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Let's (finally) be friends [Leona] - Eveline - 09-25-2021 Eveline
Fazia já um certo tempo que estava na cidade aproveitando a amiga, mas a policial sentia também que algo não estava certo. Não conhecia bem aquela que dividia o apartamento com Carissa, sabia que deveria tê-lo feito a mais tempo. Não era muito entendida do tal "traquejo social", mas entendia que havia uma certa hostilidade por parte da loira e que deveria se aproximar da mesma de alguma forma. Naquela tarde comum, ao final do expediente, não esperou a amiga e sim foi até a mesa daquela conhecida como "lioness", pousando a destra ali, observando Leona dando conta da papelada. Seu olhar como sempre era frio, inexpressivo. Mas naquele instante, pareceu se esforçar. - Mais tarde. No seu apartamento. Vamos assistir um filme. Juntas. - e um sorriso mínimo, quase imperceptível se fez presente. Talvez aquilo fosse o suficiente, talvez não. Mas estava tentando e sabia que aquilo daria bons frutos. Ao menos Carissa ficaria feliz ao saber que Eveline queria se dar bem com outras pessoas. Leona
A loira estava se acostumando com a rotina de Cerise, e era algo que a preocupava, tinha receio de ficar “enferrujada” ou mesmo “mole” em uma cidade onde pouca coisa acontecia. Então tinha dedicado seus dias para buscar rastros de investigações e coisas para se ocupar. Não tinha feito amigos na delegacia, porque a maioria dos oficiais gostava do ritmo calmo e tranquilo, e achavam na loira um problema a “tara por trabalho” como gostavam de falar nos corredores. Tinha Carissa com quem dividia o apartamento, contas e etc, era uma companhia as vezes irritante, mas na maior parte das vezes bem mais agradável que todo o resto da cidade. Mas claro, tinha se esquecido completamente que ela tinha uma amiga que agora morava e trabalhava ali, ou melhor, talvez fosse da natureza da oficial ter aquele perfil tão “apagado”. Ouviu o comentário, direcionado a si, e estranhou, a primeira reação foi franzir as sobrancelhas o que lhe deixava com uma expressão mais irritadiça do que a costumeira. Olhou para a mesa onde Carissa trabalhava para se certificar de que não era pra ela, e só então voltou a atenção para a mais nova: -- O apartamento não é meu, é da Carissa. -- Pontuou aquilo, porque de fato, não podia ficar convidando gente pra dentro de casa, assim do nada, porque não era sua casa, e sim de Carissa: -- Mas não acho que ela vá se importar se você for, pode ser. Mas eu ainda vou demorar aqui, antes de sair. Explicou seu ponto, voltando ao trabalho que estava resolvendo. Nem perguntou o filme, porque já imaginava que ia ser alguma coisa de ação policial, do tipo que não fazia o menor sentido. Suspirou sem perceber. Eveline
Piscou algumas vezes, arqueando ambas as sobrancelhas - mas ainda com aquela falta de expressão típica -, verdadeiramente surpresa com a resposta. Havia conseguido uma resposta positiva tão rápido?? Talvez a convivência com Carissa e a pouca que tivera com Jack tivessem feito a policial ganhar um pouco do tal "traquejo social" que a acusavam de não ter. Assentiu enfim com a cabeça, puxando a cadeira e sentando-se ali sem pensar duas vezes. - Sei bem que a casa é da Carissa, mas vocês vivem juntas, como um casal. - falava aquilo casualmente, sem ver maiores problemas com a afirmativa. Continuou - A casa acaba sendo tão sua quanto dela. - olhou rapidamente para a papelada que a loira mexia, antes de voltar a encará-la - Eu espero. E ali ficou, parada. Pensativa. Levou o indicador até o queixo, pondo-se a pensar nos títulos que poderiam apresentar a mais velha. Só assistia filmes com Carissa e sempre eram policiais. Achava meio óbvio Leona conhecer a maioria. Mas se arriscaria no último que estava para ver, dessa vez sozinha. - Como moramos no mesmo prédio, vou passar em casa para pegar o filme. Esse filme nem Carissa viu ainda. Vou deixar com você, para quem sabe você assistir depois com ela. - dizia, tentando ser o mais simpática possível com aquele olhar de peixe morto. Estava orgulhosa de si mesma por estar mantendo um assunto com outra pessoa, conversando tanto. Carissa também ficaria orgulhosa. Depois da experiência, definitivamente compartilharia com a outra policial. Leona
Imaginava que depois do seu comentário a mais nova fosse sair, ir para o apartamento dela, fazer qualquer coisa e não ficar exatamente sentada do seu lado, esperando que terminasse seu horário de trabalho. Revirou os olhos, ciente de que teria de aturar a outra, já que tinha acabado seu horário, ela não tinha qualquer obrigação de ajudar. Respirou fundo, juntando a pilha de papéis, e guardando em uma das gavetas de sua mesa. fez anotações de números de telefones que precisavam ser confirmados e pessoas serem contactadas: -- Não precisa esperar, eu faço o resto amanhã. -- comentou a contragosto, e lançou um olhar de reprovação quando ela comentou como se as duas fossem um casal: -- Mesmo que fossemos, o que não é o caso, isso não seria algo pra ser conversado em local de trabalho. -- Desviou do assunto, porque a última coisa que queria eram fofocas sobre si no departamento de polícia sobre seus relacionamentos amorosos. Além de ser norma, que policiais não devem se relacionar, para não causar problemas em investigações policiais. -- Em casa, pedimos janta, eu não cozinho. E aproveitamos pra deixar pra Carissa, que vai pegar o turno noturno e vai chegar tarde em casa. -- apenas lembrou de mandar mensagem pra Carissa avisando do ocorrido, até porque apenas avisava quando ia assistir algum jogo de algum dos seus times, e não costumava assistir filmes ou seriados, então, a morena mais nova provavelmente estranharia. Foi para o seu próprio apartamento, deixando que Eveline seguisse para o seu, e apenas atentou-se de tomar um banho e tirar a roupa de trabalho, e colocar algo mais confortável. Como era verão, optou por um short de babydoll e uma blusa dos NYCs, que era sua companheira para assistir TV. Esperaria Eveline para saber que tipo de comida pedir, enquanto isso, lembrou de por ração e água para a bola de pêlo que dividia o apartamento com as duas oficiais, pegou o bichano no colo, avisando-o: -- Olhe, vamos assistir um filme hoje, novidades na minha vida Kit, não na sua é claro, porque você sempre assiste com a Carissa. -- devolveu o gato para o chão em seguida, sacudindo a cabeça negativamente: “devia está trabalhando”. Eveline
Como era péssima lendo outras pessoas, não entendeu o porquê de Leona ter ficado irritada. Ela estava de fato irritada? Não via problema algum em esperar, afinal, já havia adiantado o serviço. E falar sobre Carissa a incomodava? Estava ciente que existiam certas restrições sobre conversas no trabalho. Sabia identificar bem um assédio, mas… desde quando falar sobre o relacionamento das duas era proibido? Bom, deu de ombros. Não falaria mais nada a respeito enquanto estivessem ali. Por não ter o menor tato com outras pessoas, preferia evitar conflito para não irritá-las ainda mais. - Certo. Estou ansiosa. - e de fato estava, muito embora seu semblante dissesse o contrário. Após aquela conversa, arrumou suas coisas e seguiu para seu próprio apartamento. Tomou um banho e trocou de roupa. Vestiu um short jeans e uma camiseta regata branca. Nos pés, sandálias de casa. Não tinha pra quê se arrumar para ir até a casa ao lado, mas ainda passou alguns minutos frente ao espelho se perguntando se deveria. Não sabia as “regras” que deveria seguir, lidar com pessoas era difícil. Suspirou, resignada, desistindo enfim de tentar tão duramente e seguiu até onde a loira estaria. Aquela pequena reflexão frente ao espelho ocasionou um atraso de poucos minutos, mas nada muito exorbitante. E lá estava Eveline, apertando a campainha do apartamento de Carissa para assistir filme com Leona. Estava apenas com o DVD em mãos. Leona
Não restava muita coisa para a loira fazer além de esperar, não podia começar nenhum trabalho, e nem tinha nenhum jogo passando na TV, nem a reprise pra poder se entreter, ainda assim, ligou na ESPN e ficou assistindo homens velhos falando sobre futebol de 30 anos atrás enquanto Eveline não chegava. Quando escutou as batidas na porta, abriu a mesma dando passagem para a mais nova: -- Você demorou, quase pensei que tinha desistido. -- comentou apenas a critério de reclamação porque era de sua natureza: -- foram 7 minutos de atraso. Fechou a porta depois que a mais nova adentrou no espaço, deixando-a livre para escolher onde ela se acomodaria, mas pouco antes da morena com pouca expressão de fato se mover dentro do apartamento, kitty se moveu de forma ágil dando um bote na perna da mais nova, com arranhões pouco impactantes e depois correndo para trás do sofá novamente, como se esperasse que a nova visitante fosse brincar com ele: -- Kitty! Se comporte! -- a loira reclamou com o gato respirando fundo e pondo as mãos na cintura: -- Vamos pedir comida antes de assistir porque é o tempo da comida chegar, se esperarmos o filme acabar, vamos acabar é com fome. Eveline
Assim que a loira a atendeu, se surpreendeu com o sermão, erguendo os ombros mas como sempre, não esboçando nenhuma expressão muito evidente. Apenas assentiu com a cabeça, aceitando o próprio erro enquanto entrava no apartamento alheio, estendendo o dvd para mostrar que não havia esquecido do mesmo. - Eu acho que você vai gostar do filme porq-- - fora interrompida com aquele bote súbito em sua perna. Virou-se para o bichano e sua reação acabou sendo bastante explícita devido as bochechas rosadas. - Kitty… Se agachou, vendo onde o gatinho havia se escondido. Sorriu quase que imperceptivelmente, gostando da presença do animal ali. Sim, Eveline era uma amante de gatos - talvez por se comportar como uma. - Gosto de gatos, não precisa se preocupar. Posso brincar com ela enquanto esperamos a comida. - sorriu uma última vez pra felina, levantando-se para se dirigir enfim até o sofá. - Pensei em pedirmos uma pizza… tudo bem para você? Leona
Encarou as reações novas que jamais tinha visto no rosto da amiga de Carissa, e era verdade o que diziam sobre pessoas introvertidas, elas eram como animais, se davam bem com outros animais. Observou quando a menor se levantou e seguiu até o sofá indicando para pedirem uma pizza. Como toda boa novaiorquina, Leona era expert em pedir comida, então puxou o aparelho e buscou na lista de locais de comida confiáveis para pedir: -- Quais sabores você come? Você não é do tipo vegetariana, “não vou comer bixinhos porque gosto de gatos e cachorros” não é? -- a loira falou em seu usual tom ranzinza, mas sem de fato estar chateada ou irritada era apenas seu jeito amistoso de ser. Kitty fez charminho sem sair de debaixo do sofá inicialmente e apenas quando a visitante ousou ir até seu sofá o gato deu outro bote nas pernas da convidada para logo após voltar para seu esconderijo debaixo do móvel. Ficou de lá acertando mortalmente com suas patinhas felpudas a fim de expulsar a intrusa de seus domínios. Eveline
Balançou a cabeça negativamente quando ouviu a pergunta da outra: - Não, não… eu gosto de animais e me dou bem com alguns. Mas não sou vegetariana. Acho que não conseguiria viver sem carne. - soltou a observação por último, surpreendentemente bem-humorada. Ainda que praticamente imperceptível, para quem convivia com Eveline no trabalho seria relativamente fácil notar as discretas expressões no semblante da jovem - Gosto de pizza de atum e carne-seca. Mas não tenho frescura quanto a sabores diferentes. Se assustou ao receber o bote na perna, mas não saiu do lugar. Curvou o torso, ainda sentada, para observar o bichano estressado. Brincava com ele dedilhando o pé do sofá, como se o chamasse para oferecer carinho. Enquanto Leona estava no telefone, algo lhe passou pela cabeça. - Leona, acho que nunca perguntei para você… - voltou a sentar com a postura normal - ...você gosta de morar com a Carissa? Leona
Estava ao telefone ouvindo o atendente repetir a lista de sabores que já conhecia desde a primeira vez que tinha ligado, mas que o mesmo repetia por “ordens da empresa” e pediu a mesma coisa que pedia sempre para si e Carissa, algo com carne, queijo, presunto, bem servido, e olhou de esguelha, pensando que a carne seca da França conseguia ser bem ruim pro seu paladar desfuncional. Estava prestes a resolver a forma de pagamento quando ouviu a pergunta nada convencional, mas extremamente comum da outra: -- Quê? Ah… não, certo, mande a maquininha, sim, o endereço que tá cadastrado… -- desligou o aparelho, e encarou a mais nova com um olhar desconfiado pela pergunta lançada sem qualquer preparação: -- gostar não é bem a palavra, é cômodo, confortável, não posso dizer que eu desgosto, eu morava num apartamento pequeno em NY, só a casa do meu pai que é grande, mas no geral, eu me adapto fácil a rotinas, e apesar de tudo indicar o contrário, Carissa é muito organizada com a própria rotina. -- Comentou jogando os fios longos soltos atrás dos ombros e buscando algo na geladeira pra beber: -- você bebe cerveja? se não, têm suco e água. -- comentou tentando continuar conversando. Kitty depois de vinte centavos de insistência e depois de cheirar de forma arisca na direção dos dedos da invasora, resolveu dar a oportunidade da mesma provar seu valor e tocar seu belíssimo pêlo. Eveline
Prestou atenção em tudo minuciosamente, desde a desligada do telefone até - principalmente - a resposta para sua pergunta. Parecia um felino curioso. Lembrou de outro loiro conhecido, Jack, sabendo que Leona também o conhecia. Imaginou por um segundo a dinâmica dos dois considerando a personalidade do loiro e sabendo que a leoa não deixaria passar um comentário sequer do outro. A cena em sua cabeça acabou sendo hilária, o que a fez sorrir, mais uma vez, quase que imperceptivelmente. - Entendi… então você gosta dela… - não especificou o gostar mas para a policial, já estava implícito que o gostar era de amizade, de estar com ela. Assentiu com a cabeça em resposta a segunda pergunta - Sim, bebo cerveja. Só sou um pouco fraca para álcool. Quando a gata se fez presente, não hesitou em acariciá-la enfim, divertindo-se bastante em poucos minutos ainda que não expusesse aquilo em seu semblante. Enquanto fazia carinho no bichano metido, sentiu curiosidade e quis fazer mais perguntas. - Leona… você já criou laços com pessoas que já trabalharam com você, laços estes tão fortes a ponto de não querer se separar…? - a pergunta saiu com um quê de melancolia, mas novamente, nada mudou no rosto da jovem. Leona
Não sabia exatamente onde toda aquela conversa iria chegar, em verdade preferia quando as pessoas eram diretas consigo, porque não gostava de ficar lendo elas, além do necessário fora do trabalho, além de ser desgastante pra cabeça da policial, ainda era invasivo com o espaço pessoal do outro. Respirou fundo quando a mais nova chegou a conclusão que a loira gostava de Carissa, nunca disse que desgostava dela, em verdade convivência era mais agradável do que a ideia parecia no começo daquele arranjo todo. Se surpreendeu com as respostas de Kitty a morena mais nova, e torceu a expressão numa mal humorada: “gata traíra”, resmungou para si mesma, indo até a geladeira para buscar um par de latas de cerveja, bem em tempo de escutar aquele comentário sobre criar laços, fechou a porta do congelador num sonoro paft, e espiou com mais atenção as expressões de Eveline, conseguindo ler claramente que aquela pergunta tinha uma roupagem bem diferente das demais: -- Não sei, “laços” é bem vago, que tipo de laço? Forte como? E qual o motivo da separação? Mudança de emprego, mudança de moradia? -- fez uma breve pausa para estender a lata de cerveja na direção da outra bem em tempo de completar o próprio comentário: -- … morte?! Esperou que a mais nova pegasse a lata em mãos, para sentar na poltrona na diagonal da mais nova, em local que poderia observá-la melhor e dar-lhe espaço necessário, não sabia de quê, mas estava com um pressentimento estranho do rumo daquela conversa, então era melhor se manter atenta. Eveline
Brincava com a gata que finalmente havia lhe dado espaço para fazê-lo, acarinhando-a dos pés à pontinha do rabo, dando a atenção que o animal provavelmente queria. Parou apenas para voltar a sentar devidamente no sofá, aguardando o retorno da loira. Eram muitas perguntas, mas responderia todas. Pegou uma lata de cerveja e a abriu sem muita dificuldade, dando o primeiro gole. - Eu nunca criei laços com ninguém. Nunca tive bom traquejo social. Sempre fui apelidada por várias coisas, justamente por não saber lidar. E bem, nunca entendi que eram coisas ruins. A Carissa… é minha primeira, única... e preciosa amiga. Quero que sinta orgulho de mim e veja que estou dando meu melhor. Me esforçando. Não por ela… mas por mim. Falar demais era uma visível tortura para a policial de cabelos curtos, dando uma larga golada na bebida antes da pizza chegar. Estendeu o braço para pegar o filme, deixando-o sobre a mesa de centro, indicando que talvez já fosse a hora de assistí-lo. - Depois que vim para Cerise me reencontrar com Carissa, vi que ela estava bem… com você. Tinha conseguido uma outra amiga, que a protegia. Não só você, sabe? Tem todos do trabalho, o vizinho grisalho, o seu amigo alto, Jack. Tem também a tal Talulah, que eu só vi uma vez. Enfim… Respirou fundo mais uma vez. Parecia nervosa. - Carissa não precisa mais de mim. Não vigiando-a vinte quatro horas. Ela tem pessoas que cuidam e gostam dela. Por isso, tomei uma decisão… - retirou do bolso do short um papel amassado, estendendo-o para a loira. Estava com um olhar determinado - Fui mais uma vez convidada para participar do UCLAT, Leona. E dessa vez… vou aceitar. Quero falar isso para a Carissa, mas antes… precisava ter certeza. Que vocês… eram amigas. Falar tanto assim como não era acostumada, cansou a mais baixa. Foi alisar a gata mais uma vez, para depois tomar uma golada da cerveja - cerveja esta que estava definitivamente ajudando-a a colocar tudo o que precisava para fora. Leona
Ouviu a fala completa da mais jovem, até parecia que o ato de abrir a latinha, Eveline tinha aberto a própria boca, estava cansada do trabalho e não queria ficar avaliando demais o perfil da mais nova. Afinal, fazer seu trabalho fora do trabalho, não era nada saudável, então ia se dar ao luxo de dar a própria opinião de forma despretensiosa, se isso for ter um impacto negativo ou não na mais nova, não era a terapeuta dela pra poder medir o estrago daquilo: -- O engraçado é que você fala como se a Carissa fosse uma completa incompetente e não conseguisse fazer absolutamente nada sem ajuda de qualquer outra pessoa. O que você, sendo amiga dela, deveria saber melhor que ninguém que ela não é. -- Abriu a própria lata de cerveja, tomando um generoso gole, sentindo mais o álcool do que o gosto da mesma descer garganta abaixo: -- O fato é, a Carissa veio pra Cerise, só, arrumou esse apartamento, trabalhou duro, e se virou muito bem, sem você e muito bem antes da minha chegada, e faz o trabalho melhor que qualquer outra pessoa na delegacia, e isso é mérito só dela, não é da ajuda de qualquer terceiro não. Pontuou aquilo, olhando o filme estendido em sua direção, e deixando a lata de lado para pegar a caixa de DVD e e ligar a televisão e o aparelho, para ao menos deixar o mesmo no menu de iniciar antes de fato de começar a assistir a pizza nem tinha chegado ainda: -- Agora sobre a sua decisão de ir pra UCLAT, eu me pergunto o que isso têm haver com a Carissa, afinal, porque a sua vida, teria de ser dependente da dela? Olha, eu não sou sua amiga, e nem lhe conheço a muito tempo, mas pra mim, essa justificativa é “bullshit” -- Voltou a pegar a lata de cerveja tomando outro gole generoso, e sentindo-se mais relaxada até: -- Você acha mesmo que indo pra UCLAT você vai está fazendo algum benefício pra Carissa? ela vai lhe desejar boa sorte, vai ficar um pouco triste com a sua partida, mas a vida dela continua, e você? Vai aceitar um trabalho super exigente do seu estado mental e emocional com essa mentalidade infantil, digna de uma aluna de colegial? Eu nunca trabalhei lá, mas dizem que é o equivalente ao nosso FBI, e eu posso dizer por experiência própria que não é um trabalho leviano, que você possa ir lá, achando que vai fazer menos do que você faz em uma delegacia de uma cidade de interior. Se for tomar alguma decisão importante sobre sua vida, justifique isso em cima de você mesma, e não em cima dos outros, e esteja ciente do impacto disso, senão é apenas bobagem melodramática. Girou a mão fazendo um gesto breve, até ouvir a campainha tocar, era o entregador de pizza, puxou a carteira e se levantou para pagar, deixando sua latinha de cerveja pela metade em cima da mesa de centro. Eveline
Não se sentiu ofendida com nada que Leona lhe dissera, pelo contrário. Aquilo foi um tapa na cara completamente necessário que acabou fazendo a policial abrir os olhos. Obviamente ficou envergonhada, mas nada falou, apenas a escutou até o fim, acompanhando a loira com o olhar. Carissa ainda era um tabu, falar da amiga ainda a fazia se perguntar muitas coisas, perguntas estas que foram parcialmente respondidas com todas aquelas verdades doloridas proferidas pela mais velha. Embora não se considerasse tão ingênua e infantil como a outra dissera, concordou que estava subestimando Carissa. Concordou também que não tinha mentalidade para aceitar um trabalho que exigia tanto como na UCLAT se a justificativa fosse a Carissa e não a própria Eveline. Cerrou um punho, mas o interessante foi: continuou encarando Leona, não desviou o olhar um segundo sequer. Era possível notar pequenas reações, tão imperceptíveis que uma pessoa que não a conhecia sequer notaria: frustração, reflexão, irritação. Mas no final, relaxou os punhos e respirou fundo, resignada. Apenas quando Leona parou de falar que desviou o olhar. Ignorou o filme que passava e pensou em respondê-la de imediato, ao ouvir a campainha tocar. Esperou que a mulher atendesse a porta, levantando-se e enfiando a mão no bolso do short, retirando dinheiro dali. Pagaria a sua metade. Se aproximou de Leona para ajudá-la com a pizza e entregar o dinheiro. Parecia pensativa, mas não demorou para entreabrir os lábios e enfim se pronunciar ante tudo aquilo: - Obrigada Leona pela sinceridade. - continuou - Me fez perceber que… a única pessoa presa aqui sou eu. Carissa é uma ótima amiga, com um ótimo potencial. Mas não posso tomar uma decisão tão importante me baseando nela… todas as minhas decisões desde que a conheci, foram baseadas nela. Até vir para Cerise. E isso… isso não é algo que eu possa me orgulhar. Não é maduro e estou colocando uma responsabilidade inexistente nos ombros dela. Preciso começar a agir mais por mim e menos pelos outros. O problema nunca foi a Carissa, podia ser qualquer pessoa… que estivesse comigo naquela época. O problema de fato, sou eu. - falava aquilo com certa melancolia. Mas permanecia firme - Você é uma boa pessoa, Leona. Mais uma vez, obrigada por me fazer ver. - sabia onde ficava os pratos, retirando dois do móvel - Então… vamos comer essa pizza enquanto assistimos ao filme? Leona
Nem precisava usar dos seus conhecimentos de perfiladora pra saber que as palavras que tinha dito, iriam atingir em algum lugar da mais nova, mas não conseguiu ver nada no rosto dela que indicasse isso, mas por experiência, sabia que tinham pessoas que escondiam muito bem seus sentimentos por trás de um rosto impassível. Pagou a pizza, e recebeu o dinheiro da mais nova, não que precisasse, mas aceitava pra evitar um pequeno desentendimento por culpa de comida, deixou uma das pizzas no forno do fogão, para quando Carissa chegasse do trabalho, e levou a caixa para a sala, nada de pratos ou garfos, quem é que comia pizza de garfo e faca? Pegou apenas alguns guardanapos para ajudar a lidar com a gordura da comida. Ouviu o relato da menor sobre como estava sendo infantil, e acenou positivamente concordando com o que ela estava dizendo, e concordou novamente quando ela disse que o problema era ela, e não Carissa ou qualquer outra pessoa, arqueou a sobrancelha pelo agradecimento da mais nova. Já tinha pego uma fatia de pizza e estava mastigando enquanto ouvia o relato todo, sentia que estava acontecendo um drama maior do que o necessário sobre a situação, mas aceitou o agradecimento da morena menor, no entanto, se sentia em posição de devolver aquela conversa, ao menos pra encerrar o assunto, e oferecer um ponto de vista um pouco diferente, já que tinha uma vivência completamente diferente da de Eveline: -- Talvez seja só a forma como você encara suas relações próximas de amizade. Não sei se você consegue perceber isso ou se é algo que passa despercebido.-- pegou a lata de cerveja que tinha deixado de lado, para molhar a garganta, antes de continuar o seu relato: -- Por exemplo, você conheceu o Jack, sabe que eu e ele somos amigos atualmente, mas já fomos namorados no passado, quando eu tinha 17 anos e ele tinha 20. -- Lembrar daquela época lhe trazia a mente várias recordações de como era tola pra lidar com todas essas relações pessoais: -- Não ficamos juntos por muito tempo, até porque o Jack sempre foi do tipo que corria de qualquer compromisso ou relacionamento sério, e bem, eu tinha dezessete anos, estava terminando um mestrado em direito enquanto fazia minha graduação em psicologia forense, e não tinha qualquer maturidade pra lidar com o nosso término. Encarou Eveline bem ciente, de que aquela conversa parecia sem sentido, mas se deu tempo de pegar outra fatia de pizza para mastigar, apreciar e engolir, antes de continuar: -- Apesar de ter ficado com raiva, eu lidei com isso, e continuamos amigos, mudamos, com certeza, ele passou um tempo distante, mas no final das contas, a confiança entre nós, atualmente é muito maior do que quando éramos namorados. Apesar dele ter o jeito esquivo dele, se eu pedir ajuda com qualquer coisa, ele vai sair do fim do mundo pra tentar ajudar, e o contrário também é válido, se ele bater na minha porta 4 horas da manhã, eu vou reclamar mas vou tentar ajudar, e é assim que funciona. -- Terminou de comer outra fatia de pizza, falando mais tranquila do que já estivera em muito tempo, ou que poderia já ter mostrado para a morena mais nova: -- As pessoas mudam, a relação entre as pessoas muda também, e você precisa ir se acostumando que isso faz parte do processo de ser um adulto. Você não precisa estar sempre sendo útil ao seus amigos, ou eles a você, as vezes vocês podem só tá existindo cada um no seu canto e tá tudo bem, sem alarde. Não sabia se a menor tinha compreendido seu ponto, mas já tinha feito sua parte de tentar por alguma ideia diferente pra ela pensar. Eveline
Quando viu que não precisaria de pratos, guardou-os prontamente e seguiu com a loira para a sala. Pegou um dos guardanapos e já foi escolhendo sua fatia, levando-a a boca e dando uma generosa mordida. Enquanto comia, Eveline não ficava inexpressiva; suas bochechas coravam e um sorriso mais evidente se formava. Era fato que Leona havia aberto seus olhos, mas não esperava que ela lhe compartilharia um fato de sua vida. Após uma golada na cerveja, fez menção em pegar o controle remoto para dar play, mas não o fez. Preferiu ouvir do começo ao fim. Como já se sentia mais à vontade com Leona, a revelação de que a mesma namorou Jack a fez arquear ambas as sobrancelhas. Mas permaneceu calada até o fim, pois sabia que chegariam a um objetivo - e de fato, chegaram. Leona por trás daquele jeito marrento, era uma pessoa gentil. Assentiu com a cabeça, concordando com a "moral" daquele desfecho. Mudanças não são para ser encaradas como o fim do mundo. Carissa continuará sua amiga, independente de como tratá-la. E precisava começar a tratá-la com menos preocupação envolvida, afinal, nunca foi Carissa que precisava dela e sim o contrário. Respirou fundo, resignada. E ante tudo aquilo, só conseguiu responder uma coisa: - Ainda bem que você e o Jack não são mais um casal. Não seria saudável para nenhum dos dois... ou de nós. - sim, isso foi Eveline tentando ser engraçada, com seu inexpressivo e típico semblante. Mas no final, alargou só um pouco o sorriso - Vamos enfim assistir o filme? |