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[Drive] A Different Point of View [Arman; Berthold] - Lil - 09-22-2021 Arman
Arman ainda não conseguia assimilar o que tinha acontecido e como poderia se adaptar à situação depois de perder o olho para um acidente que tinha parecido tão ridículo no dia em que acontecera. Só depois do tempo de recuperação e de voltar a fotografar e pintar que ele passou por um baque de realidade, ao notar que sua sensação de visão e de espaço estava afetada, além de ter dores de cabeças constantes enquanto se acostumava a enxergar tudo só com um olho, e forçá-lo mais do que estava acostumado. Durante as férias, entretanto, ele recebeu uma notificação de uma galeria em Paris onde tinha deixado algumas peças expostas há alguns meses, e que precisava pegar os originais de volta, exceto os que ficariam com a galeria. Ele viajou para a capital sozinho, se acostumando à novidade do olho machucado coberto por um tampão discreto, para ir até a galeria e ainda parar para pensar que o ex-namorado agora estava morando em Paris. Talvez fosse bom terem se afastado, porque ele certamente não saberia o que fazer ou como reagir com Albert se tivesse se machucado enquanto ainda estavam juntos. Ele seguiu da estação direto até a galeria, e um trajeto que faria normalmente de trem ou transporte público, preferiu o conforto de um táxi. Ao chegar no local, falou com uma pessoa conhecida e ainda teve que evitar as perguntas sobre o que tinha acontecido ao olho e principalmente, sobre quando traria novas peças para exibição. Ele certamente só queria pegar as peças e voltar para casa. Tinha sido uma viagem cansativa e a cabeça estava começando a doer com o excesso de informações. Berthold
Ainda tinha de se adaptar a viver na França, tudo ali era diferente, as pessoas, as comidas, a forma como elas se tratavam e principalmente porque ninguém tinha lhe avisado que os pontos turísticos de Paris eram tão diferentes do que faziam parecer nas fotos. Jamais esqueceria a rinha de gabirus em frente a torre Eiffel. Além de estudar em um internato em uma das cidades do interior, seus pais estavam muito ocupados com a transferência de emprego e mais um monte de burocracia de adultos, o jovem alemão, ainda estava tentando por em dia as vídeo-aulas de francês, mas logo que tinha avisado aos seus conhecidos da área de artes que estaria agora morando em território francês, Berthold tinha sido chamado a participar de uma exposição em uma das galerias da cidade luz. Com a mudança e várias caixas para empacotar e desempacotar a maioria das obras já tinha chegado ao prédio, mas no mesmo dia, tinha recebido uma ligação de que tinha faltado um dos quadros, o jovem se arrumou e buscou um case para tela, pegando a primeira condução para o espaço que desconhecia, tinha anotado no papel o endereço e o nome de quem deveria procurar. Vestiu uma calça de alfaiate cintura alta, com as pernas folgadas, e uma blusa sem manga, e um blazer por cima pra tentar ficar mais formal, embora se sentisse com calor por causa do verão francês. Saiu tão apressado que sequer teve tempo de por as lentes, e usou a armação com lentes grossas. Caminhou pelo espaço, levando de lado o case do quadro, tentando se guiar pelas placas, e se perdeu momentaneamente, deu a volta em alguns corredores, e pelo que entendeu das indicações do funcionário se sentiu ainda mais perdido. Já tinha passado pela recepção três vezes, até ser guiado para um corredor onde tinha mais uma pessoa de óculos parada. Estava com o rosto vermelho de ficar andando em círculos e parou próximo do rapaz, ele não tinha roupa de funcionário, então não deveria incomodá-lo, então parou respeitando alguns metros de distância, e continuou checando no papel que tinha, se estava ou não no lugar certo. Que dia para se perder, mal tinha chegado na França já estava desgostando do lugar. Arman
Arman ainda estava se acostumando a observar tudo com um só olho, os óculos coloridos agora ajudavam mais a cobrir o olho com um tampão cor da pele. Quando ele pegou os quadros originais dentro de um case muito grande, seguiu para fora da galeria, sem confirmar as próximas peças que poderia enviar, afinal, não havia muito com que trabalhar agora. A caminho da saída da galeria que ainda não estava aberta para visitação, ele acabou parando automaticamente no meio do caminho, ao avistar um rapaz que parecia perdido nos largos corredores. O fato de estar perdido nem foi o que chamou a atenção de Arman, mas as roupas exóticas, os cabelos loiros, a pele muito clara, e os traços muito bonitos e firmes do rosto. Podia estar só com um olho, mas não estava cego para não ver como o rapaz era bonito, e numa reação bem automática, ele parou o caminho no meio e deu a volta, se aproximando do outro com um olhar intenso e curioso, a ponto até de invadir o espaço pessoal dele sem nem falar um “oi”. Ainda estava se acostumando a observar tudo só com um olho e nem a dor de cabeça estava lhe impedindo de dar uma boa olhada no rosto realmente bonito do loiro. Berthold
O loiro respirou fundo pensando em como resolver aquele problema, não queria atrasar a abertura da próxima exposição por causa da peça que faltava, estava prestes a puxar o aparelho celular, quando notou a aproximação do rapaz, não exatamente porque tivesse visto, mas sua percepção periférica ainda funcionava bem. Encarou o rapaz de lentes coloridas, piscando algumas vezes com a forma como ele lhe encarava, será que tinha errado no lugar de esperar? Será que era natural que os franceses ficassem tão perto assim das pessoas? Já sabia da má fama de que todos eram mal humorados, a expressão fechada do rapaz lhe dava uma noção de que talvez ele estivesse bravo e o que todos diziam fosse verdade: -- Desculpe? -- Foi a primeira coisa que saiu de sua boca no seu sotaque forte de alemão, naquele francês mal arranjado, só depois que notou que ele também estava com um case com quadros, será que ele era um funcionário que estava ali para ralhar consigo por ter demorado pra chegar? -- Você trabalha aqui pra galeria? Desculpe se eu atrasei alguma coisa… eu ainda não me acostumei com a França....! Admitiu e deu um passo se ajustando deixando um braço de espaço entre os dois, arrumou o par de lentes de grau, e permaneceu corado, porque qualquer sinal de vergonha aparecia com facilidade em seu rosto alvo. E aquela distância pode perceber também que o rapaz estava com um curativo no olho, talvez o mal humor fosse porque ele estava trabalhando machucado? Definitivamente não queria deixar o jovem funcionário irritado ele já devia está tendo um dia ruim, sem o loiro pra atrapalhar. Arman
Arman não prestou muita atenção no que o rapaz disse, exceto por notar que ele tinha um sotaque muito carregado. Mas ele deu um passo para trás para manter a distância que foi totalmente ignorado por Arman, que, então mais próximo, estava certo de que o loiro era muito bonito. Ele deu um passo bem largo na direção do rapaz, ficando a apenas um palmo, e tirou o óculos do rosto, encarando-o de muito perto. Não havia o menor respeito pelo espaço pessoal alheio, e quando Arman já estava muito perto, percebeu que as lentes grossas atrapalhavam a visão melhor do rosto do loiro. Se já tinha chegado perto demais sem pedir licença, foi automático em levantar a mão livre para, dessa vez, tirar o óculos dele, encarando os olhos claros de perto e sem impedimento. Arman até levou uma mão até o rosto alvo, segurando o queixo dele e mantendo o rosto virado em sua direção. -- Você é muito bonito. - ele falou finalmente, ainda com a mão no rosto alheio mesmo sem permissão. Provavelmente levaria uma surra em resposta. Berthold
Se tinham lhe falado que os franceses podiam ser irritadiços, esqueceram plenamente de comentar que eles tinham a tendência de invadir o espaço pessoal dos outros, não entendeu o sentido dele se aproximar ainda mais de si, e não entendia o que tinha feito para provocá-lo daquela forma. Será que seu atraso na entrega da obra era tão imperdoável, ele tirou as lentes de grau e de fato constatou que ele estava usando um curativo no olho tapado. Mas não teve tempo de raciocinar sobre aquilo quando ele levou a mão ao seu rosto, buscou tirar o par de lentes de grau, ergueu o braço para tentar impedir e derrubou o papel que tinha anotado as informações e quase soltou o case do quadro. Como se não bastasse a pequena confusão, o outro rapaz ainda lhe segurou pelo queixo e tirou seu par de lentes de grau, agora tudo estava borrado como imerso em água, pronto, era seu fim, iria apanhar porque tinha se atrasado na entrega do quadro, que fim triste. O loiro deu dois tapinhas de leve contra o peito do outro rapaz tentando alerta-lo a parar e lhe soltar, até que ouviu que era muito bonito. Sentiu todo o peso de estar fazendo algo errado se esvair e fez uma expressão de surpresa, seguido de um suspiro de meio alívio, até ficar plenamente corado com aquela aproximação exagerada apenas pra elogiar seu rosto: -- Erh… bem… obrigado?! Você pode me soltar… Por favor?! -- O loiro comentou novamente dando dois tapinhas leves sobre o braço do outro rapaz indicando que ele ainda estava segurando seu rosto: -- Eu não enxergo sem meus óculos… pode devolver também? Por favor…?! Arman
Arman observou o outro tão de perto que parecia estar a ponto de encostar a testa a dele. Só depois de umas reações tardias a sua aproximação foi que ele ouviu a resposta alheia no mesmo sotaque fortíssimo. Mas o próprio Arman demorou a processar o que ele tinha dito, deslizando os dedos pela curva do queixo alheio e soltando o rosto finalmente. -- Posso tirar sua foto? - ele pediu, ignorando primeiro o pedido para devolver o óculos, só depois de um instante processando que ainda estava segurando a peça. Ele mesmo levantou o óculos para recolocar no rosto alheio, só então notando como ele estava muito vermelho. Não adicionou mais nada nem sequer um pedido de desculpa devido a toda a confusão e invasão de espaço, mas notou que ele também tinha um case para obras de arte. -- Vai expor? Berthold
Aquele rapaz era definitivamente estranho, talvez ele só não estivesse entendendo seu francês mal falado, mas estava falando pausadamente em frases curtas pra ser mais fácil de entender, prendeu a respiração por um momento enquanto ele seguia lhe encarando em silêncio, já tinha pedido pra ser solto, já tinha pedido seus óculos de volta, não sabia e deveria fazer mais alguma coisa, definitivamente não conseguiria correr carregando um quadro. Mas antes que chegasse a alguma conclusão, ele perguntou se poderia tirar uma foto sua, então era isso? As ações do outro ainda não lhe faziam tanto sentido, mas se ele fosse só um artista contemporâneo perturbado com comportamento estranho era algo mais fácil até de absorver. Quem teve um delay na resposta dessa vez foi o alemão, que teve o par de lentes de grau recolocado no rosto, e ainda ajustou a armação, o rosto violentamente vermelho, até ele lhe perguntar se iria expor, e naquele momento que percebeu que tinha deixado cair o papel, e sabe-se lá pra onde ele tinha ido, que dia miserável. Suspirou e acenou positivamente, sem determinar se era pra foto ou se era pra o fato de que iria expor, então lhe ocorreu um ponto, que talvez fosse bom para os dois: -- Bem… Eu vou expor sim, mas preciso de ajuda pra entregar esse quadro no lugar certo, se você me ajudar, deixo você tirar fotos minhas. Pode ser? -- o loiro comentou com um tom tímido ainda, mas como o outro rapaz era de poucas palavras, então se ele queria fotos, ele poderia pelo menos lhe ajudar, assim os dois saiam ganhando. Arman
Então ele era um artista também, o que explicava o quadro que carregava. Podia ser só um entregador, mas não com aquela postura e aquela aparência. Embora Arman fosse muito lento para certas coisas, tinha uma boa percepção que ao menos podia atribuir à sua mãe. E ficou internamente satisfeito quando ele concordou com um aceno positivo, independente de ser para tirar fotos dele ou para a pergunta se ele era um artista da galeria. Logo o rapaz completou a resposta explicando que ia expor e que precisava entregar o quadro na galeria. Arman tinha acabado de sair da sala da curadoria, então só fez um aceno com a cabeça para indicar que ele lhe seguisse. Em alguns passos largos, que não foi difícil do outro rapaz acompanhar, já que era até mais alto que ele, estavam de volta numa sala com uma porta de vidro e dentro de onde uma mulher falava com alguém ao telefone. Arman deu um par de batidas discretas na porta apenas para chamar a atenção e a mulher fez um sinal para que aguardassem, depois do resto da conversa, ela desligou o telefone e o sorriso amigável sumiu para dar lugar a um suspiro e um rodar de olhos que denunciava que a pessoa do outro lado não era agradável, mas tinha dinheiro. - Tão cedo, Arman? Já resolveu trazer peças novas? Eu disse que precisava para daqui a alguns meses só. - a mulher o recebeu com um tom descontraído, mas logo pousou o olhar avaliador sobre o loiro ao lado de Arman, olhando-o de cima a baixo de um modo um pouco indiscreto. - Amigo seu? Outro artista? Prazer, monsieur, Claire Aubrey, sou a curadora responsável pela galeria. Arman nem respondeu, só deu um passo para trás para dar espaço para que o loiro passasse e ele mesmo resolvesse o problema do quadro. Berthold
Finalmente as coisas começaram a melhorar, mesmo depois de uma comunicação bem falha, o fato de ter aceitado tirar fotos tinha deixando o outro rapaz silencioso mais suscetível a lhe ajudar, no fim era uma troca até fácil de pagar. Acompanhou os passos do outro sem problemas, tinha pernas longas e era ágil, e ele realmente sabia se orientar naquela galeria, teria de memorizar o caminho pra não ser tão dependente em uma próxima visita. Logo estavam na sala de curadoria, e uma mulher deu atenção aos dois, naquele momento ficou sabendo o nome do rapaz silencioso, “Arman” e o nome lhe soou bem familiar, mas não teve tempo de pensar muito sobre o assunto, quando a atenção foi direcionada a si: -- Olá, eu sou o Aarav, eu recebi uma ligação mais cedo dizendo que tinha faltado uma das peças pra próxima exposição e eu vim trazer. Desculpe o transtorno. -- Berthold falou no que seria o seu melhor francês, tinha ensaiado aquela frase várias vezes, até ali, então esperava que tudo corresse bem. -- Perfeito, eu estava esperando por você, pode deixar a obra em cima da mesa, só preciso que você assine alguns documentos e já te libero. -- a mulher sorriu amistosa, e aquilo deixou o loiro mais aliviado, notoriamente no suspiro que o mais novo tinha soltado. Deixou a obra sobre a mesa, tirando-a do case, era uma fotografia ampliada em tons azulados e frios, tinha um aspecto triste, e o foco estava em detalhes pequenos do ambiente urbano, borrando as pessoas em volta. O loiro dobrou o case e o guardou na bolsa pequena que trazia consigo. O loiro ainda se desculpou um par de vezes até ser liberado pela curadora com aceno de mão. Só naquele momento que o loiro parou pra pensar sobre o nome do rapaz, “Arman” e a exposição que estava antes da que iria fazer participação agora, as coisas faziam mais sentido: -- Ah, Arman M. Jhonson! -- O alemão pontuou fazendo uma expressão surpresa e sorrindo em seguida: -- É um prazer lhe conhecer pessoalmente, eu sou Berthold Konrad, mas assino como Aarav. Berthold arrumou o par de lentes de grau no rosto, e agora que estava finalmente livre daquela atividade tinha de fazer seu pagamento daquele acordo: -- Bem, onde você quer tirar as fotos? -- Não sabia se ele tinha um estúdio em Paris, mas pelas exposições podia julgar que ele era bastante eclético quanto aos cenários e ambientes que gostava de fotografar. Arman
O loiro se adiantou para entregar o quadro que trazia e o nome pelo qual ele se apresentou despertou alguma coisa na memória de Arman. Ficou um pouco distraído, mas quando o loiro tirou a obra do case e ficou sobre a mesa, foi fácil de identificar os traços. Embora não pintasse para exposições grandes e galerias, era bem familiarizado com o campo. E se não falhava a memória, o tal Aarav tinha ficado bem mais famoso há cerca de um ano? Ainda lembrava de alguns dos quadros da exposição e mesmo que não fosse sua especialidade, gostava das pinturas e do peso que elas tinham. Era o tipo de coisa com a qual tinha dificuldade às vezes. Logo a curadora tinha pegado as informações necessárias e foram liberados, Arman apenas acompanhou o outro para fora do escritório e foi abordado logo depois com o nome e a apresentação do outro. Ele não respondeu, demorou alguns longos segundos encarando o loiro de perto de novo, com um sorriso mais genuíno que o deixava ainda mais bonito por trás dos óculos de lentes espessas. - Você é mais bonito do que imaginei. - ele respondeu, o olhar obviamente avaliador para o pintor ao seu lado. - Você escolhe… Arman seguiu com o outro para fora da galeria e só quando levou a mão até o peito foi que percebeu que não estava com a câmera, o que tinha se tornado bem comum depois do acidente com o olho. A reação automática dele foi levar uma das mãos ao olho machucado e se aperceber da dor e cabeça recente. - Ah… estou sem minha câmera… Berthold
A constatação do outro sobre o seu pseudonimo como pintor, tornava aquele mundo de exposições bem pequeno na verdade, mesmo que já estivesse trabalhando com aquilo a algum tempo, nunca ia se acostumar com ser reconhecido, não a toa diferente do outro não usava seu nome verdadeiro para evitar esse tipo de situação mais constrangedora. Mas tal qual a sua surpresa quando o outro ainda acrescentou que ele era mais bonito do que tinha imaginado, bem era difícil pensar como ele deveria se parecer considerando que ele sempre usava como imagem de perfil um mickey que tinha pintado a pouco mais de um ano atrás. Sorriu um pouco sem jeito da forma como o outro lhe elogiava sem muitas ressalvas, embora não sentisse uma malícia descarada ali, sabia pelo histórico de fotografias do outro, que ele gostava de fotos naturais com corpo exposto, principalmente em aspecto mais clássico em preto e branco. Não sabia qual era a proposta dele, mas esperava que ele não pedisse pra ficar plenamente sem roupa, era tudo evoluindo muito ´rápido pra conseguir absorver. E só naquele momento se deu conta que o outro não estava carregando nenhum case de câmera ou mochila que pudesse comportar aquele tipo de máquina. Imaginou que talvez ele quisesse agendar para fazer aquilo outro dia? Era difícil de saber exatamente o que o outro queria ou pensava já que ele não falava muito, mas ele parecia incomodado talvez? -- Bem, o apartamento que estou hospedado não fica tão longe daqui, é alguns minutos de condução, se não se incomodar pode usar minha câmera, ela tá configurada pra mim, mas eu posso ajustar pra você. -- Berthold comentou, só depois pensando que não deveria levar estranhos pra o apartamento onde estava antes de se mudar pra Cerise, mas também, não era como se tivesse a chance de encontrar um fotógrafo famoso todos os dias não é? Arman
Ainda era estranho levantar a mão até o olho que não estava mais lá e tocar no curativo, mas ele ainda enxergava muito bem com o outro olho, poderia compensar aquilo e tinha que aprender exatamente o que fazer. Já ia sugerir algo diferente para o pintor, quando ele mesmo disse que estava hospedado num apartamento próximo e que poderiam ir para lá e usar a câmera dele. Não queria desperdiçar a oportunidade e voltar para Cerise, ao menos talvez pudesse fazer algo de útil desde que tinha recebido alta do hospital e voltava a tirar fotos e pintar. Ele concordou com um aceno de cabeça pra todas as sugestões de Berthold e o acompanhou pela capital francesa até desembarcarem no apartamento que era realmente próximo da galeria. Não demorou mais que dez minutos para que Arman estivesse diante da porta do apartamento dele e pedindo licença silenciosamente para entrar. - Você também tira fotos? - ele perguntou quando chegaram ao apartamento, já que ele tinha oferecido uma câmera e imaginou que devia ser ao menos semi-profissional. Berthold
Não ficou exatamente surpreso do outro aceitar seu convite, ele parecia uma pessoa bem objetiva e direta, e até econômica a considerar a quantidade reduzida de palavras que falava, mas tirando a invasão inicial do espaço pessoal não tinha notado mais nenhuma conduta estranha ou incômoda. Estava animado com a ideia de ver uma pessoa que conhecia e até admirava o trabalho em ação, era uma boa oportunidade e aprender um pouco mais, considerando que tinha começado a fotografar a poucos meses, ainda tinha muito que aprimorar. Não demoraram para chegar ao espaço do apartamento, que era até bem amplo considerando que tinham se mudado da Alemanha para França justamente por causa da boa proposta de emprego. Na sala ainda havia muitas caixas e coisas embaladas, o que tinha sido desempacotado era justamente o essencial para a rotina do dia a dia: -- Fique a vontade, como pode ver, acabamos de nos mudar. -- ele pontuou brevemente, deixando os tênis confortáveis na entrada e tirando o blazer pra expor os braços de pele alva e músculos bem desenhados, por ter um porte atlético, só naquele ponto que o moreno lhe perguntou diretamente se tirava fotos: -- Eu comecei faz alguns meses, investir um dinheiro que recebi da venda de quadros em material de fotografia, então não é tudo profissional ainda, mas deve servir melhor do que um aparelho de celular. -- o loiro tentou soar mais descontraído, mas sentia que seria levemente julgado. Deu espaço para que o outro entrasse em seu quarto, ligando o ar condicionado, porque estava quente, e o lugar não tinha nada muito característico, já que a maior parte dos pertences do rapaz se mantinha embalado para ser enviado para St. Clavier, o cômodo era bem neutro com exceção da mesa, que tinha notebook, caderno de rascunho e alguns materiais de desenho largados. Berthold foi até o closet, e pegou duas bolsas, uma era o case da câmera semi profissional, e o outro era equipamentos de suporte como lentes extras, bateria, cabos e flash: -- Como eu disse, a câmera está configurada pra que eu possa tirar fotos sem ter de usar óculos, como eu tenho um grau bem alto, as vezes eu uso a câmera pra olhar as coisas ao redor. Você vai notar quando ligar, enfim… como quer fazer essas fotos? O rapaz perguntou genuinamente curioso, enquanto se mantinha sentado, cruzou as pernas de forma masculina, e agora que estava em casa, parecia mais confortável, a despeito de estar com uma pessoa estranha. Arman
Arman acompanhou Berthold pelo apartamento para notar as várias caixas e móveis fora de lugar, denunciando que estavam acabando de chegar antes mesmo do pintor comentar aquilo. Ele respondeu sobre o investimento breve em fotografia depois de ganhar dinheiro com os quadros que produzia e Arman inicialmente concordou com um aceno de cabeça. - Os celulares de hoje também são muito bons. Podia começar por eles. - Arman comentou, olhando ao redor um pouco distraído, tirando os óculos coloridos já que estava num ambiente fechado e com pouca iluminação. Eles seguiram direto para o quarto do rapaz e Arman ainda deu outra boa olhada ao redor, não havia nada de decoração no quarto e só móveis essenciais, o que até deixava o ambiente mais neutro para tirar algumas boas fotos. O ar condicionado estava ligado e podia aproveitar um pouco da luz que entrava pela janela se deixasse as cortinas abertas. Berthold pegou a câmera e lhe estendeu com alguns acessórios a mais e ele começou a mexer em algumas configurações, ajustando foco, abertura, velocidade do obturador e tudo mais que podia para fazer alguns testes no modelo com o qual não estava muito acostumado. Só ergueu o olhar da câmera de volta para Berthold quando ele perguntou como queria fazer as fotos. - Fale comigo. - Arman respondeu, ele mesmo sentado na cadeira da escrivaninha, mas sentando com o encosto para a frente, de modo que pudesse apoiar os braços nele e baixar o olhar até o visor. Deu uma olhada inicial para ajustar o foco e bater umas primeiras fotos a despeito da resposta ou de qualquer comentário do pintor. Berthold
Aquilo era bem diferente do que tinha imaginado, podia ter várias suposições, que ele iria averiguar o material e seguiriam pra outro espaço, ou que ele fosse improvisar algo no quarto, mas não esperava nem um pouco que viria um simple e direto fale comigo. Aquilo deixou Berthold um pouco nervoso, e não sabia exatamente sobre o que conversar, e encarar Arman não lhe ajudava menos ainda a relaxar, olhou em volta e respirou fundo, ante de tirar o par de lentes de grau, assim não teria de enxergar as coisas ao redor ou focar necessariamente, e isso iria lhe ajudar a ficar menos tenso, ou pelo menos queria acreditar que sim: -- Isso soa quase como uma entrevista… meu francês é meio ruim, então eu já peço desculpas por isso. -- O loiro encarou a mancha que era o francês agora bem sentado, e estava tão acostumado a não ter foco nas coisas que sequer estreitava os olhos, provavelmente devia estar fazendo uma expressão enjoada, era o que as pessoas costumavam dizer, que o loiro tinha um semblante boçal ou enjoado. Em verdade, não fazia ideia se estava fazendo uma cara boa ou ruim, sabia que era bonito porque eventualmente aquela característica lhe atrapalhava mais que ajudava, e que ficava corado com facilidade por ser muito branco: -- Eu vim da Alemanha pra cá, morava na capital de Berlin, eu fiquei parado nos estudos por mais de um ano, que foi o tempo onde mais pintei e produzir… foi um tempo bom e ruim… mas pelo menos eu estava pintando. A medida que falava ia ficando mais relaxado, e também por estar em casa, mesmo que fosse uma casa nova, ainda era um lugar minimamente conhecido, e principalmente por não estar enxergando que expressões Arman poderia estar fazendo, aquilo contribui para que toda a linguagem corporal fosse ficando mais natural e menos fechada e tímida, como tinha parecido na galeria mais cedo e no início de toda aquela conversa. Arman
O primeiro e repetitivo erro de Arman ao segurar a câmera, foi levantá-la automaticamente até o olho direito, que não existia mais. Mais de uma vez, ele ajustou a câmera para observar com o olho esquerdo e à medida que mudava o foco e a velocidade do obturador, se pegava perdendo alguns detalhes. Em outras situações, ele teria dormido com os modelos antes de fotografar, em outras situações, já eram modelos experientes que faziam as poses muito naturalmente sem precisar de instrução. Naqueles casos, com pessoas comuns que não estavam acostumadas com lentes de câmeras, era interessante ver como se desenvolviam diante de uma situação de nervosismo. Às vezes ficavam mais nervosos, às vezes mais confortáveis, e o processo de foto a foto mostrando a transição era interessante. Numa das exposições recentes, o mais comum dos quadros era a transição de uma expressão em uma série de fotos do mesmo momento. Mas à medida que Berthold falava e ele notava como o pintor gradualmente se sentia à vontade, o que estava começando a lhe atrapalhar era a câmera, e não só a câmera, mas a própria percepção de espaço, de foco, e principalmente a dor de cabeça que ia aumentando à medida que tirava as fotos. Ele baixou a câmera algumas vezes, fechando e abrindo o olho longamente para voltar a tirar as fotos e tentar manter o foco, mas as coisas simplesmente não pareciam clicar, mesmo que o rapaz à sua frente fosse excessivamente bonito. Na metade do discurso dele sobre de onde tinha vindo e como tinha começado a pintar, Arman sentiu uma onda de ansiedade e nervosismo, as mãos estremecendo em volta da câmera como se não fosse capaz de terminar o que tinha começado. Ele baixou a câmera mais uma vez, soltando um suspiro longo em frustração, e esfregando o olho bom ao sentir a cabeça latejando. - Desculpe… eu- ele segurou a câmera com um pouco mais de força que o necessário, e resolveu colocá-la de lado na mesa. - É uma boa câmera. E seu francês é bom. Berthold
O loiro não era exatamente especialista em perceber os sentimentos dos outros, porém reconhecia muito bem um suspiro de frustração, porque era especialista em lidar com aquele sentimento, recolocou o par de lentes de grau, para encarar um Arman levemente incomodado e com um semblante que podia dizer que era incomodado. O alemão não era necessariamente bom com contatos físicos, mas se ele mais cedo não tinha visto problema em invadir seu espaço pessoal, talvez ele não se importasse se invadisse o espaço dele mesmo que fosse apenas um pouco, não é mesmo? Berthold levou a mão até a do francês, como se quisesse chamar a atenção do outro, se ajustou na cama para sentar mais próximo de onde ele estava, e o encarou longamente: -- Obrigado eu acho… mas me diga Arman, aconteceu alguma coisa? -- a primeira coisa que Berthold pensou foi que talvez sua câmera não fosse adequada para o trabalho do outro, mas depois ponderou um pouco, se aquilo era frustração, não devia ser exatamente por causa do equipamento, geralmente sentia raiva quando o equipamento era ruim, e não incômodo. Estava menos nervoso agora que antes, mas não sabia exatamente o que dizer ou como ajudar o outro, se é que ele precisava ser ajudado, principalmente porque ele falando tão pouco, deixava muita margem pra que o loiro ficasse teorizando, e isso não facilitava pra entender o que estava acontecendo ali. -- Você não parece muito bem? Eu fiz alguma coisa que lhe chateou? -- Era melhor perguntar de uma vez, e ser direto, já que dar voltas não iria funcionar, se ele respondesse uma de suas três perguntas, já se consideraria no lucro. Arman
Ele levou a mão, agora livre, até o olho bom de novo e pressionou a área mais um pouco, como se aquilo fosse lhe ajudar a melhorar da visão ou da dor de cabeça por conta do esforço recente. Quase pressionou os dois olhos juntos, mas foi alertado para a sensação ao passar o dedo no curativo do olho que não existia mais. Ele ficou tão consternado com o próprio estado, mesmo depois de ter encontrado uma pessoa excelente para fotografar, que nem percebeu a aproximação de Berthold. Só levantou o olhar para ele, muito próximo de si quando sentiu a mão dele sobre a sua, que estava fria e um pouco trêmula também por conta da ansiedade crescente. - Hm… não. - foi a sua primeira resposta automática para o fato de que não tinha acontecido algo, não naquele momento, pelo menos. E de novo, ele levantou a mão, passando o polegar no olho bom e depois passando a mão no cabelo. Com um braço apoiado no encosto da cadeira, ele apoiou o queixo no antebraço, e a mão livre, aproveitou a proximidade de Berthold para levar os dedos até o rosto dele, de novo invadindo o espaço pessoal do loiro, traçando uma linha do maxilar dele até o queixo. - Você é tão bonito… e eu não consigo capturar isso na câmera. Ele afastou o toque do rosto do outro, de novo, passando a mão pelos cabelos para então apontar para o curativo no olho direito. - Eu perdi esse recentemente, num acidente. - ele explicou, usando um pouco mais de palavras do que tinha usado até então. - Não consigo ajustar as coisas só com um olho, que não é dominante… eu achei que não seria tão diferente. Minha cabeça dói. Minha visão está embaçada… desculpe lhe pedir pra posar pra mim quando não consigo tirar fotos. Berthold
A negativa do outro rapaz não lhe convenceu, a expressão que ele fazia indicava que estava acontecendo algo, e não teve tempo de retrucar a fala dele, porque ele levou a mão até seu rosto, e fez caminho de um jeito bem gentil, não esperava aquilo e não teve uma reação imediata. Mas também não afastou a mão do outro, prestando atenção que a frustração vinha de não conseguir capturar aquilo com a câmera. E como tinha imaginado o problema não era necessariamente as limitações do equipamento, mas o fato dele mesmo não estar bem. O alemão não esperava que ele começasse a narrar um evento traumático da própria vida, mas talvez por ser algo recente, e ele fosse naturalmente de poucas palavras, aquilo o estivesse enforcando por dentro, e precisava por pra fora de alguma forma. Acariciou a mão dele com a própria, sentindo ali as diferenças de temperatura entre os dois, conhecia bem aquela sensação de frio, ansiedade, desgosto, frustração, e aquilo lhe deu um aperto no peito, e ao mesmo tempo uma sensação de calma, já que entendia como era se sentir daquela forma, tinha uma vaga ideia de como interagir: -- Não precisa se desculpar, se é algo recente, você não deve ter tido tempo de absorver tudo que aconteceu…-- comentou de forma compreensiva, desenhando um sorriso simples nos lábios, e não se afastou do outro, buscando na memória as palavras que queria dizer em francês pra se fazer entender: -- Eu acho que entendo como você se sente, há dois anos atrás eu não precisava de óculos. -- o loiro levou a mão próprio rosto, e tirou a peça, encarando-a longamente, para depois encarar o moreno, agora mais de perto, os traços eram mais definidos e menos borrados: -- Eu também sofri um acidente, que causou “degeneração ocular”...-- falou o termo de forma mais devagar, porque era difícil de dizer mesmo: -- Eu fiquei cego por um tempo, e depois de tratamento o problema estabilizou, mas eu perdi muito da minha visão, mesmo estando tão perto de você, eu não te enxergo bem. Deixou os óculos de lado, e levou agora as duas mãos até o rosto do outro o encarando de perto, avaliando, mesmo que não enxergasse perfeitamente, mas queria que ele lhe encarasse de volta, não tinha certeza se ele ia absorver todas as coisas que estava dizendo, ou se estava apenas sendo inconveniente, mas queria ao menos dividir um pouco de apoio com o outro. Naquele ângulo com os braços alvos a mostra, era possível ver cicatrizes antigas nas regiões dos pulsos, que agora pareciam nada mais que linhas roseas traçando caminhos tortos: -- Não vou dizer que tem uma receita pra ficar mais fácil de lidar, faz dois anos que eu tô nisso, e têm dias bons, e têm dias que eu me sinto muito mal... Nos dias ruins eu costumo pedir um abraço pra minha mãe…-- o loiro soltou o rosto do outro e se levantou da cama pra abraçar Arman, não sabia se ia funcionar, ou se iria melhorar o humor do outro, mas era o que podia fazer. Arman
A última coisa que Arman esperava era ter viajado para Paris apenas para pegar um quadro e terminar na companhia de outro artista relativamente conhecido para receber algumas palavras de conforto sobre a situação que estava passando. Ainda sentia a ansiedade crescente no corpo e aquilo ficava claro com a temperatura baixa na ponta dos dedos e a dor de cabeça que era parcialmente pelo esforço com o único olho. Mas ele ficou mais interessado em Berthold, quando ele se aproximou mais, tirou os óculos e lhe explicou num francês um pouco travado, mas muito pontual, sobre ter sofrido um acidente e ter chegado a ponto de ficar cego. O comentário fez com que Arman sentisse um arrepio de desconforto, só então considerando a possibilidade de que ele mesmo podia ter perdido completamente a visão e não teria nada para continuar trabalhando com o que tanto gostava. Mas ele foi puxado daquela sensação quando o loiro se aproximou, segurando-lhe o rosto com as duas mãos e ficando perto o suficiente para conseguir lhe enxergar melhor sem os óculos. E Arman ficou tão concentrado na expressão bonita diante de si que nem percebeu as marcas que ele tinha nos pulsos e o significado que elas tinham. Se já não esperava uma resposta para a sua situação, certamente não esperava ter encontrado alguém - um completo estranho, diga-se de passagem - que tinha passado por uma crise ainda pior e que estava lhe dando ajuda para entender o que estava passando. Foi até pego de surpresa quando Berthold se levantou da cama e se aproximou para lhe abraçar, e não tivesse escondido o rosto no corpo dele, o loiro teria visto como a expressão de Arman era de surpresa. E a surpresa foi tanta que ele ainda demorou a processar o gesto simples e significativo, e só depois de longos segundos com Berthold lhe envolvendo foi que ele levantou os braços para devolver o abraço, segurando a roupa do outro com um pouco de força a ponto das mãos estremecerem de novo, e o nó na garganta se desfez, deixando um longo suspiro escapar ao sentir um par de lágrimas escorrendo no canto do olho direto para a roupa de Berthold. - Obrigado… Berthold
O loiro não sabia exatamente se estava fazendo a coisa certa, porém, era o que normalmente lhe fazia sentir-se melhor, saber que não tinha de passar por uma enxurrada de sentimentos completamente sozinho. Ficar se sentindo solitário devia ser crime, mas as pessoas eram naturalmente solitárias, e talvez fosse mal de artistas ser assim; Demorou um tempo ainda para que o outro entendesse o seu gesto, mas respirou aliviado quando ele retribuiu o abraço em torno do seu corpo, sentindo o aperto mais firme de quem precisava se segurar em algo. Sentia-se mais aliviado, no fim das contas carregar esses sentimentos por muito tempo é pesado, e a pessoa acaba desmoronando quando menos se espera, mesmo que fosse com uma pessoa estranha, afinal tinham acabado de se conhecer: -- De nada. -- não negou o agradecimento do outro diante do seu abraço, e levou uma das mãos até os fios castanhos do outro, acariciando o topo da cabeça do outro, esperando que aquela onda de sentimentos ruins passasse: -- Leve o tempo que precisar pra melhorar, não precisa ter pressa. -- Respirou fundo, sabendo que aquelas crises podiam ser rápidas ou demoradas e dependia de pessoa pra pessoa, e não ia se afastar dali, até que ele quisesse se afastar. Era curioso como o alemão era naturalmente tímido para interações, mas quando alguém precisava de sua ajuda, tirava força de sabe-se lá onde pra poder ajudar, ou trazer alguma palavra de conforto. Talvez porque quisesse que alguém tivesse feito isso consigo antes, e por isso necessitasse fazer aquilo pelos outros, era uma forma de se salvar também, no fim das contas: -- Se lhe deixar mais tranquilo, eu vou morar na França agora, pra ser mais exato em uma cidade do interior num internato masculino chamado St. Clavier, então podemos marcar pra tirar as fotos em outro dia, e você vai poder estar com seu equipamento. -- Tinha prometido as fotos então cumpriria aquele acordo, não era uma pessoa desonesta e nem gostava de se sentir em dívida por nada, além de quê, queria imaginar que a partir dali estaria fazendo um primeiro amigo na França, e o novo país lhe pareceria menos hostil, do que tinha parecido nesses primeiros dias. Arman
Arman aproveitou da companhia alheia como raramente tinha feito, especialmente porque era um completo estranho com quem estava naquele instante. Mas conseguiu se acalmar mais rápido, e as palavras dele e a perspectiva pelo que tinha passado também lhe fazia perceber como seu caso poderia ter sido pior, mas ainda estava bem. Ele respirou fundo, afrouxando os dedos em volta do corpo dele, diminuindo a força também, até finalmente soltar os braços em volta do rapaz loiro. Passou a mão pelo rosto e pelo olho bom, limpando o rastro das lágrimas, recompondo-se um pouco depois da breve crise de ansiedade. Logo Berthold explicou que continuaria morando na França, e depois foi bem mais específico ao dizer que ia frequentar a Academia St. Clavier. Seria ironia se não fosse uma coincidência tão grande, e Arman acabou sorrindo, deixando o som de uma risada breve escapar entre os lábios. - É Cerise. Eu frequento St. Clavier, então teremos muitas oportunidades. - Arman respondeu, puxando o celular no bolso para conferir o horário. - Inclusive, eu preciso pegar o trem para voltar. Berthold
O loiro observou o outro se afastar e ele parecia ter retomado o fôlego ao menos, o que era bom, tinha sido um primeiro encontro bem intenso, podia dizer que o outro tinha lhe causado uma impressão bem diferente do que podia imaginar. Se o outro não lhe imaginava tão bonito, certamente que não esperava que o fotógrafo daqueles corpos desnudos estivesse passando por maus bocados no momento atual. Deixou que o outro se afastasse de si e voltou a se sentar na cama, encarando o outro, estava prestes a recolocar o par de óculos de grau, quando o outro ainda disse o nome da cidade para onde iria morar, e ainda especificando que frequentava o mesmo internato: -- Muita sorte num dia que parecia tão ruim. -- o alemão riu satisfeito da ironia dos acontecimentos, e concordou com um aceno de cabeça quando ele indicou que tinha de sair pra pegar o trem de volta a Cerise. Apenas aproveitou que o outro já estava com o aparelho celular, para trocaram números, assim seria mais fácil de manterem contato, já que ainda passaria uns dias em Paris antes de ir para a cidade do interior. Acompanhou Arman até a recepção do prédio que morava: -- Eu vou pedir socorro se acabar me perdendo por Cerise. -- brincou ao acompanhar o outro com o olhar enquanto ele pegava um taxi para a estação de trem. Apesar da chegada na França não ter sido nem um pouco agradável e mudanças lhe deixarem pessoalmente estressado, o dia tinha lhe rendido uma possível amizade e estava se sentindo bem por ter conseguido ajudar Arman. No final das contas ter se mudado talvez não fosse tão ruim quanto tinha imaginado. [thread encerrada] |