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[Drive] Novos Problemas, Novos Planos [Otheo; Fleur; Giulio] - Lil - 09-22-2021 Otheo
Não era sempre que Otheo acordava antes das dez da manhã, considerando o horário de funcionamento do bar. Embora estivesse um tanto cansado do trabalho na noite anterior e sentindo vontade apenas de que naquela noite pudesse passar as horas de sono agarrado com Giulio, prendeu as tranças em um rabo de cavalo alto e colocou uma camisa estampada, shorts coloridos e um tênis branco para fazer um caminho longo andando até a Antique. Naquela noite, celebraria o aniversário de Joel no bar, com todos os funcionários e clientes regulares, então a melhor opção, era que comprasse para ele uma torta de um dos sabores que ele gostasse. Com tantos anos de convivência, sabia o suficiente de Joel para arriscar lhe dar um bolo, e o suficiente da tia Margot para saber que ela prepararia um jantar gostoso, mas esqueceria o bolo. Otheo se abanou com um panfleto que ganhou no caminho até a loja, e então entrou na Antique com um tanto de calor, parando à porta e respirando fundo o ar mais fresco de dentro do estabelecimento. - Bonjou! – cumprimentou os funcionários, dando uma olhada na vitrine, que não tinha nenhuma torta inteira para sua infelicidade. Pensou em pedir para Fleur, mas tinha corrido por aí que Arman, o filho dela, tinha se envolvido em um acidente recente em St. Clavier. Não sabia se ela estava trabalhando regularmente. – Hmmm. E agora...? Fleur
Os primeiros dias depois do acidente trágico de Arman tinham sido estranhamente comuns, porque a despeito de todo o ódio da mãe protetora que era Fleur, para a academia, para o diretor, para a falta de segurança e para o tal aluno perturbado que tinha cegado o seu filho de um olho, Arman parecia estar bem, simples assim. Como qualquer outro aspecto da vida dele, ele levou o acidente com mais tranquilidade do que ela esperava, não parecia fazer muita diferença que ele tivesse com um olho cego, ou pelo menos, as coisas demoraram longos dias até que ele compreendesse a extensão do ferimento. Foi apenas depois de voltar a tirar fotos que Arman pareceu perceber o que estava acontecendo com a sua capacidade de visão e como o olho esquerdo tinha que se adaptar a enxergar novos níveis de cores, profundidades e distâncias. A crise que ele tivera em casa e que só Carbella tinha visto, Fleur só podia imaginar, mas por mais apático que Arman costumasse ser em muitas situações, ela conseguia perceber que ele não estava bem. O que mais lhe frustrava, era não poder ajudar em nada. Naquele dia, depois de algum tempo tentando lidar com a recuperação do olho, Arman tinha decidido ir a Paris por conta de uma exposição numa galeria que estava usando suas peças. Até tinha se oferecido para acompanhá-lo, mas tinha sido prontamente negada, talvez fosse bom para ele rever o trabalho, falar com outros artistas, ter novas perspectivas. Sozinha com a sua preocupação, com Dieter ocupado com o trabalho, assim como Carbella, a melhor alternativa para Fleur naquele fim de manhã foi ir para a Antique e se distrair com o trabalho. Quando ela chegou à padaria, já passava das dez da manhã. Cumprimentou casualmente alguns dos clientes regulares e seus olhos pousaram nas roupas extravagantes de Otheo, com quem não conversava havia algum tempo. O sorriso para a escolha do guarda-roupa do amigo foi mais genuíno. - Essa é uma visão incomum. Você nunca chega à Antique antes de mim, Otheo. - ela passou ao lado do moreno, para ir até o outro lado do balcão, cumprimentando os funcionários e indo preparar um café para si mesma. - Indeciso? Otheo
Como se por providência de algum dos seus deuses, ao invés de um cliente, enquanto refletia sobre como fazer para pedir uma torta inteira ainda para aquele dia, a própria Fleur entrou na loja, e abriu um largo sorriso para a presença da mulher, que logo assumiu seu lugar atrás do balcão como era natural. - Precisado. – Otheo respondeu prontamente, aproximando-se de onde Fleur estava para não tomar muito espaço na loja. Ele ocupava muito espaço naturalmente. – Bonjou, Fleur. É aniversário do Joel e não tem nenhuma torta inteira na vitrine. Sei que um Frankenstein de fatias seria gostoso igual, mas o rapaz merece algo menos de última hora. Mesmo... que seja de última hora. – Otheo explicou com um riso amarelo. – Acha que é possível fazer uma torta simples para ele para hoje à noite ainda? Otheo até faria cara de pidão, mas ele sabia que as circunstâncias dela eram mais complicadas que as suas. - Mas não precisa se não tiver tempo, soube que tem circunstâncias complicadas para lidar. Como está o seu filho? – Otheo questionou de um modo suave, um pouco preocupado. Fleur
Fleur organizou algumas coisas atrás do balcão num modo quase automático, dando algumas instruções aqui e ali para seus funcionários enquanto Otheo se aproximava de onde ela estava, explicando a situação que precisava de uma torta de última hora para o funcionário mais dedicado do bar. Ela sorriu para o homem exótico e conhecido de longa data. - Você deveria sair daqui sem torta para aprender a se programar. - ela reclamou, estreitando os olhos na direção dele. - Mas eu concordo que o Joel merece mais do que um chefe desnaturado. Acho que posso tirar alguns minutos do meu tempo para lhe ajudar. Ela já ia se virar para a cozinha para dar novas instruções, quando Otheo apontou que ela tinha passado por algumas circunstâncias complicadas com Arman. Fleur suspirou longamente, se virando para o balcão de novo e voltando a encarar Otheo. - Está bem, na medida do possível, tentando se reajustar. - respondeu Fleur. - Ele viajou para Paris sozinho esse fim de semana, para pegar umas peças que estavam em exibição numa galeria. Eu acho que- - Fleur parou a sentença no meio, suspirando longamente e apoiando os braços em cima do balcão. - Eu realmente não sei o que fazer para ajudá-lo, Otheo. - ela suspirou, numa expressão abatida. Levou as duas mãos até o rosto, pressionando os olhos antes de passar as mãos pelo cabelo, colocando-o para trás para tentar se recompor. - Bom, qual o sabor da torta que vai querer? Otheo
A expressão de Otheo claramente pareceu sentir a luvada direta na sua falta de planejamento, mas Fleur era muito maternal e boa de negócios para perder uma venda de uma torta inteira. Mas que merecia aquela, merecia. Joel de fato precisava ser mais respeitado, ainda mais depois do tanto que cuidou do bar sozinho enquanto ajustava seu ritmo com Giulio. - Eu mereço cada palavra. E você merece cada um dos meus centavos! Mèci, Fleur! Você é um anjo! – agradeceu, aproximando-se do balcão para ver os sabores de torta e pensar qual que Joel acharia mais gostosa. Fleur, discretamente, confessou que de fato aquele era um favor puxado, já que ela estava com dificuldade de lidar com Arman depois do acidente que ele teve em St. Clavier. Abriu um sorriso compreensivo para ela e estendeu a mão por cima do balcão, pegando a dela com carinho e apertando de leve. - Eu não sei se posso ajudar, madame, mas estou aqui se quiser conversar. Quem sabe se eu souber o que você está passando? Você é boa demais pra se preocupar assim sozinha. – deu um beijo breve no punho de Fleur. – E sabe, eu não sei se você ouviu por aí, mas meu namorado é um homem com treinamento em ouvir e dar conselhos direto no coração? Que tal assim: fraisier para hoje a noite, você está convidada para a festa do Joel, e se não puder, deixo sua fatia e pode vir à minha casa jantar comigo e Giulio e conversar? Hm? Fleur
Antes que Fleur pudesse pensar no que fazer primeiro atrás do balcão, Otheo lhe segurou a mão num gesto de apoio, o que ela não estava exatamente dispensando naquele momento. Ela só arqueou uma sobrancelha quando viu o beijo galante no pulso e se rendeu a uma risada breve. - Devia estar agindo assim com outras pessoas além do seu namorado, Otheo? - Fleur retrucou num tom de falsa acusação. - Sinceramente, eu não sei se eu ou qualquer outra pessoa pode ajudar o Arman agora, mas eu estou precisando de um ouvido amigo. Eu vou dispensar a festa do Joel por agora, obrigada, mas o que acha de irmos até a minha casa? Posso fazer a sua torta no conforto da minha cozinha e garantir que estarei em casa quando Arman voltar. Pode convidar o Giulio para nos encontrar lá também, não vou cobrar pelo lanche da tarde. Ela só esperou pela confirmação de Otheo para a sua sugestão antes de ir até a cozinha dar novas instruções aos funcionários da Antique e pegar alguns materiais para a torta que não teria em casa. A caminhada até o distrito residencial era longa, mas estava precisando de longas caminhadas e companhias para espairecer um pouco mais. Otheo
Otheo riu, afinal, deveria mesmo estar contendo os gestos muito carinhosos com Fleur. Embora Giulio fosse italiano, ele iria entender a afabilidade. O convite de Fleur entretanto foi para que fossem os dois até a casa dela, onde poderiam conversar confortavelmente. Provavelmente seria melhor para ela estar em casa para cozinhar. - Ah, isso quer dizer que vou ter a chance de observar e aprender sua receita? Pois aceito sim o convite. – Otheo falou, então pegando o celular para enviar uma mensagem para Giulio, convidando-o a lhe encontrar na casa de madame Johnson e lhe dando o endereço caso não soubesse. Supunha que não tinha que explicar muito, afinal, como professor de St. Clavier, ele era quem estava mais inteirado. Esperou a mulher pegar os ingredientes que faltavam e dar instruções aos funcionários para ficar livre para irem. Ofereceu-se para carregar a sacola e estendeu o braço a ela como um cavalheiro, embora bem soubesse que pela própria altura, segurar em seu braço as vezes era mais desconfortável que confortável. No caminho, conversou casualmente sobre os negócios naquele momento, e sobre o aniversário quase esquecido de Joel, e em um pulo, estavam na casa de Fleur, no aguardo de Giulio. - Bom, o bolo agora está a seu cuidado, Fleur. Não sei nada sobre confeitaria. Até o bolo de oferenda eu compro a vocês. Mas se me instruir, eu vou ser mais do que prestativo. – sorriu. Fleur
- Isso quer dizer que teremos chance de trocar algumas receitas. Está perto do horário do almoço, então você pode fazer alguma coisa enquanto eu cuido da torta. - Fleur se adiantou em propor a troca de serviços. - Mas eu já vou adiantando, mesmo que decore minha receita, só vai ser tão boa quanto a minha quando se tornar mãe, Otheo. Ela deu uma risada breve para o homem e aceitou o braço para seguir até em casa. A conversa no caminho foi mais tranquila e com assuntos banais que não pesaram tanto na mente já cansada da mulher. Quando chegaram à sua casa, ela abriu a porta e deu espaço para que Otheo entrasse primeiro com a sacola de ingredientes, seguindo diretamente até a cozinha. - Agora que estamos aqui, não seria divertido se Dieter chegasse e nos visse casualmente preparando a comida? Vocês ainda não tiveram a chance de se conhecerem por mim, pelo menos. - disse a loira, separando os itens para preparar a torta em cima da mesa grande da cozinha. - Fique à vontade para escolher um prato para o almoço. E pode usar o que quiser também da cozinha e dos armários, a casa é sua, Otheo. Ela deixou que ele andasse pela cozinha, e não sabia quanto tempo Giulio ainda demoraria para chegar ali, mas deu a volta na mesa para ficar de frente para Otheo enquanto começava a preparar a torta. - Bom, o quanto você já sabe sobre o acidente do Arman? - ela perguntou logo, sabendo que ele teria mais detalhes de como Arman tinha se machucado já que estava num relacionamento com Giulio que agora ensinava em St. Clavier. Seria mais fácil tentar explicar o que estava passando a partir dali. Otheo
Otheo ficou um pouco decepcionado que jamais faria um bolo tão bom quanto o de Fleur, mas podia impressioná-la com o almoço, se ela deixasse. Só precisava saber o que poderia cozinhar na casa dela, dependeria bastante dos ingredientes. Só fez questão de comprar um pouco de pimenta no caminho, afinal, dificilmente uma lady francesa teria uma pimenta ardida o suficiente sobrando na dispensa, mesmo que fosse uma boa cozinheira. - Dieter? Esse é o nome do felizardo? Tch. Homem de sorte, mesmo. – falou com uma leve indignação e a mão no peito, como se também não estivesse em um relacionamento. – Ficaria feliz de conhecê-lo, ainda não tive a chance. Se ele não for ciumento, claro. Não quero ser expulso a vassouradas. – Otheo falou, concordando silenciosamente com a cabeça quando Fleur disse que tinha liberdade para ver o que tinha ao redor e preparar algo para comerem. Acabou encontrando frango com osso e alguns ingredientes simples, e temperou o frango rapidamente, deixando-o descansar para preparar o arroz. Fleur pelo visto precisava mesmo conversar sobre Arman, pois não demorou para retomar o assunto. - Soube que outro aluno de St. Clavier machucou o olho dele. E que pelo visto o dano tinha sido imenso. Embora não conheça muito Arman, sei que ele é um artista, e muito reservado. Então imagino que tenha sido difícil para ele, e mais difícil para você. – comentou, então colocando o arroz em uma panela com alho e um pouco de óleo para fazer um arroz refogado. – Ah, também ouvi falar que os alunos andaram espalhando pela escola que você foi lá e deu um soco no diretor. Eu ri, mas esse rumor achei mais duvidoso. Fleur
Fleur conseguia se mover e fazer as coisas muito mais naturalmente em sua cozinha, claro, por isso enquanto Otheo se familiarizava aqui e ali, ela começou o preparo da torta com muito mais agilidade, todos os ingredientes em mãos sobre a mesa. Até ficou surpresa com a quantidade de informações que Otheo sabia do acidente de Arman, e acabou deixando uma risada breve escapar aos lábios quando ele duvidou da veracidade do rumor do soco no diretor. - Bom, eu acho que o diretor St. Clavier ia gostar de rir do assunto também, mas devia estar com o queixo dolorido. - Fleur comentou, só reafirmando a veracidade do rumor, e mesmo que sua atitude tivesse sido apenas passional, era bom lembrar da sensação. De todo modo, não mudava a situação com Arman. - Eu ainda achei que tinha sido um acidente quando ouvi a notícia, mas foi intencional, ele queria mesmo machucar o Arman, e a intenção dele fez o Arman perder a visão do olho direito. Eu descobri que esse aluno estuda há algum tempo em St. Clavier, é problemático, faz acompanhamento psicológico, claro que ele deve ser de uma família rica pra ficarem encobrindo as coisas, então… não me arrependo da minha conversa com o diretor. A mulher suspirou pesadamente ao lembrar da situação e se distraiu um pouco do preparo da torta. - Você conhece o Arman, Otheo, ele nem pareceu se importar com o olho machucado quando estava no hospital. E parecia que estava tudo bem nos primeiros dias que ele estava se recuperando e voltou para casa. Mas o médico avisou que ele podia sentir diferença e ter um tempo para se adaptar, além de esforçar mais o outro olho. - Fleur seguiu com o relato, agora muito interessada em observar os ingredientes da torta ao misturá-los. - Eu sabia que não estava bem, Otheo. Quase me deixei levar pelo jeito dele. Até chegar em casa um dia e encontrar Carbella com ele no ateliê. Todas as pinturas estavam jogadas e as coisas quebradas e rasgadas, Otheo… eu não lembro da última vez que me senti tão desesperada por não poder fazer nada. - mais um longo suspiro escapou aos lábios de Fleur e ela precisou parar a torta, levando as duas mãos ao rosto e pressionando o espaço entre os olhos. - Ele disse que não consegue mais pintar, nem tirar fotos, nem enxergar nada como antes. Eu não sei o que fazer pra ajudar. Otheo
Ficou surpreso em ouvir de Fleur que a história do soco do diretor tinha sido de verdade. Não era incomum que ouvisse rumores de todo lugar: trabalhava em um bar. Um professor bêbado, um aluno maior de idade, todos eram fontes de informação. E Giulio só precisava confirmar, se assim quisesse. Talvez um dia achassem que seu namorado era um fofoqueiro. Era bom tomar cuidado com isso. Otheo só não sabia muitos detalhes. Não tinha ideia de que tinha sido intencional, e que Arman tinha sido machucado pelo outro estudante de propósito. Pior era saber que além de proposital, o rapaz tinha conseguido tirar a visão do olho de Arman. Para ele, que trabalhava com fotografia e pintura e dependia bastante dos olhos, isso deveria ter sido um choque e tanto. Só que, como Fleur continuou explicando enquanto Otheo mexia o molho para por o frango, a situação enganosa de achar que a tranquilidade inicial de Arman era aceitação do que tinha acontecido. Na verdade, era só uma gradual percepção do que tinha acontecido. E supunha, como alguém que também apreciava arte, que quando ele retomou o que gostava e percebeu a diferença causada pelo olho, foi que sofreu o baque de verdade. - Bom, você está ao lado dele, já é bastante coisa, Fleur, por mais difícil que seja. – Otheo pensou, inchando as bochechas por um instante enquanto mexia o arroz na panela antes de deixar para ferver e secar, ao mesmo tempo que se movia para cortar algumas verduras. – Eu nem consigo imaginar como é difícil para o Arman. Se eu perdesse a audição de um ouvido e não conseguisse tocar mais como antes, eu ficaria frustrado. Mas sou um adulto. Ele está terminando os estudos agora, ainda tem muito o que desenvolver, eu só penso como deve ser complicado para ele. – falou, supondo que sentia certa empatia pela situação do rapaz. Era ainda mais difícil se conformar quando se era tão jovem. – Mas depois desse evento no ateliê, como ele está? No dia a dia mesmo... Fleur
Fleur sabia que não tinha muito o que poderia fazer para ajudar o filho a se recuperar naquela situação específica, mas era exatamente o que lhe deixava inconformada. Arman nunca tinha sido um rapaz muito expressivo, então ela tinha aprendido aos poucos como interpretar as reações dele e sabia que mesmo que parecesse bem, ele estava num lugar bem distante. - Eu sei que ele não está bem, e nem teria como, não é? Mesmo que o Arman seja daquele jeito calado, ele sempre ficava mais imerso nas fotos e nas pinturas, até falava demais quando estava interessado. - disse Fleur, levemente distraída entre os próprios pensamentos e o preparo do creme de recheio da torta. - Ele quebrou uma das lentes da câmera dele, nos últimos dias, não tem pintado nada, nem tirou fotos novas, se possível, está ainda mais quieto, só fazendo o necessário no dia-a-dia. Queria que tivesse algum jeito dele se sentir inspirado de novo, talvez seja mais difícil para ele do que era para o pai dele. Antes de seguir o preparo ou ouvir alguma resposta de Otheo, o som da campainha lhe fez deixar a torta de lado por uns instantes. - Seu namorado chegou mais rápido do que eu imaginei. Vou abrir a porta, pode continuar o almoço. - ela limpou as mãos num dos panos de prato para ir receber Giulio. Mesmo que não fosse a pessoa mais religiosa da cidade, até ela sabia quem era o jovem ex-padre de Cerise que tinha se tornado a conversa da cidade há alguns meses. - Olá, Giulio, espero que tenha sido fácil achar a casa. Ah, posso te chamar de Giulio? - Sim, Giulio está bom. Não foi difícil, e muita gente na vizinhança a conhece, acho que nem se eu tentasse, ia me perder. - Giulio sorriu amigável. - Otheo está aqui? - Está, pagando parcialmente pelo meu serviço com o almoço, se quiser se juntar a ele. - Fleur fez um aceno na direção da cozinha. - Por favor, fique à vontade. - Obrigado, madame. - Eu sei que sou mais velha do que você, mas não precisa apontar. - respondeu a mulher, fechando a porta depois que Giulio passou, com uma expressão sem graça. - Pode me chamar de Fleur. - C-certo, Fleur. Com licença. Otheo
Sabia que no caso de Fleur, se Arman já era um enigma no dia a dia, agora ele tinha se tornado um quebra-cabeças muito difícil de montar. Mas surpreendeu-se de saber que ele tinha também seus acessos de fúria, porque era só assim que podia enxergar a lente quebrada, ou evitar as artes que lembravam a ele a visão que perdeu de um olho. Não sabia bem o que sugerir, senão talvez ele ter contato com algumas exposições de artistas em posições semelhantes? Será que conhecia alguns? Pior era pensar nesses casos e indicar a Arman sem parecer exatamente um tipo de auto-ajuda que seria pior que melhor no caso dele. Mas enquanto pensava, a campainha anunciou a chegada de alguém, que logo confirmou ser Giulio. Aproveitou que não estava fazendo nada além de colocar os pedaços de frango para cozinhar no molho e lavou as mãos para ir também receber o moreno. - Giulio, bem vindo. – Otheo falou da entrada, abrindo um largo sorriso para o namorado. – Venha nos ajudar no almoço. – falou, puxando uma cadeira à mesa para o moreno sentar, colocando uma tábua sobre a mesma e dando uma faca e alguns legumes para ele cortar. – Desculpe lhe fazer trabalhar assim que chegou. – riu, deixando um beijo breve sobre o topo da cabeça do namorado. – Fleur está fazendo um bolo para o aniversário do Joel. E eu estou aqui fazendo companhia, ouvindo sobre o Arman, lembra dele? Fleur, será que ele se sentiria disposto em ver algumas exposições de artistas que tiveram que se readaptar também...? Fleur
Giulio foi pego logo no embalo da cozinha de Fleur, sentando-se na cadeira depois de cumprimentar Otheo brevemente com um sorriso e sendo instruído a cortar os legumes. Mas embora tivesse se adaptado rápido à atividade de fazer a comida depois de colocar a bolsa com materiais de aula pendurada no encosto da cadeira, se viu no meio da conversa que Otheo e Fleur tinham começado sem ele, e só pelo comentário de Otheo foi que ele demorou alguns segundos para assimilar que era de Arman que estavam falando. Era difícil não lembrar dele quando trabalhava em St. Clavier e a situação do rapaz tinha se difundido em mil e uma versões entre os alunos da academia. - Ah, sim, eu lembro… - Giulio só teve o tempo breve de concordar, enquanto começava a cortar os legumes, voltando a atenção para Fleur que estava preparando a torta e deu de ombros. - Nesse ponto, Otheo, eu acho que não custa tentar, o que quer que seja. Se conhecer esses artistas, me avise, posso passar pra ele, ou se você quiser conversar com ele pessoalmente. - Arman é um artista, não é? - perguntou Giulio. - Ele não tem aulas comigo, mas eu soube o que aconteceu. É verdade que ele perdeu mesmo a visão de um dos olhos? Deve estar sendo difícil se adaptar. - Sim, é verdade. - Fleur suspirou. - Ele teve sorte que não foi nada mais grave, afinal, o outro rapaz furou o olho dele e podia ter ido mais longe. Ele ainda enxerga bem com o outro olho, só precisa… se achar. Como mãe, é difícil ficar só esperando. Otheo
Otheo seguiu cozinhando o ensopado que almoçariam, finalmente juntando tudo para os sabores se misturarem de verdade. Era bem ágil fazendo a comida, afinal, tinha anos de experiência cozinhando no Mary Stigmata quando não estava no comando do piano ou do bar. Uma pena que a comida não fosse ser tão saborosa, considerando a preocupação de Fleur, que deixaria qualquer um sem sentir o bom sabor dos alimentos. Queria ter outra forma de ajuda-la, mas o caso de Arman era complicado. - Não fale como se você estivesse só esperando, Fleur. Você está preocupada e procurando formas de ajudar o seu filho. Lembre que são os olhos do Arman, e é ele quem tem que se readaptar gradualmente. Em alguns momentos só o que você vai poder fazer é esperar, é muito difícil mesmo. – Otheo comentou com um tom leve, embora fosse bem honesto nas palavras. – Ele está se recuperando, e vai se achar. Vou pedir muito a Erzulie, e se ela não quiser atender uma mãe que se preocupa com o filho, Ogou vai. Otheo mexeu um pouco a comida, pensativo. - Eu acho que, como artista, talvez ver outras perspectivas possa ajudar. Nem que seja para tirar o foco dele da mudança da visão... – ponderou. Fleur
Fleur seguiu preparando a torta mais lentamente do que de costume, distraída entre a comida, o pensamento em Arman e as sugestões que Otheo lhe lançava. Ainda sentia-se muito incomodada pelo estado do filho, mas era bom poder conversar com outras pessoas que lhe ofereciam alternativas, e principalmente que lhe reforçavam que ela estava, sim, fazendo algo pelo filho, mesmo que não parecesse ter tanto retorno quanto ela gostaria. - Falando como italiano, posso dizer que não tem nada mais forte do que o desejo de uma mãe proteger o filho. - Giulio adicionou, tocando de leve no ombro de Fleur que estava ao seu alcance na mesa, recebendo um olhar quase curioso da mulher de volta. Mas ele logo retornou aos vegetais e virou o rosto brevemente para Otheo. - Otheo está certo, você está fazendo mais do que só esperar, e até o Arman deve sentir a sua dedicação. E se voltar ao mundo das artes deixá-lo mais frustrado porque não consegue se adaptar muito rápido, por que não testar outras perspectivas em geral? O Arman segue a carreira de artista há muito tempo? - Desde antes de achar as fotos do pai dele no meu guarda-roupa. - Fleur respondeu, esquecendo um pouco do preparo da torta. - Ele tira fotos e pinta há tanto tempo que eu nem sei o que sugeriria para ele além disso. - Eu não estou dizendo que ele não vai voltar a pintar ou tirar fotos, mas pode ser uma boa oportunidade para ver que o mundo dele não precisa se resumir a isso. Se seguir em contato com o mundo das artes o deixa incomodado, que tente outras coisas. - Giulio seguiu com o trabalho, tanto distraído com os vegetais quanto Fleur e a torta. - Por que não faz alguma coisa com ele também? - Alguma coisa com ele? - o questionamento de Fleur foi bem num tom de confusão. - Eu nem sei o que faria com ele nessa idade. Otheo
Sorriu para a afirmação do namorado sobre família. Giulio era o italiano mais discreto que conhecia, mas supunha que ele tinha seus laços muito fortes com os familiares. As palavras dele eram boas também, de alguém que estava acostumado a confortar pessoas. Os anos de igreja com certeza tinham contribuído, e o trabalho voluntário reforçava essa empatia. Giulio inclusive fazia um bom ponto sobre Fleur participar da vida de Arman agora, no começo. Achar algo que os dois pudessem fazer juntos, para que ela voltasse a se aproximar dele, era uma boa sugestão. Afinal, uma das preocupações da mulher era que ela não sabia como lidar com Arman agora. Imaginava que depois de adulto como era o caso dele, era mais difícil para se aproximar e pedir para ele se abrir ou coisa parecida. - Talvez ele esteja velho para livros de colorir, mas existem muitas coisas que vocês podem fazer juntos. – brincou, aproximando-se de Fleur um tanto pensativo. – Eu gosto da sugestão de Giulio. Outras atividades podem tirar o foco da arte e mostrar a ele novas perspectivas... além de serem momentos em que vocês possam interagir melhor. – ponderou. – Pode ser só uma volta em um bairro que nunca tenham ido... ou até uma cidade vizinha. Algum festival próximo. Dá pra fazer trabalhos voluntários, ou construir algo juntos na cidade. Acho que vai ser importante vocês estarem juntos mais um pouco agora. E talvez traga algum alívio pra você, acompanhando Arman ainda mais de perto, talvez. Otheo pensou, e então tirou do fogo a comida, colocando-a para servir à mesa. - Bom, mas não vamos pensar nisso de estômagos vazios. Fleur
Fleur não voltou ao preparo da torta de imediato, a mente agora divagando entre o que podia fazer por Arman e o que podia fazer com ele. Otheo também concordou com a sugestão de Giulio, e antes que ela pudesse pensar mais sobre o que sugerir, foi o ex-padre que pareceu muito interessado em algum dos comentários de Otheo. - Ah sim, dá pra fazer trabalhos voluntários! - a empolgação de Giulio foi notável tanto no tom quanto no olhar. - Não sei se ele já teve a chance de visitar o orfanato na cidade? Acho que as crianças iam gostar de desenhar e pintar com um artista de verdade, o que acha? Ah, mas eu acabei de sugerir uma coisa longe das artes. - ele voltou uma das mãos ao queixo, de modo pensativo. - E o que ele acha de ONGs? Eu tenho visitado alguns lugares que precisam de ajuda por conta das situações extremas, nós costumamos levar comida e roupas e ajudar nos locais atingidos por desastres naturais ou em situação de tensão política. Ajuda extra é sempre bem-vinda! Você e o Arman podiam ir também, eu posso indicar alguns… Giulio só cessou a empolgação quando deu conta da expressão um pouco surpresa de Fleur e a sugestão de Otheo de que era melhor não pensarem demais com o estômago vazio. O rosto do ex-padre assumiu um tom um pouco avermelhado e um sorriso sem graça. - Desculpe, acho que me deixei levar demais. - ele adicionou, notando que não tinha terminado a sua parte muito simples do almoço. - Eu só vou terminar isso aqui. - Não precisa se desculpar, eu agradeço pela sugestão, qualquer ajuda é bem-vinda. - respondeu Fleur com um sorriso amigável. - Bom, vamos aproveitar o almoço do Otheo e eu termino a sua torta depois. E Giulio, veja se dá um jeito nesse seu homem que esquece o aniversário do melhor funcionário que tem e quer resolver tudo de última hora. A única resposta de Giulio foi sorrir sem graça para o comentário de Fleur e ele ajudou Otheo a servir o almoço enquanto Fleur deixava os materiais da torta descansando antes de voltar ao trabalho. [thread encerrada] |