[Drive] The Boyfriend Shirt [Hanna; Diodoro]
#1
Hanna

No último fim de semana tinha saído para achar uma diversão diferente e acabou, estranhamente, na funerária irritando Diodoro com seus cigarros e suas insinuações que tinham deixado o agente mais desconcertado do que tinha imaginado. Era engraçado lidar com ele, ele era tão diferente de todas as pessoas com quem costumava sair, fosse em Limoges-Collet, fosse nas boates noturnas, que era uma mudança de ares que gostava. O moreno tinha entrado, ironicamente, na sua lista de pessoas interessantes, e já estava tão cheia de encontrar sempre as mesmas personalidades que tentar desvendar o que ele falava pela metade lhe era uma boa distração.

Na noite de sexta precisou sair para entregar um dos seus programas a um cliente novo. Vestiu uma calça preta justa, saltos altos e uma camisa branca com um blazer branco por cima. Havia aquela chance de acabar saindo de lá machucada e sem algumas peças de roupa, mas o encontro de negócios foi surpreendentemente tranquilo e sem muitos empecilhos. Recebeu o pagamento por transação online e antes mesmo de meia-noite, já estava livre para fazer como bem entendia. E como bem entendia, estava com vontade de não voltar para Limoges-Collet e ainda faltar as suas atividades do Conselho Estudantil na manhã seguinte. Foi com esse propósito em mente que seguiu o caminho conhecido até a funerária, para irritar o seu novo amigo e quem sabe cobrar aquela pizza e filme que ele tinha sugerido antes de se resolver com o namorado perigoso?

Mas a sua ida até a funerária não foi muito produtiva. A iluminação através das portas de vidro estava baixa e não havia ninguém no balcão. Ainda bateu algumas vezes na porta, quem sabe Diodoro estivesse lá nos fundos como ele disse que costumava fazer. Não recebeu resposta e acendeu um cigarro, imaginando que talvez ele aparecesse só para apagá-lo. Ainda esperou alguns minutos ali, na rua pouco movimentada, como um alvo muito fácil para qualquer ladrão ou malandro, mas já estava tão acostumada que não se importou. Pegou o celular depois de alguns instantes, encostada à porta de vidro, para fazer umas pesquisas com os programas de bancos de dados que já estava acostumada a usar. Fez uma busca rápida que não durou mais do que dois minutos até conseguir um endereço. Chamou um táxi, com um sorriso satisfeito, seguindo até um complexo de apartamentos muito pouco movimentado àquela hora da noite. Procurou o andar e o número, parando diante da porta com algumas batidas leves e insistente, para ser atendida alguns longos minutos depois. Sorriu amplamente com a presença do agente funerário, ainda nas mesmas roupas pretas e o curativo chamativo no rosto.

- Vim cobrar o filme e a pizza. - anunciou, sem ao menos dar chance dele negar a sua entrada e invadindo o apartamento pequeno, intrusiva. - Seu namorado não está em casa, está?


Diodoro

Diodoro suspirou longamente, sozinho no apartamento com o gato no colo. A última semana tinha sido completamente irreal. Seu rosto foi cortado por ter sido pego em um estranhamento entre irmãos, um deles cujo nome nem sabia, e dias depois ele tinha retornado a funerária para tirar uma bala do corpo. Foi obrigado a chamar a médica Natalia e expulsar Hanna da funerária em uma bagunça tão grande que nem mesmo conseguia organizar os fatos quando pensava nos mesmos. Miro miou porque tinha parado de afagá-lo e desceu do sofá, deixando o moreno para pensar sozinho.

Levantou-se para esquentar um sanduíche congelado que tinha comprado havia algum tempo e colocar a comida do bichano. Ainda não tinha nem mesmo tirado as roupas que tinha usado para ir trabalhar naquele dia, a exceção da gravata, que já tinha dobrado cuidadosamente e colocado temporariamente sobre a mesinha de centro de frente ao sofá. A casa ainda estava arrumada, mas não duvidava que se deixasse a gravata fora de lugar por muito tempo, acabaria sentindo o impulso de limpar.

Enquanto o sanduíche esquentava, aproveitou para ligar a televisão e averiguar se tinha algum filme interessante passando, deixando o volume muito baixo em um filme de drama nacional sabendo que em breve ele iria acabar e algo novo começaria na programação. Olhou para a cozinha para ver o tempo do microondas, pensando em andar até lá e fazer algo para beber também, mas ao invés disso, foi surpreendido pela campainha.

Arqueou a sobrancelha, se perguntando quem lhe visitaria aquela hora, bem sabendo que não seriam seus familiares. Seria...? Bom, só descobriria se abrisse. Foi até a porta e destrancou, dando de cara não com um Leoni, nem com Karen, tampouco com algum vizinho, e sim... com Hanna. Franziu visivelmente a testa para ela, tão surpreso que sequer impediu ela de entrar.

Colocou a cabeça pelo lado de fora, olhando todos os lados do corredor, pensando se talvez ela tivesse seguido Karen até ali. Era estranho que ela fosse sozinha. Só depois de verificar que virou para a garota, os olhos claros demonstrando confusão.

- Ele não... grr. Como? – perguntou, antes de mais nada, mastigando a irritação por ela passar a sua surpresa facilmente. – Eu disse...? – apontou para o chão, imaginando ela deveria ter um bom motivo para saber onde ele morava.

Hanna

Hanna se divertiu com a expressão exasperada de Diodoro, ele parecia realmente confuso com o jeito como tinha descoberto onde ele morava. Será que estava pensando que o namorado dele tinha lhe levado até ali? Até queria ter a oportunidade de falar com o gigante de cicatriz, mas não em todas as vezes em que tinham se visto e ele tinha aquela expressão de poucos amigos.

- Está com uma cara irritada. Não posso entrar, Diodoro? - perguntou com uma expressão de falsa decepção, seguindo na direção da porta como se fosse sair do apartamento. - Desculpe chegar sem avisar, estava esperando seu namorado?

Não saiu como havia proposto, deu meia volta de novo e seguiu até o sofá pequeno na sala, acomodando-se mesmo sem ser convidada. Apoiou os dedos no queixo, sorrindo satisfeita por prolongar a resposta sobre a confusão dele.

- Você não é lá uma pessoa que precisa se esconder, Diodoro. Só um programa de busca básico e eu achei tudo o que precisava. Até o número da sua conta. Não se preocupe, não vou tirar dinheiro de você, além do necessário pra pagar a pizza. - ela disse, fazendo-se bem confortável na casa alheia. - Então? Pizza? Ou essa cicatriz no seu rosto ainda está deixando a comida difícil de digerir? Posso dar um beijo pra sarar, se quiser.


Diodoro

Nem iria se repetir sobre Karen ser seu namorado, pois já bem entendia que ela estava falando aquilo para lhe provocar. Aliás, o que Hanna não estava falando para lhe provocar? Ainda estava tentando processar como ela tinha encontrado seu endereço, tanto que sequer fez questão de ir atrás dela quando a morena ameaçou ir embora dali de seu apartamento, diante da recepção pouco calorosa. Coçou a cabeça com mais insistência do que geralmente fazia, ainda com aquela pulga atrás da orelha.
As sobrancelhas curvaram-se para a frente de irritação quando ela disse que tinha bastado uma busca em um programa para lhe achar. Seu endereço estava na internet? E a conta do banco? Mas nem usava o computador direito, como era que ela conseguia achar todas aquelas informações assim?

- A conta...?! É possível...? – reclamou, escandalizado com a possibilidade de qualquer zé ruela colocar seu nome em um buscador e achar todas essas informações sobre si. Sacudiu a cabeça negativamente para a oferta dela de um beijo para sarar. Talvez fosse mais negócio se concentrar no que entendia, e o que entendia era que Hanna estava ali devido aquela proposta boba de filme e pizza que tinha feito naquele dia da funerária. Nem esperava que ela lembrasse do fato. – Não... bom. – respirou fundo, então aproximando-se dela, observando-a muito confortável no sofá, supondo que quando encontrava com pessoas como ela ou Natalia, não lhe restava muita opção senão se acalmar e tentar viver sua vida a despeito dos inconvenientes. – Vai mesmo...? Filme e pizza...? Não é graça?

Bom, podia de fato jantar uma pizza junto com o hamburguer que costumava comer. Na verdade, supunha que seria um pouco melhor porque ao menos a comida era fresca. Ainda precisava de um banho, mas podia pular até que ela decidisse ir embora dali. Aliás, se fosse, considerando que já era quase meia noite. Hanna dormiria ali?

- Está fugindo? Você estuda...? – questionou porque Hanna parecia ter uma vida intensa de baladas que para ele não exatamente casavam com uma garota bater meia noite na porta de uma pessoa.

Hanna

Hanna teve vontade de rir quando ele fez uma expressão completamente abismada com o fato de que ela tinha descoberto até o número da conta dele. Será que devia dizer que podia conseguir até a senha, se quisesse? Não, melhor deixá-lo achando que estava um pouco mais seguro.

- Eu sou muito boa com computadores. Quando você desistir de usar fichas pros seus clientes, me avise, posso fazer um banco de dados pra você de graça pelas vezes que já me ajudou. - respondeu, sorrindo arteira e bem acomodada no sofá com as pernas cruzadas.

Ao menos ele não tirou o convite e nem fingiu que tinha esquecido. Era difícil tirar palavras de Diodoro, mas era divertido estar com ele e mudar de ares um pouco. Manteve o sorriso tranquilo no rosto, fazendo um aceno negativo quando ele perguntou se estava fazendo graça.

- Você confia muito pouco em mim, Diodoro. Eu estou falando sério, queria mudar um pouco de ares. Não tem tanta graça ir pra uma balada quando eu posso vir conversar com você, não é? - ela comentou, com um sorriso que obviamente indicava o contrário, embora estivesse sendo mais sincera do que Diodoro lhe daria crédito. Levantou-se, ficando de frente para ele e muito próxima. Ainda riu com vontade quando ele perguntou se estava fugindo. - Não estou com vontade de ir para a sala do Conselho Estudantil amanhã, então, posso dar uma escapada de vez em quando, afinal, eu sou uma aluna tão dedicada.

Tocou o queixo dele com a ponta dos dedos, aproximando-se como se fosse beijá-lo, mas deu a volta logo em seguida, fazendo-se bem confortável no apartamento e dando uma olhada ao redor.

- Essas roupas que estou são muito apertadas, pode me prestar uma roupa sua? Se eu vou comer pizza e assistir filme, tenho que estar pelo menos mais confortável. - pediu, parando bem na entrada do que deveria ser o quarto dele, que com a luz apagada, não podia ver muito.

Diodoro

Apesar de saber que era um lixo com computadores e a opção dela ser muito tentadora, se perguntou se deveria agora que sabia que seus dados poderiam ser achados online. Será que podia colocar os dados de seus clientes em um banco de dados na internet e arriscar que qualquer um tivesse acesso àquelas informações? Bom, pelo visto, continuaria com os papéis por um tempo ainda. Era só ser mais organizado, mesmo quando Brigida trabalhava na recepção.

Diodoro arqueou a sobrancelha para o motivo obviamente fingido de Hanna para ir até ali, afinal, sim, parecia mais interessante para alguém da idade dela estar na balada, e não no apartamento de um pessimista de 33 anos, solteiro, criador de gatos, e agora, com um conhecido criminoso. Claro que essa última parte ela não precisava saber.

- Hm. Conversar. – ironizou apesar de apenas soar enfático quanto as palavras dela. Não era exatamente muito expressivo, mas esperava que fosse claro para todos que não era exatamente a melhor pessoa para “conversar”.

A aproximação de Hanna era sempre aquele tipo maior de provocação que sabia ser para lhe tirar completamente do sério. Por instinto, afastou a mão dela de seu queixo sem segurar nem espalmar com força, apenas tirando-a do caminho. Franziu a testa para o comportamento leviano de como ela explorava seu apartamento. Estreitou os olhos quando ela entrou em seu quarto, pedindo uma roupa mais folgada que a camisa folgada e o blazer que usava.

- Apertadas onde? - questionou o modo dela de descrever as próprias roupas, suspirando longamente e andando até o quarto. Ligou a luz, deixando que ela visse o local impecavelmente arrumado, andando até o armário e abrindo a gaveta onde colocava os pijamas, puxando-a para que ela visse. – Aqui. Escolha.

Iria aproveitar o tempo para pedir a pizza, afinal, os números de boas pizzas que tinha costumavam demorar um pouco, especialmente por ser aquela hora na noite. Ligou para o mais conhecido, esperando a telefonista terminar de conversar ladainha sobre promoções.

- Leoni. Hmhm. Grande. Peperoni. – explicou, achando que o sabor mais básico de pizza deveria ser o suficiente para ela. Ainda precisava tomar um banho longo.

Hanna

A descrença de Diodoro era até bonitinha, quem sabe um dia parasse para tentar convencê-lo de que gostava mesmo daquela companhia inusitada? No momento, preferiu se ater ao quarto dele e às roupas em que podia se trocar. Riu de novo quando ele questionou por ter dito que as roupas eram apertadas, ele não estava esperando que ainda ficasse de calças, não era? Mas não apontou aquele detalhe óbvio, só segurando a lapela do terno.

- Eu não vou ficar confortável pra assistir filme e comer pizza de blazer. E o tecido branco pode sujar muito fácil. - acompanhou-o observando o quarto tão certinho que lhe dava vontade de bagunçar tudo, mas sorriu ao olhar dentro de uma gaveta específica de pijamas. - Obrigada.

Deixou que ele saísse do quarto só pela diversão, mas tirou os sapatos de salto, a calça justa e a camisa e o blazer, inclusive o sutiã, ficando apenas de calcinha sem nem se importar de fechar a porta para que ele não lhe visse. Era engraçado que ele tivesse aquelas peças tão antiquadas, mas era tão engraçado quanto conveniente, porque apenas pegou uma das camisas do pijama ridiculamente listrada em preto e branco, deixando as suas roupas jogadas no quarto - porque não teria a menor graça deixá-las arrumadas naquele lugar já super organizado -, para sair até a sala, a barra da camisa do pijama mal cobrindo os quadris apenas com uma calcinha de renda preta por baixo.

Chegou à sala a tempo dele desligar o celular e andou a passos sorrateiros até o outro, passando por ele e indo até a geladeira para procurar alguma coisa que beber.

- Você tem vinho aqui, Dio? - perguntou, usando um apelido inédito, curvando-se de propósito para que as pernas aparecessem mais, enquanto procurava uma bebida desnecessariamente baixo na geladeira.

Diodoro

Diodoro esperou que a mulher processasse o pedido para confirmar o endereço, supondo que como a pizzaria não era tão longe, demoraria pouco. Aproveitaria para tomar um banho assim que ela trocasse de roupa. Voltou-se na direção do quarto para ver se a porta ainda estava fechado, mas ao invés de encontrá-lo cerrado ou totalmente vazio, viu a fresta que conseguia enxergar da cozinha e jurou, por um instante, que podia ter visto as costas nuas de Hanna dali. Isso lhe fez engolir em seco e nem prestou atenção na mulher da pizza lhe chamando.

- Hm??? E-Eu. S-Sim. Sim. – respondeu tardiamente, dando as costas para o quarto. Ela não tinha pudor algum, de fato. Respirou fundo e se acalmou, e desligou o aparelho de modo barulhento. Talvez ela tivesse só esquecido.

Porém a morena veio até onde ele estava sem demora e foi obrigado a olhar da ponta dos pés bem cuidados por toda a extensão das pernas longas e pálidas, vendo a calcinha pouco coberta pela sua camisa de pijama mais comum. Demorou alguns segundos para processar a aparência da garota, sequer notando que seu rosto foi, na mesma medida, tomando um intenso tom de vermelho.

Dio. Nunca o apelido que sua família lhe chamava soou tão mal utilizado.

- H... H.... – tentou abrir a boca para ralhar com ela duas vezes, mas simplesmente não tinha energia para isso. E a curva daquelas costas enquanto ela investigava a geladeira. Chegou a tremer, mas não sabia se de vergonha ou de raiva. Agarrou-a repentinamente pelo pulso e tirou de dentro da geladeira. – A calça. Ponha a calça. – falou com um tom intimidador, embora os olhos claros estivesse em qualquer lugar MENOS na morena.

Arrastou a garota de volta para o quarto e colocou-a lá, observando-a por um instante para garantir que ela estava mesmo ali. Ao invés disso, teve que cobrir os olhos com a mão as pressas e sem querer, passou sobre o ferimento, o que doeu consideravelmente.

- HNNNNRRR....!!! – mas até suas exclamações de dor exasperadas eram silenciosas demais.

Hanna

Hanna precisou conter a vontade de rir exageradamente quando ele lhe encarou dos pés à cabeça, o rosto indo imediatamente para um tom exagerado de vermelho como se fosse um adolescente que nunca tinha visto uma mulher de calcinha. Mal teve tempo de fechar a porta da geladeira, ele já lhe puxou pelo pulso para lhe mandar colocar uma calça e ainda teve chance de fazer uma expressão de desentendida enquanto ele lhe arrastava de volta para o quarto, incapaz de continuar lhe encarando, o que era até engraçado.

- Dio, meu braço... - alertou-o para o jeito que lhe segurava o pulso. Não era que não tivesse sido puxada com muito mais força outras vezes, mas sabia como o outro se importava com o bem estar alheio, então apenas sorriu quando ele lhe colocou de volta no quarto.

Colocou as duas mãos na cintura encarando-o de modo indagador, mas a tentativa dele de lhe encarar por muito tempo foi por água abaixo quando tentou cobrir os olhos e acabou machucando mais o ferimento no rosto.

- Tsc tsc tsc, você precisa ser mais cuidadoso, Dio, desse jeito vai abrir o machucado. - disse, mas não se moveu sequer para colocar a calça como ele tinha pedido. - E eu disse que queria ficar mais confortável, não sei porque o seu drama, é assim que eu me visto nos dormitórios da Academia. Não seja tão dramático, quase parece uma protagonista de filme romantico vendo o namorado sem camisa.

Aproximou-se dele, as mãos unidas atrás das costas. Esticou o rosto para se aproximar do dele.

- Não se preocupe, prometo que não mordo. - aproveitou a tentativa dele de cobrir os olhos para não lhe ver de calcinha e desviou sorrateira do caminho alheio, saindo de novo do quarto para a sala, buscando o sofá para se sentar daquela vez. Cruzou as pernas e pelo menos fez o favor de colocar uma almofada no colo, se aquilo facilitaria a vida dele. - Então, vai sentar pra assistirmos um filme?

Diodoro

Havia muita coisa de errado com o que Hanna tinha argumentado e nem sabia por onde começar a contra-argumentar. Para começar, como ela podia comparar se vestir nos dormitórios de Limoges-Collet a estar na casa de um homem de 33 anos solteiro? Ela não tinha senso de autopreservação? Não que fosse fazer nada com ela, mas se ela podia fazer aquilo na casa dele, quem impediria ela fazer o mesmo com qualquer outro homem? Nem todo mundo era gentil, e bem sabia que ela andava solta no mundo, mas que o fizesse longe dele, porque perto dele era óbvio que iria reclamar.

- Tenha pudor. – reclamou para tentar resumir tudo que estava pensando, embora tivesse ainda que adicionar algum comentário sobre ela lhe comparar com uma mulher em um filme romântico vendo o namorado sem camisa. Como assim? Não estava nem entendendo de onde vinha aquela comparação. Aliás, porque ela não se portava pelo menos um pouco como esse tipo de protagonista romântica e tinha um pouco de decência de se sentir envergonhada estando de calcinha em sua frente. – Não sou mulher. Não é Limoges. Algodão É confortável.

Isso deveria ser argumento o suficiente por hora, mas pelo visto ela não parecia inclinada a vestir nada além daquelas roupas. A calcinha poderia ser até composta, mas ainda era uma renda preta delicada muito sensual. Respirou fundo, frustrado, quando ela saiu para a sala, então juntando outro de seus pijamas para poder tomar um banho.

- Vou tomar banho. – respondeu, então andando até o banheiro para tomar uma ducha rápida, informando apenas para que ela não ficasse lhe esperando sem saber. Se bem que não deveria nem justificar, considerando que ela tinha ido ali de supetão. Vestiu o pijama de xadrez verde escuro que tinha no armário, fechando todos os botões como lhe era habitual e então foi para a sala. Quem sabe Hanna ainda não tinha se jogado de pernas abertas no sofá, porque só faltava ser o próximo passo dela.

Hanna

Era imensamente engraçado como Diodoro ainda esperava que ela fosse uma jovem com pudores, quando já tinha mostrado mais para ele depois de ter levado uma surra de um dos seus clientes. Não gostava daquilo, mas ao menos o agente funerário sabia que ela era mais dissimulada do que poderia assegurar para ele. Dispensou todas as tentativas de explicação quando ele resolveu desistir de lhe convencer a usar a calça e ainda ouviu o aviso de que iria tomar banho. Abriu um sorriso largo, estendendo-se no sofá apenas para pegar o controle da televisão.

- Se precisar de ajuda no banho, é só avisar. - falou ainda antes que ele sumisse de vista.

Começou a mudar os canais da TV em busca de qualquer coisa para assistir. Com o horário avançado, sabia que passaria por muita programação pornô, então por que não parar numa delas? Já não bastava todo o embaraço dele por estar usando calcinha, seria engraçado que ele começasse a assistir um filme na esperança de que fosse apenas mal atuado até chegarem nas cenas de sexo com cortes ridículos.

Deixou o controle de lado no braço do sofá, sentindo-se à vontade na casa alheia para ir pegar água e voltar para o seu lugar, de novo, ainda sendo preocupada o suficiente para colocar a almofada entre as pernas cruzadas em posição de lótus. Depois de longos minutos, Diodoro tinha retornado para a sala.

- Tomou um banho frio, Dio? - perguntou, sorrindo descarada e dando espaço para ele se sentar, pousando a mão no sofá e dando alguns tapinhas chamando-o. - Então? Você tem preferência de filmes? Achei um de romance sobre uma secretária e o chefe dela, o que acha?

Talvez ele acreditasse que era uma pessoa interessada em filmes de romance, como se ainda houvesse aquele lado feminino inocente. Contanto que ele só percebesse bem depois da primeira cena de sexo explícito, era o suficiente.


Diodoro

Amarrou a cara quando Hanna falou sobre o banho frio. Claro que não tomaria banho frio no fim da noite. Ela estava só lhe provocando. Até parecia que faria uma coisa daquelas com a morena ali, ou na verdade que precisaria, sendo apenas provocado por ela. Tinha mais decência que isso. Só moveu-se para o sofá quando ela lhe chamou com a mão, observando a posição confortável em que ela tinha sentado, agradecendo pelo menos ela se dar o trabalho de colocar a almofada entre as pernas.

Coçou a cabeça enquanto sentava no sofá, deixando algum espaço entre os dois antes que ela fizesse mais alguma proposta idiota ou lhe tocasse de modo provocativo. Olhou para a tela para o filme com a imagem mal filmada, franzindo a testa de leve. As atuações pareciam horríveis também, como daqueles pornôs que assistia no fim da noite pouco antes de dormir.

- Hm. Não. – respondeu, jogando os ombros. Não se importava muito com o que assistiriam mesmo, já que estava mais aguardando a pizza para jantar, enquanto supunha que Hanna queria só uma desculpa para brincar com a sua cabeça.

Ficou assistindo as interações, achando aquela história do chefe e da secretária muito fajuta. Não tinha nenhum drama, nada interessante. Será que era um caso entre os dois e tinha perdido o começo da história enquanto tomava banho? Notou apenas que era uma história muito sensual, aquela. O tempo todo os dois ficavam se insinuando. Seria um filme horrível como aquele Showgirls que tinha assistido outro dia? Os americanos sabiam fazer feio com atuações, embora aquele fosse bem francês, podia ver pelo quão cheios de charme os dois tentavam ser forçadamente.

- Péssima atuação. – resmungou mais para si mesmo, ainda atento ao filme.

Já estava pronto para apoiar o cotovelo no braço do sofá quando viu a mulher começando a tirar as roupas. Ficou um tanto desconfortável porque estava acompanhando de Hanna, e geralmente assistir essas cenas com outras pessoas era estranho. Mas ficou ainda mais desconfortável quando a trilha sonora de motel pareceu ficar mais evidente e o sujeito demorou muito tempo se esfregando e chupando os peitos da atriz, que claramente eram siliconados.

Estava com a testa bem franzida, sem entender bem o filme, até que um corte de cena repentino depois, a mulher e o cara já estavam todos nus, e ela estava claramente fazendo sexo oral em um pênis nada censurado.
- Que?! – levantou-se em um sobressalto, procurando o controle remoto desesperado em seguida, tateando todo o sofá atrás do mesmo. Achou-o perto de Hanna, e correu, já com o suor de nervoso na testa, para mudar para outro canal de filme. Respirou fundo, então percebendo aos poucos que brincadeira era aquela. Olhou para Hanna com ódio nos olhos claros. – Você....!

Hanna

Hanna ficou muito mais atenta a Diodoro enquanto o filme se seguia. A pizza provavelmente demoraria mais a chegar do que as cenas de pornografia explícita do filme. Mas por isso que era divertido. Ele ainda reclamou da atuação e ela apenas sorriu do resmungo, um sorriso ainda mais satisfeito abrindo em seu rosto quando ele notou que havia algo de errado com as cenas de insinuação. Até perceber exatamente o que estava acontecendo quando a cena teve um corte drástico até uma de sexo oral.

A reação de Diodoro foi tão rápida que quase não o viu se levantar, procurando exasperado pelo controle remoto para tentar tirar do canal, esquecendo até que podia fazer aquilo direto no aparelho. Teve que conter a risada, afinal, nem as alunas em Limoges Collet podiam reagir daquele jeito tão exagerado.

- Eu não sei porque o desespero, Diodoro, o filme estava interessante. - retrucou, ignorando todo o ódio canalizado dele para a sua atitude. Colocou-se de pé, deixando a almofada de lado e tocando com a ponta do dedo no meio da testa dele. - Cuidado, com esse monte de sangue circulando na cabeça, pode acabar abrindo o seu machucado no rosto.

Tão conveniente foi, bem naquele momento, ouvir as batidas na porta para indicar que a pizza tinha chegado. Claro que não perdeu a oportunidade de seguir a passos rápidos e sorrateiros até a porta, abrindo-a para receber o entregador com aquela roupa nada discreta, antes mesmo que Diodoro pudesse raciocinar entre o filme pornô e a sua velocidade para abrir a porta e encarar a expressão surpresa do rapaz com a caixa de pizza.

- P-piz-za... p-p-eperoni... - o entregador olhou nada discreto para Hanna dos pés à cabeça, a tempo dela estender a mão para pegar a caixa.

- Obrigada, mon cher. - ela sorriu para o rapaz, descendo a mão no colo até o limite da camisa abotoada do pijama de Diodoro. - Opa, não tenho bolsos aqui para guardar o dinheiro.

Diodoro

Respirou fundo, ainda um tanto indignado com Hanna por ela ter feito uma brincadeira daquelas. Claro, era de se esperar da morena, mas mesmo assim, esperava que ela estivesse ali para ficar quieta e ver um filme, já considerando que eles nem tinham combinado aquela pizza e filme para um dia específico. Levou a mão até a testa e sacudiu ela negativamente antes de mudar de canal, procurando um filme de verdade para assistir enquanto a pizza não chegava.

Quando achou um filme de romance antigo qualquer para assistir, ouviu o clique de sua porta e olhou para Hanna sorrateira abrindo a porta para o entregador de pizza ainda de calcinha. Olhou para a cena quase sem reação e então andou a passos apertados até a morena, colocando ambas as mãos nos ombros dela, virando-a e tirando a garota do caminho do entregador, empurrando-a para trás da porta.

- Dinheiro. Espera. – falou para o entregador de pizza, andando até onde estava o dinheiro da pizza e mantendo um olho vivo em Hanna para que ela não aprontasse mais. O garoto que tinha vindo entregar a comida lhe olhou e olhou na direção de onde tinha escondido a garota muito longamente, como se suspeitasse de algo. Voltou logo com o trocado, entregando para ele e fazendo apenas um maneio de cabeça antes de fechar a porta. Já sabia que isso poderia acabar em algum rumor mirabolante no prédio em que a cicatriz tinha vindo de seu outro trabalho como cafetão ou que a funerária era uma fachada para seu negócio de tráfico de mulheres. – Tenha dó. – pediu a garota, evitando olhar diretamente para a figura esguia e ainda sem calças.

Então suspirou longamente e andou até onde estava a pizza. Se nada estava nos conformes de sua vida, que pelo menos tivesse peperoni e um filme qualquer.

Hanna

Não teve tempo de flertar mais com o entregador - ou ao menos deixá-lo mais constrangido do que já estava -, já que Diodoro apareceu para lhe empurrar pelos ombros de volta para um local “escondido” da vista alheia. Fez um aceno breve para o rapaz antes de sumir atrás da porta, sorrindo descarada, para então seguir até o balcão da cozinha e se sentar num dos bancos altos, os cotovelos apoiados ali e as pernas bem cruzadas fazendo com que a barra da camisa subisse um pouco para mostrar mais da peça íntima. Ficou apenas balançando o pé enquanto o agente funerário deixava a pizza ali para voltar e fazer o pagamento. Abriu a caixa sem esperar pelo dono da casa, podia até estar se divertindo demais em brincar com ele, mas era verdade que estava com fome, e que também queria um programa de índio passando o resto da noite só assistindo filme sem ter que trabalhar ou fazer qualquer coisa da Academia.

Começou a se servir bem a tempo de ouvir ainda a súplica dele, mas apenas riu em resposta, puxando o queijo com os dentes da primeira fatia que estava comendo com as mãos mesmo.

- Você é desnecessariamente conservador, Dio. - respondeu ao mais velho, olhando o filme antigo que ele tinha escolhido assistir. - Nem para colocar um filme mais recente. Eu nem fiz nada com o entregador para ficar assim, tão exasperado.

Continuou se servindo tranquilamente da pizza, o pé ainda balançando tranquilamente como uma distração breve, imaginando se ele ainda iria implicar por conta da calcinha de renda que aparecia com a camisa dele. Não comeu mais do que uma fatia e meia, voltando então para o sofá e se sentando de novo com uma almofada entre as pernas.

- É isso mesmo que vamos assistir o resto da noite? Está bem então. - debochou da escolha de filme dele, apontando de novo, dessa vez com o indicador, para o espaço vago ao seu lado para que ele se sentasse também.


Diodoro

Não negaria que era conservador. Tinha sido criado em uma família cristã, todo final de semana na igreja, trabalhava em uma funerária e era amigo de um (ex) padre. Não era puro porque tinha 33 anos nas costas. Isso era demais até para ele. Mas tinha sim, talvez por conta de sua visão de si mesmo, demorado a aceitar esse tipo de sensualidade que Hanna fazia questão de usar pra lhe provocar. Talvez estivesse muito velho para cair nos truques dela, mas o que podia fazer, se estava tão desacostumado com intimidade? Além do que, se não queria vê-la de calcinha, se exibindo daquela forma, era porque se preocupava com ela e aquelas pernas longas brancas que ela fazia questão de esfregar no seu nariz.

- Hmf. – resmungou com um franzido de testa para ela, ainda evitando encarar as pernas longas, especialmente porque na posição em que o banco da cozinha a deixava, podia ver ainda mais da calcinha de renda. Não queria ver a calcinha dela, por deus. Pegou a pizza e mastigou calmamente, olhando para o recheio nas outras fatias para se distrair. – É bom. O filme.

Ela podia bem desgostar, mas ao menos sabia que não era um pornô qualquer de fim de madrugada. Comeu a segunda fatia até ligeiro e pegou uma terceira antes de seguir para o sofá, onde ela rapidamente se acomodou com a almofada sobre o colo, o que lhe dava algum alívio. Mascou a pizza longamente, como se estivesse devorando-a aos pouquinhos, olhando de lado para ela quando questionou sobre sua escolha de filme.

- Só tem... – respondeu, apontando para a tela para sinalizar que não tinham muitas opções além daquela, e dos pornôs. – Queria o que? – questionou apenas a título de curiosidade, ainda que imaginasse que se deixasse ela escolher, retornariam para o outro filme apenas para que ela lhe visse frustrado e envergonhado.

Hanna

Estendeu os pés para apoiar as solas na coxa dele, os dedos brincando com o tecido da calça. Olhou dele para a TV, cruzando os braços e apoiando-se de lado no encosto do sofá.

- O que eu queria, você tirou. - reclamou, descendo uma perna para fora do sofá e balançando-a um pouco. Esperou que ele terminasse de comer, olhando com pouco interesse para o filme e bocejando algumas vezes.

Não avançou o toque mais do que os dedos dos pés que puxavam o tecido da calça, mas depois de um par de bocejos, virou-se no sofá, para se deitar muito confortável com a cabeça sobre a perna do agente funerário e os pés passando por cima do braço do sofá. A blusa subiu um pouco mais, inevitavelmente, mas ela já não estava se preocupando com a quantidade de renda que apareceria. Passou a mão pelos fios de cabelo, jogando-os para trás, encarando Diodoro de baixo com um sorriso travesso de novo.

- Você não tem coxas muito firmes. - comentou, virando-se na direção dele, o corpo voltado para o encosto do sofá em oposição à televisão. Mesmo com as constantes insinuações, não fez mais do que fechar os olhos como se estivesse muito confortável, bem diferente do moreno com a sua aproximação felina que podia significar mais do que um mero toque amigável. - Eu já disse que não mordo, Dio. Só se você quiser...

Fechou os olhos como se fosse dormir ali mesmo. E considerando o dia e a noite bem longos, até gostava da mudança de ares e do descanso.

Diodoro

Certamente não iriam voltar para o pornô, e ao menos ela entendia isso. O filme que estavam assistindo (ou ele estava vendo sozinho, já que ela não tinha interesse) era um bom substituto e era irredutível quanto aquele fato. Terminou de jantar e rapidamente levantou-se para lavar as mãos. Não queria ficar com o óleo da pizza entre os dedos. Ela, por outro lado, parecia mais interessada em massagear sua coxa com os pés e lhe incomodar, como um gato, do que assistir televisão.

Já estava se acostumando com o fato quando Hanna decidiu virar no sofá e deixar a cabeça em seu colo, já parecendo cansada o suficiente para dormir. Observou-a longamente, supondo que não queria a garota ali, mas também, enquanto ela estivesse quieta e não falasse nada, não tinha problema que deitasse ali. Mas ela não demorou a sorrir daquela forma travessa de sempre e comentar sobre suas coxas.

- … era mais pesado. - respondeu, não escondendo de ninguém que tinha sido um garoto mais gordinho, mas provavelmente tinha emagrecido de tanta preocupação (claro que a puberdade não tinha sido gentil, ela nunca era gentil). Franziu a testa quando ela se acomodou ainda mais, dessa vez, deitando de lado, o rosto voltado para seu corpo de modo a ficar mais incômodo. Mas fora isso, e os comentários oportunos dela, a garota não se moveu um centímetro a mais que isso. - Não. Morda.

Foi bem pontual sobre isso, mas respirou fundo e deixou ela ficar ali. Ergueu a mão com cuidado, observando-a em seu colo, e como tinha o hábito de um irmão mais velho com uma irmãzinha mimada, levou os dedos aos cabelos escuros, acariciando a têmpora e o comprimento curto e retomando a observar os atores que prestavam no filme que tinha escolhido. Apesar de se incomodar com o fato de tocá-la com as mãos grosseiras, imaginava que no estado de sono de Hanna, ela não ficaria tão incomodada com um cafuné carinhoso.

- Se quiser dormir… vá pro quarto. - apontou para ela o óbvio, só então notando que o fato dela ter se movido no sofá tinha deixado a calcinha mais aparente. Revirou os olhos, o vermelho tomando seu rosto novamente, até que pegou a maior almofada que tinha no sofá e jogou em cima da morena para cobrir aquela parte. - E vista calça.

Hanna

Ainda abriu os olhos para encará-lo de baixo com aquela ordem pontual sobre não mordê-lo. Podia até interpretar a pausa de outra forma, mas só conseguiu rir em resposta, mantendo-se bem confortável ali e voltando a fechar os olhos.

- Você é engraçado, Dio. - comentou, bem a tempo de sentir os dedos dele acariciando os cabelos.

Já fazia quanto tempo que dormia perto de uma pessoa que só queria lhe fazer carinho livre de segundas e terceiras intenções? Provavelmente nem seus pais tinham feito isso quando era mais nova. Tinha sido uma boa escolha, no fim das contas, sair do ambiente repetitivo de sempre com as mesmas pessoas e os mesmos fins de noite que às vezes lhe deixavam bem debilitada. Ignorou a sugestão dele de que deveria ir para o quarto se quisesse dormir, apenas se acomodando melhor ali mesmo no sofá onde tinha companhia e cafuné.

- Se me pedir para vestir uma calça de novo, vou tirar a camisa e ficar só de calcinha. E bem na sua frente. - retrucou, puxando as pernas mais para perto para se acomodar melhor no pequeno espaço do sofá. - Aqui está bom. - ainda abriu os olhos para observá-lo de baixo para cima. - A não ser que você queira dividir a cama comigo, Dio?

Sorriu descarada de novo, mas já imaginava a reação do agente funerário, então se resignou a continuar deitada ali mesmo, no espaço curto que era compensado só pela companhia e pelo carinho breve, surpreendentemente, adormecendo mais rápido do que estava acostumada.


Diodoro

A ameaça dela surtiu efeito, pois prontamente Diodoro parou com as mãos e ficou completamente em silêncio. Desconfiado, tornou a acariciar os cabelos dela devagar, observando a morena de cima. Hanna podia ser bem inconsequente e muito bocuda para seu gosto, mas até conseguia entender que ela era nova quando se deixava mimar assim. Entortou os lábios, ponderando que talvez pudesse ser duro com o jeito caprichoso dela outro momento. Quem sabe aquele tivesse sido um dia bem ruim, depois de um termino de relacionamento bem complicado que ela apenas se recusava a admitir que a tinha deixado fragilizada.

... Ou não. Ela só era daquele jeito. E estava muito mal acostumada.

De todo modo, naquele momento, com Miro e ela no apartamento, tinha dois felinos. Deu um tempo até terminar o filme e Hanna ficar com o sono mais pesado, e só então, com cuidado, apoiou a cabeça dela e a deitou no sofá, abaixo de uma almofada. Foi ao quarto para pegar um travesseiro e cobertas para Hanna. Com o cuidado que sempre tinha com suas irmãs, deixou-a mais acomodada e cobriu finalmente as pernas longas e pálidas, suspirando longamente no processo.

- Buonanotte. – disse para a garota em uma voz baixa, tirando os cabelos escuros da frente do rosto dela para que não incomodassem durante o sono.

Então resignou-se a ir para o próprio quarto. A deixaria dormir no quarto se ela não parecesse tão relaxada, mas já que ela tinha chegado sem convite, teria que ficar feliz com o sofá. Jogou-se na cama de cansaço, seguido de Miro que se aninhou no travesseiro do lado, e puxou as cobertas por cima do corpo para dormir. Amanhã resolveria Hanna.

Hanna

Era surpreendente que realmente estivesse com sono a ponto de dormir fácil ao lado de Diodoro. Não que fosse uma pessoa incomodada com companhias, mas era tão comum dormir em algum motel sozinha ou voltar imediatamente para os dormitórios... que dormir na casa de alguém além de seus clientes era uma novidade interessante.

Não ouviu o desejo de boa noite de Diodoro, mas continuou bem imersa no seu sono por um bom tempo até se virar algumas vezes e perceber que o lugar era pequeno demais para o que estava acostumada. Ainda era o meio da madrugada, apenas se levantou como se fosse algo muito natural e caminhou até o quarto, arrastando consigo o lençol. Sorriu satisfeita já que a cama de Diodoro era de casal e apenas se fez confortável, deitando-se ao lado dele depois de afastar o gato um pouco para o lado, que apenas miou em reclamação. Dispensou o próprio lençol e se entocou embaixo do cobertor de Diodoro de propósito, aproveitando o calor do corpo alheio para continuar no seu sono muito casual, próxima demais para incomodar o agente funerário, mas numa distância segura para o que estava acostumada de suas companhias noturnas.

Não era uma pessoa matinal per se, acordava no horário da aula porque era a sua obrigação e seu celular lhe lembrava com o alarme. Mas sem o celular e sem o barulho das alunas nos corredores dos dormitórios, nada lhe deu sinal de que acordaria, exceto talvez se Diodoro resolvesse se mover demais na cama, considerando que àquela altura, já tinha se agarrado ao braço alheio.

Diodoro

Se Diodoro tomava café com frequência, certamente não era porque tinha o sono leve. Vivia em estado perpétuo de exaustão ainda que não trabalhasse tanto em certos dias, e em especial, por conta de sua família querendo cuidar dele a todos os custos, ultimamente também estava muito cansado. Dormiu como uma pedra assim que chegou na cama, nem ouvindo o miado de Miro, nem sentindo o peso no colchão, e nem o calor embaixo de seu lençol. Tinha simplesmente apagado com o sono dos mortos.

E tal como um morto, voltou a vida no dia seguinte com o sol entrando pela janela. Bocejou amplamente, e abriu os olhos, observando o guarda-roupa a sua frente. Sentiu o braço dormente deus sabe porque, mas aos poucos, recobrou a memória do dia anterior, em que lembrava que Hanna estava lá. Podia estar lerdo, mas ao menos conseguia discernir que...

“Hanna estava lá”.
Olhou para a garota agarrada a si e tomou um susto que fez seus pés escorregarem pelo lençol, num sobressalto, e antes que percebesse, rolou para fora da cama, caindo de bunda no chão e quase puxando Hanna consigo, já que ela estava agarrada em seu braço.

- Ai! – reclamou, levantando-se aos poucos com a agilidade de um homem meio acordado de 33 anos e olhou para ela, franzindo a testa e prontamente puxando as cobertas sobre as pernas que tinha ficado expostas no reboliço de seu susto. – Bom dia?? -Diodoro podia não ser muito expressivo, mas estava sendo claramente cínico com ela com aquele cumprimento, provavelmente se perguntando que tipo de garota invade a cama de um homem adulto irresponsavelmente daquele jeito. – Peça licença.

Hanna

O sono de Hanna foi ainda mais tranquilo dormindo ao lado do agente funerário. Teria continuado assim, claro, se ele não tivesse feito tamanho estardalhaço ao acordar e lhe descobrir ao seu lado. Em outras situações, teria demorado um pouco a processar a situação, mas visto que não tinha bebido nada na noite anterior, sabia muito bem o que tinha feito e apenas se virou na cama, de bruços, a calcinha bem aparente ao mover os pés e encarar - com um sorriso muito satisfeito - Diodoro caído ao lado da cama.

- Bom dia, Dio. Que reação agradável tão cedo da manhã. - sorriu descarada para ele, inclusive quando ele fez questão de cobrir suas pernas para lhe devolver um bom dia sarcástico. Depois de alguns estranhos dias de convivência com o agente funerário, podia até se dar ao luxo de identificar algumas nuances de expressão dele, sempre calado. - Para que? Eu nem fiz nada demais dessa vez. - ela fez questão de se sentar e tirar o lençol de cima das pernas, descendo da cama para ir até as roupas que tinha deixado separadas na noite anterior.

Foi desabotoando a camisa, sem se importar que aquilo o deixaria ainda mais incomodado - ou irritado por sua atitude inconsequente.

- O que tem pro café da manhã? Aliás, que horas são? Ainda é manhã? - já tinha desabotoado boa parte dos botões para se virar de costas para ele e pegar o sutiã, antes de se livrar da camisa do pijama alheio e começar a colocar a sua roupa.

Diodoro

Reação agradável? Ela claramente gostava de lhe encher até o máximo da paciência, disso já não tinha dúvidas. Respirou fundo, tentando ignorar a visão das pernas longas e pálidas da garota, e embora tivesse até um pouco de sucesso nisso, foi impossível ignorar o fato de que ela tinha começado a se despir em sua frente.

- Q-Q-Q... ARGH!! – não tinha nem o que dizer para ela, então apenas se virou e saiu voando do quarto, batendo a porta com tanta violência no caminho que o gato deu um pulo e fez um sonoro “fssss”. Diodoro limpou o suor da testa e então foi até a cozinha beber um copo de água para se acalmar.

Claramente não tinha nada para café da manhã a não ser croissants velhos e café, mas nem tinha coragem de oferecer isso. Aliás, como podia pensar em café da manhã enquanto Hanna não tinha vergonha alguma de se despir em seu quarto com ele dentro? Aliás, porque devia qualquer coisa a ela, que tinha invadido sua casa no meio da noite?? Talvez estivesse, e isso admitia com pesar, se acostumando demais a todas aquelas pessoas que lhe cercavam .

- Vou mudar de casa... – respirou fundo, pegando um dos croissants da geladeira e esquentando no microondas. Quem sabe isso fizesse ela ir embora mais rápido.

Hanna

Hanna apenas riu da reação exasperada já esperada de Diodoro. Deixou que ele saísse do próprio quarto às pressas, fazendo questão de bater a porta o mais forte que conseguia. Talvez tivesse ajudado a acordar alguns vizinhos no processo, mas aquilo não diminuía em nada a sua diversão. A noite tinha sido inusitada e relaxante, nada de clientes incômodos ou parceiros inconvenientes e perigosos. Terminou de colocar as próprias roupas de novo, buscando pelo celular para conferir o horário, ainda cedo o suficiente para poder ir até Limoges Collet, e conferir também as mensagens mais recentes para saber se havia algo de interessante.

Só então, saiu do quarto, acompanhada pelo gato curioso se esfregando em suas botas - o que ignorou prontamente. Chegou à cozinha pequena à tempo de ouvir o apito do microondas para mostrar que ele tinha terminado de preparar alguma coisa. Aproximou-se de Diodoro sorrateira, passando a ponta dos dedos pela cintura dele até a nuca, o que o fez se afastar prontamente. Mas aproveitou que ele estava virado em sua direção de novo para sorrir descarada.

- Foi uma noite divertida, Dio, eu volto outras vezes. - comentou, revelando que com certeza não esperaria outro convite. Nem deu tempo para que ele aprontasse o café da manhã, mas se aproximou dentro do campo de visão do moreno para se aproximar e beijar-lhe o rosto antes que ele conseguisse se afastar alarmado como das outras vezes. - Não fique com saudades.

Não esperou pela comida, apenas acenou e seguiu para fora do apartamento sem precisar de companhia, com o celular numa das mãos para responder algumas mensagens e decidir para onde iria. Uma coisa era certa: voltaria para passar outras noitadas desavisadas no apartamento de Diodoro. Era um ótimo lugar para onde fugir.

[encerrada]


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