[Drive] Better Days [Lei; Stephen]
#1
Stephen

-Como assim precisa voltar para o Japão?!? - questionou o professor de literatura a Hinomura, sentando-se na cama - E Cerise? Seus alunos? Eu?

Eram tantos questionamentos, que o grisalho não sabia por onde começar. Encarava Snow que se aproximava já velho, como se perguntasse o motivo de seus "pais" estarem naquela suposta discussão. Lambeu o rosto de Stephen, que pegou o óculos na cabeceira, colocando-o no rosto. Sua expressão era de completa indignação, confusão; sentimentos negativos que há tempos não sentia. O desleixado e preguiçoso Van Houten, estava agora sem saber como lidar com aquela situação. Só sentia desespero e uma vontade de fumar incontrolável. Demorou um pouco para perceber que não adiantava ficar assim, então respirou fundo, numa falha tentativa de se acalmar. Antes que o japonês começasse a falar, voltou a encará-lo com uma seriedade que não combinava com ele.

- Por que precisa voltar? Precisa resolver as coisas com... seu pai? - uma pergunta serena, ao menos.

Lei

Lei estava cansado. Absurdamente cansado. Seu corpo pesava toneladas, provavelmente, pelo fato de que tinha passado o dia tentando reconectar com seu pai sem muito sucesso, mesmo que tivesse sido acompanhado por Stephen por boa parte do tempo. Queria dormir e tentar organizar os pensamentos durante o sono, enquanto tinha sono, pois se despertasse seria muito possível que não voltasse a dormir de novo e fosse consumido pela ansiedade, como muitas vezes tinha acontecido. Era um comportamento que bem conhecia em si mesmo.

Porém, bruscamente, a mão de Stephen saiu da sua e o abraço quente e aconchegante tinha mudado para suas costas frias e um movimento na cama. As perguntas, apesar de próximas, lhe pareceram muito distantes, e embora algo em si aquecesse com a ideia de que seu namorado se indignava com a ideia remota de lhe perder para uma viagem ao Japão, queria que só mais aquela vez ele fosse aquele sujeito extremamente compreensivo de sempre, que lhe trataria com calma e lhe mimaria um pouco antes de lhe dar uma bronca.

Porém não tinha nem força para abrir os olhos novamente.
- Não agora... por favor... não agora... – a voz baixa e rouca de exaustão de Lei, somada com o franzido pouco amigável da testa, mostrava o quão desconfortável estava em ouvir aquelas perguntas após um fim de noite exaustivo. Sua voz soou mesmo como uma súplica, as mãos grandes agarrando-se mais firmemente ao travesseiro agora que não tinha a mão de Stephen para lhe abraçar. – Volta...

Stephen

Franziu o cenho, inconformado. Ainda sim suspirou resignado com tudo aquilo, revirando os olhos. Afastou Snow da cama, que preguiçosamente deitou-se no chão, ocupando quase todo o chão do quarto. A seriedade passou com um suspiro, deitando-se novamente ao lado do oriental, correspondendo a manhã alheia com um tenro abraço. Não parava de pensar na possibilidade de uma separação, e aquilo apertava-lhe o peito. Queria conversar sobre, colocar as cartas na mesa, resolver a situação. Mas respeitaria o tempo do amante - por enquanto. No momento, apenas lutava contra aquela vontade terrível de colocar um cigarro na boca.

- Tudo bem. Tudo bem. Conversamos quando acordar direito. - bufou, acariciando as costas do japonês com o braço que o envolvia enquanto a mão livre coçava com força o próprio couro cabeludo - Tch… minha ansiedade está atacando, Lei. Não devia ter soltado a bomba desse jeito! Agora estou com medo…

O abraçou dessa vez também com o outro braço, como se tentasse conter um mal maior - o retorno do vício, por exemplo -, recorrendo àquele carinho como se fosse o que lhe restava de força. Não queria que o professor de educação física lhe escapasse por entre os dedos como muitos já o fizeram, e o agarraria com força se preciso. Iria para o Japão, falaria com o pai dele. Só precisava antes de tudo, entender a situação. Por que ele teria que ir embora?

- Quando acordar, vamos caminhar com o Snow. Tomamos café fora… e conversamos. O que me diz? Precisamos disso.

Lei

Foi um alívio imenso quando Stephen decidiu que iria retornara cama sem mais perguntas. Tinha aquela noite para organizar os pensamentos acerca do que seu pai tinha lhe dito e pedido. E tinha algum tempo para organizar os pensamentos acerca do que se referia a seu relacionamento com Stephen. Mas pelo menos na manhã seguinte tinha que conseguir explicar a ele como se sentia com relação a tudo, o que era problemático porque mais vezes que não lhe faltavam palavras para falar sobre sentimentos.

Segurou com firmeza os braços em volta de si, e incapaz de abrir os olhos de tanto cansaço, soltou-o devagar para poder girar o corpo na direção do namorado, tateando ombros, pescoço para achar o rosto do grisalho e beijar-lhe os lábios por um breve momento, aninhando-se nele em seguida, o rosto afundado no peito de Stephen mesmo que quente e abafado. Afirmou com a cabeça que o plano dele lhe parecia interessante, e segurou-se ao mais velho com as mãos grandes, inspirando profundamente para sentir o cheiro dele e dormir.

Acordou um pouco mais tarde do que de costume mas ainda cedo o suficiente para ser considerado madrugada. Eram cinco da manhã, e Lei desceu da cama tentando não incomodar o namorado. Trocou de roupas para uma de suas roupas de caminhada usuais, pôs o tenis e deixou roupas para Stephen também. Não conversou mais do que o necessário, e seguiram para pegar Snow no apartamento de Stephen. Apenas depois de cumprimentar o cachorro de manhã que Lei esboçou sinal de um sorriso, e depois de alimentarem o cachorro, saiu para passear, compraram um par de croissants no caminho e pararam em um parque próximo, deixando Snow livre para andar.

Lei acomodou-se em um dos bancos e olhou para Stephen longamente antes de pegar a ponta dos dedos do mais velho, entreabrindo os lábios num suspiro antes de abaixar a cabeça, não inteiramente certo se queria encarar o outro.
- Pode... perguntar agora. – falou um tanto incerto. Mas teriam que conversar em algum momento. Se fosse em casa, estaria muito confortável para se permitir entrar naquele assunto. E ali, tinha que ser o quão comedido poderia ser em uma situação como aquela.

Stephen

Pensou que não pregaria os olhos, mas ao respeitar o desejo do namorado acabou aceitando sua natureza preguiçosa e caiu no sono. Sonhou que estava com o oriental em uma casa maior, juntos, com seu cachorro grande e velho. Uma família, família esta que o grisalho nunca pensou em ter. E agora a perderia? Levantou um pouco depois que o oriental, sorrindo sem muita força para ele. Como sempre, tudo já estava em seu devido lugar para que pudesse se arrumar.

Não conversaram muito, mas o silêncio o matava. Chegaram até o apartamento para buscarem Snow e o sorriso de Lei acabou fazendo-o sorrir também. Queria abraçá-lo, e não deixar que ele tomasse nenhuma decisão. Seu peito doía, mas manteve-se firme - ao menos aparentemente. Caminharam com o dálmata como de costume, e ao chegarem no parque para deixar o animal solto, não sentou ao lado do namorado de imediato. O encarava por trás das lentes de grau, tentando manter a compostura.

Resignado, respirou fundo; finalmente sentando-se ao lado dele naquele banco. Sentou-se ereto e não jogado como de costume, com as mãos nos bolsos da calça. Olhava o horizonte, escutando a voz do namorado pesar em seus ouvidos. Por que aquela conversa parecia o início do fim?

- Você... chegou a pensar em mim? - não era essa a pergunta que queria fazer, mas o nó na garganta o fez vomitá-la. Engoliu em seco, temendo a resposta. Finalmente, o encarou, com olhos tristes.

Lei


O fato de Stephen esconder as mãos nos bolsos da calça lhe dizia que aquela conversa não seria exatamente calma e cúmplice. Aliás, havia como ser, quando sabia que sentiam bastante um pelo outro e no fim das contas, era ele mesmo quem estava abandonando Stephen? O suspiro dele lhe deixava desconfortável, e só o som da voz do grisalho lhe tratando como “você” fez com que Lei apertasse os lábios, até ouvir o resto da pergunta.

As rugas na testa de Lei ficavam mais aparentes quando Stephen questionou se Lei tinha pensado nele. Talvez muita coisa passasse por cima de sua cabeça, não entendia bem quando as pessoas falavam tudo de forma indireta, e certamente tinha dificuldades para expressar seus sentimentos, mas como Stephen poderia fazer uma pergunta como aquelas depois de tanto tempo? Claro, Lei não tinha entendido que aquilo se referia apenas a situação atual que estavam discutindo, e sim, achava que Stephen falava aquilo como um todo.

- Você ainda tem dúvidas de que eu cheguei a pensar em você...!? Eu penso em você o tempo todo, em todos os momentos, até enquanto trabalho, até enquanto treino, e me preocupo com o que você está fazendo o tempo todo e quero estar com você o tempo todo...! – o oriental não levantou a voz, mas olhou diretamente para o namorado, o tom da voz transparecendo bastante de sua frustração com aquela pergunta.

Só então notou que estavam falando sobre sua ida ao Japão então era apenas natural que Stephen lhe questionasse isso. Estalou a língua para a própria estupidez.

- Ahh... eu...mas eu preciso voltar para o Japão, Stephen. – tentou retomar o assunto principal, passando a mão pela testa por um breve momento. – Meu pai não fala comigo há muito tempo, e ele me chamou... e ele disse que eu devia ir e ficar com a família, e cuidar do dojo... é a minha chance de voltar a falar com o Jing... de sermos irmãos de novo. – respirou fundo, apertando os lábios.


Stephen

A resposta lhe foi satisfatória, mas a continuidade dela não. Observava o semblante do carateca de esguelha, sabia muito bem o quanto ele estava consternado com tudo o que acontecia. Não era normal ter o outro professor abandonando-o de tal forma. Não saiu da posição que estava mesmo com o outro aumentando a voz; mantinha aquela unusual calma e seriedade em seu rosto. Era a parte assustadora do grisalho aflorando, definitivamente.

- Sim. Você pensa em mim sempre. - a ironia cruel das palavras de Stephen saiu quase como se em um ato reflexo, fazendo-o arrumar a postura desleixada no banco, chamando o cachorro velho para perto de si. Quando Snow se aproximou, pôs-se a fazer carinho no gorducho, olhando para o mesmo - Você me falou o que sua família fez. E ainda assim, acha que deve sair daqui para ficar com ela… - voltou a encará-lo com aquela crueldade atípica nos olhos - ...eu não sou sua família, Lei?

Só depois que notou o que estava fazendo. Aquele terror psicológico. Respirou fundo, resignado; voltando-se completamente para o amante com o carinho costumeiro no olhar.

- Se ainda não me considera família… talvez eu deva viajar com você. Ter uma conversinha com seu pai e com seu irmão. O que me diz?

Lei

Apesar do tom da voz de Stephen soar de um jeito pouco usual, o fato dele reconhecer que pensava nele o tempo todo deixou Lei menos indignado com a resposta. Apertou os lábios enquanto Stephen se deixava menos desconfortável na cadeira e observou enquanto Snow se aproximava abanando o rabo gordo para o dono, ficando do lado dele para esperar carinho.

A pergunta subsequente deixou Lei um pouco mais confuso. Voltou o olhar para Stephen ao ser questionado se era família. Não que não estivesse consciente de que existiam famílias que eram compostas de outros modos menos tradicionais, mas ele e Stephen eram namorados apenas. Não tinham registro legal um do outro, não tinha sido adotado por ele nem vice versa, e embora o amasse muito, se comparasse uma pessoa que tinha conhecido há alguns anos com as pessoas que estavam ao seu lado desde que tomou consciência que era uma pessoa, a resposta ficava óbvia. Só hesitou em responder porque não reconhecia bem Stephen com aquelas intenções, ainda que as palavras dele não fossem tão dolorosas.

Ao menos ele mesmo percebeu o erro enquanto Lei terminava de pensar, olhando o grisalho. O carateca franziu a testa e juntou as mãos no colo, mexendo com os dedos.
- Desculpe, Stephen. Mas não sei como você falar com meu pai e meu irmão vai me ajudar a ganhar a confiança deles de novo. – respondeu devagar, pois o grisalho lhe parecia disposto a achar alternativas para sua partida, mas se ele o fizesse, elas deveriam ter algum sentido. – Não acho que Jing iria se importar... acho que ele ficaria feliz se eu trouxesse alguém que gosto muito... mas... eu disse que meu pai é um homem tradicional. E-Ele não vai aceitar se eu voltar com um namorado.

Passou a observar as próprias mãos, soltando um longo suspiro em seguida.

- Ele me chamou. Ele me chamou diretamente. Ele nunca falava comigo, Stephen... a não ser que fosse no treino. Mas ele me mandou notícias... e me chamou pra ir morar em Hokkaido, com todos. – Lei respirou fundo, esperando que Stephen entendesse isso. Não era fácil para Lei pensar na ideia de deixar Stephen em Cerise, mas era mais difícil ainda pensar em abandonar a chance de falar com toda a família. De talvez ser uma família. – O Jing pode estar com saudades...! Ele não falava comigo, mas se o nosso pai veio aqui... ele deve ter dito algo...! Eu não posso... n-não posso perder a chance de sermos uma família de novo. – apertou os lábios, lembrando de como tinha se sentido ao receber notícias. De dizer a Stephen o que estava se passando com os Hinomura. Amava Stephen, mas também precisava de seu irmão e de seu pai e de seu sobrinho que não conhecia ainda.

Stephen

Prestava atenção naquele desespero contido, pensando que de fato, talvez não devesse ter feito aquela pressão psicológica inicial. Lei já estava afetado demais com toda a situação. Revirou os olhos, resignado, levando uma mão livre para segurar a de Lei enquanto a outra acariciava Snow. Após dois tapinhas no topo da cabeça do cachorro velho, voltou a sentar no banco desleixado, virando o rosto para encarar o namorado.

- Não fique nervoso. Eu entendi. - apertava a mão dele - Você precisa do seu pai, do seu irmão… entendi tudo. Não precisa se justificar tanto. - enfim o soltou, encarando o horizonte com um semblante sereno - Só preciso que você me responda algumas coisas. Você pretende voltar para a Cerise? Será apenas uma visita de fato para resolver as coisas? Ou…

Hesitou um pouco. Tirou o celular do bolso, estava vibrando. Não era nada importante, apenas uma propaganda aleatória recebida. Riu baixo com a ironia, já que ele jamais receberia uma ligação ou mensagem da família pedindo para que deixasse tudo para trás. No final das contas, eram realidades distintas. ´Por fim, voltou a atenção para o carateca. Decidiu não fazer a próxima pergunta.

- ...Enfim. Quando pretende ir até Hokkaido? Já organizou toda a burocracia necessária para viajar? - Perguntou. Achou melhor mudar o foco ao invés de perguntar se o outro pretendia ficar lá para sempre, se queria terminar. Ainda não estava preparado para ouvir a resposta.

Lei

Não sabia que estava nervoso, pelo menos não até Stephen afirmar isso. Respirou fundo, então com a mão dele na sua, e a apertou de volta, sentando mais próximo do namorado e encostando a cabeça sobre o ombro dele. Ao menos ele conseguia entender que realmente precisava retomar aquele contato com seu pai e seu irmão. Dificilmente encontraria uma pessoa tão compreensiva quanto Stephen. Só não queria que ele deixasse sua mão tão cedo, pois se sentiu até impelido a observá-lo, ao invés de permanecer recostado.

- Não é uma “visita”. – respondeu muito pontualmente, porque não queria que Stephen se enganasse que Lei ficaria lá por pouco tempo. Não sabia qual a pergunta que ele iria fazer além daquelas, mas seria bem claro com Stephen, afinal, muitas coisas naquela mudança de rumo sacudiam Lei. Uma era que tinha sua família de volta. Dois é que teria que deixar Stephen por um tempo que não sabia exatamente dizer. – Eu pretendo esperar até o fim do ano letivo e deixar St. Clavier. Preciso completar o que comecei aqui. Depois irei pra Hokkaido trabalhar com meu pai e o Jing. – Lei respirou fundo, observando Stephen diretamente. – Eu não pretendo voltar a Cerise por um tempo. Não enquanto tento consertar as besteiras que fiz. Quero voltar a lutar, ganhar confiança. Só depois posso pensar em voltar.

O olhar distante de Stephen não era exatamente fácil de entender. Mas não era completamente insensível, de forma que não soubesse que ele teria muitos contras aquela notícia.
- O que está pensando?

Stephen

Ouvir a confirmação do que já imaginava (mas não queria acreditar) do carateca, fez com que o grisalho sentisse um forte aperto no peito. Mas não demonstrou, tampouco saiu daquela posição, encarando o horizonte e assistindo Snow se afastar um pouco para interagir com outro animal. Então, o relacionamento dos dois tinha prazo de validade? Sentiu vontade de externar aquela dúvida, mas não o fez. Preferiu se manter em silêncio, até Lei terminar de falar. Apertava a mão alheia com carinho, enquanto sentia o peso do amante em seu ombro. Assim que Lei voltou a encará-lo com aquela pergunta, seu olhar se fixou nos olhos puxados do outro. E sorriu. Um sorriso fraco, ameno, mas sorriu.

- O que eu estou pensando não importa agora. - deu um longo suspiro, resignado. Afastou então a mão que segurava a dele, devagar. A levou até o rosto alheio, em um gesto tenro. Stephen sentia a dor em seu peito aumentar, mas como sempre, disfarçava melhor que ninguém. A única diferença era que seu típico sorriso despreocupado dava lugar a um sorriso enigmático. - O que você espera que eu faça na sua ausência, Lei..? Te espere? Responda com sinceridade. - o semblante dele agora, estava sério. Com o cenho levemente franzido, aguardava uma resposta. Mas de forma alguma desejava confundir o moreno. Aquela era uma pergunta sincera.

Lei

Mais de uma vez tinha achado o grisalho difícil de entender. Porém, esse era apenas um dos lados de Stephen que apreciava. Bom, ele não tinha defeitos a seus olhos. Se alguém tinha falhas era Lei, que era pouco expressivo e ainda por cima não sabia exatamente como compreender aquele enigma no rosto de Stephen. Mas bem preferiria que ele tivesse dito o que estava pensando. Mas se ele tinha escolhido não dizer era porque seria melhor assim para os dois.

Apreciou a carícia em seu rosto, fechando os olhos por um instante para aproveitar o carinho como um todo, tentando sentir aquele momento, algo que tinha imensa dificuldade. Porém a pergunta não foi tão surpreendente quanto esperava. Se estava falando para Stephen sobre sua viagem, era porque esperava que eventualmente ele perguntasse sobre o que deveria fazer. Isso, claro, era compreensivo o suficiente para saber que dependia do outro.

- Eu quero. Quero que me espere. Mas sei que tem muitos impedimentos nisso. – Lei falou muito claramente, soltando um longo suspiro. – O primeiro é que sei que quando estou focado em algo, esqueço tudo. Não dou conta de muitas coisas ao mesmo tempo, e isso me assusta... pensar que posso deixar você de lado. – adicionou. Na verdade, considerando o quanto o moreno era obsessivo por Stephen, isso era de se esperar. – O segundo é que se eu não parecer que estou lhe dando o mesmo valor que agora, como posso exigir que seja só meu? Não é justo com você. Embora se eu pudesse eu lhe trancaria comigo para sempre, já entendi que isso não fará bem para nenhum de nós. – tentou ser sensato. Seu comportamento com Benjamin e Mathew, as confusões no prédio, sua obsessão pelo grisalho, tudo tinha causado problemas. – Por isso não depende só de mim.

Stephen

Amava Lei. Amava demais o carateca. Mas aquela indecisão que pairava nas palavras do oriental - indecisão essa disfarçada de “pé no chão” - estava deixando o grisalho muito incomodado. Não mudou o semblante, continuou a escutá-lo até o fim, sério; atento às pequenas nuances, ao semblante do namorado. Ao término, apenas desviou o olhar. Snow havia se aproximado novamente de Stephen, que prontamente fez uma breve carícia na cabeça do animal velho. Respirou fundo, como se tentasse organizar os pensamentos, ser racional. E sorriu. Um sorriso assustadoramente calmo, típico de quando o professor de literatura se encontrava irritado. Voltou-se para o amante, com um olhar tranquilo, mas pesado.

- Acho que vou precisar de um tempo para digerir tudo isso, Lei. Se importa? - pegou a coleira do dálmata, levantando-se enfim do banco - Não quero te machucar com alguma atitude impensada ou alguma palavra desnecessária. Você não merece isso e está dando o seu melhor. - respirou fundo mais uma vez - É melhor que hoje… você durma no seu apartamento. E eu no meu. Mas eu vou ficar mantendo contato. Estamos bem, não se preocupe. Só preciso entender o que estou sentindo nesse exato momento para ser justo com você.

Aprendeu com aquele relacionamento da pior forma possível - vide Benjamin e Matthew - que por mais irritado que estivesse, precisava explicar minuciosamente passo a passo do que planejava fazer ou estava pensando para não deixar Lei preocupado a ponto de fazer alguma besteira. Finalizou se aproximando dele, desferindo um beijo terno em sua testa.

- Estou indo agora. Me liga se precisar, ok..?

Lei

Lei assumiu que por “digerir”, Stephen queria dizer que iria pensar sobre o que estava dizendo. Pensando com o estômago ou digerindo com o cérebro, não tinha certeza. Mas supunha que as notícias não eram boas para o grisalho, e que ele não estava feliz. Sabia quando Stephen estava feliz, pois sempre o observava atentamente. Mas era bom que ele não estivesse feliz de fato, ou talvez seria ainda mais inútil pedir que ele lhe esperasse.

Sacudiu a cabeça negativamente de modo compreensivo, porque não se importava que ele tomasse um tempo para pensar por si só. Lei tinha feito o mesmo, então era justo. Só o fato dele reconhecer que Lei estava tentando ser mais sensato naquela situação era o suficiente, mesmo que talvez aquela fosse precisamente a vez em que o carateca precisasse juntar cada grama de sua usual obsessão e impô-la a Stephen. Só não queria ter que admitir para o namorado que naqueles pesos e medidas, um irmão gêmeo de quem era estranhado há tanto tempo fazia seu coração bater tão forte quanto pelo grisalho.

Fechou os olhos por um breve instante para receber aquele beijo na testa, ainda sentado no banco sem se mover um centímetro quando Stephen decidiu ir embora com Snow. Apertou os lábios quando ele se despediu, mas o observou fixamente em seguida.

- Te amo, Stephen. – adicionou, a despedida breve, sabendo que ainda teriam o que conversar e arrumar. Mas por hora, só sentia que aquelas eram as palavras que deveria dizer a ele, antes que pensasse que tudo o que estava fazendo era exatamente o contrário. Mas ele sabia. Tinha certeza.

[Thread encerrada]


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