Academia St. Clavier
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[Drive] Vicissitude [Renaud; Wilbert; Natalia; Dia; Sasha] - Lil - 08-29-2021

Renaud

Depois de todo um fim de semana que parecia finalmente mais calmo, o jovem Blanco estava agora, retomando sua rotina aos poucos, não estava conseguindo acordar cedo de forma natural como fazia antes por causa das novas medicações, por isso dependia do celular para despertá-lo. E mesmo sem ir aos treinos de natação por causa das mãos machucadas, sentia as câimbras nas pernas lhe incomodarem com força logo cedo, era preciso se alongar demoradamente para que elas fossem embora. Ainda tinha pouquíssimo apetite, mas estava seguindo a indicações feitas pelo Dr. Vlahos, tanto com os remédios quanto com a alimentação e sono, e ao menos sentia que seu peso tinha estabilizado. Tinha perdido quase 5 kg em pouco mais de uma semana, e não podia perder muito mais, ou ficaria com um aspecto aparente de “muito doente”. Seguiu para a aula da manhã, apresentou trabalhos em atraso, sentindo alguma dificuldade em responder perguntas que exigiam um raciocínio rápido, mas conseguiu resolver tudo fazendo anotações no quadro e explicando o passo-a-passo. Conversou um pouco com Sasha ainda no horário da manhã e isso lhe deixava menos tenso e mais confortável em ir pra aula

Almoçou no horário certo junto com Isaac, trocando conversas sobre assuntos das eleições do conselho estudantil, era algo bem mais simples de lidar, se comparado a toda a organização necessária que os jogos internos tinham exigido. Passou parte da tarde no conselho estudantil, assinando papéis, que precisavam de sua atenção por ser vice-presidente, mas não se demorou por lá, tinha uma prova da disciplina eletiva de gastronomia, e mesmo que não fosse essencial e indispensável para que se formasse, não faltaria a mesma. O jovem Blanco até gostava da matéria ministrada pelo prof. Funske, e sair de St. Clavier para cozinhar em um restaurante de verdade lhe parecia uma quebra de rotina agradável.

Ainda mandou mensagens para Didier, avisando que estava de saída para fazer a prova, e que se pudesse mandaria foto dos pratos, avisou que se pudesse também, quando voltasse a academia masculina, gostaria de tirar tempo para conversar um pouco.

Renaud tinha um aspecto cansado, de quem não estava dormindo bem, mas era principalmente por estar andando sem maquiagem. O Blanco sempre tivera algumas olheiras, por estudar até tarde e dormir pouco, e por estar sorrindo menos, parecia estar menos animado do que sempre. Embora ainda caminhasse com o queixo erguido e a postura aparentemente confiante de sempre. Renaud levou seu conjunto de facas e ferramentas específicas e particulares em uma maleta, sabia exatamente como funcionava um turno inteiro de cozinha em um restaurante grande, mas certamente não tinha qualquer experiência em trabalhar de fato num ambiente tendo de agradar clientes reais. Não considerava a situação estressante, era mais algo pra lhe distrair do que desafiar, mas respeitava a proposição de avaliação imposta pelo professor.

Afinal, quem quer ser chef, tem de experimentar como é a pressão de uma cozinha de verdade. Chegou no horário marcado e pontual, tinha levado sua diadema mais larga, que impedia que seus fios curtos da franja ficassem sobre seus olhos, as unhas estavam aparadas, e tinha trocados todos os curativos, para bandagens cor de pele, hipoalérgicas, sabia que teria de cozinhar usando luvas, mas estava se apresentando no melhor que podia. Se alinhou aos outros estudantes na antessala, antes da cozinha de fato, onde teriam uma reunião com o próprio professor, para receber indicações de como seria a avaliação.

Wilbert

Finalmente o dia de avaliação havia chegado. Passou a semana preparando os pratos que seriam colocados no menu da avaliação dos alunos da turma de gastronomia. Ao menos, como a matéria era eletiva, podia focar nas dificuldades de cada um dos alunos. Separou pratos chaves que envolviam o preparo não apenas de entradas, mas como pratos principais e sobremesas. Selecionou o próprio bistrô para realizar a avaliação. O ambiente era conhecido seu e inusitado para os alunos, como uma verdadeira cozinha deveria ser. Como faria o rodízio por estações, ensaiou o roteiro com os alunos durante as últimas semanas, focando nos pontos fortes e fracos de cada um dos desmiolados.

Demorou até conseguir organizar a avaliação prática pelo recolhimento dos termos de compromisso e toda aquela burocracia por propor aos meninos ricos daquela instituição uma experiência de verdade além da cozinha de St. Clavier. Não se importou com os gastos, reabastecendo o bistrô para a data em que levaria os rapazes para a cozinha do lugar. Com a frequência e a variabilidade de clientes, eles teriam uma avaliação mais diversificada e esperava ao menos poder verificar que tantos meses repetindo receitas e procedimentos, que eles teriam a prática necessária para o preparo e o atendimento ao público.

Estava com seu uniforme de chef para instruir os garotos pelas etapas da avaliação. O processo teria início durante metade da tarde e início da noite, considerando o período de preparo de uma cozinha para os pratos e para a preparação de fato das porções. Fez questão de verificar o estado dos alunos um a um, certificando-se que o uniforme estava devidamente colocado e eles estavam de acordo com o que havia requisitado para as aulas. Naquela altura do campeonato, depois de tantos gritos e discussões em sala de aula, os garotos já estavam mais do que habituados à sua lista de exigências para estarem em uma cozinha. Ao menos era o que esperava até avaliar o tal Blanco, repetindo as estações em que ele deveria ficar.

- Blanco, ficará primeiro na estação das carnes e depois na montagem dos pratos. - avisou de novo, a voz saindo como uma ordem como de costume. Encarou o moreno, observando-o de cima a baixo, as luvas que eram inusitadas para ele. O cabelo parecia ter crescido e tinha certeza que ele havia perdido peso. - E nem invente de ficar fazendo o trabalho dos seus colegas. Estou de olho em você hoje, Blanco. Faça o seu trabalho nas suas estações. - alertou, ciente de que o nível gastronômico do rapaz era superior ao dos outros. Na verdade, apenas ele e o garoto esquisito arqueado é que já pareciam ter alguma experiência ou sensibilidade natural para a cozinha. O restante dependia muito mais de esforço que da própria percepção natural.

Cruzou os braços e deu espaço para que eles se dirigissem a suas respectivas estações. O bistrô ainda não havia sido aberto, mas precisava que eles cumprissem seus papéis iniciais no preparo das carnes e no tratamento dos itens da cozinha para quando fossem colocar a mão na massa de fato. Além disso, como eles não possuíam familiaridade com a cozinha, era naquele momento que precisava testar a habilidade deles de raciocinarem por conta própria. Só respondeu às perguntas acerca de onde estavam os itens ao ser questionado sobre, franzindo o cenho a cada idiota que parecia perdido naquele espaço e sem iniciativa alguma de conseguir se posicionar como haviam ensaiado tanto durante as aulas.

- Onde diabos está a comunicação que eu tanto falei, seus cabeças ocas?! Trevor, eu acho bom o senhor verificar a temperatura e a potência do forno antes de pensar em preparar a massa para os bolinhos! Ernest! Verifique as porções do frango enquanto Blanco cuida dos filés! Quer que os clientes comecem a pedir mais frango que filé pela desproporção dos pedaços!? Quer?! - apesar de sua gritaria, não se sentia desconfortável em nenhum instante ao fazê-lo, visto que os garotos deveriam estar habituados aquela altura do campeonato.

Manteve o olhar vez ou outra sobre o jovem Blanco, estranhando a ausência de gracinhas vindas da parte dele. Para alguém que constantemente lhe desafiava e provocava durante as aulas de gastronomia, ele parecia aéreo. Esperava que as faltas dele durante os ensaios e as aulas sobre as estações não tivessem colocado o rapaz em uma situação complicada. Certamente não admitiria sua preocupação com o moreno, ainda mais no meio de uma avaliação como aquela. Contudo, manteve a atenção redobrada para as atividades realizadas pelos alunos, certo que eles deveriam se manter focados no que havia sido treinado em aula.

Renaud

Não estava no seu melhor dia na cozinha, disso o jovem Blanco não tinha dúvida, mas ao mesmo tempo, tinha consciência desse estado, e apesar de todos os seus problemas pessoais, cozinhar lhe distraia o suficiente de seus pensamentos negativos. E mesmo os gritos de Wilbert não eram o suficiente para lhe perturbar, em verdade, lhe passava uma sensação de que era apenas mais uma aula, e isso trazia certo “conforto”. Na medida do que era possível sentir conforto no estado em que Renaud estava. Ao contrário de si, seus colegas de classe, pareciam muito nervosos e incomodados, não estava em condições de oferecer seu sorriso dissimulado de sempre, mas estava disposto a cozinhar e fazer as coisas darem certo.

Apesar da expressão delatar cansaço por causa das olheiras evidentes, o jovem Blanco acenou positivamente diante de todas as explicações fornecidas pelo professor: -- Conforme estava programado, sim chef.. -- Chamou o professor pela função principal dele ali, porque tinha de botar na cabeça principalmente que apesar de se sentir confortável em aula, estava cozinhando para outras pessoas. E talvez aquela ideia, apenas atribuísse mais uma pilha de estresse para os colegas de classe, que aos poucos iam caindo a ficha, diante do momento de realização da execução na profissão que estavam escolhendo pra vida.

Tinha separado suas próprias facas para lidar com carnes, por estar ciente que iria ficar naquela estação desde muito antes. E levou apenas alguns instantes para observar a cozinha, que era certamente industrial mas não era tão grande a ponto de se perder nela. Repassou rapidamente as sequências das estações com os colegas próximos com quem dividiria serviço, enquanto abria e fechava armários. Fez sugestões aqui e ali, dizendo onde eles poderiam ficar mais próximos das ferramentas e ficarem mais confortáveis pra trabalhar. Checou o nível de congelamento das carnes, e alternou retirando as que estavam em ponto de descongelar, pra poder serem usadas nesse primeiro momento, e mudou as outras carnes que usaria mais adiante na noite, para outro freezer, para que ficassem apenas frias, mas não em temperatura de estragarem.

As receitas do dia, eram tradicionais em preparo, e exigentes na montagem em si, para que mostrassem uma aparência exuberante. E sabia que era seu fraco em dias normais por puro desinteresse, mas naquele dia, sabia que seria seu ponto fraco, por seu manejo fino não está totalmente recuperado ainda. Começou a fatiar as carnes, prezando pela manutenção da proporção dos pedaços do que pela agilidade, e era fácil de notar que Renaud estava mais lento do que de costume, embora por estar em um ritmo abaixo do seu, os outros alunos na estação conseguiam acompanhar sem se sentirem pressionados em cozinhar mais rápido.

Renaud não fez nenhum comentário adicional, além dos mínimos necessários para indicações, estava sério e não estava sorrindo, mas estava com o olhar muito focado e atento:

-- A prova do Chef Funske conseguiu deixar até o Blanco nervoso. -- Ernest comentou, depois da bronca dada pelo professor, porque parecia uma boa ideia para descontração daquela estação.

-- Não exatamente Ernest. Na verdade, cozinhar é relaxante. -- o Blanco comentou sem qualquer alteração no timbre de voz, chegando a parecer ironia: -- Mas hoje temos que agradar pessoas que sequer conhecemos, então é muito mais do que apenas o Chef Funske. Isso é empolgante, não concorda? -- Renaud desenhou um sorriso discreto, enquanto terminava uma seção de bifes finamente fatiados sem erros. Mudando de faca para executar outro tipo de corte para outro dos pratos.

-- Se isso é empolgação Blanco, você é muito sem graça. -- Ernest revirou os olhos, acompanhando o ritmo nos cortes e finalmente acertando bifes com proporções equivalentes: -- Devia admitir logo que tá todo nervoso, ao invés de ficar fazendo pose…! -- resmungou mais baixo, mas em timbre suficiente para que o Blanco ouvisse.

Renaud devolveu apenas com um sorrisinho de canto de boca, mas logo tornou a ficar sem expressão, estava sem ânimo, até para provocar os colegas. Então apenas focou no próprio serviço, deixando todos as fatias de carne imersas em tempero feito pela estação de pré-preparo.

Wilbert

No alto da parede da cozinha que dava acesso ao restante do bistrô havia um relógio para lembrar aos presentes o tempo que estavam despendendo em cada uma das atividades. Atravessou estação por estação, observando o desempenho dos alunos, fazendo algum comentário mais afiado aqui e ali enquanto os rapazes se colocavam na linha. O rendimento estava indo como esperado e, apesar do nervosismo mais grave de alguns, a produção pelas estações estava indo bem.

Notou o Blanco lhe contrariando, assumindo a posição de líder mais uma vez e ajudando os pequenos cabeças ocas a assumirem suas posições e agirem de acordo com a dança do que havia sido programado. Franziu o cenho para a cena, mas não comentou diretamente sobre aquele aspecto. Se a turma aceitava enxergar o Blanco daquela forma, era um sinal que ele possuía uma habilidade natural de convencer os outros sobre seus próprios planos.

- Oi! Estamos próximos ao horário de abertura, então terminem o que precisam e se movam para a próxima estação! - bateu palmas chamando a atenção dos rapazes, como a cozinha era fechada, era complicado deles terem alguma noção exata de tempo, então não se incomodou de alertá-los do tempo que estavam levando nas atividades. Ainda que alguns cometem pequenos desvios aqui e ali, o importante era que aquela cozinha conseguisse produzir os pratos para atender aos clientes.

Não demorou muito até que um dos funcionários que havia contratado para auxiliar no atendimento dos clientes do bistrô chegasse. Não poderia abandonar os meninos na cozinha, então permaneceria ali apenas para receber os pedidos.

- Trevor, cuidado com o fogo! Verifique a chama do fogão primeiro antes de selar as panelas! - alertou ao garoto no tom grosseiro de sempre, observando como o outro parecia nervoso entre separar as panelas enquanto ignorava a intensidade da chama para os pratos. Mais alguns instantes e logo os clientes chegariam. Havia feito um pequeno anúncio e conseguido alguns contatos no mercado popular graças a sua visita turística guiada pelo próprio Blanco. Com isso, não havia dúvida que haveriam fregueses curiosos para saber o que a comida feita pelos alunos de St. Clavier deveria possuir como sabor.

Esperou até o rapaz moreno de luvas se mover para a estação para a montagem dos pratos, ciente de que a velocidade dele parecia reduzida. Não sabia dizer se ele estava fazendo aquilo pelos colegas ou se havia algo de errado com o garoto. Ele também já havia faltado algumas aulas e as olheiras na face lhe diziam que ele não parecia estar no melhor dos dias. Contudo, não era de sua natureza ser gentil ou delicado com seus alunos, principalmente quando se tratava no trabalho na cozinha. Aproximou-se de Renaud Blanco quando ele se dirigiu para a troca de estação e não fez questão alguma em ser discreto com o toque firme no ombro dele, chamando-lhe a atenção.

- O que houve, Blanco? Não quer estar aqui? Agora vai começar a parte difícil. Se não vai aguentar, é melhor sair agora que estragar o trabalho dos seus colegas no meio. - avisou severo ao rapaz, estranhando o peso do ombro do outro. Ele havia mesmo perdido peso, não era só impressão sua. Aquele era só mais um motivo para mandá-lo embora dali. O sujeito havia dito a cara de pau de ir para sua avaliação naquele estado. Só esperava que ele não achasse que pegaria leve com ele por conta do estado alheio.

Renaud

O jovem Blanco não se sentia cansado do serviço de preparo de carnes, em verdade, mesmo que estivesse fisicamente indisposto, ao menos a atividade lhe deixava mentalmente ocupado. O som de talheres, facas, e demais instrumentos de cozinha, batendo, picotando, mexendo, o vapor de comida sendo preparada os diversos cheiros e vozes, funcionavam como se fosse um tipo de melodia, que lhe ajudava a manter-se focado. Em certo ponto, justamente por saber que estava mais lento, estava prestando mais atenção no próprio corpo, consciente da falta de manejo, e por isso, apenas mantendo um ritmo constante, e não seu jeito costumeiro de cozinhar. Não havia nada de errado naquilo, e até certo ponto, parecia que o Blanco estava sendo “gentil” em manter o ritmo dos colegas e não se impor sobre ele. Em verdade, sequer estava pensando nos colegas, se eles estavam indo bem ou não, se estavam apreensivos, nervosos, entusiasmados, tudo isso flutuava muito distante de sua percepção.  Se tentasse focar demais em entender os outros, acabaria perdendo o foco de si mesmo, que era sua prioridade no momento.

Pouco antes de mudar de estação para seguir para a preparação dos pratos em si, o Blanco guardou suas ferramentas, higienizando-as de forma apropriada, antes de guardá-las de fato. Aproveitou para trocar as luvas que tinha usado no manuseio da comida crua. Avaliou os próprios curativos atestando o bom estado dos mesmos, exceto por um pouco de sensação de suor por passar muito tempo com as luvas plásticas. enxugou as mãos e trocou por um par de luvas novas, já que iria montar os pratos e mexer na comida já preparada.

Ouviu bem em tempo o aviso do professor sobre as mudanças de estações e logo seguiu para sua nova posição, sendo parado no meio do caminho e sentiu o aperto mais firme em seu ombro. Ergueu o olhar mas manteve a expressão neutra, aparentemente cansada, mas encarou diretamente os olhos claros do mais velho. Em outros dias, sorriria, faria um gracejo, jogaria charme, mas não naquele dia. Apenas acenou positivamente diante do comentário:

--Eu entendo sua colocação Chef Funske, mas acredito que houve um equívoco. --  o Blanco ajustou a posição do corpo ficando completamente de frente ao chef, e jogou as mãos para trás em uma postura bastante respeitosa ao sujeito: -- Como o senhor sabe, eu curso essa matéria como eletiva, ela não é indispensável para minha conclusão de curso em St. Clavier, logo, se eu estou aqui, participando da avaliação, é decorrente da minha vontade.  -- Comentou de forma bastante sucinta e objetiva, encarando o maior todo o tempo: -- Ou seja, eu vim porque gosto de cozinhar chef Funske. -- Respondeu simplesmente, com um ar menos formal nessa última frase.

Em seguida fazendo um meneio de cabeça para seguir para seu posto de trabalho, mas no decorrer do caminho completou: -- Se eu chegar a comprometer o andamento da cozinha, o senhor como Chef está em posição de me por para fora. E eu não vou exercer qualquer discordância a sua decisão. -- E era estranho falar de forma tão subordinada ao professor que gostava de confrontar durante as aulas.

Mas não naquela noite em específico, naquele momento queria apenas cozinhar e se distrair um pouco de todos os seus problemas e dilemas pessoais. E se cozinhar lhe proporcionava aquele tipo de relaxamento mental, então queria estar naquela cozinha. No entanto, tinha ciência que estava no meio de uma avaliação, então se o professor acreditasse que era melhor tirá-lo de lá, não ofereceria resistência. Até aquele momento, a despeito de estar indisposto fisicamente, estava mantendo o ritmo igual ao da turma de forma geral, então não havia qualquer prejuízo a avaliação.

Wilbert

Não havia como não entender que algo de errado havia acontecido com aquele rapaz para deixá-lo em um estado tão discrepante em relação ao que ele normalmente demonstrava durante suas aulas. Contudo, não esperava que ele fosse admitir que gostava de cozinhar. Não fazia ideia se sua abordagem nas aulas de gastronomia teriam aquele tipo de efeito sobre o mais novo ou se, para ele estar com aquele semblante sério e mais concentrado em tarefas objetivas, teria acontecido algo além do que poderia averiguar pelo contato que tinham durante as aulas.

Algo lhe dizia que Blanco não estava em um bom momento, contudo, como ele mesmo havia destacado, tinha a autonomia para expulsá-lo dali. Observou sério o moreno seguir para a estação designada e cruzou os braços, certo de que só faltava apenas mais uma etapa da avaliação e ele ficaria livre para voltar para o dormitório. Ele mesmo havia admito que gostava de cozinhar. Não fazia ideia do que acontecia na vida pessoal do rapaz e definitivamente aquele não era o momento para tratar do outro como se ele fosse um pobre coitado. Ele havia escolhido estar ali e se não havia nada explícito que lhe permitisse expulsá-lo da cozinha, deixaria que ele cumprimisse a última etapa como os outros colegas dele.

A turma de modo geral não estava lhe decepcionando. Apesar do nervosismo e da tensão pela pouca experiência da maioria ali, os garotos estavam respondendo bem ao ritmo frenético de uma cozinha em funcionamento.

- Muito bem! Vamos aos primeiro pedidos! - anunciou, o timbre de voz impositivo. Com todos em suas posições, tratou de anunciar os pedidos que chegavam à cozinha após a abertura de seu bistrô naquele dia. Havia separado algumas das opções de entrada, aperitivos, prato principal e sobremesa para que os alunos pudessem lidar com um número limitado de pratos.

Como estava mais próximo da saída da cozinha de onde os pratos saiam e próximo da estação de onde eles eram montados. Notou o ritmo mais lento do Blanco na montagem e tratou de pressioná-lo em alguns momentos para que se adequasse a velocidade com a qual os pratos eram preparados. Assim como também pressionou alguns dos outros garotos a prestarem mais atenção ao tempo de preparo das carnes de acordo com o ponto pedido pelos clientes. Afastou-se da estação de montagem para se aproximar da estação de preparo das massas para o prato principal e sobremesa, chamando a atenção dos alunos no preparo da quantidade, alertando-os para a falta de materiais antes de anunciar ao seu empregado que avisasse aos clientes que uma das sobremesas não seria mais servida.

Assim que o horário se aproximou e os pedidos diminuíram após servirem as sobremesas, anunciou o fechamento da cozinha, fazendo algumas notas mentais sobre o desempenho dos alunos durante todo aquele processo que, tinha certeza, deveria ter parecido como uma eternidade para alguns. Ao encerramento, afastou-se para verificar os materiais que haviam sido utilizados e o que ainda poderia ser conservado e armazenado.

- Terminem o trabalho e tratem de limpar a bagunça de vocês na cozinha! - ordenou, acompanhando a tensão surgir de novo em alguns dos alunos. Talvez eles tivessem se enganado achando que precisavam só cozinhar naquele espaço e que daria algum tipo de folga a eles pelo bom trabalho, liberando-os da limpeza. Triste engano. Ainda havia panelas quentes que precisavam ser organizadas, bancadas para serem limpas, utensílios para serem lavados, entre outros cuidados que aqueles responsáveis pelo preparo dos pratos também deveriam ter.

Renaud

Sabia que sua resposta provavelmente tinha deixado o professor de gastronomia confuso, já que semanas atrás quando estavam no apartamento do mesmo, tinha dito com todas as letras que não tinha interesse restrito em cozinha, e muito menos se importava com a opinião dos outros sobre o que cozinhava. Seu ponto não tinha mudado, não faria daquilo profissão, mas admitia que o Wilbert estava certo em dizer que era mais prazeroso cozinhar para que outras pessoas também pudessem comer. Era uma forma de criar vínculo com os outros, sem que esses tivessem que te conhecer profundamente, ou saber exatamente seus problemas, era apenas um momento de troca. “Eu me sinto útil em poder cozinhar algo que possa ser apreciado”, agora parecia mais simples de compreender, e entendia porque cozinhar era relaxante para o loiro mais velho. E podia enxergar porque a atividade tinha passado a lhe relaxar também.

Contudo, o jovem Blanco não era ingênuo de pensar que não teria trabalho, ou não sentiria desgaste físico naquele lugar. Com o manejo fino comprometido, os movimentos com as mãos eram desengonçados, e precisava impor muita força e controle para não tremer e encaixar as finas fatias de carne na posição correta. Depois de pouco mais de uma hora na posição de montagem de pratos, os tremores nas mãos já não eram mais tão discretos, então mudou deliberadamente o desenho do molho nos pratos para que eles fizessem zigue e zague ao invés de meia-lua como era o ensaiado. Repicava as folhas verdes, ao invés de colocá-las posicionadas no canto do prato. Não que isso tirasse o charme dos mesmos, mas era um desenho não esperado, e a medida que a noite ia transcorrendo, os pratos iam ficando mais expressivos, não pelo controle milimétrico das posições das porções, mas justamente porque nenhum deles se parecia com o outro. Havia um “quê” de exclusividade em cada porção apresentada, como se estivesse sendo feita para agradar aquele cliente, que pedia mais ou menos carne, mais ou menos molho, mais ou menos salada.

No decorrer da noite, Renaud sentiu-se zonzo, pouco enjoado, mas contornou controlando a própria respiração, e ignorando momentaneamente os ruídos externos, estava focado, embora o cansaço físico lhe cobrasse no rendimento abaixo do que sempre fazia. Sentiu as mãos quentes, a sensação de formigamento era constante e percorria até o cotovelo, e o calor se alastrou até o ombro, em pequenos choques dolorosos semelhante a cãibras. E em determinado momento naquela noite, tudo esfriou, em dormência e sentiu as juntas dos dedos rígidas, mediante a tensão imposta a elas por tanto tempo. Quando a cozinha finalmente fechou, o jovem Blanco, estalou os dedos e o pescoço, sentindo as mãos pesadas e os braços doloridos. tirou as luvas plásticas, sentindo os curativos suados debaixo de seu toque, e se dirigiu até a pia, onde lavou e massageou as juntas, ainda mantendo a expressão séria, apenas quando um dos outros alunos se aproximou que o Blanco se atentou a presença dele:

-- Vai lavar as panelas Blanco? - o jovem se aproximou com um punhado de panelas em mãos.

-- Sim, claro. Cuide dos pratos, eu cuido das panelas. -- ao menos as panelas não iriam quebrar se as derrubasse pela preensão das mãos estarem comprometidas pelo cansaço.

Trevor que tinha passado toda a noite em frente ao fogão, estava nitidamente exausto, era possível ver que os olhos estavam marejados de quem estava prestes a ter uma síncope nervosa, como se não tivesse percebido que a cozinha já tinha fechado e tão logo terminassem de limpar poderiam voltar aos dormitórios. O mesmo se encaminhou com a panela ainda quente onde os frangos inteiros foram cozidos por toda a noite, com o caldo grosso ainda borbulhante, e o vapor subindo em nuvens opacas. O jovem seguiu em direção do descarte para que a mesma fosse lavada. O jovem baixou o olhar momentaneamente tomado pela vontade iminente de chorar, mas o tempo em que desviou o olhar, foi o suficiente para que outro colega trombasse em seu ombro, e a reação imediata de Trevor foi berrar em susto:

-- Ahh! CUIDADO!! -- Uma das mãos soltou a alça da panela fazendo com que a mesma fosse levada a lateral do balcão, batendo em som audível do metal no inox.

Renaud estava próximo demais dos dois, e se desviou da panela batendo no balcão por uma fração muito pequena de sorte, mas antecipou o líquido borbulhante de óleos e tempero jorrando sobre os dois. Em sua cabeça conseguiria levar as mãos na direção da alça pendente antes que a mesma terminasse de virar.

Mas quatro dedos abaixo da alça foi onde o Blanco conseguiu posicionar suas mãos, o som das gotículas de água encontrando o metal quente chiou alto, como se tivesse sido postas em chapa quente. O calor foi tão intenso que Renaud sentiu as mãos ficarem geladas, e um calafrio desagradável percorreu toda a sua espinha, a respiração travou por um instante, antes do grunhindo de dor escapar de sua boca, os dentes rangendo com o retesamento dos músculos:

-- ARGGHHHHHHHH….!

-- MAS O Q-...!!!!?? -- Trevor terminou de soltar a panela e os respingos do molho quente alcançaram o uniforme dos três garotos, e tudo aconteceu muito rápido, rápido demais até para o Blanco, que antes de sentir as pernas fracas usou de força para deslizar a panela fumegante sobre o balcão molhado em um som incômodo de metal arranhando metal e água chiando perante a pressão de calor. o Vapor tomou aquela parte da cozinha.

E antes mesmo que os outros garotos conseguissem assimilar o que aconteceu Renaud estava caindo sobre os joelhos as mãos emanando vapor quente, e na lateral da panela não dava para discernir se eram os curativo ou se havia pele queimada junto.

Wilbert

Estava do outro lado da cozinha, verificando como os alunos estavam armazenando as massas que haviam sobrado do preparo naquela noite de atendimento. Certo de que os rapazes já deveriam estar encerrando o horário da avaliação sem maiores problemas, não esperava pelo que estava por vir, com o passar nervoso do senhor Trevor e a sequência de pequenos acidentes que culminou no pânico da cena assistida pelos menores presentes na cozinha.

Acompanhou a cena que aconteceu muito rápida. Só teve tempo de pensar em se apressar na direção dos garotos quando se deu conta da carne de Blanco já queimando com a panela e o óleo fervendo. Franziu o cenho, irritado com o cenário catastrófico em sua cozinha que não conseguiu evitar.

- MAS QUE MERDA VOCÊS FIZERAM?! - gritou com os garotos, afastando os rapazes do caminho, ainda atordoados pelo acidente presenciado com a panela de óleo quente.

Aproximou-se prontamente de Blanco de joelhos, segurando-o pelos braços e mantendo-o firme apoiado em si para verificar o estado das mãos dele. Aquilo não poderia estar acontecendo. Já havia presenciado vários acidentes de trabalho na cozinha, entre queimaduras sérias e cortes profundos, mas jamais poderia esperar que algo daquela gravidade fosse acontecer justamente com um aluno tão cuidadoso com o trato na cozinha.

- Porcaria! PIERS! - chamou pelo funcionário do bistrô enquanto abria a torneira da pia mais próxima com água fria para poder segurar os braços do menor, colocando as mãos dele debaixo da água corrente. Foi tempo suficiente para o funcionário vir rapidamente até a cozinha. - CHAMA A MERDA DE UM TÁXI AGORA!

- Sim, senhor! - apenas ouviu a concordância do funcionário enquanto os alunos ainda pareciam perdidos com o que fazer.

- Vocês estão esperando o quê?! SUMAM DA MINHA COZINHA! - gritou de novo com os garotos que aparentemente acharam bem conveniente a expulsão da área de trabalho ao se darem conta ao passarem para sair dali e verem a cena das mãos de Blanco na água corrente.

Em poucos instantes, o veículo já estava aguardando na rua, anunciado por seu funcionário Piers que já parecia bem ciente do acidente de queimadura. Pelo menos o funcionário parecia estar mais disposto a ser gentil com os garotos, afirmando que cuidaria da cozinha no lugar deles e que os levaria de volta a St. Clavier.

Observou o estado do rapaz com as mãos danificadas e aparentemente bastante fraco após todo aquele processo avaliativo. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ergueu-o nos braços, reconhecendo a diferença de peso do moreno. Ele de fato havia perdido peso, era inegável a facilidade com a qual conseguia levá-lo nos braços. Já na saída para a rua, pegou o celular de Piers, certo de que voltar para dentro do restaurante para pegar seu aparelho apenas faria com que perdessem mais tempo.

Acomodou o Blanco no banco de trás do táxi e entrou ao lado do menor, anunciando antes de fechar as portas para que o motorista acelerasse para o Hospital Geral de Cerise. Segurou os antebraços do moreno, deixando as mãos dele erguidas sem encostar com qualquer superfície.

Renaud

Os momentos seguintes depois de empurrar a panela quente de caldo sobre o balcão não foram bem apreciados pelo jovem Blanco. Sentiu o joelho encostar no chão, mas a dor que sentia nas mãos foi tão aguda, de forma tal, que não experimentava a algum tempo. Por isso, todo o corpo do moreno mais novo esfriou drasticamente, e o jovem Blanco sentiu o estômago revirar num azedume visceral a ponto do frio lhe percorrer por dentro, e o amargor chegar no topo de sua garganta. Tornou a respirar, mas estava pálido, e transpirando muito, a ponto do suor escorrer da testa pela lateral do rosto até o queixo, não tinha fechado os olhos mas sentiu a vista escurecer por um momento, e todos os ruídos da cozinha sumiram, a cabeça ficou pesada.

[...]

[...]

[...]

“não estamos em casa…”

E antes que desmaiasse de fato, a sensação de não estar seguro, lhe injetou adrenalina o suficiente para não desmaiar. Quando tornou a perceber o entorno ao seu redor e os ruídos de pessoas falando e dos gritos do professor, muito mais próximo de si do que antes, sentiu o corpo ser erguido num solavanco, tal qual, que o corpo não acompanhou e as pernas não se firmaram em pé. A expressão se contorceu em dor e cerrou os dentes ainda mais, o corpo estava pesado e foi necessário buscar suporte no corpo maior que o tinha erguido. Naquele momento que tinha se dado conta que era o próprio professor Funske que o erguia. Renaud estava completamente pálido, a ponto que suas olheiras estavam plenamente visíveis e seu olhar divagava entre a figura do professor e os próprios machucados, sem conseguir focar a visão.

Sentia-se frio como se a temperatura do corpo tivesse lhe fugido completamente, além de ter a pele úmida de quem tinha transpirando excessivamente naquele curto espaço de tempo, a ponto de sentir a camisa grudar na própria pele por baixo do uniforme de cozinha. Mas o corpo todo se retesou ao sentir a água ainda mais fria descendo sobre a área queimada sem pele das mãos, era como ter várias agulhas finas perfurando violentamente cada centímetro de pele a mostra, e outro grunhido de dor escapou entredentes:

-- ARGHHHHHH-HNN-nnn…! -- e como reação do corpo a exposição de dor intensa, Renaud começou a tremer intensamente, sem conseguir conter o movimento involuntário corpo, arregalou os olhos encarando a cena e depois mordeu o lábio inferior para evitar que qualquer outro grunhido de dor escapasse.

Ser erguido do chão lhe deixou momentaneamente confuso e levou as costas da mão até o rosto, sentindo tontura e muita dor de cabeça, sentiu toda a boca ficar seca, e o frio do estômago se contorcer em enjoo. Novamente as vozes ficaram distantes, mas estava alerta demais para perder a consciência. Só tomou ciência de que estava em um veículo quando uma voz familiar, que não era a do professor de gastronomia, lhe chegou aos ouvidos. Afinal em outros momentos de dor excruciante já tinha escutado aquela mesma voz, falando exatamente a mesma sentença:

-- Puta merda Menino! -- o sotaque chinês era fácil de reconhecer, mesmo o motorista falando francês, tão logo reconheceu a voz, o carro começou a se mover em velocidade com certeza acima a permitida para as vias da cidade pitoresca:

-- O que…? O que eu to fazendo aqui?Jonah? Wilbert? Arghrnnn-hnn...!!! -- Renaud ainda parecia confuso, ainda grunia de dor e a sensação de tontura era forte, tanto que o Blanco pendeu para o lado trombando no ombro de Wilbert, por sorte o mais velho estava mantendo suas mãos altas, elas doiam muito, e estavam formigando, e em contraste com o corpo gelado que não parava de suar, era como se toda a extensão queimada estivesse febril: -- eu... a minha pressão caiu… droga…! arghhnnn-hnn...!!!

-- Fique quieto o porra, me deixa dirigir! -- O chinês resmungou buzinando contra alguns carros e reclamando no meio do caminho, cortando veículos e fazendo barberagens, certamente receberia umas multas, mas ele não parecia estar minimamente preocupado com multas naquele momento.

Wilbert

Aparentemente a figura do motorista conhecia Renaud. Contudo, não ficou impressionado a priori, a julgar que o garoto parecia conhecer muita gente na cidade de Cerise. Além do fato de estar mais preocupado com o tempo que gastariam para chegar ao hospital. Bem notou a tremedeira e a confusão do mais novo, baixando o olhar para observar o semblante alheio assim que ele trombou em seu ombro.

- Merda! Oi, Blanco!? Renaud! - arrumou os antebraços dele, mantendo-os cruzados e para cima para que o tecido queimado das mãos não batesse em nada. - Não vá desmaiar agora! Estamos indo para o hospital! - alertou o menor na esperança que ele ficasse menos nervoso.

Podia sentir a própria adrenalina correndo com a sensação de que precisava levar o menor o mais rápido possível para ser atendido, antes que ele chegasse ao ponto de perder os sentidos ou entrar em choque. O mais estranho era já ter presenciado cenas de acidentes na cozinha, mas nunca havia visto alguém ter as reações que o moreno estava tendo devido a queimadura. Ainda assim, não teve muito tempo para pensar na situação. Virou-se de lado, ajudando o menor a se manter firme apoiado em sua figura devido aos movimentos bruscos que o veículo fazia por estar correndo, e enquanto tentava manter as mãos queimadas do moreno erguidas, puxou o celular de seu funcionário.

- Qual era o número dela!? Inferno! - praguejou na segunda tentativa ao colocar os números do telefone da tia do garoto machucado. Impaciente com a ligação, teve vontade de quebrar a porcaria do aparelho, mas controlou-se por saber que sem ele, ficaria sem comunicação. - Merda! Atende logo!

[número não registrado]: Alô? Que--?
[Piers]: É Wilbert! Preciso que avise a sua família que o Renaud sofreu um acidente!
[número não registrado]: Como é que é, Funske?
[Piers]: Tô levando ele pro hospital! Avise a família dele!
[número não registrado]: Hospital geral? Eu vou até aí! Mas você deveria notificar St. Clavier para eles notificarem a família,  não ligar para mim primeiro, Funske. Você é muito irresponsável!
[Piers]: Mas que me--!
[número não registrado]: E não venha me responder que quem fez a merda foi você. Você é o professor dele, deveria saber disso, no mínimo!
[Piers]: E você é a t--!
[número não registrado]: Tuu! [chamada encerrada]

- Essa vadia desligou na minha cara?! Porcaria de mulher! - teve vontade de jogar o celular contra a lataria do carro, mas acabou franzindo o cenho e apertando o aparelho em mãos, fazendo um esforço maior para segurar o menor em uma curva acentuada. - Merda! Tem uma pessoa machucada aqui atrás, cacete! Quer matar a gente antes de chegarmos no hospital!?

Estava nervoso e inquieto pelo tempo do trajeto até o hospital. Tinha ciência que o motorista estava correndo, mas a tensão da situação apenas lhe deixava cada vez mais irritado. Baixou o olhar de novo para observar Renaud, a irritação dando lugar a apreensão devido a situação do menor, suando e tremendo como se ainda estivesse fazendo um esforço inumano para permanecer acordado.

Renaud

Por mais que quisesse se orientar sobre onde estava e o que estava acontecendo, sentia a cabeça latejar profundamente, a visão estava turva e os tremores perpassavam todo o corpo em movimentos involuntários. A única parte que sentia quente no próprio corpo eram as mãos, que pareciam febris e cozinhando ainda, mesmo que não estivessem em contato com nada. Sabia que estava com a pressão baixa, não tinha como erguer as próprias pernas e melhorar a circulação de sangue, então tinha de tentar se manter calmo e controlar a própria respiração. Mas era muito difícil manter-se concentrado na respiração se a dor nas mãos era tão incômoda, sentiu o frio no estômago se intensificar com os movimentos bruscos do carros e a sensação de azedo lhe tomar completamente por dentro. Cerrou os dentes e buscou respirar fundo com o nariz e ignorou momentaneamente tanto o chamado alarmado de Wilbert quanto a conversa que ele tinha com Jonah.

Por outro lado o chinês estava estressado ao volante, estava acostumado a pegar todo tipo de gente e deixar em todo tipo de lugar, e principalmente a fazer favores a amigos. Mas tinha algo naquela cena toda que mexia e revirava as tripas do chinês:

-- Se tá achando ruim vem dirigir no meu lugar! Fica calado também o porra que eu tô indo o mais rápido que dá! Se não for ajuda, desce do carro que eu levo o menino no hospital! -- Jonah espiou brevemente pelo retrovisor lançando um olhar furioso pro lado de Wilbert, mas em seguida desceu o olhar pra expressão de dor em Renaud, e então lembrou-se especificamente de quando tinha visto o outro daquele jeito. E lembrar daquela noite lhe fez ficar com uma expressão sinistra.

-- Fala com o… Richard ou o.. Paul…! -- Renaud soltou o ar falando devagar a expressão retorcida pela dor.

-- É o quê? -- Jonah reclamou de pronto, mas em seguida associou os nomes: -- ah porra eu tinha esquecido dos fedelhos ruivos! -- O chinês discou no telefone que deixava preso e fez a ligação no viva-voz

-- Falaí Flango, tô no meio do plantão.

-- Tô levando uma encomenda pra você, fresquinha…

-- Fresco quanto?

-- Gemendo de dor, mãos queimadas, suando frio, pressão lá embaixo, tá acordado por um milagre.

-- Tá. Vai pela Entrada C9, diz que ele desmaiou pelo menos duas vezes no carro, se perguntarem se ele tá sentindo dor, diz que não. Em caso de queimadura, quanto menos a pessoa sente pior é. Vai entrar direto na emergência. Como é a encomenda?

-- Rabugento, peludo vindo do inferno.

-- …! Tá…! Vou mexer minhas coisas aqui, chega em quanto tempo?

-- Dez minutos no máximo! OH FILHA DA PUTA SAI DA FRENTE TÁ VENDO A PORRA DO PISCA ALERTA NÃO? Como eu dizia… nove minutos.

-- Tá… tô esperando.

Jonah não acrescentou mais nenhum comentário na direção de Wilbert ou de Renaud! reclamando apenas quando alguém não saia de sua frente, buzinando com vigor. Por outro lado o jovem Blanco, desencostou do professor de gastronomia, e encostou a cabeça no estofado do carro, respirando fundo e compassadamente, os tremores ainda estavam ali, e o corpo ainda estava gelado, mas ao menos, não parecia que o menor iria desmaiar. 

Wilbert

Franziu o cenho de volta para o maldito chinês que dirigia de maneira irresponsável. Não conseguia negar que aquilo lhe incomodava, mas estava preocupado demais com a situação do moreno ao seu lado para se focar em discutir com o motorista miserável. Como se fosse lógico deixá-lo levar o menor sozinho até o hospital. Sabia que Renaud conhecia algumas pessoas na cidade, mas não era como se fosse confiar em todo vagabundo que aparecesse na sua frente simplesmente pela possibilidade dele ser um conhecido do Blanco.

Ouviu a conversa no viva voz e não conseguiu simplesmente ignorar o que lhe parecia ser uma rede de associados que o garoto Blanco conhecia. Aqueles sujeitos deviam algum tipo de favores a ele ou coisa parecida? Ao que parecia, no hospital já estaria tudo certo para o atendimento de Blanco, o que já lhe deixava alguns centavos menos tenso. Contudo, observou com maior estranheza quando Renaud desencostou de sua figura. A respiração dele parecia mais esforçada e os tremores ainda eram evidentes. Não hesitou em continuar mantendo as mãos dele erguidas a frente do corpo do menor para evitar impacto sobre a superfície queimada e continuou acompanhando o quadro dele.

A tensão sobre observar Renaud naquela cena dolorosa pela queimadura inesperada lhe deixou em alerta. E sequer se deu conta quando já estavam próximos de fato do tal Hospital Geral de Cerise. Os minutos para chegarem ali pareciam uma eternidade. Sequer se deu conta do celular que havia conseguido com seu funcionário tocando com outro número desconhecido. Ouviu o ruído da chamada, mas parecia ocupado demais em tentar evitar que o moreno magoasse o machucado e sofresse outro choque.

Até na entrada do hospital, parecia uma eternidade até que o veículo chegasse a tal entrada C9. Nunca havia visitado a sessão de tratamento ali para casos de queimaduras, mas esperava que ao menos alguém de fato pudesse receber Blanco e evitar que ele entrasse em choque. Com aqueles sintomas, tinha certeza que ele precisaria de auxílio para sair do carro, principalmente pelo fato das mãos dele estarem queimadas e não poder encostar nem sequer na maçaneta do carro.


RE: [Drive] Vicissitude [Renaud; Wilbert; Natalia; Dia; Sasha] - Lil - 08-29-2021

Renaud

O chinês seguiu dirigindo de forma imprudentemente rápida, tinha clara urgência em chegar o mais rápido possível no Hospital, e tão logo se aproximou das vias que desembocavam no prédio de 3 andares, reduziu drasticamente a velocidade, apenas para não ser preso ou parado nas imediações do Hospital. Passou por todas as outras entradas e seguiu direto para o portão C9, que era de acesso restrito para funcionários e ambulâncias, mas como a chegada já era prevista o guarda liberou a cancela de acesso dando espaço para o veículo, assim que avistou o taxi se aproximar. Jonah estacionou o carro e mesmo dentro do veículo ainda, já tinha visão do seu contato ruivo, em uma roupa típica toda na cor azul escuro. Antes mesmo de desligar o motor do veículo o chinês se virou completamente na direção do loiro e do moreno mais novo:

-- Oh desgraçado! -- apontou para o loiro mais velho: -- Eu pego a merda do seu dinheiro depois. -- Jonah resmungou e em seguida encarou o Blanco que parecia mais pálido do que o sobrenome sugeria: -- Menino, seguinte... é o Richard que vai ficar de olho em você lá dentro.

-- Valeu cara… dou notícias… quando puder…! -- Renaud respirou fundo e acenou positivamente respondendo num fio de voz, com o ar parecendo lhe faltar, não tinha muito mais pra completar naquele cenário todo.

Renaud estava notoriamente suando frio, pois o corpo demonstrava uma temperatura ainda muito baixa, além de uma visível camada de suor. O jovem Blanco, saiu do carro tão logo Wilbert abriu a porta do mesmo e lhe deu caminho, agora já mais consciente conseguia manter as mãos erguidas sozinho, sem que o professor se mantivesse segurando. As caretas de dor ainda estavam bem presentes no rosto do moreno mais novo, e ainda era possível notar um tremor involuntário perpassando todo o corpo como pequenos espasmos. Renaud se sustentou em pé com algum trabalho, apenas no tempo suficiente para que o enfermeiro ruivo se aproximasse com uma cadeira de rodas:

-- Olá, e olá…! Enfermeiro Walker, Richard Walker. -- O ruivo se apresentou sem encarar o loiro mais alto, logo dando atenção a pessoa machucada em questão, ajudando a por Renaud sentado na cadeira de rodas, e sem pedir qualquer coisa para o professor, já se pôs a empurrar o moreno mais novo pra dentro do Hospital: -- Consegue conversar Renaud?

-- Consigo…! Mas vai ter de falar bem devagar…!

-- Tá melhor do que eu imaginava. Olha, você senhor…?! você, não tem cara de parente, mas vai servir como responsável hoje, não vai poder entrar na zona de emergência por motivos óbvios de contaminação! Mas pode ir direto pra recepção e dar abertura na entrada do Menin-... do Renaud no Hospital. Eu cuido do resto daqui por diante, afinal eu que trabalho aqui, não é mesmo? -- Richard falou com toques claros de ironia, porém ele não aparentava está estressado ou preocupado - o mínimo que se espera de um enfermeiro - e logo parou de empurrar a cadeira de rodas para enfiar a mão nos bolsos do Blanco, sacando celular e carteira e deixando nas mãos do loiro mais velho, logo em seguida voltou atenção para o Blanco, tornando a guiar a cadeira para a zona interna do Hospital: -- Siga a direita, primeira a esquerda, saia da zona amarela, siga reto no corredor até o fim, depois de passar da área de consultórios do pré-atendimento, você vai sair na zona de serviço social, e depois a primeira porta a direita já dá acesso a recepção. Gravou? Agora me deixe trabalhar!

Richard se afastou de Wilbert, guiou a cadeira de rodas para junto de outros enfermeiros, que já começaram as perguntas de rotina com o Blanco, o ruivo deu descrições como se já tivesse feito uma pré-avaliação, em verdade estava apenas dando a descrição necessária pra que o moreno fosse levado diretamente pra zona vermelha de atendimento, supondo que as queimaduras era mais graves do que pareceriam, e o problema de pressão do rapaz podia fazê-lo desmaiar a qualquer momento.

Renaud claramente detestava a sensação de estar em um hospital, o que ficava cada vez mais evidente na expressão de angústia que o moreno sustentava. Conforme o número de vozes estranhas aumentavam e o cheiro de assepsia ficava mais fácil de captar, Renaud parecia se encolher na cadeira de rodas. O moreno ainda espiou por cima do ombro de forma tímida na direção do estacionamento, depois olhou para o outro lado no caminho que o prof. Funske tinha tomado. Por fim, tornou a olhar para o corredor branco interminável a sua frente e sua única reação foi engolir em seco.

Assim que seguiu para a zona de atendimento o Blanco, foi transferido da cadeira de rodas para uma maca apropriada, os equipamentos já tinham sido pré-organizados por Richard que já sabia do que iria precisar pra adiantar o pré-atendimento do ex-colega de gangue. Renaud passou pelos procedimentos básicos, de ter pressão medida e foi posto num soro, já que o tratamento da mão iria demorar, e pelos suores acentuados ele precisaria repor líquido. Richard ficou lá todo o tempo, ele mesmo aplicando o soro com precisão, e o tempo todo tentando conversar qualquer coisa que fosse, mas sem sucesso. O Blanco apenas respondia com acenos positivos ou negativos de cabeça, ainda mantendo os ombros e o corpo em uma postura retraída e defensiva. Em seguida as mãos foram higienizadas com soro, além de ter sido retirado os restantes de curativo que estavam queimados junto a carne machucada dos ferimentos, por sorte as áreas mais gravemente atingidas foram justamente as com maior densidade de carne, que eram as palmas das mãos, deixando os dedos menos avariados. O ruivo dispensou os outros enfermeiros, ficando a sós momentâneamente com o Blanco, então estalou os dedos na frente do rosto do moreno lhe chamando a atenção, para que erguesse o olhar:

-- Olhe bem Renaud, está me ouvindo? Presta atenção, eu sei que é uma merda tá aqui, assim, mas eu tô tomando conta, a médica que vem falar com você é chegada minha, vai entender qualquer coisa “extra” que tenha acontecido. Então fique tranquilo, você já esteve pior que isso, e por vontade própria, não é? Só mais um dia de trabalho. -- O ruivo sorriu, conseguindo arrancar de Renaud apenas um suspiro mais conformado, seguido de um aceno de cabeça positivo em concordância.

Jonah depois de deixar Renaud e o acompanhante no hospital, seguiu para fora do estacionamento de ambulâncias, e ficou na parte reservada para Taxi. Puxou o celular e discou o número conhecido na agenda, estava notoriamente impaciente sentado batendo no volante com os dedos enquanto esperava qualquer sinal do outro lado da linha:

-- Desgraça atende... Ah-! Frater, seguinte... é o Jonah, oa... acabei de deixar o menino no Hospital, não sei o que poha vocês fazem nessa escola de rico, mas ele não tava bem não. Não tava mesmo... -- a forma do chinês de falar, alternava entre apreensão e estado de alerta.

- Ah, e aí, Jonah? - o moreno cumprimentou depois de atender, mas após prestar atenção na conversa, recebeu-a com um estalo de língua. - Tsc! Que merda foi que aconteceu? Tipo, bem bem ele não anda muito não, sabe, mas pra ir pro hospital... conta esse negócio direito! E conte logo que eu tenho que pedir táxi e só tenho esse celular!

-- Eu sou taxista, não recebo muita explicação não! As pessoas mandam dirigir e eu piso. -- O chinês bufou puxando o ar e soltando em um sopro fino, como quem estava fumando, e era bem verdade que precisava de um cigarro naquele momento: -- Um loiro alto engomadinho, cara de rico, entrou no meu carro com o Menino quase desmaiado e mandou pisar pro Hospital! O que você acha que eu fiz? Levei horas...! Pelo que deu pra ver ele tava com as mãos machucadas, queimadas ou coisa assim, ele mal tava falando Frater... Nem parecia ele.

A descrição da pessoa era vaga para Sasha. Seria algum professor? Do lugar de onde via, todo mundo era alto. -- Tá, tá, valeu o pé na tábua, mas e aí? Os dois foram pro hospital geral? Eu acho que tô ligado quem é o loiro. Tem uma cara de enjoado, né? Eu acho que é um professor daqui. Não te deu nome nem nada? Porra, e o menino já tava com a mão fudida. Se foram as duas dessa vez, não me surpreende que ele não tava falando. -- questionou, embora tivesse pressa em terminar a ligação. Então lhe ocorreu o óbvio. -- Ó, vou ligar pra ele pra ver se alguém atende, nem que seja o cara lá. E você, dá pra passar aqui em St. Clavier pra me buscar? Eu fico lhe devendo dinheiro, mas pago a primeira parcela com notícias. Rola?

-- Enjoado deve ser elogio pro sujeito, desgraçado de merda…! -- Jonah resmungou já mexendo nas próprias coisas e buscando carteira e isqueiro: -- Passo sim Frater, fica na conta, relaxa... Oa pelo que eu vi, estragou as duas mãos... mas eu falei com uns contatos no Hospital, então ele vai ser atendido rápido... Só puxar o ar e eu já colo aí.

-- Valeu mesmo, Jonah. Vou sondar por aqui também sobre o sujeito. Até mais. - Sasha desligou, já com o número de outros alunos na agenda, inclusive o de Isaac. Não demoraria pra saber pra quem endereçar todos os xingamentos que estava engolindo também. Jonah puxou o ar cheio de nicotina, porque aquela noite seria puxada, estava irritado, mal humorado, preocupado, e estressado, era uma péssima combinação pra quem ainda iria dirigir um bocado naquela noite.

Wilbert/Natalia

Estranhou como Blanco parecia conhecer pessoas úteis ali, mas não entrou em nenhuma discussão com o motorista ou o enfermeiro, preocupado que o garoto pudesse sair do veículo e ser colocado em uma cadeira de rodas para ser levado diretamente para o atendimento. Pelo menos o chinês miserável de direção imprudente, mas eficiente, não parecia mais preocupado com o dinheiro que com a saúde do moreno.

Olhou para Richard com desconfiança, mas como Renaud Blanco parecia à vontade com a companhia do ruivo enfermeiro, não reclamou, certo de que o setor de queimaduras era um lugar bem perigoso para algum cenário de infecção. Cortes e queimaduras eram acidentes comuns de cozinha, por isso conhecia a gravidade do atendimento. Contudo, tinha plena certeza que aquele tipo de reação não poderia ser apenas devido ao problema com a panela fervendo.

Ficou observando durante alguns instantes a direção que o enfermeiro estava tomando com aquela cadeira de rodas, ansioso com a ideia de que o Blanco estaria sozinho naquele momento. Não conhecia aquelas pessoas, não confiava nelas, mas era necessário fazer o que lhe era pedido ali. Os sujeitos não pareciam pessoas preocupadas em prejudicar o jovem rapaz, pelo contrário. Contudo, a falta de informação só contribuía para piorar seus nervos.

Seguiu para a recepção com a carteira e o celular do garoto em mãos e tão logo foi atendimento pela recepcionista de plantão, sua irritabilidade só começou a piorar quando se deu conta da quantidade de informações que precisava preencher na porcaria de um formulário para o atendimento emergencial. Estava ocupado no balcão, quebrando a cabeça para tentar lembrar das informações mais pessoais do garoto, muitas das quais sequer fazia ideia de que eram necessárias ali, quando o celular de Renaud começou a tocar. Em reflexo, atendeu o aparelho, colocando-o apoiado no ombro com seu rosto para poder continuar na sua tentativa de preencher o formulário enquanto equilibrava a ligação com quem quer que fosse que estivesse a procura do moreno naquele momento.

[20:31, xx/xx/xx] Frater: Ei, é o Renaud ou o cara que levou ele pro hospital? É Sasha, irmão dele. Tô atrás de tirar essa história de queimadura a limpo.

[20:32, xx/xx/xx] xxxx-xxxx: ... oi. O seu irmão já foi direto pro atendimento. Sou o cara que trouxe ele pra cá. O que o senhor quer saber? - pausa de quem afasta o telefone. - Oi, enfermeira. Posso colocar meu nome aqui? É. Nessa linha mesmo. Tcs. Merda. - volta pro telefone. - O que o senhor quer?

[20:31, xx/xx/xx] Frater: Primeiro eu quero saber como ele está; segundo, eu quero saber o que aconteceu e terceiro, eu quero saber se você tem nome. - a voz parecia pontualmente irritada.

[20:32, xx/xx/xx] xxxx-xxxx: Eu sou o professor de gastronomia dele. Houve a porcaria de um acidente no final da prova hoje e o seu irmão acabou queimando as mãos com uma das panelas, ele entrou em choque, a pressão dele deve ter caído e eu trouxe ele para o Hospital Geral de Cerise. Meu nome é... Wilbert... Funske... - falou enquanto escrevia o nome no formulário. - Sabe qual o tipo sanguíneo dele? Esse tipo de informação tem na carteira dele?

[20:31, xx/xx/xx] Frater: Porra, que merda de acidente foi esse que fode as duas mãos do menino e deixa ele em choque? E tá precisando de transfusão também? Não me fode, Funske. - Sasha rosnou do outro lado da linha - Eu não tô com informações dele aqui, vou pegar, mas olha na carteira de motorista. Deve ter. Foi aqui em St. Clavier essa merda? Já avisou a escola e aos parentes dele? Eu vou aí, to só esperando o táxi chegar.

[20:32, xx/xx/xx] xxxx-xxxx: Não sei se ele vai precisar da porra de uma transfusão. Eu não entrei com ele para o atendimento, eu tô aqui preenchendo essa porcaria de formulário! Vou ver na carteira! O acidente foi fora, na minha cozinha fora do internato! Ainda não tive como avisar a escola, mas a tia dele já sabe! Se os pais dele ou responsáveis vão vir, não sei, não faço ideia! Ah, achei essa merda! - pausa de quem encontrou as informações na carteira do Blanco. - Pode vir, não sei quando ele vai ser liberado! E não tem como arrumar esse tipo de informação agora…

[20:31, xx/xx/xx] Frater: Aí tu não entra com ele pro atendimento, mas espera que esse formulário vá servir de alguma merda? Os médicos aí tem que tratar dele imediatamente, acha que vão ficar esperando você responder um caralho dum papel? Você tinha ligado pra escola, pra escola contactar os pais dele e te passar algumas informações urgentes. Como você acha que os pais dele vão aí, telepatia, cara? Se teve tempo de ligar pra tia dele e de atender minha ligação, já tinha feito isso também. Eu tô aqui com a ficha dele de St. Clavier, pra você preencher essa merda desse formulário aí, e vou avisar a escola já que você tá aí enrolando. Avisa que pode responder algumas perguntas mais imediatas e depois você deixa pra mim ou pra tia dele responder o formulário, se der. - Sasha respondeu ainda com a mesma irritação, mas um tom urgente. - E vou te dar uma dica, Funske: segura sua língua e esse tom, porque parece que tu tá mais puto de ter que ajudar o menino que nervoso que essa merda foi na sua aula. E eu sei que urgências fodem com a cabeça da gente, mas bote a sua no lugar, junto com a sua humildade, que cê vai pedir desculpas que só um caralho pela sua negligência. Agora pede as informações enquanto eu ainda tô aqui. Não posso falar no telefone e avisar a escola ao mesmo tempo.

[20:32, xx/xx/xx] xxxx-xxxx: Já acabou? - fez uma breve pausa, verificando se alguém estava por perto antes de tentar começar a falar mais baixo, ainda que nervoso e estressado com aquela situação. - Olha aqui, Sasha, eu não sei com quem o seu irmão anda, mas o cara do táxi conhecia ele. O enfermeiro que deixou a gente entrar conhecia ele. E aparentemente ele tá do jeito que tá não é só por causa da merda de uma queimadura. Mas vou fazer que nem você disse e deixar essa porcaria de papelada incompleta para quando chegar aqui, vou deixar as informações que achei na carteira dele e você avisa esse raio de escola logo. Vou ver como é que ele tá assim que preencher metade disso aqui e te aviso.

[20:31, xx/xx/xx] Frater: O menino conhece gente. E pra minha sorte o taxista é amigo da gente, por isso que eu soube disso tudo. E não, ele não tava bem, mas se precisou duma merda de queimadura pra você notar, tem algo de errado com você também. Vai fazer o que você tem que fazer que eu também vou. E se precisar de mais informações, liga, Funske. - Sasha soltou um logo suspiro de frustração e então desligou o telefonema, pois só com as duas mãos livres conseguiria ir até algum professor responsável.

Deixou o telefone de lado, concentrando-se em como havia dito que usaria das poucas informações que havia na carteira do Blanco para completar os espaços em branco do formulário. Podia sentir a tensão do momento, diferente de quando estava trabalhando em algum de seus restaurantes, aquela situação era bem distinta dos momentos de pressão que passava no trabalho. Havia um desconforto além do esperado naquele cenário. Apesar de apreciar trabalhar dando aulas para os adolescentes e jovens adultos durante aquele semestre, não conseguia se importar com as variáveis de seu emprego naquele momento. Estava de fato preocupado com o estado de Renaud Blanco, a julgar que o quadro dele estava bem mais agravado que o de alguém que havia sofrido com uma queimadura de cozinha.

Após entregar o formulário ainda com alguns espaços em branco para preencher, informou que gostaria de saber sobre o estado do paciente por quem estava responsável. Foi encaminhado para outra zona, não sendo permitido todavia na área de atendimento dos pacientes devido ao risco de contaminação que o enfermeiro Richard já havia comentado sobre. Contudo, ficou em uma sala de espera que dava acesso ao lugar. Procurou com o olhar pela cabeça do ruivo para que pudesse conseguir alguma nova informação sobre o estado do garoto. Não se sentou, inquieto demais com a ideia de que a situação de Renaud pudesse piorar. O celular alheio e a carteira do garoto ainda estavam em suas mãos. Ao menos a emergência não parecia assim tão movimentada quanto imaginava que seria.

Pensou em ligar novamente para a tia do garoto para avisar que alguém da família já havia entrado em contato, mas achou melhor esperar. Se chegasse de fato a perder seu emprego, tinha de lembrar de agradecer ao atendimento do psicólogo que havia lhe aconselhado a fazer algumas trocas em seus hábitos. Em tempos normais, poderia já estar tendo um colapso nervoso. Porém, apesar da tensão que podia sentir em seus ombros e a dor de cabeça constante, não se sentia nervoso capaz de chegar aquele ponto. Ainda assim, continuou abordando todo e qualquer funcionário do hospital que passava por ali, perguntando pelo enfermeiro ruivo de nome Richard. A situação de entrada do jovem Blanco havia sido bem peculiar para achar que perguntar diretamente por ele seria algo eficaz.

Natalia segurou o grupo de prontuários que tinha em mãos, passando as páginas rapidamente para se recordar do nome dos pacientes enquanto ouvia sobre o tal favor pedido por um de seus colegas de trabalho. Não tinha problemas em fazer favores, contanto que fosse bem compensada depois. E pelo que conhecia do ruivo, ele não tinha uma fama de devedor, pelo menos não ainda com sua figura. Trocou de roupa na área dos funcionários, trocando seu horário para assumir o cargo de um de seus colegas na emergência.

Seguiu até a ala de emergência, vestida com seu uniforme de atendimento emergencial, o cabelo preso em um coque, rumando diretamente para o centro de distribuição dos enfermeiros com atendimento por medicamentos e exames clínicos. Cumprimentou os presentes, já buscando o exame da amostra de sangue do paciente que deveria atender. Não fazia ideia de quem era o sujeito, mas pela urgência de Richard, ele deveria precisar de certa discrição.

Observou os dados oriundos do resultado do exame sanguíneo apenas por protocolo, mas acabou passando o olhar mais vezes sobre os páginas enquanto caminhava para encontrar o paciente. Encontrou o mais novo no soro já, acompanhado pelo enfermeiro que parecia preocupado em monitorar as reações do moreno.

- Olá, garotos, como estamos hoje? - sorriu, entregando a prancheta com os prontuários no colo do enfermeiro ruivo para logo em seguida buscar seu estetoscópio e a pequena lanterna clínica. - Oi, Renaud. Queimou as mãos, não foi? - começou enquanto colocava as luvas e o estetoscópio para verificar a pulsação na região próxima da pele queimada das mãos do moreno. - Consegue mexer os dedos? Queimadura de segundo grau. Não chegou a danificar os nervos aparentemente. - fez uma breve pausa, estendendo o instrumento médico para verificar o batimento cardíaco e a respiração do rapaz. - Com licença. - pediu ao afastar o tecido do uniforme dele. - Olhe para mim, por favor. Hm. Não parece quadro de envenenamento, mas o batimento cardíaco está irregular, a queda de pressão não confere com o choque pela queimadura. Fez bem em colocar ele no soro, Richard. Tá bem desidratado. - pediu, afastando o estetoscópio para usar a lanterna. Segurou o rosto do moreno com uma das mãos, puxando a área da bolsa dos olhos para baixo, verificando a coloração dos vasos, da conjuntiva e o tempo de dilatação da pupila.

Guardou os instrumentos antes de se virar para Richard, indicando a pomada que deveria ser aplicada nas queimadura, o horário para limpeza dos ferimentos e o tempo de recuperação que não deveria levar mais de um mês para curar sem deixar cicatriz nas palmas, apesar de comprometer as digitais do moreno.

- Olha só, Renaud, a dor das queimaduras vão aliviar logo que o medicamento for aplicado, tá bem? Você vai ficar bem. - puxou uma das cadeiras de rodas do corredor para poder se sentar e ficar na altura do paciente, observando-o com maior atenção. - Mas vamos conversar um pouquinho. Meu nome é Natalia. - sorriu, tranquila, apesar de saber de seu objetivo ali. - É o seguinte. Deu uma alteração no seu exame de sangue e pelo que eu vi, o senhor está com um quadro de efeito colateral devido ao uso intenso de medicamento. O que foi que houve, afinal? O que é que o senhor anda tomando? - olhou rapidamente para Richard. - Você não drogou esse garoto não, né? Ele tá com um quadro de intoxicação. - repreendeu o ruivo, ainda que aparentando estar bastante calma. O que poderia acontecer? O moreno ter algum choque anafilático? Se ele tivesse algum choque mais grave, estava no lugar certo para ser tratado. O que precisava fazer era receitar o antagonista correto para diminuir o efeito colateral pela intoxicação, mas precisava saber exatamente o que o moreno estava colocando no próprio corpo para confirmar suas suspeitas. E ele estava consciente, o que ajudava muito seu trabalho de investigação.

Renaud

Apesar de estar ao lado de uma pessoa conhecida, a sensação de estar em um Hospital não lhe deixava tranquilo, estava notoriamente abalado, os ombros retraídos pra dentro, e as dores de ter o sangue coletado ou o cateter do soro aplicado sequer se comparavam com a sensação de estar com as mãos cozidas. O formigamento, ardência, como se a pele ainda estivesse exposta a temperatura elevada da panela. Tentou não prestar atenção a dor, mas desviar a atenção do machucado lhe deixava atento demais ao entorno e ao fato de estar em um Hospital e sem previsão de sair. Focou sua atenção no cordão pequeno que Richard usava por baixo da bata azul do hospital, repetiu várias vezes na própria cabeça:

[...]

“cordão prateado, fino e pequeno, ele não me pertence, ele é um cordão do Richard”

[...]

Conseguiu com algum trabalho compassar a respiração e fechou os olhos momentaneamente jogando a cabeça para trás, sendo incapaz de relaxar naquela situação. Mas ao menos o jovem Blanco conseguiu tomar mais controle da própria respiração, e foi bem em tempo de escutar uma voz estranha surgir dirigindo a palavra aos dois. Abriu os olhos e espiou a figura nova, e olhou dela para o ruivo, que lhe acenou positivamente. A única reação do Blanco foi respirar fundo e acenar positivamente as colocações que a mulher lhe fazia, ela falava rápido, e estava com dificuldade de prestar atenção no que ela estava falando.

Quando ela finalmente sentou, e ficou na sua altura, a encarou diretamente, embora a postura ainda fosse retraída, não deixou de observar a médica diretamente nos olhos. E quando ela supôs que o enfermeiro tinha lhe drogado, estreitou o olhar para a mulher mais velha. Richard por sua vez apenas deu de ombros, pondo uma das mãos na cintura, enquanto a outra segurava o prontuário na prancheta:

-- O menino é “limpo”, as alterações devem ser por outra coisa. Vou deixar vocês conversarem, e dá alguma notícia pro grandão. Como eu chamo ele, menino?

-- Funske… Wilbert Funske. -- Renaud comentou baixo, seguido de um suspiro.

-- Tá, vou buscar a pomada e os medicamentos injetáveis, volto logo. -- Dito isto, Richard saiu, deixando o jovem Blanco sozinho com aquela completa estranha. Renaud tornou a encarar a mais velha:

-- Madame Natália… -- O Blanco repetiu o nome da mulher estranhado ter de chama-la pelo primeiro nome: -- Eu estou em tratamento com ansiolíticos… -- o Blanco descreveu brevemente o nome e a composição química do mesmo, por costume e por saber que isso devia ajudar em alguma coisa para que a médica não lhe aplicasse qualquer medicamento que tivesse uma combinação ruim: -- e eu tenho pressão baixa… deve está na minha ficha… eu já… fiquei aqui antes… por muito tempo…! -- Renaud moveu de leve os dedos de forma desengonçada e com pequenos espasmos mediante a dor local. Torceu a expressão em desgosto e desviou o olhar para as próprias mãos destruídas, pra não ter que ficar encarando a médica por tanto tempo: -- Eu perdi peso nessas duas semanas… por causa de crise de estresse... e eu tenho pouca gordura no corpo… sou atleta… então… 1,75m, 72kg, não tenho alergias… não que eu saiba… e…! -- Renaud queria enxugar o próprio suor da testa, porque os fios escuros grudavam na mesma, apenas levou o rosto até o ombro já que não podia usar as mãos. Estava notoriamente incomodado: -- eu tomo muito analgésico… quase nenhum funciona mais… se quiser eu falo as composições deles… mas são muitos…! -- Renaus suspirou verdadeiramente cansado daquilo, e querendo sair daquele local o mais depressa possível, mas olhar para o conta gotas lento do soro, apenas lhe recordava que ainda ficaria por muito tempo sentado naquela posição.

Richard caminhou pelo espaço do Hospital, e apenas alertou pra outro enfermeiro que separasse a pomada requerida por Natalia, além das outras medicações que precisariam ser aplicadas. Assinou no prontuário as informações novas, enquanto era dada baixa nos medicamentos no sistema. Tão logo chegou outro enfermeiro lhe avisando que o tal Funske estava perguntando por ele a algum tempo. Seguiu para sala de espera onde ele estava permanentemente em pé e dando voltas no espaço:

-- Senhor Funske. -- falou em tom audível para chamar-lhe a atenção: -- A médica está fazendo avaliação do Renaud nesse momento, as queimaduras são de segundo grau, e não danificaram os nervos, em um mês com o cuidado adequado ele deve está completamente recuperado, apenas com perda das digitais. -- Explicou pausadamente, reforçando a parte da recuperação para aliviar o mais velho de que a situação era menos séria do que parecia ser: -- Como ele chegou muito desidratado e com a pressão baixa, ele foi posto no soro, então vai ficar aqui por algum tempo, as feridas já foram higienizadas, e vai ser aplicado analgésico e pomada anti inflamatória, sendo que enquanto ele estiver na área vermelha ele não pode receber visitas e nem ser acompanhado por ninguém, por causa do risco de contaminação.

Tinha de lembrar o grandão daquilo antes que ele começasse a lhe pedir para entrar e querer ficar por lá. De alguma forma não gostava muito da cara do tal Wilbert Funske, talvez porque tivesse a impressão de já conhecer o sujeito, estava certo de já tê-lo visto na internet ou mesmo na tevê, mas deixou o pensamento de lado por hora:

-- Quando ele for transferido pra zona amarela vai poder ficar acompanhado, normalmente não pode, porque ele é jovem e está consciente, mas com as mãos inutilizadas por hora, ele precisa de ajuda pra fazer as coisas. Se tiver qualquer dúvida, ou quiser avisar alguma coisa pra ele, a hora é agora. -- O ruivo pôs a mão na cintura, ciente de que depois teria de continuar o serviço e não iria ficar de leva e trás de informação tinha mais o que fazer.

Wilbert

A médica observou o enfermeiro de esguelha, considerando que o garoto era “limpo”. Pelo uniforme, ele não deveria andar metido com entorpecentes mesmo. Guardou o nome da pessoa que estava esperando por ele na sala de espera na memória e voltou a atenção para o garoto quando ele tratou de lhe explicar sobre o que fazia e que tipos de remédios tomava em sua rotina. Brevemente afastou o olhar do garoto para conferir se Richard já havia voltado com o medicamento que havia solicitado.

Sua expressão, todavia, se alterou para uma de surpresa e conclusão assim que o moreno chegou ao ponto de lhe explicar sobre os valores do próprio peso e o fato de ser um atleta. Ele ainda estava suando e era notório o esforço que fazia para se manter desperto ali. Não deixou de pontuar mentalmente que ele conhecia bastante sobre os medicamentos e seus princípios ativos, então ou ele era um hipocondríaco em potencial ou uma boa vocação para a área de farmácia.

- Não. Não. Já deu pra descobrir o que o senhor tem. - deixou o prontuário dele de lado e se levantou com um breve pedido de licença para poder pegar, com as mãos enluvadas, uma das pequenas toalhas esterilizadas que serviam para os procedimentos médicos e removê-la do saco plástico para aproximar o tecido do moreno. - Os analgésicos possuem um ciclo químico cuja função é suprimir a sensação de dor através do retardo dos conectores químicos no seu corpo. Parecido com o que fazem os antidepressivos e ansiolíticos. Os seus analgésicos devem ter parado de funcionar porque o medicamento para sua ansiedade tem esse efeito colateral de deixá-lo mais letárgico. O seu peso, altura e o fato de ser um atleta só colaboraram para que isso acontecesse. Basicamente o seu corpo deve estar gastando muito mais energia devido ao metabolismo atual dele do que de fato se preocupando em fazer a manutenção do seu quadro de receptores bioquímicos.

Tentou falar de uma forma mais pausada para que o moreno pelo menos se distraísse enquanto aplicava a pomada sobre a pomada antiinflamatória e cicatrizante nas mãos do moreno. O medicamento não tinha cheiro forte, mas como era de uma substância semelhante a uma pasta d´água, dava a sensação de frescor sobre a pele exposta. Como Richard já havia realizado a limpeza e assepsia ali, a pasta deveria abrir de maneira mais rápida. Tomou cuidado em passar a pomada em cada uma das mãos, entre os dedos, próximo as unhas.

- Como foi que queimou suas mãos, rapaz? - perguntou enquanto fazia o procedimento, separando novas toalhas limpas para ele poder repousar as mãos untadas de pomada sobre o tecido limpo. - Vamos deitar um pouco na maca, vamos? Eu preciso que fique deitado para que o medicamento se espalhe mais rápido. - afastou-se para separar a maca mais próxima para ele se acomodar e retornou para segurar o cachorrinho do soro. - Consegue colocar as mãos para frente e andar? Vamos devagar, filho. - sorriu, mais compreensiva com a desgraça do paciente.

[...]

O loiro não se decidia entre ficar andando de um lado a outro da sala de espera ou simplesmente permanecer sentado com o pé batendo enquanto aguardava alguma notícia do rapaz Blanco, o celular dele em mãos, tal como a parte superior de seu uniforme na cozinha que havia removido na tentativa de se acalmar e respirar com maior tranquilidade - o que foi meio inútil, considerando que ainda parecia inquieto. Estava de camisa e calça agora. Levantou-se na mesma hora que o tal enfermeiro ruivo apareceu para poder questioná-lo sobre o estado de Renaud, mas o homem foi mais rápido em lhe explicar e adiantar as informações sobre as restrições para visita ali.

Passou a mão livre pelos cabelos loiros e concordou com um breve aceno da cabeça quando o enfermeiro lhe adiantou sobre o processo de recuperação do garoto. Um mês era muito tempo.

- Por favor, avise a ele que o irmão dele ligou e já está vindo para cá. Falei com a tia dele pelo telefone, mas não acredito que ela vá fazer muita coisa nessa situação. - pediu, alguns centavos mais aliviados que aparentemente o acidente não havia sido tão grave quanto parecia. Chocante seria ele perder o movimento dos dedos ou o trato fino por conta das queimaduras. - Obrigado. - dirigiu-se ao enfermeiro antes dele voltar para o próprio trabalho.

Voltou até uma das cadeiras da sala de espera na esperança de conseguir respirar um pouco mais aliviado diante de todo caos. Ao menos, era o que esperava, mas não deu sequer cinco minutos desde a partida do enfermeiro para o telefone do Blanco começar a tocar novamente. Franziu o cenho, encarando a tela do celular e deixando passar alguns toques antes de finalmente atender, imaginando que só poderia ser mais alguém procurando por notícias do jovem Blanco.

[20:45, xx/xx/xx] Deodatos: Porque demorou tanto pra atender o telefone, Renaud? A Assessoria de St. Clavier não soube informar nada do seu paradeiro.

[20:45, xx/xx/xx] Wilbert: O garoto tá no atendimento agora. Sou o professor dele, Funske. Quem fala?

[20:46, xx/xx/xx] Deodatos: Funske, justamente a segunda pessoa com quem eu gostaria de falar. Aqui é Deodatos Blanco, sou pai do "garoto", explique o que aconteceu, já que quando falei com o secretário em St. Clavier ele sequer parecia ser ciência do ocorrido.

[20:46, xx/xx/xx] Wilbert: Pai? Hm. Ele sofreu um acidente na cozinha hoje. Queimou as mãos em uma panela. Trouxe logo ele para o hospital. Falei com o irmão dele a pouco no telefone.

[20:47, xx/xx/xx] Deodatos: Sim. Pai. Eu tenho muitas coisas para reclamar e apontar, mas quero saber como ele esta primeiro. responda.

[20:47, xx/xx/xx] Wilbert: Ele vai ficar bem. As queimaduras foram de segundo grau, ele vai ficar sem poder usar as mãos direito por algum tempo. Tava desidratado e a pressão caiu, mas ele não desmaiou. Daqui a pouco ele vai ser transferido para a área amarela.

[20:48, xx/xx/xx] Deodatos: Qual a estimativa de melhora, até que ele possa usar as mãos de novo? Vão ter sequelas graves? Responda.

[20:48, xx/xx/xx] Wilbert: Não sei. Vai depender do tratamento, acredito. Sequelas? É uma queimadura de segundo grau. Ele deve ficar com cicatrizes nas mãos, mas ainda vai usar elas.

[20:49, xx/xx/xx] Deodatos: Veja bem Senhor Funske, agradeço por ter levado meu filho ao Hospital, mas sendo bem sincero, não fez mais que a sua obrigação, visto que o acidente ocorreu justamente na sua cozinha, isso porque diga-se de passagem Renaud é um Químico que trabalha em laboratórios manuseando produtos perigosos a três anos, e nunca, passou por nenhum acidente nem perto do que aconteceu hoje. E espero que esteja acompanhando a minha linha de raciocínio, pois o senhor é totalmente culpado pelo que ocorreu hoje, e com certeza vai ser responsabilizado por isso, e o que estou exigindo é que se não se dispôs a ligar para instituição para avisar a família do "garoto", o mínimo que espero é que tenha informações concretas para me passar. Consegue entender o que estou dizendo?

[20:49, xx/xx/xx] Wilbert: Eu já disse ao senhor o que eu sei. Não posso entrar para ver o garoto agora. O irmão dele disse que estava vindo para cá.

[20:51, xx/xx/xx] Deodatos: Mesmo que o irmão dele vá, ele não se responsabiliza pelo Renaud, não pode assinar nenhum documento ou tomar partido sobre qualquer coisa que venha a acontecer. Não adianta ficar empurrando a responsabilidade para o menor, quando era algo muito básico que é função sua enquanto professor e responsável pelos alunos fora da instituição de St. Clavier. Isso porque estou falando de contatar a instituição que paga o seu salário com o meu dinheiro senhor Funske. Nem cheguei no mérito do trabalho simples de manter a segurança dos mesmos alunos dentro do seu espaço de trabalho. E eu devo dizer senhor Funske, que estou profundamente desgostoso dessa situação, e dos desdobramentos dela. A sua falha de gestão de aula, vai atrasar a vida do meu filho por semanas, quem sabe meses? Se não é capaz de gerenciar adolescentes na sua cozinha, não se predisponha a fazê-lo. Eles não são ratos de teste para trata-los como faz aos seus funcionários costumeiros.

[20:51, xx/xx/xx] Wilbert: Dos meus funcionários cuido eu. E o que foi feito na cozinha hoje foi planejado há semanas. Se o senhor quer me ensinar o meu trabalho ou recuperar o valor do seu investimento, senhor, fique à vontade para tratar diretamente com a instituição. O que ocorreu foi um acidente. Quer o número do meu advogado? Ou um pedido de desculpas formal em uma carta? Pode ir direto ao ponto, porque francamente eu parei de prestar atenção no que o senhor está falando quando começou a tratar do "atraso" na vida do seu filho. O senhor vai vir ao hospital ou não?

[20:52, xx/xx/xx] Deodatos: Eu não estou na França, e eu espero que ele não fique no Hospital tempo o suficiente para que eu chegue em Cerise. E sinceramente, Funske, tenha o mínimo de interpretação da minha fala. Quando falo de "atraso" falo em todos os aspectos da vida cotidiana de Renaud que envolve usar as mãos. E sim, eu espero um pedido de desculpas formal, porque o erro foi seu, não meu, e muito menos do meu filho. O meu advogado vai entrar em contato com o seu, não se preocupe com isso. E por fim, eu esperava minimamente que o senhor cuidasse bem dos alunos que estão sob sua responsabilidade já que isso é o seu trabalho e parece que o senhor não o fez adequadamente. Não me cobre a paciência quando o filho que está hospitalizado é o meu.

[20:52, xx/xx/xx] Wilbert: Ele vai ficar bem da queimadura, mas não sei dizer quanto tempo isso vai levar. Posso perguntar diretamente ao médico responsável por ele quando tiver a chance. Além do que já lhe falei sobre o estado dele, eu não sei de mais nada. Também estou esperando notícias. Eu aviso que o senhor ligou quando o irmão dele chegar.

[20:53, xx/xx/xx] Deodatos: Não espere que o irmão dele de fato chegue aí. Assim que tiver qualquer notícia relevante me ligue, principalmente quando ele estiver em condições de conversar. Dito isto, eu ainda fico no aguardo das suas desculpas formais Funske.

Desligou. Fechou o celular em mãos e levou as mãos até o próprio rosto, a dor de cabeça lhe deixando frustrado com a lembrança de todos os acontecimentos que haviam lhe trazido até aquele momento. O pai do garoto estava certo. Não deveria ter acreditado no menor e permitido que ele fizesse a prova de gastronomia junto com os outros alunos. Ele não estava bem desde o começo daquela prova. Ao que parecia, para chegar naquele ponto, ele não estava bem já há algum tempo. E ao que parecia, a família dele não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo com o garoto. Maldita havia sido a hora em que se deixou levar pela ilusão de que havia conseguido transmitir alguma ideia para a cabeça daquele rapaz. Agora ele estava ali na emergência após o choque da queimadura, havia deixado seus outros alunos aos cuidados de um de seus funcionários no bistrô, o mesmo homem que não tinha nenhuma obrigação de cuidar dos menores. Além disso, a tia dele não lhe serviria de nada, o irmão dele já havia lhe ameaçado e o pai ainda era um miserável que sequer estava no país quando o próprio filho sofreu o acidente. Precisou respirar fundo algumas vezes antes de voltar ao seu ciclo de espera, pois a noite estava longe de acabar e antes que acabasse, precisava lidar com o desgosto da família Blanco.

Renaud

O Blanco estava letárgico, embora sentisse o coração acelerado, o corpo todo parecia gelado como se o sangue não estivesse circulando rápido por todo ele, as vezes tinha essa sensação quando estava sozinho no próprio quarto - coração acelerado, mãos suadas, e frio - estava tendo uma crise de ansiedade? Devia estar a 20 centavos de ter uma. Encarou a médica com os olhos escuros, como se enxergasse através dela enquanto ela lhe explicava através de termos biológicos seu problema, entendia o que ela dizia mas não absorvia. Piscou demoradamente, e desceu o olhar para as próprias mãos desgraçadas, que doíam e mistura de queimação e frio proporcionado pelo remédio lhe deixava confuso, e torceu a expressão em uma careta pela dor incomoda, respirou fundo, sem sentir o ar lhe chegar de fato e pendeu a cabeça pra frente quase como se fosse de fato perder a consciência mas se manteve.

Se atentou apenas quando ela lhe ofereceu ajuda para levantar para que pudesse deitar, mas não queria deitar, isso indicaria que passaria mais tempo ali, e acenou negativamente.

-- eu… não quero… mas precisa? não… é…? Não me pergunte coisas… que eu não… posso decidir… -- falou num tom arrastado, baixo, quase como um murmúrio. Ergueu os braços, mas não tinha força para erguer o próprio corpo, estava exausto em tentar se manter acordado: -- eu estava na cozinha… tinha prova… passamos cozinhando… eu cortei carne e montei pratos… tudo bem até que no fim… pra fechar a cozinha… um aluno com a panela quente se descuidou… eu fui ajudar… na minha cabeça eu ia chegar a tempo de segurar direito… mas não deu … meu corpo… meu corpo parecia em câmera lenta… minha cabeça estava normal… mas meu corpo não… então eu lembro da dor… do som da panela no balcão… água chiando quente… e depois todo o resto é chegar aqui… e não desmaiar… -- Renaud tossiu um pouco, sentindo a garganta seca e a cabeça doer, estava cansado e com enxaqueca.

Richard que já tinha dado muitas voltas naquele dia naquela enfermaria, voltou em tempo de ver o ex-colega de bando tentando por os pés pelas mãos e se levantar sozinho. E se Aproximou de pronto, pedindo licença para a médica: -- Não se preocupe Arlovskaya, ele é teimoso, e as vezes não têm noção quando não consegue fazer algo sozinho. Deixe o trabalho braçal comigo. -- O ruivo segurou renaud abaixo dos braços, deixando as mãos machucadas longe da área de contato, ergueu o corpo dele com algum esforço e o acomodou na maca: -- pronto! nem foi tão difícil, exceto que você tá gordo, vamos fazer um regime não? -- brincou, enquanto organizava o soro, verificando se o sangue não tinha voltado pela movimentação do paciente.

-- Vá se ferrar Richard…!-- o Blanco resmungou, deitando a contragosto, e respirando fundo levando as costas da mão contra o rosto para aparar a luz do hospital sobre o rosto.

-- Se está reclamando nem vai ficar muito tempo por aqui. -- Richard verificou a pressão de novo após acomodar Renaud apenas para atualizar os dados na prancheta e se virou para Natália ficando de costas para o ex-colega momentâneamente e falou baixo.

-- E ai Arlovskaya, acha que pode ajudar ele sem que isso vire um bolo de papéis e perguntas? Acha que dá pra simplificar? Colocar queimou as mãos por uma dor de barriga não vai colar. -- perguntou na maior sinceridade, imaginando que a cúmplice de serviço já tinha se ligado que não era pra por no relatório tudo que realmente rolou ali.


RE: [Drive] Vicissitude [Renaud; Wilbert; Natalia; Dia; Sasha] - Lil - 08-29-2021

Dia/Sasha

Dia não desligou na cara de Wilbert apenas porque ele merecia. Na verdade, se precisava ligar para os pais dele, sabia que teria trabalho. Mesmo sendo uma Blanco, precisava marcar na agenda para falar com Deodatos, o que não fazia quase nunca. E menos ainda tinha contato com Beatrice. E a ideia de ligar para os Blanco e terminar sendo atendida por sua mãe, que se soubesse que algo aconteceu com Renaud, afundaria Wilbert na lama com a frieza de quem faria isso só por vingança pessoal não lhe agradava. Decidiu então ligar para St. Clavier ela mesma. Porque Wilbert não tinha essa competência. Só que levou mais tempo para conseguir ser atendida do que gostaria. Só depois pegou sua moto e partiu para o hospital.

Enquanto isso, Sasha só fez pegar a ficha pessoal de Renaud usando seus meios e estacionar a cadeira de rodas no pátio para que Jonah lhe levasse com emoção até o hospital. Mas nem se importava, desde que pudesse ajudar o menino. Deu um toca aqui de agradecimento para o chinês antes de empurrar a cadeira de rodas pela recepção, e, sem sucesso, tentar chamar a atenção da atendente no balcão alto. Aquela merda daquele balcão mais alto que devia sempre lhe fazendo inferno.

- Eu estou aqui por meu sobrinho, Renaud Blanco. Ele veio para a emergência com uma queimadura, acompanhando Wilbert Funske. Meu nome é Dia Blanco. Preciso vê-lo. – Dia chamou no balcão, ignorando o cadeirante do lado do balcão.

- Eu também vim ver o Renaud Blanco! – Sasha falou mais alto para chamar a atenção da atendendente, que para sua sorte, não era a que geralmente estava em seus horários de consulta.

- E o senhor é o que dele?

- Sou irmão! Sasha! – Sasha falou com muita naturalidade, também porque soubesse que se anunciasse como “amigo”, teria que esperar notícias dali mesmo.

- Você não é- - Dia voltou-se para o moreno, franzindo a testa, porém parou ao ver a expressão preocupada na cara do moreno. Renaud tinha amigos diferentes do que a classe Blanco teria. Eles pareciam mais leais. – Como você está diferente, sobrinho.

- Isso não é hora de saudosismo, tia. Tô com a ficha da escola do Renaud, informações importantes. – Sasha falou de um modo mais incisivo.

- Olha, não posso deixar que os dois entrem. Vai tumultuar lá dentro. – A atendente pediu compreensão.

- Bom, o meu sobrinho não pode ficar desacompanhado lá dentro. E ele sabe mais do Renaud que o homem que o trouxe aqui. Eu vou pedir que ele se retire da sala de emergência, já que somos parentes próximos. Ele já fez o trabalho dele. Prometo não tumultuar, senhora. – Dia falou com a polidez e a delicadeza de uma dama da sociedade.

- Bom, nesse caso...

Dia empurrou a cadeira de Sasha pelos corredores do hospital, seguindo o que parecia ser a voz mais alta conversando no telefone. Ela e Sasha ouviram um silêncio momentâneo, mas já tinha sido tempo de localizar Wilbert.

- Cheguei! Como está o menino!? Ele está sendo atendido?! – Sasha anunciou, o papel da escola em mãos. – Aqui tem os dados dele. Ainda precisam de tipo sanguíneo, essas coisas?

- Funske! Alguma notícia do Renaud? Eu liguei para a escola para avisar do acontecido. Como é que você pode ser tão devagar para fazer algo tão simples? Não sei se meu irmão e minha cunhada virão aqui tão cedo, mas é bom se preparar para abaixar a cabeça, porque eu sou muito mais compreensiva que os dois. – Dia reclamou, deixando seu suposto novo sobrinho para fazer o que tinha de fazer.

Natalia/Wilbert

A médica do hospital agradeceu pela ajuda do enfermeiro ao acomodar melhor o paciente na maca enquanto tratava de arrumar o cateter para que ele ficasse no soro. Precisava aplicar o supressor da droga que ele estava tomando ou ele corria o risco de ter um choque pela sinalização química da queimadura e os sinais vitais em alerta. Fez tudo muito rápido, com a presteza de quem estava acostumada a trabalhar em condições bem piores que aquelas que um hospital poderia lhe oferecer.

Riu baixo quando Richard lhe perguntou sobre o prontuário e apenas colocou a caixa do medicamento que havia usado em seu próprio jaleco, ocupada em verificar os sinais vitais do moreno acamado, colocando uma luz sobre a pupila dele e logo em seguida dando atenção especial às mãos dele.

- Fique tranquilo, meu bem, trate de arrumar um transporte para ele, assim que o supressor fizer efeito e o curativo das mãos estiver pronto, ele pode ir para casa. Não é como se queimaduras domésticas não fossem comum por aqui. - deu de ombros, omitindo em seu relatório o uso do supressor para os ansiolíticos e os medicamentos de receita psiquiátrica. - Ele vai ficar bem, mas eu vou precisar alterar a dosagem e a composição dos medicamentos enquanto ele estiver se recuperando das mãos. E vai precisar trocar os curativos todos os dias até a cicatrização ficar completa. Sorte que você tem um enfermeiro pessoal, heim garoto? - estendeu a mão, tocando a testa do moreno, afastando os fios escuros do rosto dele, notando que ele estava suando frio. - O processo de desintoxicação é um pouco desagradável, mas você vai se sentir melhor em… - fez uma pausa, calculando mentalmente a posologia com o tempo de ação do supressor. - … uma hora. - afastou-se do rapaz, olhando para Richard. - Fique com ele. Eu vou passar no almoxarifado e volto logo.

Passou pelo enfermeiro ruivo, trocando olhares com ele, ciente de que ele também sabia que o almoxarifado significava que ela iria subtrair medicamentos do hospital para que o garoto pudesse ser medicado fora dali assim que melhorasse. A médica deixou a ala de pronto atendimento, alterando alguns prontuários de pacientes também em atendimento rapidamente, seguindo para a farmácia com a tranquilidade de quem sabia o que estava fazendo.

[...]
Finalmente havia se sentado após falar com o pai do garoto do telefone. O pé ainda batia inquieto no chão em um tique nervoso típico. Estava com o celular do menor em mãos, a cabeça baixa e o cenho franzido em frustração por ainda estar longe de terminar aquela noite. Não conseguia parar de pensar que de todas as vezes que poderia ter feito um favor ao Blanco, naquela prova era justamente o pior momento para fazê-lo. Se tivesse proibido o garoto de fazer a prova, não estaria naquela situação.

Não teve muito tempo para pensar no que poderia ter acontecido, pois logo se fizeram presentes, vindo pelo corredor de acesso a sala de espera, a tia de Renaud e um rapaz cadeirante que, se bem lembrava, já havia visto por St. Clavier. Não precisava se esforçar muito para juntar os pontos, considerando que aquele deveria ser o tal de Sasha. Levantou-se para encontrá-los, estendendo a mão ao receber o papel com as informações de Renaud.

- O pai dele está em Paris, acabei de falar com ele no telefone. - entregou o aparelho para o cadeirante, verificando no papel que lhe foi entregue se havia alguma nova informação que não havia descoberto na carteira do garoto. Franziu o cenho com o alerta da tia do garoto sobre os pais dele, certo de que aquela família sequer fazia ideia do estado do rapaz antes dele sofrer o acidente. - Pro inferno com a família dele, Dia! Você não estava lá quando toda essa merda aconteceu, então pare de perder seu tempo me acusando de qualquer merda! - brigou com a mulher, logo voltando-se para o cadeirante, respirando fundo antes de explicar: - Eu falei com o enfermeiro que tá ajudando no atendimento dele agora a pouco. As queimaduras foram de segundo grau, ele vai ficar sem poder usar as mãos direito por algum tempo, mas vai ficar bem. Ele disse que o garoto tava desidratado e a pressão caiu, mas ele não desmaiou. Ao que parece, daqui a pouco ele vai ser transferido para a área amarela. Não precisou de transfusão, usei as informações da carteira dele. Aqui! - entregou a carteira do garoto também para o irmão dele, certo de que ninguém ainda poderia entregar na ala de urgência e emergência quando a porta se abriu novamente.

Pela passagem, surgiu uma médica, alta, cabelo preso, olhos claros e gorducha. Tal logo ela saiu para a sala de espera, uma mulher se aproximou, aflita, perguntando sobre a mãe, uma idosa que também deveria estar em atendimento.

- A mãe da senhora vai ficar bem, já tiramos o raio x e não tem nada fraturado, senhora. Daqui a pouco ela deve ser liberada para a ala verde, a pressão dela subiu, então estamos mantendo ela em observação, mas fique tranquila. - sorriu, amistosa com a mulher quando enfim notou a presença do ser alto e nervoso, acompanhado de uma morena e de um de seus pacientes sumidos. - Peyrac! Heeey, rapaz! Tá fazendo o que por aqui? O atendimento do consultório não é hoje, querido. - brincou, acenando rapidamente para o que por um instante pensou que poderiam ser os pais dele. - Vocês são pais dele? Mãe jovem a sua, heim. - apontou, tranquila, considerando que havia acabado de traficar medicamentos para um certo paciente na emergência.

Dia/Sasha

Dia certamente não esperava que Wilbert tivesse recebido uma ligação de Deodatos, justo porque ele deveria estar em Paris trabalhando. A escola certamente tinha mais contato com ele que a própria família. Mas pelo menos isso dava alguma brecha para todos se recomporem. Porém, antes que pudesse ficar aliviada, Wilbert tornou a berrar certamente as piores palavras que ele poderia dizer com a família de Renaud ali, porque ela era um Blanco.

A morena segurou a língua apenas porque Wilbert estava dando detalhes sobre Renaud ao tal Sasha, e ela também estava muito curiosa para saber, mas certamente estava furiosa com aquela resposta desnecessária do loiro. Assim que ele calou a matraca, ela o encarou seriamente.

- Estou apontando sua irresponsabilidade de não ter ligado para a escola para avisar, não lhe acusando de nada. Mas se quer saber, se você acha que mandar a família dele pro inferno porque eles estão preocupados é mais fácil, parabéns. Parabéns, seu grande imbecil. E ainda bem que eu sou só tia dele, não a mãe, não o pai. Engula seu ego. Engula sua frustração de não conseguir impedir o acidente. Engula que você errou. Engula e deixe descer. Porque você é culpado também. – Dia pontuou num tom muito sério, encarando Wilbert sem desviar o olhar uma vez. – Você espera que se você continuar gritando e se esquivando de pedir desculpas, vá mudar o que aconteceu? Não vai. Só deixa mais evidente que você prefere salvar seu rabo, e que está se lixando pro que aconteceu com o Renaud. Ah! Pro inferno com você, Funske! – Dia certamente tinha perdido qualquer vontade de lidar com Wilbert, até sacudiu as mãos para o ar antes de ir arrumar um lugar pra sentar.

Sasha não queria lidar com Wilbert, deixaria a tia dele para fazer o que precisava fazer, e ela parecia não querer mais amizade com ninguém. Era uma mulher com gênio mais forte do que a cara. Estava apenas segurando a carteira dele e guardando no bolso da calça para quando fossem pra casa. Conhecia bem aquele hospital, podia esperar ali até ter uma hora concreta dele receber alta, mas logo, surgiu um rosto conhecido da emergência.

- Doutora! Que bom ver você! Esses não são meus pais não. Estamos aqui por um garoto chamado Renaud Blanco. Aquela é a tia dele e esse é o cara que trouxe ele aqui. – apontou, sequer tendo vontade ou coragem de fazer piada e perder uma informação mais importante que as de Wilbert. – Não sei se você o viu aí na emergência. Ele queimou as mãos. Queríamos ter atualizações sobre ele, se desse. Como ele tá? Quanto tempo vao ficar? Quebra esse galho, doutora. Esse menino é muito importante pra gente.

Natalia/Wilbert

O chef rangeu os dentes ainda diante de todo o discurso da morena. Ela falava como se não estivesse preocupado com o garoto, além de lhe evidenciar o que já sabia. Tinha discernimento de que precisaria se desculpar pelo acidente, por isso ter acontecido em sua cozinha, em sua aula, sob sua supervisão. Encarou a mulher de volta, não esperando que ela entendesse sua preocupação ou sua versão dos fatos. Sabia que havia algo de errado com o garoto, por isso parou para ouvir a médica também que parecia lhe confundir com alguém da família do cadeirante.

- Olá, tudo bem? - a médica acenou brevemente, pontuando mentalmente que os três deveriam estar ali por conta do garoto que havia dado entrada há pouco tempo na emergência pelo caso de mãos queimadas. Sorriu para o cadeirante, parando para observar melhor o loiro mais alto e a morena irritadiça. - Tive que medicar ele, mas daqui a uns… - fez uma pausa, conferindo no aparelho celular o horário. - … quarenta e cinco minutos eu devo liberar ele, provavelmente. - guardou o celular, colocando as mãos nos bolsos do jaleco sobre o uniforme de atendimento da emergência. - Ele vai precisar trocar os curativos todos os dias e vai ganhar atestado para o tempo que não puder usar as mãos, mas daí vocês podem ajudar ele com isso, não é mesmo? Ah sim, e os movimentos não serão comprometidos, não pelas queimaduras. - fez questão de enfatizar, observando que o loiro alto estava usando um uniforme de chef de restaurante. - Acidente de cozinha?

- Ah… sim, senhora. - Wilbert respondeu à médica, confuso pelo ar mais relaxado da mulher ali no próprio trabalho, como se não estivesse levando o ocorrido realmente a sério. - A senhora quer dizer que ele vai ter os movimentos das mãos comprometidos? - questionou, incerto de que o caso do garoto era tão sério assim a ponto de o que fosse que ele estivesse passando, estaria colocando os reflexos dele em risco, tal como o que presenciou na cozinha.

- Talvez? Sim. Com certeza? Eu precisaria fazer novos exames com ele, mas ele está muito inquieto, vamos deixar isso para depois que ele começar a se recuperar das queimaduras. - explicou, aproximando-se devagar, observando por sobre o ombro o movimento da sala de espera antes de falar mais baixo: - Vocês, por acaso, sabem se ele tem um psiquiatra, médico ou farmacêutico conhecido que ele tenha visto esses últimos meses?

Wilbert observou os outros dois. Não fazia ideia de que tipo de acompanhamento médico o jovem Blanco deveria estar tendo nos últimos meses. Sabia que ele estava prestes a se formar e que sua disciplina era apenas uma optativa pela qual ele escolheu passar.

Dia/Sasha

Dia ficou feliz que Funske tinha decidido ficar bem quietinho em seu lugar após ouvir o que tinha a dizer. Honestamente não estava com paciência. Só deu um suspiro longo quando a médica disse que Renaud logo poderia ir embora do hospital, e notou que o tal Sasha também tinha ficado bem mais satisfeito de ouvir isso. Entretanto, tinha algo que Sasha não tinha gostado na atitude da doutora Arlovskaya. Embora concordasse que ajudaria Renaud com as ataduras, pensou que ela não tinha necessidade de dar uma indireta sobre outras condições de Renaud daquela forma. Ou ela era direta pra falar que o garoto não estava bem psicologicamente, ou ela não precisava falar em absoluto. Podia não ser o médico ali, por ora, não sabia no que isso afetava a coisa toda.

Dia cruzou os braços para ouvir a médica. Não tinha como ajudar Renaud em St. Clavier, e supunha que se ele fosse para casa, não era como se os pais dele fossem dispensar todos os compromissos para isso. Se ele fosse para a escola seria melhor para ele a longo prazo. Porém, sobre tratamento psicológico, não tinha ideia. Não era tão próxima assim de Renaud, então não sabia muito. Sacudiu a cabeça em negação. Só sabia que o tom da doutora mais baixo que o normal implicava que o que quer que ele tivesse tomando por conta de um psicólogo ou por conta própria não deveria ser bom.

Sasha franziu a testa quando a médica fez aquela pergunta ao grupo, mas depois se segurou de fazer cara feia porque sabia que Renaud não gostaria que duas pessoas estranhas a ele soubessem o que ele andava passando. Era melhor se fazer de desentendido e dar um jeito pra doutora falar direto com o doutor lá de St. Clavier, e não com os pais de Renaud, que provavelmente nem sabiam de nada, e Renaud provavelmente não queria que soubessem.

- Ah, doutora. Eu trouxe a ficha dele da escola pra ver se ajudava. Diz que ele faz atendimento psicológico compulsório desde o primeiro ano de St. Clavier, por indicação dos pais. Aqui tem o nome dos médicos. O último é o atual psicólogo da academia. Esse tipo de informação é melhor se você conversar direto com alguém que saca dessas coisas de medicina, não? – Sasha falou, apontando na ficha que tinha nas mãos as informações que a doutora Arlovskaya precisava. – Espero que a ficha ajude. Eu tô aqui só pra cuidar do Renaud, então já tô bem feliz de saber que ele vai poder ser liberado em... – pegou o celular do bolso, apertando no botão para acender a tela. - ... quarenta e dois minutos? – abriu um sorriso amarelo. – A gente vai poder vê-lo até lá? Ou só ficar esperando?

- Ah, doutora. E posso dispensar o professor dele que o trouxe até aqui? Suponho que ele tenha outros alunos para cuidar e apaziguar depois desse incidente. Já tem um membro da família aqui, então suponho que ele possa ir? – Dia perguntou, não necessariamente porque queria se livrar de Wilbert, mas porque ele em nada contribuiria além de ser um grande monolito mal humorado.

Renaud

Havia algo errado, certamente tinha, que tinha se machucado de forma mais severa, já tinha percebido, e que não era do mesmo jeito com o qual já esteve desgraçadamente machucado na rua, mas de uma forma que lhe impossibilitava de cuidar de si mesmo sozinho. Está no hospital em nada lhe ajudava a acalmar-se, e depois que Richard se afastou com a promessa de que pediria sua transferência para a zona amarela por estar melhor em nada lhe ajudou. Pois ser transferido de uma área para a outra, ainda queria dizer que passaria mais tempo naquele lugar e isso só lhe deixava mais inquieto.

E estava começando a se perguntar de onde vinha toda aquela sensação de peso, e queimação ao tentar respirar, não tinha nenhum tipo de alergia, bem sabia, mas estava começando a ficar cada vez mais incomodado ficar naquele lugar, vendo pessoas estranhas passando perto de si, enquanto estava completamente vulnerável e se sentindo exposto:

-- Hrghh-hhh…! -- Gemeu baixo, não porque as mãos estivessem doendo, porque aquela altura a dor já nem era mais captada, provavelmente o analgésico fazendo seu trabalho, em contrapartida, estava cada vez mais inquieto, queria sair daquele lugar, queria poder ficar em pé e se carregar sozinho, mas quando puxava o ar, não sentia ele entrar, e isso lhe dava a noção de que estava tão fraco que mal conseguia puxar o ar.

O nervosismo tomou conta de seu corpo de tal forma, que arregalou os olhos escuros observando o entorno, buscando qualquer rosto conhecido, abriu e fechou a boca tentando verbalizar qualquer coisa que não saiu, cerrou os dentes e levou as costas da mão contra o peito, a passagem do soro sendo erguida. O peito estava tão pesado que era difícil respirar, sentiu o estômago oco, e o corpo ser tomado por frio, dos pés as mãos.

A inquietude do Blanco na maca finalmente chamou a atenção de um dos enfermeiros que rapidamente acionou Richard que estava responsável pela maca, quando os dois se aproximaram para falar com o moreno mais novo:

-- Renaud? Você está me ouvindo? -- o ruivo encarou o ex-colega de bando com semblante atento as reações do mesmo. Renaud apenas conseguiu acenar negativamente como resposta, desviando o olhar em seguida.

O ruivo mudou o moreno acamado de posição com ajuda do outro enfermeiro de plantão, principalmente para retornar o braço do soro a posição já que o sangue já estava voltando pela mangueira, e ajustou a cabeça do mesmo para melhorar a respiração, notando que ele estava transpirando em excesso.

Por mais que Renaud tentasse ajudar a si mesmo, ouvia as vozes muito distantes e a ideia de não estar conseguindo se mexer e estar prestes a desmaiar, lhe causou pânico de tal forma que o corpo reagiu em espasmos, tremendo e retesando os músculos de forma involuntária. Richard mediu a pressão no pulso do Blanco, fazendo uma expressão alarmada:

-- Ele deve tá tendo uma crise de ansiedade, a pressão tá caindo muito rápido, ele vai acabar desmaiando, chame a Doutora Arlovskaya aqui.

Wilbert/Natalia

O chef franziu o cenho para a morena assim que ela falou com a médica rechonchuda para poder lhe dispensar dali. Contudo, ainda tinha de fato que cuidar da burocracia com a escola e ligar para seu advogado. A dor de cabeça só aumentava conforme pensava no que ainda precisava fazer para resolver sua situação ali. Observou enquanto a doutora não parecia preocupada em responder a morena, mais atenta a ficha que lhe foi entregue pelo cadeirante e resolveu tomar a iniciativa para poder resolver as outras questões que envolviam aquele problema. Esperava que pelo menos agora, próximo do tal irmão dele, o rapaz Blanco ficasse melhor. No fundo, tinha um péssimo pressentimento sobre o quer que fosse resultar daquele acidente em sua cozinha.

- Eu vou sair para resolver a situação com os outros alunos e a escola. - avisou, se dirigindo a Dia. De fato, ainda parecia mal humorado, mas quando não estava? O cenho franzido não escondia seu desconforto, mas ainda estava inquieto por saber que o garoto ainda estava no hospital, agora com a suposta família dele que deveria se preocupar com ele. - Me avise se alguma coisa acontecer… quando ele conseguir sair daqui… - falou, o tom natural de irritação na voz. Contudo, pensou duas vezes por um instante. - … por favor. - adicionou ao seu pedido, escolhendo ser educado por um momento, pois dependia da boa vontade da tia dele para saber o estado do garoto depois que fosse embora dali.

Sem mais delongas, partiu pouco antes da médica terminar de verificar a ficha guia com as informações sobre seu jovem paciente. Natalia fez um sinal para que o cadeirante ficasse quieto enquanto encarava os dados pensativa, concluindo que o garoto deveria estar tomando medicamentos adequados, mas que devido a alguma prática secundária e a falta de supervisão de outras variáveis, ele havia sofrido o acidente e ficado em estado de alerta.

- Ah, sim, não se preocupem, ele vai se recuperar e logo logo vão poder--

A médica nem teve tempo de terminar a sentença quando seu beep apitou e avistou um dos enfermeiros vindo pelo corredor que dava acesso à ala de onde havia saído. Franziu o cenho, dobrando a ficha com as informações em mãos e guardando o documento por dentro da roupa de atendimento.

- Eu volto já! Só um minuto! - pediu, apressando-se para a porta dupla com duas pequenas janelas de vidro que permitiam aos familiares dos pacientes assistir parte do que acontecia naquela ala, tal como ver a médica correr ao encontro de um dos enfermeiros de plantão para ser notificada do paciente em particular. - Ah, merda!

Deixou escapar, correndo para a sessão em que havia deixado o moreno, acabando por encontrar Richard tentando tranquilizá-lo. Aproximou-se rapidamente, colocando as mãos no rosto do moreno para verificar a pupila, a coloração da mucosa e logo depois os sinais vitais.

- Calma, meu bem, já vai ficar tudo bem! Respire fundo, sua família já está aí pra te ver! - sorriu, apesar de concentrada no trabalho. Encarou Richard e apontou na direção da farmácia do setor. - Eu preciso de uma nova solução em soro com minerais, a queimadura e o choque devem ter derrubado a pressão dele. - segurou a mão do garoto, colocando a outra mão sobre os olhos dele, mas sem tocá-los, impedindo que a luz do ambiente incidisse diretamente sobre as pupilas dele já que pessoas em quadros de hipotensão possuem irritabilidade a luz. - Hey, o que foi que eu falei sobre respirar, heim? Sua tia e seu irmão já estão aí! Vai querer desmaiar antes de encontrar com eles? Respire fundo pro sangue circular, garoto. - apertou a mão dele, esperando uma resposta. - Eu não sabia que era irmão do Peyrac. Mais novo, não é? - continuou falando para ele não perder o foco e achar que estava sozinho até o enfermeiro retornar com o medicamento que havia pedido, substituindo o soro que deveria ajudar ele a recuperar a pressão sanguínea arterial e não desmaiar.

Foi sua vez de respirar fundo, mais tranquila pela mudança do soro antes de se voltar mais uma vez para o enfermeiro, soltando a mão do garoto para poder acenar e chamar Richard para mais perto. Retirou o documento do decote e entregou para o ruivo, encarando-o séria.

- Se livre desse documento e arrume a maca, vamos levar ele para a ala amarela. No quarto, ele vai ficar mais confortável e vamos precisar esperar mais um ciclo para verificar se o quadro dele não sofre nenhuma nova surpresa. - informou, fechando e abrindo a mão, ciente da pressão dos músculos do corpo aparentemente magro do moreno acamado.

Dia/Sasha

O tom irritado de Wilbert enquanto concordava com a sugestão de Dia teria deixado a morena bem irritada, não fosse ele ter um súbito ataque de sensatez e pedir para que ela avisasse sobre Renaud... por favor.

- Eu aviso, Funske. – Dia respondeu um pouco menos irritada com o loiro, erguendo as sobrancelhas para ele. – Obrigada por cuidar dele até agora.

A Blanco não acrescentou mais nada, apenas vendo o tal Peyrac conversar com a doutora sobre a ficha médica de Renaud. Certamente que Dia não conhecia aquele “irmão”, mas bem que poderia aproveitar para questionar essa invenção do cadeirante para entrar na ala da emergência. Já Sasha só queria mesmo que a doutora parasse de ser invasiva e fosse fazer o próprio trabalho, e de certa forma, ficou aliviado que por ora, eram só as informações que ela queria saber.

Só que de repente, a médica foi chamada e saiu às pressas de volta para a emergência. Sasha franziu a testa:
- Ei, doutora, é algo a ver com o me-! – tentou perguntar, mas a pressa dela era maior do que a vontade de responder sua pergunta.

Dia aproximou-se de Sasha, colocando a mão no ombro dele brevemente e indo até a porta por onde Natalia tinha saído, observando a médica pela janela enquanto ela falava com os enfermeiros, pois sabia que Sasha não poderia ver nada do ângulo em que estava. Nada aconteceu no corredor, exceto talvez um médico indo buscar alguns remédios as pressas. Demorou algum tempo até que visse uma maca chegar, e Renaud sair nela. Dia então afastou-se daquela saída lembrando que talvez estaria atrapalhando alguém, e então se aproximou de Sasha.

- E aí?! Era com o Renaud? O que você viu? – Sasha perguntou com um ar levemente ansioso de quem tinha se segurado para perguntar tudo de uma vez.

- Vamos sair do caminho, “sobrinho”. Estamos atrapalhando o corredor da emergência. A doutora deve voltar em breve. – Dia respondeu, indo se acomodar em uma das cadeiras da espera. Não podiam fazer nada se não esperar.

Renaud

A sensação de peso sobre o corpo era tal qual, que o ar que entrava parecia arder nas vias ressecadas, o estômago se revirava de tal forma que se tivesse algo ali, certamente já teria posto pra fora. O movimento exagerado do peito subindo e descendo só deixava mais evidente o estado nervoso em que Renaud se encontrava ali. E embora Richard fosse uma voz conhecida no meio daquele mundo branco de estranhos, ainda assim, não conseguia sentir segurança sobre nada no estado debilitado que estava. E antes que o jovem pudesse se acostumar com a nova posição do corpo, sentiu a mão de uma pessoa vir em sua direção, e lhe encostar na altura do rosto e da mão que protegia seu peito.

A reação imediata foi de erguer o torso do corpo, jogando-o para frente e impedindo que a pessoa estranha encostasse em si, o movimento com os braços fez o soro ser jogado ao chão, e instaurasse uma pequena confusão ali. Mas antes que pudesse de fato, se defender, sentiu o empurrão na altura do peito, e a mão que ia avançar contra a médica ser detida:

-- O Frater tá aqui!! -- o ruivo pontuou, seco e rápido, encarando o moreno acamado nos olhos, esperando a reação do mesmo ao nome. E como se tivesse sido sedado, a reação do jovem Blanco se aquietou.

Em seguida, Richard puxou os biombos separadores de leitos, usados quando um paciente está passando por algum procedimento mais delicado ou exposto. Logo mais, não foi difícil continuar com os demais procedimentos foram aplicados, o soro trocado, o medicamento administrado, e em poucos minutos. O Blanco espiou para a médica quando ela lhe perguntou se era o irmão mais novo, e apenas acenou positivamente concordando com ela, e então o jovem Blanco balbuciou a frase em tom baixo: -- Eu… só quero… ir embora…!

Richard se afastou junto com a médica, quando ela lhe passou a ficha com as informações de Renaud, o ruivo apenas acenou positivamente: -- Valeu Nat, tô lhe devendo por duas vidas;

Em seguida os biombos foram retirados e Richard pediu ajuda a outras enfermeiros para fazer a transferência do jovem Blanco para um leito na área azul. Na zona azul diferente dos leitos fechados em quarto de internação o que dividia as seções eram cortinas, ao lado da maca apenas uma poltrona, atrás e no lado oposto da maca, espaço para que os equipamentos do hospital ficassem alocados. E embora estivesse acordado, Renaud se mantinha consciente por muito pouco, estava exausto, dolorido, e respirar ainda doía, e toda aquela movimentação e medicamentos interferiam com sua noção de tempo, nem sabia a quanto tempo estava no hospital, e por consequência, nem quanto tempo faltava para que pudesse sair.

Mas agora poderia receber visitas, e talvez isso lhe deixasse menos incomodado com todo aquele branco interminável que o hospital lhe parecia.

Dia/Sasha

Dia e Sasha mal conversaram no ínterim em que Renaud era ajudado e locomovido. Embora Sasha parecesse calma, ele estava muito preocupado. E embora Dia parecesse menos preocupada, o que ela tinha era compreensão de que hospitais não eram passagens rápidas. Os dois trocaram algumas palavras sobre como eram, idade, profissão, mas ao fim, não era como se o interesse fosse de fato a conversa fiada.

Esperaram que a doutora voltasse, mas ao invés disso, veio uma enfermeira informar que Renaud havia mudado de local e que agora poderia receber visitas. Sasha empurrou a cadeira prontamente, sendo seguido por Dia até que chegaram na ala azul. Passaram os dois por diversas cortinas, até chegar na maca onde Renaud estava. Dia suspirou longamente ao ver que ele estava acordado, mas Sasha não hesitou em aproximar a cadeira.

- Ei, menino. Que susto para um dia tão sem graça, hm? – Sasha falou, estendendo a mão para tocar o braço de Renaud, cuidando para não fazer isso sem que Renaud soubesse que estava ali, afinal, a última coisa que precisava era ele tomando um susto. Supunha que ele não gostasse do ambiente em geral. Também não era do seus favoritos. – Como está?

- Oi, Renaud. Também vim lhe ver. Fico feliz que já foi atendido. – Dia anunciou a chegada, aproximando-se apenas um pouco.

Natalia

Achou surpreendente a forma como o garoto que nem era tão garoto assim reagir daquela maneira, desvencilhando-se do seu toque. Não sabia dizer se o problema dele era com médicos ou com o toque humano, ainda que não tivesse um pingo de segundas intenções ali com seus pacientes. Levava seu trabalho a sério quando se tratava do bem estar deles.

Olhou rapidamente para Richard com as sobrancelhas arqueadas como se sinalizasse a surpresa e ao mesmo tempo o alívio por ele ter segurado o garoto, falando sobre um tal de “frater” que logo imaginou que deveria ser o tal Peyrac. Não julgou o linguajar alheio. Ele não tinha cara de ser alemão, talvez tivesse algum tipo de ligação emocional com a língua - não importava naquele momento, então apenas se ateve aos procedimentos médicos.

- Calma, garoto. Já já você vai para casa! - avisou, voltando o olhar mais uma vez de forma breve para Richard, sorrindo amigável quando ele disse que estava lhe devendo por duas vidas. Assim que terminou de fazer as aplicações e conferir os sinais vitais do moreno acamado, voltou-se para o enfermeiro, batendo-lhe no ombro para puxá-lo rapidamente e explicar a situação sobre o que faria a respeito do prontuário e do quadro do rapaz. Não entrou em detalhes sobre o sumiço das informações, duvidava que qualquer um de seus colegas de profissão se preocuparia com um detalhe tão pequeno no diagnóstico da causa do choque de um jovem rapaz com aquele.

Liberou o menor para a zona azul e deixou a prescrição para os medicamentos que Richard deveria buscar na farmácia para o rapaz em breve, obviamente certificando-se de que ele se livraria daquelas receitas depois. Teria tempo depois para pensar melhor no quadro do jovem homem acamado, talvez trocar algumas palavras com Richard sobre o quadro de medicamentos que o outro estava tomando, mas não agora. Havia outros pacientes que precisavam de sua atenção e de certo que ficar apenas de olho em Renaud Blanco só atrairia mais atenção para o quadro de uma simples queimadura. Então apenas se despediu antes que ele pudesse receber de fato as visitas no quarto da zona de observação.

Renaud

Após alguns instantes, logo a medicação começou a fazer efeito, e o corpo todo que antes ardia e parecia febril, agora estava lento, como se estivesse boiando sobre água, a visão estava turva como se de fato, tivessem jogado água em seus olhos. A chegada de pessoas a sala lhe deixou mais alerta, embora estivesse com a percepção toda bagunçada, como não se sentia seguro, não conseguia relaxar e deixar apenas o soro rodar. E isso ficava bem evidente, na expressão do jovem Blanco, que parecia apreensiva e tensa, porém, tão logo ouviu a voz de Sasha e reconheceu que era ele ali, aliviou o rosto e o encarou quando ele lhe falou: -- Quero sair daqui… -- comentou em tom baixo, e até desgostoso.

No entanto, a maior surpresa veio da presença de sua tia naquele lugar, ergueu o olhar para a mulher, e franziu as sobrancelhas e estranheza real, sequer fez qualquer menção de tentar ser sutil em demonstrar surpresa: -- oi Dia… erh… que bom que veio… eu não esperava que viesse, digo… eu não esperava vir parar em um hospital pra começo de conversa…

Levou as costas da mão até o rosto, fazendo uma careta e expondo as queimaduras na palma da mão, engoliu em seco, sentindo a boca amarga, e dor de cabeça além de tontura e leve enjôo: -- E se eu não estiver fazendo sentido é culpa dos remédios… -- reclamou, embora fosse bem notório que apesar de estar mais conversador, naquele momento o rapaz estava afetado pelos analgésicos. A respiração era descompassada e parecia sofrida, e o jovem Blanco piscava longamente, como se quisesse se manter mais acordado, mas sua noção de tempo e espaço estavam adulteradas. E em meio aos pensamentos que lhe corriam um pouco desnorteados, pensou que estava faltando alguém ali, olhou de um para o outro sentindo falta da figura loira ali, então pensou em puxar o próprio celular, mas sem qualquer destreza e com as mãos machucadas não daria certo. Tornou a encarar Sasha levando a costa da mão as dele: -- alguém avisou ao Didier que eu estou aqui...?

Com o soro recém colocado, era notório que tomariam um chá de cadeira de pelo menos uma hora, não era o que nenhum deles gostaria, mas ao menos, era uma sensação estranha, estar acompanhado no Hospital dos seus dos tipos de família, a que não escolheu nascer, e a que escolheu crescer. A alguns dias sequer teria imaginado que poderia ter qualquer suporte de sua família em qualquer um de seus problemas, e fosse karma, ou qualquer bobagem dessas, estava naquele momento, pagando a língua.

Dia/Sasha

Dia não tinha proximidade o suficiente com Renaud para saber como ele se comportava além dos trejeitos de menino da alta sociedade que toda sua família carregava. Então vê-lo falar algo tão mimado e vulnerável apenas por perceber a presença do cadeirante ali lhe deixou um tanto surpresa. Só assim tinha certeza enfim que os dois tinham um relacionamento próximo, e isso lhe deixou mais feliz pela decisão de se unir ao outro.

Sasha tocou devagar o braço de Renaud, para reafirmar sua presença, mas também para impedir que ele mexesse demais o braço que estava com o soro. Mas não segurou com força.
- Vai sair logo. E eu vou ficar com você até lá. – Sasha reafirmou. Sabia que a experiência de hospitais podia ser bem desgostosa, e para Renaud em especial.

O moreno olhou para a tia de Renaud quando ele pareceu surpreso com a presença dela ali. Pelo jeito a família dele não era o tipo próximo. Mas ela não parecia uma pessoa ruim. Requintada, talvez, mas não... fresca?

- Ninguém esperava estar aqui hoje. Mas ainda bem que o seu professor idiota ligou para mim. Estava preocupada, mas você já está medicado. Vai melhorar em breve. – ela falou calmamente, tentando ser otimista assim como o outro rapaz ali. – Se quiser ficar no meu apartamento quando for liberado, pode vir. Vai ficar um pouco complicado no dormitório, eu suponho.

Sasha só notou que tinha que avisar Didier porque Renaud mencionou isso. Apertou os lábios, mas evitou girar os olhos na frente dele. Sabia que ele precisava da presença do loiro.

- Não deu tempo, menino. Quem me contou que você tava aqui foi o Jonah. O seu professor pegou carona com ele por coincidência. – Sasha explicou, supondo que sobraria para ele ter que ligar pro loiro. – Mas tem chances dele saber. Quando os alunos chegarem espalhando a fofoca do que aconteceu com você, estou vendo ele entrando aqui e fazendo barraco pra lhe ver. – brincou, rindo um pouco para tentar descontrair Renaud.

- Quer que eu avise esse Didier? Se me der o número, eu posso ligar. – Dia comentou, arqueando a sobrancelha para a parte de fazer barraco.

- Oh, todo seu, ma cher. – Sasha falou, entregando a Dia seu celular e o número de Didier, que não usava para absolutamente nada, mas que tinha porque obrigações como conselho disciplinar. Assim certamente não teria que falar com o loiro até segunda ordem. – Ah, e... se puder ligar do seu... estou sem créditos. – deu um sorriso amarelo. Assim, caso Didier não tivesse seu número, evitava dele registrar.


Renaud

Por mais que quisesse ficar plenamente alerta ao que os dois falavam consigo, existia um tempo de delay entre a fala e a percepção do jovem Blanco do que tinha sido falado, talvez por isso suas expressões ficavam bem mais evidentes do que o rosto de traços comuns normalmente deixaria transparecer. E obviamente não esperava um convite da tia para ir dormir no apartamento dela, e enquanto processava a oferta, ouviu toda a troca de conversa sobre quem ligaria para Didier e sobre a possibilidade dele fazer um barraco no hospital. O moreno mais novo levou as costas da mão livre do soro, de volta ao rosto cobrindo a boca momentaneamente, antes de voltar a encarar a tia com a cara de surpresa bem notória:

-- Eu… eu nem sei o que dizer Dia… -- fez uma pausa, enquanto desviava o olhar na direção de Sasha e depois novamente para a tia: -- Admito que estou surpreso… eu não esperava que viesse aqui, muito menos que me ofereceria abrigo no seu apartamento… é muito mais do que eu esperaria em uma vida inteira… e eu me sinto estranho… desculpe por isso… não quero lhe ofender…-- o mais novo tentou organizar os pensamentos, naquele momento percebendo que estava difícil pensar e falar as coisas sem deixar escapar coisas demais: -- Mas eu não conseguiria descansar estando no seu apartamento, eu ficaria com a sensação de que estou lhe incomodando, sendo um estovo, e eu realmente não quero isso nem pra mim… e nem pra você… -- aquela altura nem sabia se já tinha feito um estrago muito grande, e sido completamente desrespeitoso, mas também não iria mentir, em sair de uma situação estressante para outra, onde teria de ficar se contendo pra não incomodar na casa da tia, aquilo era fora de cogitação, precisava descansar e só conseguia fazer isso nos dormitórios:

-- A verdade é que eu estou tão acostumado aos dormitórios, que é estranho pensar que eu tenho outros lugares pra ir, que não seja lá… eu agradeço a oferta… de verdade… mas vou negar dessa vez… quando eu estiver melhor, você pode me convidar novamente… então irei com certeza. -- tentou ser o mais honesto possível, mesmo que parecesse pouco educado, porque era o que podia oferecer em retribuição a preocupação de sua tia, honestidade sobre como estava se sentindo naquele momento de internação:

-- E só avise ao Didier que eu estou aqui, que eu estou bem, e peça, por favor, pra ele esperar se possível, e que assim que eu puder eu falo com ele… -- o Blanco virou-se na direção de Sasha encarando o moreno de perto: -- Desculpe fazer vocês virem aqui, por minha causa… eu vou ficar bem… -- levou a mão com o soro para próximo da mão de Sasha, encostando as costas da mão, já que não podia segura-lo com a palma da mão danificada da queimadura, foi em busca de apoio, porque no meio daquilo tudo, se sentia um puta ingrato, e mimado, mas também, se sentia tão exposto e vulnerável, que só podia ser direto com as pessoas ali.

Queria ir pra casa, e para ele, ir pra casa era ir pra os dormitórios, onde ficaria perto das pessoas que mais confiava, e embora agora soubesse que podia depositar vinte centavos de confiança na tia, ainda era muito cedo, pra por nela responsabilidades sobre si, que de fato, não eram obrigações dela. Os analgésicos deixaram Renaud com a sensação de flutuação, e embora o moreno mais novo quisesse se manter conversando, ele ia e voltava no nível de atenção a conversa, e tão logo o soro terminasse e o efeito do remédio ficasse mais suave, seria hora de ser liberado de volta aos dormitórios.

Dia/Sasha

Dia até podia ficar feliz que sua presença surpreendia tanto Renaud naquele estado. Porque agora sim conseguia se relacionar com o sobrinho de alguma forma. Conhecia a família Blanco em que o pai dele tinha sido criado, e Deodatos era bem um filho dos Blanco. Mas sabia, por também ser um tipo de ovelha negra, que havia algum tipo de calor que lhe permitia sentir empatia pelo garoto, tentando ser tão formal para falar com alguém que não tinha sequer cinco anos a mais que ele e que era família. Renaud precisava perceber que já tinha abdicado daquele nojo de distância que os modos dos Blanco mandavam há tempos.

Fazia melhor assim, e faria melhor para ele também, afinal, já esteve em uma posição parecida com a do moreno.

Dia riu, e então, deixou de pegar o número de celular apenas para dar um pouco de atenção à Renaud.

- Renaud, deixe de ser bobo. Não vou ficar ofendida porque está surpreso que quero lhe ajudar. Somos parentes, mas não somos tão próximos. – ela comentou, devagar e com cuidado, levando os dedos delicados até a testa do garoto, afastando a franja dele para os lados. – Mas abra os olhos. Eu estou aqui. E vou ficar ofendida sim se você se surpreender com meu convite para ir lá em casa quando estiver bem. E traga cerveja, eu gosto.

Sasha olhou para a mulher enquanto ela saía para falar com Didier do corredor, para não agitar Renaud mais do que as visitas já estavam. O moreno olhou para Renaud quando ele encostou a mão daquele jeito e se aproximou, ouvindo aquela conversa de que ele se desculpava.

- Ah, relaxa, menino. Não se desculpe, nada aqui é culpa sua. Mas se quiser agradecer, eu aceito de bom grado. – falou, ficando ali ao lado de Renaud enquanto os analgésicos pesados faziam efeito. – Ah, e se ela for solteira, aceito o número, viu? – sorriu amarelo, brincando um pouco para tentar relaxar Renaud.

Não seria tanto tempo quanto esperava para ser liberado. Mas podia dizer que independente do jeito que fosse, Didier veria Renaud, pela expressão de frustração de Dia enquanto ela tentava conversar no telefone, ocasionalmente afastando o celular da orelha. Ainda bem que não tinha sido ele a ligar.

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