pequena conversar com qualquer pessoa mesmo que estranha. Podia ter sido qualquer um. Designou um oficial para averiguar as imagens das câmeras de segurança do dia do sumiço da criança, que não apontaram nada além dela ter ficado até além do horário de ser buscada, e sair sozinha, não havia ninguém que pudesse ser captado no ângulo das câmeras. Ela podia ter saído sozinha e encontrado o estranho no meio da rua, ou seria alguém extremamente competente para saber se esquivar das câmeras. Não descartou completamente Kyle da autoria desse assassinato, embora não pudesse indicá-lo como executor direto, pelos resultados da autópsia. Não iria guiar o caso, mas deixou claro que queria estar ciente de qualquer nova informação que fosse achada sobre. Várias ligações e relatos do aparecimento de Kyle tinham sido enviados a polícia, e isso tornava a malha de pontos onde ele tinha sido visto enorme, ao ponto de que não tinha um padrão. Ele tinha deliberadamente caminhado a esmo, e conversado com pessoas por semanas, para que quando isso fosse posto à tona, não ajudasse em nada. Além de confirmar o óbvio, que ele se sentia à vontade na cidade pequena, justamente porque tinha tido tempo de conhecê-la. As procurações de áreas restritas ainda estavam em trâmite, mas na medida que tinha acesso ao porto, ou galpões ia investigando-os, mas estava um processo mais lento do que precisava para aquele caso. O fato de ter tido um cão da própria delegacia morto, indicava sim, que ele estava zombando da polícia, e queria pegá-lo justamente porque se ele estava desdenhando era porque não tinha ideia de quem trabalhava na polícia agora. Era o que pensava para se motivar a continuar, mas a medida que pressionava o chefe de polícia por mais agilidade na burocracia, ou mais rondas, recebia do homem, caretas ou reclamações e era constantemente lembrada que estava em uma delegacia pequena do interior da França e não em NY. O dia de trabalho seguiu, a noite de trabalho emendou, tanto serviço que foi lembrada pelo oficial novo, que teria de descansar ou iria morrer antes de acabar o caso. Queria poder reclamar mas estava exausta demais para retrucar, então apenas organizou seu posto de trabalho, arrumou suas coisas e rumou para casa, no meio do caminho, parou numa loja de conveniências para comprar um maço de cigarros de uma marca conhecida. Abriu finalmente a porta do apartamento com cuidado, sabendo que aquela hora Adrian estaria dormindo, foi recepcionada primeiro por Kitty, que se esfregou em seus pés, miando alto para alertar que a loira tinha chegado: -- olá, sim, já cheguei… logo troco sua água…-- a loira falou baixo sem muita emoção na voz, além de um cansaço bastante notório, fechou a porta atrás de si e largou as coisas no balcão da cozinha, tirou os sapatos, e caminhou até a janela abrindo-a e sentando no batente. Kitty podia esperar, a boca estava seca, e tinha aquele desejo inerente de fumar. Puxou um cigarro, pondo-o na boca, a posição de segurar o cigarro era tão natural, parecia que fumava todos os dias e não casualmente. E usando de um isqueiro antigo, ascendeu o mesmo, puxando o ar com força para ter uma tragada longa, soprou a fumaça para fora, na janela. Embora soubesse que o cheiro era bem marcante o suficiente para que outras pessoas sentissem, esperava que a janela amenizasse, Leona não teria como saber o quanto do cheiro iria ficar impregnado no local. Já antecipada que iria levar uma bronca de Carissa por isso. Carissa
Carissa podia estar bem acostumada aos seriados americanos e aos filmes policiais, mas nunca teria imaginado que passaria por aquele tipo de situação pessoalmente. Tinham descoberto numa semana só que havia um psicopata na cidade que já enviara um olho para o seu alvo de obsessão, e não bastasse as investigações - inclusive a discussão que ela tivera com Leona -, outra coisa saída de seriado americano tinha acontecido em seu dia pequeno apartamento: Jack Reinhardt, amigo de longa data completamente supersticioso, invasivo e evasivo de Leona, tinha levado uma criança órfã para o apartamento das duas, pedindo por ajuda para cuidar do menino ao invés de entregá-lo a um orfanato. Mesmo com a série de acontecimentos e o fator inesperado deles, Carissa apenas auxiliou Leona como podia ao longo da investigação e aceitou sem nem pensar duas vezes ou fazer perguntas demais, cuidar do menino chamado Adrian, que ao longo das semanas seguintes recebeu os sobrenomes Blanche e Reinhardt. A rotina das duas tinha mudado consideravelmente, os horários na delegacia de polícia estavam diferentes já que elas precisavam se revezar para dar conta do garotinho. Jack tinha ficado lá no fim de semana e que levara Adrian, mas logo na madrugada de segunda voltou para Paris por conta do trabalho, mantendo contato regular por mensagens ou ligações. Adrian tinha o perfil de um garoto que já tinha sofrido demais na curta infância e era bem comum vê-lo nos cantos, calado, tendo pesadelos ou com o corpo pequeno estremecendo, e foi Carissa que se empenhou também em levá-lo para algumas consultas e fazer companhia a ele na parte da tarde e da noite, já que Leona trabalhava mais nesses horários. Tinha prometido a Leona que a ajudaria e que queria estar a par de tudo que acontecesse, e embora a loira estivesse compartilhando as informações, Carissa estava atada pela responsabilidade com a criança, que era mais importante naquele momento. E ao longo das semanas, mais coisas aconteceram: mensagens de ameaça constantes ao psicólogo de St. Clavier, o cachorro da polícia desaparecido e encontrado no quarto da vítima, o encontro do suspeito com outras pessoas em Cerise e principalmente a informação vazada na mídia. Carissa se pegava constantemente preocupada por não poder ajudar a parceira com tudo aquilo, mas ao menos estava fazendo o que podia ao ajudar a cuidar de Adrian que só ficava um pouco mais animado quando Jack aparecia nos fins de semana. Mas depois de um par de semanas de investigação, as coisas ficaram mais complicadas com a notícia de que o corpo de uma criança tinha sido encontrado. E aquele não era o tipo de notícia que se tinha em Cerise, nem nos dois anos e que Carissa tinha trabalhado naquela delegacia. Leona que tomou as rédeas da situação para a investigação e a morena ficou em casa, cuidando de Adrian e tentando não passar a própria preocupação para o menino ainda muito retraído. Recebeu poucas notícias ao longo do dia de Leona e não interrompeu também para saber detalhes, se tinha ou não a ver com Kyle Bailey ou se a situação em Cerise estava apenas ficando perigosa fora do alcance. Só sabia que a loira ia demorar e lá por volta das dez da noite foi que Adrian conseguiu dormir e ela fez companhia ao garoto. A morena não teve um sono muito pesado e estava até acostumada a acordar noite sim, noite não com os pesadelos de Adrian. Mas naquela noite, ficou mais desperta no aguardo de notícias de Leona e até atentou para o som da porta se fechando alto na noite, seguida pelo miado exagerado de Kitty. Carissa conferiu o sono de Adrian, que não foi interrompido, e se levantou andando na ponta dos pés até sair do quarto, deixando uma fresta da porta aberta, caso precisasse checar a criança. Seguiu pelo curto corredor até a sala e o cheiro de cigarro invadiu suas narinas. Avistou Leona fácil, próxima da janela, descalça mas ainda com o uniforme da polícia, sentada no batente e com uma expressão excessivamente cansada. Aproximou-se da loira, vestida num short folgado e um moletom que usava para dormir, cruzando os braços ao sentir a brisa um pouco mais fria que vinha da janela. - Ei, como você está? O dia foi longo hoje, né? - puxou conversa com a loira, aproximando-se sem se importar com o cheiro do cigarro. - Desculpe não estar ajudando na investigação... e mesmo depois de todo o sermão que eu dei. Leona
A urgência com a qual Leona precisava de nicotina circulando no corpo demonstrava o tanto do estresse mental pelo qual a loira estava passando, tendo de administrar grande quantidade de informações que estava chegando em suas mãos nos últimos dias. Sabia, tinha plena consciência que esse caso todo lhe afetava de uma forma muito diferente do que afetaria se estivesse em NY. Ter trabalhado em uma instituição amplamente aparelhada como o FBI, era um cenário completamente distinto, que lhe passava outros sentimentos. Estar cercada de outros profissionais com um currículo ainda mais extenso que o seu, lhe dava segurança e confiança para trabalhar com a mente totalmente focada em achar saídas para os problemas que encontrava. Em contrapartida em Cerise, era o inverso, um departamento precário, grande número de oficiais sem preparação para lidar com crises, dos quais não tinha como depositar sua confiança, exceto por Carissa, e alguns outros poucos que demonstravam algum empenho, o caso sendo constantemente atravancado por processos burocráticos, o nível de periculosidade do serial que estavam procurando, os desdobramentos negativos que estavam aumentando à medida que os dias passavam. E principalmente porque diferente de antes, tinha questões pessoais que requeriam muito de sua atenção: Adrian mais recentemente, que era completamente dependente de si e de Carissa. E ainda bem que podia contar com ela no trabalho e em casa, senão... o pensamento se perdeu sem querer imaginar os possíveis cenários sem a presença da morena mais nova perto de si, diante da quantidade de problemas que estava tendo de lidar. Estava imersa em uma nuvem de fumaça com o olhar perdido em algum ponto no vazio da sala, a expressão era distante, a ponto de sequer perceber a aproximação de Carissa, somente quando ouviu a voz conhecida, ergueu o olhar na direção da mesma. Apenas por poder observa-la, sentia a mente ser tomada por uma mistura estranha de sentimentos, que iam do alívio por poder estar em casa ao lado dela, aos receios dos cenários negativos que poderiam surgir. Afastou o cigarro pondo-o no canto da esquadria da janela, com a ponta acesa virada para fora, esperando que a brisa levasse a maior parte da fumaça embora, com a mão livre abanou a sua frente afastando o ar impregnado. Leona fez um gesto com a mão pedindo que Carissa se aproximasse mais de si, mas não tinha falado nada, e nem respondido nada, em verdade a cabeça estava pesada, e precisava de algum tempo para digerir as palavras e poder responder apropriadamente. Quando a morena mais nova estava próxima o suficiente, Leona encostou a cabeça na altura da cintura de Carissa, semelhante a kitty quando queria um afago sobre o topo de sua cabeça. A loira respirou fundo, como se precisasse daquele contato físico para ter disposição de conversar qualquer coisa que estava perturbando sua mente: -- Eu preciso de um abraço Carissa. – Leona falou em tom baixo e sem muita emoção na voz além de um cansaço evidente em todos os seus gestos: -- você pode me abraçar só um pouco? – a pergunta seguinte, saiu em tom mais reservado ainda, como se houvesse mais alguém na sala além de kitty que pudesse ouvir aquele pedido. Carissa
Leona pareceu demorar um pouco para notar a sua presença. Tentou não se aproximar demais para não invadir o espaço pessoal dela, especialmente naquela situação em que a cabeça da loira devia estar trabalhando a mil por hora. Talvez por aquilo ela tivesse demorado a lhe responder também, mas não se importou tanto. Em outras situações, teria medo de se aproximar da loira e acabar recebendo um olhar atravessado, mas não naquele caso. Havia algo bem diferente quanto a própria expressão corporal dela. Piscou umas vezes ao notar o sinal para que se aproximasse e o fez, ignorando ainda a fumaça do cigarro que se dissipava lentamente. Quando estava perto o suficiente, nem teve tempo de perguntar o que tinha acontecido, só sentiu a cabeça dela apoiada em si, na altura do abdômen, e no momento de surpresa, sequer pensou em como reagir ou onde colocar as mãos. Mas a resposta para a sua falta de ação veio no pedido da própria Leona, num pedido tão inusitado que mais uma vez, Carissa demorou uns instantes para reagir. Ela mesma baixou o tom de voz como se não quisesse ser ouvida nem mesmo pela morena e no instante seguinte, toda a guarda que Carissa usualmente tinha perto da loira se esvaiu. Carissa estendeu os braços e passou por cima dos ombros de Leona, uma das mãos afagando os cabelos loiros enquanto a outra acariciava as costas dela. Baixou o rosto até conseguir depositar um beijo suave no topo da cabeça dela, percebendo só naquele instante o quanto toda aquela situação em Cerise tinha realmente afetado a loira. Provavelmente, a ligação naquela manhã com a descoberta de um corpo de criança tinha se tornado a gota d'água na compostura da oficial americana. - Eu estou aqui com você, Leona. - respondeu no mesmo tom de confidência da loira. - Sei como deve ser difícil fazer tudo sozinha... mas não esqueça que eu estou aqui pra te ajudar, e não estou falando só do trabalho. Manteve os braços em volta de Leona, deixando que ela mesma se sentisse confortável e decidisse o quanto precisava daquele contato. - Quer me dizer no que está pensando? - ela perguntou, mantendo o queixo apoiado no topo da cabeça da loira naquela posição em que ela tinha lhe abraçado. - Por que não sentamos no sofá, hm? Vai ficar mais confortável lá. Leona
A loira tinha feito aquele pedido em voz alta? não tinha se dado conta que tinha chegado aquele ponto de cansaço mental, para não perceber quando os pensamentos começavam a vazar de seus lábios em palavras ditas. Mas sinceramente, não queria resistir aquele abraço, aquela sensação de conforto, quando foi a última vez que tinha se deixado abraçar? Um bocado, o cheiro era diferente, claro, não saberia descrever nos mínimos detalhes obviamente, mas imaginava que tivesse o cheiro do amaciante de promoção que compravam no mercadinho próximo de casa, além do cheiro característico de Carissa, todo mundo tem um, ela também deve ter. Embora nunca estivesse perto o suficiente para ter noção de como era. O cigarro estava sendo consumido aos poucos na esquadria da janela enquanto Leona aproveitava daquele afago e conforto, não comentou nada. Apenas quando a morena mais nova lhe ofereceu o sofá como alternativa mais confortável, que a loira ergueu o rosto observando o móvel a distância, e então observou Carissa ainda próxima. Leona queria simplesmente se render a ficar naquela mesmíssima posição sem ter de pensar nas coisas que aconteceram durante o dia, mas tinha prometido conversar com ela. Leona se afastou um pouco, e desabotoou o terno do uniforme da polícia, que estava mais fortemente impregnado com o cheiro de cigarro, deixando-o no batente da janela, e em seguida se levantou e foi até o sofá junto a Carissa. Esperou apenas que a morena mais nova se sentasse para se acomodar deitada no colo dela, estava sendo folgada? estava invadindo o espaço? Talvez até estivesse, mas se tinha pedido um abraço e ela tinha cedido, então podia seguir pedindo colo não era? Leona respirou fundo e depois soltou o ar vagarosamente como se fosse pra ganhar coragem no que tinha pra dizer: -- eu não quero entrar em detalhes demais sobre como o corpo estava quando encontramos, mas ele estava lá a dois dias. -- Leona fez uma pausa engolindo em seco e sentindo a garganta seca, e ainda bem que o cigarro tinha ficado longe: -- sabe, já tive contatos com vários tipos de cadáveres, mas nunca fui de trabalhar na área de vítimas especiais, logo, eu muito raramente tive de lidar com corpos de crianças. E bem… eu não acredito que exista treinamento que te prepare pra lidar com aquele tipo de visão… principalmente quando se conhece a criança… Leona engoliu em seco novamente, sentindo um peso enorme no peito, e uma angústia que lhe comia, principalmente porque agora também tinha uma criança pequena sob sua tutela. E apenas a hipótese, apenas a vaga ideia, já lhe deixava transtornada. Carissa
Carissa podia não ter o mesmo tipo de treinamento de Leona ou dos amigos dela direto dos EUA como perfiladores, mas era fácil perceber como a situação era pesada e como ela era apenas uma pessoa cheia de muitos problemas com os quais lidar. Ainda pior, uma pessoa que não gostava de depender dos outros e que estava só recentemente se acostumando a compartilhar os próprios pensamentos e sentimentos. Embora fosse uma pessoa bem amigável e que gostava de ajudar os outros, tinha criado uma barreira invisível com medo de Leona até descobrir que ela não era tão assustadora quanto pensava - mandona e teimosa, mas não tão medonha. Aos poucos, descobria coisas sobre a loira e como ela se comportava em certas situações, que lhe envolviam e que envolviam outras pessoas. Mas provavelmente nunca tinha se sentido tão próxima da agente do FBI quanto naquele momento. Leona estava notavelmente cansada, preocupada, incomodada, arriscaria até dizer que ela estava com medo... e aquilo a fazia ser bem humana, além de mostrar que era capaz de ajudá-la em algum nível também. E realmente queria poder ajudá-la, servir de suporte, como não tinha sido até então. As duas se acomodaram no sofá e não se importou que ela se deitasse em suas pernas. Ao contrário, até incentivou e continuou afagando o topo da cabeça dela com os dedos, observando as reações antes de ouvir um pouco dos relatos sobre o que tinha acontecido naquele dia de investigação. Até sentiu um frio na barriga, e o buraco no estômago só se tornou mais incômodo quando Leona ainda disse que conhecia a criança. Inconscientemente, Carissa olhou na direção do corredor, engolindo em seco e pensando que tinha mesmo colocado Adrian para dormir mais cedo. Até parou com o afago no cabelo da loira por uns instantes, até voltar a carícia. - Ninguém espera que você saiba lidar com isso, Leona. Aliás, que qualquer pessoa saiba lidar com isso. - ela respondeu, encarando a parceira diretamente de cima. - Ainda mais sendo alguém que você conhecia...? Me dá um frio na barriga só de pensar, eu não sei se conseguiria ser uma boa policial e seguir com a investigação. Carissa levou a outra mão livre até o ombro da loira, fazendo um afago também, apertando-o ali até escorregar a mão para segurar a dela tentando passar um pouco mais de conforto. - Quem... era a criança? - ela reuniu a coragem de perguntar, pensando não só em Adrian, mas nos sobrinhos que estavam em Paris, na convivência que tinha com algumas crianças ali mesmo em Cerise e como qualquer um deles podia ter sido alvo daquela barbaridade. Leona
Agora que estava deitada de fato a loira podia sentir como todo o corpo parecia exausto e pesado, muito embora soubesse que, pela quantidade de informações que tinha em mente, mesmo que estivesse totalmente sem energia física, ainda assim não conseguiria dormir. Muito provavelmente assim que fechasse os olhos se lembraria dos vãos dos olhos da criança ocos cheios de larvas escorregando para fora. Respirou fundo sentindo o afago em seus cabelos lhe darem algum alento e a mão junto a sua, algum tipo de energia. A loira levou a mão de Carissa até o próprio rosto e encostou a bochecha e os lábios, sem de fato beijar a mão da mais nova. Precisava daquele contato físico, porque parecia que de alguma forma Carissa conseguia lhe segurar, era curioso, mas não estava pensando profundamente sobre. Quando foi perguntada quem era a criança, escondeu o rosto atrás da mão da morena mais nova: -- Adelaide Laurent. -- respondeu simplesmente, sabendo que a mais nova demoraria para associar o nome a pessoa, afastou a mão de Carissa de seu rosto mas não a soltou, acariciando a mesma com o polegar: -- caso de abandono parental por parte da mãe, Juliette Laurent, a mesma antes de desaparecer deu queixa de incêndio criminoso em sua fazenda nos limites da cidade, deixou a tutela da criança para Annabelle Dupont, paradeiro da mãe desconhecido. A criança tinha histórico de fugas de escola, e já foi levada a delegacia em outras ocasiões. Resumiu as questões sobre o caso da criança, sabendo que aquilo seria o suficiente para que a imagem mental de como a garota era viesse a memória de sua parceira. Respirou fundo, ciente de que teria de falar ao menos de forma resumida sobre o que passou o dia e parte da noite trabalhando: -- o crime foi sem dúvida passional, a pessoa que fez aquilo tinha fortes sentimentos de rancor e ódio. Embora eu não tenha nada que seja significativo que ligue o caso ao de Kyle, eu sei, que isso é culpa dele. Seria muita coincidência a menina estar sem olhos, justamente sem olhos. Não queria que Carissa tivesse que ver os arquivos da criança, preferia que ela mantivesse a imagem que tinha da mesma. Leona encarou a parceira, e estendeu a mão livre até o rosto dela, deslizando as unhas curtas na linha do queixo dela: -- todos os arquivos estão na delegacia, fotos e todo o material recolhido na cena do crime, mas eu designei outro oficial pra cuidar do caso, como não há ligação direta com o caso que já estamos lidando. Por isso, eu te peço, não vá checar aqueles arquivo, ok? O tom de voz foi notoriamente preocupado, porque existia sim, um sentimento real de zelo com a mais nova. Sabia que não tinha como protegê-la da própria profissão, mas o que pudesse fazer que estivesse ao seu alcance, tentaria fazer, e isso significava pedir que ela se poupasse de estresses que já estava se dispondo a carregar pelas duas. Carissa
A necessidade de Leona pela companhia e pelo contato era mais uma das novidades da noite e Carissa se sentiu bem confortável com aquilo, especialmente por ter certeza de que podia servir de suporte para uma pessoa que já tinha definido mentalmente como acima de muitas falhas mortais nos seus pensamentos mais absurdos. Queria sorrir com o carinho que lhe foi devolvido na mão, mas não havia espaço ali para aquele gesto. Estava tão na expectativa da resposta do que tinha acontecido que se ficasse mais ansiosa, até Leona perceberia as batidas aceleradas do coração. Mas estava bem sóbria até então e claro, aquela calma era só pelo fato de que não tinha se envolvido na investigação o dia inteiro, ou estaria num estado pior do que o da parceira. Leona usou a sua mão de escudo antes de responder o nome da criança e Carissa franziu um pouco o cenho, aquele nome lhe soando um tanto familiar. Não o reconheceu de imediato, mas depois que a loira começou a citar mais coisas sobre o caso da menina e como ela tinha sido levada à delegacia em outras ocasiões, Carissa lembrou imediatamente da menininha calada que gostava dos saltos e da maquiagem de Leona e que tinha aulas de desenho com o filho da dona da Antique. A morena parou de respirar por um instante e daquela vez, as batidas do coração ficaram aceleradas o bastante para que até Leona conseguisse ouvir. Ela até parou de afagar os cabelos da loira por um instante ao notar como aquela menininha quieta e indefesa que já tinha sido levada à delegacia pelo descuido de seus responsáveis tinha tido um destino tão pior por conta da mesma irresponsabilidade. Seu estado não ficou melhor quando Leona complementou que o caso devia estar relacionado a Kyle e que ela ainda tinha sido achada sem olhos. Carissa engoliu em seco apenas por tentar imaginar aquela situação e até mesmo as suas mãos ficaram geladas. E era Leona que tinha ido lá para verificar o corpo. Ficou tão perdida em pensamentos e chocada com a notícia difícil de assimilar que só voltou a atenção para encarar a loira novamente quando ela estendeu a mão para tocar em seu queixo. A primeira resposta automática foi um aceno positivo de cabeça, os lábios pressionados como se fosse difícil respirar com os pensamentos. Soltou um suspiro longo e um pouco discreto, para finalmente responder. - Não vou checar, eu prometo. - ela reforçou. - Eu sinto muito... que teve que investigar o caso. E sinto muito que tudo isso esteja acontecendo logo aqui em Cerise, queria que fosse só um seriado de TV que eu assisto e acho legal, mas não é... - não era como se fosse sua culpa pela situação ter se desdobrado daquele jeito, mas tinha passado dois anos na cidade com casos menores, seria bom voltar àquela calmaria. - Queria poder voltar pros dias que a gente só tinha que lidar com uns traficantes de beira de esquina e eu achava que você queria me matar. - conseguiu esboçar um sorriso leve para a loira, embora carregado de preocupação também. Puxou a mão dela para perto do seu rosto dessa vez e devolveu a carícia, num beijo de fato nas costas da mão alheia. - Mas nós vamos resolver isso, eu tenho certeza. Ninguém aqui pode liderar uma investigação melhor do que você está fazendo, você vai ver. Leona
Era possível sentir todas as nuances de Carissa, porque ela era transparente como um copo de vidro, o olhar vidrado e apreensivo ao vir a memória de quem estava falando, as batidas aceleradas do coração que aquela distância e pelo contato conseguia perceber no apartamento silencioso. E principalmente a mão fria junto a sua, em resposta, acariciou a mão da mais nova com o polegar pressionando um pouco, como se para ancorá-la naquela conversa e naquele momento, não queria que ela divagasse demais naqueles pensamentos sobre o acontecimento: -- eu também queria que fosse apenas um episódio de seriado…-- Leona sorriu em resposta, cansada, e até certo ponto conformada de ser aquela a realidade que tinha em mãos. Já tinha tratado de tantos casos, tantas pessoas desequilibradas, tantos fatos absurdos e acontecimentos improváveis, mas aquele caso, aquele acontecimento, estava certamente mexendo mais fortemente com sua cabeça. Não que a investigação andasse tão ruim a esse ponto, a medida que os dias passavam iam afunilando e prosseguindo, não tão silenciosamente, mas ainda tinham a pequena vantagem de serem subestimados como um corpo policial pequeno e ineficiente. E a loira se agarrava fortemente a esse pensamento para não se deixar abater a ponto de ficar mal emocionalmente. Mas era fato, que naquele dia, nem esse pensamento estava servindo de alento para sua cabeça, e sua razão e sua emoção tinham se descompassado, e sabia que no dia seguinte seria outro dia de trabalho e precisava estar bem para isso, mas como faria isso? -- Sabe Carissa, eu estou verdadeiramente cansada como a muito tempo eu não me sentia… -- admitiu, as palavras saindo em um tom de voz muito mais baixo do que a conversa anterior, como se estivesse em um confessionário de igreja: -- eu sei o que tenho de fazer, racionalmente eu sei, mas neste momento, meu emocional está muito abalado… -- e sem perceber o olhar da loira desviou para o corredor que dava nos quartos onde sabia que Adrian estava descansando, seguro. Seguro? -- Eu não quero começar a me questionar se eu consigo dar conta de proteger todos vocês… mas depois de hoje, eu admito... Estou com medo…! -- a voz sumiu no apartamento silencioso, e por um momento, não sabia se só tinha pensando em falar aquilo, ou se realmente tinha dito em voz alta; Mas que era real, tinha apertado com mais vontade a mão de Carissa, como se o medo envolvesse a segurança da mais nova também. Não gostava nem de pensar que estava admitindo aquelas coisas, muito embora, racionalmente, soubesse que precisava externar aqueles sentimentos, para poder digeri-los e amanhã, estar disposta para continuar trabalhando, e fazendo o que sabia fazer melhor, comandar investigações desse tipo. Carissa
Não foi surpresa para a morena ouvir diretamente de Leona que estava cansada, que o emocional estava abalado. Ela tinha acabado de chegar na cidade, tinha se estabelecido num local que devia ser apenas calmo e tranquilo e tinha se deparado com uma situação crítica que talvez a tivesse jogado de volta ao trabalho duro nos EUA. Estaria mais surpresa e preocupada se ela não estivesse cansada, mas nos últimos dias, nem a maquiagem muito bem feita conseguia disfarçar aquilo para Carissa, que já estava completamente acostumada aos trejeitos da parceira. Carissa conseguiu até notar o desviar do olhar dela para o corredor, e sabia que Leona tinha pensado a mesma coisa que ela mesma ao se preocupar com o bem-estar do pequeno recém-chegado. Voltou a encarar a loira quando ouviu o lamento dela de que talvez não conseguisse dar conta de cuidar de todos, e que estava com medo. A mais nova teria se surpreendido mais notavelmente ao ouvir aquilo, mas já tinha provado mais de uma vez como Leona era tão cheia de falhas quanto qualquer outro, e ouvi-la confessar aquilo só provou como o estado emocional dela estava abalado e como queria realmente ser de ajuda. - Você pode se questionar essas coisas, e pode até ficar com medo também, mas eu confio em você, e sei que abalada ou não, você não vai deixar que nada aconteça comigo ou com o Adrian. - Carissa respondeu, com bem mais firmeza do que as palavras anteriores da loira e suas próprias. Sabia muito bem da competência e da determinação de Leona, podia estar igualmente incomodada com o fato de que uma criança tinha morrido, mas tinha plena segurança no que estava dizendo quando confiava na loira para resolver o caso. - E eu vou estar aqui no final de todos os dias pra lhe lembrar que vai dar certo. E no começo do dia, vou estar na delegacia fazendo a minha parte de investigação também. - adicionou com um sorriso mais leve, tentando descontrair um pouco o clima pesado. Passou a mão de novo pelos cabelos da loira e colocou a franja dela para trás, curvando-se o suficiente para beijar a testa alheia sem a menor hesitação. Cessou o beijo breve, mas manteve a proximidade dos lábios com a pele dela. - Está tudo bem. Vai dar tudo certo. - adicionou os comentários, agora mais certa das próprias palavras também. Leona
A loira sabia que o caso não era impossível, porque já tinha estudado e lidando com casos igualmente intrincados, mas isso era em outro momento, sob outras circunstâncias, e com outras demandas emocionais. Agora sentia-se com muito mais a perder do que em qualquer outro momento de sua vida, e dava muito valor ao que tinha agora, conseguia perceber porque a angústia era proporcional ao sentimento de zelo e cuidado que tinha. Não sabia exatamente quando tinha surgido, ou talvez apenas estivesse protelando em pensar sobre essas emoções de forma mais racional e consciente, afinal sempre foi mais prático se afogar em trabalho e deixar que ele guiasse sua vida sem qualquer remorso. No entanto, era um ser humano, com demandas que iam além do trabalho, e ter Carissa ali, justamente para lhe lembrar com todas as letras que era plenamente capaz de fazer o próprio serviço era algo bom. Parecia absurdo imaginar que teria tranquilidade emocional baseado em algo que a morena mais nova lhe dissesse, mas sabia que era real, porque estava sentindo aquilo no exato momento, então contra fatos não havia contra argumentos. O beijo em sua testa lhe fez despertar para o gesto com um tipo diferente de expectativa, não sabia exatamente quando tinha surgido, mas tinha plena ciência de que existia. Algo dentro de si se remexia com aquela proximidade, e não foi estranho encarar Carissa aquela mínima distância e inclinar a cabeça para trás aproveitando a pouca distância entre os rostos para encará-la bem de perto. Levou a mão ao rosto da parceira, acariciando o mesmo demoradamente, como se estivesse aos poucos absorvendo tudo que ela tinha lhe dito, e tudo que estava sentindo sobre ela: -- ainda bem que você está aqui Carissa... -- comentou em tom baixo confidente, sorrindo de volta para a morena mais nova, mais ciente do que nunca de como precisava da companhia dela. Não podia ser qualquer outra pessoa, tinha de ser ela, com aqueles comentários bobos ou exaltados, ou os sorrisos gentis e cheios de energia, tão o oposto de si mesma, mas tão necessária a sua vida. Era como se ela completasse um pedaço seu que nunca tinha imaginado que precisasse ser completado, e era curioso parar pra pensar naquilo, justamente agora e nesse momento: -- ainda bem que você está comigo…! Carissa
Carissa não afastou o rosto inicialmente, mas logo Leona que inclinou um pouco mais a cabeça para lhe encarar melhor e devolveu o toque. Parecia apenas natural ter aquele tipo de proximidade, mas o toque suave, a resposta e o sorriso breve fizeram com que algo diferente despertasse na morena. Sentiu o coração acelerar e não foi por conta da ansiedade ou do nervosismo com o caso, era uma sensação boa de satisfação. Sorriu satisfeita por ela agradecer que estavam juntas e ao invés de responder, daquela vez, a sua atitude foi bem mais assertiva. Aproveitou a proximidade e inclinou o rosto para perto dela, fechando os olhos até pousar os lábios daquela vez diretamente nos da loira, sentindo o calor da boca alheia e um breve momento de hesitação, mas não foi o suficiente para lhe fazer parar, ao contrário, firmou o beijo suave, sem necessidade de aprofundá-lo, apenas numa confirmação do que já estava ali, mas que nenhuma das duas tinha externado até então. Não esperou confirmação do gesto ou se ela lhe retribuiria, alguns breves segundos e afastou os lábios, o rosto tomado por uma coloração vermelha em resposta ao ato ousado e constrangedor. - Desculpa... - falou, num fio de voz, em meio ao rosto completamente avermelhado. - Quer dizer, não é desculpas, digo, pela surpresa, mas... é... eu não me arrependo, e... eu não sei se eu devia ter feito ou... se você queria ou... digo, eu queria fazer isso, eu só... foi o... momento e... ou... n-não foi o momento certo ou... eu... que bom que está comigo também, Leona... Engoliu em seco, sentindo o rosto queimar mais e o coração acelerar, não por se arrepender do que tinha feito, como estava tentando explicar, mas pelo momento difícil e talvez pouco adequado para tomar aquela atitude. Leona
Era estranhamente natural sentir-se próxima de Carissa, estavam morando juntas a alguns meses, já tinha ido a casa dela, ela já tinha lhe visto em muitos momentos pessoais demais, mais do que já tinha deixado a maioria das pessoas se aproximar. Sem necessariamente planejar estavam juntas, cuidavam uma da outra e sentia que a morena mais nova era importante para si em várias estâncias, só não esperava que ela tivesse o mesmo tipo de sentimento por sua pessoa. Foi com surpresa que recebeu aquele beijo suave sobre os lábios, normalmente a loira tinha reflexos e pensamentos rápidos para reagir a situação, mas naquele instante, apenas recebeu a carícia, e antes que pudesse retribuí-la a morena mais nova se afastou, deixando um rastro morno em sua boca. Quando ela começou a tagarelar e se desculpar de forma atropelada, Leona piscou algumas vezes absorvendo aquela pequena confusão. Ela também precisava de uma confirmação, mesmo que não fosse verbal do que sentia por ela. A reação imediata de Leona foi sorrir, de um jeito compreensivo, como era difícil de ver. Levou as duas mãos ao rosto da mais nova e se aproximou dessa vez reduzindo a distância para retribuir o beijo, prolongando um pouco mais a carícia, os lábios quentes com gosto ainda de nicotina, selando um beijo carinhoso o que sentia por Carissa. Se afastou apenas um pouco da mais nova, acariciando o rosto da mesma com os polegares e encarando-a naquela pouca distância: -- você não me deu tempo de retribuir seu beijo… -- encostou testa a testa e fechou os olhos, ainda mantendo aquela pouca distância entre as duas, porque precisava daquele contato, e da segurança de que ela era real e estava ali consigo: -- e não precisa se desculpar, eu é que tenho de lhe agradecer todos os dias por estar aqui comigo, e por cuidar de mim e do Adrian, e por me lembrar que eu sou capaz de fazer tudo que eu preciso fazer…! – beijou novamente Carissa, brevemente, para reafirmar aquilo que estava dizendo: -- fique comigo Carissa, fique comigo porque eu preciso muito de você! Carissa
As suas palavras foram logo deixadas para trás quando Leona se aproximou e retribuiu o seu gesto. Sentiu o coração ainda mais acelerado, mas ao mesmo tempo, uma tranquilidade e satisfação que superavam o nervosismo. Um milhão de coisas passaram pela sua cabeça, mas nenhuma delas foi capaz de atrapalhar a linha de pensamentos que entendia que era aquilo que queria e que seu relacionamento com Leona era definido daquele jeito. Nem todo o medo que sentia da loira podia mudar o que tinha se tornado do relacionamento das duas. Sorriu bem mais calma com a situação, a despeito do rosto continuar vermelho, feliz que podia ser importante para a loira mesmo com toda a capacidade que ela já demonstrara ter. E o fato de Leona lhe pedir tão diretamente para ficar com ela substituia qualquer palavra ou declaração clichê que tivesse perpassado sua mente fantasiosa. - E eu já não estou com você? Não vou te deixar, Leona, mesmo que você ainda queira me matar. - comentou, num tom mais jocoso para aliviar a tensão que a noite toda e as notícias recentes tinham trazido para elas. - E nós vamos resolver isso de uma vez. Leona manteve a proximidade até lhe devolver um beijo breve. Devolveu a carícia no rosto da loira e, com a sensação do corpo bem mais leve, suspirou aliviada, colocando os curtos cabelos para trás da orelha. - Vamos pro quarto? Você precisa dormir, e se o Adrian acordar, ele não vai fazer barulho nem vir pedir ajuda. - ela sugeriu. - Amanhã é um novo dia pra gente resolver esse caso de uma vez por todas. Esperou a confirmação dela para que pudessem voltar para o quarto, mas manteve a mão segurando a da loira, o polegar acariciando a costa da mão dela. Precisava da companhia de Leona e ela precisava da sua e tinha plena certeza que daquele jeito elas resolveriam aquela situação. “Nós seríamos uma boa dupla na UCLAT”... pensou, com o mesmo sorriso simples no rosto. Leona
Era curioso o efeito que a morena mais nova tinha sobre si, tinha chegado ali, exausta, carregada e pesada, se sentindo preenchida de sentimentos e pensamentos conflitantes, no entanto, estar na companhia de Carissa tornava todo o caos suportável. Não era uma segurança física que sentia, mas um conforto emocional que não experimentava a muitos anos, sentia como se tivesse uma família de novo, e isso era tão estranho de pensar, mas ao mesmo tempo, tão certo. Achou disposição para rir do comentário mais solto sobre “querer matar” Carissa, normalmente achava aqueles comentários absurdos, mas agora conseguia simplesmente achar engraçadinho. Sentindo o clima todo de fato ficar mais leve, era como se ter admitido aquele sentimento, e ter falado aquelas palavras, tivesse aliviado um peso enorme que carregava junto ao peito. Leona concordou com um aceno de cabeça diante do comentário de irem para o quarto, tomar conta de Adrian e de fato descansarem depois de todo ocorrido, quando acordassem a investigação ainda estaria lá para resolver, mas poderia lançar um novo olhar sobre a mesma se estivesse com a mente suficientemente descansada. Mas antes de fato de levantarem do sofá, Leona envolveu Carissa em um abraço apertado, o rosto achando apoio na curva do pescoço da mais nova, como se buscasse mais um bocado da energia dela para ter disposição para levantar. Roçou o bochecha contra o rosto de Carissa e em seguida depositou um beijo breve ali, confirmando que de fato levantaria, ergueu-se primeiro, já que estava deitada no colo da parceira e ofereceu a mão para que ela levantasse também e manteve a mesma unida a sua devolvendo o carinho, que a outra lhe oferecia. O cigarro queimou até ser consumido completamente na esquadria da janela aberta, e embora o vento frio entrasse pela mesma, Leona estava no quarto, junto a Carissa e Adrian, descansando, com uma sensação estranha, mas totalmente familiar de que finalmente estava em casa. [thread encerrada] |