[Drive][16 anos] Saving Greys [Jade (13 anos); Zazou (20 anos)]
#1
Zazou

Há três anos como mandante geral no bairro de Gris, Zazou tinha visto sua influência crescer exponencialmente de um ano e meio atrás até então. Tinha adquirido aliados, e inimigos fortes. Tudo isso fazia a fama de um homem aumentar consideravelmente. O problema era que tinha só vinte anos, e embora tivesse sido criado na criminalidade, ainda não tinha a cabeça inteiramente no lugar. Às vezes se pegava provocando as pessoas erradas que lhe olhavam atravessado. Mas sua necessidade de impor respeito e de seguir certas regras de conduta eram o que faziam tantas pessoas mais continuarem sendo coniventes com sua presença ali em Cerise.

O problema daquele dia em específico era que tinha recebido informação de um trabalhador do porto que um navio tinha chegado com imigrantes traficados. Vendo os marginais do navio carregando mulheres e adolescentes, estalou a língua e fez uma cara feia, porque não gostava daquilo de forma alguma; mas também não estava no direito de mexer com os negócios de alguém, a não ser que quisesse criar outro inimigo grande.

Ao invés disso, observou por um tempo de longe junto de um grupo de homens, até notar uma comoção entre os sujeitos do navio, sobre o que parecia ser um adolescente que certamente estava em péssimas condições. Estreitou os olhos e se aproximou, porque a conversa parecia muito irritante para aguentar ouvir de longe.

- Vou fazer o que com ele?? É mercadoria avariada. Ou, ou, você! Olha pra mim! – o sujeito de um tapa no rosto do garoto, que estava sendo basicamente arrastado para fora do navio por outro homem. – Ah, deixa ele, vai morrer mesmo. Mais tarde a gente joga ele no porto.

- E se eu jogar você no porto? – Zazou rosnou, agarrando o homem pelos cabelos, vendo os sujeitos que estavam consigo já porem as mãos nas armas. – Eu não dei permissão pra despejar corpos aqui. Especialmente um vivo.

Jade

Qadir estava com dor, com frio e com fome, mas aquele era um estado que nem lhe deixava mais tão alerta quanto deveria. Alguns anos atrás, quando corria pelas ruas do Cairo para conseguir comida e dinheiro para a família e os irmãos, talvez tivesse um instinto de sobrevivência maior para roubar o pão dos seus irmãos. Mas agora, machucado dos pés à cabeça, desnutrido, com o rosto inchado e algumas marcas de queimadura de cigarro, ele bem esperava morrer dentro do compartimento de um navio, em que entrava provavelmente pela terceira ou quarta vez para mudar de casa.

Da primeira vez que tinha sido vendido, até foi bem alimentado e bem cuidado no começo, e depois só piorou até ser jogado fora. Da segunda vez, foi menos comida e mais experiências dolorosas, até também ser dispensado. Depois da terceira vez, ele já tinha desistido de resistir e de comer e esperava se livrar da dor e da fome logo.

Quando o navio atracou em um novo porto, todas as pessoas com quem ele compartilhava o espaço começaram a sair enfileiradas. Ele até tentou se levantar para acompanhar, mas percebeu que estava mais fraco por não ter comido mais que alguns pedaços de pão e água no longo caminho. Ele usava alguns trapos como roupa e tinha um lenço sobre os ombros que uma das mulheres tinha lhe dado na viagem, mas era tudo.

E depois que demorou a se levantar e sair, não foi surpresa que um dos homens do navio viesse para lhe arrastar pelos braços mesmo que mal conseguisse andar, tropeçando nos próprios pés e no caminho. Ouviu os gritos quando deixou o navio, embora não entendesse nada do idioma alheio, e o ouvido que estava zunindo piorou quando levou um tapa. Já esperava outro golpe, mas não veio, e se manteve em pé com as pernas trêmulas para levantar o olhar e ver que o homem que tinha lhe batido tinha os cabelos puxados por outro homem com a mesma expressão dos que costumavam lhe arrastar de um lado a outro. O garoto só segurou o lenço em volta dos ombros e esperou ser arrastado de novo para o próximo destino.

Zazou

Embora Zazou estivesse tentando se acostumar com a situação deplorável em que muitos dos traficados chegavam no porto, o fato de estarem dispensando o adolescente em um estado tão grave como se fosse uma mercadoria lhe deixava de sangue fervendo.

- Z-Zazou! N-não vamos despejar esse aqui em Gris não...! A-A gente dá um jeito...! Sumimos com ele em outro lugar...!! – o sujeito que teve os cabelos fechados tentou argumentar, antes de ser subitamente soltado, o que lhe fez suspirar de alívio.

Zazou observou o garoto fraco, magro e sujo e estalou a língua, bufando com os lábios pra o absurdo que o outro homem tinha dito. Sacudiu a cabeça negativamente e empurrou o sujeito do caminho. O garoto estava acordado, e claramente a expressão dele era conformada com tudo aquilo, exceto pelo óbvio apego ao lenço em volta do pescoço, que não sabia o que significava para ele e nem lhe interessava. Só pegou-o pelo braço e olhou para o outro sujeito que carregava o garoto, esperando que ele soltasse.

- Eu fico com ele. E com qualquer um que vocês forem despejar. Luca vai ficar aqui. E se algo acontecer com o Luca, algo muito pior vai acontecer com vocês. – falou com a voz muito sóbria, de quem tenha plena certeza do que estava dizendo.

Silenciosamente, Zazou chamou um membro do grupo e comandou-o para carregar o garoto, que foi colocado nas costas e literalmente levado sem mais protestos. Não iria levá-lo para casa, pois não tinha exatamente uma casa; e não iria levá-lo para o hospital, porque aí levantaria perguntas demais de quem não queria lhe perguntando nada. O único lugar seguro – ou o único lugar que tinha em mente – era o bordel de uma cafetina que conhecia há mais tempo do que queria, e que tinha lhe dado um chão para dormir e uns pratos de comida ao longo dos anos. Talvez ela não fosse ficar feliz que levasse mais problemas para ela cuidar, pois não bastava todas as meninas sob a asa protetora dela, mas estava cuidando dela agora em Gris, não lhe custava fazer um favor.

Jade

Qadir não esperava muita coisa e mal levantou a cabeça quando ouviu a discussão dos dois homens. Também estava acostumado com os gritos e conversas em línguas que não entendia. De todo modo, logo logo seria levado para outro destino, então era só esperar, e o principal, melhor não olhar muito nos rostos deles, aquilo sempre lhe rendia mais algumas surras.

A conversa se acalmou e o garoto esperou ser puxado de novo para o próximo lugar em que iria servir a alguém, mas foi estranhamente carregado nas costas de outro homem e a proximidade e o modo como estava sendo levado lhe deixou alerta, a ponto de ficar um pouco nervoso e quase se soltar das costas do homem.

- [E-eu posso… andar…] - ele tentou argumentar com o estranho que estava lhe carregando nas costas, mas a voz era baixa e rouca, além de ser em árabe, o que provavelmente não faria muito sentido para o homem que também estava conversando em outro idioma. Por sinal, era um idioma que ainda não tinha ouvido de suas viagens pelos países próximos do Egito.

Zazou

Notou o nervosismo do garoto ao longo do caminho. Não tinham outro modo mais confortável de levá-lo por ora, talvez se arrumassem um carro de mão. Ajudou o seu subordinado a segurá-lo, colocando-o de volta em uma posição confortável depois dele se mexer, para que pelo menos chegassem no carro que estava um pouco longe. Ouvir aquele idioma não lhe deu ideia de como responder, porque supunha que ele não falava francês. Ao invés disso, no momento em que o colocou no carro junto do outro homem, sem saber o que fazer pelo garoto e também desacostumado a ser gentil, só estendeu a mão até os cabelos escuros por um breve instante, supondo que acariciá-lo como faria com um cachorro ajudaria.

De carro, o bordel era próximo, já que tudo ficava em Gris inevitavelmente. Dessa vez foi o próprio Zazou que pegou o rapaz, carregando-o nas costas enquanto o outro saía com o carro dali para prestar ajuda ao pessoal cuidando dos traficantes. Engoliu em seco enquanto entrava pela porta aberta, vendo logo olhares curiosos para si e para o rapaz em suas costas.

- Não. – uma mulher muito elegante de roupas curtas com várias jóias falsas e uma maquiagem impecável disse, assim que viu Zazou e o garoto. – Zazou, não. Fora daqui. Arrume outro lugar para deixá-lo. Já tenho minhas meninas para cuidar.

- Madame... ele não fala francês, e o pessoal no porto ia despejá-lo no mar... vivo. Ele tá fraco, dá pra ver, não dá? – Zazou colocou o garoto em pé devagar, apoiando-o com o braço porque não queria ficar carregando o garoto mais do que precisava. – Tenha pena dele. Ele parece ter tido uma vida de merda, e aquelas pessoas tratando ele como nada no porto... talvez tenham outros també- AI!

- Ora, tenha dó de mim, moleque! Inferno! – a mulher deu um tapa na testa do traficante, olhando longamente para o adolescente no braço dele. – Lá na cozinha. Xô, sai da entrada. Não quero que atrapalhe os negócios. - ela reclamou, então estreitando os olhos. - E se trouxer mais alguém, mande entrar pelos fundos! Até parece que não conhece esse lugar!

Zazou foi até a cozinha como ordenado, ajudando o adolescente a ir até lá devagar. Foram os dois seguidos por uma série de mulheres curiosas, que não fizeram nada para ajudar, mas também não ficaram no caminho.

- Não fala francês? – uma loira falsa falou, animada. – [Fala espanhol? Qual seu nome?]

- [Romeno? Olá!] – outra disse, animada.

- [Fala Árabe? Meu nome é Zara!] – uma disse, praticamente saltando por cima do ombro de Zazou, que a afastou sem delicadeza alguma. – Ai! Seu grosso!

- Por que não fazem algo por ele além de conversar? Arrumem um lugar pra ele descansar, sei lá. - Zazou reclamou, indo atrás de pão e água para o rapaz, sem saber se tinha permissão de pegar outra coisa para ele comer.

Jade

Mesmo depois de dizer que podia andar sozinho, o homem não lhe largou, ao contrário, lhe ajudou a se segurar melhor nas costas do outro homem e eles seguiram até entrar num carro. Qadir continuou se segurando ao lenço em volta do corpo porque era só o que tinha para fazer, e depois de um trajeto não muito longo, eles pararam em frente a um estabelecimento que era até familiar aos olhos de Qadir. Mais familiar ainda uma mulher cheia de jóias e brilhos que se aproximou do homem e lhe reclamou num tom de voz intenso. Qadir apenas baixou o rosto e esperou a pancada que viria, mas não aconteceu.

Mais vozes intensas, mais palavras que ele não entendia, e logo estava sendo guiado para outro lugar, de um jeito até mais suave do que antes, e mais vozes se acumularam ao seu redor em idiomas que ele não entendia. Ao menos, até ouvir um som parecido com o da sua cidade natal.

- [Hm… eu falo…] - ele respondeu num fio de voz, a mulher que foi empurrada para longe por um dos rapazes que tinham lhe levado até ali. O que só fez com que ele encolhesse os ombros de novo, como se não devesse ter falado.

Zazou

O rapaz parecia desfalecido demais até para responder, mas a voz fraca fez com que a tal Zara se animasse prontamente, e então ficasse nervosa logo em seguida. Zazou notou que aquilo parecia ser uma resposta, e isso o deixou mais atento ao rapaz. Mas notou que seus modos grosseiros também tinham deixado o garoto em um estado igualmente alerta.

- É árabe! Eu sabia! Espero que eu consiga lembrar de como fala direito...! – a garota exclamou, passando na frente de Zazou que carregava a água e o pão para se ajoelhar na frente do garoto, que parecia muito fraco. – [Qual seu nome...? Está seguro aqui. A gente vai cuidar de você!] – ela quase cantou aquelas palavras, delicada, tocando a mão sobre a do garoto.

Zazou estendeu a caneca com água e o pão para ele, mas Zara pegou-os de suas mãos, oferecendo primeiro a água com cuidado, colocando as mãos dele em volta do copo.

- [É água. E pão. Está com fome? As meninas vão preparar um lugar para você descansar também.] – ela então olhou para as outras garotas, que estavam lhe cercando o menino ainda como se ele fosse um alienígena. Zazou empurrou todas para fora, para que fizessem alguma coisa além de olhar pro garoto. Não que agora ele estivesse fazendo muito diferente. A prostituta que falava árabe então olhou do bandido intimidador para o rapazinho, e abriu um sorriso suave. – [Ele lhe trouxe aqui. Não tem jeito, mas ele é uma boa pessoa.]

- O que é que cê tá me encarando? – ele rosnou, arqueando a sobrancelha para ela.

Jade

A mulher que tinha falado no idioma que ele conhecia ficou um pouco alterada quando respondeu. Aquilo fez com que o garoto olhasse curioso e temeroso na direção dela também, afinal, ela voltou a falar em um idioma que não entendia. Depois de uma comoção e de olhar estranho para todas as outras mulheres ao redor, ele viu o pão e a água na sua frente, e a mesma moça voltou a falar em um idioma que ele conhecia. O toque dela em sua mão fez com que retesasse o corpo um pouco, mas só porque era uma resposta automática. Ele a encarou de volta com os olhos grandes com marcas de olheiras fundas ao redor.

- [Não sei… lugar n-novo… nome novo?] - ele respondeu, muito acostumado que já estava a receber nomes novos quando ia para outros lugares, e embora ela tivesse dito que ia “cuidar” dele, aquela era uma palavra que ele nem lembrava o que significava.

A mulher gentil lhe entregou uma caneca e lhe ajudou a segurar com as duas mãos. Só quando envolveu o copo foi que percebeu como estava fraco e como o copo quase caiu, mas conseguiu segurá-lo. Ele fez um aceno pequeno com a cabeça, para ao menos dizer que tinha entendido que era comida e que estava com fome.

- [Obrigado] - ele agradeceu antes de levantar a caneca para beber um pouco de água, as mãos ainda fracas, mas a necessidade de beber lhe fez até engasgar e tossir um pouco. Levantou o olhar para o homem que tinha lhe tirado do porto quando a mulher disse que ele “era uma boa pessoa”, e só imaginou que se fosse verdade, seria uma novidade para um novo dono. - [Meu dono?]

Zazou

Só quando o adolescente falou que não tinha nome, a garota franziu a testa, perdendo toda a leve animação de encontrar algum conterrâneo em Cerise. Ela olhou por cima do ombro para Zazou e entortou os lábios.

- Eu acho que ele não tem nome. – ela falou com a voz mais baixa para o traficante. Tinha notado que ele ficava meio assustado de estar em um ambiente com as pessoas falando um idioma estranho ao seu redor.

Zazou já tinha encontrado muitas pessoas traficadas, mas era a primeira vez que lidava com um adolescente, e inclusive, um sem nome. Ele olhou por cima do ombro com curiosidade, até porque se ele não tinha um nome, provavelmente não deveria ter lembranças de família. Era um indicativo talvez de que ele tivesse vivido a vida inteira como escravo, e isso lhe deixou irritadíssimo. Tinha a satisfação de ter deixado Luca no porto, porque se fosse alguém com menos capacidade de lhe segurar, teria ido de volta ao navio dar uma surra em cada um dos homens que pretendiam jogar aquele garoto fora como se não fosse nada. Porque era provável que era assim que ele se sentisse: nada.

Não era um sentimento a qual Zazou era estranho.

A garota tomou cuidado quando o rapaz engasgou, mas supunha que era natural com as olheiras e o descaso com o qual ele tinha sido tratado. Só foi obrigada a sorrir quando ele perguntou se Zazou era seu novo dono, o que Zara queria pagar para ver, do pouco que conhecia o líder de gangue.

- Ele acha que você é o novo dono dele. Já que ele não tem nome, por que não dá um a ele? Você que o salvou, deveria batizá-lo. – ela reportou ainda numa voz tranquila, tentando não assustar mais o garoto.

- Não. – Zazou rosnou, olhando para a mulher com um olhar estreito, segurando a vontade de dar um cascudo nela para não assustar o garoto. – Passa um recado pra ele, e se errar, vou dizer a madrinha que você tá pegando do bar pra encher sua garrafa de tequila no armário.

- Ai, tá bem, tá bem! – ela falou, fazendo um bico, estendendo as mãos para ele se acalmar.

Zazou então agachou mais próximo a ela, usando um tom de voz menos ameaçador para comunicar suas palavras, lutando com vontade para ser suave uma vez na vida, porque em geral, era o oposto do que precisava na rua.

- [Ele disse que não é seu dono. Nem mestre. Você mesmo é seu dono aqui. Por isso tem que descansar, dormir, comer, e ficar bom pra ter força pra fazer o que quiser.] – ela falou com calma, e então sorriu enquanto Zazou terminava de falar. – [E que estamos proibidas de lhe dar um nome. Por que você não é bicho. Quando estiver inteiro pode escolher você mesmo.] – ela virou para Zazou, com um ar debochado. – Algo mais, dono?

- Vá a merda, Zara. – ele resmungou, olhando para o garoto um instante antes de levantar. Logo as meninas deveriam arrumar um quarto para ele descansar. E dali, era responsabilidade da madrinha.

Jade

A moça que falava o seu idioma voltou a falar com o homem que devia ser seu novo dono, afinal, era ele que tinha lhe tirado do porto. Mas ele apenas baixou o olhar para o pedaço de pão e tentou comer alguma coisa, em pedaços muito pequenos, sentindo a garganta arranhar ao engolir, mas ao menos era mais comida do que tinha na longa viagem de navio. Ouviu mais conversas no idioma que não entendia e tentou não prestar muita atenção, ao menos eles não estavam gritando nem discutindo para lhe empurrar para outro lugar, ou era o que esperava.

Ele ergueu a cabeça para ver o seu dono se aproximando de Zara e falando algo para ela, num tom mais baixo. Mas ao ouvir o que ela tinha a lhe dizer, piscou algumas vezes, um pouco confuso. Então o moço não era o seu novo dono? E não tinha outro dono para seguir as ordens? O que ele faria sozinho então? Ele olhou da mulher para o pedaço de pão e a caneca de água, demorando a racionalizar as coisas.

- [Eu... posso usar meu nome de novo? Eu... era Qadir... antes] - ele respondeu, segurando o pedaço de pão com as duas mãos e olhando da comida para o homem que tinha lhe levado até ali. - [Obrigado, moço...]. - agradeceu ao homem no seu idioma natal, e embora não entendesse muito a nova situação em que estava, parecia menos ruim do que das últimas vezes, até então. Pegou o pão entre as mãos e mordeu de novo, engasgando mais uma vez pelo tempo que estava sem comer.

Zazou

O olhar do garoto que parou de comer apenas para processar a informação que não teria um nome e não tinha dono foi claramente a expressão de quem não entendia o que estava acontecendo. Zazou sentiu um tique na sobrancelha, supondo que ele não devia ter paz e deveria estar passando de mão em mão há muito tempo. E sabia qual era o problema de dizer aquilo para um moleque naquele tipo de vida: é que até então ele não sabia o que era depender de si mesmo, e a perspectiva da mudança era tão dura quanto de permanecer na vida escrava. Porém esse problema, deixaria para a cafetina que cuidava dali resolver.

A mulher que estava traduzindo tudo sorriu quando viu o rapaz revelar que tinha um nome e que podia usá-lo agora.
- [Qadir é um nome muito bonito.] – ela comentou, notando o jeito como ele olhava para o outro e o agradecimento. Zara olhou com um ar divertido. – Qadir é o nome dele. E ele está agradecido a você.

Zazou levou a mão até a nuca e coçou os fios curtos ali, sem saber o que falar, já que os dois não falavam o mesmo idioma.

- Qadir... – repetiu, notando o nome muito diferente. - Zazou. – apontou para si mesmo, sem saber como se comunicar.

A moça quase ignorou o traficante quando ele tentou falar sobre si, porque o garoto ainda estava engasgando com pão, e não podia bater nas costas dele para não assustá-lo.

- [Pode comer devagar, Qadir.] – ela falou tranquila, abrindo um sorriso. – [E o moço diz que é Zazou... mas na verdade todas chamamos ele de Tristan quando ele não está aqui.]

Zazou estreitou os olhos para a mulher, e então decidiu sair da cozinha, olhando só uma última vez para trás antes de encarar Zara, e sumir na porta.

- Madrinha, a Zara roubou tequila do bar para encher a garrafa do quarto dela! – deixou o som soar da porta, e prontamente a garota ficou vermelha, bufando de raiva. Certamente tinha passado na mente dela que o outro era impossível. E talvez eventualmente Qadir fosse entender melhor sobre a vida ali em Gris.

[Thread encerrada]


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