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[Drive] Hada Madrinha [Isaac; Didier; Ange] - Lil - 09-22-2021

Didier

Didier não era um cara que sentia remorso. Quase nunca. Até porque estava acostumado a explodir e abandonar as raivas. Porém, de vez em quando, quando se pegava pensando como era bom finalmente ter um relacionamento com Renaud, sentia remorso. Isso porque havia abusado e chutado o pobre Isaac quando ele teve seu último relacionamento apenas para se livrar das próprias irritações com Renaud. E ainda sim, depois de tudo, ele foi uma das pessoas que mais ajudou com que Didier e Renaud ficassem juntos. Em algum momento de sua vida, sentia que deveria devolver o favor ao ex-secretário do conselho, e honestamente, porque não perguntar a Renaud se poderia ou não, já que eles eram amigos ainda mais próximos? A resposta do namorado foi positiva, mais ou menos.

O plano que Didier colocou na cabeça foi o seguinte: arrumar um encontro com alguém legal para Isaac. Não podia ser uma pessoa interesseira, nem chata, nem almofadinhas (porque Didier e Renaud não aguentariam um encontro duplo), e não podia ser um menor de idade (então todos os pollitos estavam cortados), tinha que ser minimamente resistente considerando como Isaac era na cama, e de personalidade? Uma princesa? Isaac certamente fazia o papel de príncipe.

Mas achar uma criatura ideal assim só se alugasse uns filmes Disney ou tirasse Amélie Poulain da cartola. Passou quase uma semana pensando em prospectos, e ligou para alguns conhecidos, a ponto de até ligar para ex-companheiros dos Garotos Perdidos... e aí, quando cedeu a pressão de suas relações interpessoais limitadas, lembrou de um dos Garotos Perdidos que poderia se encaixar naquele padrão. Ou melhor, talvez não. Mas estava apertado de paciência e seu plano precisava andar.

Como fazer Isaac concordar com a ideia de ter um encontro às cegas com um ex-delinquente desconhecido? Não fazendo. Na verdade, com a ajuda de Renaud, Didier combinou um dia para os três se encontrarem e conversarem em um bistrô e matarem saudade, apesar de não ter tanto tempo assim desde a última vez que se viram. Em outra ligação, depois de passar quase 2 horas no telefone atualizando-o de todas as notícias de sua vida, avisou ao prospecto candidato a namorado de Isaac que estava marcando um encontro para ele às escuras, e que era um sujeito muito bonito, bom, gentil, cavalheiro e educado. Por que de repente, e por que uma proposta tão boa? Karma positivo? Afinal, não era de Ange que o chamavam?

No dia marcado, Ange foi até o bistrô com seu melhor vestido de passeio vermelho – porque bem tinha lido em uma revista feminina que vermelho era uma ótima cor para chamar a atenção em um primeiro encontro – e usando umas botinhas pretas delicadas, que estavam um pouco lascadas do tanto que tinha usado sem dinheiro para comprar novas. Para não parecer muito desesperado por um namorado, amarrou os cabelos castanhos em um coque propositalmente bagunçado, marcando bem a franja, e tentou deixar a maquiagem bem natural, rezando para que Didier tivesse lembrado de dizer que gostava de se travestir. Mas... se era um conhecido da Mama, então, não deveria haver muito problema?

Agora restava esperar um belo homem de seus vinte e poucos, cabelos pretos e uma testa bem marcada entrar naquele restaurante. Enquanto isso, muito longe de pisar naquele lugar, Didier soprava as unhas na manicure tardia que fazia, esperando que seu plano tivesse dado certo.

Isaac

Isaac odiava se atrasar, não importava o compromisso. Por isso ele tinha uma agenda muito bem ajustada para não chegar atrasado em nenhum lugar, nem que houvesse imprevistos no trânsito ou com acidentes. Mas aquele dia parecia estar circulando em torno de acelerar o seu relógio: problemas com o sistema de submissão de documentos para um evento, embora fosse só o primeiro dia para inscrição, era o dia em que ele tinha reservado para se inscrever; pedidos de suspensão a mais em St. Clavier para encaminhar para o conselho disciplinar, que ele tinha deixado sob os cuidados de Yure - em quem estava começando a depender mais nos últimos tempos; problema no encanamento do dormitório, que tinha rendido uma visita de funcionários terceirizados que estavam bloqueando o caminho e lhe fizeram apontar mais de uma vez para terem cuidado com a sujeira nas paredes brancas. Os atrasos, pouco a pouco, lhe fizeram até pedir um táxi para ir para a delegacia, e o táxi demorou, e o trânsito atrapalhou, e ele chegou em cima do horário de trabalho, quando normalmente chegava trinta minutos antes. E no fim do dia, ainda tinha confirmado uma saída com Didier e Renaud, o que lhe obrigava a sair bem na hora do estágio para não se atrasar em encontrar com os amigos.

Não que Didier e Renaud fossem os reis da pontualidade, e não que eles fossem se preocupar se chegasse atrasado. Mas Isaac odiava se atrasar de todo modo, e mesmo com todos os esforços, chegou ao bistrô para encontrar com os outros dois já no meio da noite, especificamente três minutos além do horário marcado. Os três minutos a mais no seu relógio lhe deixaram com a testa ainda mais franzida na expressão fechada. E não bastasse a indignação com o atraso, não avistou Didier e Renaud em nenhuma das mesas, dispensando a ajuda de uma garçonete receosa para a sua expressão quando ela ia lhe perguntar sobre a mesa que queria.

Isaac deu uma segunda olhada ao redor e pegou o celular para ligar para Didier, que atendeu depois de um par de toques.

- Onde você está? - perguntou, sem nem cumprimentar com um breve "alô". - Estou atrasado.

Didier

A cara de Isaac provavelmente estaria irritada o suficiente para assustar os garçons e os clientes, mas Didier sabia que não intimidaria seu contato, afinal, para um delinquente que havia sido criado nas mesmas ruas que Renaud tinha brigado, a cara feia de Isaac deveria ser de fome. Mas claro que ele ficaria bem bravo, e não foi surpresa alguma quando Didier recebeu uma ligação, atendendo sem ouvir sequer um “alô”.

- Zac~ Hola! Atrasado?? Não pode ser. - Didier exclamou falsamente incomodado, mas sabia que qualquer sarcasmo passaria por cima da cabeleira bem arrumada do moreno. - Não se preocupe por três… quatro minutos de atraso, si? Até porque nem eu e nem Renaud vamos aparecer. - confessou prontamente, e então deu uma assoprada nas unhas que estavam secando. - Mas antes que vá embora, veja, eu lhe deixei com um pequeno problema para resolver, então… escucha con atención.

Nesse meio tempo, claro, Ange, o suposto contato de vestido vermelho estava sentado à mesa e já havia identificado o homem bonito da testa à mostra na entrada do restaurante com o celular na mão. O garoto levantou a mão e acenou algumas vezes, tentando chamar a atenção do moreno, que parecia muito concentrado em ouvir alguma notícia muito ruim, certamente, com aquela cara. Isso ou já tinha lhe visto, e provavelmente se decepcionado com seu suposto encontro às escuras.

- Você deve estar vendo uma pessoa lhe cumprimentando, ou quem sabe alguém vai vir até você. O nome é Ange, é uma pessoa do meu circulo social e… pensé que seria bom você ter um encontro, para desestressar do dia a dia. - Didier comentou, se jogando na cama e balançando as pernas como aquela fosse sua maior diversão o dia inteiro. - Então eu disse a Ange que você estabas buscando um romance, que era muy gentil e que seria ótimo nesse jantar, então… por favor, não me decepcione, tá, Zac~? Mama está pensando no bem de vocês dois. - Didier teve que segurar o próprio riso, porque embora admitisse que queria mesmo fazer algo bom para Isaac, aquilo também era uma bela pegadinha, pelos velhos tempos. - Ah, Ange sempre foi meio… sensível? No seas grosero. E se quiser fazer alguma pergunta… pergunte para sua dupla de jantar. Tenha um bom encontro, bebê~

Isaac

Isaac ouviu a voz conhecida do outro lado e franziu mais o cenho irritado consigo mesmo quando Didier apontou que ele estava atrasado mesmo e não podia estar acontecendo.

- Tive um imprevisto na delegacia. Onde vocês estão? - ele voltou a perguntar a parte importante, e foi bem em tempo de ouvir a resposta do outro lado de que as pessoas que tinham lhe convidado não iriam aparecer. Ele até arqueou mais as sobrancelhas em surpresa, e visível irritação. Tinha se esforçado tanto para chegar ali e não ter ninguém? - O que você disse?

O moreno respirou fundo por dois segundos, e já ia dar a volta nos calcanhares para sair do lugar, quando Didier disse que tinha um problema para que resolvesse. A única reação de Isaac foi levar uma mão à testa e massagear as têmporas, sem nem olhar ao redor, pensando que o que quer que fosse o problema, ele tinha se esforçado demais para nada. Mas Didier seguiu com a explicação e adicionou que alguém deveria estar lhe cumprimentando. Isaac ergueu o olhar ao redor de novo para perceber uma jovem de cabelos castanho claros longos, franja curta e vestido vermelho que acenava em sua direção. Nem devolveu o aceno, principalmente quando Didier disse que aquele era o "encontro" de Isaac.

- O que você disse? - a pergunta saiu uma segunda vez, com um tom notável de incredulidade, que só se acentuou quando Didier ainda reforçou para a tal "Ange" que ele estava procurando um romance. - O quê?! Eu não estou procurando romance nenhum Didier. Eu tenho coisas importantes pra resolver. Me atrasar para uma reunião que não existe não é uma delas.

Mas Didier não prestou atenção no que ele estava tentando dizer, e antes que pudesse reclamar mais sobre o loiro lhe tirar da sua rotina para um encontro às cegas, a ligação caiu do outro lado. O moreno respirou fundo, olhando a tela do celular, pensando em ligar de novo para reclamar. Mas sabia que não ia dar muito certo. Ele se virou para a jovem que estava sozinha à mesa, ainda olhando em sua direção, e certamente a boa educação lhe impedia de simplesmente sair dali e deixá-la sozinha. Seguiu até a mesa, parando de pé ao lado da garota de faces levemente coradas.

- Boa noite. Desculpe o atraso. Eu sou Isaac Lemont. - ele estendeu a mão na direção da garota para cumprimentá-la. - A senhorita é Ange?

Didier

Ange estava acenando, não queria se aproximar para atrapalhar a ligação do suposto homem de vinte e poucos com a testa bem marcada. E uma hora ele virou para si. E até teria ficado intimidado com a cara de poucos amigos dele, mas todos os seus amigos eram mau encarados, então apenas considerou que ele estava um pouco estressado e abriu um sorriso tímido, satisfeito que tinha sido notado pelo menos.

Claro que ficou um pouco nervoso porque pelo jeito que ele tinha desligado aquela ligação, ele não parecia estar em um humor para um encontro, mas tal como Didier tinha dito, como um belo gentleman, ele se aproximou da mesa parecendo pelo menos educado. Levantou as pressas, quase derrubando a cadeira atrás de si, e bateu o vestido vermelho para que não subisse demais.

- A-Ah! Sim! Não se preocupe pelo atraso... na verdade, eu que cheguei cedo demais...! – Ange respondeu, notando que o sujeito era um pouco bem mais alto que ele. Estendeu a mão de volta para apertar a de Isaac, tentando controlar a firmeza usual do aperto. Supunha que estava bem feminino naquela noite, mas ficou bem feliz por ser tratado por senhorita. Sentiu seu esforço válido. – Ange LaFleur. Eu sei que parece um nome artístico mas eu juro que é de batismo. – riu, mas no meio de um leve pânico por não saber o que dizer. – Está... tudo bem? Se estiver ocupado com o assunto da ligação... está tudo bem, eu sei que nem todo mundo tem tempo pra um encontro bobo, não é...? – Ange começou preocupado, mas a medida que falava, a perspectiva de perder o encontro foi lhe desanimando, a ponto de ficar bem evidente na postura dele.

Isaac

A jovem se levantou rápido para lhe cumprimentar de volta e quase derrubou a cadeira. Instintivamente, Isaac quase se aproximou para segurar o móvel, mas não foi preciso. Mesmo de pé, a menina parecia não ter nem a altura de Carbella, o rosto era delicado e ela era muito bonita, ainda se perguntou como é que a garota conhecia Didier, não parecia filha dele nem delinquente.

- Eu acredito. - Isaac respondeu sobre o nome que ela apontou que era artístico. - Está tudo bem.

Ele olhou para o celular quando ela falou do assunto da ligação e Isaac ainda olhou torto para o próprio aparelho móvel, colocando-o de volta ao bolso. Podia estar muito irritado com Didier, mas também não ia descontar a irritação na garota que certamente tinha sido tão enganada quanto ele.

- Não estou ocupado. Achei que ia encontrar com Didier e Renaud. - respondeu. - Eu tenho tempo para tudo, desde que esteja na minha agenda. Eu reservei o horário para o jantar, então, se não se importar, eu tenho tempo livre. O que Didier disse?

Isaac fez um aceno com a mão na direção da cadeira, para que ela se sentasse primeiro e para poder sentar de frente para ela em seguida.

Didier

Podia ver que o tal Isaac de fato era um tipo diferente de cara. Nenhum que tenha conhecido na vida teria ajudado com a cadeira, que para sua sorte, não caiu. Talvez ele tivesse um rosto intimidador - e observou-o atentamente mais perto agora quando ele fez cara feia para o celular - mas no todo parecia um sujeito de boa índole. Ou talvez Ange fosse fácil demais de conquistar, por conta de decepções anteriores.

Quando ele mencionou que pensou que encontraria Didier e Renaud, Ange levou a mão até o rosto e franziu a testa, se questionando se em algum momento a mama tinha dito que seria um encontro duplo, ou quem sabe tinha sido enganado quando se atualizou sobre as informações de Didier e Renaud serem namorados sérios e eles usavam Isaac para chamar pessoas para um sexo a quatro. Deveria ter deixado claro que não era muito sua praia. Só voltou a focar de fato na conversa quando ele questionou o que Didier tinha dito.

- Ah… disse que era um encontro às escuras… porque ele me ligou e conversa vai, conversa vem, eu disse que não tenho ninguém e você, no caso, no dia ele disse “meu amigo” também não… e ele disse que talvez fosse legal. Eu não tenho mesmo um encontro há muito tempo, haha! - acabou falando tudo de uma vez, um tanto nervoso logo em seguida que talvez tivesse compartilhado demais, e que fosse ofensivo para o sujeito. Já estava quase sentando na cadeira com o comando de Isaac quando se pôs de pé de novo. - M-mas não estou falando como se estivesse fazendo isso para ocupar o tempo, e-eu estou levando a sério…! Quer dizer… estou levando a sério em respeito a você, que veio aqui. Só não vou criar tantas expectativas, não se sinta pres-

Ange parou, e então sentou devagar na cadeira, suspirando longamente e cobrindo a boca com uma mão.

- Eu falo demais quando meus nervos atacam. Desculpa. - parou antes que ele se irritasse demais.

Isaac

Não foi tanta surpresa para Isaac quando Ange respondeu que Didier tinha marcado um encontro às escuras. Ele franziu o cenho de novo numa expressão fechada quase automática, mas não pela garota que tinha sido iludida, e sim pela atitude que já devia esperar vinda de Didier e Renaud querendo lhe pregar alguma peça.

- Eu não fazia id- Issac nem conseguiu terminar a sentença ao se sentar, quando a jovem, exasperada, se colocou de pé de novo, para deixar bem claro que não estava ali por mero impulso ou para ocupar o tempo vago, e que pretendia alguma coisa séria. O moreno só arqueou as sobrancelhas com o ímpeto dela e finalmente Ange se sentou, interrompendo a si mesma e cobrindo a boca com uma das mãos.

Só então, Isaac suavizou mais a expressão diante da menina que obviamente tinha ido ali com alguma expectativa e que parecia só uma jovem muito ingênua que, mais uma vez, não combinava em nada com Didier. Ela tinha tanta culpa daquele encontro quanto ele, e bom, estava solteiro mesmo, não via problema nenhum em ter um encontro com uma garota que era bonita e aparentemente adorável. A atitude de embaraço até lhe fez lembrar um pouco de Carbella quando tinham se conhecido.

- Não precisa se desculpar, está tudo bem. - Isaac fez um aceno com a mão para indicar aquilo, e embora estivesse inicialmente irritado com Didier e Renaud, não havia motivo para estragar o jantar e decepcionar Ange. - Eu nem imagino porque Didier e Renaud iriam querer me arrumar um encontro, não me dou bem em relacionamentos. Fiquei com uma namorada por quase um ano, e com meu último namorado por menos de um ano.

Ele parou de falar apenas ao avistar uma garçonete se aproximando para estender os cardápios aos dois e se colocar à disposição. Só agradeceu brevemente à mulher e voltou a atenção para o seu suposto encontro às escuras.

Didier

Até tinha imagino por um instante que Isaac Lemont estava enfadado por estar naquele encontro sem Didier e Renaud, o que era um pouco triste, mas depois de confirmar que estava levando o encontro a sério, ele pareceu suavizar a expressão intimidadora, e os olhos de Ange se abriram um pouco mais, surpreso que ele poderia parecer até bastante gentil dependendo do humor. Na verdade, ele já era bem bonito com a cara de quem queria bater em alguém, mas com a expressão séria e suave, até lhe dava mais a ideia que Didier tinha dito, que ele era um tipo de príncipe encantado rico e, no geral, estaria bem fora do seu alcance. Foi difícil não ficar completamente arrebatado pela expressão dele.

Ange sorriu quando foi perdoado pelo excesso de conversa, e ouviu atento enquanto Isaac falava de suas últimas empreitadas românticas. Até que não parecia ruim que ele tivesse relacionamentos de quase um ano. E menos ruim ainda que ele tinha confirmado que não se importava tanto se estava com uma moça ou um rapaz, o que lhe deixava numa posição confortável.

- Assim… talvez m- Didier ache que estou me metendo contando para você, mas ele gosta de você, sabe? Ele lhe elogiou muito no telefone. Talvez Didier queira que você encontre alguém, assim como ele encontrou Renaud? Ele é um pouco radical, mas cuida bem dos amigos. - Ange pensou, ainda achando estranho que Didier e Renaud tinham um nome que não eram Mama e Hellhound. Na verdade, em seus tempos de vadiagem, apesar de ter apanhado muito feio, foi majoritariamente bem cuidado por Didier, não tinha muito do que reclamar quando podia tanto contar com ele em uma briga, quanto chorar pitangas sobre nunca achar ninguém. Só nunca imaginou que eram próximos a ponto dele lhe considerar um prospecto namorado para um amigo tão bom partido. - Não que eu s-seja essa pessoa, claro! - então respirou fundo e olhou Isaac diretamente, com bastante confiança nas mãos cerradas a frente do corpo. - Mas eu acho que quem perde são seus ex, Isaac! Você parece ser uma pessoa boa, e eu confio no julgamento do Didier e na minha experiência. Não deveria ser motivo de orgulho, mas eu tombo fácil e não sou muito inteligente, então já tive alguns relacionamentos horríveis. Mas você é de longe um dos caras mais decentes com quem eu já saí! É bonito e é educado! Talvez seus ex não soubessem apreciar suas qualidades.

Não queria estar criticando os ex de Isaac e nem parecer superficial, mas era tarde demais considerando tudo que tinha dito. Só pegou o cardápio e se escondeu mais uma vez por trás dele, vendo um monte de nomes de comidas que tinha passado longe de comer durante a vida toda, porque eram caras. Mas até podia pagar alguns pratos naquele restaurante. Provavelmente uma recomendação de Didier por saber que não era exatamente rico.

- Eu ficaria feliz de lhe conhecer mais... - colocou, fazendo um bico leve por trás do cardápio, espiando por cima do papel.

Isaac

Isaac não olhou o cardápio mais do que dois minutos quando ergueu a cabeça para encarar Ange de novo com um olhar torto, quando a jovem disse que Didier se importava com ele e tinha lhe elogiado. Não que não acreditasse naquilo, mas se ele se importava tanto, podia lhe dar menos trabalho em St. Clavier e no Conselho Estudantil. Mas ele teve que dar o braço a torcer e suspirar, voltando à expressão séria usual quando a garota disse que ele cuidava bem dos amigos.

- Não o chamam de "mama" sem motivo. - Isaac respondeu. - Mas ele poderia usar metade dessa disposição para fazer o trabalho dele.

O tempo de Isaac voltar a olhar o cardápio e procurar por alguma boa opção de entrada, prato principal e bebida que acompanhasse bem a refeição foi o suficiente para pegar parte do resto da frase dele sobre não ser "essa" pessoa, como Renaud era para Didier.

- Você certamente não é o Renaud. - a resposta de Isaac veio ainda de um olhar breve para a jovem, só para confirmar que não tinha nada de Renaud ali. Mas Ange ainda tomou um bom tempo para lhe apontar as poucas qualidades que tinha visto naquele breve momento, até se esconder atrás do cardápio de modo constrangido de novo, o que colocou outra expressão interessada no rosto costumeiramente sério de Isaac. - Eu sou uma boa pessoa. E educado. E bonito. E você não devia confiar no julgamento do Didier.

Enquanto Ange se escondia atrás do cardápio para reforçar como gostaria de lhe conhecer, Isaac deixou o próprio cardápio de lado para fazer um sinal para chamar a atendente.

- Parece bom pra mim. - ele concordou sobre se conhecerem mais, e a atendente chegou para que ele pedisse uma entrada para os dois e bebidas, perguntando antes à garota o que ela preferia do pedido.

Didier

Até se surpreendeu que Isaac soubesse que o apelido de Didier era mama, porque pelo que tinha entendido da conversa com Didier, Isaac era um sujeito decente e não se envolvia em brigas. Mas supunha que o jeito maternal e cuidadoso de Didier ultrapassava até mesmo seu instinto como líder de gangue. Mas ele tinha dito que não precisava mais chamá-lo de Mama, então era melhor não chamar? Acabou até apertando o lábio.

- Ah, ele trabalha? - perguntou genuinamente, se questionando que tipo de emprego Didier teria naquele momento. Não era nenhuma ironia. Era só que sabia pelo menos que ele tinha dinheiro, porque ele estudava em St. Clavier, e lhe pareceu meio alienígena por um instante que um sujeito rico como ele trabalhasse. Aliás, e Isaac? Ele também era rico, de St. Clavier, não era? - Você também trabalha, Isaac? Junto do Didier? - era interessante até pensar que Didier trabalhava em algo honesto com um sujeito sério como Isaac.

Até se assustou um pouco com a lógica dele de pensar que uma pessoa assim como era para Didier seria alguém como Renaud. Talvez isso só ressaltasse que a Mama e o Hellhound eram bons um para o outro, ainda que os conhecesse de outra época. Mas claramente não era Renaud. Até olhou para si mesmo um instante, porque estava longe de ser forte como ele, ou bravo, e mesmo brigando não tinha metade da ferocidade.

Só que Isaac exaltando as próprias qualidades a seguir lhe surpreendeu mais ainda. Ele era bem honesto pelo visto. E isso não lhe incomodava, pelo contrário. A afirmação dele foi divertida, e dava para ver que ele tinha muita confiança em si mesmo. Acabou rindo sem perceber.

- Mas como não vou confiar no julgamento do Didier se você está dizendo que é tudo que ele disse que você é? Hahaha! - Ange acabou ficando mais aliviado que não precisava ficar tão tenso naquele jantar, e abriu um sorriso, fazendo suas escolhas também do cardápio depois de Isaac lhe questionar, os pratos mais baratos e que pelo menos sabia que não iam ser esquisitos de comer. Então agradeceu a atendente, e colocou as mãos na mesa. - Bom, eu pelo menos sei algumas coisas sobre você agora, e descobri uma nova. Que você é honesto e confiante! Se quiser saber alguma coisa sobre mim também, pode perguntar. - Ange falou com confiança, um sorriso satisfeito no rosto.

Isaac

- Ele finge que trabalha enquanto eu faço todo o serviço. - respondeu Isaac sobre o trabalho de Didier. - Ele é presidente do conselho estudantil de St. Clavier. Renaud é o vice, eu sou o secretário. O diretor de RP e o tesoureiro saíram com medo do Renaud, então eu faço o trabalho dos dois. E do Didier. Mas isso é só trabalho dentro da academia. Eu também trabalho meio período na delegacia, no arquivo.

A garçonete já tinha levado os pedidos dos dois, e Isaac se distraiu com a risada de Ange por conta de suas respostas muito diretas. As pessoas não costumavam ter muita paciência para as suas respostas objetivas, ou só achavam exageradamente sério. Fora Didier e Renaud que costumavam rir do seu jeito - como se fosse mesmo motivo de piada, embora Isaac raramente entendesse.

Pelo menos tinha que concordar que era bem honesto e confiante, dentro das suas capacidades. E quando ela sugeriu que podia perguntar algo sobre ela, Isaac já tinha algo em mente.

- Como você conheceu Didier? - embora Didier fosse bem feminino e gostasse de se portar daquele jeito, não era como se Isaac conhecesse muitos contatos dele fora da academia ou que possivelmente não tivessem cara de delinquente. Ange não estudava em St. Clavier, óbvio, e não parecia delinquente, o que reduzia suas opções de onde eles se conheciam a zero.

Didier

Acabou sorrindo quando ele explicou que trabalhava dentro do conselho estudantil com Didier e Renaud, porque esse claramente parecia um trabalho que nunca teve em sua escola. Na verdade, não sabia nem o que um conselho estudantil fazia exatamente, porque quando estudava, tinha certeza que ele não funcionava. Mas era engraçado imaginar Renaud e Didier em cargos almofadinhas, liderando os estudantes. Era um pulo engraçado dos dois liderando garotos briguentos de noite nas ruas. Mas ao menos Renaud continuava intimidador.

A única notícia ruim foi saber que Isaac trabalhava na delegacia, o que provavelmente queria dizer que ele não se dava muito bem com delinquentes.

- Ahh. Você tem muitos trabalhos então, e ainda estuda! Deve ser bem organizado para fazer tudo isso e ainda ter tempo para se divertir. - Ange elogiou honestamente. - Eu não vou mentir que achei que os rapazes de St. Clavier não pegavam trabalhos como arquivar documentos. Achei que todos saíam de lá direto para empregos super ricos. - franziu a testa de leve com seu preconceito.

Esperava perguntas mais simples de Isaac, como sua idade, ou porque tinha aparecido de vestido, ou mesmo o que procurava em um interesse romântico. Todas essas eram fáceis de responder. Mas a pergunta sobre como conheceu Didier lhe drenou não só o sorriso, mas todo o sangue que corria no rosto. Aquela era a pergunta mais difícil de responder, porque sabia que seria decepcionante para um homem como aquele se dissesse que era um ex-marginalzinho pobre e briguento. Estava acostumado demais a ser julgado pelos eventos do seu passado, e sabia bem como eles poderiam afetar seu presente. E chances. Nem que fosse só a chance de conhecer um cara legal para variar.

- Ah- e-eu… era mais j-jovem e-e-e-e... Didier me acolheu… p-p-porque meu e-ex n-n-namorado era... um g-grosso… e-e-e ele b-b-b-bateu nele… mas não foi uma b-briga grande… na verdade… m-m-meu ex fugiu…! E-e-e a mam- o Didier cuidou b-bem de mim…! P-pelo menos dele eu n-nunca apanhei…! - a medida que Ange contava a história -- que talvez tivesse sido um pouco omitida aqui e ali, sobre estar em outra gangue, e sobre mudar para a de Didier, que nunca tinha apanhado de Didier mas tinha de outros membros, e também sobre bater nas pessoas por Didier -- seu rosto ficava mais pálido e se contorcia discretamente como se estivesse morrendo de medo (e estava) de que Isaac achasse aquela história absurda demais, e não quisesse se envolver com alguém como ele. - D-desculpa…! Não é uma h-história b-boa para um primeiro encontro…! E-eu sinto tomar seu tempo… m-mesmo sendo assim... - quer dizer, tinha tido bem mais namorados que Isaac, agora já estava admitido, e tinha se metido em encrenca por um deles, e tinha se envolvido com a mama e conhecia o hellhound. Era demais para um cara que arquivava fichas policiais.

Isaac

Isaac até negou com um aceno de cabeça quando ele disse que achava que os alunos de St. Clavier saíam todos para carreiras e trabalhos promissores.

- Como em qualquer outra escola, se você não for bom o suficiente, não vai ter um bom trabalho. No caso de St. Clavier, se não tiver contatos importantes também. - respondeu Isaac, num tom que deixava bem claro que ele valorizava um bom trabalho. - Eu não costumo sair para me divertir, especialmente se estou sozinho.

Não era nenhum forte de Isaac perceber reações, emoções e sentimentos alheios, mas até para ele foi fácil perceber como Ange mudou de expressão quando perguntou como é que tinha conhecido Didier. O moreno arqueou uma sobrancelha em confusão ao encarar a jovem e a expressão pálida só foi reforçada quando ela tentou explicar como tinha conhecido Didier e começou a gaguejar. Será que era algo tão constrangedor assim? Isaac pegou o copo de água da mesa para tomar um gole quando Ange começou a explicar, mas ele logo devolveu a mesa quando ela disse como tinha um ex-namorado grosso e que lhe batia. A expressão do rapaz fechou completamente de novo, porque se já não gostava de bullies, menos ainda de namorados violentos, e uma garota do tamanho de Ange com certeza não conseguia se defender com muito êxito de alguém violento.

- Pelo menos até onde sei, Didier não anda batendo em quem não pode revidar. - Isaac respondeu, com a expressão ainda muito desagradada de saber que a garota levava surras do antigo namorado. - E você não precisa se desculpar, não é culpa sua. Eu odeio esse tipo de gente que se aproveita da fraqueza dos outros.

Isaac só percebeu que ainda estava com a mesma expressão desagradada quando a atendente trouxe a entrada e até hesitou em se aproximar da mesa. Mas ela deixou o pedido e se retirou.

- Vamos falar de outra coisa. Você estuda? Quantos anos você tem? - ele perguntou, ao menos se atendo às perguntas convencionais para conhecer mais da garota.

Didier

Quando Ange viu a expressão de Isaac mudar diante do seu comentário sobre seu ex, sabia que estava tudo perdido. Ele tinha muitos pontos ruins para achar naquela situação e era quase deprimente pensar que em algum momento tinha achado que o encontro ia dar certo. Disfarçou o bico de decepção porque não tinha muito o que fazer. Se simplesmente falar das delinquências daquela época colocava aquela expressão no moreno, certamente ele teria ido embora se soubesse de tudo mais a fundo.

- Não bate não, é… covarde bater em alguém mais fraco. - Ange comentou, franzindo de leve a testa, porque só tinha que concordar. Claro que já tinham pego brigas com gente que eram muito mais bocudas do que prontas para ação, mas no geral, as surras eram medidas. A garçonete trouxe a comida apesar da cara feia de Isaac à mesa, que deveria deixar a situação um pouco complicada para ela. Mas quando ele continuou falando, até entreabriu os lábios, surpreso. Será que ele tinha ignorado toda a conversa e decidido que estava tudo bem, já que não tinha se metido na briga porque queria? Na verdade, será que estava tudo bem porque tinha omitido um pouco sobre a parte de todos serem delinquentes? A esperança fez seu coração acelerar. - E-Está tudo bem agora… eu agradeço por… dizer que não é culpa minha! - acabou sorrindo brevemente, se culpando por um instante pela péssima escolha de namorado.

Mas já que o encontro não acabou, a próxima alegria de Ange foi ouvir duas perguntas que poderia responder mais fácil, o que lhe fez suspirar em alívio.

- Ah, bom… não. Eu trabalho... e tenho 21 anos. Você? - começou, então devolvendo a pergunta para Isaac.

Dali em diante as perguntas foram infinitamente mais fáceis de responder e com o alívio da pressão sobre falar como Didier e ele se conheceram e porque tinha arranjado aquele encontro no fim das contas. Aos poucos, Ange ficou mais confortável, e mesmo sem muitos modos refinados a mesa, foi divertido comer entre uma conversa e outra com Isaac e descobrir mais coisas sobre ele também. A comida do local era gostosa, e apesar de terem bastante pessoas ali, o barulho não era o suficiente para que atrapalhasse a conversa. No fim, sentia como se aquele fosse o encontro mais normal que teve a vida toda. E isso era bom.

Insistiu para dividir a conta quando finalmente estavam prontos para ir embora, e Ange já estava relaxado o suficiente para abrir um sorriso satifeito depois da tensão.

- Wheew! A comida era muito boa! - falou, animado que tinha descoberto algo do restaurante. - E o encontro foi muito bom também, Isaac. Você é legal... - comentou enquanto saíam juntos do restaurante. - Eu me diverti hoje. Obrigado por me acompanhar no fim das contas.

Isaac

A conversa seguiu muito mais natural depois que Isaac mudou de assunto e a garçonete se assustou menos ao se aproximar da mesa. Tinha sido um início de noite ruim com a ideia ridícula de Didier em lhe armar um encontro às escuras, mas o jantar se saiu bem mais agradável do que tinha esperado. Ange era uma garota bonita e delicada, e se embaraçava fácil com as suas perguntas. Era uma boa mudança de ares para as pessoas com quem estava acostumado a conviver em St. Clavier. E de todo jeito, já estava solteiro havia um tempo, aproveitar o jantar com a jovem foi mais interessante do que Isaac tinha esperado.

Eles conversaram mais sobre coisas casuais do trabalho ou dos estudos, da cidade e interesses em geral. Nada fora do comum, e Isaac não voltou a tocar no assunto de como ela tinha conhecido Didier, já que devia ser um assunto delicado e pensar em pessoas tipo o ex de Ange lhe deixavam bem irritado.

Ao fim do encontro, ele pagou o jantar todo sem dar muita chance para Ange tentar pagar a parte dela, e seguiu para fora do restaurante acompanhado da jovem que, de pé ao seu lado, parecia ainda menor do que quando estavam sentados.

- Eu também gostei do jantar. Podemos sair de novo se quiser marcar outro dia. Sem ser uma armação de Didier para mim dessa vez. - ele parou junto aos táxis enfileirados no fim da rua e abriu a porta para que Ange entrasse primeiro. - Vou lhe deixar em casa, onde você mora?

Didier

Ange ficou um pouco constrangido de que Isaac tivesse que pagar a conta toda por considerar aquele “um encontro”. Bom, era um encontro, mas não achava que ele precisava ter a responsabilidade da conta, considerando que não era exatamente uma dama. Mas ao menos ficou feliz que tinha pedido um prato mais barato, então não tinha pesado demais no bolso dele.

Era engraçado como, ainda que ele fosse muito sério, era surpreendentemente expressivo. Não sabia o que se passava remotamente na cabeça dele, mas ocasionalmente ele franzia a testa de um jeito irritado, e se não estivesse completamente acostumado a pessoas intimidadoras, até ficaria afetado pelas expressões. Quem sabe ele só não tinha gostado tanto do encontro. Ou melhor, era o que achava, até ele dizer que não só tinha gostado, como poderiam até jantar juntos de novo.

Ange até ficou de queixo caído por um instante, olhando para Isaac como se tivesse ouvido errado. Quer dizer que tinha dado tudo certo? Mesmo que tivesse começado com pé esquerdo? O sorriso surgiu em seu rosto devagar e discretamente, Ange fechou o punho e puxou o antebraço junto ao corpo silenciosamente celebrando com um “isso!”.

Quando Isaac abriu o táxi, entretanto, esperando que entrasse, o garoto estendeu as mãos para frente e sacudiu de um lado para o outro.

- A-Ahh! Você já pagou o jantar, não precisa pagar meu táxi para casa! E-eu vim de botinhas, olha! Eu posso voltar andando! - falou com um pouco de exaspero. Na verdade já tinha ido muito bem no encontro, não queria também que ele descobrisse logo agora que morava numa vizinhança complicada e num apartamento caindo aos pedaços. Será que ele pensaria que estava caçando gente rica de St. Clavier para lhe bancar, depois da conversa que tiveram logo no começo do encontro? Além do que, seu apartamento estava uma verdadeira bagunça. Não poderia nem mesmo compensar as gentilezas e o encontro com sexo. - Ai, o q-que eu tô pensando!? - Ange levou ambas as mãos ao rosto de repente, cobrindo pelo menos o rubor intenso das bochechas.

Isaac

No mesmo instante em que ofereceu a carona, Ange reagiu exagerada de novo, balançando as mãos na frente do corpo para negar a carona já que ele tinha pagado pelo jantar. Não que fosse um esforço extra, era só o que ele sabia ser certo.

- Isso não importa. Não vou lhe deixar ir sozinha para casa. - Isaac respondeu como se aquilo fosse muito óbvio, já que ela era uma garota andando sozinha àquela hora da noite. - E eu vou voltar para St. Clavier de táxi de todo modo, deixo você em casa e sigo o caminho.

Ele continuou exatamente onde estava, com a porta aberta e esperando que ela entrasse no táxi. Mas ao invés de fazer o que ele tinha sugerido, ela ainda pareceu um tanto perdida nos próprios pensamentos enquanto Isaac arqueava as sobrancelhas para o comentário que veio acompanhado de um rubor nas bochechas.

- Eu não sei, o que está pensando?

Didier

Isaac parecia um cara muito diligente quanto a toda a conduta de um encontro que costumava ver em filmes de romance. Só podia achar isso fofo, não era algo que estava dentro da sua realidade com frequência. Até se sentiu meio estúpido por pensar em outras coisas considerando que Isaac já estava pensando em retornar a St. Clavier dali, sem segundas intenções. Talvez fosse seguro se ele fosse até o bairro com o táxi, desde que ele não visse o prédio detonado onde morava. Certamente seria uma carona bem vinda.

A pergunta de Isaac, entretanto, fez com que Ange perdesse mais alguns anos de vida. Ele estava sendo um tremendo príncipe encantado ali enquanto sua mente estava completamente deitada na lama.

- N-n-nada importante! - respondeu de um jeito um pouco desesperado, então pedindo licença baixinho para entrar no táxi. - Vou aceitar a sua gentileza então, m-mas só até pertinho! Não precisa se preocupar demais, eu sei me cuidar… um pouco. - riu baixo, abrindo espaço para que Isaac também entrasse no táxi.

Para a sorte de Isaac, morava em Rouge, o que significava que ele não faria um desvio tão drástico para ir até St. Clavier. O caminho foi bem curto, tanto que conseguiria ir a pé, embora muitas pessoas poderiam pensar que aquela hora da noite, talvez fosse uma caminhada pouco recomendável. Quando chegaram em uma área sem tanto movimento com alguns prédios pequenos ao longo de uma rua um pouco suja, Ange pediu para parar.

- Aqui está ótimo. Eu moro aqui próximo, já foi uma ótima carona! - Ange falou, então pegando a bolsinha para tirar alguns trocados. - Não é muito, mas espero que ajude no valor do táxi! - comentou, oferecendo o dinheiro a Isaac com alta expectativa de que ele também não quisesse lhe bancar ali, afinal, o jantar, e a carona, e a boa educação, vai que estava gastando todo seu karma positivo de uma vez.

Isaac

A garota ainda hesitou para aceitar a sua opção de deixá-la em casa, mas finalmente entrou no táxi e Isaac a acompanhou. Só quando estavam no caminho e ela deixou claro que preferia ser deixada próximo à sua casa ao invés de na porta, foi que Isaac pensou também na possibilidade de que era a primeira vez que os dois saíam, então era até prudente da parte dela não querer que ele soubesse onde morava.

Ela morava em Rouge, que era caminho para voltar a St. Clavier de todo modo, e quando indicou o lugar onde o motorista do táxi podia parar, Isaac negou o dinheiro que ela tinha oferecido para pagar parte da corrida, pegando o celular no bolso.

- Não precisa, era caminho para St. Clavier. - ele explicou sobre o dinheiro, e depois indicou o próprio celular. - Eu não espero que Didier marque o próximo encontro às escuras, então pode me passar o seu número?

Ele esperou que ela concordasse em dar o número do telefone e logo em seguida, a garota se despediu, para sair do táxi e andar até o final da rua. Isaac manteve a despedida breve, com um aceno rápido e um sorriso discreto que talvez fosse difícil para pessoas que não o conheciam notarem. A noite tinha começado errada com a ideia idiota de Didier, mas no fim das contas, não tinha sido assim tão idiota. A única coisa ruim era que tinha que voltar para o dormitório sozinho e sem ter ido para outro lugar no fim da noite. Bom, as coisas com uma garota como Ange certamente não seriam como com Renaud ou Didier em situações de sexo casuais enquanto estavam solteiros, então, só se resignou a voltar para o dormitório e ter uma longa noite do sono costumeiramente pesado.

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