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Trouble in Paradise [Carbella] - Natalia - 01-22-2023

De acordo com o que havia conseguido averiguar da situação na pediatria, a ruivinha cereja havia se tornado um assunto delicado para se falar a respeito. Nem mesmo a supervisora da jovem enfermeira parecia inclinada a falar sobre a situação do desempenho do trabalho da mulher. Contudo, ao conversar com a supervisora de Carbella durante um café casual na copa do hospital, conseguiu descobrir como a mulher também parecia exausta da situação enquanto ela se queixava de estar passando muito tempo longe da própria família. Ouviu dizer no setor que a mulher mais velha havia conseguido uma transferência para algum dos setores administrativos do hospital, com fluxo mais tranquilo de trabalho e um pagamento maior. Porém, diante da sensibilidade da responsabilidade do cargo que ocupava, ela estava tendo crises de enxaqueca constantes pela obrigação de indicar alguém para substituí-la na supervisão. Naturalmente amigável, não hesitou em se oferecer para assumir o plantão da mulher durante sua "folga", considerando que não estava com nenhuma cirurgia marcada para o dia ou precisaria atender clinicamente algum caso mais urgente.

E foi assim que estava com a melhor expressão de desconforto ao se dar conta de que havia assumido, por aquele curto período de tempo, a supervisão de não qualquer setor, mas do setor do qual mais costumava se manter afastada: a pediatria.  Não foi difícil observar falhas na troca de plantões e horários dos funcionários ou ouvir comentários entre eles sobre combinados de horas para a troca de plantões. Não se importava com os "arrumadinhos" entre eles, até porque costumava fazer muito isso em seu próprio setor quando tinha alguma "emergência" para resolver. Contudo, não se importava desde que a negociação não afetasse o atendimento direto aos pacientes do setor, que deveriam ser a prioridade do hospital.

Conhecendo o aspecto de viciada em trabalho da ruiva cereja, não achou que ela demoraria tanto a assumir seu lugar na pediatria naquele dia, apesar do estado de nervos em que ela parecia estar no dia anterior. Na pequena sala da supervisão, havia começado a verificar os relatórios mais recentes do plantão da enfermeira. Como era de esperar, nada fora do comum, e a jovem até havia feito correções no prontuário de alguns pacientes a fim de melhorar o quadro de recuperação de muitos. Entretanto, no que constava no relatório do último plantão, havia uma breve observação sobre a troca de prontuários de dois pacientes de nomes parecidos. Ao que pareciam, eram irmãos, logo tinham o mesmo sobrenome, e por isso, deveriam ter confudido a cabeça já cansada da ruiva cereja.

Estava na sala de supervisão da pediatria, sentada à mesa com os papeis em mãos, aproveitando para verificar a dosagem das medicações mais recentes. Imaginou que não demoraria muito para Carbella retornar ao trabalho, então achou melhor continuar na sala, principalmente para evitar ter de lidar diretamente com qualquer criança no período em que estava ali aguardando a mulher. Ainda estava preocupada com o estado de Clementine, principalmente após a garota falar sobre conseguir dinheiro e começar a trabalhar logo. Talvez devesse alertar também Carbella para buscar o acompanhamento terapêutico psicológico do hospital para si e para a própria irmã.


RE: Trouble in Paradise [Carbella] - Carbella - 01-22-2023

Tinha chegado com a cabeça tão cheia da briga recente que não tinha juízo nenhum pra absolutamente nada, sequer conversou com Clementine, apenas tomou um banho e caiu na cama, estava exausta.

Estava cansada em todos os aspectos e significados da palavra.

Não tinha de exatamente madrugar, embora seu corpo geralmente acordasse sempre no mesmo horário naquele dia em específico talvez o cansaço mental tivesse pesado mais e tivesse feito a mulher de cabelos ruivos despertar fora do seu horário. Quando buscou o despertador e notou que já passava das oito horas da manhã ergueu-se de solavanco, sentindo dor perpassar todo o corpo. Sequer tinha se esforçado fisicamente para estar daquele jeito.

Desceu as escadas e chamou a irmã mais nova, sem ter qualquer resposta chegou na cozinha, onde tinha café feito na garrafa térmica, assim como bolo, torradas, e ovo frito. junto ao prato coberto tinha um bilhete da menor dizendo que Fleur a tinha levado para escola, e que a irmã usasse a manhã para descansar.

Quando leu a palavra amassou o papel na mão em reflexo. só depois notando como sua ação tinha sido exagerada, levou a mão ao encontro dos olhos e massageou a área. Não sentia fome, estava em verdade enjoada e com muita dor de cabeça, sentia ardência nos olhos, e uma leve tontura. Comeu por apenas obrigação, e não muito, e deixou um bilhete de retorno a menor, avisando que ela poderia dormir na casa de Fleur já que pegaria plantão até o horário da madrugada.

Estava cansada, mas não queria admitir que estava.

Não queria desistir quando já tinha chegado tão longe, podia julgar que era a TPM do seu período próximo, falta de vitaminas ou de sono. Em certo ponto enquanto tomava seu banho e se arrumava para sair para o hospital, um pensamento intrusivo chegou a sua mente: “será mesmo que tinha chegado tão longe?” sacudiu a cabeça negativamente, sentindo uma dor pontual lhe atacar na altura da cintura. Teria dormido de mal jeito?

Ignorou.

Secou e penteou os cabelos entrançando-os e prendendo em um coque alto. Normalmente esconderia as olheiras da noite mal dormida com uma camada suave de maquiagem, mas não quis se olhar no espelho além do necessário. Algo além do grau alto nublava sua visão e sentia a cabeça pesada.


Pegou a condução e agiu no automático mandando mensagens para Fleur e Arman avisando sobre Clementine. Recebeu mensagens de colegas de trabalho perguntando se o combinado estava de pé sobre as trocas de horário e sentiu a pálpebra tremer de leve.

Ignorou.

Bateu o ponto e comprimentou os colegas de um jeito automático, dispensou responder perguntas, se trocou colocando suas roupas azuis costumeiras, tinha de focar toda sua atenção novamente em seu trabalho, pra não ocorrer o mesmo erro bobo do dia anterior. Sentiu a dor novamente lhe atacar na altura da cintura e ao por a máscara sentiu uma leve falta de ar. Fechou os olhos momentaneamente e respirou fundo, antes de mesmo incomodada seguir adiante. Ao chegar em seu setor de trabalho para checar os prontuários do dia qual sua surpresa ao encontrar a Doutora Arlovskaya, que no dia anterior estava em sua casa, fazendo sabe-se lá o quê. Tinha jogado no fundo da mente a presença da mulher em sua residência e só agora a ideia dela estar lá lhe parecia estranha.

– O que está fazendo aqui?


RE: Trouble in Paradise [Carbella] - Natalia - 01-22-2023

Ergueu o olhar dos papeis que estava a conferir juntamente com os dados na plataforma online do sistema do hospital após ouvir a pergunta da voz familiar da enfermeira ruivinha. Demorou um pouco para abrir a boca e responder, analisando o estado da aparência da enfermeira exemplar do setor da pediatria.

- Você está bem? - devolveu a pergunta com outra pergunta antes de baixar a pasta que tinha em mãos sobre a mesa da salinha. - Ah- sim, o que eu estou fazendo aqui. - fez uma breve pausa antes de desvirar e arrumar o crachá que usava pendurado em seu jaleco de trabalho, informando que era a supervisora responsável pelo setor da pediatria. - Eu vou supervisionar o setor hoje. Sua chefe precisou de uma folga.

Levantou-se da mesa para poder pegar na estante próxima a lista de pacientes separados que deveriam receber alta naquele dia ou que precisavam de uma avaliação para serem liberados. Aproximou-se da enfermeira, entregando para ela o grupo de pastas.

- Vamos precisar avaliar estes pacientes hoje. - fez uma breve pausa antes de soltar as pastas entregues para a enfemeira. - Hm. Tem certeza que está bem para trabalhar hoje? A sua cara não parece muito boa. Nem os... - apontou para o próprio cabelo, enrolando o dedo ao indicar o penteado usual da ruiva cereja. - ... sabe? E falou com a sua irmã ontem? Ela parecia bem preocupada com você. - tentou explicar, imaginandoo que deixar as crianças do hospital preocupadas com ela também não seria uma boa forma de voltar ao trabalho naquele dia. Talvez a enfermeira também precisasse de um dia de folga, ou dias.


RE: Trouble in Paradise [Carbella] - Carbella - 01-22-2023

Obviamente seria impossível para uma pessoa como a doutora Arlovskaya responder uma pergunta direta. Ela tinha de ter a prioridade das perguntas e das respostas, e Carbella sentiu a pálpebra tremer quando foi questionada se “estava bem”. Precisou respirar fundo, o ar chegando abafado devido ao uso da máscara, não conseguiu impedir o revirar de olhos diante das várias explicações da mulher.

– Eu não fui avisada da troca. – pontuou aquilo, mas quem era ela pra exigir que os procedimentos do hospital fossem seguidor com rigor, qualquer pessoa que checasse sua escala de horas de trabalho certamente ficaria assustado com o excesso de horas cobertas. – mas realmente, não é minha função administrar as trocas de horários de chefia, logo não preciso ser avisada.

A ruiva ignorou completamente a pergunta sobre seu estado de saúde, aquilo não tinha nenhuma relação com seu trabalho, logo não precisava ser posto na conversa. Obviamente a mulher estava inclinada a cuidar de todos os aspectos da sua vida, fosse o profissional ou o pessoal.

Que pessoa irritante.

A ruiva atentou aos prontuários olhando-os com o máximo de atenção que conseguia, dada a sua dor de cabeça persistente. Muito embora as informações não se fixassem em sua mente, sentia como se lesse e relesse as linhas, mas elas não estivesse escritas em francês.

– Qualquer assunto que não seja referente a trabalho pode esperar o final do plantão doutora Arlovskaya. – pontuou aquilo passando por cima da preocupação da mulher com um rolo compressor. – Quais são suas determinações para os pacientes de atenção especial?

mudou de assunto, como não conseguia absorver palavras escritas, talvez as palavras ditas da mulher fossem melhor compreendidas. Só queria se afundar em trabalho sem ter de pensar em nenhumas das coisas que lhe incomodava. Só tinha paz quando estava com a mente completamente focada em serviço, assim se sentia útil, assim se sentia fazendo parte de algo importante e digno. e não tinha de fazer reflexões cansativas sobre coisas que ainda não tinha alcançado.


RE: Trouble in Paradise [Carbella] - Natalia - 01-22-2023

Pensou em responder a ela e explicar que na verdade havia sugerido isso para a supervisora dela de madrugada após um café, mas achou melhor poupar a enfermeira dos detalhes, visto a situação atual do humor azedo da mulher. Encarou com descrença a outra após ela falar sobre as perguntas que deveriam ser feitas após o plantão e acabou por soltar as pastas, deixando que ela lesse os prontuários com mais calma, já havia lido todos de qualquer forma. Pegou seu estestocópio que estava sobre a mesa e seguiu para sair da sala, passando pela enfermeira ruiva cereja.

- Nós vamos passar na enfermaria e UTI agora para verificar pessoalmente o estado dos pacientes. Fiz uma visita mais cedo na madrugada, alguns podem ser liberados e outros precisam ser removidos para a enfermaria. Estava esperando para ver se viria hoje, então poderia ter uma segunda opinião, considerando que este não é meu setor de costume. - fez uma breve pausa antes de dar as costas para a enfermeira e seguir para as respectivas alas que havia indicado anteriormente. - Além disso, eu não sei exatamente como lidar com crianças, então... no que puder me auxiliar, será ótimo.

Explicou ao se dirigir primeiramente para a UTI, verificando a situação e os sinais vitais de paciente por paciente, indicando aqueles que seriam possíveis de serem movidos para a enfermaria. Além disso, como estavam no setor da pediatria, precisavam passar pela UTI da obstetrícia, então também precisou verificar a situação dos bebês prematuros que haviam sido concebidos na cidade. Pelo menos aqueles não davam tanto trabalho, considerando que estavam todos sendo monotirados 24 horas pela equipe intensiva do hospital.

A enfermaria que era o problema, pois precisava lidar não só com a situação das crianças, mas com os pais que estavam acompanhando os pequenos também. Esperou que a enfermeira fizesse o trabalho mais social, considerando que ela deveria saber melhor como lidar com os pais e os pequenos.

- Doutora, meu filho vai ser liberado logo? Ele está perdendo muitas aulas aqui, eu não quero que ele seja reprovado. - ouviu um dos pais falando ao atender uma das crianças na enfermaria que estava se recuperando de um quadro de infecção estomacal e havia passado por um processo delicado e invasivo de lavagem. Notou como os pais pareciam mais inclinados em falar consigo por ser a médica responsável pela supervisão que diretamente com a enfermeira que estava ali há mais tempo que ela.

- Ah. Um ano a mais, um ano a menos, se ele for inteligente, ele vai conseguir recuperar o ano, mesmo que perca o semestre por causa desse semestre, não é? - deu de ombros, imaginando que os pais não deveriam se preocupar com aquele tipo de coisa quando a criança havia passado por um processo tão delicado como era o de uma lavagem. Pela reação surpresa e indignada da mulher, concluiu que havia feito a escolha errada das palavras, então apenas riu sem graça antes de assinar o prontuário, indicando que o paciente ainda precisaria ficar mais um dia ali para observação. - Ele vai ficar bem, ele vai ficar bem. - acenou com amão segurando a caneta, partindo para os próximos pacientes, tentando ignorar o possível olhar de julgamento que poderia receber depois da própria enfermeira que lhe acompanhava.


RE: Trouble in Paradise [Carbella] - Carbella - 09-24-2023

Carbella queria dizer que estava atenta a situação, e no seu tipo de trabalho, atenção era algo que não podia lhe faltar, sua cabeça doía imensamente, e seus olhos ardiam e piscava longamente, o gesto de levar os dedos em pinça ao encontro dos olhos era recorrente, e parou de prestar atenção na conversa entre pais e a doutora por apenas um estante. Apenas quando a criança lhe lançou um olhar desapontado com o seu prognóstico apenas se ajoelhou sobre uma das pernas e comentou baixinho:

– Vai ficar tudo bem, logo logo você está em casa – Não foi dito com tanta firmeza, e talvez por isso a criança tenha apenas suspirou em resposta.

– se eu repetir o ano, não vou ter mais meus coleguinhas de classe, vou ter de conhecer todo mundo de novo. – Carbella sequer tinha percebido que a conversa tinha seguido ao ponto dele seguir internado a ponto de repetir de ano. Respirou fundo e tentou focar um pouco da atenção para o mais novo:

– Eu vou trazer alguns livros pra você ler, ao menos você se distrai e quando voltar pra escola vai ter assunto pra conversa.

Novamente a fala foi dita sem muita certeza, mas a criança apenas acenou positivamente meio conformada, era melhor que nada.

A doutora guiou os pais e as crianças até uma das salas onde terminaria de fazer os exames necessários e conversa, mas a enfermeira não conseguiu acompanhar, parou na central de enfermeiros e sentou junto a um dos computadores de checagem de prontuário, sentia a cabeça girar e pesar e um enjoo fortíssimo, os ouvidos zunindo, ignorou a fala dos outros enfermeiros, até um deles a sacudir pelo ombro:

– Eu preciso usar o computador Benedict.

Carbella bateu com a mão contra a do outro enfermeiro para que não encostasse em si, e encarou com um olhar fuzilante, se levantou e caminhou até a copa, sentiu o peito pesar, e por mais que puxasse o ar, ele não entrava adequadamente, sentia queimação e tontura. Parecia que tudo estava dando errado, apenas entrou na primeira sala com a porta aberta, e sentou no chão tentando compensar a respiração.


RE: Trouble in Paradise [Carbella] - Natalia - 09-27-2023

Ao terminar de consultar as crianças da enfermaria infantil, se retirou com um suspiro resignado de quem se sentia drenada ao ter que lidar com os pequenos e seus progenitores. Procurou a ruiva cereja com o olhar e arqueou uma sobrancelha ao não encontrá-la. Revisou algumas de suas anotações de prontuários por um breve momento antes de pedir a um dos enfermeiros do setor para inserir os dados no sistema e atualizar a medicação e os horários nos quais estas deveriam ser administradas.

O plantão até então estava tranquilo e era curioso como alguns funcionários do lugar costumavam usar uniformes mais despojados com estampas de temáticas infantis. Buscou um copo com água na sala da supervisora, uma das poucas que estavam desocupadas e acabou por esbarrar com uma das portas entreabertas no corredor, o tom cereja de uma cabeleira que sequer estava mais com marias chiquinhas. Pensou por alguns instantes antes de se aproximar devagar, semicerrando a porta para que não chamassem atenção.

- Oi, ruiva, você tá bem? - agachou-se frente a enfermeira, estranhando como os ombros dela pareciam tensos e a respiração dela irregular. Não era como se os anos exercendo a medicina e alguns outros em constante tratamento psicológico não tivessem lhe permitido reconhecer quando alguém em sua equipe parecia estafado. Reconhecia muito bem aqueles sintomas, a apatia, o cansaço evidente, a hiperventilação discreta, mas efetiva para uma dolorosa sensação de pressão no peito. Cruzou os braços ao apoiá-los nos próprios joelhos dobrados, o copo com água ainda em sua mão. - Você precisa respirar, meu bem. - sorriu mais empática com a mulher, ciente de que também deveria ter culpa naquela situação pela qual ela estava passando. - Fundo pelo nariz e soltar pela boca. - completou, paciente em aguardar que ela decidisse seguir suas indicações.