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O Gato de Rodas e a Doutora Ursa [Charles] - Printable Version

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O Gato de Rodas e a Doutora Ursa [Charles] - Natalia - 09-27-2021

Natalia

Estava em seu consultório na ala de atendimento do hospital geral de Cerise, sentada em sua cadeira confortável enquanto agradecia a enfermeira que lhe assistia no momento pelos novos arquivos de um paciente que seria transferido aos seus cuidados como neurologista devido ao tratamento em andamento do garoto. Estava de pernas cruzadas com a calça social preta e a blusa de linho fino branca que deixava bem transparecer parte da blusinha de alças de usava por baixo, cobertos pelo jaleco branco. Observou os dados sobre o caso do garoto em seu computador de trabalho e estreitou o olhar, considerando que um paciente como aquele receberia um bom tratamento fisioterápico na cidade do interior, mas o acompanhamento neurológico precisaria ser feito na capital - mas isso era no caso dela não se encontrar ali.

- Vivian, pode pedir para o senhor Eadgar entrar, por favor? - solicitou a enfermeira pelo telefone enquanto separava seu bloco de anotações para anotar alguns tópicos do que era possível interpretar do caso do garoto. Pelos registros, ao menos, ele estava tendo acompanhamento psicológico.

Pelo menos o garoto era um adolescente e não uma criança. Sempre tinha dificuldades em lidar com crianças. Lembrava muitas informações sobre a síndrome do garoto, mas pelo registro que havia no hospital, ainda precisaria de mais informações a respeito daquele caso em especial, visto que não havia apenas um tipo daquela síndrome e para apontar o tratamento adequado para ela, era necessário submeter o rapaz a alguns exames. Não sabia se ele estaria ali com os responsáveis, esperava que não, pois não lhe agradava tratar com os responsáveis quando havia a possibilidade de lidar diretamente com alguém que podia muito bem responder por si mesmo.

Aguardou que a porta fosse aberta para poder se levantar, só então dando-se conta que o garoto estava usando uma cadeira de rodas. Arqueou uma sobrancelha. Se ele estava naquele cenário, ou ele ainda não havia recebido o tratamento adequado ou a síndrome dele era mais séria do que poderia esperar.

- Bom dia, senhor Eadgar. Sou a doutora Natalia. Tudo bem com você hoje? - sorriu, aproximando-se para poder estender a mão para o garoto e cumprimentá-lo. - Por favor, fique à vontade. - afastou-se para sua mesa, acomodando-se e deixando que ele se acomodasse melhor na sala climatizada.

Sua sala era como todas as outras salas de consulta daquele hospital, uma porta de acesso e uma de assistência para o corredor das enfermeiras que ficava fechada a maior parte do tempo, tal como naquele momento. Sua mesa ficava de um lado da sala, havia uma pequena estante atrás de sua cadeira, uma cortina de divisória branca que dava acesso a uma mesa mais alta, acolchoada, acompanhada de uma segunda estante na parede com pequenas decorações modernas para “humanizar o ambiente” e uma estante baixa a frente.

Charles

Idas ao hospital eram suficientemente estressantes para Charles. Uma coisa era você fazer visitas esporádicas por que você ficava doente de vez em quando… Outra era já ter ficado internado tantas vezes em um hospital que o cheiro de antisséptico lhe deixava inquieto.

Havia ido sozinho para uma consulta, sabia que seria repassado para um novo neurologista, e preferia conversar com os novos médicos à sós. Por mais que tivesse receio de receber um diagnóstico negativo, algum momento teria de lidar com isso sozinho.

Estava na sala de espera do hospital, que não estava tão movimentada, a não ser por um ou outro gato pingado que também aguardava por atendimento naquela sala. A cadeira encostada contra uma parede e com o livro mais recente de Cornwell em mãos. Era uma leitura que conseguia acalmá-lo por que se perdia tanto no universo medieval fantástico moldado pelo historiador que facilmente conseguia se projetar para fora daquelas paredes incessantemente brancas. Como um reflexo do seu nervosismo, Charles usava um casaco moletom preto com detalhes verde neon por cima de uma camisa de mangas longas branca com estampas de Senhor dos Anéis, uma calça jeans folgada e tênis de cor escura, quase como se estivesse tentando ter o menor contato possível com o espaço, o loirinho parecia mais coberto que o usual nesse dia.

Esperou alguns minutos, diversas vezes sendo avisado pelas enfermeiras que logo seria chamado para ser atendido, o que finalmente aconteceu depois de muitos minutos quando uma das enfermeiras pediu que a acompanhasse até o consultório da tal médica. Fechou o livro, marcando a página com um dos seus marca-páginas - detestava usar a orelha dos livros para esse fim - colocou em seu colo e acompanhou a mulher até a entrada do consultório. Estava um pouco nervoso durante o caminho e sentia-se um pouco encolhido, mas o fez mesmo assim.

A enfermeira abriu a porta para o loirinho, que examinou bem o espaço da sala antes de realmente entrar, tendo a primeira surpresa sobre a nova doutora que iria lhe atender. Era uma mulher com um ar refinado, parecia ser bastante educada à primeira vista - mas todos os médicos eram assim - e era uma mulher realmente bonita. Apertou a mão que foi estendida em cumprimento: - Bom dia, doutora.- respondeu de volta, um pouco nervoso - Vou bem, obrigado. - O espaço do consultório era um pouco melhor do que a sala de espera, ao menos não eram apenas paredes brancas com branco, ainda possuíam uma decoração aqui e acolá.

Fez como ela pediu e se acomodou de frente para ela, do lado oposto da mesa. Descansava as mãos sobre o colo, sem conseguir olhar diretamente para a doutora, então aproveitava para focar nos papéis que provavelmente seriam postos à mesa: - Eu… Hmn, não vim com o meu responsável. Isso é um problema? - Haviam médicos que acreditavam que era melhor conversar diretamente com os pais do paciente do que com o verdadeiro paciente, Charles achava isso estúpido, mas o que poderia fazer? Esperava que ao menos essa médica não se incomodasse tanto com o fato.

Natalia

Acomodou-se em sua cadeira novamente e fez uma pausa, observando de novo o adolescente até arquear uma sobrancelha, estranhando o comportamento mais retraído do menor. Talvez ele estivesse com receio da consulta, mas tinha plena certeza que era apenas por ser a primeira consulta dele com sua pessoa.

- Não, claro que não. - acabou rindo com a pergunta dele sobre o suposto problema com a ausência dos pais dele. - O senhor já parece ter o tamanho ideal para poder vir sozinho para consulta, pode sobreviver a uma conversa. - explicou, deixando seus bloquinhos de lado para poder se debruçar sobre a mesa, apoiando um cotovelo sobre ela e o queixo sobre a palma da mão, encarando o loirinho com certa curiosidade.

Ele parecia recluso na própria cadeira de rodas e usando aquelas roupas compridas, parecia ter frio ou ser averso ao toque. Bem, não podia dizer que o hospital era o lugar mais feliz do mundo para ele estar empolgado com aquela consulta.

- Bem, eu vi o seu prontuário, senhor Eadgar. Síndrome Guillain-Barré, certo? As informações sobre o seu caso ainda são muito rasas e é por isso que eu estou aqui. Ao contrário do que muita gente pensa, a Guillain-Barré não existe apenas como uma síndrome, mas já há estudos sobre muitas variações dela. Para saber direito como o tratamento com os medicamentos vai poder te ajudar, eu preciso saber qual das variações é a sua. - explicou, despreocupada em anotar qualquer coisa. Poderia anotar tudo depois graças a boa memória. - Sendo assim, por que não me conta quando foi que começou a sentir a fraqueza nas pernas, hm? Pelo que eu li do seu prontuário, não há registros do senhor tendo dificuldades para respirar, correto? Então já podemos descartar os casos mais sérios. - fez uma pausa finalmente, parando para dar atenção ao livro que o loirinho possuía no próprio colo, tendo a certeza que já havia ouvido falar daquele título nas livrarias que visitara em Cerise, ou talvez em alguma das pilhas de coisas de sua colega de aluguel.

Charles

Charles se sentiu um pouco mais aliviado e a vontade quando a doutora concordou sobre estar vindo sozinho, apesar do pequeno silêncio momentâneo ter deixado o loirinho um pouco ansioso. Bom, era menos um problema que teria de lidar nesse dia, já era um ponto positivo para essa doutora.

Estava com as mãos juntas apoiadas sobre o colo, mais olhando para a mesa do que de fato para a médica na sua frente, era muito mais fácil ver anotações serem feitas do que ter alguém te analisando de cima para baixo. Além de que, mesmo com o ambiente sendo um pouco diferente do hospital por conta da decoração e disposição dos móveis, ainda era um hospital, e só esse fato já deixava Charles bastante desconfortável no espaço. Respirou fundo, sabia que teria de responder as mesmas perguntas que sempre respondeu nas primeiras consultas, mas isso não fazia elas serem menos invasivas.

Fez um aceno positivo com a cabeça quando ela pediu uma confirmação sobre a síndrome, fazendo também questão de explicar brevemente as diferenças, para logo depois pedir informações à Charles sobre a própria situação, começando por quando havia começado a sentir as fraquezas nas pernas: - Hmn… por volta de uns oito anos? - respondeu com a voz um pouco mais baixa, tentando se recordar ao máximo dos detalhes - Meus pais disseram que bem antes já notaram que eu não tinha muita destreza pra fazer as coisas e caia bastante, acho que isso foi com uns seis anos? - completou, já fazia muitos anos desde que havia parado de andar, mas se lembrava bem da sensação de isolação que recebia das outras crianças - Daí com uns sete anos eu comecei a usar muletas, mas quando cheguei nos oito eu… realmente não conseguia mais andar. Eu sinto bastante incômodo ainda - suspirou, não evitando de ficar mexendo nos próprios dedos com as mãos - Sobre dificuldade para respirar, eu tive muito no começo, depois de uma pneumonia, meio que foi o que desencadeou a situação toda… nessa época eu fiquei… internado bastante. Isso se seguiu por uns dois anos. - Suspirou, talvez tivesse respondido o que a médica precisava por hora? - Mais alguma coisa, doutora Natalia?

Sentiu um arrepio leve quando lembrou dos longos períodos de internação, não que fosse voltar a ficar internado, já que estava com uma prospecção de melhorar… Mas ainda era uma chance, não era?

Natalia

O garoto parecia desconfortável ali e ainda mais ao ter de lhe contar sobre o histórico com a própria doença. Prestou atenção na narrativa do garoto, estreitando o olhar quando ele destacou que havia passado algum tempo internado após ter uma pneumonia. Fez uma breve pausa quando ele perguntou se precisava de mais alguma coisa, processando seu diagnóstico sozinha por alguns instantes.

- Tá. Então você teve problemas de respiração e passou dois anos internado. Isso me parece um caso clássico de Polirradiculoneuropatia Desmielinizante Inflamatória Aguda ou, como eu prefiro chamar, AIDP. Você disse que caía bastante, certo? Teve um quadro de insuficiência respiratória, sem sintomas de dor nos olhos, recuperação moderada, considerando a assistência presente no hospital na época. Hm.

Desviou o olhar, concluindo que as chances dele possuir a variação da síndrome como AIDP sendo a mais provável. Ao menos ele não parecia sofrer com a síndrome de Miller Fisher, o que seria muito pior, a considerar que ele poderia ter problemas sérios na visão. Ou as outras duas variações, que poderiam levar a problemas cerebrais e uma recuperação mais severa.

- Então, Eadgar, eu vou tentar explicar para você o que está te acontecendo. - voltou a atenção para o garoto, considerando o desconforto dele e os nomes complicados que a faculdade de medicina havia lhe feito aprender, mas que ele provavelmente não fazia ideia do que significavam. - Você já viu pessoas com Alzheimer? Sabe como é que os velhos tem Alzheimer? A gente tem um sistema de neurônios no nosso corpo responsável pelas ações no nosso corpo. Ele é parecido com um sistema elétrico cheio de fios. Você já viu fios de energia? Todos encapadinhos. Bem, o nosso sistema de neurônios é parecido, todo encapado. E essa capa tem um nome. A gente chama ela de bainha de mielina. Nos velhos, essa capa vai se desgastando e daí eles não conseguem fazer a máquina funcionar direito porque a energia se perde no meio do caminho, entendeu? - fez uma breve pausa. - Agora preste atenção, porque eu quero ter certeza que entendeu isso para a gente resolver o seu caso. - baixou as mãos, apontando o indicador para o garoto. - Você não é um velho, mas a sua bainha de mielina, os seus fios, estão dando curto. E nessa descarga, você sente dor, certo? - fez um sinal positivo com o polegar. - Mas como isso é possível? O senhor é o novo caso de Benjamin Button? É velho e não sabe? Não. A situação é que o seu sangue está ruim. Bem, não exatamente o seu sangue, mas o que tem nele. O seu sistema imune enlouqueceu e está atacando a sua bainha de mielina. Então, o problema não é necessariamente neurológico, mas sanguíneo.

Recostou-se em sua cadeira novamente, como se tivesse feito uma brilhante explicação sobre o quadro do garoto. Óbvio que precisava de alguns exames para comprovar sua linha de pensamento e diminuir os danos na recuperação do loiro, mas tinha plena confiança de que estava correta. Pressionou os lábios, pensando em como aquele caso era inusitado, considerando que a maior prevalência daquela variação específica da doença existia apenas na América do Norte.

- Esse livro aí. - fez menção ao livro no colo do garoto, pensativa. - Ele é sobre o que? Eu me lembro de ter visto uma capa dessas na livraria do shopping. É um negócio medieval, não é? - questionou enquanto ainda formulava a forma menos invasiva para o tratamento do garoto, cruzando os braços e se inclinando na mesa sem se importar com o busto pressionado contra os próprios braços.

Charles

Não estava encarando a doutora diretamente enquanto contava sobre a sua situação, mas pelo silêncio podia apenas julgar que ela estava realmente prestando atenção no que dizia, felizmente. O mesmo silêncio que se seguiu quando perguntou se havia faltado mais alguma informação também deixou Charles um pouco inquieto, mas isso também não se prolongou tanto.

- Uhm… Sim, é isso - confirmou, novamente fazendo um aceno positivo com a cabeça. Ela falou um nome grande e complicado mas que não era a primeira vez que o ouvia, alguns outros médicos haviam comentado sobre ele, se sentiu um pouco mais familiarizado quando ela mencionou a sigla, o que facilitou para o loiro ligar os pontos. Se frustrava um pouco sobre não reconhecer em primeira mão a situação do próprio caso por que alguns dos médicos anteriores preferiam tratar da situação com um “responsável”. Novamente, a doutora ficou silenciosa, o que Charles deu total espaço, batendo os dedos de leve contra a capa do livro em seu colo, leve o suficiente para evitar de fazer barulho.

Prestou atenção quando ela voltou a falar, dessa vez tentando manter contato visual com a doutora, para evitar que perdesse alguma parte da explicação. Concordou quando ela propôs começar a explicação e ficou pronto para ouvir a primeira análise.

Surpreendentemente, ao invés de jogar vários nomes que Charles não iria fazer ideia de para onde iriam, percebeu que a médica tentou ao máximo exemplificar a situação para Charles, falando de fios encapados, o real nome de tais “capas”, o que normalmente acontecia com as pessoas mais velhas, a comparação com o estado da sua doença e por fim uma solução. O cadeirante se manteve em silêncio durante toda a explicação, deixando apenas breves murmúrios em concordância escaparem e acenos positivos. A parte que mais deu alívio em toda essa explicação foi saber que o problema não vinha dos seus neurônios, e sim do seu sangue. Então era uma condição menos pior, pelo menos?! Tinha mais chances de recuperação, talvez…? Eram muitas perguntas. Se envolvia seu sangue, teria de fazer transfusão? Isso significaria que Charles precisaria ficar internado novamente? Definitivamente não queria, mas se fosse necessário…

A doutora de cabelos platinados parecia imersa nos seus próprios pensamentos, isso é, até apontar sobre o livro no colo de Charles, o que certamente o pegou desprevenido: - Ah. Esse é o Guerreiro Pagão do Bernard Cornwell, e é de fantasia medieval. Faz parte da série das Crônicas Saxônicas - explicou, colocando o livro na vertical para que ela pudesse ver a capa, apesar que ela havia se inclinado tanto que já conseguia ver o livro. Não era desconfortável que ela se inclinasse tanto? - É do ano passado, mas como ele anunciou que o próximo livro, O Trono Vazio, vai sair já em outubro, as livrarias voltaram a vender com mais força. - normalmente o loirinho, como o gato arisco que era, evitaria falar tanto. Mas a doutora bem havia conseguido tocar em um assunto que o fazia ficar um pouco mais “disposto” a conversar - Ele usa fatos históricos e mistura com aspectos fantásticos. As pesquisas dele sobre a época são bastante extensas, então os acontecimentos e narrativas são extremamente precisos.

Natalia

Sorriu por estar correta sobre o livro abordar aspectos medievais, isso significava que sua memória ainda estava maravilhosa para assuntos do dia. O tal de Cornwell parecia ser um bom escritor se conseguia criar ligações entre o histórico e o fantástico. Não era muito adepta de outras literaturas se não as acadêmicas justamente por ter passado muito tempo estudando ou trabalhando. Contudo, tinha uma capacidade de leitura rápida e dinâmica, talvez valesse a pena dar uma olhada naquele livro se interessava tanto seu paciente que parecia ficar casualmente nervoso por estar ali em seu consultório.

- Ele fala sobre o uso de sanguessugas na época medieval? - perguntou, voltando a apoiar o rosto na palma da mão e o cotovelo sobre a mesa. - Sabia que o uso de sanguessugas foi reconhecido como método medicinal no século 19? Eles sempre usavam as sanguessugas para estimular a circulação de sangue na área danificada do tecido da pele. Às vezes também usavam para limpar o sangue e ajudar na recuperação dos pacientes. Na época, ninguém fazia ideia que as sanguessugas possuem substâncias que são anticoagulantes e por isso ajudavam o sangue a circular melhor. - fez uma pausa, colocando o indicador sobre os próprios lábios como se esforçasse a própria memória. - O último registro encontrado sobre elas é da época da Era Comum do primeiro calendário gregoriano, na antiga Índia.
Acabou rindo com a própria sentença, orgulhosa por se lembrar das aulas de história sobre medicina antiga na faculdade. Talvez devesse retomar suas anotações, era até divertido imaginar como seria reviver uma época onde as pessoas morriam de pisar em pregos enferrujados. Suspirou logo em seguida, voltando a atenção para o garoto a sua frente.

- Vamos resolver o seu caso, senhor Eadgar. Vou falar com o hematologista do hospital e vamos “limpar” o seu sangue primeiro, como as sanguessugas faziam. Porque, veja só. - chamou a atenção dele, ajustando-se em sua cadeira confortável. - Eu poderia administrar um medicamento que ajudaria na sua recuperação, mas o problema é que o seu sangue está “podre”, entende? Daí o que nós vamos fazer são sessões de hemodiálise, trocar o seu sangue “podre” por um sangue “limpo” e adicionar o medicamento. Dessa forma, os seus fios desencapados têm tempo de se recuperar e você vai sentir menos dor para poder deixar de usar essa cadeira de rodas e tentar muletas. Ao menos é isso que eu acho que é o propósito da sua fisioterapia. Preciso falar com ela também. Sua fisioterapeuta, que digo. - suspirou, fazendo uma breve nota mental.

Uniu as mãos, apoiando-as sobre a mesa para observar o loiro diretamente antes de questioná-lo:

- Então. - sorriu, animada com a ideia do tratamento brilhante. - Tem alguma dúvida sobre o que vamos fazer, Eadgar? Se tiver qualquer dúvida, a hora é agora de perguntar. Pode me perguntar qualquer coisa. - avisou, amistosa, resolvendo fechar de falar tanto para respirar finalmente e ouvir o ponto de vista do garoto.

Charles

Falar sobre livros era algo que deixava Charles muito mais à vontade em qualquer situação, especialmente se a outra pessoa parecia estar interessada. Normalmente era o tipo de pessoa que não gostava de “dividir o doce”, mas nesse caso conhecia tão poucas pessoas em Cerise que liam as obras do escritor, tirando Julian claro, que se houvesse ao menos mais uma pessoa para falar sobre, seria vantajoso. Principalmente se fosse a sua nova médica, talvez isso o deixasse menos nervoso com as consultas.

Fez um aceno positivo quando ela perguntou sobre o uso de sanguessugas: - Em alguns capítulos, sim. - não era algo que acontecia de maneira recorrente nos livros, mas nos momentos em que os personagens estavam mais feridos, um ou outro se utilizava disso, ou a sugestão de algum feiticeiro. Arqueou a sobrancelha quando ela tratou sobre o uso das sanguessugas nos tempos antigos, ficaria surpreso se não fosse uma médica falando, muito provavelmente ela já deve ter estudado sobre isso. Mas ainda era bastante interessante de escutar, especialmente por que ela estava sendo bem precisa nos dados.

A postura de Charles já estava menos tensa do que antes, mesmo com a possibilidade de ter que fazer visitas mais frequentes ao hospital, ter uma perspectiva de melhora e uma médica que explicou diretamente à Charles e não a sua mãe sobre a situação lhe deixavam menos nervoso. Não negava que ainda tinha muitas incertezas, mas talvez…

Prestou atenção novamente à mudança de postura da médica, o que fez repousar o livro de volta em suas pernas. Ela explicou tudo de uma maneira muito rápida, mas ao mesmo tempo simples, conseguiu entender a situação geral e qual era a possível solução, e o melhor: talvez pudesse mudar para as muletas…. Talvez!! Tinha algumas perguntas para fazer, e assim que ela lhe deu espaço, as fez:

- Tenho algumas. - começou, puxando o celular para fazer apenas anotações das coisas principais que teria de lembrar - Se eu vou fazer hemodiálise para “limpar” o meu sangue, qual a duração do procedimento? E eu tenho uma ideia geral da hemodiálise, mas eu nunca fiz, então não sei nem o quão desgastante ele é ou se tem algum requisito… E outra, além da fisioterapia vai envolver alguma outra área? Eu já sigo uma dieta da nutricionista, vou precisar de outra também? - segurava o celular com as mãos apoiadas sobre o livro com o bloco de notas abertos, pronto para escrever mais detalhes. Ainda tinha mais perguntas, mas por hora essas seriam o suficiente. Quando ela respondesse, iria perguntar mais.

Natalia

Gostou que o rapaz estava lhe dando a devida atenção. Para um adolescente, ele parecia bem centrado no assunto. Imaginava que com uma doença como aquela, ele já deveria estar exausto de tantos procedimentos invasivos.

- Não, a gente vai cruzar as suas informações no banco de dados do hospital e repassar para o nefrologista responsável pelo setor de hemodiálise. - respondeu assim que ele pareceu terminar a primeira rodada de perguntas. - A primeira vez é uma merda, não vou mentir para o senhor não. É que para alcançar o seu sangue, eles costumam colocar uma fístula. Tipo um canalzinho para ficar mais fácil de achar seu sangue quando for fazer as sessões. Para colocar a fístula, a maioria dos pacientes reclama de dor, mas depois eles se acostumam. E fica mais prático que ter de furar o senhor como se fosse um saquinho de suco toda vez que for fazer uma sessão. - deu de ombros, como se fosse uma lógica bastante simples.

Passou os dedos sobre a própria mesa, antes de voltar para o seu computador, digitando algumas palavras até encontrar os dados das sessões do dia para hemodiálise.

- As sessões costumam durar cerca de quatro horas e o recomendado é fazer três sessões por semana. Parece um atraso de vida, mas na verdade nem é. Você vai poder estudar, trabalhar, namorar, fazer o que quiser e só vir para as sessões nos horários marcados. Pode até viajar se quiser, o convênio permite fazer as sessões em outros hospitais e centros de hemodiálise com seus dados. Se precisar faltar alguma sessão, é só avisar previamente. - virou a tela do computador para mostrar o mapa com os centros de hemodiálise cobertos pelo plano e a ficha do mesmo ao lado, aberta com os dados do loirinho.

Encarou o garoto, ponderando sobre o costume dele com hospitais. Talvez estivesse superestimando a sensação de conforto que ele poderia ter estando em uma ambiente como o daquele hospital. Estava bem acostumada com as paredes brancas e a frieza do lugar, assim como a falta de noção de qual horário do dia seria pelos centros cirúrgicos não possuírem janelas. Contudo, um adolescente como Eadgar não deveria ter a mesma percepção de familiaridade que ela.

- Hey, quer ir lá comigo dar uma olhada? Assim pode ver como é a sessão pessoalmente, falar com os pacientes, perguntar pra quem faz a sessão semanalmente. Eu julgo quase como um tratamento de beleza, porque as senhorinhas que aparecem lá sabem de fofoca de mais da metade dessa cidade. - sugeriu, imaginando que o adolescente talvez ficasse mais confortável com a ideia ao ver como era o procedimento de fato. Não se incomodava de mostrar-lhe o lugar, ainda guardava algum tempo até seu próximo paciente na lista de consultas.

Charles

Estava bem mais acostumado com o jeito mais polido que os médicos usavam, que tornava as coisas bem complicadas pois Charles não entendia como eles acreditavam que usando palavras técnicas grandes e compostas iria ajudar um paciente a entender qual era o problema. Então ver a doutora de cabelos platinados fazer uma explicação mais casual e lhe dar espaço para perguntas deixava Charles satisfeito. Ficou até surpreso quando ela foi sincera sobre a fístula ser uma “merda”.

- Fístula, certo. - murmurou enquanto anotava os detalhes no bloco de notas de seu celular. Terminou de anotar e deixou um espaço em branco para completar a informação, claro que ela poderia não ter tempo e Charles sabia que não era o único paciente que iria falar com ela naquele dia, então perguntar sobre um procedimento que poderia achar informações facilmente na internet iria ser bem mais prático. Abriu um novo espaço no bloco de notas para colocar os detalhes sobre a hemodiálise em si que a médica compartilhou: - Quatro horas, horário marcado, faltar avisar com antecedência, vinte e quatro horas - repassou as informações dessa mesma maneira para o seu fiel bloco de notas e salvou os dados. De toda a informação que foi repassada, pela maneira que ela dizia, parecia ser simples. Incômodo, sim, mas simples. Porém passar todo esse tempo no hospital fazendo mais visitas era no mínimo desgastante.

Suspirou e guardou o celular no bolso do casaco, agora voltando a prestar atenção na doutora, que por algum motivo parecia encará-lo pensativo. Charles franziu o cenho, confuso, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa recebeu o convite da doutora:

- Uhn… E os seus outros pacientes? - foi a primeira coisa que perguntou. Não que não gostasse da ideia de ir lá ver, principalmente acompanhado pela médica que sugeriu, mas imaginava que ela teria outras prioridades. A última coisa que iria querer era sair com a médica até a parte da hemodiálise, ter que ouvir comentários de velhinhas e depois voltar e ter comentários de outros pacientes mal-humorados com ele - Não é um problema?

Natalia

Achou adorável como o adolescente fazia as próprias anotações. Não acompanhado pelos pais, e ainda naquela cadeira de rodas, com a doença que tinha, ele parecia bastante independente.

- Hm. - ponderou sobre a pergunta dele, observando a lista de três pacientes que ainda estavam no seu horário de atendimento. Sabia dos problemas de cada um daqueles pacientes pelo diagnóstico, mas obviamente seus atendimentos na clínica demoravam um pouco mais devido a constância de velhinhas e senhores que gostavam de jogar conversa fora ali no consultório. - Tenho meu horário livre de almoço depois de atender os pacientes.

Deixou a tela do computador de lado para observar o loirinho que parecia mais atento às reações alheias e incomodado em causar algum desconforto às pessoas ao seu redor que ela.

- Se não estiver com pressa, posso te mostrar a hemodiálise quando chegar meu intervalo. - ofereceu, amistosa, recordando que ele poderia sentir fome dali até o horário do almoço. - Pode almoçar comigo, se quiser. A comida aqui é horrível, mas eu gosto de companhia. - sorriu, animada com a ideia de poder conversar com alguém diferente enquanto tolerava a comida sem tempero e pastosa daquele lugar. Entretanto, logo observou o loiro de novo, recordando que ele era só um adolescente, com pais, e ela, uma médica adulta, responsável pela saúde do outro. - Ah, claro… se eu não for presa por fazer esse tipo de convite… hahaha… - riu um tanto sem graça, recordando da falta de tato com crianças. Certamente, se ele fosse uma criança, estaria acompanhado dos pais e ela seria acusada.

Charles

A última coisa que Charles gostava era causar problema para as outras pessoas, afinal foi por isso que decidiu ser mais independente e não precisar mais da mão ou do pai para resolver seus próprios problemas. A ideia de atrasar o atendimento de outras pessoas deixava o loirinho um pouco incomodado, mas ficou aliviado quando ela disse que poderia ser no horário de almoço dela.

- Se não atrapalhar, eu fico agradecido. - concordou com o horário oferecido pela doutora, prestando atenção quando ela começou a falar sobre mostrar a hemodiálise e inclusive almoçar junto. Charles ponderou, talvez fosse uma boa ideia, afinal não era incomum que os pacientes tivessem uma certa proximidade com o seu médico, já que iriam se ver mais e mais vezes no futuro. Arqueou a sobrancelha um pouco confuso quando ela falou sobre ser presa por fazer um convite desses - Não tem problema, afinal você vai me mostrar um procedimento, certo? Eu vou esperar na recepção então, doutora. Obrigado. - complementou, destravando a cadeira e fazendo um breve aceno de despedida antes de sair da sala.

Saiu da sala da doutora e, assim como prometeu, ficou aguardando na área da recepção pelo horário de almoço da doutora. Comida de hospital não era um problema, não era sua favorita, mas havia comido muita por um bom tempo. Pelo menos tinha seu fiel livro ao seu lado, e poderia passar o tempo perdido nas narrativas do seu escritor favorito.

Natalia

Ficou surpresa com o garoto concordar com sua sugestão. Geralmente jovens como ele não gostavam de esperar, mas até ponderou mentalmente sobre o comportamento alheio, talvez ele estivesse mais acostumado a esperar pelos outros do que gostaria. Agradeceu pela cooperação dele e deixou que saísse do consultório para atender seu próximo paciente. Os pacientes não eram muitos, mas como se tratava de senhores mais velhos e senhorinhas, ficava difícil atendê-los e não conversar um pouco sobre a vida alheia. Típico de pessoas que não deveriam receber tanta atenção em casa. Gostava de pessoas mais velhas que iam até seu consultório para fofocar sobre as novidades da cidade, sempre terminava descobrindo mais do que esperava naqueles atendimentos.

Ao sair de sua sala, finalmente em seu intervalo de almoço, continuou conversando com a senhorinha de seu último atendimento, rindo do comportamento da mulher que não parava de falar sobre como o filho dela precisava arrumar um emprego e sair de casa para deixá-la descansar mais tranquila.

- Mas dona Martha, se ele sair de casa, quem é que vai lembrar a senhora dos remédios que eu lhe passo? E por que ele não veio com a senhora para a consulta? Traga ele da próxima vez. - explicou para a senhorinha que ainda passou alguns minutos reclamando das últimas aventuras do filho único, explicando que quando ela tivesse filhos, entenderia. Apenas riu. Crianças definitivamente não estavam em seus planos. - Se cuide, dona Martha, e cuidado com o banheiro, lembre de pedir ajuda ao seu filho para ele colocar um anti derrapante lá, heim!?

E a mulher concordou, despedindo-se em meio aos desejos de bênçãos para a vida da médica. Passou a mão pela própria nuca, arrumando os fios claros do cabelo antes de procurar pelo seu paciente loirinho. Pegou o próprio celular no bolso do jaleco para conferir o cardápio do dia para os funcionários do restaurante no hospital.

- Hey, Eadgar! Tá afim de frango grelhado com purê de batata, arroz e ervilhas? - convidou, amistosa, só então se dando conta que talvez ele não comesse carne. - Ah, tem opções vegetarianas também. Tem… bolinhos de lentilha hoje também. - avisou, notando que uma enfermeira se aproximava para lhe indicar os prontuários dos pacientes que deveria atender durante a tarde. Pediu que ela deixasse tudo sobre sua mesa que assim que saísse do almoço, iria até as alas de atendimento aos internos. - Vamos passar na hemodiálise primeiro ou quer ir depois do almoço? - perguntou ao garoto, esperando que ele lhe seguisse.

Charles

Estava com a cara enfiada no livro de seu escritor favorito. Mesmo lendo repetidas vezes, adorava poder rever os momentos chave da trama. Algumas poucas vezes uma pessoa ou outra tentou lhe chamar atenção, mas a sua cara de irritação acabou as espantando, ou encontraram outra pessoa para perturbar. O importante foi que o loirinho pode ficar em paz junto a seu livro.

Passou algum tempo até escutar a voz familiar da doutora, o que o fez colocar o marca página no livro para poder deixa-lo de lado. Girou a cadeira e deu atenção para a mulher de cabelos platinados, que parecia um pouco perdida sobre o que tinha no cardápio.

- Uhm… Tanto faz, mas frango está ótimo para mim - Para quem ficou tanto tempo comendo comida de hospital, sinceramente não havia muita diferença. No final, até a carne teria um gosto de nada, e o tal bolinho de lentilha teria também o gosto de nada, ou seja: tudo teria o mesmo sabor de fantásticos nada.

Esperou que ela terminasse de conversar com uma enfermeira que havia aparecido para falar sobre prontuários. Já reconhecia boa parte dos profissionais que trabalhavam ali no hospital depois de tantas visitas, estadias e check-ups, tirando um ou outro - como a própria doutora - eram novidade.

- Eu não quero tomar muito do seu tempo - reforçou, seguindo a doutora pelo caminho que ela fazia - mas pode ser primeiro, qualquer coisa eu posso terminar o meu almoço sozinho, caso precise sair.

Charles não era egoísta ao ponto de saber que as pessoas tem outros compromissos, em especial adultos que tem um trabalho fixo. Então, queria causar o menor dos inconvenientes possível. No final de contas, almoçaria sozinho em casa, então ter metade de um almoço acompanhado já seria lucro.

Natalia

Ponderou sobre a resposta do mais novo. Talvez fosse mesmo melhor visitar a hemodiálise primeiro. Caso ele tivesse algum problema com sangue ou procedimentos médicos, comer e fazer uma visita à hemodiálise poderia deixá-lo enjoado. Franziu o cenho, o olhar distante de quem conseguia ouvir a voz de uma certa enfermeira ruiva cereja no seu ouvido reclamando baixinho de sua falta de empatia com seus pacientes que eram mais jovens.

- Nah. Vai tomar nada não. Vamos primeiro na hemodiálise então ouvir as fofocas das senhorinhas e depois a gente come alguma coisa na cantina. - concordou, acenando para que ele lhe seguisse.

Andou um pouco mais devagar ao que estava acostumada, visto que mesmo de salto, costumava andar rapidamente de um lado pro outro naquele hospital atendendo pacientes e preenchendo prontuários. Afastou as portas do setor de exames, dando passagem para o cadeirante poder fazer o giro e adentrar no setor.

- Ele está comigo, Patrícia. - explicou para a enfermeira chefe do setor antes que ela começasse a lhe regular sobre a presença de um adolescente ali. - Aqui é o setor de diagnósticos e exames. Você pode estar achando estranho esse caminho, mas é o trajeto que os médicos, enfermeiros e técnicos fazem por dentro para evitar o processo de contaminação e a interferência de pacientes. Algumas das portas nós não podemos entrar por conta do risco de contaminação, seja biológica ou por radiação. - apontou para o aviso claro de perigo na sinalização de cada uma das entradas. - Por aqui.

Chamou o mais novo, abrindo uma das portas no final do corredor que dava acesso a uma sala mais ampla, iluminada com luzes mais baixas, com um aromatizante de lavanda suave, uma parede de vidro grande que dava acesso a um jardim de inverno e cerca de sete cadeiras acolchoadas, duas delas ocupadas, com um maquinário do tamanho de um criado mudo, só que um pouco maior, ao lado.

- Com licença, senhor Tucker, senhora Hardy, temos um novato hoje. - avisou a médica, cumprimentando o enfermeiro responsável pela ala de plantão. - Ele veio conhecer como funciona o tratamento de vocês. Como estão hoje?

- Ah, doutora, eu estava contando para o senhor Tucker como minha sobrinha vai se casar em Paris e resolveu mudar a decoração de rosas para petúnias. Isso é um absurdo. Anos de tradição na família casando com petúnias e a família do noivo resolveu que rosas são mais bonitas. Ela quer matar a vozinha dela do coração, só pode. - começou a senhora, enquanto o senhorzinho pousada o olhar sobre o rapaz cadeirante.

- Oi, filho. Vai começar a fazer o tratamento também? Qual é o seu problema? Eu estou em tratamento de anemia falciforme. Sabe o que é isso? Disseram que o meu sangue é ruim, por isso eu preciso vir aqui uma vez a cada quinze dias para limpar o sangue. Quase um SPA, não é doutora?

A médica riu, sentando-se em uma das cadeiras acolchoadas da sala para poder acompanhar melhor a conversa.

- Pare de contar vantagem com sua doença, Tucker. Até parece um herói de guerra falando dos traumas que teve. - disse a senhora Hardy, fazendo o senhor revirar os olhos. A idosa se voltou para o cadeirante, sorrindo amistosa. - Ah, filho, você é jovem, isso daqui nem é ruim depois que você acostuma, mas as primeiras vezes são horríveis. - a mulher mostrou o braço velhinho com um catéter fixo no braço. - Você faz uma cirurgia para eles colocarem isso em você, o primeiros dias foram terríveis para mim. Eu não podia fazer mais meus bolinhos, nem lavar louça direito.

- A senhora nem deveria ter tentado lavar louça. - corrigiu Natalia, recebendo um riso da senhorinha.

- Mas depois de alguns dias, você se acostuma. - informou a senhorinha. Natalia observou o garoto, arqueando as sobrancelhas, tentando encorajá-lo a tirar dúvidas com os pacientes que estavam em sessão. Pelo menos era melhor ele conversar diretamente com quem já fazia uso do tratamento de hemodiálise que se reforçar apenas em sua opinião médica de quem nunca havia precisado fazer uma hemodiálise.

Charles

Charles sabia apenas que a rotina de médicos costumavam ser coisas corridas e bastante impessoais, por isso tentou ser o mais sucinto quando a médica mais faladora ofereceu para apresentar a hemodiálise. Percebeu que ela levou um tempo ponderando sobre a proposta que havia feito, mas ao fim concordou com o cadeirante, que ficou um pouco mais aliviado, apesar de estranhar o interesse dela na conversação das senhorinhas:

- Hmn, se a doutora diz. - fez um aceno positivo com a cabeça, e acompanhou a mulher de salto, que felizmente estava em um ritmo mais tranquilo para Charles seguir.

Estranhou o caminho que estavam fazendo, especialmente que era mais por dentro do hospital. Normalmente pegaria um elevador e faria o caminho indicado pelas placas, mas entendeu quando ela disse que era o trajeto feito pelos profissionais do hospital. Fazia bastante sentido, afinal a rota feita pelos pacientes eram muitas vezes bem longas, e se os médicos tivessem que fazer o mesmo, com certeza haveriam pessoas mortas em cada corredor de hospital.

Seguiu o caminho que ela indicou para passar, percebendo as placas de indicação sobre os riscos de contaminação que a mais velha havia comentado. Em pouco tempo, chegaram até uma sala que tinha luzes não tão forte, um aroma suave, e um jardim de inverno que ficava visível graças a parede de vidro que o separava do restante do ambiente. Além disso, haviam cadeiras acolchoadas, duas ocupadas, com alguns aparelhos ao lado de cada uma, o que Charles pode supor como sendo as máquinas necessárias para a hemodiálise.

Não demorou para a médica de cabelos claros apresentar o garoto às duas figuras que estavam na cadeira. Charles até iria cumprimenta-los de volta, mas a senhorinha, a que a mulher mais alta chamou de Hardy, começou a reclamar sobre o casamento de uma tal filha, de uma tal tradição da família sobre petúnias e que agora seriam rosas. Charles apenas franziu o cenho, enquanto a médica achava tudo muito engraçado. Ao menos o homem, senhor Tucker, deu uma mínima brecha para Charles falar:

- Uhm, vou. Vou sim. - o loirinho falou, um pouco acuado com o tanto de perguntas que ele disparou, perguntando o que tinha, falando da sua própria doença. Era uma mania de gente velha falar sobre doença - O meu caso é algo mais ou menos assim, eu, uhn--

A doutora Natalia continuava a rir dos comentários de seus pacientes, era muita interação para Charles, mas tentava se manter minimamente sociável durante os comentários. Não que estivesse irritado, mas era normal que conversa com muitas pessoas, especialmente que não conhecia, lhe deixassem um pouco cansado. A senhorinha apesar de reclamona parecia bem humorada, chamando o outro de herói de guerra, antes de tornar a atenção para o garoto cadeirante, o incluindo novamente na conversa.

- Uhn, são tão ruins assim? - perguntou, logo depois sendo mostrado o braço da senhorinha com o catéter fixo. Lhe dava um pouco de agonia olhar, especialmente pensar que teria de colocar um logo em breve. Ouviu a explicação dela sobre a cirurgia, da qual já sabia, e também que ela não conseguia fazer muita coisa durante os primeiros dias, ao que a doutora prontamente refutou que não deveria nem estar lavando a louça - Uhn... E que tipo de melhora você sentiu que teve?... Como, hmn, não incomoda ter isso no seu braço? Não é desagradável nem nada?

Não sabia exatamente por onde começar, nem se a pergunta seria indelicada para os mais velhos, então decidiu perguntar os poucos.

Natalia

A senhora Hardy sorriu compreensiva como se fosse uma mulher de uma família grande e estivesse acostumada em lidar com perguntas dos mais jovens sobre sua condição.

- Incomoda um pouco às vezes, mas porque eu sou velha já, menino. As minhas veias não são tão boas quanto as suas. - explicou a senhora enquanto Natalia apenas observava, voltando a dar um pouco mais de atenção ao senhor Tucker que parecia animado em contar sobre como de fato era um herói e como costumava esconder estrangeiros em suas vivendas quando era mais novo. - Mas a melhora compensa boa parte do desconforto, sabe? Eu antes quase não saia da cama, muito indisposta. Hoje eu até me atrevo a sair sem o meu andador. - ela riu como se estivesse confessando um pecado muito sério.

A senhorinha fez uma pequena pausa, observando melhor o menino na cadeira de rodas, curiosa com o cabelo mais claro e a raíz escura da criança.

- Você pinta o seu cabelo, meu filho? Hehe, que ousado. Minha netinha quer pintar o cabelo dela também. A doutora disse que faz isso sozinha em casa, não é doutora? - a senhorinha chamou e prontamente a médica se voltou para os dois, concordando em confusão. - Falei do seu cabelo azul, doutora.

- Ah. Ah! - ela riu, pegando uma das mechas do próprio cabelo, passando os dedos devagar perto da raiz mais clara dos fios que deveriam ser loiros. - A senhora finalmente vai colorir o seu, senhora Hardy?

- Há! - a senhorinha riu. - Só se for para esconder a minha idade, meu anjo.

- Por que esse menino - o mais velho estreitou o olhar, tentando por um instante reconhecer a criança. - … por que você precisa fazer hemodiálise, rapaz?

Natalia olhou para Charles, arqueando as sobrancelhas e erguendo um sinal positivo com o dedão, sorrindo amarelo como se esperasse que ele conseguisse explicar sozinho sobre a própria condição já que havia deixado a mesma bem clara para o mais novo paciente. Talvez ele fosse a prova viva que nem com adolescentes ela conseguia lidar corretamente.

Charles

A senhorinha conversava devagar, mas dava bastante atenção à Charles e parecia bastante solicita, o que o deixava menos desconfortável de falar sobre o tratamento. A ideia do incômodo leve deixava Charles um pouco receoso, mas a prospecção de uma melhora também o deixava mais inclinado a aceitar o tratamento.

- Mas não seria melhor usar o andador mesmo assim?... Digo, você poderia se, hmn, machucar? - não estava perguntando repreendendo a senhorinha, mas apenas um pouco preocupado. Afinal, até mesmo quando tentava ficar de pé sem a cadeira sentia um pouco de receio.

Teve a atenção então voltada para o seu cabelo, o que deixou o garoto um pouco envergonhado, e acenou positivamente à pergunta, levando a mão até os fios claros por impulso como se quisesse esconder o rosto, enquanto a senhorinha voltava a incluir a doutora na conversa, afinal ela era a outra que pintava o cabelo.

Deixou que as duas conversassem, apenas escutando atentamente à conversa, até que a pergunta veio do outro idoso da sala, Tucker. A pergunta foi bastante pontual sobre a situação de Charles, mas se estava ali, sabia que algum momento essa pergunta acabaria chegando. Respirou fundo, mantendo as mãos apoiadas sobre o colo:

- Ah. Uhn... Quando eu era mais novo, sofri com a síndrome de Guillain-Barré. Não foi um dos casos mais sérios já que tem algumas variações - começou, lembrando das pontuações feitas pela doutora - Mas no meu caso eu acabei não conseguindo mais andar, porém a Doutora Natalia chegou na conclusão que com o tratamento de hemodiálise pode ajudar, por que o meu sangue no final das contas não está muito bom, mas é melhor um problema sanguíneo à um neurológico.

Tentou ser claro na explicação, apesar de em alguns momentos dar uma leve parada para organizar os pensamentos, mas acreditou ter resumido de maneira eficaz toda a conversa que haviam tido no consultório.

Natalia

A médica observou o rapaz com certa satisfação e até um pouco de orgulho por ele não apenas se esforçar em explicar a própria situação para pessoas mais velhas e desconhecidas, como também por ele continuar querendo saber mais sobre as próprias condições de melhora.

Quando Charles perguntou sobre o andador, o senhor acabou rindo, observando a senhora logo em seguida até cruzar os próprios braços. A senhora apenas suspirou e meneou a cabeça em negação, cochichando alguma coisa como “velho resmungão” para o senhor Tucker.

- O senhor Tucker costumava usar o andador, meu filho, mas depois de alguns anos as nossas forças não são mais as mesmas. Hoje, conseguir usar um andador é uma alegria muito grande que a gente só consegue ter por justamente fazer essas hemodiálises. - a mais velha explicou, sorrindo amistosa para o rapaz e ouvindo com atenção sobre o diagnóstico dele.

- Nós apenas estamos considerando as opções de tratamento antes do senhor Eadgar tomar uma decisão. - pontuou a médica, tratando o menor como se ele de fato já fosse responsável pelas próprias escolhas e pudesse muito bem opinar sobre o próprio tratamento sem que outros escolhessem quais medidas seriam tomadas.

- Hm. Muito bem. E a sua família, garoto? - perguntou o senhor Tucker, ainda de braços cruzados. - Meus filhos me perturbaram tanto que acabei aceitando o tratamento proposto pelo Hospital, sabe? E eles sempre ficam me monitorando, como se eu fosse um velho que não pudesse fazer nada sozinho.

- Eles só estão preocupados com a sua saúde, Tucker. - disse a senhora Hardy justamente quando a enfermeira responsável pela hemodiálise chegou para remover os equipamentos dos dois idosos e liberá-los para irem embora. - Parece que só nos veremos pelo Hospital, rapazinho. Espero que consiga melhorar logo. Vou trazer minha netinha da próxima vez, quem sabe ela não fica tão entediada só com a vovó dela aqui, não é?

A senhora riu e logo depois um dos filhos do senhor Tucker adentrou na sala para poder ajudar o homem a se acomodar em sua própria cadeira de rodas. A senhora Hardy conseguia caminhar, ainda que devagar.

- E então? - a doutora ajustou a própria posição, levando as mãos para trás, observando e sorrindo os pacientes irem embora. - Com fome? Vamos almoçar? - baixou o olhar, finalmente convidando Charles para comerem algo como havia sugerido antes.