[Drive] Cavando a Própria Cova [Xavier; Diodoro]
#1
Xavier

Aquela cidadezinha pequena no interior da França era a sua melhor chance de recomeço. Por isso que depois de conseguir quitar as dívidas que seu pai tinha deixado em Paris, tinha aceitado a primeira proposta de um conhecido para trabalhar no porto de Cerise, onde quer que ficasse a pequena cidade.

Apenas duas semanas que estava trabalhando no porto, já tinha trocado de horário pelo menos três vezes e estava acostumado a virar a noite e a madrugada descarregando alguns cargueiros que chegavam no fim do dia. Não tinha problema de se relacionar com os colegas de trabalho e até estava começando a se acostumar. Até ter que participar do trabalho até uma da madrugada e esbarrar, inconvenientemente, num dos novos containers com uma carga muito específica que provavelmente não deveria ter visto. Afastou-se do container a tempo de avistar alguns trabalhadores que não conhecia de cara e que lhe encararam metade do caminho até fora do porto, mesmo depois de se despedir mais de uma vez.

Nem se importou em tirar o macacão que geralmente usava para trabalhar no porto, só era melhor voltar para casa pelo caminho mais rápido que conhecia sem ter que esperar por qualquer transporte. Era uma caminhada bem longa e esquisita, por onde tinha se perdido mais de uma vez antes de se acostumar com as ruas da cidade nova. Mas naquela noite em particular, com a sensação de que estava sendo seguido desde o porto, a caminhada foi mais rápida até do que esperava. Rápida e inconveniente, quando encontrou ainda um par de motoqueiros mal encarados que só podia competir com a sua própria expressão de poucos amigos àquela hora da madrugada, achando que ia ser morto tão cedo. Pensando bem, não eram exatamente os mesmos funcionários novos que tinha visto no porto? Uma segunda olhada e o som do acelerar da moto foram o suficiente para que os seus passos apressados se tornassem em corrida.

Não foi uma corrida com um caminho certo, apenas correu o mais rápido que conseguia e passou por cima de qualquer obstáculo que encontrou, pouco se importando com os olhares de moradores de rua e encrenqueiros que só estavam adicionando à sua mais recente paranoia. Nem parou para conferir se ainda estava sendo perseguido e entre as ruas e muros, só parou realmente quando o caminho estava escuro o suficiente para cair num buraco fundo o suficiente para lhe fazer engolir terra, ser coberto até a cabeça e ainda sentir uma pontada no pé que só despertou um grito de dor seguido de uma série de xingamentos muito enfáticos.

- ‘ta merda, se é pra morrer logo de uma vez… que porra de buraco é esse? Quem é que cava uma porcaria dessa no meio do caminho? Caralho! - olhou ao redor, já apoiando os braços na borda do buraco para sair dali, até perceber uma coisa muito específica com dizeres em pedra. Olhou para os outros lados e sentiu o sangue descer até os pés ao perceber onde tinha se enfiado. - Porra, ainda tinha que cair numa cova! Como é que eu vou sair desse buraco… tsc!

Diodoro

Apesar de trabalhar próximo ao cemitério, e ter acesso livre ao local, Diodoro não o frequentava com tanta frequência, exceto por quando estava o mais desgostoso possível consigo mesmo, o que parecia não acontecer muito desde que tinha recebido aquelas estranhas visitas recentes fossem de Hanna, ou Natalia, ou até mesmo Arsen, apesar de todas as complicações que isso tinha trazido para sua vida. Mas já tinha chegado o mês de aniversário de Casimiro, e não custava ser um bom irmão e limpar a lápide suja, de preferência em um horário onde não poderia ver aqueles irritantes pássaros pretos nem ver a cara de pena de Brigida.

Sem nenhum trabalho na funerária, pegou um balde e colocou alguns produtos de limpeza e panos limpos no fim do expediente e colocou Miro, com uma coleira e um pingente identificador embaixo do braço e seguiu para o cemitério. Era noite, mas não era tão tarde quando começou a trabalhar em limpar meticulosamente a lápide de Casimiro, primeiro tirando os líquens, depois o lodo, depois olhando as rachaduras, limpando e escovando cada ponto da pedra velha e por fim, enxugando tudo, com tanto cuidado quanto tinha preparado o funeral, parando apenas no meio do trabalho quando teve que ligar a lanterna.

Quando deu por si, suas pernas estavam dormentes, suas mãos geladas e o casaco que vestia por cima das roupas pretas, um pouco empoeirado por ficar arrastando no chão. Bateu a sujeira das roupas, vestiu as luvas e olhou para o céu escuro e os arredores silenciosos. Respirou fundo e então chamou o gato com alguns barulhos usuais, sem resposta alguma. Franziu a testa, e decidiu andar pelo cemitério atrás de Miro, a lanterna em punho pra ajudar a identificar caso visse os olhos do gato brilhando no escuro ou as malditas toupeiras que tinha que matar.

Não deu conta de quantas voltas deu pelo cemitério, talvez pensando que durante a noite aquele terreno certamente parecia grande. Mas um barulho alto chamou sua atenção, seguido de uma série de ruídos que ficaram mais parecidos com uma voz humana a medida que se aproximava. Andou um pouco mais apressado e no caminho, viu o gato atravessar na sua frente, provavelmente correndo de quem estivesse fazendo tanto ruído aquela hora da noite. Quando o ruído diminuiu, seguiu o gato e colocou a luz da lanterna para dentro da cova, dando de cara com um homem de jeito rude que parecia ter se enfiado em um problema e tanto.

- Que faz aqui? – foi a primeira coisa que perguntou, observando-o de cima com um olhar direto e inquisitivo. – Parece muito vivo. – adicionou, talvez porque a situação toda fosse ridícula demais.

Xavier

Xavier se apoiou como podia na beira da cova. Podia ser funda, mas certamente não lhe cobria até a cabeça. Respirou fundo em meio aos xingamentos murmurados, procurando um bom jeito de se apoiar e tentar subir mais com a força dos braços. Até apoiou o pé na parede de terra, mas a pontada no tornozelo foi um pouco mais incômoda para ter que se resignar a sair dali sem a ajuda duas duas pernas.

- Merda de noite, ainda mais essa, meu saco… - bufou contra o chão de terra e ao forçar o caminho para fora da cova, foi tempo apenas de avistar o flash de luz e ouvir uma voz que parecia ser a sua sentença de morte, o que lhe fez sentir um calafrio que desceu da nuca até o último dedo do pé, provocando o desequilíbrio também para cair de novo no fundo da cova com o pé machucado. Teria reclamado com o infeliz que resolveu lhe iluminar a cara até cair de novo, mas engoliu em seco quando avistou o homem mal encarado com um corte que atravessava a cara e as roupas completamente pretas, luvas inclusas, pronto para lhe enterrar ali mesmo. - Puta que pariu! Eu não vi nada! Eu juro! Eu não vou falar nada pra ninguém, não precisa me matar!

Teria se arrastado para longe dele, mas havia um limite na cova e não tinha como correr com o pé daquele jeito nem se quisesse. A única coisa que podia fazer era rezar para que ele não quisesse lhe matar, embora tivesse se condenado ao ser idiota o suficiente para dizer que não tinha “visto nada”.

- Olha cara, eu só tava trabalhando, eu não tenho nada a ver com isso e não fiz nada de errado, eu só tenho que voltar pra casa, valeu? Eu posso até sair de Cerise se for melhor!

Diodoro

O que tinha era um imã para criminosos? Porque ele tinha cara de criminoso, embora um muito idiota, que estava admitindo na sua frente que havia visto alguma coisa, fosse ela o que fosse. Ainda bem que tinha sido ele a chegar ali, e não alguém que queria de fato matá-lo, porque aquelas palavras eram as que ele precisava para morrer apenas. Claro, o fato dele achar que era um assassino não lhe perturbava. Tinha o olhar incisivo, era mal encarado, vestia-se sempre de preto como um vilão de filme de ação e pra completar tinha a cicatriz nova na cara. Se a polícia já lhe prendia por parecer suspeito, agora era ainda mais evidente que alguém lhe acharia intimidador.

Talvez fosse melhor tentar uma abordagem menos cruel com a confusão em que ele se encontrava. Se fosse mais solícito, quem sabe podia ajudá-lo a não morrer. Não que quisesse outro bandido solto por Cerise, mas a essa altura do campeonato, seria hipocrisia sua não estender a mão para alguém que precisava. Quem queria ser responsável por deixar alguém morrer?

- Não. – falou, sinalizando com a mão que bastava o que ele tinha dito, porque não iria machucá-lo como ele pensava. – Está bem? – questionou, mais solícito, então agachando próximo a cova e observando-o mais diretamente. Por hábito, Miro veio roçar em sua perna. Diodoro apontou pra se mesmo. – Coveiro.- tentou explicar, então fazendo sinal para ele esperar pois acharia algo para tirá-lo dali. Se não fosse o dia de azar dele também, haveria uma escada pequena por ali.

Levantou-se para procurar algo, não encontrando absolutamente nada, porque claro que não encontraria nada no meio da noite em um cemitério. Voltou de mãos vazias.

- Aqui. – estendeu a mão para ele dentro da cova. – Vale tentar.

Xavier

Não sabia o que era pior, ter visto o que não devia no trabalho, estar afundado até o pescoço numa maldita cova numa cidadezinha desconhecida ou ser encarado longamente por aquela expressão de poucos amigos de quem parecia pronto para lhe torturar até não ter mais nada o que responder. E ele que achava que a vida em Cerise seria bem mais fácil do que se livrar das surras do pai e dos agiotas para quem seu pai devia. E depois de longos instantes em silêncio, enquanto a cabeça de Xavier tentava encontrar alternativas plausíveis para a situação em que tinha se metido, ouviu um primeiro "não" em resposta como se fosse para se calar e ignorar o fato de que ele não queria que saísse de Cerise. Até sentiu o sangue descer para os pés, mas antes de reagir exageradamente como tinha feito anteriormente, só arqueou as sobrancelhas em descrença quando ele perguntou se estava bem.

- Se eu estou bem? Eu lá pareço estar bem? No fundo de uma porra de cova nesse buraco de cidade já pra ser enterrado vivo? Não tá nada bem, falô? - a sua resposta foi seguida apenas da saída dele de perto da cova.

Ainda o encarou a distância, tentando entender o que estava acontecendo, mas se ele tinha se afastado para pegar uma pá e terminar de lhe enterrar, ainda tinha tempo para tentar fugir. Apoiou os braços sobre a beira da cova, na mesma tentativa inicial de escapar dali na força dos braços. Ao menos nisso, podia se garantir. Já tinha até apoiado o tronco todo para fora da cova, o corpo e a cara bem sujos de terra, quando o tal coveiro mafioso voltou para se abaixar a sua frente e lhe estender a mão. A surpresa daquela vez não foi tão grande, só olhou da mão para a cara quebrada dele com bastante descrença.

- Tá de sacanagem comigo? O que foi, é mais fácil me matar daí de cima? - reclamou com o outro, o pouco de coragem que tinha se transformando em desdém, apenas porque não tinha nada mais que fazer.

Diodoro

Diodoro podia até entender o nível de estresse do rapaz estando em uma cova, no meio da noite, no cemitério, conversando com um agente funerário e tudo mais, mas ele era um tipo bem estressadinho. Nem imaginava o que ele estava fazendo ali, mas se concentraria em perguntar isso depois que ele tivesse saído do buraco, afinal, que tipo de resposta ele poderia lhe dar além de uma grosseria se começasse a interrogá-lo ainda preso e tentando sair dali como um siri na lata.

Ao menos ele tinha iniciativa. Quando voltou, encontrou o rapaz já saindo pela borda da cova, algo que seria difícil se o solo estivesse úmido, pois provavelmente ruiria quando ele tentasse fazer isso. Supunha que sua mão não seria de muita ajuda naquela situação, então, ao invés disso, agachou-se e agarrou-o pelo braço, tentando colocá-lo em uma posição na qual seria mais fácil puxar e ajudar. Podia não ter muita força, mas quando se trabalhava há dez anos fazendo embalsamamentos e vestindo corpos pesados, era possível descobrir vários modos de carregar alguém mais pesado sem desperdiçar tanta força.

Cravou os sapatos na areia ao redor e a despeito do jeito relutante dele, segurou-o com toda a firmeza que segurava os corpos vacilantes que colocava na maca do necrotério. Não soltou pois isso seria pior para ele, já que cairia depois de todo o esforço, de volta na cova. Só lhe restou puxar, puxar com força nas pernas, abdômen e braço, trazendo-o aos poucos para cima com ajuda dele também. Até que, num solavanco, terminou de puxá-lo, caindo para trás de tanto esforço. Mas não importava, desde que ele estivesse fora da cova.

- Arf... pronto. – falou, sem coragem alguma de levantar do chão, pelo menos nos próximos dois segundos.

Xavier

Xavier tentou dar um jeito de sair da cova sozinho, não era mais do que um esforço maior nos braços, já que não dava para apoiar o pé machucado. Não devia ser muito difícil, até cravou os dedos no chão de terra, mas foi pego de surpresa com a aproximação do coveiro para lhe puxar pelo braço e pelos ombros.

- Ei, ei…! O que acha que está fazendo?! Eu não preciso de ajuda! Qual é o seu problema, seu maluco?! – reclamou, embora não protestasse exatamente para a ajuda para sair. E demorou mais do que esperava também, já que estava recebendo auxílio de uma terceira pessoa. – Você é bem fraco pra um assassino, hein?

Finalmente, com um solavanco no impulso dele somado ao seu, conseguiu sair da cova até cair parcialmente sobre os pés do outro, a cara parcialmente pressionada sobre o chão de terra, porque já não tinha sujeira o suficiente em seu corpo.

- Argh, porcaria…! – tossiu algumas vezes, limpando a sujeira do rosto e sentando-se ao lado da cova e do coveiro/assassino que também estava sentado no chão ao seu lado. Olhou-o com a mesma expressão de poucos amigos, analisando a figura de cima abaixo com aquelas roupas pretas e aquela cicatriz gritante na cara. – Ô, se você não veio matar ninguém aqui, qual é a tua?

A lembrança de assassinato fez só com que Xavier olhasse ao redor para confirmar que não estava mais sendo seguido. E se o cara de preto a sua frente não era seu algoz, talvez fosse seguro voltar para casa sem correr.

Diodoro

Diodoro tentou retomar o fôlego, ainda um tanto jogado na terra do cemitério, o que terminaria em um banho longo antes do fim da noite. Levantou aos poucos, franzindo a testa enquanto sentava,a mão apoiada do lado do corpo. Miro pulou em seu colo como lhe era normal, mesmo que o moreno não estivesse exatamente no momento para fazer carinho no gato.

- Hm? – olhou de volta para o rapaz, diretamente, notando que ele estava lhe observando com bastante desconfiança. Limpou um pouco a poeira do cabelo e da roupa, e só então raciocinou que ele ainda estava desconfiado que era algum tipo de assassino. Certamente o rapaz tinha problemas com a lei. Apontou para uma das lápides. – Vim limpar. Achei você. – era explicação o suficiente para alguém que estava desconfiado de sua natureza.

Levantou-se aos poucos então, e bateu a poeira das roupas pretas, Miro andando ao redor sem saber para onde ir, pois já era quase hora de estarem voltando para casa. Observou o outro de cima e então estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar também.

- Não sou... assassino. Você... – então segurou a língua, observando-o mais longamente, imaginando se seria seguro perguntar a ele se ele estava com problemas com a lei. Entreabriu os lábios, pensativo, e então decidiu dizer algo. – Chamo a polícia?

Xavier

Arqueou as sobrancelhas com a resposta muito direta e simples dele. Tinha ido limpar o que? Outra pessoa no meio do caminho? Encarou-o com a mesma expressão de poucos amigos que já era até natural em seu rosto, e como não ser quando estava metido naquele tipo de situação?

- Limpar o que? As covas? Que que 'cê é afinal? - esfregou o nariz com as costas da mão, só acumulando mais terra que lhe fez tossir até levantar a gola da camisa para limpar o rosto. Ao abaixar a camisa, notou que ele já tinha se levantado e havia um gato ainda rondando o local. Ignorou o bichano e fez a mesma coisa, ficando em pé apenas num dos pés, considerando que o outro estava dolorido apenas de fazer menção de apoiá-lo no chão.

De novo, o outro lhe respondeu de forma curta e definitivamente incompleta. Mas ignorou a presença dele tanto quanto a do gato, só dando um centavo de atenção quando ele disse que não era um assassino. Já tinha ficado ao menos um pouco óbvia aquela parte.

- Não ia ser um assassino muito competente mesmo. - reclamou, procurando nos bolsos os poucos pertences e a chave de casa, ainda com o pé levantado. - Hmpf. Chamar pra que? Olha minha cara e a tua, quem é que ia ajudar a gente? E eu nem sei que que aconteceu aqui. Ah, foda-se. Eu vou voltar pra casa. Onde é que eu to, afinal?

Diodoro

Diodoro não respondeu inicialmente quando ele questionou se tinha ido limpar covas, afinal, tinha ido limpar só a do seu irmão, mas depois de pensar, acabou assinalando que sim com um movimento breve de cabeça.
- Agente funerário. – respondeu tardiamente sobre qual era seu emprego, como se ele estivesse mesmo questionando sobre qual o trabalho que fazia e não o fato de ter um estranho todo de preto em um cemitério a meia noite.

Só notou então quando ele se levantou que ele estava mancando. Franziu a testa, supondo que ele podia ter machucado o tornozelo quando caiu no buraco. Pediu licença silenciosamente, e puxou o braço dele e colocou sobre seu ombro para dar mais apoio. Concordou que a polícia não iria ajudar dois estranhos mal encarados numa chamada do cemitério, considerando que já tinha tantas vezes sendo confundido com um mal elemento à luz do dia também. Se ele era um criminoso, descobriria depois, supunha?

Só não resistiu a observá-lo seriamente por um instante antes de sorrir, por um breve segundo.
- No cemitério. – respondeu com seu usual senso de humor que só ele mesmo entendia, então soltando um longo suspiro. Não iria para casa por agora supunha. – Posso enfaixar... isso vai doer... depois. – o agente funerário apontou para o pé do outro, então virou o dedo enluvado para si mesmo. – Diodoro Leoni. Você...?

Xavier

Xavier automaticamente se inclinou para o lado, para se afastar do toque do estranho quando ele se aproximou para supostamente lhe ajudar. Ainda colocou uma expressão ainda mais desagradável ao encará-lo de volta, mas arqueou as sobrancelhas, aceitando a ajuda para andar depois de tentar apoiar o pé no chão de novo.

- Agente funerário? Tá certo. Acredito. - fungou em descrença para o fato de que ele era um agente funerário. Se fosse lhe matar, já teria feito. Estava cansado, com fome e com dor, não dava pra ser muito exigente àquela hora da madrugada no meio de uma cidade nova, mais ainda num cemitério. Ainda olhou para o outro pelo canto do olho, irritado com a resposta pronta de onde estava. - Não diga! Nem percebi que cai na porra de uma cova, babaca. Hmpf!

Esfregou o rosto e o nariz com as costas da mão de novo, começando a praticamente pular num pé só para acompanhá-lo.

- Você é enfermeiro também por acaso? - debochou da sugestão de ajuda. Do jeito que tinha sorte, era provável ir com ele, ser dopado e ter os órgãos traficados. Olhou ao redor sem encontrar tão fácil a saída do cemitério, o que acabou lhe detendo os passos saltados para se afastar do apoio dele. - Três. - respondeu sobre o nome, como se fosse muito natural ser chamado por um número. Bateu as mãos nas roupas sujas, ainda sem apoiar o pé no chão. - Ó, cara, a última coisa que eu preciso é de alguém me dopando pra vender meus órgãos. Me mostra a saída dessa merda e eu acho o caminho até o distrito.

Diodoro

Deveria até se sentir indignado em ser chamado de babaca, mas estava acostumado com respostas indignadas ao seu senso de humor. A dele tinha sido até peculiar, carregada de toda aquela ironia. Acabou percebendo que deveria evitar as piadas. Ele estava mal humorado e machucado. E embora nada pudesse melhorar naquela situação, ao menos podia não tornar-la pior para o rapaz que tinha acabado de conhecer.

- Não. – respondeu simplesmente sobre ser enfermeiro, mas imaginava que ele entenderia que um agente funerário ao menos saberia o mínimo de anatomia humana para saber onde se colocava uma faixa. Talvez em outras casas funerais, tivessem calmantes ou analgésicos para o caso de clientes vivos que tivessem dificuldade em lidar com com a morte de familiares, mas no seu caso, tinha talvez um kit de primeiros socorros avançado pelo caso de sempre ser visitado por pessoas com pouco respeito pelos próprios corpos. Só parou enquanto carregava ele quando ele disse três, e foi obrigado a olhar ao redor, sem entender. – Três o que?

O rapaz parecia determinado a só ir embora, mas a saída do cemitério ainda era um pouco distante. Considerando como ele estava mancando, seria imprudente deixá-lo ir embora daquele jeito.

- Olha. A saída. – apontou em direção a saída, os portões de fato um pouco distantes, mas então voltou o dedo para o outro lado, onde tinha um portão menor que poderia acessar para sair próximo a funerária. – Meu trabalho. De lá, m táxi. – sugeriu, então deixando óbvio como lhe seguir era mais fácil do que simplesmente tentar ir a pé sozinho. Apontou novamente para a saída. – Pra lá... isso vai machucar. Capaz de perder... – então parou, supondo que ele já estava perdido. Então olhou para ele muito seriamente. - ... o pé.

Xavier

- Três o que, o quê? - retornou a pergunta, esfregando o nariz com as costas da mão de novo. - Meu nome. Me chame de três. Ou terceiro, tanto faz.

Virou-se na direção indicada quando ele respondeu onde era a saída do cemitério. Até teve que estreitar os olhos um pouco para confirmar que aquilo era um grande portão em meio à pouca luminosidade de madrugada. E a despeito de ser grande, parecia um pouco menor naquela distância.

- Caralho, qual o tamanho desse cemitério, porra! Morre tanta gente assim nessa cidade? Só tava faltando isso pra melhorar a noite. - bufou, só então notando o outro ponto mais próximo que ele tinha apontado, com um quê bem óbvio de descrença para o lugar em que ele estava tentando lhe guiar. - Cara, se liga, eu não vou com você pra lugar nenhum, num nasci ontem, não. Quem que ia seguir um "agente funerário" que circula no cemitério de madrugada? Valeu, mas eu prefiro ficar com o resto do meu pé.

Sem o apoio do tal agente funerário, era bem mais difícil de se manter em pé. Já tinha se machucado de outras maneiras e podia sobreviver a um pé torcido, ou seja lá o que fosse, mas considerando o tanto que tinha trabalhado naquela noite, somada à fuga desesperada no porto, estava bem mais complicado se manter de pé cansado. Se não chegasse em casa logo ou parasse pra sentar, as pernas iam começar a tremer. Ainda assim, era suspeito demais ser ajudado no meio do cemitério por um estranho aleatório, então só fez um aceno qualquer com a mão, começando a pular no pé bom para sair do cemitério.

- Boa sorte aí, sei lá com o que você faz... - completou, enquanto já estava de costas para pular o seu caminho para fora do cemitério.

Diodoro

Diodoro encarou o outro com seriedade quando ele disse que o nome dele era “três”. Talvez ele viesse de uma família estranha como a sua, onde no lugar das pessoas começarem com cada letra do alfabeto, elas começavam com números. Ao menos assim supunha que ele era um filho do meio, sabia como era problemático aquele status.
- Sinto muito. – respondeu para o aviso dele do próprio nome, supondo que isso era o mínimo de simpatia que poderia mostrar ao outro.

O cemitério nem era tão grande assim, mas era antigo, então era claro que ele comeria uma área extensa. E considerando que não havia até então nenhum outro cemitério na cidade, os túmulos um tanto próximos davam uma impressão péssima para o lugar. Só não teve como se segurar quando ele questionou se morria muita gente na cidade, afirmando com a cabeça prontamente. Mas ele deveria saber disso. Gente morria toda hora em todo lugar.

Supunha que de madrugada – e mesmo de dia – era um sujeito suspeito, por isso o rapaz não quis lhe acompanhar para a funerária. Franziu a testa, notando que ele estava instável para andar para longe dali. E iria para onde? Tinha dinheiro para pegar um transporte? Certamente não iria de ônibus aquela hora, e o metrô não tinha nenhuma saída por ali. Entortou os lábios, decidido a não deixar o rapaz desamparado sob sua responsabilidade no meio da madrugada, nem que tivesse que ser um pouco mais teimoso para isso. Ele não sabia o que era melhor para si mesmo.

Quando ele começou a pular para fora do cemitério, agarrou-o por trás com a força que tinha e começou a puxá-lo na direção da saída que dava na funerária.
- Levante o pé. Pode machucar. – resmungou, para que ele não machucasse ainda mais o pé, pois bem sabia que o rapaz não queria vir consigo. Mas seria melhor pra ele, especialmente porque lá poderia fazer uma tala para ele aguentar até o hospital. Se é que ele iria para o hospital. O sujeitinho era bem forte.

Xavier

Xavier começou a praguejar mentalmente tudo o que tinha acontecido desde o início da noite. A sua vida já era complicada por si só e não precisava de mais coisa, numa cidade do interior, vendo o que não deveria. Estava tão compenetrado mentalmente naquela situação que os murmúrios de xingamentos começaram até a se fazer ouvir no cemitério silencioso, enquanto seguia para a saída do local com as mãos nos bolsos, a perna cansada já de todo o esforço naquele dia.

Deixou um "tch" sonoro escapar aos lábios quando deu o próximo pulo, com o pé incomodando. Mas foi pego de surpresa pelo puxão que recebeu do agente funerário.

- Ei! Ei, ei! Tá doido?! Me solta, seu maluco! - empurrou o outro como podia, o que só lhe fez desequilibrar. Sem muita alternativa e com a única opção de se apoiar no chão com o pé machucado, acabou se segurando nele de qualquer jeito, suando frio com a possibilidade de piorar o próprio estado. Suspirou aliviado por não pisar com o pé machucado nem cair de novo na cova, mas o alívio logo foi substituído por uma expressão irritada. - Tá querendo me matar mesmo, idiota?! - retrucou, a plenos pulmões, segurando o outro pelo colarinho. Deixou o ar escapar demoradamente, segurando-se nos ombros dele. - Arh, que seja, to cansado demais pra discutir com um assassino.

Passou a mão pelos cabelos assanhados, ajustando o braço em volta do ombro dele para finalmente aceitar ajuda de ir até a funerária, como ele estava indicando.

- Mas sério... quem é que vem limpar cova a essa hora da madrugada?

Diodoro

Como previu, qualquer tentativa dele de sair de seu arrastar forçado só iria resultar naquele pé dele ficando ainda mais machucado. Diodoro tentou segurá-lo de todo jeito, sabendo que aquela insistência em ir para casa nada ajudaria o tal do “Três”. Sentiu a mão dele em seu colarinho, apertando seu pescoço já usualmente apertado pela camisa presa até o último botão Respirou fundo, sabendo que provavelmente levaria um soco, mas não arredou o pé sabendo que estava fazendo o melhor para ele.

- Não. – respondeu mais uma vez sobre querer matá-lo, suspirando aliviado em fim quando ele decidiu lhe largar para contar com sua ajuda e ir para a funerária. Franziu a testa, pois bem sabia que não era um assassino, mas não o culpava por achar isso.

Olhou o outro de esguelha quando ele questionou quem limparia uma cova aquela hora da madrugada, já sem entender se ele lhe achava um sujeito perigoso ou se acreditava na ideia de que Diodoro era um agente funerário. De todo modo, muito mais próximos dos portões dos fundos, chegaram rapidamente à funerária, e o agente abriu a porta de funcionários e guiou o outro até o sofá onde costumava dormir nos dias mais atarefados.

Foi até a outra sala, onde demorou um pouco, voltando com gelo, algumas bandagens e uma cadeira. Colocou a cadeira a frente do rapaz e com cuidado, levantou o pé dele até apoiá-lo na mesma.

- Vou tirar os sapatos. – falou antes de levar um chute de graça, mesmo com o pé ruim. Tirou-os com cuidado, para então colocar o gelo. Olhou longamente o quão inchado o tornozelo estava, e imaginou que deveria ser melhor ele ir logo para um hospital. – O táxi. – então esperou que ele pegasse o gelo para que pudesse ir chamar o táxi.

Xavier

Seu algoz (ou salvador, pelo que estava começando a se confirmar), não falou mais do que um "não" em resposta a sabe-se lá qual de suas últimas sentenças. Não puxou conversa também e só se rendeu ao cansaço e a exaustão mental até entrarem na funerária, como ele tinha dito de fato, e ser ajudado a sentar num sofá mais para o canto. Olhou ao redor, não havia muito para ver e ficou feliz de não estar numa sala cheia de instrumentos cirúrgicos que só lhe dariam mais certeza de que teria os órgãos vendidos ali mesmo. Sua reação natural foi se curvar e apoiar os cotovelos nos joelhos, mas sentiu a pontada no pé e se encostou numa posição mais confortável, deixando o pé machucado esticado. Prestou atenção na movimentação do agente até ele voltar com gelo, bandagens e cadeira, nada que pudesse ser usado como arma, ao menos. Logo ele se sentou na cadeira a sua frente e pegou seu pé para levantar.

- Au-au-au-auuu!!! Cuidado ae! Tch! - contorceu a expressão em irritação quando ele puxou o sapato, causando mais incômodo, mas só praguejou em tom baixo e deixou que ele colocasse o gelo para aliviar a dor. Arqueou as sobrancelhas, confuso, quando ele falou sobre um táxi. - Que foi? Tá esperando alguém? Me dá esse gelo aí que quando adormecer, eu me mando daqui, cara.

Estendeu o pé machucado em cima do assento do sofá, com o gelo, sem se importar com o detalhe de que o gelo derretido poderia molhar o estofado do móvel. De qualquer jeito, mesmo que a dor não melhorasse, com a baixa temperatura, a sensação de dormência facilitaria a sua caminhada para casa.

Diodoro

Sabia que o rapaz estava sentindo dor, afinal, o inchaço do pé dele era bem evidente. Porém não deu valor as reclamações dele, afinal, se ele tinha peito para dizer que iria andando para casa, certamente não deveria ser uma dor tão grande ter o sapato retirado. Mas admitia que o tal do Três era muito expressivo, e da dor ao estranhamento com a história do táxi, ele deixava tudo bem claro no rosto.

Assim que o rapaz pegou o gelo, levantou da cadeira e andou até o telefone, ligando então para a companhia de taxi sem se incomodar se estava deixando o outro sozinho no ambiente estranho. Só precisou dizer “Leoni” no telefone e a telefonista da companhia já sabia dizer quem era e o que deveria fazer. Era bom que as pessoas da companhia de táxi tinham tanta considerações pela sua família, ou provavelmente já teriam lhe mandado para o inferno com esse hábito horrível de não se comunicar direito com a companhia.

Voltou então para a sala onde o rapaz estava e sentou na caderia onde antes ele ocupava com o pé. Não estava incomodado com o sofá e o jeito como parecia que ficaria molhado assim que Três saísse dali, mas com o fato de que talvez fosse melhor o pé dele estar mais alto. Sem almofadas para por embaixo do mesmo, suspirou longo.

- Vai chegar logo. – falou do táxi, esperando dele um tipo de paciência que os poucos minutos de convivência lhe levaram a crer ser meio difícil da parte do outro.

Xavier

Xavier se deu ao luxo de relaxar um pouco no sofá quando sentiu a dor amenizar por causa do gelo. Mas olhando para o pé, a sua situação não era muito positiva. Tinha começado o trabalho recentemente e não podia apenas deixar de lado por causa de um machucado, nem podia pedir licença, ou com certeza seria dispensado. Aos poucos, a preocupação não seria tanto se estava mesmo sendo perseguido pelo que tinha visto ou não, mas se conseguiria manter o ganha pão naquela cidade pequena. Só esperava não ter que chegar em casa e dar de cara com os problemas que seu pai costumava ter em Paris.

O agente funerário foi e voltou logo em seguida, depois de fazer uma ligação muito curta só dando o próprio nome. Podia de novo imaginar todo um cenário em que ele lhe faria mal, mas já estava cansado de supor as idiotices e podia confirmar que ele era só um cara estranho com uma cicatriz na cara que estava tentando lhe ajudar.

Quando ele voltou, só anunciou que algo ia chegar logo e só arqueou a sobrancelha, percebendo a constante dele não falar absolutamente nada.

- Vai chegar o que, seu reforço? A polícia? - perguntou o que era mais óbvio, o gelo derretendo sobre o tornozelo inchado e molhando mais do sofá. Sentia a área apenas um pouco dormente, o inchaço não ia diminuir e não ia melhorar a sua situação. Se era pra trabalhar no dia seguinte do mesmo jeito, melhor começar a se acostumar com o incômodo. Devolveu a toalha molhada com o resto de gelo para o agente, ignorando a bandagem que ele mesmo tinha levado e deixado de lado na cadeira para pegar o tênis e tentar calçar de novo. - Valeu pelo gelo. Vou andando ou só chego em casa na hora do trabalho amanhã.

Diodoro

Como não foi surpresa, o rapaz tentou fugir tão pronto retornou. Mas ao menos ele não estava mais tão hostil quanto no cemitério, pois provavelmente já deveria ter notado que era um absurdo pensar de si mesmo como um gângster. Quer dizer, tinha a aparência de um, isso era verdade, mas era composto mais de teimosia e moral cristã que de intenções ruins.

- O táxi. – respondeu, embora ele ainda tivesse mais preocupação com “chegar em casa” ou com “emprego” do que parecia ter com o tornozelo inchado, que poderia atrapalhar muito mais caso ele escolhesse não cuidar. – Espere...!

O barulho do lado de fora indicava que um carro estava chegando. Não demorou até que se ouvissem os barulhos da porta do veículo e um par de batidinhas no vidro da frente da funerária.
- Diodoro! É o Peter. Estava rodando na área e recebi o chamado. Está tudo bem, rapaz? – o sujeito questionou, dada a hora e todos os rumores que voavam sobre o ataque a funerária onde o atendente tinha saído machucado. – Indo para casa?

- Hospital. – Diodoro respondeu, devagar, colocando a cabeça para fora da porta. – Um minuto.

- Hospital?! Quer que eu ligue para sua família?? Chamo a polícia?? – o taxista pareceu alarmado da porta.

- Não para mim. – Diodoro colocou, então indo até a porta para abrir a frente para o taxista, deixando que ele entrassse para lhe ajudar. O sujeito seguiu Diodoro até a saleta de trás, onde encontrou com o sujeito da perna inchada. – Ahh... não me surpreende que seus amigos também tenham caras intimidadoras, Diodoro. – o sujeito riu, oferecendo ajuda em seguida para o tal do três.

Xavier

Xavier franziu o cenho em confusão quando ele disse que o táxi que chegaria. Aquele homem tinha um sério problema de comunicação, será que ele não tinha entendido que não precisava de um táxi? Bom, talvez até precisasse, só não teria como pagar por um. Quando tentou se levantar, ele ainda pareceu se esforçar para lhe impedir. Do jeito que estava cansado, sujo e dolorido, até o sofá seria uma boa opção para dormir, não tivesse que chegar em casa para cuidar do pai.

Mas aproveitou que ele saiu da sala e pegou o sapato para tentar calçar de novo, o que foi um completo desastre, considerando a dor aguda que sentia e o fato de que o seu pé estava duas vezes maior do que deveria estar. Talvez devesse dormir com ele dentro de uma bacia de gelo para acordar inteiro para o trabalho no outro dia. Suspirou resignado e mais irritado, desistindo de calçar o sapato para colocar o pé no chão daquele jeito mesmo e descobrir se tinha como ir para casa. Bom, não estava ruim a ponto de morrer, então...

A atenção dos próprios pensamentos foi tirada quando ouviu uma voz nova na sala e levantou a cabeça para encarar a nova figura. Olhou com uma cara de muito poucos amigos dele para Diodoro, tentando pensar se realmente não era algum traficante querendo lhe roubar os órgãos. Mas a sua expressão de irritação apenas rendeu um comentário engraçado do outro.

- Ele não é meu amigo. E quem é você? - Xavier se colocou de pé com um impulso, o peso todo na perna boa, segurando o outro sapato numa das mãos e ignorando a ajuda alheia. - Eu realmente tenho que ir embora.

Diodoro

O taxista riu com a pergunta de Xavier, e coçou a cabeça em seguida, supondo que aquela carona da madrugada que estava prestando ao agente funerário não seria calma como a da mocinha que tinha levado um tempo longo atrás. Mas não era de se intimidar por uma cara de poucos amigos.
- Sou sua carona. – respondeu, com o mesmo ar de riso de antes.

Diodoro nem se moveu do lugar nem mudou de expressão, certo que o taxista estava ali para levar o rapaz embora sem mais enrolação. Ele precisava de uma compressa naquele pé e descanso. Pelo menos desse jeito se sentiria mais confortável para deixar a cabeça no travesseiro a noite, sabendo que tinha tirado um sujeito de uma cova aberta e enviado ele para o hospital. Se ele deixar daquele jeito, aquele pé certamente não voltaria ao normal pois o dono do pé não parecia inclinado a cuidar do mesmo.

A mão que pretendia ajudar Xavier a ir até o carro com calma e paciência se tornou uma mão grande e intimidadora. O Taxista não tinha porque ter medo de Xavier quando era um homem mais velho de quase 1,90m, corpulento e barbado com plena força para levá-lo nos ombros se quisesse. Não o pegou nos ombros, claro, mas agarrou-o pela cintura e colocou o braço sobre seu ombro, ajudando o outro a ir de um modo menos desgastante até o carro. O recém-chegado não parecia interessado em dar folga para Xavier. Era tão teimoso quanto o dono da funerária.

- Vou levar esse aqui para onde ele precisa ir, então. Mande lembranças para sua família, Diodoro. – o taxista sorriu e então seguiu arrastando Xavier contra a vontade para o carro estacionado do lado de fora.

Diodoro, habituado a não se despedir, sequer lembrou dessa formalidade. Tinha feito seu trabalho de ajudar o rapaz e impedir que ele fosse para casa com o pé para estourar de tão inchado, agora restava que o médico fizesse o dele. E para si, apesar da agitação inicial da noite, queria apenas ir para casa dormir. De tanto ter ouvido o rapaz falar, agora também estava se perguntando o que diabos estava fazendo ali aquela hora da madrugada, além do óbvio, que era limpar covas.

- Miro. – chamou o bichano antes de agarrá-lo por baixo e sair para casa. E quando pudesse, acertaria a conta com Peter.


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