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[Drive] Dois Coelhos [Jade; Otheo; Giulio] - Lil - 09-22-2021

Jade

Embora Jade tivesse uma rotina muito específica entre shows no bar, trabalho no bordel e clientes em Cerise e casualmente em Paris, com o descanso merecido no conforto do seu lar, havia algumas situações de fins de semanas e dias livres em que gostava de passear pela cidade do interior francês e fazer uns programas diferentes e encontrar pessoas conhecidas. Mas precisava estar verdadeiramente entediado e descansado para isso, além de não ter tido clientes na noite anterior.

E com uma noite de sábado livre, o que era uma raridade, ele resolveu subir num dos seus belos saltos decorados, colocar uma calça justa de cintura alta, com uma camisa de seda verde semi-transparente folgada e com detalhes bordados na gola, um kimono degradê entre preto e branco que ia até a altura de seus quadris, brincos longos com pequenos cintilantes de diamantes que quase alcançavam os seus ombros e uma maquiagem leve, com rímel para destacar os cílios já longos, uma sombra escura que só aumentou o brilho em volta do olho claro na pele morena, um batom também escuro mas com gloss que brilhava também em consonância com os olhos e os brincos. Toda a produção da aparência lhe levou para um lugar conhecido, mas onde não aparecia há uns bons seis meses ou mais, e de onde já tinha ouvido muitas notícias e novidades interessantes às quais talvez devesse ter prestado atenção para cutucar mais e descobrir outros interesses.

Depois de uma viagem de táxi não muito longa, pouco depois das onze da noite, os saltos altos e a postura elegante combinados com a beleza morena natural estavam chamando atenção dos clientes dentro do conhecido Mary Stigmata. E embora um sorriso convencido tivesse surgido no rosto do prostituto ao passar pelo salão como se desfilasse para escolher uma presa, ele seguiu direto até o balcão, sorrindo mais amplamente para o negro de rastafári e roupa chamativa que terminava de servir um dos clientes já bêbado tão cedo.

- Mon, mon, você não mudou nadinha, Theo. - Jade sentou-se a um dos bancos altos no balcão, cruzando as pernas elegante e apoiando o cotovelo no bar. - Há quanto tempo, hm?

Otheo

Pela primeira vez em muitos anos de bar, Otheo tinha estabelecido uma rotina. Isso tudo se devia ao seu relacionamento com Giulio, o que lhe impedia de beber demais ou sair casualmente com um cliente que julgasse interessante. Mas achava ótimo que agora tinha uma rotina: podia passar mais tempo no piano, rir das bobagens nas noites em que Belle Bordeaux se apresentava e conversar mais tempo com os clientes antigos e novos. Podia dizer que como anfitrião, estava se saindo melhor que antes. E Joel tinha parado de reclamar tanto de suas atitudes.

Naquela noite, como em tantas outras, os novatos ao Mary Stigmata lhe encaravam quando passava pelo balcão, pois estava com uma camisa azul clara quase turquesa com listras em um tecido de estampa étnica, além de tantos acessórios no braço que fazia ruído sempre que tentava chacoalhar um drink, Suas tranças estavam em um coque alto e cheio, dando destaque a um par de argolas douradas grandes, e ainda que o balcão escondesse, e só desse para ver que o dono do bar estava com uma bermuda branca, Joel bem podia ver os sapatos com padrão de crocodilo bordô um pouco ousados demais.

Porém, em algum momento, Otheo começou a notar os olhares mudando para outra pessoa no salão, e não foi difícil ver de longe a figura elegante de um conhecido antigo entrando no salão, fazendo todas as cabeças virarem para os dois de um jeito mais que curioso.

- Jade! Há quanto tempo! – cumprimentou o outro por cima do bar, estendendo os braços para abraçá-lo e lhe dar um par de bises no rosto. – Byen venu, mon cher! Andou ocupado? É hora de expurgar o estresse pra fora. Que tal um drink? O primeiro drink do homem mais bonito do bar é lagniappe. E não pode ser outro se não você. – colocou um copinho na frente do moreno, sacando um dos licores caseiros. – Damballa, pra colocar a cabeça no lugar.

Jade

Jade sorriu mais largamente quando apoiou as mãos no balcão para ficar ao alcance dos braços e beijos de Otheo num cumprimento muito amigável, voltando a se sentar elegante no banco quando ele lhe ofereceu um drink para aliviar do estresse.

- Mais ocupado do que eu gostaria, menos do que eu queria. Mas foi uma ótima escolha vir aqui para espairecer e colocar os olhos num belo negro com bom senso de moda. Você está um luxo, como sempre, Theo. - Jade respondeu, colocando apenas a ponta dos dedos longos sobre a borda do copo de dose para puxar para perto de si quando Otheo escolheu o licor para servir aos dois. - Perdi uns clientes interessantes nos últimos meses e tive que trabalhar para compensar, sabe como é; os clientes de hoje não são como antes, eles não sabem dar presentes decentes, quase preciso usar meu suado dinheiro para comprar saltos decentes. - ele fez um bico em frustração, levantando o pé nas pernas cruzadas para exibir o belo salto adornado e novinho em folha.

Ele pegou o copo de dose, levantando-o para brindar com Otheo, rindo do som exagerado das pulseiras e adornos nos braços dele, e adorava observar as peculiaridades do dono do Mary Stigmata. Virou a dose de licor de uma só vez e estendeu o copo de volta, tocando no balcão algumas vezes com a ponta do indicador para ser servido de novo.

- Mas então, eu estive tempo demais fora, mas não significa que estou por fora das novidades. Me diga aqui, é verdade que você desvirtuou o padre da igreja de Pourpre? Como é a visão debaixo da batina, Theo? Vale uma eternidade no fogo do inferno? - Jade se debruçou sobre o balcão, o olhar interessado em Otheo e o queixo apoiado na mão, a unha longa e bem-feita do indicador roçando sugestiva sobre o próprio lábio inferior.

Otheo

Otheo abriu um sorriso lisonjeado, mas então olhou para trás quando Jade concluiu sua ideia.

- Um belo negro com senso de moda? Eu não lembro de ter instalado espelhos atrás de mim aqui no bar. – riu. – Obrigado, sinhô. O mesmo pode ser dito para você, Jade. – supunha que ele deveria estar com menos clientes já que tinha ido ao bar apenas para beber, mas ouvir ele dizer que até não estava ganhando presentes bons lhe colocou um pouco de surpresa no rosto. Porém olhou o sapato, e acabou rindo do comentário de ele mesmo teve que comprar o sapato. – Isso não é fazer um trabalho decente? É um belo sapato. Um brinde a seu cliente de bom gosto. Santé! – ergueu o copinho para brindar com o outro, tomando uma pequena dose de licor.

Só quase engasgou quando ele claramente fez aquela pose naturalmente sedutora para lhe inquirir sobre o que deveriam ser “notícias”. Otheo riu, um tanto nervoso quando ele lhe lembrou sobre todo tipo de punição divina que poderia receber por seu relacionamento com Giulio, e aproveitou para colocar mais licor para o cliente.

- Calma. Não desvirtuei padre nenhum. Eu fiquei amigo do Giulio, mas ele já tinha largado a batina depois de ser desvirtuado. – Otheo parou, pensando que isso talvez não ajudasse muito seu caso.- Eu não vi debaixo de batina nenhuma. Mas estar com ele vale a pena arriscar uma danação eterna sim. Ele é maravilhoso, Jade, deveria conhecê-lo. – abriu um sorriso largo e um pouco orgulhoso. – Sem falar que é um homem lindo. E quando você nota que um homem é lindo quando ele está de vestido preto, coberto do pescoço aos pés... – então notou o que falou, fazendo uns sinais com as mãos e batendo na própria boca pra não falar mais nada. – Por que não bebe mais, hm??

Jade

- Trabalho decente eu sempre faço, querido, mas os clientes nem sempre querem pagar por ele, não é mesmo? - Jade sorriu, tocando o indicador nos lábios de modo insinuante de novo.

Mas logo riu da reação pronta de Otheo para o seu questionamento sobre as novidades e muito mais diretamente sobre o tal padre que ele tinha desvirtuado. Era divertido observar o jeito nervoso do outro que estava tão acostumado a sair com os mais diversos tipos de pessoas. Pegou o copo com o licor depois que ele reabasteceu, só balançando o líquido um pouco para cada lado, muito interessado no desenrolar da conversa.

- Ahhh, então você foi só o vetor pra ele desistir da batina? Porque eu sei que você não é o tipo de homem que a gente nega, não é, Theo? Como foi essa amizade aí que atentou o padre? - Jade insinuou, fazendo um bico logo depois. - Do jeito que fala, me deixa com muita vontade de conhecer o homem, e eu nunca fui na Igreja pra vê-lo de batina também. - Jade tomou um gole apenas acompanhando o desespero de Otheo ao admitir como o ex-padre ficava bonito dentro da batina. Ele deu uma olhada ao redor, como se fosse o suficiente para achar o tal homem maravilhoso que Otheo estava falando. - Então, cadê o homem maravilhoso?

Otheo

Jade tinha um ponto. O preço e o trabalho nem sempre eram na mesma medida. Especialmente em uma posição de auto-empreendedorismo como ele estava.

Jade, entretanto, além de ir até seu bar para beber, estava muito animado em saber todas as novidades sobre sua vida amorosa. Gostava de falar sobre Giulio, mas o jeito que ele lhe questionava sobre toda a questão de desvirtuar lhe fazia pensar imensamente em pendurar alho na porta de casa para manter o mau do lado de fora. Ao menos Jade lhe fazia refletir com um sorriso no rosto, pelos elogios bem aplicados.

- Acredite ou não, foi uma amizade bem singela. Nós dois gostávamos de conversar sobre música, comida e religiões. O Giulio certamente não era um padre convencional. Nunca tentou me converter... na verdade acho que ele até gosta do meu mojo. – riu, brincando sobre a curiosidade que o outro tinha de verdade sobre sua religião. – Mas deve ser porque ele é um estudioso. Professor de filosofia.

Otheo serviu outra dose para Jade como se fosse sua segunda natureza, mas não sem antes perguntar se ele queria mais um pouco. Afinal, ele podia querer mudar o licor que estava bebendo.

- Eu acho que ele está trabalhando. Mas quem sabe ele apareça mais tarde, hm? Eu apresento vocês dois, desde que prometa não dizer que quer olhar embaixo da batina dele. – Otheo falou com um leve arqueado de sobrancelhas. – Seria no mínimo conveniente se ele aparecesse agora só por ser mencionado. – riu.

Jade

Jade ficou bem entretido com toda a descrição que parecia bem surreal do tal padre que até gostava de falar de outras reuniões e nem tinha tentado convertê-lo.

- Mon, mon, falando desse jeito, até me arrependo de não ter sido um cristão assíduo, Theo, tem certeza que desvirtuou o padre e não o faxineiro da igreja? - Jade deu aval para que ele continuasse servindo o licor, ainda balançando as pernas cruzadas enquanto esperava a resposta e se servindo do licor. Mas assumiu uma expressão desapontada quando ele disse que o amante devia estar trabalhando e que só talvez aparecesse ali. - Como assim o homem está trabalhando numa noite de sábado, Theo? Que ser conveniente o quê, você podia só ligar para ele, não é? Cadê o seu celular? Eu ajudo!

Ele se inclinou por cima do balcão, procurando por um celular e dando uma longa olhada também no resto da roupa de Otheo e os sapatos de estampa de crocodilo.

- Adorei os sapatos, pena que não são de salto, Theo. - Jade disse, ainda debruçado sobre o balcão, para ter a atenção desviada para uma voz próxima demais e um belo exemplo de homem íntegro a dois bancos de distância.

- Otheo, não queria interromper, mas acabei de chegar dos dormitórios, vou subir e preparar alguma coisa para jantar, quer que prepare para você? - o moreno de olhos claros tinha uma expressão sóbria demais para pertencer ao bar, e bonita demais para ser desperdiçada, e Jade quase deixou passar os comentários ao dar uma olhada no outro, de cima abaixo, com calça jeans, uma camisa de mangas compridas e botões só na gola, e uma camisa social por cima.

- Ahhh, conveniente? Eu acho que é provisão divina, Theo. - Jade sorriu muito largamente para o homem, o que chamou atenção para si. Ele estendeu a mão com uma tatuagem de henna na direção do outro, para um cumprimento adiantado. - Você deve ser o Giulio, hm? O prazer é todo meu, padre. Eu sou Jade, ou o nome que você preferir.

- Ah… muito prazer, Jade. - Giulio estendeu mão para cumprimentá-lo de volta, o rubor leve no rosto pela disposição do estranho que certamente tinha ouvido sobre si por Otheo só foi disfarçado pela baixa iluminação do bar. - É só… Giulio. - ele reforçou, já que tinha sido chamado de padre pelo homem muito bonito que estava bem sentado ao balcão.

Otheo

- Se fosse o faxineiro, eu nem tinha passado tanto tempo só conversando. – Otheo falou muito claramente, logo em seguida sentindo o suor frio descer pela testa, batendo na própria boca para tentar punir o que tinha acabado de admitir.

Jade deu a sugestão que ligasse para Giulio. Bom, o namorado certamente deveria aparecer no Mary Stigmata em algum momento naquele sábado, mas decidiu não confirmar o fato para Jade, especialmente depois dele demonstrar tanto interesse. Do jeito que o prostituto era, engoliria Giulio com tanta presença. Fora que o italiano gostava de pessoas singulares. Era certo que cairia nos truques de sedução alheios e conversaria com ele por um bom tempo. Mesmo que soubesse que Giulio não tinha intenção de lhe trair de modo algum, ficava incomodado com a ideia de dividir a atenção dele com alguém que sabia ser interessante. Até deu um passo para trás para impedir que o outro fosse pegar seu celular.

- Para você ver o número dele e decorar para passar trotes? – riu, embora estivesse falando um pouco dos absurdos que imaginava. Sorriu largo quando ele elogiou seus sapatos, virando o pé ligeiramente de lado em ponta para mostrar como ficaria com salto. – Obrigado. Mas eu não ficaria tão elegante quanto você de salto.

Só foi distraído de suas brincadeiras com Jade quando ouviu a voz de Giulio, ao mesmo tempo sorrindo e entrando em pânico enquanto voltava a atenção do namorado para o cliente, do prostituto para o padre, como destacado até pelo próprio Jade.

- Ah, quero s- que provisão divina! – Otheo tentou responder Giulio, mas se resumiu a um protesto de leve, vendo que o outro não perdeu tempo algum em estender a mão e se apresentar. E que o Giulio ficou levemente ruborizado pela introdução, e imaginou que era porque Jade de fato era muito bonito e chamativo. – Giulio, não caia na dele. Ele só gosta de presentes caros. Eu aceito oferendas em álcool, flores, perfumes, e jantar. – tentou brincar, mas fez um “shoo shoo” inconsciente para Jade, esperando que ele mantivesse a distância.

Jade/Giulio

Giulio já tinha notado o homem bonito que conversava com Otheo no bar ao se aproximar, e ainda olhou para ele discretamente antes de se aproximar. Até esperou por um momento em que eles não estivessem entretidos na conversa para chamar a atenção do namorado, mas ficou curioso com a presença masculina e excepcionalmente bonita ao seu lado quando ele lhe estendeu a mão. Claro, ficou mais constrangido por ter sido chamado de padre de novo e pelo fato de que o tom dele era bem insinuador.

- Giulio então, gosto de intimidade. - Jade respondeu, com um sorriso muito satisfeito, apoiando o queixo na mão e se inclinando na direção de Giulio. Mas sua inclinação foi cortada por Otheo lhe fazendo um "shoo" com as mãos. - Não é verdade, eu gosto de presentes caros a longo prazo, pra uma noite só de folga, eu bem podia me distrair conversando com um ex-padre.

- Eu não tenho problema em conversar, mas posso não ter muitas coisas interessantes para compartilhar com você. - Giulio disse, sorrindo breve pra o cliente. - Vocês se conhecem há muito tempo?

- Mais do que eu posso contar nos dedos. - Jade respondeu, apontando a banqueta alta ao seu lado para que Giulio se sentasse. - Por que não me faz companhia essa noite e eu conto algumas coisas do meu relacionamento com o Theo aqui?!

- Bom… - Giulio olhou de Jade para Otheo e depois para o homem ao seu lado. - Se não for atrapalhar… eu gosto de conversar com pessoas novas.

Otheo

- Não tem intimidade aqui coisíssima nenhuma! – Otheo respondeu com a testa franzida para Jade, no intuito de impedir que ele tomasse mais liberdades.

Até entendia a vontade de Jade de conversar com Giulio, e toda a curiosidade que ele despertava. Era um homem bonito, e era um ex-padre, namorando um dono de bar vuduísta e ensinando filosofia em St. Clavier. Havia uma imensa mescla que características ali, além da boa disposição, que faziam Giulio um excelente parceiro de conversas. Mas só de conversas, se fosse para Jade. Toda a ótima performance na cama queria guardar apenas para si.

- O Jade é um cliente antigo do bar. Diria que um dos melhores, porque ele trás gente que gosta de gastar dinheiro. – Otheo acabou sorrindo com o canto da boca, um pouco conformado. Até porque, curioso como fosse, gostava do prostituto. – Mas é bom deixar avisado que... olha pra essa carinha... não tem nada de criança nele, então nada de rir das cantadas dele como você faz com a Aimée. Se der bobeira ele te devora.

Como um homem claramente acostumado com a indústria de serviço, Jade já tinha até puxado o banco para Giulio, o que certamente tiraria toda a vontade do namorado de ir embora fazer o jantar. Afinal, raramente ele tinha a chance de sentar e conhecer as pessoas engraçadas em seu bar. Otheo coçou a nuca e suspirou longamente.

- Tá, tá. Podemos conversar. Até porque não é sempre que você tem a chance de ficar e curtir o bar um pouco. Quer algo para beber? Ele vai secar sua língua com certeza. – Otheo franziu a testa para as próprias palavras, então sacudindo a cabeça negativamente.

Jade/Giulio

A reação exagerada de Otheo para a suposta "intimidade" que Jade tinha sugerido só fez com que Giulio arqueasse as sobrancelhas, com um sorriso discreto no rosto. Ele sentou na banqueta indicada por Jade, que lançou-lhe um sorriso muito largo por ter o ex-padre ao alcance e ainda ter a apresentação estendida por Otheo.

- Não se preocupe, Giulio, eu sou herbívoro, gosto de ser devorado. - Jade se inclinou sugestivo na direção do outro, apoiando o cotovelo no balcão e a mão no queixo, de modo que pudesse tocar os lábios com a ponta das unhas longas e bem-feitas. - E você? Gosta de ser o caçador ou a caça?

Giulio riu da pergunta de Jade, e embora tivesse entendido parte do significado dele sobre caçador e caça, preferiu se ater ao que ele estava dizendo para não ter que entrar em detalhes íntimos.

- Eu não sou muito fã de caçadas. - ele respondeu, concordando com um aceno de cabeça para Otheo sobre querer algo para beber. - Pode escolher algo, Otheo.

- Não gosta de caçadas e acabou com o Theo aqui? - Jade deu uma risada sonora. - Dê Anaisa para ele, está precisando de um pouco de paixão e ganância, padr- quer dizer, Giulio.

Jade lançou um olhar muito longo ao padre que esperava pela bebida e voltou-se para Otheo, fazendo um sinal discreto com as mãos em oração e movendo os lábios num "amém" para indicar a aparência do padre ao lado, consertando logo a postura antes que ele notasse o seu movimento indiscreto. Claro que esperou conveniente que ele fosse tomar pelo menos um gole do drink para lançar a primeira pergunta curiosa.

- Então, Giulio, você era virgem antes do Theo?

Otheo

Otheo levantou as duas sobrancelhas quando Jade apontou que gostava de ser “predado”, não por estar surpreso, mas porque não acreditava naquela conversa. A resposta de Giulio, porém, lhe fez sorrir discreto, pois ele tinha conseguido se desvencilhar das palavras de Jade com uma inocência singela. Mas imaginava que nesse ponto do relacionamento dos dois, ele tinha entendido a conotação daquela pergunta.

- Eu não sei o que você quer dizer com “e acabou com o Otheo aqui”. – respondeu com leve indignação, indo pegar os licores para servir Giulio, ciente que teria que controlar as doses porque o moreno não era exatamente o que poderia chamar de “um bom bêbado” para aquele tipo de situações. Ainda mais com Jade fazendo perguntas. – E só para deixar posto na mesa, Jade, eu acredito que caçador e caça são mais do que posições numa cama. O senhor é um onívoro. Todos somos.

Então pensou na merda que tinha acabado de soltar e bateu na própria testa, esperando que ele não entendesse da mesma forma como tinha interpretado.

Serviu Anaisa para os três – o terceiro sendo ele mesmo, que precisava de uma dose – mas assim que virou o copinho na boca, ouviu a pergunta mais que direta de Jade quase engasgou com a bebida e cuspiu toda para o lado, sujando parte do balcão e Joel que estava indo pegar uma garrafa. O funcionário levantou o rosto com o olhar de pura revolta, mas não demorou dois segundos, para suspirar longamente, conformado e cabisbaixo com sua sorte no ambiente de trabalho.

- Desculpa, Joel... - Otheo sorriu amarelo enquanto o funcionário pegava uma flanela com o ímpeto de quem sacava uma espada, antes de resmungar e começar a esfregar o balcão. Otheo voltou-se para os dois de novo - Viu o que eu disse? Essa não é uma pergunta de herbívoro, não sinhô!

Jade/Giulio

A intenção de Giulio era não entrar em comentários muito íntimos, claro, e teve que rir quando ele condenou o fato de ter acabado num relacionamento com Otheo. Mas foi a resposta de Otheo que fez com que Jade sorrisse muito mais amplamente, porque ele tinha deixado bem pontual que todos eram onívoros ali. Antes de poder mudar o assunto e distorcer o comentário de Otheo, entretanto, a reação do barman veio tão pronta quanto a de Giulio ao engasgar com gole breve de Anaisa depois da sua pergunta pontual. Jade apenas alargou mais ainda o sorriso, se entretendo com as semelhanças dos dois, embora Giulio fosse muito mais discreto ao só cobrir a boca com uma das mãos, enquanto o moreno tinha estragado até a roupa do funcionário.

- Oh. Foi uma má hora? - Jade se fez de desentendido, ele finalmente levando o licor aos lábios para tomar um gole. - Ah, Theo, pare de tentar me difamar. - ele fez um gesto com a mão, dispensando a acusação de Otheo para se voltar para Giulio que tinha se recomposto, com um rosto extremamente vermelho e ele nem estava bêbado ainda. - Desculpe, padr- ex-padre - os erros ao se dirigir ao outro eram completamente propositais. - É só que eu nunca vi um padre... menos ainda um que foi padre e desistiu do celibato. Estou curioso se vocês são criados em forminhas pra não desviar do caminho, sabe? Desde que nascem? Ou será que têm mais liberdade?

Giulio engoliu o licor finalmente com um sorriso sem graça, e pigarreou para limpar a garganta ao se voltar para o outro cliente que, a despeito dos desconfortos propositais, ainda parecia interessante.

- Não, eu não era virgem. - Giulio respondeu, com o tom de voz talvez mais baixo do que o costumeiro, e Jade até abriu um sorriso mais interessante.

- Hmmmm, experiências no seminário? - Jade perguntou, estendendo o copo já vazio na direção de Otheo. - Sirva mais, Theo, sim?

- Não, não, antes de entrar para o seminário. Eu só fui para o seminário no final do colegial, eu... tive experiências com outras garotas antes disso...

- Ahhhh! Então está explicado porque decidiu se tornar celibatário! - Jade fez um gesto amplo com a mão. - Não é surpresa que tenha se decepcionado com uma mulher. Mas se tivesse me conhecido, teríamos dado outro rumo para a sua carreira, habeeb.

Giulio até riu sem graça do avanço dele, mas depois de tomar mais do licor, outra coisa lhe deixou mais interessado.

- "Habeeb"? Você fala árabe? - ele perguntou, até se virando um pouco mais na direção alheia.

Otheo

O barman podia bem ser conversador, mas certamente não era besta para cair naquela conversa inocente de Jade, afinal, ele tinha escolhido as perguntas mais provocadoras, e continuava chamando Giulio de “padre”, o que ia muito além da curiosidade. Ele estava mesmo querendo dar uma chacoalhada nos dois. Ou queria os dois o chacoalhassem, isso veria ao longo da noite. E definitivamente não tinha dinheiro e nem pagaria por isso. Supunha que Giulio não aprovaria também.

A resposta de Giulio, porém, lhe deixou com a curiosidade atiçada. Tinha ouvido a experiência dele de beber no seminário, mas essa conversa cabeluda das ex-namoradas ainda não. Estava em um misto de quem queria cortar a conversa e quem queria ouvir mais. Serviu Jade porque era seu trabalho, mas o copo de Giulio não, para evitar que ele bebesse demais.

- Não difame as moças assim, Jade. Não é porque você não gosta delas, que a experiência do Giulio foi traumatizante. Já dormi com mulheres maravil- - Otheo começou, então parando aos poucos e enchendo o copo para si mesmo, virando-o em um gole para não falar mais besteira.

Ao menos a palavra “habeeb” serviu de distração para Giulio. Sabia que o namorado adorava uma boa conversa sobre culturas diferentes, e certamente Jade teria algo para contar ali. Mas no fundo de sua alma, esperava que a curiosidade de Giulio fosse só curiosidade e não algum tipo errado de modo e se apaixonar no qual ele caía de amores por qualquer pessoa excepcionalmente diferente do normal de Cerise. Jade definitivamente fugia aos padrões.

- Não dê corda pra ele...! – alertou, com carinho, esperando que o namorado lhe ouvisse.

Jade/Giulio

A tentativa de Otheo de não abastecer o copo de Giulio não passou despercebida para Jade, e ele só precisou que o moreno ficasse interessado na conversa para trocar os copos, pegando o de Giulio para si e deixando o cheio na mira do ex-padre.

- Não me entenda mal, eu gosto de mulheres, mas gosto mais de parecer com elas do que de dormir com elas. - Jade comentou, enquanto Giulio pegava o copo da bebida para virar também, numa reação um tanto sem graça quando Otheo quase desatou a falar que já tinha estado com muitas mulheres maravilhosas. E a reação do ex-padre só deixou Jade ainda mais atiçado. Só que outra coisa tinha chamado a atenção de Giulio em seu discurso e ele abriu um sorriso largo, estendendo de novo o copinho vazio para Otheo. - Mais licor, Theo?

Esperou que ele abastecesse para beber um pouco só e esperar a oportunidade de trocar de novo com o de Giulio que já estava vazio.

- Eu não estou... desculpe se fui inconveniente. - Giulio se adiantou em responder quando Otheo disse para não dar corda para o prostituto ao seu lado.

- Não foi inconveniente de modo algum. - Jade estendeu a mão em cima da de Giulio, segurando-a com delicadeza, e o italiano sentiu o rosto queimar um pouco com o toque inesperado.

- Er- certo. - Giulio afastou a mão debaixo da dele para tomar mais da bebida mas viu que o copo estava vazio.

- E sim, eu falo árabe, finlandês, alemão, polonês, romeno, ucraniano... coisas que se aprende num bordel cheio de meninas traficadas, habeeb. - Jade deu um sorriso largo, conseguindo trocar o copo de novo com o de Giulio que ficou muito interessado na conversa. - Mas árabe é minha língua mãe, eu fui traficado do Egito quando tinha menos de dez anos.

Giulio até levou o copo à boca para beber, mas parou no caminho, surpreso com a facilidade com que ele tinha comentado aquilo.

- Ah, eu... sinto muito por... comentar.

- Não se preocupe, habeeb, não foi sua culpa, hm? E eu não sinto nada por estar aqui. - ele deu um sorriso largo e se inclinou exageradamente na direção de Giulio, a ponta dos dedos deslizando pelas costas da mão do outro. - Mas se estiver se sentindo muito ruim... pode sempre compensar...

Otheo

Otheo podia estar focado na conversa que fosse, mas tinha muitos anos de barman para não perceber Jade mexendo com os copos com o canto do olho. Até se perguntou o que era que ele estava fazendo, mas bastou Giulio levar o licor a boca, estreitou os olhos para o prostituto, ordenando silenciosamente um “não faça de novo”. Até porque seria fácil de detectar mais uma vez, afinal, Anaisa era um licor cor de rosa, e não estava voluntariamente servindo Giulio.

Colocou mais bebida no copo de Jade, apenas porque era o que mandava a profissão. Porém tinha notado que seu comportamento um tanto exagerado tinha chateado Giulio. Não podia impedir o homem de conversar, afinal. Suspirou longamente, e coçou a nuca por um instante.

- Não está sendo inconveniente, Giulio... – respondeu compreensivo, sabendo que se adicionasse qualquer “mas” soaria mais como uma mãe do que um namorado preocupado se o outro estava caindo na teia de uma aranha muito bem adaptada.

Então notou que mais uma vez, quando Jade estava distraindo Giulio com a conversa sobre línguas, que o copo foi trocado. Suspirou longamente, pensando que alguma hora Giulio teria que perceber. Mas ao contrário de suas expectativas, novamente ele pegou o copo. Se apressou em tirar dele, mas com sorte ele parou antes de beber, o que facilitou bastante seu trabalho. Com a outra mão, beliscou a mão de Jade, tirando-a de cima da do namorado.

- Eu estou vendo você sentir algo. Diversão, em provocar o Giulio, e em trocar o copo dele com o seu na minha cara. – Otheo comentou em um tom compreensivo, mas repreendedor. – Mas você mencionar o bordel me atiçou a curiosidade, Jade... por que trazer clientes pro Mary Stigmata? O bordel onde você trabalha é bem luxuoso, não é? Nada contra... é só que eu notei que além de você, tem algumas profissionais que fazem aqui de ponto. E convenhamos, tem lugar mais luxuoso para alguém que fala árabe, finlandês, alemão, polonês... e se veste com a sua elegância. – Otheo então trocou os copos sobre a bancada, colocando dois copos diferentes para Jade e Giulio, deixando Jade com uma tacinha e Giulio com um copo de dose, colocando ao menos um pouco mais de licor pros dois.

Jade/Giulio

A ideia de Jade trocar o copo com Giulio até deu certo uma vez, mas Otheo foi mais rápido em perceber as suas intenções em manter o ex-padre bêbado, queria mesmo ver o que ele faria se estivesse sob o efeito do álcool. Jade fez uma falsa careta de dor com o beliscão que recebeu, junto à repreensão do barman, que nem deu tempo para avaliar mais a expressão muito constrangida de Giulio com a sua insinuação.

- Aiii, Theo, não precisa ficar violento. - ele respondeu num tom de voz afinado, embora não costumasse manter o tom feminino, e acariciou a mão como se estivesse mesmo dolorida. - E o que quer que eu faça quando você não dá bebida para o seu namorado aqui? Eu tenho que ser bonzinho e compartilhar, não é, Giulio? Ou você anda precisando do Theo regulando suas bebidas? Você não tem problema com alcoolismo, tem?

- Não, eu não tenho. - Giulio respondeu, mais tranquilo agora que Jade tinha retornado a própria postura mais afastado. - Bom, eu não sei de que jeito eu poderia compensar…

Jade não teve tempo de sorrir satisfeito com a disposição do padre e até Giulio se sentiu embaraçado de novo quando Otheo foi bem mais enfático em dizer que ele não precisava compensar de jeito nenhum, quase se debruçando no balcão entre os dois para impedir outra aproximação inconveniente de Jade.

O prostituto foi obrigado apenas a rir da situação, especialmente porque era engraçado ver Otheo assim, tão arriado por outro cara. Ele pegou o copo novo e bebeu um pouco, dando de ombros para a dúvida do barman sobre levar os clientes até ali.

- Bom, no meu caso, depende muito dos clientes. Tem alguns que gostam de algo diferente, da música, do ambiente, e eu gosto do ambiente do seu bar, Theo. Mas como você mesmo disse, hoje o bordel e o bar são lugares de luxo, caros, às vezes os clientes não podem bancar todos os drinks da noite. E até eu tenho pena de um ou dois clientes bonzinhos pra forçá-los a pagar uma taça de merlot que custa quase metade da minha hora. Eu não sou assim tão desprezível para levar um cliente à falência. - Jade respondeu. - Além do quê, preciso que eles ganhem mais dinheiro e voltem mais vezes com pares de louboutin. - ele tomou outro gole da bebida e se colocou de frente para Giulio de novo, inclinando o corpo mais uma vez para poder apoiar a mão na perna de Giulio, já que ficava um pouco mais longe do alcance de Otheo do outro lado do balcão. - Mas então, estávamos falando sobre como pode me compensar? Por que não começa me contando o que te atraiu nesse pecado esculpido em ébano aqui? Se for só aparência, eu posso competir.

Otheo

Certamente não deveria precisar regular a bebida de Giulio. Mas Jade não sabia como a bebida afetava o namorado, e Giulio também não tinha essa noção. Mas a contragosto serviu mais um drink para os dois, dessa vez em um copo novo. E só tornaria a servir Giulio se ele pedisse. Agora ficaria mais esperto sobre Jade.

Só se perguntava se suas intromissões estavam incomodando Giulio, afinal, sabia que ele gostava de conversar com gente diferente, e honestamente, o círculo social dele podia ser expandido para além do seu agora que ele não era mais padre. Queria tomar conta dele mas não monopolizar a vida dele. Ou queria? Talvez devesse relaxar.

Suspirou conformado com Jade enquanto ele falava mais sobre sua escolha de ir ao bar. Ficava feliz em ser um local arrumado e acessível para boa parte da população de Paris. Poderia não ser luxuoso demais, ainda que fosse famoso, mas era um lugar honesto, e ainda bem que todos conseguiam reconhecer isso. A resposta pôs um sorriso no rosto de Otheo.

Colocou mais um pouco de licor para si, e então, estava tomando quando viu a mão na perna de Giulio, lhe obrigando a olhar para Jade, até que ouviu a pergunta em si. Já estava abrindo a boca para reclamar, mas fechou a mesma e colocou o copinho no balcão.

- É um ótimo jeito de compensar, ein? – Otheo falou com convicção, como se há dois segundos atrás não tivesse dito que não precisava compensar nada. – E eu tenho mais que aparência ao meu favor, Jade. Assim como você, claro, mas não dá pra lhe conhecer tanto assim em uma única noite, então sigo na dianteira.

Jade/Giulio

A pergunta pontual de Jade fez até com que Otheo esquecesse de reclamar da mão que ele tinha pousado na perna de Giulio. E o ex-padre até ficou levemente constrangido com o toque, principalmente porque Jade passeava com a ponta dos dedos sobre a sua calça, para cima e para baixo, de um jeito que até pareceria distraído, mas que era bem insinuador também. Ele pegou o copo com a bebida para tomar todo de uma vez sem ao menos perceber que o tinha feito.

- Se você não ficasse aqui me interrompendo o tempo todo, eu teria mais do que tempo suficiente para conhecer o Giulio. - Jade sorriu, pegando o copo para beber um pouco mais, notando facilmente como a pergunta direta sobre Otheo e a confirmação do barman que era um ótimo jeito de compensar tinha deixado o ex-padre mais constrangido. - Mais bebida, Giulio? Acho que ia lhe fazer bem agora pra se livrar da situação de embaraço, hm?

- Ah, eu… aceito. - Giulio deu uma risada sem graça, esperando que Otheo servisse a bebida de novo.

- Então, onde estávamos? O que mais te atrai no Th-

Jade só parou o questionamento no meio quando o ajudante de Otheo apareceu muito alvoroçado para requisitar a ajuda do chefe em algum problema em que Jade não prestou a menor atenção. Na verdade, com a interrupção mais que conveniente, e a aparição de Giulio ao ser mencionado naquele início de noite, Jade sorriu largamente para Otheo, levantando o copo de bebida na direção dele antes dele ser forçadamente arrastado.

- Alhamdulillah, Theo. - Jade se despediu dele e se voltou para Giulio. - Mais uma vez: mate a minha curiosidade Giulio. Especialmente agora que estamos a sós.

Giulio não hesitou em virar o outro copo de licor, sentia o corpo já um tanto quente, e das vezes em que tinha bebido, era até uma sensação agradável. E dava um pouco mais de liberdade também, mas ainda sentiu ficar sem jeito com a pergunta direta de Jade, pensando nas palavras que usar e acabando por sorrir um pouco ao olhar para o copo vazio. Ao menos Jade não estava inclinado em sua direção, nem lhe tocando, o que parecia mais confortável.

- É difícil dizer o que se gosta numa pessoa, não é? Acontece de um jeito que a pessoa nem percebe…

- Por que não me diz como aconteceu então? Pra ser sincero, eu não tenho muita experiência em gostar de pessoas. - Jade comentou, e embora fosse um sorriso muito entretido, ele estava sendo sincero.

- Otheo foi… diferente. Em muitos aspectos na minha vida de padre. Ele me ensinou muitas coisas, e não teve medo de se aproximar, nem de investir em “nós” quando sentiu que era pra dar certo. Foi ousado. - Giulio deu uma risada breve, e se distraiu com o copo vazio debaixo dos dedos, sem nem perceber quando continuou falando, talvez um pouco demais. - Eu gosto do jeito que ele conversa e fala sobre tudo, como é sincero e mesmo quando tenta esconder alguma coisa, dá com a língua nos dentes no meio do caminho. E como ele é real… sabe? Consigo mesmo, com o que ele sente, e de colocar isso pra fora, sem medo de errar ou de receber uma resposta que não quer. É muito diferente do que eu vivi, e do que eu decidi para mim mesmo. E é um tipo de atitude que eu admiro, e que aprendi a apreciar também. É quase ironia que a pessoa que me ensinou a ser verdadeiro consigo mesmo tenha sido um pagão que estava de ressaca no meu jardim na Igreja, enquanto eu já conheci tantas fachadas falsas na Igreja.

Jade deixou um sorriso satisfeito escapar, pegando o próprio copo e derrubando um pouco do licor no de Giulio, já que Otheo ainda não tinha voltado.

- Ora, ora, você tem um ótimo jeito de explicar o “gostar” de alguém, Giulio. - ele sorriu para o outro. - Gosto de você como ex-padre, se foi assim que o Theo te ajudou a ser. Acho que podemos ser ótimos amigos.

Giulio nem se preocupou em beber o drink que Jade tinha dividido com ele, e sorriu amistoso, talvez empolgado até demais com a conversa com o moreno bonito ao seu lado. E um pouco afetado também, as maçãs do rosto vermelhas pelo álcool.

- Você disse outra coisa em árabe para o Otheo, não foi? O que era?

- “Alhamdulillah”? - Jade perguntou, recebendo um aceno positivo de Giulio. Ele riu, tomando o resto do seu drink ao avistar Otheo voltando apressado. - “Graças a Allah”, os deuses estão contribuindo para o desenrolar da nossa conversa e intimidade também, Giulio.

Otheo

Um pouco a contragosto, Otheo serviu Giulio de mais uma dose, apenas porque estava muito mais interessado em saber o que o namorado pensava sobre ele. Não que não pudesse perguntar diretamente, claro, mas havia algo de interessante em saber como ele falaria de si para outra pessoa. Só que enquanto estava no aguardo, ouviu Joel lhe chamar e só não virou para ele com cara de sr. Simpático como era sempre.

- Guardem um pouco da conversa para quando eu voltar. – Otheo falou, olhando direto para Jade, apontando os dedos em V de seus olhos para os dele em sinal de que estava de olho.

Até tentou resolver o problema com Joel, uma situação simples de erro de registro de um dos garçons novos, mas sua mente estava ali no outro lado do balcão onde Jade e Giulio conversavam e trocavam sorrisos, e Otheo queria ser pelo menos fluente em leitura labial, mas infelizmente só o que tinha conseguido captar do mexer das bocas era “u” e “o” e vários bicos. Mas assim que foi liberado e a cliente pagante tinha se sentido satisfeita com o arranjo do caixa, voltou quase em um pulo para onde o par estava.

- Então, o que foi que eu perdi? Eu pude ouvir dali de longe que o Giulio gosta de mim porque eu sou um homem muito bonito e de bom papo que gosta demais dele, ou errei por longe? – tentou disfarçar a própria curiosidade com uma piada, mas logo notou que Giulio estava com as bochechas vermelhas. – Como está se sentindo, Giulio? – perguntou, supondo que já era tarde demais para pedir que ele não ficasse bêbado.

Jade/Giulio

- Eu acredito num só Deus, mas, talvez ele tenha me colocado no seu caminho e vice-e-versa também. - Giulio sorriu, muito mais solto do que de costume, e foi o tempo de Otheo voltar para o lugar anterior, o que lhe trouxe um sorriso largo quase automático ao rosto, encarando o namorado de volta.

- Segredo de confessionário, Theo, não podemos falar essas coisas. - Jade disse, estendendo o copo para que Otheo lhe servisse mais do licor. - Giulio está ótimo, estamos inclusive aprofundando nossa amizade ainda mais, não é, habeeb?

- Eu gosto do Jade, ele é interessante. - Giulio também estendeu o copo vazio para Otheo, esperando ser servido. - Ele fala árabe, Otheo. E é muito bonito e elegante.

- Tem certeza que vocês tem um relacionamento exclusivo?! - Jade sorriu muito satisfeito com os elogios soltos de Giulio, notando que ele tinha tomado mais uma dose toda de licor de uma só vez, o rosto ficando ainda mais corado. - Eu não posso nem tirar uma casquinha?

- Desculpe... - Giulio deixou um sorriso fraco escapar aos lábios, segurando o copo com as duas mãos e encarando Otheo muito longamente. Ele apoiou o rosto numa das mãos e o cotovelo no balcão. - Você ainda vai ficar o resto da noite aqui, não é, Otheo? - ele perguntou, estendendo o corpo e pedindo para ser servido por mais uma dose da bebida doce, mal prestando atenção na resposta do namorado. Ele tomou a bebida toda de uma vez, mesmo contra as indicações de Otheo, e sob o olhar muito curioso de Jade. - Hmm... eu realmente queria dormir com você agora...

Mesmo o tom sonolento e embriagado de Giulio não tornou as palavras dele menos compreensíveis para Jade, que, no meio do gole da bebida, engasgou no mesmo instante, sendo pego de surpresa de um jeito que ele certamente não estava acostumado. Até achou que podia ter ouvido errado, mas a reação de Otheo só confirmou as palavras exageradamente sinceras de Giulio.

- Mon, mon...! Você fica bastante sincero com um pouco de álcool, hm?? O Theo tem que trabalhar, mas eu posso lhe fazer companhia, habeeb!

Otheo

Giulio demonstrava um comportamento bem “felizinho” ao lado de Jade, o que já denunciava que ele tinha passado da conta do álcool. Mas como não pensar que ele era adorável com aquele sorriso no rosto, lhe encarando. Até dava para perdoar todos os elogios feitos ao prostituto. Mas certamente não estava interessado nas tentativas do outro de flertar com Giulio.

- Plena certeza, Jade. Aqui é entre eu e Giulio, Giulio e eu- - quase parou no meio do que estava falando enquanto tentava alcançar o namorado, que estava virando mais um copinho de licor como se não fosse nada. Abriu a boca para falar algo enquanto Giulio pedia mais um pouco da bebida, mas nem pensou em servi-lo mais álcool. Pior ainda quando ele foi brutalmente honesto sobre querer dormir com Otheo naquele momento. – G-Giulio!

Otheo quase engasgou, surpreso de verdade pela honestidade do outro com a bebida, embora Jade tenha parecido tão surpreso quanto. Prontamente, Otheo pegou o copinho onde estava servindo as bebidas do namorado e arrastou para trás do balcão, olhando ainda um pouco desnorteado.

- Ahh, não se preocupe, Jade. Eu posso tirar alguns instantes para levar o Giulio para casa. Giulio, vou fechar sua conta. – Otheo respondeu, quebrando a surpresa com um sorriso desconcertado, porque até parecia que o namorado estava para lá de bêbado, e não era o caso. – Joel! Eu vou ter que dar uma saidinha... e você, Jade... – o moreno então puxou o outro barman pelo avental, para onde os três estavam, colocando-o de frente a Jade. – Aqui. Lagniappe. Por conta da casa.

- A bebida ou eu??? – Joel exclamou, apontando para si mesmo em um leve pânico.

Jade/Giulio

As palavras sinceras de um Giulio embriagado não surpreenderam só Jade, mas Otheo também, e antes que o prostituto pudesse fazer mais algum comentário ou avanço no ex-padre, Otheo se colocou entre os dois, dizendo que levaria Giulio em casa.

- Mas... eu queria beber mais. - Giulio fez uma expressão um pouco desapontada quando Otheo afastou o copo e disse que ia fechar a conta. - Você vai ficar aqui, eu queria ficar também...

- Você achou uma joia raríssima, Theo, melhor até do que os meus Louboutins mais caros! Como é egoísta de não compartilhar. - Jade reclamou, quando Otheo lhe empurrou Joel para servir a bebida por conta da casa. O prostituto só sorriu para o atendente com o qual já estava acostumado, inclinando-se na direção dele e puxando-o pelo avental. - Eu entendi que são os dois. Alguma reclamação, Joel, mon cher? - ele levantou o dedo até o queixo de Joel, virando-o em sua direção enquanto sua nova diversão ia embora com Otheo para subirem as escadas até o apartamento.

Giulio seguiu com Otheo para o primeiro andar, e o caminho todo, precisou da ajuda do namorado para chegar ainda em pé no apartamento. Quando já estavam na sala do apartamento que Otheo lhe indicou o sofá para sentar enquanto lhe buscava água para o estado embriagado, ele só escolheu se aproximar do namorado por trás enquanto ele colocava água no copo, passando os braços pelo tronco e os dedos no abdômen, enquanto apoiava o queixo nas costas dele.

- Hmm... você tem mesmo que voltar pra lá, Otheo? - ele desceu as mãos pelo corpo alheio, alcançando o cós da bermuda, beijando as costas dele enquanto pressionava o corpo contra o do moreno.

Otheo

- Não vou ficar aqui, vamos os dois para casa. - Otheo comentou, dando a volta no balcão para ir até Giulio e ajudá-lo caso estivesse tonto demais para ir sozinho. - E tem razão, Jade. O Giulio é tipo… sei lá… um milagre! - riu, um pouco mais espirituoso agora que tinha colocado Joel na linha de frente como sacrifício.

- Milagre??! Chefe! Milagre vai ser eu sobreviver ao monsieur aqui! Você me vendeu!! - Joel reclamou fazendo o bico de quem tinha ficado verdadeiramente indignado com a atitude do outro. Então olhou para Jade, porque teve o queixo virado na direção do outro, quase se arrepiando do toque suave. O barman colocou um copo com força no balcão e encheu de licor, gradualmente, a expressão frustrada dando lugar a uma mais triste. - Eu tenho uma reclamação… eu nem sei como sobrevivo trabalhando aqui… eu nem bebo!

Otheo enquanto isso guiou Giulio para o apartamento, cuidando para que ele chegasse e conseguisse sentar, e também lhe arrumando um copo de água para começar a trabalhar na sobriedade. O pobre teria uma bela ressaca depois. Só que enquanto buscava a água, sentiu Giulio agarrado em sua cintura, chegando por trás e lhe arrancando um sorriso inconsciente. O beijo em seu ombro e os dedos brincando na bermuda lhe fizeram olhar para trás por cima do ombro, bastante interessado na oferta de Giulio, se ele não estivesse tão bêbado.

- Bom… eu posso não voltar hoje… acho que o bar está bem servido com o Joel de barman e o Jade de entretenimento… - Otheo respondeu, escapando brevemente do abraço de Giulio para girar na direção dele, estendendo-lhe o copo d’água e lhe dando um beijo nos lábios. - Tenho a noite toda para lhe ajudar… mas primeiro, beba um gole de água. Quanto mais sóbrio, melhor vai ser dormir comigo… não era isso que você queria?

O francês usou a chantagem de leve para motivar o namorado a se cuidar, afinal, bêbado demais não poderiam aproveitar de verdade. A não ser que os planos da noite de Giulio fossem se sacudir o suficiente para ficar enjoado. Nada contra. Estaria ali para tirar o cabelo dele da testa também. Mas bem preferia dormir com ele, como a primeira proposta. Só o resto da noite diria.

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