Academia St. Clavier
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[Drive] Dois Alemães na França [Berthold; Evelyn] - Lil - 09-22-2021

Evelyn

Havia chegado em Cerise alguns dias antes para se estabelecer melhor dentro do dormitório. A ida para a academia St. Clavier era um momento de oportunidades para o jovem Newell. Primeiramente, não estaria sozinho na grande casa da família Sforza, segundo, teria oportunidade de expor ainda mais suas habilidades com números e adentrar em projetos variados. E em terceiro e não menos importante: havia convencido Letty a aplicar para a academia irmã, Limoges Collet, e ela havia sido aceita.

Aproveitou então as primeiras semanas para se acostumar com o espaço da academia, verificar clubes, horários das aulas e obviamente, organizar seus pertences dentro do quarto que teria de - infelizmente - dividir.

Aproveitou uma das manhãs para continuar a organizar o closet. Tinha bastante roupa para colocar dentro, então ter tempo de sobra sozinho seria um bom momento. Havia prendido os cabelos ruivos em um pequeno rabo-de-cavalo com os cabelos que caiam nos ombros, usava uma camisa do Adler Mannheim azul, que ficava bem grande sobre o corpo pequeno do garoto, e um short de tecido fino, que praticamente sumia graças ao tamanho da camisa. Não precisava sempre estar elegante, especialmente durante uma arrumação.

Colocou fones de ouvido e abriu a mala e colocou boa parte das roupas sobre a cama que havia delegado sua, e começou a fazer a transferência para o closet, colocando algumas nos cabides e outras dobrando para pôr nas gavetas, ocasionalmente cantarolava baixo o instrumental da música que ouvia.

Berthold

Não havia muito tempo que tinha se mudado para a cidade pequena do interior da França, a primeira coisa que precisava se acostumar era principalmente com o clima, estando acostumado a temperaturas mais baixas, o calor da primavera lhe incomodava um pouco. Sabia que devia ter estudado mais a eletiva de francês, mas não esperava que tão logo fosse precisar saber dizer os números fazendo cálculos, ao menos seus xingamentos pessoais não eram nem um pouco compreensíveis em seu idioma nativo. Por mais que gostasse da promessa de país novo, casa nova, vida nova, sabia que as coisas não eram tão simples, e que o motivo por terem se mudado, não era uma vaga de emprego conveniente na área de tecnologia, tampouco sua bolsa de estudo em artes. Quem diria, estudante de artes.

Mas era essa a vida de Berthold Konrad no momento, tentar admitir pra si mesmo que aquele ar quente e abafado cheio de pólen da primavera, era a representação de sua nova vida. E por mais que gostasse dos seus pais, percebia que estar em casa em meio a caixas de papelão, ele sendo o gigante de 1,85m parecia ocupar mais espaço do que fazer parte dele. Sequer tinha desempacotado suas coisas, apenas o suficiente para passar dias no lugar, o restante manteve fechado já que teria de levar para os dormitórios do internato.

Após algumas semanas sofrendo no calor, tomou pra si, que no dia da mudança estaria usando algo confortável, já que teria de subir lances de escada carregando não somente seus pertences pessoais, como seus equipamentos de pintura. Optou por uma saia masculina com calça, o tecido fino lhe dava uma sensação de frescor que via como necessária, pôs uma camisa branca de tecido fino, as mangas compridas indo até o meio das mãos, a gola em V suave, fechando tudo com um tênis vermelho, usou um óculos escuros de armação vermelha pra combinar. Se despediu dos pais, e foi junto com o frentista numa minivan até St. Clavier, que até então só tinha visto de longe o muro branco.

Por não ter iniciado o ano letivo, o local estava cheio de figurinhas notáveis das aparências mais conservadoras até algumas bem peculiares. O sentimento inicial de medo e receio de não se encaixar aliviou um pouco, embora ainda tenha chamado o olhar de muitas pessoas por sua altura e aparência, agradeceu ao motorista e seguiu conforme tinha sido indicado para chegar nos dormitório. Por sorte os funcionários tinham paciência com seu francês ruim, mas logo foi alertado que precisava trabalhar aquilo. No caminho das escadarias, recebeu ajuda de um monitor que facilmente o identificou como calouro, por sorte ele falava bem inglês, mas lhe alertou para melhorar o francês. Já sabia o tipo de sermão que escutaria pelas próximas semanas.

Quando finalmente o maior chegou na porta do quarto, estava com as mãos ocupadas das caixas de papelão, e não tinha como abrir a porta, o monitor tinha lhe alertado que teria um colega de quarto, mas aquela informação foi jogada no fundo da mente, e enquanto o maior tentava manusear a caixa de materiais e chave, acabou encostando a testa na porta e jogando o peso sobre ela. Quanto finalmente girou chave para destrancar,a porta cedeu com o peso do loiro, fazendo com que Berthold tivesse o corpo projetado pra frente, derrubando caixa, algumas latas de tinta fechadas, e outros equipamentos.

-- AAArgh-!! -

Evelyn

Arrumava suas roupas em meio a melodia, separando os uniformes da academia, suas roupas mais casuais masculinas e femininas. Possuía bastante roupas para as mais variadas ocasiões e estações, afinal, não estava pensando em retornar para a casa de seu pai ou sua mãe durante o período de férias, então poderia passar parte desse tempo aproveitando a cidade de Cerise e o que a academia tinha para oferecer.

Estava tentando manter tudo organizado, afinal sabia que estaria dividindo o quarto com uma outra pessoa. Bem tinha a ideia de “se ele se atrasou, arque com as consequências”, mas se no final as roupas acabassem danificadas por ter se misturado com as roupas de outra pessoa ou algo do tipo, sabia que diria poucas e boas para o senhor atrasado. Suas roupas nos cabides estavam ocupando um pouco mais da metade do closet e algumas gavetas. Na cabeça de Evelyn, era mais que o suficiente para o seu companheiro de quarto. Fechou a mala vazia e a colocou na parte debaixo da cama, que felizmente tinha o tamanho perfeito para ficar ali embaixo, além e poupar espaço para qualquer nova aquisição que fosse ter dentro do closet.

Estava fechando a porta do closet, a melodia que escutava chegando ao fim, quando ouviu o barulho da chave girando seguido por um som seco de alguém caindo e outros objetos sendo jogados ao chão, algumas latas de tinta rolando para próximo de seus pés. “Que bela maneira de conhecer meu companheiro de quarto”, foi a primeira coisa que o ruivinho pensou, enquanto respirava fundo para começar aquela interação social. Se virou dando de cara com um garoto loiro, definitivamente alto, de cara no chão. Examinou rapidamente as roupas, a saia masculina chamando a atenção dos olhos castanhos de maneira positiva. Poderia ser interessante.

- Se estava carregando tantas coisas, poderia ter batido na porta para começar - respondeu, a voz de tom infantil repreendendo o outro. Deixou os fones de ouvido sobre a cama e se abaixou recolhendo algumas latas de tinta que haviam caindo por perto - você não quebrou nada, certo? É melhor ir levantando então, não posso fazer isso por você, sabe. - se aproximou da caixa e a virou, colocando as latas de tinta onde supostamente deveriam estar.

Apesar do tom de repreensão, o pequeno ruivo estava bastante curioso sobre a figura à sua frente. A primeira impressão certamente não foi das melhores, já havia associado ao gigante como uma pessoa desastrada, mas quem sabe tivesse outras qualidades?

Berthold

Das muitas coisas que o loiro mais alto era capaz de fazer com as mãos, aparentemente segurar caixas e abrir a porta não estavam na lista de habilidades. Não que a dor da queda fosse muita coisa, mas era fato que espalhar as coisas todas no chão, não era a melhor forma de começar o dia nos dormitórios. E como se não pudesse ficar melhor, ouviu uma voz infantil lhe chamando a atenção, entendeu uma parte e a outra passou batido: -- Eu pisei na tigelinha de gordura…! -- comentou no automático em alemão, porque era uma bela bola-fora mesmo, ergueu o olhar e sentou-se no chão, tirando o par de lentes escuras para poder focar melhor no novo colega de quarto, que lhe parecia muito jovem, e muito pequeno, será que tinha entrado no andar errado?

-- Ah, er... ! hmm- Desculpe. -- Se recompôs coçando os fios curtos da nuca, o francês super arrastado carregado com sotaque: -- O monitor do andar não me avisou que o outro morador do quarto já estava aqui… ou talvez ele tenha dito e eu não entendi, tem essa opção também. Eu causei a bagunça eu arrumo, não se preocupe...!-- Se levantou sozinho do chão, e em pé o outro parecia ainda menor, a expressão de Berthold se contorceu em uma breve estranheza, mas não ficou encarando por muito tempo porque era deselegante: -- Arh… hmm- eu sou Berthold Konrad, vim de Berlim, estou em Cerise a uns 10 dias mais ou menos, é uma satisfação conhecê-lo.

Estendeu a mão grande da prática de basquete, unhas curtas e com base, a pele alva estava vermelha do calor da primavera, e não tinha chegado a transpirar da breve caminhada. Não ia deixar a má impressão de bagunceiro ficar, então tinha de se apresentar apropriadamente, embora tivesse muita curiosidade de perguntar se estavam em um quarto misto de alunos do segundo e terceiro ano.

Evelyn

A julgar pela quantidade de tinta que o outro estava carregando, podia assumir que não era apenas um hobby. Talvez tivesse entrado por bolsa? O ruivo terminou de colocar a última lata dentro da caixa e escutou o clássico termo em alemão, sua língua mãe. Franziu as sobrancelhas levemente em estranheza, o que poderia ser facilmente confundida apenas com uma expressão de estranheza sobre as palavras em alemão.

- Desculpas aceitas. - respondeu, ainda soando um pouco arrogante. Foi no momento que o outro se levantou que teve duas certezas. A primeira, que ele era estupidamente alto. A segunda, que o que ele tinha de altura, tinha de bonito. Ridiculamente, bonito. Se esse infeliz estivesse usando roupas de mendigo ele continuaria bonito.

Se levantou enquanto ele se desculpava, tentando diminuir a diferença de altura que ainda era estupidamente grande. O francês arrastado do outro fazia com que fosse difícil entender o que ele queria dizer, se não fosse a sua convivência com outros alemães que falando pior do que ele, certamente teria torcido a expressão para o gigante ainda mais.

- Apenas tenha mais cuidado da próxima vez, sim? Você poderia ter se machucado feio, ou qualquer pessoa que estivesse atrás da porta - sorriu de maneira quase comercial, automática e sem exageros, a resposta saiu em um francês bastante suave - E você precisa melhorar o seu francês se pretende continuar estudando aqui, vai ter problemas de acompanhar as aulas. - repreendeu mais uma vez, mas estendeu a mão de volta para Berthold e lhe deu um aperto ameno e breve - Evelyn Newell, é um prazer conhecê-lo, Konrad. - as mãos do mais novo eram, como de esperado, ridiculamente menores que a do outro. As unhas eram curtas, porém cerradas de maneira oval, e eram pintadas com um roxo pastel.

Introduções devidamente feitas, já tinha uma imagem geral sobre o belo loiro. Desastrado, um bom pintor, péssimo francês, pede desculpas de maneira excessiva porém sem parecer ter nenhum arrependimento pelo o que fez, falando de maneira tão automática quanto o sorriso comercial de Evelyn.

- Eu já terminei de guardar as minhas roupas no guarda-roupa, acredito que tem espaço o suficiente para você - deu espaço para o mais alto andar pelo quarto e se sentou na cama, aproveitando para checar as mensagens em seu celular.

Berthold

Aquelas interações sociais a nível básico sempre lhe deixavam nervoso, imaginava se estava fazendo as coisas direito, se não estava passando uma péssima impressão, se bem que cair de cara no chão já não era das melhores formas de se conhecer alguém. Não era bom de ler expressões, mas sobrancelhas franzidas não eram um bom sinal, eram? Sequer conseguiu rir diante das apresentações desviando o olhar de encarar o menor, ele parecia bem confiante, devia ser alguém importante, era certamente bonito, se fosse inteligente também, era quase um protótipo de perfeição em 1,50m de altura:

-- Eu vou me esforçar pra não dar muito trabalho pra você Newell…! -- Respondeu no seu francês bem arrastado, e então suspirou, já se sentindo derrotado pelo tanto de vezes que tinha escutado em um dia que precisaria melhorar seu francês: -- Desculpe por isso também...! Hmm-... vou melhorar com o tempo, eu não tinha com quem praticar francês antes… Embora isso não sirva de justificativa…!

Observou o espaço no guarda roupa, e o mais alto, até podia ser chamado de espaçoso, mas era por ser grande e suas coisas serem grandes por consequência, além dos equipamentos de pintura que precisava para fazer seus trabalhos. Sua única mudança notória de expressão foi fazer um bico leve, mas suspirou em seguida, podia fazer uso das prateleiras, e colocar parte das coisas embaixo da cama se fosse o caso: -- Eu dou um jeito, não uso tanto cabides, vou precisar só do suficiente pro uniforme… aqui eles parecem exigentes com código de vestimenta… é um livrinho com muitas páginas -- gesticulou a espessura do livro, em verdade não era um livro pequeno, mas parecia pequeno nas mãos de Berthold:

-- O cavalete e as tintas eu posso deixar debaixo da cama por hora, mas quando começar a pintar algumas coisas, talvez ele tenha de ficar montado… Acha que vai incomodar muito? -- perguntou se virando para encarar o menor, embora a expressão não fosse muito alarmada, o loiro maior movia as mãos de dedos longos como um tique, que ao perceber o que estava fazendo, levou ambas as mãos ao bolso da saia e desviou o olhar: -- Hmm- Eu levo muitos dias pra pintar, sabe, eu-... então não dá pra deixar tudo sempre nas salas de pintura… penso…hmmm-...?! Não vi ainda como são, mas gosto de pintar no quarto… mas se incomodar eu dou um outro jeito de fazer.

Evelyn

Era engraçado observar as respostas de Konrad. Poderia dizer que se ele falasse em alemão entenderia tudo? Poderia, mas estava curioso para ver até onde ele conseguir se desenrolar com o seu francês. Algo incomodava Evelyn na maneira que ele o encarava, não sabia dizer exatamente o que, mas a maneira que ele se desculpava também o incomodava bastante.

- Você vai ter tempo o suficiente para praticar e pessoas o suficiente, basta só conversar. Já está treinando de agora - o ruivinho exigente bem sabia que o sotaque alemão era difícil de sumir e provavelmente iria atrapalhar bastante a vida do companheiro de quarto, mas tinha que dar o mérito dele conseguir chegar parcialmente inteiro no quarto.

Enquanto mexia em seu celular mandou mensagem para sua melhor amiga - haviam recentemente trocado números de telefone pela primeira vez - avisando que havia terminado de organizar seu guarda roupa enquanto o loiro se fazia mais a vontade dentro do quarto, balançava as pernas animado com a possibilidade de encontrá-la nos próximos dias e estava claramente sorrindo enquanto escrevia. Deixou o celular quando percebeu a movimentação no guarda roupa e observou, ainda sentado na cama, as expressões de Berthold mudarem.

- Hmm… - sibilou primeiramente, se ajeitando na cama para ficar sentado com as pernas cruzadas em borboleta - Sim, acho que só vamos ter mais liberdade quando chegarmos no quarto ano, infelizmente - resmungou, pensando que ainda teria de aturar algum como terceiranista até ficar mais à vontade com suas roupas - Pelo menos não falta tanto tempo assim, não é?

Se balançou um pouco quando ele perguntou se o cavalete montado chegaria a incomodar o ruivinho, com a mesma cara que havia falado antes e antes. A impressão que Evelyn sentia era que ele era contido, até demais. Se perguntava por que uma pessoa tão grande era assim. Talvez fosse o suprassumo de um gigante gentil. Gentil, até demais.

- Contanto que não atrapalhe de andar de um lado para o outro, não me importo - havia espaço suficiente para ele ocupar e fazer suas pinturas, ao menos era oque Evelyn imaginava - Sua bolsa é por artes então, Konrad? Você já expôs em algum lugar? O que gosta de pintar? - quase bombardeou o maior de perguntas, apesar de tudo estava interessado no que o outro fazia, iriam passar os próximos períodos dividindo quarto, então pelo menos queria conhecer mais do outro. Mesmo que ele fosse um pouco lento. Já que estava perguntando, também poderia falar um pouco sobre si.

- Minha bolsa é pela parte de economia, já consegui inclusive algumas publicações.

Berthold

O maior logo que se levantou começou a colocar as bagagens para dentro do quarto, encostou tudo próximo de sua cama para ocupar o mínimo de espaço possível dentro do quarto, e não piorar a sua já comprometida primeira impressão. Assentiu com a cabeça quando o menor indicou que poderia deixar o cavalete montado contanto que não ficasse no caminho, então deixou a peça montada perto da escrivaninha e perto da janela pra aproveitar a luz do dia em si. Não iria pintar naquele momento, mas ao menos já tinha uma noção do quanto de espaço ocuparia ali. Antes que pudesse desmanchar suas malas, o outro lhe perguntou finalmente de que era sua bolsa, supôs que se ele tinha uma bolsa tinha de ser pelo menos do terceiro ano, principalmente em algo difícil como economia:

-- Nossa! Economia parece algo muito difícil. -- queria ter posto mais expressão na própria frase, e realmente demonstrar que achava aquilo um fato interessante, mas nas limitações do seu francês arrastado, tudo que fez, foi parecer levemente sarcástico: -- Bonito e inteligente, você deve ser bastante elogiado. -- Tentou reduzir a má impressão elogiando o menor, afinal, era fato, ele era muito bonito, gracioso até, e pra ter ganho uma bolsa numa área de exatas, era no mínimo muito inteligente:

-- Sim, a minha bolsa é na área de artes plásticas, eu sou considerado um pintor hiperrealista, mas não acho que seja isso tudo não. -- Sorriu um pouco sem graça, do que parecia mais um sorriso nervoso, e agarrou alguns dos seus materiais de pintura por um momento, suspirando, antes de organiza-los em uma das prateleiras livres, perto do cavalete: -- Se não se importar…! -- apontou para a prateleira antes de começar a colocar qualquer coisa lá, esperando qualquer sinal de que tinha de fato permissão para tal: -- Eu também tiro fotos, e já expus em alguns lugares, nada demais, mas se quiser procurar sobre, busque por: Aarav… E sim, eu sei que pseudônimos são coisas antiquadas, mas eu não queria usar meu nome real.

Comentou despretensioso colocando as coisas em seu lugar e ficando mais satisfeito de já ter conseguido por algo no lugar, a despeito de ter ainda duas malas pra desarrumar.

Evelyn

Em relação à tamanhos, Evelyn se sentia como um pequeno animal observando Berthold se ajustar ao ambiente menor. Era um cavalete grande, se perguntava que tipo de pinturas o loiro fazia, e isso deixava o lado apreciador de arte de Evelyn bastante curioso.

Sorriu suavemente quando ele disse sobre economia ser complicado. Realmente, era difícil, mas não para o ruivinho. Já tinha tanta prática com os números que era algo extremamente trivial. Apesar de que, a maneira como o alemão expressou deixou o menor um pouco incomodado. Soava mais falso que o sorriso comercial dele: - Eu faço apenas o que posso. - complementou sobre ser bonito e “bastante elogiado”. Isso o deixava incomodado, mas não é como se nunca tivesse passado por uma situação onde lhe desdenharam antes.

Se sentou na beira da cama, com as pernas balançando, quando ele falou sobre ser um pintor hiperrealista. Queria poder ver algumas de suas obras, afinal, mesmo que não gostasse de berthold, poderia gostar das suas obras. O autor era diferente de suas pinturas.

-Vá em frente, se eu não ocupei é seu. - respondeu despretensioso à maneira nervosa que ele perguntou sobre as prateleiras. Não era óbvio? Estava pronto para voltar a mexer em seu celular, já que aquilo não estava levando a nenhum lugar quando ele comentou um nome específico. Aarav.

-... O Araav? - perguntou, levando uma mão ao rosto e agora ficando em pé - É você?! Eu jurava que era um cara velho!! - gesticulou enquanto se expressava de uma maneira menos contida do que antes - Eu já fui em todas as suas exposições! Digo, quase todas! Tem uma de fotografia acontecendo agora, não é? Eu não tive tempo por estar arrumando para vir para St. Clavier… mas que coincidência! Eu até guardei alguns folhetos sobre as suas exposições!

Poderia desconsiderar um pouco da grosseria de Berthold? Talvez. Mas não mudava o fato que era um dos artistas atuais que estava acompanhando, e que teria a chance de observar o processo de pintura ou fotografia.

Berthold

Ficou mais satisfeito de não ter qualquer problema em usar as prateleiras, foi desempacotando seu material de pintura, latas e latas de tinta, espátulas, pincéis, esponjas, caixas de materiais mais nobres. Nem se importou com o guarda roupa no começo, o importante era arrumar o material de pintura que usaria bem mais, quando estava tirando uma grade de dentro da caixa onde deixava pendurados seus croquis de pré-produção, notou a reação mais exagerada do menor e quase soltou a peça. Ele lhe questionou sobre seu pseudônimo depois começou a explicar que tinha ido a todas as exposições, a maior parte delas eram na Alemanha, então podia considerar que ele era alemão?

-- Erh.. bem… obrigado? -- respondeu inicialmente um pouco constrangido, então pôs a grade de lado, para dar mais atenção ao menor: -- Eu estou pouco acostumado a receber feedback das minhas exposições, a maioria das pessoas que me contactam são velhos que fazem curadoria e essas coisas, não sabia que gente mais jovem ainda gostava de galerias de artes, isso é bom. Bom sim. -- comentou notoriamente nervoso, o tom de pele alvo, ficando mais avermelhado, Berthold não estava nem um pouco acostumado a receber elogios sobre suas artes, que não fossem de curadores e pessoas especializadas que falavam com a morbidez de um defunto.

-- Sim, eu vou estrear na França com uma exposição de fotografias, vai ser numa galeria nos Marais. -- Respirou fundo, buscando os termos em francês, até se sentar na cama, com o corpo virado na direção do menor, embora ainda parecesse muito contido, era possível perceber que tinha um esforço para socializar ali: -- Era um dos pré-requisitos pra conseguir a bolsa de artes, ter exposto na França ou estar para fazer acontecer… perdoe meu francês não é tão longo de vocabulário.

O mais alto se abaixou e abriu a mochila menor, pegando um de seus cadernos de rascunhos mais recentes, onde estava fazendo desenhos das coisas de Cerise, a maioria desenhos sem cabeça, corpos bem detalhados mesmo em rascunhos e as cabeças borrões como se o loiro tivesse passado a borracha ou mão sobre, traços de deterioração sempre bem marcados, e ressaltados com cor, o cenário quebrado da cidade parecia ter mais vida que as pessoas que ele desenhava: -- aqui, se quiser ver… claro. -- o maior estava nervoso e era possível ver o tremor sutil nas mãos, o rubor no rosto, e o fato de não conseguir encarar diretamente o mais novo, quando os olhos encontravam-se o maior desviava para olhar para o lado.

Evelyn

Estava mais empolgado nesse momento do que nas últimas trocas de palavras que haviam feito. Se havia algo que Evelyn gostava bastante era artes, mesmo sendo uma pessoa de exatas, e o tema de horror. Gostava de tudo, desenhos, pinturas, esculturas, fotografia, música. O tema de horror era tão variado que tudo dependia da visão da pessoa que criaria a peça. As peças de Aarav, ou Berthold por hora, eram todas cheias de simbolismos, que abriam espaços para especulação, o que Evelyn adorava fazer.

A maneira como ele respondeu a sua empolgação primeiramente o deixou um pouco incomodado, mas ficou feliz em continuarem a conversar sobre as obras.

— Isso é verdade, eu sempre acabo encontrando pessoas bem mais velhas nas galerias. Me irrita um pouco por que é um espaço bonito demais para ficar restrito à só um tipo de gente quando as obras são tão variadas — reclamou, lembrando de várias vezes que foi parado dentro da galeria por pessoas perguntando o que ele fazia ali, ou pior, se havia se perdido de seus pais. No meio da reclamação percebeu que Berthold parecia ficar cada vez mais vermelho. Evelyn ficava cada vez mais certo que Gigante era realmente um gigante gentil.

Ficou triste, por pensar que estaria ocupado com os afazeres de St. Clavier, mas ao mesmo tempo feliz que a exposição estava perto. Talvez pudesse conseguir algum tempo para ir até lá apreciar? Imaginava que seus pais não teriam nada contra contanto que não atrapalhasse seu desempenho, o que certamente não aconteceria: — O seu francês está indo bem, não precisa se desculpar o tempo todo. — reassegurou o loiro, finalmente saindo de cima da cama. Estava se sentindo bem mais empolgado com toda a conversa.

Se aproximou com cuidado quando ele se virou para remexer na bolsa, mas ainda respeitando o espaço dele, e foi pego de surpresa com o caderno. Era impossível não notar o tremor e rubor que vinham de Berthold, e Evelyn fez ao máximo para segurar a expressão satisfeita em seu rosto. Não que estivesse feliz em deixar o outro nervoso, mas de ter a oportunidade de ver os desenhos de um artista que gostava era única.

— … Posso mesmo?! - perguntou novamente, tentando se manter composto, mas claramente feliz — Obrigado! — Pegou o caderno com cuidado e se sentou no chão, ainda próximo a Berthold.

Evelyn folheava o caderno com cuidado para não estragar os machucar as folhas e passava um bom tempo olhando os desenhos examinando os mínimos detalhes. Se perguntava que material ele usava e até tentava reconhecer os locais que ele havia desenhado. O ruivo de aparência infantil parecia bem menos exigente enquanto folheava o caderno de rascunhos.

— Ah, já que vamos falar de você, podemos falar em alemão, se for melhor — parou de folhear por um momento para mudar do francês fluente para um alemão completamente natural — Você disse que estava com dificuldade no francês então supus que seria melhor conversarmos em francês… Mas aproveitando! Que materiais você prefere utilizar? Você tem algum outro artista ou talvez movimento artístico que sirva de inspiração?

Berthold

Era uma coisa toda nova que o loiro estava aprendendo a lidar, estava muito acostumado as pessoas parando ele para falar de partidas de basquete, times, placares, e coisas do gênero, e isso não lhe deixava nervoso ou apreensivo. Já na contramão, ser elogiado por arte, que até pouco tempo era apenas seu hobby ainda era algo do qual o alemão tinha de se acostumar. Não o deixava nervoso ter as artes julgadas, mas ser elogiado por algo do qual fazia espontaneamente, e porque gostava, era diferente de jogar do qual treinava a exaustão, a arte era algo que praticava meio sem compromisso e acabou dando muito certo, até para o próprio Berthold era algo que ainda estava buscando compreender mas estava deixando também os fatos lhe levarem pra saber até onde iria.

Acompanhou com o olhar o menor sentar-se no chão, e ele parecia ainda menor dali, aquela dinâmica estava o incomodando, não era assim tão nervoso com outros rapazes, normalmente ficava a vontade no vestiário ou mesmo no clube. No entanto, hoje em dias as interações pareciam tão sofridas e complicadas, como se estivesse constantemente passando barreiras invisíveis. Quando ouviu o alemão falado pelo menor, se sobressaltou um pouco, ele parecia até mais velho falando no idioma nativo, piscou duas vezes, e sorriu um pouco mais natural:

-- A sua voz até muda quando você fala em alemão, é seu idioma nativo não é? -- o loiro tirou o par de tênis vermelhos que usava e sentou-se no chão, a uma distância de um braço do mais novo: -- Ah-! Obrigado por me ajudar com o francês, até então, eu ainda não tenho prática, fico traduzindo tudo na minha cabeça e as vezes bagunço os tempos verbais, e ainda não me acostumei a fazer contas pra falar números. -- admitiu enquanto mexia na própria mochila, retirando alguns estojos de materiais:

-- Você perguntou sobre materiais Newell, então, pra rascunhos no papel, eu uso essa marca alemã mesmo, às vezes a austríaca, por causa da maciez e do gradiente. -- espoz dois estojos metalizados com lápis já pela metade: -- nas telas eu uso lápis apropriado para o material, pra o resultado hiper realista é tudo tinta óleo, eu uso pastel também, mas só quando eu quero mais textura ou um efeito craquelado, tipo chão seco rachado, ajuda a dá volume e saltar aos olhos -- o maior gesticulou um pouco mais parecendo menos contido pra explicar as coisas: -- no papel eu trabalho com nanquim aguada, uso uma marca japonesa, e aquarelas variadas, a depender da expansão que eu quero eu misturo marcas, não sou purista com essas coisas. Estou fazendo uns testes com guache profissional, é bem bom. Melhor do que eu tinha pensado, minhas experiências com guaches anteriores, eram só aquelas de criança.

Berthold ia mostrando bisnagas, estojos com pincéis pequenos, e outras coisas de uso variado a depender da técnica que estava usando, falar em alemão deixava o maior mais seguro, e consequentemente mais aberto a falar: -- se quiser posso mostrar algumas coisas pra você agora, claro, se estiver afim.

Evelyn

Folhear aquelas páginas era um momento único. Uma coisa era ver as artes prontas na galeria, outra era ver os possíveis rascunhos e o processo de criação. Havia se sentado no chão por que acreditava ser melhor para ver, e também estava tão quente que sentar no assoalho seria muito mais confortável do que sob o cobertor da cama.

— Muda? Não havia parado para pensar nisso - acompanhava com os olhos o movimento do loiro enquanto ele se sentava no chão. Já estava tão acostumado a falar fluentemente os dois idiomas que não parava para pensar como sua voz soava - Mas sim, morei boa parte da vida em Berlim. Inclusive por isso tive oportunidade de ver muitas galerias e entender sobre a sua tigelinha de gordura. E você soa bem menos enjoado falando em alemão, tem que praticar mais mesmo ou todo mundo vai achar que você não gosta de ninguém.

Apesar de soar como uma bronca, que pareceria rude para outras pessoas, o ruivinho falava de maneira tão direta que era mais um comentário sincero bastante amolado. O que era bem comum para o menor desbocado.

Se aproximou um pouco mais, não tanto para invadir o espaço pessoal do alemão maior, e prestou atenção nos matérias que ele apresentava. Conhecia alguma das marcas alemãs e japonesas que ele apresentava, mas ficava levemente surpreso com a quantidade de matérias que ele já estava testando. Era bastante comum alguns artistas terem uma zona de conforto e ficarem por lá mesmo, mas aparentemente Berthold estava bem empenhado em testar.

— Há quanto tempo você treina pintura a óleo? — Perguntava algumas coisas por cima, sobre que tipos de técnicas gostava de misturar dentre outras pequenas perguntas.

Os olhos do ruivo menor quase brilharam quando Berthold disse que poderia mostrar algumas coisas se Evelyn quisesse. Quem não iria querer?!

— Mesmo? Você ainda não tem que arrumar suas malas? - perguntou por desencargo de consciência. Afinal, se depois ele ficasse até mais tarde arrumando seus materiais, Evelyn não iria admitir, mas se sentiria um pouco culpado.

Berthold

O loiro se sentia mais a vontade quando falava sobre suas produções, não totalmente, mas em comparação a tentar puxar assunto sobre coisas aleatórias, falar sobre sua própria produção era bem mais simples e dentro da zona de conforto. Riu nervoso quando o mais novo lhe confirmou sua maior suspeita, que falava um francês tão mal arranjado que soava antipático. Mas não era de todo mentira, as vezes ficar excessivamente calado também era sua indiferença natural com os problemas dos outros, mal dava conta dos seus, por que se meteria no dos outros? Mas sabia que ainda escutaria muitos comentários sobre seu francês capenga.

Fez uma pausa em tirar material da bolsa, levando a mão grande aos fios curtos loiros, e o gesto de arrumar o óculos lhe despertou ao fato que ainda estava de lentes. Acabou se sobressaltando e perdendo a linha do raciocínio: -- Ahn- eu já respondo! Eu preciso tirar as lentes, me dá dois instantes, por favor. -- o loiro buscou em sua mochila o case das lentes e o dos óculos para fazer a troca, se levantou para ir até o banheiro, lavar as mãos, para só então tirar as lentes, e colocá-las de volta no soro. Ao por os óculos de grau, com lente mais espessa, a aparência de Berthold mudava drasticamente, deixando-o com uma aparência até mais séria em relação a versão inofensiva anterior.

Berthold retornou para junto do menor ruivo, sentando-se novamente, com um sorriso mais simpático, a despeito de antes parecer bem mais nervoso com toda aquela interação: -- Ah, eu comecei a usar tinta acrílica faz uns anos, acho que três? De marcas mais profissionais, antes eu desenhava mais por hobby, sabe, entre uma viagem e outra, eu ficava desenhando os espaços e enchendo caderno de rascunhos, é tipo, como minha segunda paixão, depois vem fotografia. -- Não falou qual era a primeira, porque não gostava de ressaltar o ponto que gostava tanto de basquete, mas que agora não podia de fato praticar:

-- Eu levava o sketchbook pra todo lugar, e fazia os rabiscos com lápis depois, aquelas aquarelas portáteis, só migrei pra acrílica quando comecei a trabalhar em telas. Como eu tenho Quadricromia, aí dá pra explorar melhor com materiais que tenham texturas do que com materiais lisos. Não sei se tô fazendo muito sentido, mas se eu estiver falando muito rápido, você avisa. É que eu acabo me empolgando. -- Puxou um dos cadernos de tamanho A3 que lhe dava margem maior pra desenhar, e apoiou as costas na cama atrás de si, e encarou o menor ali sentado no chão, ele era realmente muito, muito bonito, renderia um bom desenho, será que o menor lhe deixaria fazer um rascunho dele?

-- Eu posso desenhar você? Aí, aproveito e já mostro como eu faço rascunho, essas coisas… Claro, se você não ficar constrangido, é claro.

Evelyn

Realmente, nos poucos momentos que mudaram de idioma, Evelyn conseguia dizer com certeza que 90% do problema de Berthold era falar em frânces. Ele até conseguia rir quando comentavam em alemão! Talvez se ele se abrisse um pouco mais poderia reduzir essa porcentagem.

- Vamos fazer assim então, falamos mais em alemão aqui, mas podemos treinar o seu francês quando achar melhor. O que acha? - sugeriu, afinal se teriam que dividir quarto por mais um bom tempo, não queria ter que chegar todo dia e falar com uma pessoa que só lhe daria desgosto - Assim acho que podemos nos entender melhor também.

Ficou curioso quando ele pediu um momento para tirar as lentes. Tentou espiar enquanto ele tirava as lentes e colocava os óculos, e com isso Evelyn estabeleceu uma segunda certeza: o infeliz do alemão loiro conseguia ficar bonito de qualquer maneira. Ele poderia estar vestido que nem mendigo, mas ele estaria bonito. Acabou sorrindo de canto de boca quando ele se virou de volta de óculos.

- Só três anos?! A sua técnica com acrílica é fantástica! A maneira que você faz a luz e sombra sempre me pega de surpresa, ela passa tanta emoção por si só! - Evelyn ficava visivelmente empolgado de falar sobre as pinturas. Gostava bastante da temática que Berthold usava nas pinturas, as cores frias e atmosfera melancólica eram incríveis, principalmente para alguém que não era um senhor velho com traumas de guerra - Huh… E há quanto tempo você vem fotografando? Você tem uma linha de aprendizagem muito boa! - ficou um pouco curioso, tentando imaginar qual seria a primeira paixão do artista, mas se ele não mencionou, talvez não fosse de sua conta. Perguntaria em um outro momento.

- Quadricomia? - já havia ouvido falar do termo, mas como não era sua área principal, não sabia exatamente o que era - Está fazendo sentido sim. Só esse termo que eu realmente não conheço muito bem já que artes é uma área que gosto muito, mas não é minha especialidade. E é bom ver você falando tanto, tira um pouco da primeira impressão que eu tive de você - comentou despretencioso, balançando a mão ao vento. Afinal, era positivo que não estava mais achando Berthold tão enjoado. Apenas um pouco enjoado.

Evelyn sentiu o coração quase dar um pulo pra fora quando ele perguntou se poderia desenha-lo. Respirou fundo, e fez o máximo para manter a calma, mas estava feliz que um dos seus artistas favoritos perguntou se poderia fazer um desenho seu. Faria na temática de sempre? Seria bastante curioso ver o que Berthold iria fazer: - … Sério?! Uhm… Não tem problema algum! Eu só não sei bem o que eu supostamente devo fazer… Eu só preciso ficar sentado e não me mexer muito? - estava sentado no chão muito bem confortável com as pernas cruzadas. Nunca havia sido modelo de alguma coisa, então era algo bastante alienígena para Evelyn.

Berthold

O loiro mais alto apenas acenou positivamente diante das colocações do rapaz mais novo, e sorriu sem graça quando ele ressaltou mais uma vez sobre seu Francês, desse jeito ia evitar abrir a boca e acabar incomodando os outros alunos da academia. Muito embora se não praticasse conversando ia acabar tendo problemas futuros de compreensão durante as aulas, era cansativo só de pensar. Mas não acrescentou mais nada, além de confirmar com a cabeça, tinha medo de levar mais broncas.

Ficou verdadeiramente corado por trás das lentes de grau quando foi elogiado por ter uma aprendizagem rápida, e isso fez com que o maior usasse o caderno de A3 um pouco como escudo. Não que isso evitasse de ouvir o restante dos elogios, mas pelo menos servia pra omitir o fato que não tinha tato nenhum pra lidar com eles:

-- Erh… Eu descobri que a fotografia podia ser muito boa pra mim… ela me ajuda a completar as coisas que eu não enxergo. -- comentou sem dar muita profundidade ao tópico porque não queria falar que tinha perda de visão para longa distância e isso atrapalhava um pouco sua noção de profundidade. Baixou o caderno apenas quando o mais novo lhe perguntou sobre sua quadricromia, já ia explicar quando ele tornou a falar que tinha dado uma péssima primeira impressão ao mais novo, riu nervoso, porque não tinha muito que fazer quanto aquilo

Quando foi perguntado sobre o que deveria fazer, Berthold arrumou os óculos no rosto, e pós uma expressão bem séria, antes de falar: -- nada. -- Depois respirou fundo e buscou uma posição mais confortável para as pernas compridas: -- Eu não vou fazer um desenho hiperrealista de cara, a gente faz um rascunho, estuda as feições principais, analisa a anatomia e postura, faz uma avaliação geral, e isso requer que você seja natural que esteja relaxado, essas coisas, ou seja, você não precisa fazer nada de especial.

O Loiro apoiou o caderno nas pernas de forma que o mais novo pudesse ver o que rabiscaria, buscou no estojo um lápis que era totalmente feito de grafite, já estava carcumido do uso, e a peça encaixava exatamente na curva entre o dedão e indicador da mão do loiro. Fez algumas linhas sinuosas e algumas formas geométricas básicas que não pareciam nada: -- Quadricromia, é uma anomalia genética… tem alguns médicos que dizem que é algum tipo de aprimoramento, mas a maioria concorda que é fruto de desordem genética, onde os olhos possuem 4 cones de percepção de luz e sombra, a grande maioria das pessoas têm 3 cones de percepção, e quando um destes têm alguma deformidade causa um dos 3 tipos de daltonismo. -- explicava com a tranquilidade de quem já tinha ouvido sobre aquilo várias vezes.

Logo as formas geométricas deram lugar as curvas do corpo do rapaz mais novo, fez questão de colocar a camisa muito maior e trabalhar com triângulos nas dobras, gastou tempo para fazer o volume do cabelo e já seguiu direto para uma hachura para sombrear: -- O cone extra têm vários efeitos sobre a visão, a principal é que eu enxergo 100x mais variações de cores do que as outras pessoas, e minha noção já foi muito melhor, isso tudo facilitou no processo de pintar e desenhar, mas deu uma trabalheira pra compensar na fotografia… -- deixou o primeiro rascunho de lado, e agora focou no rosto, as formas geométrica, linhas sinuosas, e em seguida uma sombra dramática que modelando dava lugar a olhos, boca e nariz, tudo muito escuro e ao mesmo tempo com zonas vazias de puro branco:

-- Hoje em dia eu fotografo muita coisa que tenho interesse de pintar porque a câmera é extensão da minha visão, e a pintura é uma reflexão do que eu estou sentindo… então elas se complementam.

Evelyn

Percebeu como o outro ficou envergonhado pelos elogios que fez sobre sua técnica e achou bastante curioso. Ele não conseguia reconhecer aquilo? Para o ruivinho, tão óbvio. Ficaria bem irritado se ele não reconhecesse o quão incrível ele era.

- Incrível! Você realmente tem uma percepção muito boa. A luz e sombra que você consegue capturar na fotografia é maravilhosa, dá pra sentir a sua intenção com as fotos. - comentou empolgado, fechando os olhos brevemente se lembrando das peças que mais gostava da exposição de Berthold. Tinham temas sombrios e um pouco melancólicos, mas era exatamente a temática que gostava.

Estava meio confuso sobre o que fazer, mas a mudança de postura de Berthold foi notável quando começou a desenhar e disse que não precisaria fazer nada. Ele poderia ser mais assertivo assim em outros momentos, mas era estranho ter alguém lhe encarando enquanto desenhava, também gerava uma certa curiosidade sobre o que estava sendo feito no papel, mas fez seu melhor em não fazer nada, apenas à vontade com a conversa, que inclusive estava gostando bastante. Escutou atentamente a explicação do artista sobre quadricromia ser uma anomalia genética, arqueou a sobrancelha enquanto ele explicava. Normalmente anomalias eram vistos como algo negativo, mas no caso do artista era algo que o ajudava bastante na hora de desenvolver seus desenhos. Gostaria que seu caso fosse algo assim.

Acabou divagando nesses pensamentos, até abaixando um pouco o olhar para o caderno, mas tentou rapidamente reaver a postura confiante, não gostava muito de se ver numa posição negativa.

- Eu acho incrível essa capacidade. Eu já tive algumas poucas aulas de pintura, mas realmente o meu forte é com números - comentou, apoiando as mãos sobre o tornozelo já que estava com as pernas cruzadas - Eu realmente acabaria sendo mais um curador do que um artista de fato, então invejo um pouco a sua capacidade de expressar o que sente no quadro. É algo um pouco alienígena pra mim.

Batia a ponta dos dedos sobre a pele enquanto falava, pintura havia sido uma das muitas coisas que Evelyn havia tentado entre uma infinidade de hobbies. No final, se estabelecendo com matemática por que parecia ser algo mais confortável e garantido para o futuro.

Berthold

Para o rapaz era apenas natural que desenhar fosse uma extensão sua, não pensava demais, não calculava demais, tinha em sua mente mais ou menos onde queria chegar, e simplesmente deixava seguir. Devia realmente parecer alienígena justamente porque não era bom em explicar coisas, aquilo lhe fez ter vontade de se desculpar mas ele já tinha dito que não gostava de ouvir repetidas desculpas, divagou enquanto desenhava e acrescentava camadas e camadas de hachuras a ponto que os traçados realistas começavam a saltadar das sombras e luzes nas maças do rosto delicadas nos cílios compridos, apagava as partes nos olhos para fazer o reflexo no olhar do menor, como o cabelo lhe caia preguiçoso sobre o rosto, mas de forma a emoldurar a face do mais novo, ele era de fato bonito, mas sentia que faltava algo, ele nem longe era tão amigável quanto o que estava desenhando:

-- números? -- repetiu o comentário apenas para poder absorver com mais exatidão: -- Bem, se quer saber, eu não penso demais em cânones artísticos, grid de composição, oclusão da sombra ou essas coisas, esses conteúdos mais de arte clássica eu já li ou ouvi falar, em verdade estou aqui para aprender mais sobre esses conceitos mais formais, em verdade eu quando produzo, eu só faço… é meio decepcionante eu sei… mas está mais ligado a o quanto eu consigo “moldar” algo, e o quanto eu sinto que “falta algo”.

Não sabia se estava fazendo muito sentido, mas mostrou os rascunhos que tinha feito do Evelyn, o corpo nas proporções como um ponto de luz saltando das sombras, ou mesmo o rosto extremamente realista feito apenas do contraste de hachuras: -- pra mim parece você, mas eu não sinto você, consegue entender? -- não imaginava que o menor fosse captar imediatamente.

Puxou de um de seus estojos um marcador vermelho escuro e destampou a ponta chanfrada, e passou o marcador vermelho em quase toda folha, a tinta aderindo bem ao papel de boa qualidade, os borrões formados do lápis com a mistura da tinta. Depois pegou uma caneta branca e fez alguns destaques no rosto de Evelyn, nos olhos, e alguns fios de cabelo, de forma que o rapaz mesmo pequeno, ficou ameaçador, intenso, como se fosse algo perigoso sacando da escuridão, e não algo aconchegante feto de hachuras: -- Agora eu sinto algo mais próximo do que você me parece.

Assinou o rascunho, e colocou uma dedicatória: “para meu novo colega de quarto, espero não fazer sua tijelinha de gordura transbordar. Assinado Araav, Setembro, 2014.”

Evelyn

Evelyn estava mais empolgado em poder observar o andamento do desenho do que verdadeiramente ver o resultado. Não que ter um desenho pessoal de um artista que gostava não fosse empolgante, mas Evelyn sempre via o resultado pronto nas galerias e acabava tentando imaginar sobre o processo de criação. E agora, estava podendo acompanhar.

Fez um breve aceno positivo com a cabeça quando ele repetiu sobre números, e prestou atenção sobre como ele criava suas obras. Incomodava um pouco escutar ele dizer que era decepcionante. Se era a maneira que ele havia encontrado para fazer e estava funcionando, qual era o problema?! Já havia escutado diversas vezes que cada artista tinha seu próprio processo de criação, então o que tornava o dele menos especial? O menor franziu um pouco a sobrancelhas enquanto escutava essa parte, levemente confuso e um pouco irritado com a maneira que ele falava.

- Huh… Em parte, sim? - respondeu enquanto observava os rascunhos que ele havia feito. Para Evelyn, a pessoa no desenho parecia bastante… O próprio Evelyn. O que faltava então?

O viu sacar o marcador vermelho e colocar a cor vermelha intensa no papel, o que mudou completamente a composição que ele havia feito. Se antes na imagem existia alguém de traços finos e cabelo ruivo, certamente essa pessoa agora se destacava bastante da imagem, até bastante… Intimidador. Os detalhes em branco que foram colocados pelo artista ajudavam a ressaltar mais detalhes, mas o menor ainda parecia uma coisinha intimidadora, como aqueles personagens travessos de contos de fadas.

- … Pequeno e assustador? - perguntou, um pouco descrente - … Acho que posso conviver com isso. - deu um meio sorriso observando o desenho, que rapidamente virou um sorriso completo ao vê-lo assinar, em especial o que colocou embaixo, pessoalmente achou engraçado a ideia da tigela. Poderiam colocar um quadro negro na parede com o desenho de uma tigelinha e colar post its para contar vacilos.

Aceitou o desenho quando ele o estendeu, ficou feliz de ter trazido uma pasta catálogo para guardar documentos. Certamente o desenho de Araav ficaria logo na frente. Sorriu, segurando o desenho em mãos com tanto cuidado que parecia que a folha iria quebrar.

- Eu vou guardar com cuidado. Mas acho que a tigelinha de gordura vai sobreviver. - brincou, apesar de acabar soando como uma repreensão pela postura que tinha. Agora estava com uma pequena dívida pessoal com o artista, precisaria descobrir de que tipo de coisas ele gostava para poder compensar.

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