09-22-2021, 04:28 PM
Evelyn
A semana estava se saindo bem para Evelyn. Havia conhecido o presidente do Conselho Estudantil, que estranhamente o havia chamado para jantar, porém que acabou sendo bastante agradável, por mais que achasse esquisitas as intenções do outro ruivo. De qualquer maneira, conseguiu submeter os papéis necessários para reabertura do clube, agora precisaria de membros.
Yure havia recomendado um aluno específico, que fazia parte de sua chapa, para ser gerente do clube. Estava marcado de se encontrar com ele em uma reunião em alguns dias, o que acreditava que não seria um problema. O outro ruivo ainda recomendou que procurasse pessoas que “chamassem atenção” para o clube, fosse pelas notas ou que estivessem bem inseridas em Cerise. Ou seja, pessoas de nome importante.
Passou alguns períodos pós-aulas lendo sobre as famílias importantes de Cerise e ouvindo sobre o desempenho dos outros alunos. Em uma das conversas que teve com Berthold, o ajudando com seu francês no processo, acabou vendo uma das fotos que o alemão havia tirado de um dos alunos que ele havia achado bonito, Marion Limoges, que deixou um sorriso pequeno nos lábios do mais alto, que nas palavras de Berthold era um “heißer Feger”. Coincidentemente, havia ouvido falar tanto do estudante quanto do sobrenome que ele carregava. Não tinha notas muito significativas, mas pelo menos se encaixava no quesito “bem-inserido-na-sociedade”. Aparentemente, ele também não fazia parte de nenhum clube, então seria uma situação de ganhos para os dois lados, certo? Confirmou com Berthold se o moreno estaria perto do refeitório durante o horário de almoço, já que havia o achado bonito, talvez tivesse prestado atenção onde ele andava quando tirou a foto.
Felizmente, a resposta foi positiva, e no dia seguinte durante o horário de almoço, avistou a figura no refeitório, próximo à alguns outros alunos. Se aproximou com cuidado, já usando seu sorriso comercial, junto ao uniforme muito bem alinhado e os cabelos parcialmente presos em um rabo de cavalo, graças ao calor:
- Marion Limoges? - procurou primeiro chamar atenção do outro, em logo continuando sua conversa. - Meu nome é Evelyn Newell, espero não estar incomodando, mas gostaria de fazer uma proposta sobre um clube.
Marion
As semanas em St. Clavier quase sempre eram tediosas, e o pior eram todos os primeiranistas tentando socializar, especialmente os filhinhos de família rica que não sabiam com quem conversar no internato. Achava gracioso como eles não tinham nenhuma iniciativa para viver independentes, e pior ainda, independentes da bolhinha social em que estavam acostumados.
Mas felizmente tinham aqueles garotos bonitinhos que dava para dar meio crédito. Tinha saído com um trio desses, de longa data para o almoço, e embora estivesse com toda a paz no mundo conversando besteiras enquanto devorava um mil folhas limitado da Academia naquele dia da semana, não pode senão notar a figurinha de cabelo ruivo com o uniforme todo alinhado vindo na direção de sua mesa, o que lhe fez arquear uma sobrancelha e lamber o açúcar no canto da boca.
Ele cheirava a almofadinhas, e teve que se controlar para não estalar a língua e ser mal educado, julgando um livro pela capa.
Claro que foi inevitável quando, dentre todos os bons garotos ali postos, ele se dirigiu especificamente a Marion Limoges. Tentou dar um pouco de atenção a conversa dele, mas claramente se deixou coçar atrás da orelha.
- Satisfação, Evelyn Newell. Por acaso a proposta do seu clube é finalmente um clube de dança para St. Clavier? Estamos necessitados de um há muito tempo. – falou, mantendo pelo menos a boa educação. – Ah, e esses são Tristan, Luca e Brian.
Evelyn
Agora que podia realmente ver de perto a figura do Limoges, teve de concordar com Berthold em dizer que ele era realmente um homem bonito. Talvez fosse por isso que chamasse tanta atenção e estivesse rodeado de outros alunos.
Se manteve em pé mesmo quando ele finalmente deu atenção, respeitando bem o espaço dele, mas teve algumas ressalvas sobre a primeira impressão que havia causado ao mais alto. Sorriu, bastante cortês, especialmente quando ele apresentou os outros três garotos que estavam o acompanhando no horario do almoço. Não reconhecia nenhuma das figuras, mas também não faltaria com educação com eles:
- É um prazer conhecê-los. - fez um aceno positivo para os três, e depois tornou a atenção para o Limoges - Tenho pesar de informar não se trata de um clube de dança. Porém acredito que isso possa ser facilmente resolvido conversando com o Lukashenko, no Conselho Estudantil. - negou a ideia do clube de dança formalmente, mantendo o mesmo tom de voz bem polido - Eu gostaria de falar sobre o clube de ciências que estou tentando reabrir, e como já tenho investidores e a papelada pronta, preciso de membros para tornar a reabertura possível. Acredito que a sua presença seria uma boa adição.
Falou, como se tudo fosse uma simples conta de matemática. Já tinha toda a parte da equação mais complicada resolvida, e agora estava apenas terminando a parte mais simples, mas que a soma ainda era importante para o resultado correto.
- Eu posso falar mais sobre, se for do seu interesse.
Marion
Ao menos o rapaz sabia não se meter na mesa sem ser convidado, e tinha finalmente parado para cumprimentar os outros indivíduos à mesa. Era um garoto de boa educação. Mas era o mínimo que esperava de um aluno de St. Clavier. Claro, que como estranhamente esperava, ele logo se voltou completamente para uma conversa consigo.
Só conteve a expressão quando ele falou “tenho pesar de informar”. Ele tinha 68 anos?
Abriu a boca quando ele falou que na verdade estava lhe convidando para um grupo de ciências, e só assim não foi capaz de conter o franzido a testa e a clara expressão de quem não sabia para onde ele ia com essa conversa.
- Newell, veja bem... se isso foi ideia do professor Martin, nem tente. Eu mesmo vou informar a ele que atividades extracurriculares não vão me fazer gostar mais de ciências. –respondeu, torcendo os lábios de leve. Então encarou o rapaz longamente, um tanto intrigado. – Se é ideia sua, eu gostaria de saber, o que lhe deu remotamente a ideia de que eu seria uma boa adição a um clube de ciências. Não que eu seja um tonto em ciências, mas não estou entre os melhores da classe, certeza.
- Três e me- - Brian tentou falar com ar de riso, levando uma cutucada direta na barriga para calar a boca.
Evelyn
Não tinha particularmente nenhum interesse nos outros meninos que acompanhavam o Limoges. Não tinha ouvido falar deles em específico, havia lido tanto sobre os alunos de St. Clavier de nome ou feitos importantes e não viu nenhum que lembrasse o nome desses três, portanto acreditou que cumprimentar os três seria o suficiente.
Ficou um pouco confuso com a expressão dele, talvez não tivesse sido claro com as palavras? Foi então pego de surpresa pela pergunta que foi logo jogada de volta para ele. Tentou não mostrar muito isso no rosto, mantendo o semblante neutro de sempre. Não era óbvio o porquê do convite?
Um dos outros garotos que o acompanhava até tentou comentar algo sobre as notas do outro, mas foi cortado. Assim que teve espaço para continuar, Evelyn o fez:
- Não, não foi ideia do professor Martin. Foi realmente ideia minha, uma sugestão indireta do presidente do Conselho Estudantil, também. - comentou, fazendo gestos breve enquanto explicava - Qualquer adição é bem vinda à um clube desde que seja bem pensada e possa cumprir a tarefa designada. Veja bem, você não precisa necessariamente ser bom em ciências, se você ficar encabido da parte social, que é exatamente a parte que iria sugerir para você. Haverão outros membros para administrar diretamente a parte relacionada à isso, você pode ficar tranquilo. No final são ganhos para todos.
Marion
Arqueou uma sobrancelha para a reação dele ao ser questionado sobre a própria decisão. Ficou curioso especialmente porque Evelyn Newell parecia se esforçar bastante para manter uma pose profissional. Não sabia que tipo de jogo ele estava acostumado, ou que tipo de pessoa era, mas por que os alunos de St. Clavier não podiam simplesmente serem simpáticos e abertos? Era difícil assim ser educado com um sorriso no rosto?
O jeito que ele falou em seguida o fez parecer extremamente político, para não dizer que ele parecia um homem de 50 anos tentando vender aspiradores de pó. Podia não ser bom em ciências, mas não precisava ser nenhum gênio na matéria para interpretar cada palavra dele muito claramente, porque tinha – como o próprio ruivo indiretamente pontuou – um pouco de versatilidade social.
Desfez a cara de bom moço prontamente, e olhou Evelyn de baixo, levantando a sobrancelha claramente para ele.
- Ora, Newell, eu acho que o presidente esqueceu de lhe avisar que em geral, os clubes são administrados por pessoas que têm interesse e possam pensar nas melhores possibilidades para os clubes. Uma pessoa como eu, que não tem interesse em ciências, certamente seria o oposto do que você precisa, que é alguém que tenha paixão pra agregar ao clube. – esperava ter deixado bem justificado porque não seria um bom membro pro clube, e supunha que mais perto da linguagem dele de velho de 50 anos. – Agora que falei isso... você quer uma cara bonita pro seu clube? Um representante de vendas? Ou você quer um nome para fazer campanha de como o clube de ciências é legal para os meninos ricos que queiram deixar o dinheirinho deles em experimentos? Porque pensa, garoto, o que eu ganho sendo garoto propaganda pro seu clube? Descontos na cafeteria?
Evelyn
Evelyn esperava ter sido sucinto o suficiente na sua explicação para Marion Limoges. Afinal sabia o que queria desde o momento que tinha colocado os pés na cafeteria, então só precisa saber o que interessaria ao mais alto, uma simples troca de negócios, correto?
Percebeu a breve mudança de humor, e a maneira que ele tomou tempo para reparar algo no próprio ruivinho. Então, vindo com a explicação sobre a falta de interesse na área de ciências, e quais seriam os ganhos que o mais velho teria participando de um clube da qual não fazia a mínima questão de fazer parte.
— Ah, isso é simples. — Começou assim que ele terminou o ponto sobre descontos na cafeteria, o que tirou um sorriso de Evelyn. Isso não seria de um clube de culinária? — Veja bem, o problema não é dinheiro, eu já tenho os investimentos necessários para fazer o clube funcionar. O que realmente me falta são membros para que o clube possa funcionar, e por isso estou disposto a chamar membros mesmo que não tenham interesse na parte de ciências. — Evelyn explicou tudo com bastante certeza e confiança, afinal já esperava que chegasse nesse tipo de conversa — Eu já sei o que preciso, mas é por isso que vim até aqui. Você, Marion Limoges, é uma pessoa necessária para a abertura do clube. Então como eu já sei o que quero, preciso saber o que você precisa, para que eu saiba o que te dar em troca.
Explicou mais abertamente seu lado, esperando então que finalmente pudesse chegar à um consenso com o Limoges e ambos saissem satisfeitos.
Marion
Marion até tinha alguma paciência. O mínimo que podia ter, claro, mas alguma. Mas quando Newell continuou a explicação, e começou apontando que se dinheiro fosse o problema, ele tinha, Marion abaixou de leve a cabeça para encará-lo com um olhar um tanto condescendente. Já tinha ouvido aquela conversa de muito mais do que um aluno de St. Clavier que queria se aproximar dele apenas pelo sobrenome. E o ruivinho terminou de confirmar que a utilidade de Marion era apenas por ser quem era, e nada mais. Receber um salário para ser um Limoges em uma academia cheia de mauricinhos. Isso lhe dava ranço.
Acabou levantando e apoiou as mãos na mesa, ficando frente a frente com o garoto.
- Own. Não é fofo que você saiba exatamente o que quer quando é tão novinho? Aposto que vem de uma família de gente que está acostumada a negociar em termos genéricos, e abrir mão do dinheiro por mim deve lhe parecer muito natural... aliás, é seu dinheiro? Porque veja, já é meio estúpido tentar me subornar... vai ser mais estúpido ainda se for o dinheiro de seu papai e mamãe, que não é seu, bebê. Pode lhe fazer parecer meio mimado, meio estragado, sabe? E se eu não quiser o que você tem, vai ligar pra papai pra pedir mais? – Marion certamente não segurou o tom de deboche da fala, tampouco a expressão condescendente enquanto encarava o menino. – Sabe, Newell, eu acho que você vai encontrar muita gente aqui disposta a fazer alianças com gente de sobrenome bonito e que tenha dinheiro, e aí vocês podem conversar na sua bolha de gente aristocrata, mas eu? Eu detesto ciências, e detesto ainda mais gente de nariz empinado que acha que consegue tudo que quiser com a moeda de troca certa.
Marion abriu um largo sorriso, e então pegou na bochecha do ruivo, dando uma apertadinha carinhosa breve.
- Mas o bom é que gente assim depende da boa vontade alheia, assim como você depende da minha agora. E o bom de ser necessário é que eu posso dizer “não”. Porque o que eu preciso não é de dinheiro, nem de aulas de ciência, nem de conversinha de gente rica... eu preciso que você aprenda que é ruim, sabe, depender da fama e dinheiro dos outros. Tontinho. – Marion então cutucou os três outros amigos, que acabaram levantando. – Algo mais antes que eu vá? Não vai chorar pros seus pais, vai?
Evelyn
Explicou tranquilamente sobre a ideia que possuia para o clube de ciências e o papel que ele poderia desempenhar dentro do clube. Realmente, oque mais precisava escutar era o que o Limoges poderia querer em troca. Porém, a expressão dele pareceu mudar para uma que deixou Evelyn um pouco confuso.
A confusão ficou clara no rosto do ruivinho, agora tendo que olhar um pouco mais para cima para poder olhar nos olhos de Marion, claramente sem entender o ponto que Marion queria chegar. Era óbvio que sabia exatamente o que queria, afinal, se não tivesse certeza do que queria, como poderia chegar até ali para fazer uma proposta ao mais velho? Obviamente não chegaria para oferecer à ele um dinheiro que não fosse primeiramente do próprio Evelyn.
Todo o comportamento de Marion naquele momento estava sendo confuso. Estragado? Suborno? De onde ele havia tirado essas ideias? Não havia sido claro o suficiente nas suas palavras? Como a comunicação havia sido falha assim? Até cogitou em explicar a situação, foi cortado pelo raciocínio contínuo de Marion, que ao menos, foi uma grande explicação na cabeça do menor.
Ele não gostava de ciências. Mais do que o normal.
Antes que pudesse estranhar a aproximação, sentiu o aperto leve na bochecha que o pegou de surpresa, o que o fez levar a mão até a área levemente dolorida, massageando de leve.
— Limoges, eu gostaria de esclarecer algumas coisas. O dinheiro oferecido é diretamente pelos patrocinadores, ou seja, é o meu dinheiro. Eu não teria como trazer segurança para uma proposta se a primeira coisa oferecida não fosse necessariamente minha, correto? Acredito que estamos esclarecidos na questão de dependência — respondeu calmamente enquanto massageava a própria bochecha, confuso com a reação do rapaz — Segundo, é uma pena que você não goste de ciências, realmente. Deve ser algo que lhe desagrade bastante... Mas está correto, se você diz não, é não. Independente do que eu tenha para oferecer. Portanto, eu não irei mais importuna-lo sobre esse assunto. Como vejo que está com pressa, se em outro momento puder me dizer os nomes de quem acredita que podem se interessar pela proposta, ficarei grato.
Fez um breve aceno de despedida para o moreno, e então para os amigos dele:
— E não, eu não preciso de mais nada, mas eu fico agradecido pela preocupação. Garanto que não existe necessidade de ficar emotivo sobre uma proposta má-sucedida. Espero que tenha uma boa tarde.
Assim, da mesma maneira que veio à procura de Marion, Evelyn deu as costas e fez o caminho para saída da cafeteria. Tinha mais algumas coisas a resolver e pessoas para conversar sobre propostas para o clube. Apenas pensava que ele não precisava ter apertado sua bochecha daquela maneira. Algum cumprimento estranho?
Marion
Esperava uma reação muito diferente do garoto ruivo, isso era certo. Geralmente aquele era o momento em que via as bochechas inflarem, a raiva deixar todos os menininhos novos e mimados com a cara de que iriam explodir, ou pelo menos os via empinar os narizes o quão alto podiam para ver se sentiam o cheiro da própria soberba. Estranhamente, o garoto Newell parecia mais resiliente.
Mas a medida que ele ia falando, começou a notar uma coisa interessante. Não era que ele era resiliente, mas que ele não tinha entendido que o motivo pelo qual estava pouco interessado em colaborar era o fato dele querer usar seu nome, e não o fato de não gostar de ciências. Na verdade, a conclusão a qual chegava era que Evelyn Newell deveria ter muito talento em alguma coisa, mas entender as entrelinhas certamente não era o talento.
- Ora, quem diria, ele é um empresário emancipado. Muito bem, Newell. Acredito que com sua boa educação e esperteza, logo você vai achar outra pessoa com essa mesma paixão por ciências que você. - Marion falou com uma sobrancelha arqueada que lia um desdém claro. O logo foi um gatilho para leves risadas dos rapazes que sentavam com o moreno. - Boa sorte com seus próximos empreendimentos.
O rapaz acenou, sacudindo a cabeça negativamente e chamando os outros para lhe seguirem. Tinha achado um encontro bem desgostoso. Mas nada mais que um dia em St. Clavier. Quem sabe as próximas interações deixassem o ruivo mais ligado?
[Thread encerrada 8D]

