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[Drive] Ab Amicis Honesta Petamus [Renaud; Sasha; Isaac] - Lil - 08-29-2021 Renaud
Depois de se despedir da cobertura do prédio administrativo e de uma das conversas mais difíceis que tivera em toda a vida, Renaud seguiu em passos curtos e lentos de volta ao seu quarto nos dormitórios. Lembrou-se apenas de pôr um alarme porque tinha outro compromisso naquele dia e dormiu pesadamente, e como há muito tempo não acontecia sonhou, com vozes, lugares, cheiros e cores, que lhe eram tão estranhos e tão familiares. E quando o alarme soou diferente do desespero que estava lhe corroendo ao acordar durante toda a semana, o despertar do Blanco foi moroso, preguiçoso, e lento, mas sentia o corpo leve, cheio de pequenos sentimentos indescritíveis, que não sabia nomear, mas queria que eles fizessem morada em seu peito por mais tempo, porque não estava difícil respirar como era em dias anteriores. Renaud tomou um banho, tirando um pouco da cara amassada de quem tinha chorado um bocado mais cedo, como era uma saída com Sasha e Isaac os dois tinham perfis muito diferentes, então ficaria num meio termo. Nem formal demais como o Isaac geralmente era, nem maloqueiro demais como Sasha costumava ser. O jovem Blanco optou por calça jeans de lavagem escura, sapatos marrom-escuros e suspensórios largos da mesma cor, a camisa xadrez e uma jaqueta preta por cima. Os botões não estavam fechados até o pescoço, o que deixava sua cicatriz no pescoço parcialmente visível, mas não estava preocupado em ficar exposto, iria conversar com duas pessoas que sabiam muito sobre si, então não havia necessidade de ficar na defensiva e na pose de primogênito dos Blanco. Pegou o perfume mais discreto de sua coleção La nuit de L’Homme, não queria chamar a atenção demais e gostava do cheiro de pimenta rosa de todo jeito. Seguiu para o estacionamento antes da hora marcada, parando do lado do próprio carro, e enviou mensagens tanto para Isaac quanto a Sasha. Sabia que nenhum dos dois tinha por hábito atrasar, mas chegar cedo lhe dava tempo pra respirar um pouco e se preparar pra noite. Tinha posto na cabeça muitas coisas durante a semana, algumas sozinho, e outras com a ajuda do Dr. Vlahos, e tinha chegado a algumas conclusões. Por isso, precisava daquela saída, e daquela conversa com aquelas pessoas, pôs na cabeça que era pra ser um momento leve, e tentaria seguir a própria meta. Precisava de mais momentos felizes pra se lembrar quando fosse perguntado. Isaac
A semana de Isaac estava sendo bastante cheia em vários aspectos. Mas nenhum deles pesava tanto ou lhe deixava tão cansado como nas semanas anteriores, afinal, recentemente, tinha se entendido com Ethan e era aquilo que lhe importava. Já não se sentia mais tão cansado, tinha passado por inúmeras situações estranhas que envolviam Renaud - brigando com Didier, fazendo boliche com os alunos do primeiro ano, arrumando o quarto, mexendo no seu prato de comida -, e até mesmo com Didier, que pareceu ter um surto só por comentar com ele que queria um conselho, pela primeira vez na sua vida em St. Clavier na companhia do loiro que insistia ser a "mama" de todo mundo. Não sabia no que aquela conversa estranha tinha dado e embora tentasse muito entender as pessoas ao seu lado mais a fundo... era uma tarefa bem difícil e que lhe dava dor de cabeça às vezes. A única coisa diferente em sua rotina era que ainda estava dispensado das atividades na delegacia por causa do pulso machucado. Continuava utilizando uma tala, e como já fazia dois bons dias que estava com a mão daquele jeito, devia conseguir voltar para o trabalho na delegacia na semana seguinte e para os treinos de esgrima na próxima semana. Claro que tinha sido parcialmente sua culpa por machucar o punho ao se resolver com Ethan, mas tinha valido a pena. O sábado foi bem convencional, exceto que tinha uma saída marcada com Renaud e diante da situação do vice-presidente do Conselho Estudantil, não estava nem pensando em negar. Claro que ainda falou com Ethan sobre a saída e pediu autorização, o que conseguiu sem muita dificuldade. Vestiu roupas muito básicas, com jeans escuro, uma camisa de botões azul escura e sapatos pretos. Não usava acessórios e só carregava consigo a carteira e o celular, que era mais do que o suficiente para uma saída breve. Faltando dez minutos para o horário que Renaud tinha marcado, saiu dos dormitórios e no meio do caminho até o estacionamento, sentiu a vibração no aparelho para notificação de uma mensagem. Olhou a mensagem bem a tempo de chegar ao estacionamento e ainda parou para responder, mesmo estando na vista de Renaud, com um breve "ok". Guardou o celular ao mesmo tempo em que parou diante do Blanco, com as mãos nos bolsos. - Cheguei. - só reforçou o que tinha dito na mensagem, como se já não fosse óbvio o suficiente. Renaud estava com uma aparência um pouco abatida, mas era o que tinha visto nos últimos dias. Não entendia de nada de problemas emocionais, mas bem entendia de estado físico. - Você está bem? Sasha
Sasha nunca tinha muito o que se preocupar em St. Clavier. Estudava, estudava mais, estudava com Viola (o que era um desafio a parte), cuidava dos afazeres do Conselho Disciplinar e quando estava cansado de tudo aquilo, se jogava na cama para ver um filme ou mais recentemente mandar mensagens para os caras ou Annica com banalidades. Mas estava até preocupado. Porque sabia que Renaud iria falar com Didier. Não que fosse da sua conta, os dois tinham que se resolver uma hora, e o fato de que tinha sido o loiro que tinha mandado mensagem já era um pouco de progresso, porém, estava acompanhando o estado emocional do irmão esse tempo todo. Não estava muito a fim de vê-lo em um estado pior por causa do loiro. Isso não. Naquele sábado, tinha marcado de sair com Renaud e com Isaac pelo visto. Era uma boa oportunidade para conversar besteiras, e quem sabe conhecer um pouco mais do estudante da máscara de ferro, porque com aquele fotógrafo no outro dia, não teve exatamente oportunidades. Se Renaud confiava nele, deveria ser um cara com alguma qualidade que redimisse a pouca expressão. Aliás, nem tinha ideia de para onde iriam, mas pela hora, achou melhor pegar algo que lhe aquecesse um pouco, pois embora sentisse bastante frio em cima, não tinha como medir a temperatura geral do corpo quando as pernas não acompanhavam o mesmo ritmo. Ainda com certo tempo para a hora de saírem, vestiu um jeans preto mais grosso e pôs os tênis de passeio de sempre. No corpo jogou uma camiseta branca e cobriu os braços com uma jaqueta bomber azul que imitava couro, com uns detalhes em preto e branco na gola. Sentindo-se um pouco nu, pensou em pegar da gaveta um de seus bonés, mas decidiu testar como ficava com uma touca de lã cinza que tinha comprado na última ida ao hospital. Não totalmente certo de que aquilo combinava, enfiou o boné em uma bolsinha que carregava na cadeira. A mensagem de Renaud foi a primeira a aparecer, que respondeu com um “indo”. Chegou no estacionamento um pouco antes da hora combinada, embora Isaac parecesse ter chegado antes. Olhou para Renaud primeiro, notando que ele estava com a cara inchada de quem tinha chorado, o que esperava. Porém, ao invés da aparência cansada e abatida do dia em que recebeu a mensagem, achava-o estranhamente... normal. Isso lhe deixou um pouco mais satisfeito. - Já cheguei! E aí, menino? E aí, Lemont? – Sasha cumprimentou todos, então dando uma olhada nas roupas dos dois e levando as mãos ao rosto. – Vocês são tão bonitos que eu até voltaria e colocaria uma camisa de botões, mas não tenho nenhuma! Renaud
O jovem Blanco estava divagando em pensamentos, fazendo mais “autochecagem” pra saber como estava: o peito não doía, não sentia dores de cabeça, estava ainda meio lerdo/ sonolento, mas com tantas noites mal dormidas não tinha como se recuperar em uma tarde, e o principal, a respiração não estava difícil. Não estava com o nariz totalmente funcional, e a bagunça de aromas de Isaac não chegou ao seu olfato primeiro que a mensagem, se atentou a chegada dele acenando positivamente quando ele reafirmou que tinha chegado. E claro, objetivo como era o moreno mais alto, tinha de lhe perguntar se estava “bem”. Renaud tentou um sorriso simples, que não foi tão difícil de erguer como seria algumas horas atrás, e se recostou mais no carro, encarando o mais alto: -- Eu estou “sobrevivendo”, mas “bem mesmo” eu não estou. -- Foi direto, porque sabia que figuras de linguagem não iam funcionar justamente com Isaac: -- Mas temos uma noite inteira pra conversa, explico melhor depois. -- Concluiu o assunto, antes que começassem a falar das tristezas de sua vida, antes mesmo de tirarem os pés da academia masculina. Já tivera o suficiente dela por uma vida inteira, precisava de uma folga. Pouco tempo depois e dentro do horário, ouviu o som característico de Sasha se aproximando, e novamente seu nariz não captou o cheiro de seu irmão em tempo hábil. Realmente chorar tanto, não ia deixar seu olfato funcional pelo restante do dia e noite pelo menos: -- Todas as camisas de botões do uniforme não contam pelo jeito. Tsc...! -- o jovem Blancou soltou o ar em um risinho fraco, mas parecia mais animado do que estivera ao longo de toda a semana: -- Bem, eu tinha prometido Vinho pra você…. -- Apontou com o polegar na direção de Isaac: -- E tinha prometido pra você explicar como eu fiquei amigo dele. -- Apontou de Sasha para Isaac: -- Hoje eu cumpro as duas promessas e aproveitamos pra me dar uma folga de St. Clavier, como eu vou dirigir eu não vou beber, mas vou comer alguma coisa. -- E atestar que iria “comer algo” era outra pequena meta, para quem não estava conseguindo se alimentar direito por alguns dias. Esperava que com a explicação básica fosse suficiente para que eles tivessem uma noção melhor de o que era aquela saída, e para onde iriam. Esperou apenas alguma indagação dos dois, mas logo destravou o carro dando espaço para que os dois se acomodassem, e como tinha adquirido por hábito em dar caronas a Sasha, já desmontava a cadeira de rodas e colocava na mala do carro sem problemas. Deixou na rádio comum tocando algum pop chiclete em som baixo, apenas para não ficar silencioso. Ainda não tinha experimentado dirigir depois de começar a tomar os remédios, então estava mais atento, e dirigindo mais devagar do que costumava fazer, não queria cometer nenhum erro idiota por desatenção ou falta de reflexos: -- O dono do Le Severo de Paris, tem um restaurante na mesma ideia aqui em Cerise: Le Rigoureux, apertado, monte de pratos escritos em giz nas paredes, mas a comida é muito boa, principalmente os pratos com carne, e eles têm uma carta de vinhos que é de alto nível, para um lugar pequeno. Eu gosto mais da versão Cerisience, porque esses muquifos apertados com mobília antiga e pratos saborosos é mais cara de Cerise do que de Paris mesmo. Comentou de forma natural, Sasha já sabia que gostava de cozinhar, e Isaac já tinha lhe acompanhado em outras saídas a restaurante, embora a situação fosse completamente diferente. E não demoraram tanto pra chegar, o ponto localizado entre o distrito do Centro e Bleu, de esquina, a tinta vermelha já tinha descascado por causa do tempo, as luzes de dentro eram de um amarelo vívido, o vapor escapava pelas frestas das janelas de vidro, e o aroma de comida já era fácil de captar. Renaud estacionou em uma rua paralela, apenas porque fazer a manobra com a cadeira de Sasha seria mais fácil, do que virado para uma principal com maior fluxo de veículos. Já tinha ligado para o local dias antes para fazer a reserva, e tinha avisado que iria com um amigo que precisava de espaço para manobrar por isso tinha pedido uma mesa que fosse próximo da entrada em sem muitos objetos no caminho. Imaginava que se fosse fazer esse tipo de arranjo de última hora, deixaria Sasha no mínimo irritado, então preferia fazer tudo com antecedência, por sorte tinha arrumado tudo antes de brigar com Didier. Isaac
A única coisa que Isaac pode responder a Renaud foi um breve "hm" com a explicação dele. Não ia perguntar demais, considerando que ele tinha decidido sair justamente para conversarem, então era melhor deixar esperar chegarem ao destino final. Logo Sasha apareceu também e resumiu o cumprimento a um breve "Boa noite". Não tinha costume de conviver com Sasha que não fosse meramente assuntos referentes ao Conselho Estudantil e Disciplinar, e mesmo assim não falavam muito além de enviar documentos para lá e para cá. Tinha até encontrado com ele naquela tal sessão de fotos, mas muito sinceramente, não lembrava de muito daquele dia. Não lembrava de muito daquele mês inteiro por conta da situação que tinha passado com Ethan, mesmo sem admitir. O estudante acabou seguindo mais o ritmo de Renaud, sem perguntar qualquer coisa, mesmo curioso sobre a promessa dele explicar sobre a amizade dos dois. O Blanco já tinha definido que iam conversar depois, de qualquer modo. Entrou no carro logo depois de Sasha, enquanto Renaud se preocupava em guardar a cadeira de rodas no porta-malas. Só no carro foi que Renaud explicou um pouco mais sobre para onde estavam indo e conhecia o nome apenas de comentários já ouvidos quando trabalhava no Mary Stigmata. - Eu só ouvi falar do local. Nunca fui lá. - comentou brevemente, apenas complementando a informação de Renaud até chegarem ao tal restaurante. Como ele tinha explicado, o local era pequeno e aparentava ser um pouco apertado. Isaac ainda olhou um pouco ao redor, observando a disposição das mesas e esperou que Sasha estivesse em sua cadeira de novo para acompanhar Renaud até a mesa que ficava perto da entrada e facilitava a movimentação de Sasha. Sentou-se numa das cadeiras, voltado para a entrada, e a primeira coisa que fez foi ajustar a mesa, depois o suporte de guardanapos, num gesto bem automático e inconsciente. - Então, qual o vinho que você indica daqui, Renaud? Sasha
- Já não basta ser do Conselho Disciplinar, não vou começar a sair vestindo a escola. – comentou, fazendo uma cara feia para a ideia de usara camisa de botões de St. Clavier para a saída casual. Se bem que tinha que admitir que o tecido daquela roupa era de melhor qualidade que qualquer outra no seu guarda-roupa. Não era estranho para Sasha que Renaud estivesse precisando de uma folga de St. Clavier depois de tudo que estava acontecendo. E bem, supunha que era um dos melhores amigos do moreno, assim como o testa de ferro era. Talvez ele quisesse só jogar conversa fora para descontrair e aquela fosse uma excelente oportunidade, mas só o fato de Renaud dizer voluntariamente que estava indo comer era uma coisa que lhe animava sobre aquela noite. Também não tinha muito o que falar antes de Renaud ficar confortável para conversar e Isaac também puxar papo, então limitou-se a responder um “Se for comida, confio em você!” com um sinal positivo antes de entrar no carro e esperar que a cadeira fosse colocada na mala. Foi cantarolando as músicas chiclete da rádio sem prestar muita atenção, olhando o caminho pela janela e ocasionalmente comentando algo. Isso até Renaud explicar sobre o lugar onde estavam indo. Parecia interessante, embora não tivesse deixado de olhar de Isaac pra Renaud naquelas roupas e começado a fazer cálculos mentais de que talvez acabasse sendo um lugar com o preço um pouco acima do que geralmente pagaria. E ainda tinha vinho. Preferia uma cerveja, mas ficou com a sensação de que quem tava na chuva era pra se molhar mesmo. - Heh. A última vez que fui em um restaurante com os pratos escritos em giz na parede, mobília antiga e apertado, as pessoas do bairro espalhavam o rumor de que os gatos da vizinhança estavam engordando e sumindo. Como os tempos mudam. – riu, tirando um pouco de sarro dessa moda de restaurantes vintage. – Se bem que se for lá em Bleu, capaz dos gatos serem persas com pedigree. Assim que chegaram, observou o local pela janela do carro, entretido. Até que parecia algo confortável, e o cheiro da comida era muito bom mesmo. Só que apertado como parecia ser, capaz de ter algumas dores de cabeça durante a noite. Subiu na cadeira e seguiu para a mesa reservada, que era na entrada e tinha bastante espaço. Acabou sorrindo porque previu um trabalho que não teve, e porque notou Lemont alinhando a mesma, assim como o porta guardanapos. - O cheiro da comida daqui é muito bom. – comentou, dando uma olhada no famoso cardápio, certamente nada parecido com o muquifo que tinha visitado anos atrás. Renaud
O jovem Blanco ficou bem satisfeito por terem seguido suas instruções de reserva, isso colocava aquele restaurante em um lugar confortável para se voltar. Esperou que os amigos se acomodassem para só então dar atenção ao cardápio propriamente dito. Observou ambos, e desenhou um sorriso simples de resposta: -- Bem, como sei que você não é muito resistente pra bebida, então vou sugerir um vinho Branco seco, não é doce, e tem menos chance de você passar da conta Zac. Além de ser menos diurético que cerveja. Pra combinar harmonizar, filé mignon com molho branco daqui combina bem, salada de vagens e arroz, é uma refeição bem comum, mas saborosa. -- concluiu sem maiores estresses, afinal, seria um prato saboroso, o vinho seco, iria agradar mais o paladar de Sasha acostumado com cerveja que é bem mais amargo: - Não se preocupem, eu chamei, a saída fica por minha conta, da próxima vez, a gente alterna, Sasha escolhe o lugar e paga, ou mesmo você Zac, escolhe o lugar e paga, mas aviso logo pra não subestimar a capacidade do Sasha de dar prejuízo em lugares com boa cerveja. Foi o máximo de piada que dava pra fazer, embora o tom não fosse de brincadeira, e o ar do Blanco fosse mais de cansaço do que de descontração em si. Pra quem o tinha visto com ar de enterro durante toda a semana, em comparação, era melhor só parecer cansado, do que morto por dentro. Renaud fez sinal para que o garçom se aproximasse e deu as indicações sobre o jantar, o filé mignon ao molho branco com tempero de ervas, junto com arroz branco, já que o prato em si já era bem robusto. Para a bebida, um Mâcon Villages 2014 de Joseph Drouhin, um vinho francês até tradicional da região de Bourgone, sendo de uvas Chardonary, mas não era um vinho caro, era até bem em conta, considerando que é um vinho fino saboroso. Afora isso pediu a salada de vagens, cenoura e palmito, pra entrada, mas pediu que o vinho fosse servido primeiro com alguns aperitivos de iscas de peixe ao molho tártaro, não dava pra comer carne vermelha no jantar e no aperitivo. Pediu água para si mesmo, já que não iria beber nada por estar dirigindo, quando o garçom finalmente se afastou, voltou atenção aos amigos: -- Então, desculpe a demora pra pedir, eu sou cheio de frescura pra jantar no fim das contas. -- uma nova tentativa de puxar uma brincadeira sem muito êxito, Renaud suspirou, mas ao invés de parecer só cansado, puxou o ar também, como se estivesse aliviado, e estava bem fácil de ler o jovem Blanco, naquela noite, e dava pra notar porque as defesas naturalmente altas e dissimuladas de Renaud, pareciam simplesmente não existir: -- E desculpem a cara de cansado, foram as duas semanas mais cansativas que já tive em St. Clavier. Isaac
Isaac apenas concordou com um breve aceno de cabeça a sugestão dele para o vinho e o prato principal, isso lhe privava de olhar o cardápio e avaliar todas as opções, considerando que Renaud entendia muito mais de gastronomia do que ele. - Eu trabalhei menos hoje, consigo beber mais. E eu nunca passo da conta. - explicou, bem a tempo de Renaud dizer que pagaria pela conta enquanto eles pagariam pelas próximas. Franziu o cenho, olhando de Renaud para Sasha e de volta para Renaud. - Eu não me importo de pagar minha parte. Mas vamos repetir isso? A pergunta era genuinamente de dúvida, não havia o menor sinal de ironia ou de falta de vontade de sair novamente com os dois. Especialmente porque Isaac não estava muito acostumado a sair com outras pessoas fora o seu namorado, ou sair para algo que não fosse trabalho pessoal ou da academia. Talvez a última vez em que tivesse saído com alguém fosse a viagem com Renaud a Paris, se bem lembrava. Renaud chamou o garçom para fazer os pedidos e ainda fez questão de adicionar as instruções para que as porções no seu prato estivessem bem separadas. Se Renaud já tinha demorado a pedir, ele tinha ajudado ao adicionar mais detalhes ao seu prato. Voltou a atenção para o Blanco quando ele se desculpou pela cara de cansaço e só naquele momento que parou para prestar mais atenção no semblante que tinha percebido diferente nos últimos dias. Até ele tinha percebido aquilo. - Foi por causa do Didier? Vocês já se resolveram? - perguntou muito diretamente, porque era a única coisa em que conseguia pensar. Em geral Renaud não tinha mostrado outros motivos para estar cansado, mas podia ter sido também por conta das falhas que não queria ter que pensar enquanto estava brigado com Ethan. - Ou foi por causa da bagunça no Conselho no último mês? - certamente ele não iria admitir em voz alta que a bagunça tinha sido feita por ele. Sasha
Nem se metia nas escolhas gastronômicas de Renaud. Ele entendia bem mais de comida que Sasha, e embora tivesse uma dieta bem restrita no dia a dia, comer o que bem queria uma noite não lhe mataria. Porém, olhou de Renaud para Isaac e Isaac para Renaud quando ele ofereceu que fizessem rodízio das contas, e Sasha acabou rindo. - Espero que vocês não se importem que eu leve vocês pra algum lugar “baixa” gastronomia, porque vocês são muito chiques pra comida que eu geralmente como. – riu, apontando os visuais elegantes dos dois. – Mas eu juro que me controlo com a cerveja. A não ser que tenha cerveja barata. Eu tenho consideração, poxa. – então observou a dúvida de Isaac. Não lhe pareceu rude, embora ele fosse bem direto. – Eu não me importaria de sair com você de novo, Lemont. Se o menino diz que você é boa gente pra ele, deve ser boa gente pra mim também. Esperou que Renaud pedisse, arqueando a sobrancelha sobre os pedidos de desculpa que seguiram a longa descrição do prato. Não era como se fosse se irritar por ele ser minucioso. Quando estava seguindo sua alimentação devida, também era bastante minucioso. O suficiente para as mulheres da cantina quererem jogar a comida na sua cara. Só fez sacudir a cabeça e abanar a mão como se dissesse que não ligava, mas antes de questionar o porquê das desculpas, Isaac jogou as cartas, a caixa e as fichas na mesa, o que fez com que Sasha olhasse pra ele surpreso. Definitivamente o moreno não tinha tato. E se ele ainda pensava que podia ser a bagunça do conselho estudantil, não tinha tato nem percepção, até pior que a de Sasha. Mas o fato dele não ter dedos e ser bem honesto era provavelmente porque ele e Renaud se davam bem. - Heh. Direto ao ponto, ein, Lemont? – o moreno sorriu amarelo, estendendo a mão até a cabeça de Renaud, bagunçando os cabelos escuros. – Mas bem dizer, eu tava curioso também. No que deu aquela história toda de ver o Callas? – guardou o “travesti” para si mesmo, internalizando sua raiva do loiro. Então apoiou as mãos na mesa: – E... antes que eu esqueça... não peça desculpas por estar cansado, menino. A gente sabe que tá barra. Renaud
Estava bem ciente de que tinha duas pessoas com perfis bem diferentes ali, mas não pensava que isso fosse servir de impedimento para que eles se desse bem. Se ele próprio, que tinha suas particularidades conseguia se dar bem tanto com Isaac como com Sasha, imaginava que outras saídas poderiam surgir sem maiores problemas. Renaud apontou a mão na direção de Sasha como se a resposta do irmão já fosse o suficiente para o questionamento do amigo sobre saírem de novo, mas ainda assim completou: -- Veja dessa forma Isaac: você é meu amigo, Sasha é meu irmão, então os dois têm de se dar bem. -- conseguiu sustentar um sorriso discreto, ciente que esse tipo de explicação mais simples e objetiva era mais fácil de ser assimilada pelo secretário. Imaginava que Sasha logo perceberia porque o moreno mais novo tinha ficado amigo justamente de uma pessoa como Isaac, e imaginava também que tão logo o irmão percebesse a inabilidade do amigo para duplos sentidos e jogos de palavras, o Bullying com o secretário do conselho estudantil se estenderia até o conselho disciplinar. Mas tão logo teve um momento de diversão, a mesma honestidade que apreciava no mais alto, lhe jogava já direto em um dos assuntos delicados da noite, os tinha chamado justamente para conversar. Mas devia ter imaginado que o amigo não esperaria o jantar chegar, principalmente porque ela ainda ponderava ter parte da culpa sobre o seu estado de cansaço. Antes que pudesse responder, o garçom se aproximou com as iscas de peixe em molho tártaro, o vinho sendo servido juntamente para os dois, Renaud agradeceu com um breve “merci”. Não estava com muita coragem pra ir direto pra esse assunto, mas o toque sobre seus fios escuros vindo de Sasha lhe deu um pouco mais de segurança, acenou positivamente, e suspirou em resposta, pegando uma das iscas e mastigando, sentindo gosto de nada além da textura macia do peixe, puxou o copo de água e bebeu um gole brevemente, pra limpar a garganta: -- O Conselho Estudantil é o menor dos meus problemas Isaac. Não é porque você passou um par de semanas ruins por causa do Ethan, que o local virou o caos completo. Pastas trocadas não me deixariam no estado de cansaço em que estou. -- começou deixando claro aquele ponto, para que Isaac não continuasse alimentando a ideia de ter culpa sobre seu estado de ânimo atual: -- Bem… sobre o Didier, eu não vou mentir, que quando recebi a mensagem, eu não estava me sentindo pronto pra conversar ainda, mas como a iniciativa vinha dele, e estávamos nos evitando desde que brigamos, acreditei que era o momento pra tentar pôr as coisas a limpo, se deixasse pra depois eu ia acabar não tendo coragem de encará-lo... Sou menos corajoso do que pareço... -- Deu de ombros, ignorando as iscas de peixe e se contentando em bebericar apenas da água, goles pequenos e curtos, para não ficar enjoado: -- Foi uma conversa longa, mais longa do que eu tinha imaginado… eu chorei um bocado, ele chorou também… mas as coisas são assim, as pessoas têm conversas complicadas, expõem o que tem medo e o que não estavam conseguindo falar, e tentam se acertar… e não estou falando de trocas de socos ou qualquer coisa do tipo… -- Renaud comentou, aparentando cansaço, mas não estava se sentindo culpado, e até onde era possível, estava “leve”, por poder dividir aqueles assuntos com outras pessoas, que de fato se importavam com o que acontecia ou deixava de acontecer consigo: -- Eu e o Didier, não estamos mais brigados, mas não somos namorados, amantes ou qualquer coisa do tipo, na real, nem saberíamos como: “ser namorados”... -- olhou para os dois a sua frente, ciente que os dois tinham muito mais experiência nesse campo que ele mesmo, e poderiam achar a situação fácil de resolver, mas respirou fundo pra continuar explicando: -- A verdade é que não sabemos como conviver de uma forma saudável, e “normal” sem ser do jeito torto que a gente tinha se acostumado a fazer… meio que decidimos voltar a conviver, tentar ser amigos e vê o que acontece… Ele não quer ficar longe, e eu não quero ficar longe… mas não dá pra ser do mesmo jeito que era antes. Isaac
- Eu como qualquer coisa. Contanto que ninguém bagunce minha comida. - Isaac fez questão de adicionar sobre o lugar que Sasha tinha descrito para levá-los. Para quem já tinha viajado por todo tipo de lugar com os pais, tinha um paladar bem extenso, contanto que ele mesmo organizasse o próprio prato, claro. Renaud ainda deixou bem claro que os dois precisavam se dar bem e lembrava exatamente de ter dito aquela coisa sobre ele e Ethan algum tempo atrás. - Eu disse isso antes. Tudo bem por mim, contanto que não chegue perto do meu namorado. - adicionou, especificamente olhando para Sasha, como se precisasse confirmar o fato de que tinham que se dar bem com ele. Ele só deu espaço para que o garçom trouxesse o aperitivo e Renaud agradeceu, antes de voltar à sua questão sobre o que tinha acontecido. Sasha parecia ciente também do que se passava com Renaud e Didier, só não sabia se ele tinha ideia da briga dos dois na sala do Conselho um tempo atrás. De qualquer jeito, não era assunto para que ele comentasse, e sim Renaud, e foi o que lhe deixou mais atento à explicação do outro. Particularmente porque não era bom em entender aquelas situações emotivas em geral, então devia prestar atenção em dobro aos detalhes. Ao menos a bagunça no Conselho não tinha contribuído para o estado abatido do vice-presidente, o que era um estranho conforto. No meio da explicação, conseguiu assimilar o fato de alguma mensagem logo depois de ter conversado com Didier, afinal, tinha sido um pedido de conselho estranho em que os dois acabaram falando sobre Renaud. Continuou atento às palavras de Renaud, porque era o máximo que dava para fazer, e ao menos os dois tinham conseguido conversar, embora fosse bem estranho ouvir do Blanco que eles estavam chorando no meio da conversa. Era difícil entender a linha de raciocínio de como o assunto tinha se desenvolvido e os detalhes sobre conseguir ou não conseguir falar, tinha que admitir que era mais fácil entender os dois entre os socos. Franziu o cenho numa clara expressão de confusão quando ele disse que os dois não saberiam agir como "namorados", embora tivesse dito para Didier que só conseguia vê-los como amantes, no mínimo. - Eu não entendo como vocês não sabem ser “namorados”. Nem como vocês não sabem conviver. Eu nem imagino vocês dois separados desde que entramos no Conselho Estudantil. Parece... natural. - Isaac comentou, pegando a taça de vinho para se servir pela primeira vez na noite. - Mas você ficou diferente de antes. Não sabia dizer o que havia de diferente em Renaud, mas já estava tão acostumado com as atitudes e trejeitos dele que até para Isaac era fácil de entender que havia algo fora do convencional nas atitudes alheias. Sasha
No estado em que Renaud estava, ele deveria apreciar um pouco da simplicidade com que Sasha e Isaac poderiam se dar bem. Porém, o cadeirante bem sabia que nem sempre tudo acontecia nos conformes, muito embora confiasse em Renaud para escolher bons amigos, porque amigos eram diferentes dos interesses românticos, sempre, porque quando o coração que escolhia, ele sempre fazia bagunça. Pegou um peixe para começar a ouvir a narrativa de Renaud sobre o encontro com Didier, atento para não clicar a língua caso ele falasse alguma merda que o travesti tinha feito. Porém ele contou bem o que esperava, porque se Didier não tivesse a decência nem mesmo de chorar, ou fazer o óbvio que era pedir desculpas para os dois se acertarem, tinha plena certeza que podia considerá-lo como lixo. Mas havia uma coisa muito singular na forma como Renaud falava que os dois não sabiam ser namorados, porque para Sasha isso fazia pouco sentido. E pelo visto para Isaac também. Apenas franziu a testa, embora não interrompesse, deixando o mais novo concluir o pensamento. O primeiro a pontuar algo sobre Renaud foi Isaac. E ele disse que Renaud tinha mudado. Bom, não saberia dizer completamente porque estava longe dele, mas certamente nas últimas semanas algo tinha mudado. - Não sei como o menino era com você, Lemont, mas não posso ser ingrato por ele ter mudado, já que a gente voltou a se falar normalmente. Eu fico é feliz. – Sasha deu de ombros, olhando para o moreno se servindo do vinho porque não tinha a mínima ideia de como se tomava vinho com qualquer elegância. Mesmo que vinhos fossem baratos em Cerise, e bons vinhos, não tinha um espaço pra taça em sua cômoda. – E acho bom que você o Callas tenham conversado também, e que tenham arrumado uma solução que funcione pra vocês. Se for “saudável”, então tá bom. Sasha então tomou um gole generoso do vinho depois de pegar a taça sem jeito algum, erguendo as sobrancelhas e fazendo uma expressão surpresa que lia facilmente “nada mal”. - Sei lá. Não acho que tem um jeito específico de ser “namorado”. Já fui namorado muitas vezes pra saber que cada relacionamento tem suas alegrias e suas broncas. Não acho que porque o relacionamento de vocês era torto, que vocês deixaram de ser namorados... mas é bem melhor conversar e ter algo “saudável” mesmo, e mudar pra melhor. – Sasha comentou, colocando seus dois centavos de experiência na mesa. Certamente Isaac era o tipo mais “pra casar” que ele. Mas não tiraria o próprio mérito de ter gostado de verdade de cada uma de suas ex-namoradas. E ex-rolos. – Embora eu ainda ache que vocês tão mais pra namorados que amigos, com essa de não quererem ficar longe. Às vezes “Namorados” é só um título pra afastar a concorrência de quererem o que você quer só pra você. Vale mais o sentimento de que quando cês tão juntos, isso aqui... – apontou para o próprio coração. - ... pulsa mais rápido que as sinapses dos seus neurônios. – Sasha então parou e pegou um petisco, contemplando-o por um instante. – Bicho, eu ainda nem tô bêbado, já tô falando igual a escritora de romance adolescente. RE: [Drive] Ab Amicis Honesta Petamus [Renaud; Sasha; Isaac] - Lil - 08-29-2021 Renaud
O jovem Blanco já esperava que Isaac pontuasse que era apenas natural que os dois - Renaud e Didier - estivessem juntos, mas arqueou a sobrancelha para o fato dele ter dito que tinha mudado. Não sabia exatamente ao que ele se referia, mas sabia que estava diferente do de sempre, porque estava muito exposto, em seus cansaços, e como ele estava sempre muito próximo, talvez fosse mais fácil para que ele notasse. Mas também, ressaltava o ponto, que se até o sempre denso Isaac estava percebendo, era algo que já estava muito na cara e isso deixava o jovem Blanco com uma sensação amarga na boca. Tornou a beliscar da entrada, tentando buscar sabor no peixe para esquecer do gosto ruim que trazia falar do assunto, e prestou atenção em todos os comentários postos pelo seu irmão mais velho. Concordou com a cabeça sobre o fato de que “namorados” era só um nome, mas também tinha certo peso emocional na palavra que não conseguia só ignorar: -- imagine só quando você estiver embriagado. -- brincou, sem de fato colocar um tom de brincadeira, em verdade Renaud parecia cansado, embora menos tenso e estressado que antes, pairava aquela aura de quem estava verdadeiramente cansado: -- Não sei dizer, nunca namorei na vida, não sei como é a sensação propriamente dita, sei apenas o que vejo dos outros, e o que eu sempre senti que faltava era “retorno”. -- ergueu os dedos fazendo o gesto de “entre aspas”: -- Eu sempre demonstrei do meu jeito que o Didier era importante pra mim, mas eu não tinha esse mesmo “retorno”, por vários motivos, de não me ver como pessoa, de me ver como uma coisa descartável e afins, muita coisa conversada em terapia pra conseguir chegar no pensamento que eu tenho hoje sobre quem eu sou. Por isso, não consigo dizer que antes a gente namorava, com certeza éramos muito cúmplices, mas como eu não sentia o “retorno” às vezes eu só ficava triste e frustrado de estar perto do Didier, como se não importasse o nível de dedicação, eu sempre estaria naquele limite de “eu só quero me divertir”. Mas no fim, não era bem assim, no fim das contas o Didier se importa, mas tinha medo de não parecer tão “legal” e eu acabar indo embora. -- suspirou pegando a taça de água para molhar a garganta num gole rápido antes de continuar: -- Mas enfim, eu não sei direito como vamos fazer agora, mas vamos tentar alguma coisa, aos poucos... Porque, como você mesmo notou Isaac, eu estou diferente, mas é porque eu não estou bem e tem muita coisa acontecendo na minha vida além do Didier. Encarou os dois, como se tivesse chegado num ponto delicado da conversa, e nem tinham chegado no jantar propriamente dito ainda. Isaac
Isaac começou a se servir dos aperitivos também, só concordando rapidamente com Sasha quando ele falou que estava feliz de voltar a falar com Renaud. E era estranho ouvi-lo chamar o outro de "menino", especialmente porque não tinha nada de "menino" em Renaud Blanco. Mas o comentário seguinte quase passou despercebido aos seus ouvidos porque a atenção foi desviada para o jeito que Sasha segurava a taça de vinho como se fosse um copo de cerveja. Desviou a atenção para Renaud, porque tinha se disposto a prestar atenção na conversa e na situação e não poderia se deixar distrair por aqueles detalhes incômodos, mas era bem difícil fazer aquilo especialmente quando Sasha falava tanto, segurando a taça do jeito errado e sobre uma gama de sentimentos que ele entendia muito pouco da experiência de seu namoro mais recente. A sua atenção divagou várias vezes entre as explicações dele sobre os tipos de relacionamento que tinha tido e a mão que segurava a taça, ao ponto que ignorou o resto da explicação e só percebeu onde a conversa ia quando ele indicou o próprio coração, desviando a atenção para Renaud de novo porque o comentário veio dele daquela vez. De novo, não dava para acompanhar muito daqueles pensamentos profundos sobre relacionamentos, mas foi a vez de Isaac deixar a taça na mesa por uns instantes. - Eu não sou bom para definir sentimentos em palavras. Eu sei que me importo com o Ethan, e que quero a atenção dele em mim o tempo todo, e eu me preocupo com ele assim como ele se preocupa comigo. Querer estar com ele e querer a atenção dele são "sensações" que só tive com meus relacionamentos "românticos". Eu me importo com ele mais do que me importo com as outras pessoas ao meu redor, e eu sinto necessidade de estar perto dele, tocá-lo, fazer sexo. E é por isso que eu sei distinguir o meu relacionamento com ele do meu relacionamento com você, por exemplo. - explicou de um jeito muito direto, embora sua atenção ainda fosse parcialmente desviada para Sasha, especialmente quando ele pegou a taça de vinho mais uma vez do jeito errado. Daquela vez, fez questão de estender a mão até a dele, segurando a taça e o punho do outro. - É assim que se segura uma taça de vinho. - corrigiu a postura do outro mesmo sem permissão, para poder se concentrar de volta no que estava dizendo a Renaud. - E quando eu disse que você diferente, não foi porque você não está bem. Está diferente para melhor. E olhou mais uma vez pelo canto do olho para Sasha para confirmar que ele estava segurando a taça direito, para pegar a sua e tomar mais um gole do vinho. Sasha
Ouvir Renaud falando que o que faltava no relacionamento dele com Didier era reciprocidade dos sentimentos sem saber como se expressar era até adorável, e de certa forma, esperado. Se Callas era tão covarde para não admitir que se importava antes, obviamente não haviam duas mãos naquela via de sentimentos. Até ficou bem calmo ouvindo os disparates do mais novo, exceto talvez pela revirada óbvia de olhos quando ele mencionou que o motivo pelo qual Didier não falava sobre os sentimentos que tinha era porque não seria “legal” e Renaud iria embora. - Tch. Babaca. – resmungou para si mesmo, escondendo a boca por trás de uma mão e fingindo que por um instante quase tinha espirrado. Já que os dois, Renaud e Didier tinham se acertado, teria que aprender a conviver. Ao menos o resto da conversa do garoto cobriu seu xingamento, embora ele trouxesse uma carga emocional para tudo. Já Lemont tinha uma abordagem completamente diferente. Ele, assim como Renaud, colocava os sentimentos de uma forma muito direta, mas tudo que ele dizia ali servia muito para ele, apenas. Nem todo mundo que sentia amor dava atenção constante, ou precisava tocar, ou precisava do sexo. Mas se aquilo ficava claro para Renaud, não interferiria no diálogo. Pegou a taça de vinho para tomar mais um gole, mas enquanto segurava o copo sem delicadeza, sentiu uma pressão repentina no pulso e a taça ser arrumada em sua mão. Olhou para Lemont até assustado, levando a mão ao peito. - Rapaz, com uma pegada dessa, até minha coluna você desentorta. Cuidado que eu gamo, viu? – Sasha falou, franzindo a testa e esperando Isaac lhe soltar apenas para tomar o vinho no ritmo que bebia a cerveja, sem moderação alguma. Mas ao menos estava pegando certo no copo. Podia ao menos ficar feliz que Isaac era mais otimista e reconhecia os pontos positivos da mudança de Renaud. Infelizmente sabia que ele andava passando por algumas broncas, mas no mais, se ele havia pensado que precisava ser amado tanto quanto amava, de fato era uma mudança positiva. – Heh. É verdade, Lemont. Renaud
Talvez não fosse tão incrível que o jovem Blanco conseguisse entender os pontos colocados pelos dois, afinal tinha acompanhado uma parte dos namoros de adolescente de Sasha, e embora fosse muito novo pra captar tudo na época, agora conseguia enxergar tudo com outros olhos. Sobre os exemplos de relacionamentos dados por Isaac também não foi difícil de compreender, até porque Renaud já estava muito habituado com o jeito de ser e de falar do amigo. Estava prestes a por outra isca de peixe na boca mas parou no meio do caminho quando Isaac destacou que estava mudado pra melhor? E Sasha ainda concordou com a fala, fazendo com que Renaud ficasse notavelmente confuso, normalmente tinha um rosto muito normal e pouco expressivo, mas naquele momento foi muito fácil de notar a confusão instaurada ali, depois de alguns segundos de delay que levou a comida, e depois de mastigar, tomou dois goles breves de água: -- Bem… eu nem sei o que dizer sobre isso. Pareço mesmo? -- Pontuou, desviando o olhar por um momento para o restaurante cheio, e suspirando antes de dar de ombros e gesticular com as mãos em frente ao corpo, como se tivesse dando voltas do ar: -- Eu penso sobre, mas não me sinto bem, em quase nenhum momento durante essas semanas…! -- Encarou os dois a sua frente, que de fato eram seus amigos mais próximos, talvez duas das pessoas em que mais confiava atualmente: -- Com exceção de momentos como os de agora, claro, agora não estou tão mal… conversar com vocês é bom, mas todo o resto… todo o resto é péssimo, o que quer dizer que na maior parte do tempo eu me sinto cansado e desorientado. -- Admitiu baixando o tom de voz sem nem perceber, levou a mão sobre os lábios, deslizando o indicador na região, estava inquieto. Porque não conseguia conceber que todo aquele caos que estava passando estava lhe fazendo mudar para algo bom, mas em verdade, talvez até tirasse algo de bom disso tudo, mas agora, no momento em que estava, era difícil ter aquela percepção. E antes que pudesse acrescentar mais comentários os pratos pedidos chegaram a mesa, o filé chegou, farto de molho, fumegante e com uma coloração bonita, o arroz estava temperado com especiarias que eram perceptíveis pelos pontinhos coloridos em meio ao branco. A salada de vagens fresca contrastava em um verde brilhante em relação aos outros pratos servidos. Os talheres e pratos foram ajustados agora com a chegada do novo prato, a água foi reposta, e então o jovem Blanco dispensou o garçom, ainda não tinham terminado a garrafa de vinho, e dificilmente os dois aguentariam beber duas garrafas inteiras. Isaac
- Eu não posso "desentortar" sua coluna. - Isaac ainda apontou sobre o comentário dele, como se não fosse algo suficientemente óbvio. Mas ainda franziu as sobrancelhas para o comentário sobre ficar "gamado". Continuou tomando o vinho enquanto o prato principal não chegava, mas a sua distração foi quando Renaud perguntou se parecia mesmo diferente. Se ele não tivesse perguntado tão diretamente, nem teria notado a diferença na expressão mais surpresa com o comentário. Mas foi o próprio Isaac que ficou com uma fronte confusa ao pensar como explicar objetivamente porque tinha feito aquela escolha de palavras. Foi mais fácil pensar na resposta quando Renaud especificou com não se sentia bem e se sentia cansado e desorientado. - Isso é culpa da sua alimentação. Você está mais magro e não está fazendo esportes. - Isaac respondeu de um modo muito objetivo, bem a tempo do garçom chegar para servir a comida. Só deu espaço para que o atendente o fizesse e quando estavam sozinhos de novo, voltou a atenção para Renaud. - Eu disse "para melhor" porque... - Isaac parou por uns instantes, tentando achar sentido na própria objetividade. - Você conversa mais comigo. Ajuda mais nas tarefas do conselho. Até ajudou quando eu briguei com o Ethan... é melhor porque não está mais só saindo e assustando os alunos ou dormindo com eles. Eu o conheço melhor agora do que seis meses atrás. E estamos no conselho há anos. Isaac puxou o prato com o filé que Renaud tinha pedido para começar a se servir, cuidando para que nada estivesse fora do lugar, comendo naturalmente como se não tivesse falado nada demais e que Renaud já não soubesse. - Hm. Está bom. - atestou sobre a comida, servindo-se de vinho e dessa vez prestando atenção em como Sasha seguraria os talheres. Sasha
Sorriu discretamente com a reação de Renaud a quando dissseram que ele estava “melhor”. Não porque achasse graça na situação, mas porque provavelmente tinha um tempo desde a última vez que tinha visto Renaud ser tão expressivo. Não que o considerasse tão inexpressivo quando Renaud dizia ser – ele era mais fácil de entender que muita gente que conhecia – mas o jeito que ele parou com o peixe na mão foi quase cômico, não fosse o fato dele expor suas frustrações com a situação que passava nas últimas semanas. A resposta de Isaac, que esperava que fosse menos interessante, acabou se provando no mínimo curiosa. Ainda não conhecia Isaac o suficiente, e aos poucos ele provava ser uma pessoa muito objetiva e simples, muito como Renaud precisava. Talvez por ter passado por uma fase muito similar a do irmão mais novo, soubesse que alguns daqueles sentimentos dele não eram assim tão fáceis de lidar, mas seria mentira se ignorasse como aquela forma simplista de entender tudo não era reconfortante às vezes. A comida que chegou no meio tempo da conversa de fato parecia deliciosa. - Bom, eu concordei com o Lemont porque agora a gente se fala. Quantos anos a gente passou estranhados de graça? Não acho que é uma questão de aparência... é de atitude. Mas cê ainda tá bonitinho, se me permite. – comentou, tentando aliviar um pouco a conversa, enquanto se servia de um pouco do bife também, do arroz e algumas vagens. Sasha pensou um instante, supondo que era difícil de explicar mesmo, ou nem o Lemont teria parado pra pensar tanto. – Olha, menino... – então respirou fundo, pensando em como colocar o que queria dizer para Renaud. – Eu sei que é uma merda essa sensação de ficar cansado o tempo todo, e perdido o tempo todo... e que se só comida e exercícios resolvessem, você já tava lá fazendo a dieta do Michael Phelps de macarrão e natação... mas por mais que você não esteja vendo coisas boas, você acabou de dizer que você não tá mal o tempo todo. Com a gente cê não tá tão mal. Então é melhor do que de resto. E a gente pode ver algo que você, porque tá confuso e perdido, não pode. – tentou explicar, supondo que estava complicando ainda mais as coisas pra Renaud.- Se você tem a gente pra se agarrar, se agarra. A gente tá aqui pra fazer você se sentir melhor mesmo. É pra isso que amigos servem. E a comida vai lhe dar mais força física, assim como os exercícios. A soma de tudo vai lhe ajudar aos poucos. - certamente não tinha metade do cuidado de Isaac para servir, mas até não era tão bagunceiro. Renaud
O Blanco se serviu da comida, pegando uma porção estupidamente pequena, mas que era a média do que estava conseguindo comer em dias comuns. E escutou Isaac com atenção, ele estava certo em dizer que estava mais aberto nesses últimos meses, também em parte porque mesmo sem perceber - ou sem admitir - as conversas com o Dr. Vlahos tinham lhe atentado ao fato de que o secretário era seu amigo, mesmo antes dele por aquilo em palavras. Já tinha evitado bater no secretário, se preocupava com o bem estar de Isaac, e até certo ponto se sentia confortável pra falar sobre um tanto de coisas que normalmente deixaria apenas para si. De fato, tinha mudado, mas nem tinha notado, quando e nem como, isso tinha ocorrido. Encarou Sasha arqueando uma sobrancelha quando ele lhe disse que ainda era bonitinho, e acenou negativamente com um sorriso simples nos lábios, como quem não acreditava que ele estava lhe tratando como se tivesse 14 anos de novo. Então todo o assunto sobre se alimentar, se exercitar e manter uma rotina veio por Isaac e foi reforçado por Sasha, claro, com o moreno mais velho pondo suas ressalvas. Sabia que tudo aquilo era necessário, mas de fato, era difícil manter a energia e ânimo pra fazer todas aquelas coisas, justamente porque se sentia mal a maior parte do tempo. Cortou a comida e deu uma garfada tímida, apenas pra atestar que não sentia o gosto como se lembrava, mas melhor do que imaginava, sentia gosto de comida, o que era um ganho em alguns dias, em seguida, tornou a tomar um gole de água antes de continuar: -- Eu fico realmente grato de vocês dois estarem aqui… pode não parecer, mas eu estou menos desesperado porque eu tenho amigos… muito embora o “termo” ainda pareça um pouco estranho de falar. -- suspirou, unido as mãos em frente ao corpo, e apoiando as costas na cadeira, estava um pouco defensivo, mas não porque estava evitando de se abrir, mas justamente, porque estava mais vulnerável do que sempre, acabou tomando aquela posição sem perceber: -- tudo que vocês comentaram sobre comer, me exercitar, manter a rotina, são coisas que o Dr. Vlahos vem me alertando pra manter, porque bem… eu… -- evitou por um instante o assunto desviando o olhar, antes de tomar coragem pra continuar: -- ...estou num quadro de depressão, e transtorno alimentar também, por isso, acabo ficando sem conseguir comer quando estou em crise, a pressão cai, e acabo terminando na enfermaria como no outro dia. -- comentou sem muito ânimo, principalmente porque estavam jantando e não queria ter entrado num assunto tão indigesto logo de cara: -- Eu não sei exatamente como eu cheguei no ponto que eu estou, sabe... e talvez por isso mesmo que eu fique tão inseguro do que fazer, agir ou mesmo falar, porque… de todas as coisas que estou sentindo sobre mim. Sobre o meu corpo, o que posso dizer é que é tudo muito “novo”, e eu acabo não tendo total controle... e isso me assusta… -- começou a mover os dedos das mãos em um pequeno tique nervoso, mas logo baixou o olhar, cobrindo uma mão com a outra para cessar o movimento: -- mas vamos terminar de comer, antes que o meu assunto acabe com apetite de vocês. Isaac
Isaac até fez algumas pontuações mentais sobre o comentário de Sasha, que eram bem objetivas também, mas não o interrompeu. O máximo que pensou foi que não podia dizer que sabia o que era a sensação que Renaud estava passando, que eles certamente podiam ver algo além na situação toda e que Renaud já estava acostumado a lhe agarrar na cama enquanto estava lendo. Mas só continuou a refeição, olhando de esguelha para o prato de Sasha que não estava tão bagunçado e o de Renaud que tinha uma porção ridícula de comida. - Sua língua mãe é francês, não devia ser estranho falar "amigos". - Isaac respondeu como se o problema do estranhamento com a palavra fosse a sua pronúncia e não o significado. Já tinha se servido de metade da sua refeição quando pausou apenas para tomar o vinho e ouvir o resto da explicação de Renaud sobre estar num quadro de depressão. Aquilo devia explicar o estado físico dele, mas com certeza não tinha a menor compreensão de quadros de depressão e como lidar com problemas psicológicos. Do discurso todo, o mais estranho era ouvir que Renaud estava "assustado". - Por que eu perderia o apetite por causa de uma conversa? - Isaac colocou, apontando depois o prato de Renaud. - Você que devia comer mais, recomendações médicas, não é? - deixou a taça de vinho de lado e pegou os talheres para terminar a comida, mas parou antes de se servir. - Eu não entendo muito de depressão, é óbvio que eu não sou empático e não vou saber lhe ajudar nisso. Mas se precisar, posso lhe ajudar com rotina, exercícios e refeições, montar um cronograma é fácil. - ele pegou um pedaço da carne, mas antes de levar à boca, apontou de novo para o prato de Renaud. - Posso começar agora, inclusive. Sasha
Talvez não compreendesse inteiramente Renaud pelo fato de não saber qual a dificuldade de entender que fossem “amigos”, pura e simplesmente, mas sabia que algumas palavras deveriam carregar significados mais intensos para outras pessoas. Na verdade, já imaginava que Renaud estava passando por algum problema mais sério. Não era o primeiro nem o último em St. Clavier a lhe aparecer com um quadro como aqueles, inclusive, talvez Sasha tampouco tivesse escapado de ter um longo momento como o de Renaud, porém, ouví-lo por em palavras era o que lhe dava certeza de que ele queria o apoio dos dois. Isaac, entretanto, era o sujeito mais adequado para lidar com toda a situação, pois era ridiculamente denso. Acabou abrindo um riso largo quando ele considerou que o problema de Renaud era simplesmente a pronúncia da palavra. As ofertas de Isaac eram bem substanciais e diretas. Não havia nada o que enrolar ali. Era só dizer a Renaud o que eles estavam dispostos a fazer, e também, assegurar ao garoto que independente do que ele falasse, não iria deixá-los decepcionados... ou sem fome. - Talvez eu seja mais desorganizado que o Lemont nesse ponto, mas também pode contar comigo para o que for, viu, menino? Sabe que a porta do meu quarto está sempre aberta para você. E me cairia bem dividir a cama com alguém quentinho que possa armar minha cadeira de manhã, sempre que precisar. – brincou, levando a mãos aos cabelos escuros de Renaud, deixando-a ali por um instante. – Só peço uma coisa: é que confie na gente, como cê tá confiando agora. Não peça desculpas ou ache que vai nos incomodar por querer nossa ajuda. Você trouxe a gente num restô super gostoso justo pra gente devorar até a borda do prato, então vou fazer jus ao seu dinheiro. E de resto, cuidando de você, faço valer ao quanto eu digo que te adoro, viu? – deu mais uma esfregada nos cabelos escuros, deixando-os completamente bagunçados. – Agora, vai querer que o Lemont te dê carne na boca? Acho que se cê pedir, ele faz. Renaud
Podia conhecer Isaac a algum tempo, mas era inegável que todas as vezes iria se surpreender com a forma como ele lidava com assuntos, ele era sempre direto e prático, ou nem tanto, já que o tinha acompanhado devastado emocionalmente tentando lidar com a ausência do namorado. Sasha também lhe surpreendia, porque mesmo confiando plenamente nele, sabia que ele também tinha suas próprias batalhas pessoais, e vê-lo tão prontamente lhe auxiliando, lhe fazia sentir-se mimado, até um pouco egoísta, mas estava difícil fazer tudo sozinho, e em verdade estava cansado de ficar sozinho resolvendo tudo da sua própria vida: -- É, eu vou precisar de ajuda sim, eu estou tomando remédios pra controlar meu humor, eu tenho sono e maior parte do dia, estou desatento nas aulas, e mesmo com os alarmes de celular, eu não tô dando conta de tudo que tenho pra fazer… -- admitiu sem ficar muito feliz com aquilo, e cortou outra pequena porção de comida, se alimentando devagar para não ficar enjoado: -- Eu tento não pular as refeições, porque com o transtorno alimentar eu não tenho apetite nenhum o dia todo, então é a coisa que eu esqueço de fazer com mais facilidade, e justamente o que eu não posso deixar de fazer por causa dos medicamentos… Tornou a dar atenção a sua porção pequena, quase acabando com ela, era muito medíocre estar pedindo ajuda, tinha se acostumado desde cedo a fazer tudo sozinho, tinha muito auto suficiência, mas lembrava das conversas com o Dr. Vlahos, sobre ter aprendido a se virar muito jovem e isso ter um reflexo na sua forma de convivência com a família e consequentemente com seus amigos. Deixou os talheres de lado, depois de encerrar aquela primeira parte da refeição, tomando um gole breve de água pra limpar a garganta: -- Eu não sou uma pessoa do tipo que pede ajuda, e estar fazendo isso aqui e agora, é muito desconfortável, mas depois de conversar com o Dr. Vlahos sobre o assunto, não tenho como cuidar de mim se eu estiver sozinho o tempo todo… e nem quero ficar sozinho, em verdade… -- Encarou os dois a sua frente, sem saber se estava sendo claro o suficiente no que dizia: -- O ideal seria que tivesse acompanhamento da minha família, sendo que vocês dois sabem que eu não tenho uma boa relação com eles, não o suficiente pra eles me darem esse tipo de suporte… as únicas pessoas que eu confio a ponto de pedir ajuda são vocês dois que são meus amigos mais próximos…-- pensou em Didier também, mas ainda tinha aquela sombra de pensamento que o loiro tinha seus próprios problemas e não queria ser um problema pra ele também, era um raciocínio inevitável, que tentou afugentar da mente para não perder a linha de raciocínio: -- eu não sou uma companhia agradável do jeito que estou agora, não vou mentir, tem dias que eu não tenho nem força pra levantar da cama e ir seguir com a minha rotina, que eu choro e só quero ficar encolhido em um canto, e que é desolador, faz parecer que nada que eu faça vai ser suficiente... e eu me sinto jogando essa responsabilidade pra vocês…. mas é como eu falei antes… eu não tenho como passar por isso sozinho. Na verdade, eu não aguento mais me cuidar sozinho, eu estou verdadeiramente cansado. Admitiu um pouco exausto, mas surpreendentemente mais aliviado de ter falado sobre o assunto com os dois, e de saber que eles estavam lhe ajudando por que se importavam. O que era muito difícil era lidar com essa sensação de deterioração que lhe consumia, como se estivesse ruindo aos poucos, e tivesse que pedir pra eles catarem seus pedaços antes que terminasse de se desmanchar de vez. Isaac
Isaac ainda olhou um pouco torto para Sasha quando ele sugeriu que desse carne na boca de Renaud. Não que fosse algo completamente fora das possibilidades, mas não faria aquilo se ele não precisasse de verdade. Mesmo que fosse muito ruim com sentimentos e coisas emotivas, aos poucos conseguia ter um entendimento melhor do estado de Renaud, afinal, sabia o que era ser uma pessoa independente, não pedir ajuda a ninguém, cuidar de tudo sozinho e evitar preocupar as pessoas ao redor. - Eu sei que não pede ajuda com frequência. E eu sei como é não pedir ajuda dos outros e tentar resolver tudo sozinho. - Isaac comentou, tinha terminado a refeição em meio à explicação do moreno e deixou o prato vazio de lado, voltando a tomar o vinho. - Mas eu não sou bom em perceber quando algo está errado com alguém, e só consigo fazer isso quando já está errado demais. E eu me preocupo com você, então se disser diretamente que precisa de ajuda, é melhor para mim também. Ele olhou para a comida de Renaud que estava intocada, e exceto o jeito que Sasha segurava os talheres que também lhe incomodava, o fato de que ele estava comendo muito pouco lhe deixava mais incomodado agora que sabia o motivo e que precisava de solução. - Nós podemos cuidar de você. - ele olhou para Sasha, como se procurasse uma concordância, mas Sasha já tinha deixado bem claro que aquele era o caso. - E meu quarto vai estar aberto quando precisar descansar. Sasha
Renaud tinha muito a confessar, fossem os remédios que estava tomando, ou os transtornos alimentares, ou sua incapacidade de lidar com o fato de que agora precisa mesmo da presença dos dois. Sasha até podia entender aquele lado, pois também sempre tinha sido independente, e perder a independência para algo que estava além de seu controle era problemático demais, tanto que sequer falava disso com os amigos. A coragem de Renaud de pedir ajuda daquela forma lhe fez ficar satisfeito pelo progresso dele, afinal, de um moleque arisco para um adulto esquivo, para a figura honesta que via agora... sentia que saber todos esses pequenos lados e segredos mostrava a confiança dele nos dois. Sasha só franziu a testa quando Renaud mencionou a própria família como suporte. Não podia tirar a experiência dele completamente pela sua, mas algumas situações, era bom não ter esse tipo de suporte. E especialmente no caso dele que a família sempre foi ausente, que diferença fariam agora? - Já chega dessa de ficar sozinho. Isso não deu certo pra mim e nem pra você. E eu bem prefiro você estando ao meu lado para que possa te ajudar. Esse negócio de o “ideal”, pra mim, é balela. O ideal é estar com quem você confia, e quem quer lhe ajudar. E como o Lemont bem colocou, nós podemos cuidar de você, menino. – Sasha terminou de comer rapidamente, e então deixou o prato um pouco de lado. – Agora... deixa pra gente dizer o que é ser uma companhia agradável, ou tomar uma responsabilidade. Se a gente não falar isso pra você, não assuma que é esse o caso. Tanto eu como o Lemont somos sinceros, e não temos tato. Se for o que a gente pensa, a gente vai dizer. Como você mesmo disse, você tá cansado, e cansado de lutar contra isso sozinho... e você faz parecer que é um fardo pra gente... mas real, somos só muletas pra te apoiar, Renaud. Só quem pode andar é você. – Sasha franziu a testa, após uma pausa breve. - Bom, literalmente, você e o Lemont, mas metaforicamente, você é o único que pode superar tudo isso, porque o corpo e a cabeça são seus. – Sasha encostou mais relaxado na cadeira, ainda franzindo a testa. – E olha, é mais leve pra mim te apoiar sabendo o que está acontecendo com você e por onde começar do que se se eu estivesse me preocupando no escuro. Porque você queira ou não, você já me tirou por irmão e já tirou ele por amigo, então já deu pra gente a liberdade de querer se preocupar e cuidar de você. Por isso, obrigado, menino, por abrir o jogo e confiar na gente. Renaud
Definitivamente era difícil se acostumar com a ideia de que tinha pessoas próximas, apesar de estar passando por parte dos piores dias de sua vida, era estranho, justamente nesse momento, ter a confirmação de que tinha algumas pessoas preciosas em sua vida. E mesmo que pensasse muito sobre, ainda se sentia estranho, e ingrato, nem sabia como tinha chegado naquele ponto, mas não negava que estava aliviado de ter. Talvez fosse algo que não é pra se entender completamente, mas pra se aceitar, e usufruir. O jovem Blanco já tinha terminado sua porção minúscula de comida, mas refeição era refeição, desde que não ficasse enjoado e botasse pra fora, podia considerar uma vitória: -- Bem, eu sou grato por vocês estarem aqui, comigo, agora… e antes, e durante os próximos dias. -- fez uma pausa respirando fundo e soltando o ar devagar: -- obrigado. -- Sempre que agradecia por qualquer coisa, parecia que as palavras tinham um peso adicional, mas não porque se sentia amarrado por elas, mas justamente, porque eram palavras ditas, valendo todo o significado que tinham. Pegou a taça de água, e bebericou pra molhar a garganta, devolvendo-a para a mesa em seguida, e se recostando na cadeira: -- Todo o drama atual da minha vida, repassado para os senhores, estamos acordados que vamos ter rotinas próximas, e para a felicidade do Isaac eu uso uma agenda on-line, então é “fácil” de ver o que tem pra fazer e os horários importantes. -- fez o gesto com os dedos de “entre aspas” porque não era como se fácil fosse o melhor adjetivo, tendo um montante de coisas atrasadas requerendo sua atenção, pelos dias que passou em crise: -- Mas de todas as coisas, o que eu mais vou abusar, é dos cochilos nos quartos de vocês. -- Renaud colocou um tom mais leve na fala, no que podia ser facilmente compreendido como uma brincadeira,mas logo voltou atenção ao moreno mais alto: -- Isaac, lembre de falar com o Ethan, pra evitar mal entendidos, não precisa entrar em detalhes sobre a minha saúde, basta avisar. -- a última coisa que gostaria, seria de lidar com uma crise de pelanca do namorado ciumento do amigo, o que ele tinha de pequeno tinha de possessivo. [thread encerrada] |