[Drive] Take That Burn [Dia; Wilbert]
#1
Dia

Tinha sido uma pena para Dia que Renaud tinha se recusado a ir até sua casa, mas bem verdade é que supunha que seria desagradável para seu sobrinho ficar em seu apartamento com Wilbert, que tinha servido tanto quanto uma porta durante o caso da queimadura. Honestamente, a convivência com ele não estava sendo tão insuportável quanto esperava, até porque quase nunca se viam, mas já estava se arrependendo da decisão que tinha tomado bêbada.

A única coisa boa disso tudo era que agora não tinha problema algum com o aluguel. De resto, era só dor de cabeça.

E sabia que no retorno para casa, teria mais dor de cabeça, pois seria impossível Wilbert não aparecer em seu apartamento com todas as justificativas e reclamações do mundo – mas, antes de mais nada, desempregado? Provavelmente seria isso. Não que de fato ele tivesse controle sobre o que acontecia em uma cozinha, acidentes eram um fato comum, sabia bem como professora de Economia Doméstica. Mas ele não estava pronto para lidar com o caso de Renaud, e pior ainda, para lidar com sua família.

Decidiu refrescar a cabeça com uma garrafa de cerveja, sentada em seu sofá, apenas esperando saber o que aconteceu com Wilbert também.

Wilbert

Chegou na residência da morena que pertencia àquela família que estava aprendendo bem a já odiar. Estava tão nervoso que agradeceu por não encontrar nenhum vizinho ao subir as escadas para chegar no andar do apartamento que dividia com Dia Blanco, pois mil pensamentos passavam por sua cabeça enquanto repetia todos os acontecimentos até aquele ponto que teriam lhe colocado naquela situação.

Abriu a porta de supetão e sequer enxergou a morena na sala, tomando cerveja. Deixou a porta semi aberta ao se adiantar para o próprio quarto. Precisava de seus remédios ou com certeza teria uma síncope.

- Mas que merda de família é essa que não acompanha o garoto e quando algo acontecem, querem me jogar toda a responsabilidade!? Pro inferno com os Blanco! - reclamou, parecendo mais estar gritando pois estava falando mais alto que o de costume, e o seu costume já era falar alto.

Voltou para a sala ao engolir dois comprimidos sem água, reencontrando a morena tia de Renaud Blanco.

- Qual é a porra do problema do seu irmão?! Ele não sabia que o garoto não estava bem?! E por que porra ele estava ausente das aulas esse tempo todo? - gesticulou inquieto e irritado, movimentando-se de um lado para o outro do cômodo, fazendo barulho a cada passada. - Você sabia que ele não estava bem, não sabia?! Você sabia que ele teria aula comigo e resolveu ficar com a porra da boca calada pra me fuder, não foi?!

Naquele momento, se a morena estivesse envolvida no segredo do mal estar de Renaud Blanco não lhe surpreenderia mais. Ela fazia questão de enfatizar que não estava preocupado com o bem estar do rapaz, apenas com o seu próprio. Sabia que era muitas coisas, mas jamais deixaria que o sobrinho dela entrasse em sua cozinha se tivesse percebido que ele não estava em condições de estar lá. Mas ele havia feito questão de terminar o curso. Ainda se perguntava se a gastronomia realmente significava tudo aquilo para ele.

Dia

Era muito difícil NÃO saber quando Wilbert chegava no apartamento. E naquele dia tinha sido excepcional a entrada dramática dele xingando os Blanco em uma voz que certamente fazia ele parecer que estava gritando. Deu um gole na cerveja já que ele não lhe viu, e fechou a porta com a mão, pelo menos para poupar seus vizinhos.

Para piorar, quando o loiro finalmente lhe enxergou depois de tomar o que esperava serem dois calmantes fortes, ele continuou com o tom miserável em sua direção, falando sobre Deodatos – o que pouco lhe incomodava – e completando por lhe acusar de fazer parte de algum conluio Blanco para lhe derrubar. Dia arqueou uma sobrancelha discretamente, e então colocou a cerveja delicadamente no chão.

- Diferente das suas teorias da conspiração, Funske, eu não tenho contato o suficiente com o meu sobrinho para conseguir arrumar uma tramóia dessas. E olhe, embora eu tenha muita raiva de você, eu não iria querer que um garoto machucasse as mãos para lhe ver puto, o que vejo regularmente. – ela tentou racionalizar pelo gigante, que não parava de caminhar de um lado para o outro. – E vou lhe dar outra dica sobre Renaud e Deodatos: St. Clavier é um internato. Meninos e meninas conseguem sumir e não dar justificativas para os pais de casa, imagine o tipo de liberdade que não tem em um internato. Ou você era o garoto certinho que contava tudo pros seus pais?

Dia revirou os olhos.

- Você não entendeu nada do que eu te disse no hospital, não é?

Wilbert

- É bem claro que vocês não tem contato algum, Dia! - esbravejou, interrompendo a mulher enquanto ela falava, furioso mais ainda com o ar “didático” da morena para com sua figura.

Tentou acompanhar o raciocínio da mulher que, no final das contas, só aumentava suas dores de cabeça. Aparentemente ela estava tentando lhe fazer entender que Renaud Blanco, em St. Clavier, poderia ter seus próprios problemas pessoais e não envolver a família no meio. Até achava o cenário plausível, ainda que tivesse tido uma educação bastante restrita e regrada por ter sido o responsável pela parte da criação de suas irmãs.

- Não, senhora! De certo que o comportamento da sua família é algo que me foge a percepção! - continuou, repleto de ironia na própria voz de tom alto. - Vamos, por que não me esclarece o que porra estava tentando dizer no hospital?! Eu já estou fudido mesmo com a porra da escola! Seja a perfeita professora que você deve ser e me explique o que diabos está acontecendo!

Podia sentir o sangue correndo mais rápido e pulsando para sua cabeça e extremidades. Continuou andando de um lado ao outro da sala, tentando evitar a sensação fria devido ao cenário caótico em que havia se inserido. Estava preso naquela cidade e seu advogado certamente entregaria seu caso. Não conseguia lidar com a própria frustração de ter cedido ao pedido de um de seus melhores alunos para poder terminar naquela situação. Não sabia se tinha mais raiva do rapaz Blanco ou se continuava preocupado com o fato da família aparentemente não se importar com o que acontecia ou deixava de acontecer com ele, desde que o nome Blanco não corresse o risco de sair manchado.

Dia

O fato dele tentar lhe interromper lhe deixou irritada. Era como se Wilbert fosse estúpido, ou surdo, ou os dois, porque era muito fácil compreender que ela e Renaud não tinham contato próximo. Na verdade, teria que explicar letra por letra a situação do menino, que ela honestamente não queria assumir a partir de um breve momento com ele no hospital?

Como se não bastasse, Wilbert ainda tentava ser irônico, mas berrando como ele estava, só parecia ter assumido uma postura extremamente defensiva que não ajudava em nada ele naquele caso. Queria se fazer de coitado? Um homem daquele tamanho?

- Você não tem ideia do quanto lhe foge a percepção o comportamento da minha família e é isso que eu estou tentando lhe alertar desde o hospital. Acha que ficando na defensiva sobre o caso vai lhe ajudar? Pois não, Funske, não vai. Abaixe suas orelhas e aceite que mesmo que tenha sido um acidente, e que possa acontecer com todo mundo, isso aconteceu na SUA aula, e é SUA responsabilidade. E por isso você vai ter que pedir desculpas para todo mundo envolvido. É isso que eu estou dizendo. Porque se continuar agindo como se tivesse feito todo o esforço e fosse o homem mais preocupado com a situação, pense de novo, porque nenhum dos Blanco vai querer ouvir o que você fez depois do ocorrido, vai só querer culpar alguém pelos problemas passados, e adivinha quem vai ser o bode expiatório?? – Dia avisou com um tom muito mais intenso do que tinha usado no resto da conversa. Talvez porque estivesse falando dos Blanco, se sentia no direito de usar todas as suas boas palavras firmes. Tinha plena certeza do que estava dizendo. E sequer tinha percebido que estava franzindo a testa. – E você não tem ideia de como é minha família, ah, não. Porque depois que eu fui embora, eu tive que ver a cara do meu sobrinho surpreso por não conseguir imaginar que ninguém da família se prestaria a ajudá-lo, e olhe que pelo que sei de Renaud, ele é um filho que se presta a fazer as coisas que os Blanco pedem! Eu moro sozinha em um apartamento de segunda porque não aguentava viver com minha família...! Meu pai... meu pai é um bom homem, mas minha mãe... Funske, você não tem ideia da encrenca que seria se ela soubesse disso tudo...! É muito mais fácil lidar com o Deodatos...!

A morena engoliu em seco, sentindo a cabeça pesar de cuspir tudo aquilo sem querer, apesar de que Wilbert só queria uma explicação breve e didática. Mas havia tanto tempo que não falava dos Blanco que sentiu um desconforto imenso, e já que Wilbert não entendia a situação, vomitou ela inteira para ele, a ponto de ter que respirar fundo, os olhos azuis escuros quase que enchendo de água no processo. Mas chorar na frente de Wilbert? Nunca de novo.

Wilbert

- Que tipo de família fudida é essa sua, Dia?! - interrompeu ela de novo antes dela acabar justamente quando ela estava falando sobre o próprio pai. Sequer prestou atenção nas feições alteradas da mulher, o suor frio escorrendo pelo seu rosto até o queixo. - Por que diabos você não ajudaria ele?! Ele é seu sobrinho, inferno! E que tipo de coisas são essas!? Você fala como se a sua família fosse a porra de um grupo de mafiosos!

Levou as mãos até a própria cabeça, diminuindo o passado de um lado pro outro, ainda com o uniforme de trabalho desde quando havia saído de seu restaurante para levar o garoto no hospital, até a saída do hospital para o apartamento que dividia com a mulher.

- Você já deixou bem claro que nenhum dos Blanco se importa com os detalhes do acidente, ainda que tenha sido a merda de um acidente! - franziu o cenho, respirando fundo algumas vezes ao se deparar mentalmente com todo o mal estar que aquela situação lhe causaria. - Foda-se essa merda!

Adiantou-se para deixar a sala, deixando a morena falar sozinha fosse lá o que ela ainda tinha para lhe falar. Sabia que não deveria agir de forma impulsiva naquele tipo de situação, mas saber que estava sob o mesmo teto que alguém daquela família que até então só havia lhe causado problemas lhe doía o estômago. Com ruídos audíveis, tratou de jogar o que era seu em alguma caixa de produtos vazia que havia trazido de seu restaurante, puxando suas roupas do cabide com violência, jogando-as sobre a cama. Aproveitou para se livrar da parte superior do uniforme e vestir uma camisa mais discreta.

Dia

Quando Wilbert lhe interrompeu uma segunda vez, percebeu que talvez estivesse gastando tempo demais tentando ensinar uma pedra a falar. Porque ele escolhia ser plenamente estúpido, ou não estaria repetindo o que tinha acabado de dizer ao invés de só aceitar que ela era uma Blanco e estava falando sobre os Blanco com um tom de alerta. Ao invés disso, Wilbert preferia se questionar se eles eram um bando mafioso.

- É um bando de políticos, Funske, o que é igual. – respondeu em um tom menos alterado, porque estava descrente que ainda estava falando com ele ali. Se só pudesse cuspir as pressões que sua família tinha colocado sobre si, talvez ficasse mais claro para o loiro, mas se ele fazia questão de não lhe ouvir, não faria questão de contar. A última coisa que queria era Wilbert sabendo demais de sua vida pessoal.

Só que como se não fosse o suficiente, ele pareceu esbravejar ainda mais, nervoso com a situação, e Dia apenas respirou fundo, apertando as mãos para se conter, porque já não tinha paciência alguma para tentar ajudar Wilbert.

- Ah, foda-se você, Funske. – falou com a testa franzida, indo até o sofá e pegando sua cerveja no chão, colocando-a na pia e deixando-o fazer todo o barulho que queria, que não mudaria sua vida. Sentou-se na televisão e ainda irritada, colocou em um canal de filmes de ação, meditando para ver ficava em paz. Não tinha nada mais que fazer pelo loiro.

Wilbert

Terminou de jogar alguns de seus pertences em sua bolsa de academia, deixando outros separados no meio da bagunça que agora estava seu quarto pela urgência de separar tudo. Saiu do quarto para assistir a mulher sentada à frente da televisão, assistindo algum filme de ação depois de tomar a própria cerveja. Encarou a cena descrente da postura dela frente a todo aquele caos.

- Inacreditável! Você vai mesmo ficar com a bunda sentada aí no sofá enquanto o seu sobrinho está no hospital? Não vai nem sequer tentar descobrir o que aconteceu? Porque claramente os pais dele não dão a mínima! - ergueu as mãos, buscando ar antes de jogar a bolsa na mesa da sala de estar, dando as costas para a morena ao ir no banheiro buscar seus remédios. - E você é uma professora em Limoges! Não sabe nem a merda da saúde do seu sobrinho, quanto mais das suas alunas! Não me surpreende nunca ter saído daqui!

Estava irritado, isso era certo, e encarar Dia, especialmente ela sendo uma Blanco, sentada no sofá, assistindo seu filme na televisão, enquanto não fazia nada, só conseguia lhe irritar ainda mais. Só conseguia pensar em como aquela família era disfuncional e em como o garoto deveria mesmo estar acostumado a tomar conta de si mesmo diante de dificuldades como aquela.

Voltou para a sala e ficou à frente da televisão da mulher, impedindo a visão dela do filme de propósito, já que estava irritado, ela poderia ficar um pouco também, já que parecia bastante condescendente com toda aquela situação.

- Psiu, presta atenção aqui! - estalou os dedos, tal como falava com seus alunos na sala de aula, o tom de voz exagerado. - Eu vou ver o que eu posso fazer sobre essa situação de merda no meu trabalho, ouviu senhora Blanco? - respirou fundo, encarando a mulher como se ela fosse incapaz de lidar com confronto. - Quando é que você acha que aquela médica vai liberar o garoto? Sua família falou alguma coisa agora que você é a pessoa que estava com ele lá? Aliás, sua família sabe que vivemos sobre o mesmo teto? Ou será que isso é mais uma das informações da sua rebelião pessoal? - perguntou sem controlar o tom de deboche.

Dia

Como obviamente Wilbert não tinha terminado de ter seus próprios diálogos mentais consigo mesmo em que ele era o dono da razão, Dia não desviou o olhar da televisão por um instante, usando a cena de ação do filme para meditar e ignorar o loiro em todo seu pico de estresse, que era mais insuportável que o usual.

- Não. Já fiz minha parte. E já sei o que aconteceu. Não preciso me meter demais na vida de alguém só para me sentir melhor por seus erros. – respondeu muito calmamente, e se ele lhe ouvisse, ótimo, se não ouvisse, tudo bem também. Só parou um instante muito séria quando Wilbert decidiu jogar suas frustrações como professor sobre si, criticando sua postura em Limoges que ele não conhecia e nem sabia nada sobre. Respirou mais fundo, e contou mentalmente os carros na cena de perseguição que estava acontecendo na televisão, porque não valia nem gastar saliva tentando retrucar.

Mas obviamente Wilbert estava determinado a lhe estressar tal qual estava estressado. Quando ele se colocou na frente da televisão, sequer mudou os olhos de onde estava, fingindo que ele era transparente, embora sentisse cada pelo do seu corpo eriçado de tanta raiva que sentia, o que só seria óbvio se ele conseguisse descerrar seus dentes dentro da boca. Mas o limite para Dia foi ouvir ele lhe chamar de senhora Blanco, como já tinha dito para ele não fazer em mais de uma ocasião. Isso fez com que erguesse os olhos para ele, primeiro com o cenho bem franzido, mas depois Dia só pôs uma expressão cansada, a medida que ele lidava com sua “rebelião pessoal” com aquele tom condescendente. Só sentiu o corpo mais pesado, como se tivesse sido assolada por uma energia negativa, e os olhos até chegaram a encher de água, mas não derrubou uma lágrima sequer.

- Eu não sou senhora Blanco. – disse ao levantar do sofá devagar, sentindo-se desgastada por toda aquela discussão infundada e unilateral. – E também não sou obrigada a ouvir você me insultar ou tecer suas opiniões sobre mim como se eu fosse seu inimigo aqui, só porque sou Blanco, como se isso fosse lhe deixar menos fodido. – Dia falou com um tom seco, então virando-se para a entrada para calçar seus sapatos novamente, certa de ir embora dali. – Eu cansei de tentar ser racional com você. Eu pensei que pudéssemos conviver como dois adultos, mas você é um completo estúpido, e eu cansei de tentar achar justificativas para deixar você aqui tirando a paz da minha casa. Eu queria ser humana e pensar que você já teve estresse o suficiente por hoje, mas você não merece nem isso. Aproveite que já separou algumas coisas e separe o resto. Vou descobrir como cancelar nosso contrato de aluguel e tirar a cabeça de você. – pegou a chave da moto e o capacete, não necessariamente se preparando para falar com um advogado. Só queria dar uma volta e espairecer. Achar um cantinho longe onde podia berrar de ódio e chorar, sonhando que Wilbert sairia dali em paz e não precisaria chamar a polícia para levá-lo.

Wilbert

Estranhou a reação da morena, principalmente quando ela resolveu se levantar do sofá e ir calçar os próprios sapatos. Ficou surpreso com o aviso dela para que fosse embora dali definitivamente, mas ficou ainda mais consternado com a ideia de que ela estava pegando a chave da moto e do capacete, indicando que de fato sairia dali com a própria moto enquanto tirava suas coisas do lugar. Por um instante, sentiu a raiva fluir por suas veias e dar lugar a um sabor amargo em sua boca. Estava tudo errado. Queria saber como o garoto Blanco estava e descobrir alguma forma de poder ter notícias sobre ele e também estava frustrado com a forma da família da mulher, que havia sido a única parente do garoto a atender o seu chamado, mas acabou fazendo as perguntas erradas da forma mais torta possível.

- O-Oi! Dia! - franziu o cenho de novo, adiantando-se antes dela alcançar o final do corredor para deixar o bloco de apartamentos. Deixou a porta do apartamento dela aberta para trás e segurou a mulher pelo braço sem pensar duas vezes. - Eu já estava saindo! O que você vai fazer dirigindo uma moto assim? Quer se juntar ao seu sobrinho no hospital?

Ainda estava frustrado e irritado com toda a situação daquela noite e a confusão em seu trabalho, mas definitivamente sabia, por experiência própria, que sair para dirigir com a cabeça cheia não era uma boa decisão. E apesar das constantes provocações e discussões, não desejava que nada ruim acontecesse com a mulher. No final das contas, ela era a única que parecia querer lhe ouvir e aturar suas reclamações. Talvez tivesse passado do limite, mas também havia visto que ela havia bebido. Deixá-la sair daquela forma o faria se sentir culpado se algo ocorresse com ela, tal como já se sentia por ter permitido que o jovem Blanco tivesse participado da prova de gastronomia em sua cozinha.

Dia

Estava certa de que ele tinha entendido que toda sua postura e todas as suas palavras indicavam que queria ser deixada plenamente em paz. Porém Wilbert vivia em um mundo alheio dentro da cabeça dele, e não demorou, para que quando saísse do apartamento, ele viesse logo atrás, ainda deixando a porta aberta, o que lhe deixou enfurecida. Tentou apertar o passo, mas ao invés dele entender que era só lhe deixar ir, ele lhe segurou pelo braço, o que fez com que o corpo inteiro se arrepiasse de ódio.

- Funske...! Me solte agora, ou eu vou gritar e colocar mais uma acusação na sua ficha criminal... – Dia ameaçou num sibilo, os olhos azuis abertos enquanto voltava-se para Wilbert, claramente se segurando com toda força para não simplesmente cumprir a ameaça e chamar a polícia nas costas dele. O motivo dele lhe segurar era ainda mais frustrante. Sabia que não estava em condições ideias para dirigir, mas era só aquilo que podia lhe acalmar naquele momento. – Se eu vou parar no hospital ou não, não te interessa. Eu vou sair. E você vai fechar a porta do apartamento e ir embora.

Ela tentou se soltar, notando o quão forte o loiro era, e o quão persistente também. Não foi até a terceira sacudida que Dia perdeu a paciência e tentou bater nele com o capacete, já cansada de tentar ser racional. Por que ele simplesmente não ia embora e lhe deixava ficar em paz?

Wilbert

Ficou surpreso quando ela ameaçou gritar e lhe acusar criminalmente. Engoliu em seco e afrouxou o aperto no braço dela, mas não soltou, certo de que deixar a morena sair dali depois de beber para dirigir a própria moto com a cabeça cheia de raiva por ele não era uma boa ideia. Já havia feito o mesmo em muitas situações por ser contrariado e nunca acabava bem. Temia que talvez tivesse irritado a mulher ao ponto da burrice.

- Eu só queria saber se tinha como ter alguma informação sobre o seu sobrinho, sua maluc--! Dia! - franziu o cenho ainda surpreso quando ela começou a lhe agredir com o próprio capacete da moto. Não resistiu às pancadas dela, pois não era do tipo que revidava ou lutava contra mulheres. Só queria impedir que ela adicionasse mais um acidente na sua lista de culpa por não dar ouvidos aos seus instintos de que alguma merda iria acontecer. - Droga, Dia! Pare com isso!

Buscou ar e se adiantou para tirar a mulher do chão, carregando-a como já havia feito com o próprio sobrinho dela. Ignorou qualquer protesto dela e voltou para o apartamento, soltando-a depois de fechar a porta por onde ela anteriormente tinha saído.

- Claro que me interessa se você for parar no hospital ou não! Eu não quero que isso aconteça! - ficou a frente da porta no caso dela tentar sair novamente. - Olhe, me desculpe pela minha reação, foi um dia cheio e eu falei um monte de merda! Mas eu já disse que iria embora! Você não precisa sair do seu próprio apartamento porque não quer ver a minha cara! Eu volto depois para buscar o resto das coisas! - tentou convencê-la a desistir da ideia estúpida de sair dali após beber para ir dirigir uma moto, provavelmente em alta velocidade. Ainda estava nervoso por tudo que havia acontecido até então, mas não iria ignorar a preocupação que tinha com a mulher, apesar de constantemente discutirem pelos mais ridículos assuntos.

Dia

Já estava tão cega por causa da ira com o maldito do cozinheiro que sequer notou que ele havia folgado seu braço e continuou com os golpes com o capacete até notar que estava solta. Sua respiração estava ofegante, porque estava cansada demais de tentar se soltar de Funske. Já tinha perdido toda a compostura que tinha, e lhe restava apenas o cansaço e o ódio.

Porém, quando achava que estava livre de Wilbert finalmente, sentiu que foi levantada do chão, e foi pega tão de surpresa, que inicialmente nem reagiu, porque se sentiu completamente indefesa e pequena contra um homem tão impossivelmente teimoso como Wilbert. Isso facilitou que ele lhe carregasse até metade do caminho, porque quando a morena acordou para o que estava acontecendo, se debateu e arranhou como se fosse um felino arisco sendo carregado a força.

- Me solta!! Me larga!! Vá pro inferno!! – rosnou enquanto se debatia, até finalmente ser solta dentro do seu apartamento, e fechada nele como se fosse um animal em cativeiro. Isso deixou Dia arrepiada de ódio, e ela bateu na porta com a mão, arrastando as unhas sobre a madeira, e indo até a maçaneta, que Wilbert parecia decidido a não lhe deixar girar para que não saísse. – Arrrrrrrgh!!!! – ela berrou de dentro do apartamento, cansada demais para fazer mais protestos além desse. Podia dizer que ele tinha deixado ela surtar? Talvez. – Pra você basta se meter em problemas com uma parte da família dos Blanco, não é mesmo? – ela respondeu com sarcasmo, o tom de voz desdenhoso quase de volta ao normal.

Dia andou até a mesa onde Wilbert ainda tinha deixado algumas coisas, e sem nenhuma reclamação a mais, jogou tudo pela janela direto para o pátio da entrada do prédio pequeno, fechando a janela com força logo em seguida, trancando o próprio apartamento e indo direto para o próprio quarto, trêmula, lhe faltando vontade até mesmo de chorar depois de uma briga que poderia ter sido evitada de incontáveis formas. Não era obrigada a aceitar um pedido de desculpas depois de tudo. E nem se sentia inclinada a isso. Tinha metade da idade de Wilbert, e pelo visto, o dobro da sensatez. Mas tinha limite até pra sua paciência. E ela tinha se esgotado ali.

[Se quiser encerrar a thread, moço Wilbert~]

Wilbert

Depois de ser agredido pelo capacete da mulher, arranhado e estapeado, observou com surpresa ainda o surto dela ao berrar dentro do próprio apartamento. Ouviu a acusação alheia em tom de sarcasmo e ainda assistiu em choque ela jogar seus pertences pela janela. Ficou sem reação, certo de que a mulher ainda iria tentar sair do próprio apartamento para poder sair por aí dirigindo loucamente em alta velocidade na moto que era dela.

Esperou alguns minutos ainda para poder ter a certeza de que ela não sairia do apartamento. Foi até a porta do quarto da mulher onde ela deveria estar e até levou a mão à maçaneta, pensando se deveria novamente tentar se desculpar pela discussão sem sentido de momentos anteriores. Contudo, pensou duas vezes, retornando para poder finalmente sair do apartamento, deixando o capacete da morena sobre o sofá com cuidado, juntamente com as coisas dela antes de trancar o lugar e ir arrumar suas coisas na rua.

Ainda precisava voltar para o seu trabalho e tentar arrumar a situação com seu funcionário e St. Clavier. Seria uma noite e tanto até conseguir dormir e ter um pouco de tranquilidade. Depois poderia mandar uma mensagem para a morena ou telefonar para perguntar se estava tudo ir buscar suas coisas depois enquanto resolvia toda aquela situação. A discussão com Dia Blanco não deveria ter acontecido, afinal de contas, ela parecia ser uma das poucas pessoas inclinadas a lhe ajudar. Pensaria melhor como desculpar com ela depois, só estava menos preocupado pelo fato dela não ter saído para dirigir depois de beber, já havia perdido algumas permissões para dirigir por conta daquele descuido. Não queria que ela cometesse o mesmo erro. Além disso, imaginava que em breve perderia mais um bom advogado cansado de seus problemas devido ao mau temperamento. No final das contas, com a influência da família Blanco e a pressão que colocava em seus alunos, duvidava muito que conseguiria manter uma carreira naquela cidade por muito tempo.

[thread encerrada]


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