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[Drive] Juicy [Dia; Natalia] - Lil - 09-26-2021

Natalia

Depois de tudo o que havia acontecido nos últimos meses, havia terminado com um perfil mais discreto, optando por diminuir suas saídas noturnas e visitas aos clientes alternativos, atendendo apenas em questões emergenciais. Saiu depois de atender alguns pacientes no hospital geral de Cerise e acabou por passar no mercado para tentar comprar alguns vegetais. Não queria dar o braço a torcer, mas sabia que o sujeito grandão e de poucas palavras até que tinha um pouco de razão ao lhe julgar por seus hábitos alimentares. E, após tentar xavecar uma das novas enfermeiras do hospital, acabou recebendo de brinde uma receita para sopa de legumes que talvez fosse fácil demais para alguém como ela conseguir errar.

Abriu a tela do próprio celular, verificando a lista de itens, adicionando um pote de sorvete de creme em sua cestinha de compras como uma sobremesa merecida para os dias quentes. Estava usando uma regata branca por baixo do blazer do conjunto bege. O cabelo retocado de um azul pastel preso em um coque alto e os brincos dourados em argolas finas nas orelhas. Estava com um par de sapatilhas confortáveis brancas, a bolsa, também branca, era carregada em seu ombro, sem parecer pesar muito.

Estava presa em seu próprio mundinho, atravessando uma ilha de frutinhas da época quando ouviu algumas senhoras passando e comentando sobre como estavam na época de morangos. Teve a ideia de comprar alguns já que estava levando o sorvete de creme. Bem, ninguém poderia lhe julgar e dizer que não estava pensando em comer frutinhas saudáveis. Guardou o celular no bolso, avistando algumas mulheres amontoadas próximas ao que parecia ser o anúncio do supermercado de uma promoção de frutas da estação. Devido a ser mais alta que as senhorinhas, esticou a ponta dos pés, tentando entender o que era tão vantajoso para que aquelas idosas estivessem se espremendo. Não entendia também porque elas queriam tanto aquelas frutas e perdiam tanto tempo comparando-as. Aos seus olhos, eram todas boas frutas.

Dia

Ultimamente, Dia sentia que lhe faltava tempo para relaxar. Tinha passado por diversas experiências desagradáveis, a começar pelo inquilino com quem brigava o tempo todo, depois as tragédias familiares, e por fim, o emprego em Limoges Collet que sempre gerava pequenos estresses, ainda mais quando tinham coisas acontecendo com os Blanco, que era quando as fofocas rolavam.

Por isso, naquele dia, tinha ido ao mercado determinada a comprar comida para uma boa tarde para relaxar. Isso exigia ingredientes frescos para um almoço gostoso e frutas para vários drinks que poderia beber enquanto assistia uma maratona de Velozes e Furiosos que passaria na televisão. Claramente não pareciam os planos de uma dama delicada com uma blusa estampada e uma pantacourt de alfaiataria azul, carregando uma bolsa e uma cestinha. Mas tinha ido fazer compras de tênis – mesmo que brancos – então estava pronta para pisar em alguns pés.

Tinha pego ingredientes para o almoço e uma garrafa de licor, mas ainda faltavam algumas frutas. Para sua sorte, estava na época de morangos, era óbvio que as velhinhas estavam em desespero atrás deles, amontoando a ilha e não deixando ninguém chegar perto. Dia certamente não estava com vontade de dar cotoveladas, então, lhe restava usar estratégia.

Notou uma mulher de cabelos azul claro olhando para os morangos também, e então se aproximou, sem reconhecer inicialmente quem era.

- Minha nossa!! Como assim promoção relâmpago de papel higiênico?? Dois pacotes por 5 euros?? Eu vou lá agora! E as uvas, ein? Acabaram de chegar?? – Dia falou, alto próximo ao amontoado de mulheres, umas que imediatamente pararam o alvoroço nas frutas e levantaram a cabeça para olhar em volta, se afastando, até que sobrou espaço o suficiente para que coubessem tanto Dia quanto a mulher ali para escolher alguns morangos. – Ah. Você... é a doutora que atendeu meu sobrinho. Um menino que queimou as mãos. – ela exclamou surpresa, notando o rosto da mulher quando finalmente andou até os morangos. – Ou melhor, se quiser morangos, pegue agora, antes que elas voltem das promoções fake. – Dia falou, pegando um par de caixinhas e colocando na sacola rapidamente.

Natalia

Voltou os olhos para a dona da voz feminina que anunciava a promoção relâmpago de papel higiênico, imaginando se, agora, aquele estabelecimento estava pagando mulheres para avisarem dos produtos mais em conta. Arqueou uma sobrancelha ao observar as senhorinhas partindo na velocidade que o corpo delas permitia para não perderem a tal promoção, finalmente permitindo, então, que chegasse aos morangos que desejava. Pegou uma caixinha, satisfeita, com um sorriso nos lábios, até ter sua atenção roubada mais uma vez pela dona daquela voz feminina.

- Ah…- abriu a boca, pronta para responder a mulher, fechando-a logo em seguida quando se recordou quem era o sobrinho dela e da peculiaridade do caso em questão. Ela era de uma família importante, não era? Pressionou os lábios, forçando um sorriso e agradecendo mentalmente que ela ainda lhe dizia para aproveitar e levar os morangos que queria. - C-Claro. Haha. A senhora é a madame… Blanco, não é? - riu baixo, dando espaço para que as outras pessoas ali presentes também se servissem das frutas em oferta.

Esperou que ela escolhesse as caixas que iria levar e ficou em silêncio, observando a atitude da mulher ao ser relembrada. Tinha uma boa memória e o caso do sobrinho da mulher não era comum, então, apesar da aparência mais comum dela, não era difícil de recordar o nome da morena junto a de um sujeito peculiar na ficha de cadastro do rapaz Blanco mais jovem.

- Eu nunca imaginei que a senhora faria compras pessoalmente no mercado. - sorriu mais amigável. Piscou algumas vezes, recordando da figura do loiro mais alto que parecia discutir com ela na sala de espera. - Aquele seu namorado está bem? Ele parecia bem nervoso lá no hospital. - jogou verde para colher maduro. A mulher era uma gracinha, não lhe custava nada saber se o loirinho iria aparecer atrás de alguma prateleira para entortar seu braço e afastá-la da morena. Era sempre melhor se garantir primeiro. Já tinha bastante experiência com gigantes de semblante assassino por uma vida.

Dia

Bem lembrava que tinha sido bem rude naquele dia em que Renaud tinha ido até o hospital. Ainda não tinha certeza se a doutora era muito intrometida, ou se era o trabalho dela fazer todas aquelas perguntas desnecessárias, mas ao menos ela tinha tratado seu sobrinho. Não custava fazer uma gentileza. Nesse caso, liberar espaço para ela pegar alguns morangos numa ilha de supermercado.

- Mademoiselle Blanco. Madame é minha mãe, prefiro que não confunda. – falou de um jeito muito pontuado, embora logo em seguida tenha devolvido um sorriso breve ao rosto. – Perdão. É a segunda vez que sou rude com você, doutora. No dia em que meu sobrinho foi internado, lembro de ter sido um pouco grosseira. Espero que me perdoe, os ânimos estavam exaltados naquele dia. Obrigada pelo cuidado com Renaud.

Dia tentou fazer um pouco de conversa casual apenas porque estava entediada, e ainda tinha uma fila de caixa para enfrentar. Não custava aproveitar para agradecer os cuidados ao sobrinho. Porém, começava a achar que a doutora de fato era meio intrometida, ou não tinha papas na língua. Acabou rindo discretamente.

- Meu sobrenome cria expectativas, mas sou só uma professora que faz compras e carrega sacolas por conta própria. – comentou de volta, mas logo, a conversa com a médica lhe fez disfarçar menos a cara de desgosto quando um arrepio percorreu sua nuca, sendo chamada de “namorada” de Wilbert. – Mon dieu, não! Ele é um conhecido, não namorado. Preferia que nem conhecido fosse, para ser sincera. Ele era professor de St. Clavier. Se estava nervoso era porque ia perder o emprego depois de Renaud se acidentar na aula dele. – Dia comentou, com um leve ar de vingada.

Natalia

Sorriu um pouco sem graça ao conversar com a mulher, sentindo que o humor dela parecia oscilar entre o educada sorridente e o ofendida nervosa. Concordou com um aceno positivo de cabeça ao ser repreendida por chamá-la de “senhora”. Imaginou se ela tinha algum problema em ser considerada mais velha do que realmente era. Meneou a mão em negação quando ela lhe pediu desculpas pela grosseria no hospital. Sonhava que todas as pessoas que eram familiares ou conhecidos de seus pacientes mais “ilíticos” fossem grosseiros como ela.

Pensou em se despedir depois dela ter lhe agradecido pelo cuidado com o sobrinho, mas observou a risada discreta e mudou de ideia, sorrindo de volta para a morena de ar comum. Ficou mais aliviada por ela não ser nenhuma dondoca metida a besta, terminando por fantasiar em sua cabeça um plot de romance investigativo breve em que a mulher deveria ser a filha bastarda da família e por isso vivia uma vida simples longe dos holofotes que seu sobrenome carregava.

Segurou a própria cestinha de compras contra o próprio corpo quando a mulher lhe corrigiu sobre o homem não ser namorado dela. Sorriu ainda que intimidada pelo gênio da mulher, animada com a ideia de que ela talvez não tivesse um namorado. Bem, ela era uma professora e o sujeito era um professor demitido, imaginou ainda na história fantástica sobre a filha bastarda da família Blanco, se ela não teria mexido os pauzinhos para demiti-lo e se tudo aquilo não era um plano, talvez pelo sujeito ser alguém que a ameaçava ou uma ameaça para a carreira dela. Foi então que lhe veio a pergunta:

- Mas a mademoiselle é professora de quê? - perguntou finalmente, passando a língua pelos lábios ao retornar a falar: - Talvez a mademoiselle seja professora de química. - enfatizou, arqueando as sobrancelhas descaradamente antes de se dar conta de que estava falando com uma Blanco, ainda que fosse uma bastarda. - Ah, perdão, perdão. Força do hábito. - riu um pouco sem graça, seguindo a morena com uma distância segura entre ambas, evitando invadir o espaço da mulher.

Dia

Não sabia o que percorria na cabecinha da mulher toda vez que ela olhava para si, mas sentia que ela estava tecendo teorias sobre tudo que tinha acontecido naquele dia do hospital. O olhar da médica era bem analítico, embora a atitude em si parecesse bem relaxada. Talvez isso confirmasse a sua teoria de que ela era só intrometida.

Até ia responder do que era professora, mas junto da pergunta, ouviu um comentário seguido de um erguer de sobrancelhas que parecia o tipo de cantada que ouviria do palhaço da classe, se tivesse estudado em um colégio misto ao invés de Limoges Collet. Apesar da breve expressão surpresa encarando a médica, Dia logo abriu um sorriso com os lábios cerrados e ergueu uma sobrancelha.

- Se isso foi uma cantada, doutora, foi um pouco básica. – respondeu, notando que ela mantinha uma distância amigável, sem invadir demais o seu espaço. Apreciava isso. – Não, sou professora de Economia Doméstica. A aula é mais interessante que o nome, acredite. – explicou, então parecendo surpresa consigo mesma. – Ah, e os meus modos? O seu nome, doutora? Só percebi agora, você lembra meu nome do hospital, mas eu não lembro o seu e não perguntei. Perdão.

Natalia

Sorriu mais abertamente ao ser repreendida, piscando algumas vezes em surpresa quando ela, finalmente, perguntou seu nome. Afastou alguns fios claros de seu cabelo para trás da orelha, recordando como seu sobrenome era complicado para algumas pessoas na França.

- Arlovskaya. Natalia Arlovskaya, mas pode me chamar por Natalia, a maioria dos meus pacientes prefere me chamar pelo nome. - explicou, dando uma olhada nem um pouco discreta no que ela estava comprando. - Mas você é uma professora de economia doméstica, não é? Isso quer dizer que sabe como preparar alguns pratos caseiros bem legais, não é?

Levou a mão com as unhas bem feitas com esmalte nude para o próprio queixo, batendo nos lábios com o polegar como se estivesse pensando. Estalou os dedos, animada com a própria ideia repentina.

- Olha só, por que não me agradece me mostrando que tipo de comida eu mesma possa fazer que não cause um incêndio na minha cozinha? - pediu sem nenhuma ressalva. Ela parecia estar de bom humor com aquela conversa, então achou de bom tom testar a sorte. Se falhasse, pelo menos havia conseguido bons morangos com a ajuda de uma morena gostosa.

Dia

Arlovskaya certamente não era um nome que ouvia todos os dias. Não tinha nem certeza se conseguia pronunciar sem parecer meio boba. Ainda bem que ela parecia estar consciente que havia disparidades entre o nome dela e os fonemas franceses.

- Natalia então. Não sei se consigo falar o seu sobrenome sem lhe ofender no processo. – Dia comentou de forma honesta, notando o olhar interessado da doutora em suas compras em seguida. Não era possível que ela fosse julgar até suas compras. Porém ela logo comentou de suas habilidades gastronômicas. – Oui, mademoiselle. Não faço coisas muito complexas, mas cozinhar? Sei sim.

Só que a ideia repentina de Natalia não era nada menos que lhe fazer uma professora/chef pessoal naquele momento. Dia arqueou a sobrancelha e encarou a loira com os olhos azuis inflexíveis.

- Mas já lhe agradeci, doutora. Além da conta do hospital e da satisfação de ter feito um bom trabalho, você precisa de outro agradecimento? – Dia perguntou com um ar educado, mas não sem humor. Era muito descaramento para que ela ficasse brava. – Não deveria ser você quem me agradece, já que sem mim, não teria nenhum morango na sua cestinha? Ah, sou a próxima. – ela falou, indo pagar as pequenas compras que tinha no caixa.

Natalia

Cerrou os lábios, rindo pra dentro ao receber aquela resposta de morena. Prendeu a respiração, observando sua tentativa frustrada de prolongar aquela interação indo embora para pagar as próprias contas no caixa. Acabou por suspirar, conformada com a despedida da mulher, apenas acenando em resposta para que ela pudesse seguir o próprio caminho para o caixa.

Encarou os morangos bonitos em seus itens e sorriu mais animada, escolhendo dar meia volta para comprar uma latinha de chantilly para que pudesse aproveitar melhor aquelas frutinhas apetitosas. Ao menos a morena tinha razão que havia conseguido comprar aqueles moranguinhos bonitos através da intervenção, ainda que não intencional, dela.

Estava acostumada com aqueles foras e ser dispensada pelas mulheres que encontrava no decorrer do seu dia, principalmente as mais bonitas e charmosas como a morena. Mas talvez estivesse saindo demais com seu amigo beato de Igreja para pensar que aquilo poderia ter sido um livramento divino. Com certeza, se envolver com alguém daquela família de Cerise não deveria ser nada “divertido” para sua estadia na cidade.

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