Academia St. Clavier
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[Drive] Tip Off [Giles; Angus; Berthold] - Lil - 09-22-2021

Angus

Fazia apenas três dias que tinha chegado nos dormitórios de St. Clavier e ainda estava tentando se acostumar com a rotina nova. Para uma pessoa com baixa pressão, acordar todos os dias bem indisposto já era inconveniente, mas por jogar basquete quase a vida toda, tinha que se manter em forma e por isso, funcionava quase no automático ao levantar da cama pouco antes das sete da manhã para uma caminhada matinal. O corpo aquecia, conseguia acordar um pouco mais, mas mesmo com a movimentação, estava o tempo todo distraído naquele horário logo cedo. Os gestos pela manhã ao levantar da cama eram quase automáticos, só calçava as basqueteiras, vestia a bermuda e a camisa regata que já ficavam separadas ao lado da cama e colocava as munhequeiras com as quais já estava tão acostumado para então, seguir para uma caminhada e corrida de pouco menos de uma hora. A única coisa incomum foi esbarrar em algo na saída do quarto, mas não deu tanta atenção ao chute no que devia ser o canto da parede.

Ainda estava conhecendo o terreno ao redor de St. Clavier, tinha acabado de chegar na cidade pequena, então não era incomum tropeçar em algumas calçadas, esbarrar em algumas latas de lixo e arbustos no caminho da sua corrida, tão acostumado estava com o percurso que fazia ainda em sua cidade natal. No primeiro dia, tinha chutado uma lata de lixo - que ficou caída só porque não tinha percebido o detalhe ao passar -, no segundo, tinha esbarrado com força numa árvore no caminho, mas no fim da tarde, já não fazia ideia do que era a dor no ombro. Naquele dia, a distração em meio aos passos largos e ritmados foi ainda maior e ao virar a esquerda depois dos usuais sessenta passos do caminho familiar, esbarrou com vontade contra um poste, a ponta do nariz e a testa ficando vermelhos imediatamente. Deu um passo para trás com o impacto, os olhos lacrimejando pela dor inconveniente, e só levantou a mão até a testa, lentamente processando a informação.

Não parou de correr por conta daquilo, depois dos infortúnios e do caminho recém-conhecido, retornou aos dormitórios, abrindo duas portas erradas antes de voltar ao próprio quarto e sentar na cama, curvando o corpo para frente e apoiando os cotovelos nos joelhos, quase como se fosse dormir de novo. Bocejou longamente, ignorando o detalhe de que não estava exatamente sozinho.

Giles

Apesar de Cerise já ser seu lar havia algum tempo, a notícia de receber a bolsa para St. Clavier mudava muito como vivia naquele lugar. Tinha a chance de cursar matemática na Academia renomada, e ser membro ativo do clube de xadrez. Para quem estava há alguns meses apenas juntando trocados e ninharias para não passar fome enquanto o tio reorganizava a vida, a mudança vinha em bom tempo. O melhor de St. Clavier, claro, eram os dormitórios. Podia sair das costas do tio e permitir a ele também ter o próprio espaço sozinho na cidade. Queria que ele vivesse mais a própria vida e menos a de uma mãe preocupada, mesmo que isso significasse que ficaria um pouco mais solitário.

Estava de aviso prévio em dois dos empregos que de meio período em que trabalhava durante a semana, deixando apenas sua cliente no reforço de matemática por ter um horário mais flexível. Agora que moraria na escola, tinha que se dedicar mais aos estudos e quem sabe retomar os clubes de esporte. E foi com essa expectativa que jogou suas malas em um dos quartos do dormitório, assim como o responsável pelos terceiranistas tinha lhe indicado.

Como era uma pessoa de fácil convivência, supunha que ter um colega de quarto não seria problema. Seria o mesmo que ir para uma universidade americana, a exceção de que lá usavam uniforme e não tinham um time de futebol. Começou a arrumar as coisas no quarto quando ouviu o barulho da porta se abrindo e parou para encarar a pessoa que entrava, certamente o seu roomate.

Arqueou a sobrancelha para o ruivo alto com os cabelos bagunçados pelo vento, o rosto suado, a testa vermelha e o nariz vermelho. Aliás... aquilo era um galo? Abriu a boca para cumprimentar o outro, mas ele passou como se sequer tivesse lhe visto. Encarou-o por alguns segundos enquanto ele sentava na posição de quem queria só voltar a morrer, e supôs que seria melhor não aprontar com o sujeito já que acabaram de se conhecer. Mas de certa forma, ele parecia aprontável.

- ... Bom dia. – cumprimentou o outro com a expressão neutra, esperando alguma resposta ou ao menos algum olhar. – Você está bem?

Angus

Piscou longamente, a vontade que tinha sempre ao voltar de uma corrida era se jogar na cama e dormir mais. Um pouco mais até mais ou menos o horário do almoço, quem sabe? Levantou-se para seguir na direção do banheiro e tomar um banho quente, lavar o rosto, mas antes de se mover, ouviu uma voz distante que mais parecia de um sonho do qual mal tinha acordado e só então parou para observar que havia outro rapaz no quarto. Estava mesmo no quarto ou estava só dormindo acordado? Encarou-o de volta com uma expressão completamente abatida de sono e bocejou de volta antes de responder qualquer coisa. Na verdade, ignorou a possibilidade de resposta, continuando o caminho até o banheiro e despedindo-se com um curto “hmm”.

Entrou direto no chuveiro, deixando as roupas jogadas de lado no chão do banheiro. Ficou um pouco mais disposto depois do banho, mas ainda continuava bocejando repetidas vezes. Escovou os dentes praticamente de olhos fechados, a toalha enrolada na cintura enquanto o cabelo molhado escorria no rosto e nos ombros. Saiu do banheiro finalmente direto para o armário para pegar o uniforme da academia que eram as únicas peças de roupa que ficavam nos cabides. Àquela altura, mais uma vez, sequer se deu conta do novo colega de quarto, a cada passo que dava, esbarrando em alguma coisa por acidente pelo pouco costume com o quarto.

Demorou um pouco para trocar de roupa, acertar todas as casas dos botões da camisa social e pegar a mochila e o uniforme. Não deu o nó na gravata, não abotoou o colete e menos ainda vestiu o terno, mas seguiu com as peças daquele jeito na direção da porta, segurando a mochila lateral com alguns livros e caderno de anotações. Ainda tinha que tomar café da manhã depois dali para estar na aula às 8h30 – apenas três dias e ainda estava chegando atrasado. Não deu conta do colega de quarto, mas deu conta da bagagem dele ao seguir para fora do quarto e de novo, chutar algo que não estava no seu caminho usual, continuando a caminhar normalmente em meio a longos bocejos preguiçosos.

Giles

Franziu a testa genuinamente quando a única resposta dele para seu bom dia foi um singelo “hmm” e uma cara de sono. Até entendia que estava cedo e não queria perturbar, mas francês ou não, aquele comportamento era muito rude. Quando o ruivo levantou, cruzou os braços esperando que ele fizesse algo que não lhe ignorar, mas não foi o caso: como um debochado, levantou e foi até o banheiro como se nem existisse. Seguiu-o com o olhar, ficando cada vez mais irritado a medida que ele saía dali.

Só não esperava que ele tirasse as roupas ali mesmo e entrasse para tomar banho.

Engoliu em seco, ainda muito irritado com o tratamento, mas muito curioso pela lembrança agradável dos vestiários do colegial. Espiou ele no banho com muita cara de pau, apenas porque se ele estava lhe ignorando, não tinha porque fazer cerimônia. Quando saiu, notou como ele esbarrava nas malas e demorava para se arrumar, quase como se estivesse em um estado entre o sono e a necessidade de levantar da cama. Mas uma pessoa com tanto sono assim deveria pelo menos acordar depois de fazer exercícios, não? E sabia que ele tinha feito exercícios! Havia sentido aquele cheiro agradável de suor masculino pela manhã.

Arrumado como um apartamento de homem solteiro, o ruivo lhe deixou para trás sozinho no quarto sem sequer responder seu bom dia, saindo dali movido a bocejos e tropeços. Mandou um dedo do meio para as costas dele enquanto revirava os olhos e continuava a desfazer suas malas.

Foi aproveitar a cantina de St. Clavier em seguida, provando o café da manhã francês tradicional que eles ofereciam e notando a presença do seu colega de quarto mais uma vez, alimentando-se com uma quantidade razoável de comida saudável. Estalou a língua e foi arrumar panfletos informativos sobre os clubes, notando como a escola era escassa de esportes que conseguiriam chamar a atenção de um garoto criado na américa. Boxe? Meh. Esgrima? Meh. Lacrosse? O que porra era Lacrosse? Foi então que achou “Basquete”. Como um Americano regado a NFL e NBA (e um pouco de MBL), se não tinha futebol americano, então iria para o segundo esporte mais interessante.

A quadra era longe (que escola enorme!) mas explorar foi divertido. Abriu a porta da quadra para ver apenas um dos membros já treinando, um ruivo alto com movimentos ágeis. Ele tinha uma altura vantajosa, provavelmente boa para pegar rebotes, e era rápido nos movimentos, ainda mais treinando sem marcação, correndo para fazer bandeja. Observou animado o treino, demorando a perceber que aquele garoto com o cabelo ruivo era o seu colega de quarto, de tão diferente que ele parecia na quadra. Gradualmente desfez o sorriso e os ombros murcharam, e não sabia bem como reagir a tudo aquilo.

Respirou fundo.
- VOCÊ! DE NOVO! – apontou para o outro, a expressão plenamente normal. – Vai me ignorar agora também!? Eu estou muito bem vendo que você é todo ligeirinho, monsieur! Devia apertar esse botão de pânico na sua testa!

Angus

O tempo todo, o processo para acordar era absolutamente lento. Não conseguia render muita coisa pela manhã por mais que tentasse, por isso que sempre tinha que revisar as matérias mais chatas durante a tarde ou a noite quando voltava para casa. No caso de St. Clavier, já tinha visto que os assuntos seriam mais complicados do que quando estava na Irlanda e para manter a bolsa, precisava manter as notas altas.

Quando ficou mais consciente da situação, já era mais de dez da manhã e conseguiu, com sucesso, prestar atenção na aula de química. Não que entendesse muita coisa do assunto, mas era melhor estar concentrado naquela matéria do que em inglês. Até o fim das aulas, já tinha almoçado muito bem e despertado totalmente para a situação, conversava mais com alguns dos poucos colegas que tinha feito em sala de aula e estava mais interessado no fim das aulas para que chegasse o tempo livre dos clubes. Ainda era começo de semestre, então as inscrições para os clubes não estavam oficialmente abertas. Mas tinha entrado em St. Clavier com uma bolsa para jogar basquete, então não se sentia nem um pouco intimidado de ir para a quadra praticar um pouco logo depois das aulas.

Trocou de roupa no vestiário, com bermuda, basqueteiras, camisa folgada e as munhequeiras de sempre. Pegou uma das bolas na quadra e foi praticar. Já tinha encontrado ali um ou outro aluno curioso, mas pelo visto a frequência só aumentaria quando os anúncios oficiais fossem feitos. Se aqueceu e fez alguns movimentos rápidos, para começar a correr pela quadra e encestar algumas bolas. Costumava praticar mais da linha de três, onde era seu ponto fraco, mas não tinha como resistir dar alguns passes mais perto do garrafão e encerrar com enterradas.

Tinha acabado de fazer mais uma cesta na bandeja quando ouviu o grito de acusação, distraindo-lhe da tarefa costumeira de ir buscar pela bola que saiu quicando para longe na quadra. Franziu o cenho, confuso com a acusação do outro, puxando a gola da camisa para limpar o suor no rosto e depois passar o braço na testa, limpando aquela área com uma das munhequeiras a tempo de contorcer a expressão numa de dor com um "ouch" ao pressionar a área que tinha machucado naquela manhã.

- Hm? Quem é você? - perguntou ao moreno de cara absurdamente normal, aproximando-se até ficar a alguns passos de distância do rapaz. - Você é parte do time de basquete? Em que posição você joga?

Era bem óbvio que não fazia ideia do que ele estava falando. Será que o tinha ignorado na Academia ao mudar de salas enquanto ainda estava meio com sono? Parecia bem plausível, já tinha feito aquilo mais de uma vez.

Giles

Mesmo depois de lembrar que ele tinha uma coisa na testa, lá foi o sujeito e passou munhequeira sobre o suor que teimava em cair da região, soltando um “ai” bem claro daquela distância. Arqueou a sobrancelha. O sujeito lhe deixava levemente irritado, mas era provavelmente porque ele parecia um tipo muito avoado para toda a habilidade que tinha com basquete. O que não esperava era aquela completa ignorância sobre quem era. Ele estava tirando uma com a sua cara?

- Hã? Como assim “Quem é você?”. Você já estava com esse galo na testa quando nos encontramos. Não vai rolar uma brincadeira idiota de amnésia comigo não! – franziu o cenho, tentando achar um sentido para o comportamento dele em sua mente, apesar de já estar decididamente irritado com tudo aquilo. – Olha, não sei porque vou colaborar com essa sua brincadeira, mas sou o cara de manhã! O cara do quarto, lá dos dormitórios?

Supôs que seria mais efetivo listar o que tinha de especial sobre ser o “cara do dormitório”, porque imaginava, para alguém que estava lá há mais tempo, havia vários caras do dormitório. Quanto mais específico melhor.

- Hoje de manhã! O seu colega de quarto novo. O que você ignorou. O que você tomou banho na frente, monsieur 11 cm flácido. – respondeu com a voz levemente mais alta que o usual, embora a expressão não fosse muito diferente de sua cara já comum. Ao menos os absurdos ele teria que responder. – Aliás, você chutou minha mala na saída. E meu nome é Giles Berlioz. Você é...?

Angus

Só franziu mais o cenho quando ele respondeu com aquela irritação bem óbvia. Retribuiu o olhar irritado, por que é que tinha que saber quem ele era e por que aquilo tinha deixado o rapaz tão irritado? Só amenizou a expressão um pouco quando ele disse muito especificamente que era o "cara do quarto". Pensando bem... tinha mesmo esbarrado em alguém mais cedo, não era? Claro que naquele estado, não tinha prestado a mínima atenção no companheiro de quarto, parecia mais que era só uma ilusão de um sonho aleatório.

Já ia abrir a boca para responder, mas a intenção foi cortada no mesmo instante em que ele completou a sentença, reforçando que era o colega de quarto novo e adicionando o detalhe de que tinha tomado banho na frente dele. A resposta automática foi ficar vermelho... de raiva - e um pouco de embaraço também. Franziu mais as sobrancelhas pra ele, numa expressão mais irritada.

- Qual é o seu problema? Você ficou me vendo tomar banho?! - retrucou para o mais baixo, num tom incrédulo. - Se eu chutei a sua mala, era porque ela estava no caminho, então guarde as coisas no lugar certo! E pra sua informação, eu tenho pressão baixa, então pela manhã, eu não consigo prestar atenção em nada. - admitiu aquele detalhe com aquela mesma cara vermelha de raiva e um pouco de constrangimento também. - Se veio aqui só pra reclamar da sua mala, eu tenho mais o que fazer.

Deu meia volta, indo buscar a bola de basquete que tinha sido jogada para o outro lado da quadra, para continuar o treino mais descontraído.

Giles

Que bom, Giles! Mal tinha chegado, e já tinha arrumado confusão. Era seu forte, e verdadeiramente não se incomodava com isso, mas sendo um adulto de 18 anos, deveria pelo menos pensar que St. Clavier seria sua universidade, e que arrumar treta com o colega de quarto geralmente era pouco recomendado. Mas que o ruivo estava pedindo, estava. Ah, se estava!

Sorriu de leve com o canto dos lábios de um jeito debochado quando ele ficou completamente vermelho de raiva. Tinha conseguido atingir ele com suas colocações, e supunha, pela cor do rosto, que além da raiva, ele deveria ter ficado um pouco envergonhado com a própria atitude mais cedo. Nenhuma surpresa que aquele foi o primeiro comentário dele em retorno.

- Claro que eu não fiquei te vendo tomar banho! Mas eu estava lá TENTANDO colocar a minha mala no lugar quando você apareceu, ignorou meus cumprimentos educados, tirou toda a roupa no meio do quarto e foi tomar banho como se não se importasse se tinha alguém assistindo. Não vem bufar pra mim não! – resmungou de volta, erguendo de leve a mão de um modo levemente afetado como tinha aprendido com o tio sem perceber, contendo o ímpeto dos gestos enquanto ainda estava no meio do discurso. – Pressão baixa! Isso é experiência extracorpórea! Possessão! Ô!

Estalou a língua e levando o lábio superior de um modo levemente desgostoso quando notou que além de lhe responder abusado, o ruivo ainda tinha ignorado completamente sua pergunta. Tudo bem, não era a apresentação mais tradicional, e nem mais agradável, mas será que ele ainda não tinha entendido que sua irritação toda vinha do fato dele parecer um zumbi matinal e lhe ignorar completamente.

Olhou a bola de basquete que ele estava indo pegar e deu uma pressa para pegar a mesma na frente dele, apenas por hábito do Futebol Americano, segurando-a contra o corpo com um dos braços.
- Eu não vim aqui atrás de você não. Nem reclamar da mala. Eu vim aqui considerar entrar para o clube de basquete. – respondeu, observando-o com os olhos levemente estreitos, erguendo de leve o queixo e soltando a bola para quicá-la no chão algumas vezes, com toda a habilidade de quem só tinha jogado basquete por diversão. Certamente não tinha a habilidade de um membro do clube de fato.

Angus

Ficou mais avermelhado pelo fato de que realmente tinha tirado a roupa na frente dele sem ao menos perceber aquilo. Não que ficasse envergonhado de ficar nu na frente de outra pessoa, mas da ideia de fazer aquilo sem sequer perceber - sabe-se lá como não tinha feito isso em situações piores. Só o encarou com uma expressão mais irritada quando ele ainda reforçou que pressão baixa não era o suficiente para ficar desatento daquele jeito, mas não era ele que tinha que lidar com aquela indisposição matinal, logo, não tinha que dar pitaco também.

Mas a sua tentativa de ignorá-lo pela segunda vez - ao menos era o que parecia, já que tinha passado direto por ele pela manhã - foi bem frustrada quando o rapaz teve a ousadia de correr e pegar a bola antes dele. A expressão não melhorou em nada, pelo contrário, rangeu os dentes com um sonoro "tch" por ele ter lhe interrompido e parou a um passo de distância do menor que mal sabia segurar uma bola de basquete.

- Entrar pro time? - o tom não foi de deboche, na verdade, foi pura curiosidade. Estava acostumado com os alunos meia-boca que jogavam em seu time na Irlanda, mas considerando que St. Clavier era uma academia renomada por seus esportistas, talvez ele soubesse o que estava fazendo? Não era possível que fosse carregar o time nas costas de novo. Prestou atenção quando ele começou a quicar a bola, o que ou podia ser uma técnica muito descontraída de um ótimo jogador ou pura falta de habilidade. - Então você sabe jogar basquete? Me mostre.

Encarou-o mais determinado, com um olhar de desafio, e sem desviar a atenção do rosto comum - exceto por aquele trio de sinais que tinha acabado de notar -, fez um gesto rápido com uma das mãos, tirando a bola do caminho dele e segurando-a com a outra mão para quicar rapidamente de uma para a outra e lançá-la para uma cesta de dois pontos que foi fácil, pela proximidade em que estavam da cesta.

Giles

Talvez o começo dos dois não tivesse sido com o pé direito. Na verdade, se tinha sido com o pé direito, tinha sido o do ruivo em sua mala, e certamente não era o pé direito certo. O que mudou aquilo foi talvez a menção de que tinha ido ali para tentar se juntar ao clube de basquete. Surpreendeu-se com o tom da voz dele quando tentou confirmar se tinha dito mesmo aquelas palavras. Ele não estava tirando sarro de sua cara. Na verdade, ele até parecia curioso.

Possuído ou não, tinha que respeitar um cara bom em um esporte que realmente se interessava por outras pessoas interessadas no esporte.

Ainda estava irritadiço, e ele também, supunha, mas sentiu até os pelos do peito do pé ficarem de pé quando ouviu: “Então você sabe jogar basquete? Me mostre”. E lembrava cada palavra. Podia ter um francês mais arranhado que os nativos por ter aprendido de segunda mão, mas era um desafio, não era? Podia entender como um desafio. Os olhos escuros até brilharam quando devolveram o olhar para o ruivo, o rosto bastante neutro tomando um ar interessado pouco perceptível.

Tentou até se mexer, mas antes mesmo que quicasse a bola, ele tirou ela de suas mãos e com a agilidade de um jogador experiente, lançou a bola para uma cesta de dois pontos. Abriu um largo sorriso entretido.

- Quando é basquete, você fica bem vivo, não é, grandão!? – andou para pegar a bola, segurando-a entre os dedos de fora da linha apenas para deixar bem explícito que estava ocupando o tempo. – Meia quadra? 21 pontos? 2-0 então. – caminhou até o meio da quadra, onde podia começar e observou o adversário, novamente batendo a bola de seu jeito desleixado apenas um passo a frente da linha. – Te mostro sim! – inclinou-se mais para a frente como se fosse avançar, batendo a bola uma vez, mas ao invés de seguir para frente, ergueu a bola rapidamente para fazer um arremesso, mirando tão rápido quanto sua experiência com o esporte bastava e então lançando a bola daquela posição estática, só com a força bruta do braço e uma posição de mão bastante rija para alguém que queria entrar em um time de basquete. A bola foi longe, mas bateu na tabela e quicou para fora. – Eita caralho!

Fez um gesto indiscreto esticando os dois braços para indicar que era a vez do ruivo.

- Acho que é com você então! – e rapidamente assumiu a posição de defesa, claramente menos irritado e com os olhos fazendo um milhão de cálculos mentais sobre o jogo.

Angus

Sorriu um tanto convencido quando ele disse que ficava vivo quando se tratava de basquete. Fazia muito tempo que praticamente vivia para o esporte e se não fosse um esporte de equipe, podia se garantir que já estaria muito a frente de seus competidores.

- Okay, 21 pontos. Pelo menos aqui em St. Clavier tem gente mais esperta do que no meu antigo time. - respondeu, acompanhando o outro na empolgação enquanto pegava a bola para começar do meio da quadra. Até sorriu mais empolgado quando ele entrou no jogo, confirmando que lhe mostraria como se faz.

Posicionou-se na frente dele para defender, mas embora fosse rápido - a despeito do seu tamanho -, percebeu uma movimentação mais limitada e previsível, diria até um pouco dura e antes mesmo de tentar lhe passar um drible, ele só quicou a bola para tentar arremessá-la dali mesmo, do meio da quadra. Por um instante, achou que se surpreenderia com uma cesta tão longe, mas a realidade bateu tão rápido quanto a bola dele na tabela e no chão. Arqueou a sobrancelha, olhando da bola para o colega ainda empolgado. Pra tentar fazer uma porcaria daquelas e do meio da quadra... ou ele era muito ruim ou era muito bom e estava só tirando sarro da sua cara.

Pegou a bola de volta, indo para o meio de quadra para começar. Ele se colocou em posição de defesa e observou atentamente, só precisou quicar a bola algumas vezes entre as mãos, chamando a atenção alheia para driblá-lo pela direita com um movimento mais rápido do que se esperava de alguém do seu tamanho, e diferente do moreno, deu passos largos e acelerados até o garrafão, deixando o colega para trás ao dar um salto e enterrar a bola. Caiu firme, os joelhos levemente curvados, e levantou a barra da camisa para limpar o rosto de novo.

- Quatro. - anotou a pontuação em voz alta, pegando a bola facilmente com apenas uma mão. - Você é pequeno mas não parece tão ágil. Próxima.

Giles

Podia garantir que era esperto. Era dono de grande agilidade mental, era bom com cálculos instantâneos, tinha olhos bons para medidas e era ridiculamente empolgado quando desafiado. O outro também, finalmente parecia estar começando a se interessar. Era uma pena que era menos bom do que achava que era.

A sua tentativa foi de usar sua mira para acertar a cesta, mas era mais complicado medir onde a bola deveria cair, mais do que a força que usar para que ela voasse para longe. A força estava certa, mas não tinha calculado a parábola necessária para que ela entrasse na cesta. Bom, 21 pontos e teria alguma chance de acertar eventualmente. Mas ele estava lhe passando o julgamento pela falha grotesca. Podia sentir isso naquela sobrancelha indiscretamente arqueada.

Observou os movimentos ágeis do ruivo. Não tinha tamanho para impedir um arremesso e ele era mais maleável no drible, como provou em apenas alguns segundos, lhe passando direto para o garrafão e mal lhe dando tempo de correr e impedir a enterrada. Aliás, que enterrada! Assobiou inconscientemente.

- Nem todo pequeno precisa ser rápido, assim como nem todo gigante precisa ser devagar, pelo jeito. – elogiou o outro indiretamente, colocando-se de novo na posição de defesa para mais uma jogada. Novamente, seguiu o outro com os olhos, tentando prever os movimentos dele baseados no que sabia de basquete. Claro que era um a um e aquilo dificilmente teria as mesmas estatísticas, mas usava as armas que tinha. Infelizmente as armas que tinha não ajudaram quando ele lhe passou a segunda, fazendo uma bandeja tão suave que parecia não ter marcação. – Tch! Seis!

Retomou a posição de defesa, e como uma defesa devagar para a agilidade impressionante do ruivo, levou mais dois olés, e mesmo correndo e saltando para evitar uma enterrada, ele ainda conseguiu usar bem o movimento do pulso para encestar. O filho da mãe era bom. Frustrantemente bom.

- Arrrghhh! Doze! – o corpo estava esquentando aos poucos. Como tinha entrado todo frio na brincadeira, tinha sentido um pouco mais de agilidade nas pernas a medida que progrediam. Era só um jogo rápido, mas a quadra não era um resto de pavimento num parque e era o suficiente para esquentar o sangue. Podia não saber segurá-lo, mas podia dar dor de cabeça. E naquela jogada, foi isso que fez, se sentindo um membro da line, embora bloqueasse o ruivo por todos os lados. Usou seu melhor impulso para deixá-lo numa posição difícil de arremessar. Não soube dizer se foi a frustração por ser um adversário muito ruim ou se foi sua persistência, mas a bola quicou no aro e saiu. – Isso! Progresso! – correu para pegar a bola, sabendo que seria sua vez de tentar atacar.

Angus

A primeira jogada podia ter sido só um teste. A segunda uma avaliação do oponente, a terceira já tinha mostrado uma inconstância bem maior nos passos do outro rapaz e a incapacidade dele de fazer bons dribles ou sequer manter um bom controle de bola. Para que ele lhe bloqueasse ou roubasse a bola de suas mãos, então, estava se mostrando quase impossível. Era no máximo engraçado, mas certamente não era agilidade com o esporte. No décimo segundo ponto, já tinha certeza de que o outro não sabia jogar basquete direito e nem passava perto de ser um bom adversário. Pelo visto, tinha subestimado os estudantes esportistas de St. Clavier.

Estava começando a se distrair com o jogo fácil e quando seguiu para o próximo arremesso, ele conseguiu lhe tirar o equilíbrio para que a bola não caísse na cesta. Acompanhou-o de volta até o meio da quadra, a empolgação reduzida pela metade e a expressão irritada era bem notável.

- Se é esse o time que eu vou ter em St. Clavier, talvez fosse melhor ter ficado na Irlanda. - reclamou, com um "tch" sonoro ao levantar o punho para limpar a testa, de novo, esquecendo do galo de mais cedo. Mas não reclamou daquela vez, apenas sentiu o incômodo do machucado e se posicionou para bloquear o seu adversário.

Deu mais espaço para que ele fizesse alguma coisa. O que ele sabia jogar de basquete era obviamente muito básico, como os moleques de rua com quem jogava quando tinha dez anos de idade e ainda não sabia nada. Não deixou de jogar, claro, mas ele conseguiu passar por si para alcançar o garrafão e não fez muita questão de acompanhá-lo nem de tentar impedir o lance. Até a tentativa dele de bandeja foi bem inútil e só conseguiu encará-lo de volta com uma expressão de julgamento, até mesmo ignorando a bola que rolou para fora da quadra.

- Você veio pra St. Clavier pra jogar basquete? - o tom de incredulidade foi bem gritante na pergunta dele.

Giles

A medida que o jogo seguia, embora ainda estivesse animado com a proposta de desafio, estava ficando claro que seu adversário não era exatamente o tipo de brincar. E embora fosse um sujeito que claramente não sabia nada de basquete, estava tentando seu melhor. Odiava ser subestimado ou desprezado, mesmo diante de circunstâncias óbvias. Enquanto ele jogasse estava tudo bem que lhe olhasse com desprezo, mas era bom ele não desistir antes dos 21 pontos. Tinha uns 50 cents de respeito por ele que queria manter pela boa convivência no quarto.

- Ah, então você é irlandês. Bem que achei que falava um francês duro. – respondeu em inglês, passando a mão pela testa para tirar o suor que começava a ficar mais incômodo. Ele, novamente, parecia ter esquecido mesmo que tinha um galo na cabeça. Era estúpido? Na sua vez de atacar, fez um drible que sentiu ser até fácil e correu para o garrafão, lançando a bola em uma bandeja que podia ter acertado, não fosse a facilidade de tudo ter lhe deixado incomodado. A bola rolou para longe, e olhou por cima do ombro para o ruivo. Estreitou os olhos ao ouvir aquela pergunta que claramente indicava que ele tinha perdido toda a vontade de jogar. – Se eu não sei nem seu nome, não preciso justificar o que vim fazer em St. Clavier para você. Isso não muda o nosso jogo.

Andou até a bola para pegá-la de volta e foi até o sujeito alto, entregando a mesma para ele.

- Já entendi que você é bom, e sei bem que sou medíocre, mas eu estou tentando lhe vencer, então continue jogando. Não vai desistir do desafio que você fez. – resmungou de volta para o ruivo, ficando um tanto irritado com aquela atitude dele. Já não podia dizer que estava sendo subestimado, mas ainda não tinha esgotado toda a sua força de vontade. Podia não ter habilidade, mas era um porre de orgulhoso, e em especial quando era encarado daquele jeitinho mesmo que ele lhe encarava. – E se eu tirar essa bola de você e fizer cesta? Hm? Não vai ser humilhante, porque levou ponto de um cara medíocre como eu?

Apelou mais para o orgulho dele, se é que ele era o tipo fácil de desafiar, e provocando de graça, apenas porque queria ver ele irritadíssimo com sua persistência. Estava arriscando ali levar uma bolada na cara, mas iria viver. O negócio era jogar.

Atento, esperou ele quicar a bola no chão apenas uma vez, e então, respirou profundamente e bem rápido antes de abrir a boca com uma voz ridiculamente alta, que ecoou a quadra toda:
- SEU METIDO PICUDOOOO!!!!! – berrou a ponto da veia do pescoço ficar visível, e tentou aproveitar do barulho ridículo para roubar a bola. Um arremesso de dois pontos numa parábola usando a suavidade da mão que precisava para uma bandeja. Conseguiria fazer isso. Não por sorte. Mas porque sabia disso. Só não tinha tentado ainda.

Angus

Foi mais fácil entender o inglês do que o francês, mas deixou aquele detalhe de lado quando ele especificou ainda que não precisava lhe explicar o que tinha ido fazer em St. Clavier. Apenas torceu os lábios, frustrado e irritado com aquela competição, mas esperava que ele não fizesse parte do time oficial, porque seria uma piada. Ao menos dava para se distrair com algumas jogadas mais simples e se manter aquecido, no mínimo.

- Eu não fiz desafio nenhum, pedi pra me mostrar que sabe jogar e você obviamente não sabe. - respondeu, com o mesmo tom de desaforo e irritação. Mas ainda estreitou os olhos para o moreno quando ele ainda sugeriu que poderia tirar a bola dele e fazer uma cesta. - Pff.

Só soltou o ar com descrença entre os lábios, mal se preocupando com a postura diante do adversário fraco para começar a quicar a bola. Já ia dar o primeiro passe de drible quando ele deu um grito, do nada, que lhe fez piscar e perder a bola num milésimo de segundo e ainda teve a capacidade de lhe deixar muito irritado. Ele tinha comentado sobre ser humilhante levar um ponto de um cara medíocre? Daquele jeito que ele fazia bandeja, era bem difícil conseguir.

- Você sabe que os pontos são quando a bola entra na cesta, não é? Porque parece bem difícil pra você. - reclamou, passando pelo moreno para pegar a bola e encarando-o de cima com um ar de superioridade bem notável e um olhar de desafio, indo até o centro da quadra para reiniciar. - Já que você não consegue me mostrar nada além de errar a cesta, eu vou lhe mostrar o que é ser humilhado.

Só girou a mão para baixo, segurando a bola com facilidade, para começar a jogada. Esperou apenas que ele desse um passo de ajuste em sua direção e iniciou a jogada, fazendo um drible rápido com passes largos e alcançando o garrafão com facilidade para outra cesta de dois pontos. Dali em diante, sequer deu tempo para que ele recuperasse a bola, pegou de volta e voltou para o mesmo ponto, dando tempo apenas para que ele chegasse no local. Com jogadas de apenas 24 segundos para o arremesso, era tempo mais do que suficiente para cruzar meia quadra, encestar e voltar até o centro. Ainda lançou uma cesta de três, que embora não fosse seu forte, em meio a determinação, desceu reto pela cesta sem qualquer dificuldade. Em menos de um minuto e meio, sem dar tempo para que o outro processasse toda a informação, já tinha completado 21 pontos.

- É assim que se humilha alguém. - falou, com toda a categoria, mal se cansando com o jogo rápido. Enxugou o suor no rosto e na boca com uma das munhequeiras. - Mas como você já admitiu que é medíocre, não é lá uma humilhação tão importante. Eu não sei o que veio fazer em St. Clavier, mas espero que não seja jogar basquete.

Giles

Ser subestimado fazia mesmo seu sangue ferver, mas tinha que dar o braço a torcer para o irlandês. Não sabia jogar. Não no nível dele. Mas quem iria adivinhar que os jogadores de St. Clavier eram tão bons? Ou melhor, ele era. Se o time de xadrez da academia tivesse metade daquela habilidade, provavelmente fariam muito estrago nas competições pela Europa. Mas isso seria algo para pensar quando fosse agir como membro do xadrez. Por ali, precisava derrotar o ruivo.

A estratégia para roubar a bola tinha sido funcional. Roubou a bola com agilidade, e logo estava correndo com o ruivo em seu encalço, quicando a bola em direção ao garrafão. Então, tentou encestar com uma bandeja. A bola girou no aro, lhe deixando animado que poderia entrar, mas não foi o que aconteceu e sentiu toda a pressão do adversário soprar em suas costas com um ar verdadeiro de que ele lhe engoliria de tanta raiva.

Arqueou a sobrancelha quando ele comentou que não deveria saber quantos pontos valiam a bola, mas como bem se conhecia como um aficionado por regras, não respondeu, exceto por um olhar estreito irritado.

Parecia, na retomada das jogadas dele, que o novo colega de quarto tinha ligado o botão do ódio. Tentou segurar a barra na primeira corrida, sendo driblado facilmente. Na segunda também. Então veio uma cesta de três pontos. Estava correndo atrás dele, tentando, mas o gigante era ágil, forte e tinha um tremendo fogo no rabo para lhe deixar completamente lavado de desonra. E ele levou o que...? Dois minutos para isso? Até teve que contar a exasperado.

- 21. – apontou o óbvio, franzindo a testa levemente frustrado que ele tinha conseguido lhe vencer com tanta facilidade. Mas não podia fazer nada. Tinha que dar o braço a torcer pela habilidade alheia. – Uma derrota completa. Ahhrr! - levou uma mão até a cabeça, bagunçando os curtos cabelos negros. – Okay, cara, você é mesmo um jogador bom, ein! Acho que deveria ter esperado que o nível do time daqui com certeza não ia ser o mesmo de um time de ensino médio... eu vim para treinar aqui, porque gosto de basquete, mas não é nenhum segredo que não sou jogador. – respondeu, dando de ombros, afinal, tinha mesmo sido derrotado. Não adiantava reclamar dos resultados. Ele mesmo tinha contado.

Angus

A ideia de que teria que jogar em St. Clavier do mesmo jeito que jogava na Irlanda estava lhe deixando realmente frustrado. Tinha que carregar o time inteiro nas costas só porque ninguém tinha tanto interesse no esporte quanto ele e gostavam mais da farra e dos créditos que ganhavam no clube do que de vencer os campeonatos de fato. Gostaria muito de ter um time completo com todos os jogadores ao invés de jogar em todas elas. Além do que, era bem impossível aguentar correr o jogo todo e manter o ritmo.

Quicou a bola no chão enquanto o outro voltava na sua direção, parecendo bem frustrado também por ter perdido. Já estava até preparado para ouvir o blá blá blá com o qual estava acostumado também, mas até que a resposta dele foi mais amena do que esperava. Segurou a bola de volta com uma das mãos, apoiando-a nos quadris e encarando o outro agora de sangue mais frio. Então ele só queria treinar ali e não era exatamente dedicado ao basquete? Bom, ainda não tinha entrado oficialmente para os clubes e não tinha encontrado o time de St. Clavier, então talvez houvesse salvação.

- Eu acabei de chegar, não sei qual o nível daqui, mas eu espero que seja muito bom. - respondeu, apontando a bola na direção dele e jogando sem muito prévio aviso. Mas ele estava de frente e não era exatamente lento, então não devia ser difícil agarrá-la. - Se me dissesse que só veio treinar, teria lhe ajudado com outras técnicas. Mas foi divertido. E você tem um braço forte, mas arremesso em basquete não depende só de força, depende de equilíbrio e de destreza também. Devia tentar lances livres.

Levantou a camisa para limpar o rosto de novo, mas ainda estava bem mais inteiro do que esperava depois de toda a prática. Mesmo que ele não fosse um titular do time de basquete, quem sabe podia lhe ajudar a se distrair?

- Contanto que você não seja titular na próxima temporada, pode treinar o quanto quiser. - seguiu até o fim da quadra para pegar outra bola livre e continuar praticando também, bem a tempo de constatar que havia mais alguém ali, mas diferente do moreno, estava sentado distante nas arquibancadas e parecendo mais interessado numa câmera fotográfica. Há quanto tempo aquele rapaz estava ali?

Berthold

"Tudo novo de novo", era o que sua mãe ficava repetindo e repetindo, antes de lhe enviar para o internato francês, depois de um ano de readaptação, tentativa de conseguir o Abitur sem sucesso, a bolsa de estudos em Artes tinha sido uma boa forma de "mudar de ares". Em verdade estava cansado de Berlim, estava cansado de ouvir sobre tratamentos e estava cansado de estar cansado.

Não tinha tido tempo de passear pela cidade, só tinha chegado de uma viagem não tão longa, dormido por causa do fuso horário, e acordado ainda sem vontade de desfazer as malas. Ao invés disso, tinha de conhecer o lugar, que era grande, enorme por sinal. Depois de um banho rápido já que a cidade era agradavelmente quente, buscou uma roupa confortável, do tipo que usaria para fazer uma corrida matinal. Não queria já sair por aí de óculos, ainda não estava muito satisfeito com a própria imagem de óculos, então pós as lentes de contato, mesmo que com grau insuficiente, mas já lhe deixava apto a caminhar por aí. Pegou a câmera, sua "visão extra", poderia tirar fotos do lugar, e ajudaria a enxergar de longa distância usando do ajuste de foco pra compensar a sua falta de alcance natural.

Caminhou pelo lugar, tirando fotos mais do espaço do que das pessoas, embora eventualmente alguém mais desinibido posasse pras fotos. Pelo horário da tarde pôde ver o grande número de atletas que a academia dispunha, tantos clubes esportivos, isso lhe fez ficar meio melancólico, mas seus pés como sempre lhe traiam, e logo estava caminhando pelas quadras esportivas, seus ouvidos captaram aquele som conhecido na quadra, e sentiu os pelos do corpo arrepiarem, embora não pudesse jogar, ou melhor, não devesse jogar, não conseguia conter o próprio ímpeto, ao menos de olhar, isso ainda não era proibido. Os comentários altos entre os dois rapazes lhe chamaram a atenção, e se acreditasse em deus, daria graças ao fato deles falarem em inglês, a eletiva de francês não tinha lhe preparado para pessoas que falam rápido.

Riu da troca de ofensas gratuita, e bateu várias fotos, algumas muito boas do ruivo mais alto, outras muito engraçadas do moreno mais baixo, ele certamente tinha expressões curiosas para se captar. Estava entre assistir a disputa nada amigável dos dois, e rir dos comentários inconvenientes, quando sua presença chamou a atenção dos dois. O loiro se sobressaltou um pouco, apontando pra si mesmo, olhando em volta e notando que era o único ali, riu um pouco nervoso e meio sem graça:

- Ah... desculpe, erh.... - porque tinha pedido desculpas? Ele só tinha perguntando se queria conversar, interações sociais as vezes eram cansativas por causa disso, Berthold respirou fundo e se levantou de onde estava na arquibancada pra se aproximar mais, deixando a câmera em torno do pescoço: - se importa de falarmos em inglês? Francês era eletiva...- tentou soar engraçado, mas estava nervoso, o sotaque era forte mesmo falando em inglês: - Espero que não fiquem chateados afinal eu tirei algumas fotos, eu ia pedir permissão, mas vocês pareciam bem "empolgados" jogando e tentando jogar - não queria usar o termo "ariscos", porque não queria provocar ninguém logo de cara, embora destacar que um estava tentando jogar enquanto o outro jogava de fato, não fosse a forma mais amigável de começar uma conversa, mesmo que não fosse mentira.

Giles

O garoto loiro parecia que não tinha esperado chamar atenção, mas com uma câmera daquele tamanho nas mãos e sendo bonito, certamente não passava despercebido. Sorriu ao ver que ele tinha apontado para si mesmo na expectativa de não ser o único na arquibancada, e Giles acabou reforçando o chamado com um gesto das mãos. Enquanto isso, o ruivo que tinha lhe desdenhado por sua falta de habilidade já tinha retomado a bola e decidido que uma conversa casual com um fotógrafo parecia não ser exatamente interessante.

Pela aparência do loiro, esperava que ele fosse um cara sério, mas acabou soltando uma risada da piada dele que francês era eletiva. Ele não era de nenhum país de língua inglesa, certamente, assim como o ruivo. Quando St. Clavier fazia propaganda de internacional, não era brincadeira.
- Inglês é OK. E se precisar, também sou bom com mímicas e sinalizações de avião, se é que serve pra nossa conversa. – devolveu com igual bom humor, embora não fosse tão engraçado quanto se achava. Jogou os ombros quando ele disse que tinha tirado fotos, pois não se importava em aparecer, mas a segunda parte do que ele disse lhe soou – nas palavras de seu tio – bastante shady. – Ou, ou, ou! Espera aí! Como assim “tentando jogar”? Por definição dicionário, o fato de eu estar no jogo já classifica que eu estava jogando!

Então virou-se para o ruivo, observando-o ainda treinando como se não se importasse com as conversas. Quem sabe ele deixaria de ser antissocial se soubesse que o loiro concordava com ele. Aliás, tinha mesmo que ser colega de quarto de um sujeito daqueles?

- Ou, grandão! Eu estava ou não estava jogando? Diz a ele! Não estou pedindo pra dizer que eu estava jogando BEM, mas... – resmungou, tentando chamar a atenção do outro para ver se ele entrava na conversa. Ainda nem sabia o nome dele. Mas não se apresentaria primeiro de novo. Talvez na França fosse mais comum as pessoas se apresentarem ao invés dele ter que iniciar a conversa.

Angus

Deu uma olhada no rapaz na arquibancada, mas não se importou de ir puxar algum tipo de conversa, só pegou a bola para voltar a jogar enquanto o seu colega de jogo deu um grito para chamar a atenção do loiro. Manteve o foco mais na meia quadra em que estava, afastando-se na linha de três pontos e fazendo alguns arremessos. Algumas delas entravam, outras rodavam no aro e caíam. Podia ser bom em várias posições no time de basquete, mas cestas de três pontos nunca tinham sido seu forte, especialmente em meio ao calor do jogo.

Começou a se movimentar mais rápido para tentar fazer outros lances e sua taxa de acerto daquela linha ficou menor, mas um passo mais próximo da cesta, e a sua taxa de erro era quase inexistente. Não teve tempo de fazer muitos movimentos em meio a conversa dos dois, que tinha sido bem curta, até ouvir o chamado alto ao fazer mais uma cesta de dois pontos, com o chamado específico de "grandão". Correu para pegar a bola que tinha caído fora da quadra e virou-se na direção dos dois, quicando-a ao andar na direção da dupla que estava mais para perto do meio da quadra. Usou a munhequeira para limpar a boca e a testa, mais uma vez, franzindo o cenho com a dor no machucado.

- Estava jogando sim. - respondeu, aproximando-se dos dois numa linha bem mais distante para se posicionar e fazer um arremesso. - Como uma menina, de dez anos.

Lançou a bola que só bateu no aro e caiu, virando-se para a dupla e enxugando o rosto com a gola da camisa mais uma vez, não porque estivesse suado, mas por puro costume.

- Tinha uma menina na minha rua que vivia me irritando e querendo jogar na quadra perto da minha casa. Tipo ela. - respondeu, voltando a atenção para o loiro. - Você veio só tirar foto ou jogar também?

Berthold

Ao menos o outro era bem humorado, isso ajudava um pouco em seu nervosismo e ansiedade costumeiro em lidar com situações novas e pessoas novas, conseguia achar graça nas coisas idiotas que ele falava, embora tivesse consciência que seu comentário não tinha sido tão engraçado.

Talvez não devesse ter destacado que o outro estava "tentando jogar" embora não fosse mentira, não era muito delicado para começar uma conversa, riu um pouco nervoso, e levou as mãos até a câmera sem de fato religar ela, apenas para ter algo para ocupar as mãos, porque isso lhe deixava menos ansioso. Em uma conversa casual convencional agora seria o melhor momento para se apresentar, abriu a boca para falar, mas logo o outro tinha chamado a atenção do ruivo mais alto. Embora não estivesse prestando atenção total nos movimentos que ele estava fazendo enquanto mantinha conversa com o moreno mais baixo, tinha bem noção do que o outro não era bom em lances de três pontos, e tinha conseguido enxergar bem pelo zoom da câmera os movimentos de cada um dos dois na disputa anterior.

Acabou rindo do complemento do outro, comparando o jeito de jogar do outro semelhante ao de uma menina de dez anos, mas logo em seguida notou como aquilo podia soar mal educado: - desculpe… - seguiu no automático, e logo a pergunta que veio do mais alto, lhe deixou um pouco incomodado, o que estava mesmo fazendo ali? Não iria jogar, não podia jogar, não devia jogar, mas também não era do tipo que só tirava fotos, ou tinha se reduzido aquilo?: - e bem, pra começar eu sou Berthold Konrad, cheguei de manhã, e hoje estou tirando fotos. - fugiu da ideia de ser reduzido a um mero fotógrafo de esportes: - Mas isso não quer dizer, que eu não entenda de basquete, por exemplo, você "grandalhão" - apontou para o outro, apenas porque falar de basquete lhe deixava mais a vontade mesmo que não quisesse admitir que não tinha ido ali pra jogar:

- Sua taxa de acerto em lances de 3 pontos melhoraria consideravelmente se não ficasse tão reto quando faz os lançamentos, experimente flexionar mais os joelho, e inclinar mais o pulso em "x" grau, o movimento começa das pernas, segue para os ombros e desemboca no pulso, se não inclinar o suficiente você aborta a energia do lançamento, e aí, fica nessa relação séria entre você e o aro da cesta. - riu mais confiante do próprio comentário, afinal tinha plena certeza do que estava falando, era diferente de se aventurar em coisas que tinha menos prática, como conhecer pessoas novas.

Angus

Ficou bem mais interessado quando ele disse que ao menos entendia de basquete, talvez aquilo fosse bom? Ele não tinha confirmado se ia jogar ou não, mas quicou a bola algumas vezes e antes de responder qualquer coisa, ele lhe apontou especificamente o que havia de errado em sua postura para lançar cestas de três. Bom, sabia que havia sempre um erro na sua postura e ele tinha apontado coisas bem específicas, algumas que já sabia que errava, outras que não tinha tanta certeza ou não sabia como melhorar. Encarou-o com uma expressão de confusão e interesse ao mesmo tempo, segurando a bola na mão direita e erguendo-a acima da cabeça para inclinar um pouco mais o pulso, já que ele tinha especificado um ângulo do qual arremessar.

- Assim? - perguntou, indicando a inclinação mais acentuada na mão, esperando algum ajuste ou confirmação antes de se afastar dos dois em alguns passos, aproximando-se mais da linha de três.

Fez o que ele disse, ajustando mais a postura como sabia que funcionava e adicionando uma flexão dos joelhos maior. Com a bola mais ou menos na altura do rosto, impulsionou o corpo sem chegar a pular, mirando na parte de trás do aro para acertar a cesta com mais facilidade do que nos outros lances que já tinha feito até então. A bola caiu reta direto no chão da quadra e ele sorriu mais satisfeito com o resultado que conseguiu com mais facilidade do que nas outras vezes.

- Deu certo! - avisou ao outro, encarando-o de onde estava para então correr atrás da bola e voltar para próximo deles. - Você vai jogar no time também? Berthold, não é? Eu sou Angus O'Neil. - estendeu a mão para cumprimentar o loiro mais baixo, não sabia o quanto ele podia jogar, mas ao menos ele entendia o suficiente de basquete para lhe dar algumas dicas muito específicas, o que já era mais do que qualquer colega de time que tivera na Irlanda.

Giles

- Há. Há. – respondeu ao comentário dele sobre jogar como uma menina de dez anos, embora não pudesse culpar o loiro por rir também. Se o comentário não fosse sobre si mesmo, teria rido, com certeza.

O ruivo parecia sempre muito ansioso por conhecer membros novos do time de basquete, porque tinha perguntado até para o fotógrafo se ele era do time. Imaginou que não, ou ele estaria na quadra, e não na arquibancada. Mas independente dele ser do time ou não, o sujeito tinha se dado ao trabalho de se apresentar, o que ganhava muitos pontos no estado atual das coisas.

Ganhou ainda mais pontos quando apontou cada uma das falhas de postura do ruivo, mostrando a ele como poderia melhorar para fazer cestas de três pontos. Assobiou surpreso pelo feedback tão pontual. Podia não ser especialista, mas tinha entendido as sugestões dadas ao ruivo facilmente. E assistiu enquanto ele ia lá tentar aplica-las, olhando para o loiro enquanto esperava o outro se posicionar.

- Ah, meu nome é Gil- - foi interrompido pelo som baixo e peculiar da bola entrando no aro direto, a rede sacudindo e a mesma quicando no chão depois da cesta de três pontos. – Ora! Deu certo mesmo! Você é bom, ein!?

Sua surpresa foi substituída pelo leve franzir da testa quando o ruivo deu um 180 na personalidade, parecendo um cãozinho que sacudia o rabo animado quando se aproximou de Berthold novamente, dessa vez para celebrar que tinha conseguido. O juízo fez o barulho quando se partiu, depois do ruivo muito tensioná-lo. Tinha perguntado o nome dele milhões de vezes, e bastava alguém falar de basquete para que ele dissesse? Que palhaçada era aquela? Se sentiu como um lixo no caminho dele, e jurava, jurava que tinha dito que eles agora dormiam no mesmo quarto. Ele podia ao menos ter a decência de lhe dizer UM NOME.

Respirou fundo e praticamente se mexeu sozinho, andando rapidamente até o ruivo e soltando a mão com toda força no galo que ele tinha no meio da testa. O botão de pânico, como tinha dito antes.
- Eu estou aqui lhe perguntando a droga do seu nome desde de manhã, joguei basquete com você e basta ele lhe dar uma dica e você fica aí, babando ele!? Ah, me poupe, ANGUS O’NEIL!! – rosnou, então olhando para o loiro. – Foi um prazer, Konrad, mas antes que eu pegue uma briga e seja expulso no meu primeiro dia, melhor eu ir. – frustrado, se segurou para não dar outro tapa na testa dele. – E lembre, agora! Giles Berlioz! E sou a merda do seu colega de quarto! Se quiser me quebrar, lembra, tá? Durmo na cama ao seu lado!!

Então ergueu o dedo do meio para o ruivo, saindo dali resmungando e fazendo gestos em excesso com a mão ainda em sua revolta. Ainda era tarde demais para mudar de quarto?

Angus

O loiro mal teve tempo de responder, quando a conversa foi interrompida por um gesto bem rápido e desavisado do moreno que lhe alcançou num passo longo e bateu direto na sua testa.

- AUUU! - levou uma das mãos à testa na área atingida dolorida, encarando-o com irritação por causa do gesto desavisado. - Mas que m--!!

A voz de indignação foi sobreposta pela irritação do outro, quase num rosnado. Franziu o cenho pra ele, confuso e irritado também, enquanto ele lhe acusava de não ter dito o nome desde a manhã. Já não tinha respondido aquilo antes? E a sua manhã não contava de verdade.

- Você ficou maluco?! Eu já tinha dito meu nome!! - respondeu aquilo com uma certeza como se de fato tivesse feito aquilo, o que não era verdade. E certamente não conseguia lembrar de quando ele tinha lhe perguntado e quando tinha respondido. Manteve mais uma postura de defesa, uma das mãos ainda na testa dolorida enquanto ele ameaçou lhe bater de novo, mas não o fez. - Qual o seu problema?!

Nem teve tempo de adicionar qualquer coisa ou receber resposta, ele só se virou e saiu da quadra a passos largos depois de lhe lançar o dedo. Respondeu apenas com um olhar bem irritado também, a mão sobre a testa massageando o local que estava bem mais vermelho.

- Idiota. - resmungou baixo, voltando-se para o loiro ao seu lado. - Desculpe, eu não faço ideia do que acabou de acontecer. Ele tinha que bater logo na minha testa. Acho que vou aproveitar pra praticar um pouco mais, não sei até que horas posso usar a quadra ainda. Obrigado pela dica, se tiver outras, me diga por favor.

Berthold

Certamente Berthold não era especialista em fazer novas amizades, era péssimo com situações novas, pessoas novas que não fazia ideia de como iriam reagir aos seus comentários, porém tinha a vaga ideia de que não era assim que devia ser uma conversa casual entre três pessoas. Ficou confuso se a briga dos dois era séria, ou o tipo de amabilidade raivosa que rapazes tem uns com os outros. Piscou de um pro outro, mais assistindo as coisas acontecerem do que de fato tomando partido por qualquer um dos lados, e acabou rindo de tudo, sem ter o tipo de personalidade forte para se intrometer no meio daquilo, apenas se atentou ao fato de que o outro rapaz tinha dito que tinha sido um prazer lhe conhecer e não tinha respondido, então respirou fundo, falando alto, praticamente gritando para o outro:

- foi um prazer também Berlioz!! Até!! - Acenou, até porque não era a despedida mais educada, mas tinha em sua cabeça que deixar sem resposta era pior. Voltou atenção para o ruivo maior quando ele lhe pediu desculpas, e falou daquela forma direta que não sabia o que tinha acontecido, se ele que dividia o quarto com o Berlioz não sabia o que acontecia entre os dois, não era Berthold que iria tentar definir. Sorriu mais amplamente, menos acuado com a conversa com o estranho quando ele lhe pediu mais dicas do que poderia melhorar:

- Não esquente com isso. - acenou para o outro, observando o galo dele, realmente parecia um botão vermelho agora que tinha magoado - Você joga bem O' Neil, e por jogar bem, você tem o que a gente chama de "vícios" de jogo, daria uma tarde inteira de conversa. - ou mais, pensou com seus botões, mas daí entrariam no assunto de se iria jogar no time, porque não jogar, se entende tanto porque não usa isso e um monte de coisas das quais Berthold não estava muito afim de responder naquele momento, por isso o loiro mais baixo, sorriu mais descontraído: - mas não precisa ser agora, agora, eu se fosse você, cuidaria desse galo primeiro. - apontou na direção da testa do outro.

Em seguida, estalou o dedo, como se tivesse lembrado de algo, e pôs a mão no bolso, puxando a carteira, e de dentro dela, alguns band-aids, não eram dos mais neutros, certamente não era todo mundo que gostava de desenhos infantis como estampa, mas bem, era o que tinha, fez um gesto para o outro se aproximar, e tirou um dos band-aid do pacote e colocou na testa do outro, estampa do scooby-doo com linhas verdes talvez contrastasse com o cabelo vermelho: - o restante fica pra depois que você tomar um banho e se livrar do suor. - estendeu os demais na direção do outro, como uma cortesia, não pretendia ficar ali muito mais, já tinha se esquivado de perguntas e não queria dar margem pra mais delas surgirem.

Angus

Não se interessou pela saída do moreno, mas Berthold se importou o suficiente para ainda se despedir. Pelo visto não ser respondido o deixava bem na TPM. Berthold, por outro lado, parecia bem mais amigável e compreensivo também, e acabou sorrindo mais satisfeito pelo comentário dele sobre jogar bem e melhor, sobre ter uma tarde inteira de conversa sobre seus vícios de jogo. Se havia um jeito de melhorar as suas jogadas, com certeza queria saber.

- Eu sei alguns dos vícios, não sei todos, e também não sei o que fazer pra consertar, ia ajudar bastante se me dissesse onde, como fez com o meu lance de três. - disse, apontando a cesta por cima do ombro com o polegar. Ficou mais desanimado quando ele disse que não precisavam conversar naquele instante, mas automaticamente olhou para cima quando ele mencionou o galo. - Nah, não tem muito o que fazer... coloco gelo quando voltar pro dormitório.

Ia já sugerir encontrar com ele depois para falar daquelas técnicas também, mas ele pareceu se distrair com algo e estalou os dedos, tirando band-aids coloridos do rosto e fazendo um sinal para que se aproximasse. A reação foi quase automática ao se curvar - costumava fazer isso bastante com sua mãe, na verdade -, para que ele colocasse o band-aid na sua testa. De novo, olhou para cima como se pudesse ver a área e passou a mão no acessório colorido que não ajudaria muita coisa num inchaço, mas ao menos valia a intenção. Deu uma risada pela atitude preocupada dele, mas ainda estendeu a mão para pegar os outros band-aids.

- Obrigado. Vou treinar mais alguns lances de três pontos, depois vou cobrar a conversa de uma tarde toda. - respondeu, buscando a bola para quicá-la já de costume. - Prazer, Konrad. Espero te ver de novo na quadra.

Berthold

Sabia que um bandaid não ajudaria a alinhar os planetas e curar aquele galo na testa do outro, mas ao menos ajudava o cobrir a área e não parecia uma enorme bola vermelha, agora se fossem reparar seria a estampa infantil, o que não era nada demais.

Tinha de concordar com o Berlioz que agora o ruivo mais alto estava com uma atitude completamente diferente em relação a quando estavam no jogo amistoso a alguns bons minutos atrás, embora estivesse meio acostumado a pessoas que mudam drasticamente de personalidade quando estão engajados em jogo na quadra, ele mesmo era o melhor exemplo disso. Sorriu em resposta, agora bem menos nervoso do que a alguns instantes atrás:

- Pode cobrar sim, e eu posso até usar as fotos que tirei hoje pra ilustrar. - Riu mais descontraído, embora a parte do comentário que dizia que eles se encontrariam na quadra, fez o sorriso congelar, passou a mão no rosto e riu agora mais sem graça sem saber exatamente como responder aquilo sem parecer muito mal educado, não tinha muito pra onde correr, uma hora teria de decidir, embora não quisesse dar voz aos pensamentos, apenas se esquivou de novo:

- Aproveite e quando voltar aos dormitórios, estenda o convite ao Berlioz, ele não é um caso perdido completo, só precisa de muito treino, olhe pelo lado bom condicionamento físico e vontade ele já tem ao menos. - Estava fugindo do assunto de confirmar ou não que estaria em quadra, mas tinha acabado de chegar e muita coisa pra pensar ainda, ao menos tinha conhecido pessoas divertidas, mesmo que lhe deixassem tenso, sabia que não ia conseguir ficar completamente distante do basquete muito tempo, mas isso ia ser bom ou ruim pra si, só o tempo iria dizer.

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