[Drive] Arte e Mania [Stefan; Arman]
#1
Stefan

A rotina tinha se restabelecido tão rápido quanto ela tinha sido quebrada. O retorno à St. Clavier tinha sido marcado pelos trabalhos que ainda tinha que terminar do seu curso de artes, e não importava que nos jornais um corpo tivesse aparecido sem olhos e todos estivessem comentando em polvorosa. Estava anestesiado. Sentia que o tremor das suas mãos tinha desaparecido parcialmente. Queria pintar. Queria dançar. Queria ter uma chance de sair daquela escola e encontrar sua mãe.

Só não queria lidar com os vermes que rastejavam pelas paredes daquela prisão. Conseguiu evitar o verme chamado Dr. Vlahos, embora ultimamente tivesse visto o sujeito com outro humor, que não aquela neutralidade cínica dele. Mas em suas aulas de artes, não conseguiu evitar aquele gigante silencioso que também pintava, tão diferente de si. Na verdade, a ideia mais estúpida que tinha ouvido em muito tempo tinha sido dada pelo professor de Artes, para que trabalhassem em conjunto com os colegas para construir um quadro sob a temática sorteada: forma humana.

Como se não bastasse, sua dupla era o tal estrela Johnson, que pintava paisagens e fotografava pessoas, um tipo de talento que os outros apreciavam mas que Stefan pouco entendia o porquê do interesse. Por isso mesmo tinha sentado aquela tarde sozinho no ateliê para começar a por preto e branco em seu rascunho sobre a tela, o desenho em formas geométricas, o corpo humano desfeito e desencaixado sobre muitas dessas o formas, como um quebra cabeça. Deixou as linhas mais expressivas e a expressão do rosto também desencaixado sem vida alguma, como agora entendia que os rostos podiam expressar. Trabalhou a tarde inteira, até cansar e levantar-se apenas para pegar um lanche na cafeteria, o que levaria alguns minutos. Enquanto isso, deixou a tinta secar.

Arman

As coisas tinham ficado bem bagunçadas em sua vida ultimamente particularmente porque Albert tinha voltado para uma vida que não queria em Paris e por isso, os dois tinham terminado. Sentia falta do namorado, mas não podia cobrar dele que fosse algo além do que a família dele queria. Além do que, ele mesmo tinha julgado o rapaz por escolher atender às expectativas dos pais e ajudar o irmão doente. Se sentia mal por aquilo, mas estava aprendendo a se ajustar à situação.

Ao mesmo tempo, tinha que lidar com o fato de que Fleur estava muito mais próxima do seu detestável professor de paisagismo. Não que odiasse o homem completamente, ele sempre lhe forçava a fazer muitas coisas que não estava acostumado, mas acabava lhe dando mais repertório do que as aulas mais abstratas das matérias de artes. Então o sentimento de conflito era só intensificado pelo fato de que ele estava próximo demais de sua mãe. Provavelmente pelas situações mais recentes, estivesse mais focado nas aulas de artes, na fotografia e nas pinturas. Ao menos terminaria os créditos obrigatórios o quanto antes para ir para Paris e outras cidades na Europa e se dedicar ao seu trabalho de fotógrafo.

Uma das matérias exigiu um trabalho em grupo e fez dupla com Stefan, com quem também já estava acostumado a lidar e conversar de outras aulas de artes. Ele também era um ótimo artista, com muitas pinturas focadas em preto, branco e cinza. Mas a atividade envolvia forma humana e eles deveriam trabalhar juntos numa peça que expressasse ao menos um dos muitos conceitos da forma humana. Quando chegou ao ateliê para decidir algo com Stefan, o local estava vazio, mas o quadro com a pintura do aluno estava lá, secando. Ainda bem que tinha chegado antes que secasse completamente, desse jeito, podia alterar para adicionar algumas cores e toques seus que tornaria a atividade completa - e bem peculiar, considerando o contraste de estilo entre os dois.

Nem se preocupou em esperar pela volta de Stefan. Deixou os óculos coloridos de lado para não atrapalhar na visão das cores, preparou as suas tintas e seu material, sentando-se diante do quadro para começar a adicionar uns detalhes aqui e ali na forma que compreendia em algumas partes. Antes do fim do dia, já teriam uma boa peça para avaliação.

Stefan

O caminho para a cafeteria era sempre longo e tortuoso quando tinha que fazer outras coisas. Mas ficou mais satisfeito depois de pegar um sanduíche para encher o estômago após o esforço artístico do ateliê. Caminhou de volta enquanto comia, tomado por um pouco mais de vagarosidade já que não queria derrubar nem o sanduíche, nem o café que estava acompanhando sua refeição.

Mais alguns retoques talvez, e seu quadro estaria pronto para receber uma nota generosa do professor. O detestável do Johnson poderia se cuidar. Ele já tinha recebido elogios demais para um ano letivo inteiro, e honestamente não se importaria se ele falhasse aquela vez. Seria até satisfatório que alguma vez olhassem para ele com a decepção que olhavam para os trabalhos do aluno Tomée. Pobre bastardo.

Entrou na sala limpando a boca com os dedos e deixou o papel e o copo de plástico na lixeira, notando apenas que havia outra pessoa no ateliê, provavelmente trabalhando também em seu projeto. Só que quando ergueu o olhar, notou que era Johnson e aqueles detestáveis oclinhos amarelos dele. Seus olhos lentamente seguiram as mãos do moreno, e prontamente sentiu o corpo enregelar de ódio. Podia até ter parado de respirar, os dedos tremelicando antes de fecharem-se em um punho. O que ele estava fazendo com sua pintura?

- O que está fazendo com meu quadro? – questionou num monotom, dando um passo mais para perto que parecia ter cobrido quase metade da distância. Arregalou os olhos escuros para ele. – Isso não é seu pra mexer, gospodin Johnson.

Arman

O trabalho de Arman no quadro alheio não tomou muito tempo, logo Stefan tinha voltado para o ateliê, e foi fácil notar na expressão dele que não estava muito feliz de ter alterações feitas em sua peça. Mas não se preocupou sequer em sair da banqueta alta em que tinha se sentado de frente para a tela, só olhou para o outro inclinando o rosto um pouco para o lado.

- É nosso. - corrigiu as duas colocações bem possessivas dele. - Nossa peça precisa ser em grupo, lembra?

Não precisava explicar mais do que aquilo para o colega de classe. Voltou a dar algumas poucas pinceladas antes de se virar mais na direção de Stefan que ainda parecia absolutamente abismado com a sua participação no trabalho que devia ser dos dois.

- Eu coloquei cores parecidas com as que usei outra vez no rosto... - Arman adicionou a informação pela metade, dando uma última olhada no que tinha alterado e então estendendo o pincel com tinta azul para o outro. - Quer completar? Acho que já está bom assim.

Stefan

Nosso. Nossa peça. Isso fez com que cada centímetro do corpo de Stefan tremesse de raiva. Já não tinha liberdade naquela academia, já tinha obrigações com os outros, agora não podia ter sequer sua arte só para si? Era um absurdo! Um completo absurdo. E Johnson, aquele detestável do Johnson, não se arrependia nem um pouco de fazer as modificações no quadro sem a sua permissão? Tudo que ele fez foi lhe responder, com a cabeça virada como um cachorrinho, e voltar a pincelar.

- Você só pode estar jogando comigo, gospodin Johnson. – Stefan respondeu com um tom claramente ríspido, olhando para o quadro cheio de cores que não queria, com formas que não queria, e que sequer combinavam com sua arte. Deu mais alguns passos na direção de Johnson, que lhe estendia o pincel com tinta azul, e alcançou o objeto com a ponta dos dedos. Sentiu um calafrio se espalhar pelo corpo ao indiretamente encostar nas mãos do outro, os dedos se retraindo por um instante. Porém, olhou diretamente nos olhos do colega de classe, e então, firmou a mão em volta do cabo do pincel, mesmo que isso significasse que tocaria nele. – Por favor, Johnson. “As cores da outra vez”? Deveríamos fazer um original, não é mesmo? Um original que junte nossas duas técnicas. E não uma reprise das suas. Ainda sim, você vem e mexe no quadro, sem considerar os tipos de ilustração que fazemos, sem dar um único valor as nossas particularidades e preenche o fundo com azul. Que tal começarmos pelo azul? Gosta do azul? Gosta do azul do céu, do mar, porque o azul certamente não é das pessoas. Azul não me lembra pessoas. – arregalou os olhos para o moreno, mostrando todos os dentes a cada palavra, pegando aquele pincel e pincelando longamente o meio do desenho, passando mais pinceladas dramáticas pela tela, deixando uma imensa mancha azul sobre o rosto que tinha desenhado. – Veja... podemos recomeçar agora. Vou pegar meu lápis, e aí, sobre o seu azul, vamos recomeçar de um jeito melhor, sim, Johnson?

Estendeu a mão até seus materiais que estavam próximos, passando pelo carvão para pegar um dos lápis mais duros que tinha, mostrando a Arman entre seus dedos por um instante, afinal, aquele era um lápis de rascunho, não era?

- Veja, Johnson. Sobre o azul. Porque você gosta do azul. – Stefan encarou o moreno com os olhos escuros. – Mas veja, Johnson. Eu acho que as pessoas me lembram vermelho.

Stefan sentiu um arrepio percorrer pela nuca, como se estivesse possuído. Sentia um formigamento passar por todo braço, num movimento que demonstrava sua habilidade no manejo da arte, e com a artisticidade de um verdadeiro pintor, fincou o lápis no olhar indescifrável de Arman, sentindo até um leve repuxar da carne quando tirou ele de dentro do globo. Tentou fazer o mesmo de novo, mas apenas arranhou a superfície com a ponta do lápis. Tentou mais uma vez, vendo vermelho na ponta do lápis e sorriu amplamente ao descer o lápis uma terceira vez.

Stefan ergueu o olhar para Arman enquanto soltava o lápis, indo calmamente até a pia tirar o sangue que havia respingado em si. Assim como tinha aprendido.

- Agora pode pintar a vontade, gospodin Johnson. – então saiu dali, um sorriso amplo no rosto que não sabia desfazer, como se pela primeira vez tivesse sentido uma euforia que lhe deixasse satisfeito.

Arman

Arman encarou Stefan diretamente quando ele perguntou se estava brincando com ele. Obviamente não estava brincando, então nem sentiu a necessidade de responder. Logo ele tinha pegado o pincel de volta e notou a postura mais retraída. Mas a ideia de ter que fazer tudo do zero e perder mais tempo com um trabalho que devia ser tão simples lhe deixava cansado e interessado ao mesmo tempo. Nunca tinha feito nada do zero com Stefan, poderia sair alguma coisa interessante dali, por mais que o outro parecesse hesitante.

- Não me importo de começarmos de novo. - respondeu, dando de ombros e pegando o seu godê colorido para ajustar os tons e escolher algo que se encaixasse com a proposta nova de Stefan. Mas foi ele mesmo que ainda riscou o quadro pela metade, mudando completamente a composição que ainda não estava seca antes de se propor a pegar um lápis e começar tudo de novo.

Arman pegou o pincel de volta e no processo simples de misturar as cores, enquanto Stefan escolhia o seu lápis de rascunho, foi pego de surpresa com o movimento rápido do outro até sentir o impulso para trás e a pressão diretamente em seu olho direito. Talvez fosse a velocidade da ação, mas o seu corpo não processou o acontecido, nem a dor, nem o calor que se espalhava pelo rosto. A reação imediata foi deixar um "argh" escapar entre os lábios entreabertos, enquanto o godê e o pincel escorregavam de suas mãos, assim como a banqueta alta em que estava apoiada que levou um baque para trás. Seus dentes apenas se fecharam com mais força até sentir o vento perto do rosto, de uma sensação de proximidade muito grande de Stefan até o terceiro movimento com o lápis na direção de seu olho. O corpo pareceu finalmente processar a pressão do lápis em seu globo ocular e levou uma das mãos ao rosto enquanto a outra se erguia para tentar se defender de um Stefan que já tinha se afastado.

- Arhhhh…! - a pressão e a desorientação fizeram com que ele caísse sentado até bater na banqueta que já estava no chão e num dos cavaletes atrás de si. Não ouviu as últimas palavras de Stefan nem o viu sair da sala, só sentindo o líquido quente escorrendo pelo rosto ao levantar a mão até o olho direito. Apenas quando os dedos tocaram o cabo do lápis ainda em seu rosto, ele conseguiu processar toda a situação e sentiu a respiração descompassar, assim como as batidas do coração aceleradas e fortes. O corpo todo estremeceu e principalmente os dedos que se colocaram em volta do lápis, para tirá-lo do seu rosto. Não sabia mais se a sensação era de dor ou de medo, mas a única coisa que conseguia enxergar e processar era o vermelho em sua mão e no chão, e sequer conseguia enxergar aquilo direito. - Stefan...? Onde você está...? Alguém...?

Stefan

Stefan não perdeu tempo ficando na sala. Já tinha feito o que tinha que ser feito. E tinha bem feito. Bem feito pra aquele patético do Johnson, que sequer tinha uma reação decente para a agressão. Até nisso era lento, o pobre coitado. Pobre coitado que agora teria um olho a menos para enxergar seus belos quadros. Que tragédia, certamente. Um arrepio de excitação percorria o corpo de Stefan enquanto ele seguia pelos corredores, sabendo que sua agressão não teria desculpa, e nem queria. Tinha feito, e bem feito.

Infelizmente para Arman os corredores perto do ateliê estavam vazios naquele horário, afinal, poucos eram os alunos livres para trabalharem em seus projetos pessoais. Quem não estava no campo estava na aula, e quem não estava na aula, já tinha fugido da escola. Por isso, ainda demorou um pouco até que um aluno cruzasse o corredor do ateliê, e ouvisse a voz de Arman, ou talvez só tivesse ouvido a respiração descompassada dele da porta do ateliê e tivesse imaginado que ele pedia ajuda. Porque o olho ferido manchado de vermelho, as mãos, a dor, tudo parecia gritar “socorro” naquele cenário.

- Ahhhhhh!!! – o garoto gritou, em um momento sem saber o que fazia, se atendia Arman primeiro ou chamava por ajuda. – O-o-o que houve?? Meu deus, alguém! Chamem o enfermeiro!! AJUDA!! – o rapaz berrou no corredor muito mais alto do que Arman sequer poderia, atraindo atenção para o lugar imediatamente. E em seguida, talvez tomado de algum espírito heróico, foi até o moreno sem saber sequer o que fazer pegando um pano limpo próximo para levar até o olho dele com a delicadeza que podia, e os dedos trêmulos que tinha. – AJUDA!!

E como se o chamado fosse o suficiente, professores e alunos saíram de todo o lugar aos poucos. Arman não teria que se preocupar com ajuda em St. Clavier. Mas teria que ir até o hospital, com urgência. E para a alegria de Stefan, só restariam rumores eventualmente.

[Thread encerrada?]


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