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Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Printable Version +- Academia St. Clavier (http://academiastclavier.com.br) +-- Forum: Registro (http://academiastclavier.com.br/forumdisplay.php?fid=7) +--- Forum: Lixeira (http://academiastclavier.com.br/forumdisplay.php?fid=92) +--- Thread: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] (/showthread.php?tid=347) Pages:
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Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Aleksei - 09-30-2021 Fazia muitos anos que Aleksei não se sentia verdadeiramente exausto por uma sessão ou um caso com um paciente. Aquela manhã tinha prometido uma sessão mais tranquila com um Renaud aparentemente de muito bom humor, se comparado com as sessões mais recentes deles e com o fato de que ele ainda estava se ajustando às medicações, mas tudo tinha ido por água abaixo com uma notícia que ninguém tinha previsto. Como consequência da morte da mãe de Renaud, o rapaz tinha se rendido a uma crise dissociativa intensa e talvez devesse agradecer mentalmente que a medicação que ele tomava, somada às mãos machucadas, tinha reduzido e muito o ímpeto dele em tentar retaliar aquela perda de alguma forma. A crise que Aleksei tinha presenciado na enfermaria era algo de maior complexidade do que esperava presenciar numa academia com alunos adolescentes e jovens adultos, mas embora tivesse lhe exaurido mentalmente, tinha também lhe dado as pistas para dar prosseguimento ao tratamento de Renaud com mais eficácia. A conversa com Duncan era algo que precisava estudar com cuidado antes de pensar nas próximas abordagens. De todo modo, depois que Renaud tinha retornado aos sentidos e estava tentando assimilar o sentimento de perda que iria acompanhá-lo por um longo tempo dali em diante, ele precisava do suporte dos amigos e de pessoas próximas que poderiam lhe consolar mais do que com um par de afagos na cabeça, que era além até do que Aleksei teria se dado a liberdade com seus pacientes anteriores a St. Clavier. Depois de receber a confirmação dele de que queria ver os amigos e que poderia ir buscá-los, Aleksei saiu da enfermaria, sabendo que Isaac estava de volta a sala do Conselho Estudantil, mas certamente Didier e Sasha não teriam se afastado mais do que no final do corredor. Não foi surpresa abrir a porta e encontrá-los esperando por notícias no corredor amplo e pouco movimentado do Anexo Administrativo. - Imaginei que estariam esperando por aqui. - Aleksei deu um passo para o lado, saindo do caminho da porta aberta, finalmente dando espaço para que os dois entrassem na sala. - Ele está acordado, gostaria de falar com vocês. Eu vou deixá-los a sós, mas estarei na sala de aconselhamento, caso precisem, é só ligar do telefone da enfermaria e eu volto o quanto antes. Eu avisarei ao Sr. Lemont também que o Renaud já pode receber visitas. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Sasha - 09-30-2021 Se já houve uma espera longa, não tinha sido tão longa quanto aquela. Sasha podia ver na agonia da perna de Didier, sentado inquieto no Centro de Aconselhamento Estudantil que ele queria voltar para o lado de Renaud, e isso lhe fez suspirar conformado. Diferente do loiro, que parecia tenso o suficiente para desmontar se empurrasse com força, Sasha pensou ainda em voltar para seu dever, pois afinal, imaginava os rumores que estariam rolando por St. Clavier agora, sobre o surto do aluno Renaud Blanco. Por isso, saiu da sala antes de Didier, pegando do bolso o celular para ligar para Nataniel para pedir que ele tentasse sondar os rumores e apaziguasse os ânimos dos alunos. Pois é, tinha largado o pepino na mão do vice. Pelo visto os presidentes de conselho de St. Clavier tinham algo em comum. Quando virou para voltar à sala, Didier tinha a cabeça na porta, como quem estava lhe esperando voltar (ou lhe espiando). Arqueou a sobrancelha para o olhar nervoso e cansado do loiro. Ele não queria deixar Renaud sozinho, mas ele também não queria ficar sozinho? - Vamos esperar aqui no corredor, assim dá pra ver quando o doutor sair. – Sasha comentou, esperando que Didier saísse do centro de aconselhamento, e ele nem hesitou em sair, os olhos focados na enfermaria no fim do corredor. Mas guiou Didier para um banco no caminho. Não tinham o que conversar, na real. Estavam os dois preocupados aguardando notícias, mas o fato de sair da salinha onde não tinha ninguém pareceu dar uma animada em Didier. Mas nada acordou o loiro tanto quanto a visão do doutor Vlahos finalmente saindo da enfermaria e vindo na direção dos dois. Didier apenas respondeu silenciosamente, pois depois da última conversa confusa com o médico sobre aquela crise, ou de ver e ouvir toda a cena estranha, tinha pensado que não precisava mais racionalizar nada. Precisava cuidar de Renaud, e somente isso. - Obrigado, doutor, qualquer coisa, ligamos sim. – Sasha falou, mas viu Didier já indo apressado para a enfermaria sem lhe esperar. – Ei! Didier olhou para trás para ver se era alguma informação adicional do doutor Vlahos, mas Sasha estava apenas manobrando para ir atrás de si. O presidente do conselho estudantil respirou fundo, e então andou até Sasha, dando a volta por trás da cadeira e empurrando-o na direção da enfermaria, o que assustou tanto o moreno que ele foi obrigado a olhar para Didier por cima do ombro. - ... Obrigado...? – Sasha agradeceu, depois focando em Renaud na cama assim que entraram na enfermaria, e Didier lhe manobrou até chegarem perto o suficiente da cama. - Ei, menino... Me contaram as coisas... sinto muito. – Sasha falou, vendo o estado pobre do irmão menor na cama. - Renaud...! – Didier soltou Sasha para ir até o moreno, apertando os lábios. Olhou para as mãos dele agora tratadas, a respiração levemente errática do nervosismo, e então aproximou a mão do braço dele, sem tocar. - ... Posso...? – perguntou, porque não tinha certeza se ele queria ou precisava de mais do que a presença dos dois ali. E Didier queria estar ali para o que Renaud precisasse, embora de verdade, queria poder tocar o moreno e confirmar que estava ali com ele finalmente. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Renaud - 09-30-2021 O tempo já não era mais percebido pelo jovem Blanco, ele apenas existia, e como era doloroso existir. Renaud aceitou o gesto de cuidado do médico, e depois suas palavras indicando que iria se ausentar por algum tempo. Assentiu positivamente e acompanhou com o olhar o psicólogo se afastar de si e ir além da porta da enfermaria. O moreno mais novo se sentia miúdo, pequeno e vulnerável, como não se sentia a muito tempo. Queria um boné pra cobrir seus olhos, ou sentir o perfume doce próximo a si. Até pensava que tinha de sentar, recompor a aparência para receber os amigos em uma condição melhor. Mas não tinha porque criar uma alegoria de “melhora”, porque não tinha nenhuma energia para aquele tipo de encenação. Fechou as pálpebras por um instante, e naqueles momentos se entregou momentaneamente ao cansaço, a respiração menos sofrida. Apenas quando ouviu o som da porta se abrindo, que Renaud reabriu os olhos para encarar as duas pessoas mais importantes que tinha na vida. Todo o seu interior se remexeu, e sentiu descargas elétricas passarem pelo corpo, como um arrepio, numa urgência real de proximidade, contato e cuidado. Lembrava-se momentaneamente das vezes em que esteve hospitalizado como queria ser visitado por alguém, e como deixou aquela vontade escondida, porque precisava ser forte, não podia demonstrar que precisava de atenção. Afinal ninguém nunca ia. Mas agora é diferente. Sentou-se sobre a maca com alguma dificuldade, já que não podia apoiar as palmas das mãos para erguer o corpo, em tempo de ouvir as palavras de Sasha que “sentia muito” e o pedido de Didier se “podia” se aproximar. E mesmo que já tivesse chorado desesperadamente antes, ainda sentia que estava desabando em tristeza. Passou o braço pelo pescoço do namorado abraçando-o, mas se inclinou em direção a Sasha, passando o braço livre na direção do irmão. Abraçando os dois em simultâneo mesmo que fosse uma posição desconfortável. Não havia dignidade no luto, e para Renaud bastou ter os dois próximo de si, para se entregar mais uma vez a um choro copioso, menos desesperado que o anterior, mas igualmente triste. Precisava muito deles dois, queria estar melhor, mas não estava, e só podia confiar que eles o aceitassem daquele jeito esmigalhado. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Didier - 09-30-2021 Nem imaginava porque Renaud ainda se deu o trabalho de se remexer na cama para se colocar em outra posição. Queria que ele ficasse confortável, e olhou para as mãos para que ele não terminasse magoando os ferimentos recém-reabertos durante toda a comoção na sala do conselho. O bom é que agora ambos podiam se aproximar, sem o zelador ou o doutor impedindo a presença dos dois ali, só eles e aquele Renaud desolado, cuja dor queriam amenizar, mas só o que podiam fazer é companhia. Didier foi pego de surpresa pela forma como Renaud lhe agarrou, mas não resistiu, sequer pensando na crise anterior em que ele quase surrou Isaac. Abraçou o moreno de volta, repousando a cabeça perto da dele, as mãos sobre o corpo de Renaud, acariciando-o como podia. E só de vê-lo desabar novamente em lágrimas, não conteve as próprias de voltar aos olhos, embora as impedisse de sair porque não queria que o namorado achasse que estava desconfortável de estar ali. Era ali que queria ficar enquanto ele precisasse, e mesmo se não precisasse também. Sasha não tinha o mesmo alcance de Didier sobre a cama para abraçar o corpo de Renaud inteiro, mas travou a cadeira e puxou o corpo para tão perto quanto conseguia, passando um braço pelo que ele tinha lhe oferecido, apertando-o sem força, só para afirmar a presença ali. - Estamos aqui com você, menino. – Sasha afirmou, com uma pouco usual expressão conformada que não aparecia muito em seu rosto, até porque ele não tinha mais o que fazer por Renaud também. – O doutor mandou chamar o Lemont. Ele já vem também. Sasha segurou qualquer vontade de fazer uma gracinha sobre Lemont não parecer o tipo que abraçava sem luvas porque tinha chegado atrasado, e pelo silêncio e devoção de Didier em fazer companhia a Renaud, todos os momentos que levaram até aquela enfermaria deveriam somar muito cansaço para todo mundo, enquanto de sua parte, só tinha se assustado com o surto que pegou pela metade. Por isso, concordou silenciosamente consigo mesmo em apenas esperar o choro de Renaud se acalmar. - Quieres agua, Renaud? – Didier perguntou em certo ponto, apenas limpando parte do rastro de lágrimas do moreno com as mãos e beijando-lhe o rosto, pelo menos para por um momento descansar as costas da posição de antes, sem sair de perto do outro. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Renaud - 10-01-2021 O Blanco estava irreconhecível naquele estado lastimável, ou talvez nem tanto, considerando o tanto que aquelas duas pessoas já o tinham visto em pedaços pequenos e cuidado de si durante algumas noites difíceis. Talvez fosse mais estranho para o próprio Renaud que ainda não estava habituado a ser cuidado, e a admitir seu lado fragilizado. Aceitou de bom grado o carinho recebido, se deixando ser absorto no calor e do conforto da companhia dos dois, no quanto um abraço lhe fazia bem de uma forma estranha, mas tão necessária. Ainda levou alguns longos minutos até seu choro diminuir o suficiente pra conseguir formar palavras sem soluçar, seus olhos estavam plenamente vermelhos, a expressão toda acabada de tanto se entregar aquela angústia que o assolava. Se afastou dos dois e tornou a se sentar na maca, deixando as pernas para o lado de fora da mesma, passou as costas da mão sobre o rosto úmido, respirando fundo com a boca, pois seu nariz estava plenamente desgraçado. Encarou Sasha e fez um meneio positivo com a cabeça sobre Isaac ter sido chamado também. Virou-se na direção de Didier quando ele tocou sua face, e fechou os olhos momentaneamente, deixando o rosto repousar na mão do namorado, aceitando a carícia: -- sim… por favor. -- comentou numa voz baixa ainda embargada do choro recente. Acompanhou com o olhar enquanto Didier se afastava para pegar água, e logo retornou a atenção a Sasha, tinha deixado todos preocupados, inclusive já tinha dado tanto trabalho ao irmão ao longo desses dias, que sentia-se culpado por estar depositando mais uma parcela de problemas sobre seu colo: -- eu…! -- pensou em se desculpar, mas iria se desculpar sobre o quê exatamente? Mordeu o lábio e torceu a expressão sem saber o que dizer, levou as costas das mão as têmporas, parecendo aflito: -- ela…! -- hesitou. O ambiente da enfermaria lhe lembrava demais um hospital, a falta de visitas que nunca ocorreram lhe deixando em um misto de amargura e desconsolo. Mas será que não tinham ocorrido visitas? Lembrando da última conversa que tivera com a mãe, tinha descoberto que ela tinha ido, sim, lhe ver enquanto estava enfermo em um dos piores episódios de sua vida. Renaud tinha alimentando por tanto tempo o sentimento de nunca ter sido acolhido pela mulher, que agora, sentia-se culpado por ter alimentando esses pensamentos por tanto tempo. Seu estômago se revirava e o gosto amargo subia até o topo de sua garganta, deixando sua voz arranhada: -- ela tinha ido… -- balbuciou a frase, sem saber se voltaria a chorar ali, a aflição apertando seu peito e deixando respirar difícil: -- daquela vez… no hospital… ela tinha ido… eu só… ela foi…. mas nunca disse nada…! Arfou sentindo a respiração quente, a culpa mesclada a inconformidade se convertendo em dor lacerante lhe consumindo por dentro, como podia está doendo tanto? RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Sasha - 10-01-2021 Supunha que ficar deitado demais tinha cansado Renaud. Sasha preferia que ele ficasse deitado, mas desde que não magoasse as mãos, estava tudo bem. Didier certamente não deixaria ele fazer isso enquanto ajeitava a posição na maca. Ele parecia bem determinado a cuidar de Renaud, sendo mais útil em oferecer água para o moreno quando o choro subsidiou um pouco. Enquanto Didier ia até o bebedouro pegar um copinho de plástico e encher de água, Sasha se aproximou, vendo que Renaud estava tentando falar alguma coisa sobre o que tinha acontecido. Imaginava que ele tinha dificuldade de processar a informação e as emoções porque foi assim que o doutor Vlahos disse, e até estendeu a mão até a dele, mas não o tocou, só se aproximando para ter certeza que ele não magoaria as mãos enfaixadas por acidente. Pelo visto Renaud estava se acostumando a não fazer nada que fosse magoar a palma queimada. Didier encheu o copinho de água, e voltou na direção de Renaud, sem saber exatamente do que ele estava falando quando disse que a mãe tinha estado com ele no hospital. Imaginava que tinha sido quando a tia dele – aquela vaca – tinha ido ajudá-lo e lhe impediu de ir, e apertou o copinho sem perceber. A ideia lhe deixava bravo, afinal, que espécie de mãe iria ao hospital ver o filho sem dizer? Ainda mais porque via como isso magoava Renaud, a ausência dela. Só que não era isso. E só soube que não era isso porque viu Sasha apertar a roda da cadeira com tanta força que achou que ele quisesse estourar o pneu. O presidente do conselho disciplinar respirou fundo e ergueu o queixo enquanto levava a mão com cuidado até a coxa de Renaud, acariciando a perna dele que estava mais ao alcance que se esticar para pegar no ombro. Didier voltou com a água, oferecendo para Renaud. - Pelo menos eu sei agora que alguém ficou de olho em você lá... – Sasha falou sem sequer pensar antes de dizer isso. Aquilo não era "cuidar" dele, ficar de olho" sim. A mãe de Renaud tinha falecido, mas a vontade que tinha mesmo era de mandá-la para o inferno, porque aquela não era atitude de gente, deixar o filho acreditar que nunca tinha sido visitado no hospital na situação em que Renaud tinha estado. - A água... – Didier franziu a testa, olhando de Sasha para Renaud, mas estava com a expressão aflita muito óbvia, porque aquela era um tipo de conversa entre os dois apenas, e não tinha a mínima ideia do que estavam falando. E se aquela ela mais uma circunstância em que a mãe de Renaud tinha falhado com ele, temia não ser controlado o suficiente de não enfatizar o quanto tudo aquilo – toda a situação em que ela tinha colocado Renaud – era absurda. Pelo menos uma coisa Sasha e Didier concordavam. Estavam tristes por Renaud, mas não faziam questão de derramar uma lágrima pela mãe dele. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Renaud - 10-02-2021 Renaud estava aturdido diante da enxurrada de pensamentos que lhe assombravam, e se sentia imensamente culpado não só por ter acreditado que sua mãe era ingrata, mas por ter preocupado ela a ponto que viesse até Cerise lhe ver. O Blanco sentiu um arrepio perpassar todo o seu corpo quando teve a realização de que aquilo era culpa sua. Tudo. No passado pelo choque que fizera sua mãe se afastar de si, como consequência se molestar diante da ideia de ter falhado como mãe, e agora, por ter feito a mulher sair de sua rotina para lhe ajudar. Uma saída sem volta. Sentiu o toque sobre sua coxa e o corpo reagiu de forma espasmódica, quase como se tivesse saído de um pequeno transe de pensamentos. Torceu as sobrancelhas numa expressão receosa, amedrontado com o cenário que sua mente alimentava agora, não queria acreditar, mas ao mesmo tempo a culpa ia crescendo como uma erva daninha em seu peito lhe trazendo gastura. Sentiu-se tonto pois seus sentimentos lhe enforcavam e não sabia o que fazer com eles, levou as costas das mãos contra a de Sasha já que não podia lhe apertar a mão em resposta. Abriu e fechou a boca sem conseguir verbalizar muito mais, as palavras se embolando, e quanto maior o silêncio, mais aflito Renaud ficava. No final das contas se sua mãe tinha se afastado era consequência de suas ações. E a morte dela agora também era culpa do moreno mais novo ou assim sua cabeça o estava tentando convencer. Saiu dos pensamentos cíclicos quando seu namorado se aproximou com a água pedida, levou a mão livre para segurar o copo, mas os movimentos erráticos das mãos machucadas o fizeram quase amassar o plástico. Precisou de ajuda para tomar dois goles de água, que desceram rasgando como se engolisse um punhado de agulhas. Acenou negativamente para o copo gesticulando que não conseguia tomar mais que aquilo, e esperou que o namorado retornasse ao seu lado, fazendo contato tanto com Sasha quanto com Didier, pelos nós dos dedos, cada um com uma mão, sem poder entrelaçar ou apertar, restava encostar. A culpa sobre si era tanta, que era como se o rasgasse por dentro, espremendo até que as palavras desembocassem em murmúrios melancólicos: -- Ela sabia… das brigas… eu… decepcionei, deixei ela triste… doente…! -- a respiração pesou, e precisou puxar o ar com força em um suspiro sôfrego: -- Naquele dia… eu a fiz ficar mal… e dessa vez… eu… eu a …. -- não conseguia terminar a frase sem os olhos se umedecerem novamente, porque ficava claro no discurso do Blanco que ele estava carregando o peso de toda a trajetória descompassada que tivera com sua progenitora, até a culpa por seu fim trágico. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Didier - 10-02-2021 Havia algo no olhar de Renaud, algo que flutuava, algum pensamento que Didier não apreciava. Supunha que não gostaria de estar na mente dele, fervilhante, naquele momento, e não podia culpar o moreno por pensar em absolutamente tudo dado quem tinha morrido e como, e tão de repente, e de modo tão devastador. Ainda sim, atentou para aquelas faces de Renaud que não conhecia, porque até o toque de Sasha, quem ele confiava, pareceu tirar ele de um estado quase de transe. O silêncio da enfermaria era incômodo, mas o que podiam fazer? Didier ajudou Renaud a beber aqueles poucos goles de água, e então colocou o copo no lugar mais próximo, em seguida, se acomodando do lado de Renaud na cama, as pernas para fora, e o braço em torno do moreno. Deixou a outra mão próxima a ele, já que ele parecia apreciar aquele toque singelo com os nós dos dedos, que não magoavam os ferimentos das mãos. Sasha e Didier ouviram os murmúrios cheios de arrependimento seguintes, das brigas que ambos sabiam que tinham mesmo esse efeito, e Sasha mordeu a língua para não responder “e daí?”, afinal, Renaud parecia falar como se fosse unicamente culpa dele que as brigas tivessem deixado a mãe decepcionada, quando pelo visto ela não era exatamente a pessoa mais presente. Didier, por outro lado, sentia no tremor dolorido do corpo de Renaud aquela estranha sensação de culpa e isso lhe causou um arrepio desagradável por todo o corpo, ainda mais ao ouvir Renaud colocar tudo em palavras, falando “daquele dia” de novo, o dia que não tinha ideia de como a mãe dele tinha lhe falhado, mas certamente pesava que nem um monolito na mente e no coração de Renaud, pois era a primeira coisa que ele fazia questão de pontuar e relacionar com a morte da mãe. E que culpa ele tinha? - Ei...! Ei, menino! Se sua mãe não ficasse mal naquele dia, ela não merecia uma lágrima sua. Você não é culpado disso, você é vítima disso, tá entendendo?? – Sasha falou com muita pressa, antes mesmo que Didier pudesse processar tudo, porque não entendia tudo que estavam falando, exceto a agonia que sentia ao ouvir Renaud tentar se culpar pelos estados do relacionamento com a mãe, inclusive a morte dela - E dessa vez também, você o que? Você não tem culpa de nada. O loiro estremeceu ao lado de Renaud. Deveria estar mais preocupado com o estado de Renaud do que em juntar os pequenos pedaços de informação que Sasha lhe dava, tudo que sabia era que Renaud brigava, que tinha decepcionado a mãe, que tinha ido parar no hospital por isso, e que tinha sido uma vítima. Abriu a boca para falar algo, mas fechou em seguida, não porque não tinha nada a dizer, mas porque se dissesse, temia ser sincero demais e afetar negativamente Renaud. Sincero demais, porque assim como o moreno, tinha passado a vida toda brigando e tentando chamar a atenção da mãe, e nesse ponto, até entendia vagamente o sentimento de conhecer um pouco do carinho maternal só para perder em seguida. A ideia de que Renaud estaria se culpando por toda a negligência da mãe lhe dava vontade de gritar. - Hoy usted está mal... llorando por ela, Renaud... porque é um bom hijo. No mereces sufrir así. – Didier falou, apertando Renaud próximo a si, encostando brevemente a cabeça no ombro dele. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Renaud - 10-03-2021 Todas as coisas ditas por seu irmão tinham um fundo de verdade, afinal, ele não mentiria para lhe agradar, sabia, conhecia Sasha a tempo suficiente, e ele preferia verdades dolorosas a mentiras doces. No entanto, seu irmão não tinha dimensão total do relacionamento que tivera com sua mãe ao longo dos anos. Na conversa com o Dr. Vlahos tinham chegado a um ponto onde talvez lidar com uma criança com a personalidade de Renaud fosse difícil, e a hipótese se confirmou quando conversara com a mulher. Beatrice lhe confidenciou que não sabia lidar com Renaud, no fim das contas, ja tinha nascido com seus defeitos, mesmo que se esforçasse ao limite não tinha como cobrir suas falhas de nascença. Encarou o mais velho, engolindo a vontade de voltar a chorar, o jovem Blanco sentia seu corpo todo tenso, como se suas memórias se misturassem em vários momentos de conversas, que acabavam reforçando a narrativa negativa. O rosto de Renaud normalmente comum e inexpressivo, naquele momento era translúcido, fácil de perceber o arrependimento nas sobrancelhas vincadas, na amargura em seus olhos quase prontos a se derramar em lágrimas. O moreno mais novo estava sendo consumido pela culpa. Ouviu e sentiu Didier perto de si, e suspirou, demonstrava estar exausto, não se sentia um filho bom, se fosse não teria causado tantos problemas, não teria imposto tanto trabalho e sofrimento a mulher de forma que ela tivesse um fim tão terrível: -- Queria ter essa… certeza. -- tentou organizar as palavras melhor, pigarreando, como se as palavras fossem azedas em sua fala: --, se fosse um filho bom… não teria causado tanto… mal a ela. -- sentiu o estômago revirar profundamente, o fel lhe subindo ao palato: -- Eu sou todo defeituoso… desde que vim… sou todo desgraçado por dentro… e no fim, será que ao menos uma vez ela foi feliz por me ter? -- Perguntou sabendo que nenhum de seus amigos tinham aquela resposta -- Como posso ser um filho bom… se eu não fiz nada que a deixasse feliz? Fechou os olhos momentaneamente, sentindo o peito apertar, e a respiração queimar-lhe por dentro, estava asfixiando em culpa e tristeza. Mas riu, um riso inconformado, de quem não sabia mais que expressão estava fazendo, e nem como nomear o que estava sentindo. Estava uma bagunça. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Didier - 10-03-2021 Sasha sabia que não era a melhor pessoa naquela situação, porque era insensível e tinha dificuldade de compreender os sentimentos alheios. Porém, até a mente pouco empática de Sasha podia ver o quão difícil era aquele momento para Renaud, e pior, o quanto ele ainda tentava se culpar por tudo aquilo que não era culpa dele. Isso lhe deixava com um gosto amargo na boca, afinal, não conseguia entender inteiramente o sentimento do irmão quando não tinha essa necessidade de aprovação da família como ele tinha. Mas mesmo que não fosse ligado a própria família como ele era, sentiu um arrepio passar pelos braços e pela nuca com as palavras dele, engolindo quadrado qualquer confiança de reclamar ou lançar aquelas palavras honestas e insensíveis ao vento como fazia sempre. Renaud, de todas as pessoas, com todos os eventos no passado, se considerava defeituoso, e por isso estava se culpando, por ser daquele jeito, pela forma como o relacionamento conturbado dele com a mãe aconteceu. Isso lhe deixava tão irado, tão furioso que não tinha sequer reação, afinal, que relacionamento desgraçado ele tinha com a família que conseguia fazer ele sentir tanta culpa de só ser do jeito que ele era? Era fácil para Sasha pensar o quão fodido era isso, porque tinha sido “perfeito” a vida toda, e agora era defeituoso. Renaud queria não ser defeituoso para ser aceito pela mãe, enquanto Sasha só tinha encontrado qualquer vaga noção de uma família normal por ser defeituoso. Tinham como vencer, nessas circunstâncias? Vencer o egoísmo dos próprios pais? Por isso tinha achado uma família em outro lugar: parte porque é ingrato, parte porque precisava ser aceito por alguém que não lhe tratasse como lixo ou como um projeto de caridade. Didier, que por outro lado, entendia melhor o relacionamento entre Renaud e a mãe não estava pronto para aquelas palavras. Não porque não as esperasse eventualmente, mas porque já se sentia com imensa dificuldade de não desrespeitar o luto do moreno, mas era impossível se impedir de franzir a testa e morder os dentes, apertando o lençol sobre a maca com toda a força que tinha depois de ouvir aquelas palavras tão significativas. Aquelas não eram só palavras. Eram um soco direto no seu rosto. Respirou fundo, mas não conseguia se sentir nada além de afobado, e a respiração foi ficando cada vez mais curta. - Seguro, tengo essa certeza por você. – Didier falou com um tom baixo, encarando Renaud e trazendo o rosto dele com as mãos em sua direção. – Que você é um hijo bueno, e que você não é defeituoso... ela é su mamá, Renaud. Ela lhe quis, então ter você é o suficiente para fazê-la feliz. – o loiro falou com muita segurança, apesar da voz tensa e baixa. – Não é uma troca. Você faz ela feliz e ela lhe chama de bom menino. Una madre cuida a su hijo. O espanhol tinha muito, muito a dizer sobre isso. Estava segurando a língua como podia, controlando-se como podia, porque afinal, não estava descrevendo só o relacionamento conturbado entre Renaud e Beatrice, mas o dele mesmo e de sua mãe. Afinal, quem mais que Didier para perceber que era um filho defeituoso, quebrado, que tinha tentado a vida toda comprar afeição da mãe com favores, e que tinha sido abandonado tal qual Renaud? Sentiu um nó descer a garganta, afinal, o mais injusto era que Renaud tinha perdido a chance de consertar o relacionamento com ela por algo além do controle dos dois; ele tinha recebido uma indicação clara de que Beatrice não o rejeitava, mas estava engolido demais pela culpa e a tristeza para perceber. Didier passou os quatro últimos anos ansiando por qualquer sinal como a visita de Beatrice, mas não sentia inveja alguma, só revolta com o destino tinha agido: dando enfim a presença da mãe de Renaud só para tira-la dele em um instante. Já não bastava o tanto que ele tinha sofrido? - Se tem algo defeituoso é o relacionamento de vocês, no ella, ni tú. Porque mesmo que você fosse difícil de lidar quando niño... mesmo que ela não soubesse como... ela debia haber estado contigo. Você foi pra rua brigar, e não teve resposta. Você se “consertou”, você praticou suas músicas, você... convertiste em vicepresidente... você se tornou um “estudiante perfecto” e não teve resposta. Has intentado toda la vida, Renaud, que ela olhasse pra você... você não foi um filho ruim, e também não foi um filho bom... porque ella no estaba contigo para ver nenhum dos dois. Pero yo vi. Eu vi você se esforçar. – Didier disparou, como se estivesse vomitando aquelas palavras, do próprio coração, ignorando toda a tristeza de Renaud naquele momento pela perda da mãe, e suas palavras talvez tenham sido tão honestas que Sasha até acordou dos pensamentos para lhe encarar também. Didier não conseguia mais respirar profundamente para se acalmar, e as lágrimas correram pelo seu rosto muito fáceis, como se não tivesse se impedido de chorar na frente dos outros a vida toda. – Se ela não tivesse se afastado, ela não teria causado tanto mal a você. E se ela não se preocupou uma vez com todas las tonterias que a gente se meteu, eu concordo com o Peyrac, ela não merece suas lágrimas. Didier enxugou os próprios olhos com as mãos, de modo desajeitado, mas eles ainda estavam muito vermelhos, e a expressão muito lívida de raiva, de frustração, que aqueles pensamentos sequer cruzavam a cabeça de Renaud. - Ella... su mamá... não era perfecta. Ella tambien... E levou esse tempo todo pra ela tentar olhar pra você... e mais que olhar pra você, hablar com você, e você responder. Vocês precisavam tanto hablar. – a voz do loiro subsidiou o tom intenso, os lábios trêmulos denunciando o pouco controle que tinha de si mesmo. Sasha alcançou a perna de Didier, o olhar franzido claramente lhe dizendo que já era o suficiente, que ele estava falando demais, indo longe demais. Mas Didier não sabia como parar. – Renaud, no creo... que ela sequer tentaria falar com você depois de tanto tempo... se ela não estivesse preocupada. Me lo dijo... as coisas que conversaram... eu não acho que su mamá veio procurar um hijo perfecto, ou bueno... ela veio procurar você. Ela veio cuidar de você. Uma vez... uma vez ela deixou a covardia de lado e veio cuidar de você. Isso não é prova... que algo que você fez na vida... fez bem a ela? Por que ela viria por um hijo que não amava? Tonto!– Didier franziu a testa, as lágrimas voltando aos olhos, que enxugou devagar enquanto a garganta se fechava. – Lo sie... lo siento... eu não queria te magoar... no queria hablar tanto... pero no puedo ver você pensar tonterias... Sasha abaixou o olhar, uma mão sobre o joelho de Renaud a outra sobre o de Didier. Encarou os dois, querendo pelo menos parabenizar Didier por não ter mentido, mas bem verdade, achava que ele tinha falado demais mesmo. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Renaud - 03-08-2022 Estava tão absorto nos sentimentos ruins que se aninharam em seu coração que o misto de reações de Sasha as suas palavras passaram despercebidos. Normalmente tomaria mais atenção nas diferentes expressões que o mais velho carregava de acordo com suas palavras, mas não naquele momento. Não naquele dia. O jovem Blanco tinha um oco enorme em seu peito ao saber da notícia da morte de sua mãe. Agora esse mesmo buraco precisava ser preenchido por algo, para não lhe consumir completamente, e por ser naturalmente caótico, estava preenchendo-o com culpa, tristeza e amargor. Quanto mais pensava mais fundo caia na ideia de ser “ele” a causa da ruína de sua relação familiar. Se manteria naquele ritmo de sentir pena de si mesmo, se não fosse a presença de Didier tão forte ao seu lado, falando ativamente que era um “bom filho”. O moreno mais novo ergueu o olhar pronto pra negar, mas não conseguiu, apenas encarou os olhos azuis do namorado, fixos em sua pessoa enquanto ele colocava pra fora o que parecia ser um pensamento muito longo sobre o que é uma mãe para um filho. Certamente não estava em condições de absorver o sentido total daquelas palavras, mas sentia elas vibrarem em seu corpo, e o sentimento do loiro chegar em si. Era forte. Com certeza muitas daquelas palavras fossem coisas que Didier ponderava para si mesmo, e que não tinha necessariamente a coragem de externar, e teve a confirmação quando viu as lágrimas rolarem no rosto do outro. Renaud agora, só podia escutar, era um misto de honestidade e frustração que era confuso e muito lúcido, conversava com seu interior caótico e triste, como estava. O moreno respirou fundo, torceu a expressão engolindo em seco, principalmente quando o mais velho destacou que independente de ter sido um filho bom ou ruim, sua mãe não estava ali para ver. A mãe de nenhum deles, pouca gente estava ali para ver como os dois sobreviveram aqueles anos de abandono. O jovem Blanco já tinha chorado tanto, que apenas sentiu os olhos úmidos, estava pronto a chorar novamente, queria intensamente chorar. Mas quanto mais Didier lhe falava honestamente como sua mãe tinha sido covarde, sentia as coisas misturadas, a visão que tinha idealizado dela, a versão que conheceu e a que seu namorado falava. Qual seria a real? Não tinha uma resposta. Jamais teria. Mordeu o lábio inferior e sentiu a mão de Sasha descansar sobre sua perna, enquanto ouvia a voz de Didier tremular em reafirmar que tinha de falar, mesmo que lhe magoasse, porque não podia deixa-lo pensando “tonterias”. O Blanco negou com a cabeça, e respirou fundo, soltando o ar pela boca, como era pesado pensar nessas coisas, como era difícil: – eu… ! – sentiu a própria voz falhar, e os olhos arderem, levou as costas da mão sobre os olhos esfregando a área: – eu não sei… dizer se ela era boa ou ruim… pra mim… talvez os dois? – o jovem Blanco olhou das mãos de Didier para as de Sasha, e com movimentos desengonçados segurou e acariciou as duas, como os bens preciosos que tinha e que eram para si: – não sei se eu fui bom ou ruim… ou os dois…mesmo agora, eu não tenho certeza de muitas coisas… /– o moreno mais novo suspirou, sôfrego, como se respirar fosse um trabalho muito difícil: – e você não está me magoando Didier… Tienes razón... necesitábamos hablar... mucho más… Engoliu a própria saliva como se tivesse botado uma bola de espinhos pra dentro, e respirou fundo, erguendo uma das mãos de cada um dos dois, e levando próximo da testa, esfregou o rosto ali, como se precisasse reafirmar que tinha os dois junto a si. Ainda doía imensamente, como se estivesse com ferimentos abertos vertendo sangue, mas estar sozinho seria muito pior. – não há dignidade no luto… apenas dor. RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - Didier - 03-27-2022 Se fosse fácil entender apenas com palavras, Renaud pularia fora daquele barco de lamentação muito rápido. Mas Didier sabia, na forma mucha e de lágrimas reprimidas do namorado, que embora ele entendesse suas palavras, elas não faziam sentido; ou embora elas fizessem sentido, ele não as entendia. E Didier nem esperava que ele compreendesse tudo, afinal, era um discurso tanto para si mesmo quanto para o moreno, e o próprio professador daquelas palavras não as entendia em sua totalidade. Bem dizer, o sentimento complicado que havia ali mesmo perdurando por tanto tempo, causado pelos atritos familiares entre mãe e filho, eram mais do que podiam ser mentalizados. Tinham se convertido em algo que corria pelas veias de Renaud e Didier, faziam parte integral de cada coisa que faziam e corriam com o sangue que os movia. Didier partilhava aquelas lágrimas com Renaud, mas não esperava dele uma resposta em palavras, embora ele tentasse em vão organizar os pensamentos em algo lógico, nem que fosse para fazer sentido pra ele. - Sí. Hablamaremos... pero también estaré para escuchar... cuando lo necesites... – Didier respondeu, aceitando silenciosamente o perdão de Renaud por suas palavras duras naquele momento. Apesar de saber que eram palavras erradas, não se arrependia de nada que tinha dito, o que era raro considerando sua impulsividade. Sasha não entendeu muito das palavras de Didier, mas sentia que ele estava oferecendo seu apoio. Tinha uma coisa positiva nos dois estarem juntos ao menos: eles tinham certa cumplicidade e entendimento mútuo que Sasha não partilhava dos anos que não esteve com Renaud. Era bom que Renaud tivesse alguém que o entendia melhor naquele momento. Mesmo assim, ofereceu sua mão ao irmão e deixou que ele levasse ambas ao rosto, observando aqueles traços vagos da figura que conhecia e que precisava de tanto mais tempo para se curar agora. Como ele mesmo disse, não havia razão para esperar dignidade frente a dor. O que ele precisava mesmo era sentir todas aquelas emoções e as que viriam depois. Na verdade, para Sasha, achava que talvez as palavras de Renaud fossem um tanto mau aplicadas. - Menino, não tem nada mais digno que se permitir sentir essa dor... e a gente vai estar aqui com você, tá? Hoje, amanhã, enquanto doer... e até depois disso. – o moreno comentou, dando um tapinha suave no rosto de Renaud e outro nas costas de Didier, mas deixando Renaud ficar com sua mão como bem queria. Didier até ficaria indignado com o tapinha amigo casual de Sasha, mas apenas olhou atravessado para o cadeirante um instante e abraçou Renaud, encostando o rosto na cabeça dele, apertando-o firme. Não havia muito mais o que dizer ou fazer ali, a não ser esperar o tempo que conseguissem com ele, até a hora dele ir encontrar com o doutor, ou talvez a própria família. Pelo menos queriam ambos garantir que ele entendia que não estava sozinho ali, e isso, imaginavam, que Renaud sabia. [E aí, Mari? Encerra aqui?] |