Dilemas de Amizade [Lui; Yure]
#1
Os últimos dias tinham sido bem confusos para Oliver. Primeiro ele descobriu que o rival chinês tinha se mudado para Cerise e ia estudar na mesma academia que ele. Depois, tiveram uma disputa e ele ainda percebeu que tinha sido displicente com os treinos a ponto de Qiang lhe derrotar numa pequena disputa. Ainda tinha se resolvido com ele, a ponto dos dois concordarem em treinarem juntos, já que eram os únicos praticantes daquele estilo de Kung Fu naquela cidade pequena. E depois de ter se resolvido naquele quesito com o chinês que tinha lhe feito tanto bullying no passado, até tinha concordado em levá-lo para a cidade para mostrar algumas coisas. Oliver tinha falado com o pai e sabia o pensamento dele sobre Qiang. Ele também tinha pensado mais de uma vez naquela semana que por mais que tivesse péssimas lembranças da China, não ia querer que o rapaz passasse pelo mesmo que ele tinha passado e com toda a coragem que tinha, resolveu deixar o passado na China e oferecer sua amizade sincera ao novo colega de escola... só para ser obviamente negado.

Havia uma profusão de sentimentos dentro de Oliver quando ele pegou o ônibus de volta para St. Clavier depois de ter sido abandonado por Qiang. Ele pensou mil e um motivos pelo qual o rapaz o odiava, não lembrava de ter feito nada tão grave contra ele, mas ainda assim, ele estava determinado em negar a sua tentativa de amizade. Entre a raiva e a vontade de chorar de frustração, Oliver não conseguiu chegar a nenhuma conclusão do que podia ter acontecido a Qiang, exceto o fato de que provavelmente voltaria a treinar sozinho depois daquela dispensa óbvia do chinês.

Quando ele chegou ao quarto no dormitório depois do longo trajeto de volta a St. Clavier, nem tinha percebido como o rosto estava vermelho por causa das várias tentativas de conter o choro e a frustração ao esfregar o rosto com as costas da mão. Era uma visão bem deplorável e ele esperava que Lui não estivesse no dormitório para vê-lo naquele estado. Mas a esperança foi por água abaixo quando abriu a porta e deu de cara com Lui mexendo na câmera.

- Ah... oi, Lui! Eu n-não achei que você tava aqui no dormitório... te atrapalhei? - perguntou Oliver, um tanto sem graça pelo próprio estado.
#2
O dia tinha sido bem tranquilo para Ludwig. Sem muito para fazer em St. Clavier, havia colocado os estudos em dia no silêncio da biblioteca e feito todas as tarefas que podia adiantar. Queria que Oliver não tivesse saído, assim poderiam fazer tudo juntos se ajudarem mutuamente. Enquanto tudo era muito pacífico também havia algo de tedioso. Ou quem sabe estava se acostumando mal a aventuras aleatórias e presenças inesperadas.

Quando terminou de estudar e almoçar, retornou ao dormitório para mexer nas fotos que havia tirado durante os últimos 15 dias para fazer uma seleção e enviar para sua mãe, como era usual. Passou tudo para o computador e então tratou de limpar a câmera com cuidado, totalmente concentrado na tarefa até ouvir o barulho da porta do seu quarto e de Oliver, voltando-se para ver quem tinha chegado.

Já tinha visto Oliver em muitos estados, mas quase sempre eram bem felizes. O amigo estava com o rosto levemente vermelho, e os olhos um tanto marejados, como quem vinha o caminho chorando e tentava se conter porque havia outra pessoa ali. Podia não ser a pessoa mais experiente do mundo, mas sabia reconhecer uma cara de choro. Sacudiu a cabeça negativamente para a pergunta de Oliver sobre lhe atrapalhar e largou a câmera prontamente na mesa. Lui levantou-se, caminhando até Oliver até ficar próximo o suficiente dele.

- Oi, O-Oliver... v-você está bem? – perguntou na usual voz baixa, levantando a mão devagar e tocando de leve no braço do outro, afagando. – Parece desanimado... d-desculpe se estiver m-m-me intrometendo...
#3
Oliver engoliu em seco, sentindo o nó desagradável no topo da garganta quando Lui perguntou se estava bem. Ele acenou a cabeça positivamente, estava bem, fisicamente, se aquilo contava, mas ainda muito frustrado, irritado e até triste com o que tinha acontecido e como sua tentativa de fazer amizade com Qiang tinha ido por água abaixo. Antes que ele percebesse ou tivesse controle das reações, o aceno positivo tinha se tornado num aceno negativo.

- E-e-eu... eu tô... eu acho? Eu n-não sei, é que... eu... o Qiang hm, eu- a gente... hm, eu perguntei e- e eu não devia perguntar e- eu acho que... será que... hm... eu não sei o que- hm e-eu fiz... de errado e... - Oliver sentiu o nó na garganta ficar ainda mais enrolado, ele engoliu em seco, levou uma das mãos aos cabelos bagunçando-os ainda mais e andou de um lado a outro do quarto. - N-não tô desanimado é que... eu... não sei o q-que deu errado eu...

De novo, ele nem sabia por onde começar. Não queria falar mal de Qiang para qualquer pessoa, além do quê, o rapaz chinês era novo em St. Clavier, ele não queria causar problemas para Qiang ou querer que os outros pensassem mal dele só pelo que tinha passado na China. Ainda assim, não sabia como explicar a situação toda do passeio na cidade e a atitude de Qiang sem fazer o garoto chinês parecer ruim, e não queria aquilo. Talvez o problema ainda fosse com ele ou com o jeito que tinha sugerido serem amigos? O pensamento lhe fez encarar Lui mais diretamente. Lui também era oriental, talvez ele entendesse melhor?

- V-você também cresceu no oriente, Lui? N-não na China, no Japão? Eu acho que mesmo depois de morar tanto tempo com meu pai, tem coisas que eu não entendo. Será que é ofensivo pra uma pessoa oriental oferecer pra gente ser amigo? Tem um jeito certo de fazer isso? Talvez eu tenha feito errado e a pessoa ficou irritada comigo? - Oliver perguntou, com o tom vacilando e cheio de expectativa também.
#4
Ludwig ficou confuso pelo sinal negativo de Oliver misturado com a resposta de que ele “achava que estava bem”. Só que quanto mais o seu colega de quarto tentava se explicar, mais ele parecia ser engolido pela confusão daqueles sentimentos, e quando viu, estava acompanhando Oliver andando pelo quarto com os olhos e uma visível confusão e tristeza no rosto do garoto denunciavam que ele estava tentando fazer sentido de alguma coisa envolvendo Qiang que não entendia. Mas era bem raro ver Oliver sem palavras daquele jeito.

Quando finalmente o outro chegou a alguma conclusão, a pergunta dele soou muito ansiosa sobre costumes orientais. Pelo que conseguia entender, ele achava que tinha feito alguma coisa errada para Qiang, sobre costumes, sobre aparentemente formar amizades? Ludwig não conseguia juntar bem o que tinha acontecido, então torceu de leve os lábios e sacudiu a cabeça negativamente.

- N-não tem nada de errado em pedir pra ser amigo de alguém... – Ludwig respondeu para tirar pelo menos essa dúvida de Oliver. - ... Q-que eu saiba. – acrescentou, porque afinal, vai que era uma coisa da China e não do Japão. – Oliver... d-deixa eu ver se entendi... você tentou oferecer ser amigo do Q-Qiang... e ele f-ficou irritado? – estava tentando juntar os pedacinhos de informação que tinha recebido. Levou o punho fechado até os lábios, confuso. – Anoo... s-s-será... que você não confundiu irritação... com t-timidez? T-tem gente que disfarça a timidez com cara de bravo, nee? E esse garoto... o Qiang... e-ele tem uma cara de bravo... ah...! Quer dizer... que p-parece... m-m-mas... a-a-a gente não julga... pelo rosto...
#5
A expressão de Oliver àquela altura era de pura expectativa enquanto ele parou de andar de um lado para o outro para observar Lui e esperar alguma resposta. Manteve as mãos unidas na frente do corpo, os dedos se movendo inquietos uns sobre os ouros, enquanto Lui explicava que não era errado pedir pra ser amigo de alguém. E pelo visto, talvez ele tivesse confundido irritação com timidez? Aquilo não parecia nada certo.

- E-eu o-ofereci... q-quer dizer, m-meu pai sempre me diz pra ser educado c-com os outros e oferecer ajuda e... o Qiang v-veio pra cá e na China ele nunca gostou de mim e sempre fazia bullying com os amigos dele e e-eu nunca tive amigos n-na China p-por causa disso e aí e-eu pensei q-que se ele tava aqui, c-como eu tava na China quando cheguei, s-sozinho, e-eu podia d-deixar essas coisas pra lá e oferecer pra esquecer tudo e ser amigo dele... quer d-dizer, nós dois treinamos a mesma coisa e a gente fala o mesmo idioma e eu p-podia apresentar as coisas aqui pra ele e... m-mas ele deve m-me odiar mais do que ele me odiava na China agora e eu n-não sei por que! Na China eu era só eu, d-digo, eu de outro país, mas aqui eu não sou de outro país, por que é que ele ainda m-me odeia também? Ele n-num parece tímido, tipo você, o-ou o Ethan... ele f-ficou muito bravo quando eu disse pra ser amigo dele, até ignorou quando eu estendi a mão pra ele. Até tava t-tudo normal até aí, p-por que eu treinei com ele e porque ele me pediu pra ir conhecer a cidade e e-eu fui... e-eu não sei o que eu fiz de errado, por que é que ele me odeia tanto? É tão ruim assim s-ser estrangeiro? Eu nem sou mais forte do que ele mais, p-por que ele ganhou de mim quando disputamos essa semana e... e... e... - Oliver soltou o ar todo de uma vez, sentindo-se cansado do dia todo e do longo discurso. Finalmente, ele se deixou cair sentado na cama, levantando o olhar desolado pra Lui. - O que eu faço agora, Lui? Ele não aceitou ser meu amigo então... é melhor deixar pra lá, né? Eu num acho que quero tentar de novo... depois de tudo que eu fiz, ainda num é suficiente?
#6
Ludwig até era bastante tolo, e ele tinha parcial consciência disso. Havia algumas coisas difíceis de perdoar, e uma delas era aquela situação de bullying. Já tinha passado por algo similar em St. Clavier, porém, diferente de Oliver, que tinha decidido dar a volta por cima e tentar ser amigo de Qiang, preferia muito bem evitar a pessoa que tinha lhe maltratado ali. Admitia que admirava muito Oliver por tentar, embora não pudesse culpa-lo por não se sentir a vontade para fazer isso. Claro que havia uma diferença. Qiang e ele se conheciam desde crianças, e como crianças, as vezes poderiam ter atritos mais fáceis de resolver com uma conversa entre duas cabeças mais velhas. O kung fu também deveria ajudar a achar esse tipo de entendimento?

Bom, da forma como Oliver explicava, o garoto era um pouco mais misterioso em suas motivações do que a cabeça de Ludwig conseguia processar. Até tentou pensar em motivos para que ele não gostasse de Oliver, mas quanto mais via o amigo tropeçar nas palavras para tentar entender porque era rejeitado daquela forma, menos acreditava que alguém podia mesmo não gostar dele.

O cansaço de explicar tudo daquele jeito venceu Oliver rapidamente e Ludwig se aproximou mais uma vez, estendendo a mão até os cabelos castanhos em um quase silencioso “yoshi yoshi~” para acalmar a cabeça pesada do amigo.

- Você não fez nada de errado, Oliver... você f-fez o que podia, ne? Foi muito legal da sua parte... não querer que ele se sentisse s-sozinho, como você se sentia na China... vocês treinaram, e saíram... e v-você foi gentil... s-se mesmo assim ele se comporta mal com v-você... talvez seja bom perguntar... por que ele não quer ser seu amigo. – ponderou sobre as coisas que Oliver tinha relatado, então sentando-se ao lado dele para conversar mais tranquilamente. Franziu de leve a testa, pensando em outras possibilidades para o comportamento de Qiang. – E-eu n-não gosto de assumir o-os sentimentos dos outros, m-m-mas... s-será que ele não se sente culpado, Oliver...? Ele te tratou m-m-mal... na China... e a-agora você d-deixou isso pra trás e q-quer ser amigo dele... m-mas isso faz ele se sentir mais culpado... que tratou alguém legal como você assim...? Culpa é um sentimento difícil de lidar... e-eu acho...

Entortou de leve os lábios.

- Bom... você só vai saber se perguntar. – Ludwig ergueu de leve os ombros. – M-mas se ele... n-não quiser responder... e f-for ruim com você de novo... aí e-e-eu não vou p-perdoar ele...! – fechou o punho, de maneira determinada. – E-eu não gosto quando tratam mal meus amigos assim. S-só... não vou bater nele, né... que é errado.
#7
Oliver cruzou as pernas sobre a cama de um jeito quase automático, apoiando as duas mãos nos tornozelos, quando Lui se aproximou para lhe afagar os cabelos de um jeito cuidadoso. Ele ainda tentava pensar no motivo lógico para o que tinha acontecido, mas quando Lui reafirmou que ele não tinha feito nada de errado, ele levantou a cabeça num gesto rápido para encarar Lui de volta.

- Eu fiz tudo sim! Eu fiz tudo certo como meu pai me ensinou! - Oliver reafirmou, mas contorceu a expressão numa um pouco desagradada quando Lui disse que talvez fosse bom ainda perguntar a Qiang por que ele não queria ser seu amigo. Ele cruzou os braços diante do corpo numa postura quase infantil de emburrada. - Eu não sei se quero ir lá perguntar nada de novo. Eu fiz um monte de coisa desde que ele chegou aqui, eu até ofereci minha ajuda e pra gente treinar juntos e... e... - ele apertou os lábios, contrariado com a sugestão de Lui que parecia, pelo menos, lógica. Ele foi obrigado a suspirar longamente e descruzou os braços, coçando a nuca e bagunçando os cabelos no processo. - Hahhhh... eu não entendo isso. Mas... eu acho que ele pode se sentir culpado... eu acho. Mas eu não sei se quero ir lá perguntar de novo. Foi ele que me tratou mal esse tempo todo, por que é que eu que tenho que ir lá ser educado toda vez? Eu não quero. Eu... - Oliver só parou a racionalização, imerso nos próprios pensamentos, quando o próprio Lui disse que não ia perdoá-lo outra vez, mas que não bateria bele. Mesmo com a irritação e a confusão recentes, Oliver só conseguiu sorrir em resposta, satisfeito com a atitude do amigo e com o fato de que ele realmente tinha pessoas que se importavam com ele em Cerise, diferente do que tinha acontecido na China. - Você não tem que bater nele, é errado sim, mas obrigado por ficar do meu lado, Lui. Eu me sinto melhor agora. Eu ainda não sei o que fazer, nem sei se vou perguntar mais alguma coisa pra ele, talvez seja melhor só manter a distância, já que ele só quer vir aqui pra disputar comigo e ver quem é mais forte. Eu... desculpa te atrapalhar com isso, Lui, eu não queria incomodar.

Ele sorriu um tanto sem graça, e se colocou de pé, para fazer uma curta reverência em respeito e num pedido de desculpas singelo.

- Ah, já sei, você já comeu? Eu posso fazer o jantar pra gente, o que acha? Pra compensar que te atrapalhei e teve que ficar me ouvindo reclamar do Qiang. - Oliver sugeriu, com uma expressão mais iluminada com a ideia. - Eu vou só tomar um banho primeiro, tá?
#8
Entendia o sentimento de Oliver de não querer perguntar a Qiang o que andava nutrindo toda essa inimizade, afinal, quem é que gostava de ouvir que não era bem-quisto? Porém, o dilema de Oliver ia muito além do problema dele com o rapaz. A grande questão era que Oliver queria agradar o pai e os ensinamentos do pai que ambos tinham em comum. E para não desagradar toda a questão dos ensinamentos ancestrais, ele ia sim ter que fazer esse sacrifício. Ou bem, tentar.

Pelo menos por ora, Oliver pareceu melhor quanto a sua decisão. Não podia culpa-lo por decidir ignorar Qiang. Quem sabe assim o próprio Qiang iria atrás de Oliver? Só o tempo diria. E se tinha aliviado a consciência dele nem que fosse um pouco, ficava feliz.

- N-não me i-i-incomoda não...! Além do mais... você s-sempre cuida de mim também... – o garoto respondeu. Antes de Oliver, não tiveram muitas pessoas dispostas a ficar o ano todo no mesmo quarto que si por conta dos pesadelos, que tinham diminuído ultimamente. E sabia que Oliver era muito protetor dos amigos também. Tinha achado pessoas maravilhosas para compartilhar o ano escolar. Levantou-se junto com Oliver, fazendo uma reverência de volta no impulso, e então abriu um sorriso. – Eu aceito o jantar... não tinha notado, mas estou com muita fome... – riu brevemente, concordando silenciosamente que Oliver fosse tomar banho. Ele precisava dar uma relaxada mesmo.


Forum Jump:


Users browsing this thread:
[-]
Cerise News
Dia xx/xx/xxxx
População de Cerise come mais Patchdonald's que a média nacional de comedores de McDonald's, diz jornal Le Monde.

[-]
Birthdays
Today's Birthdays
No birthdays today.
Upcoming Birthdays
avatar (37)Skurai

[-]
Latest Threads
Trouble in Paradise [Carbella]
Last Post: Natalia
09-27-2023 04:34 PM
» Replies: 6
» Views: 28
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Last Post: Natalia
09-08-2023 11:08 PM
» Replies: 16
» Views: 42
Run Boy Run [Daniel]
Last Post: Qiang
09-07-2023 06:32 PM
» Replies: 6
» Views: 32

[-]
Recent Posts
Trouble in Paradise [Carbella]
Ao terminar de consu...Natalia — 04:34 PM
Trouble in Paradise [Carbella]
Carbella queria dize...Carbella — 10:02 PM
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Voltou o olhar quase...Natalia — 11:08 PM