[Drive] Onesided Friendship [Mathew; Aleksei; Vivien]
#1
Mathew

Finalmente, após toda a confusão que se seguiu na cidade de Cerise durante os últimos meses, conseguiu a oportunidade de ir visitar Aleksei, um dos amigos que havia feito inicialmente na cidade, juntamente com o professor de biologia, Dieter. Arrumou-se para ir até o lugar onde ele deveria estar vivendo. Pelo que havia descoberto com as fofocas do colégio, o sujeito estava vivendo com o então ex-diretor de St. Clavier. Não gostava do sujeito, mas seu namorado também não era muito fã de Aleksei, então julgou que não havia porque a sua opinião importar naquele relacionamento do psiquiatra. Estava preocupado com o amigo desde quando ele havia começado a se comportar de uma forma esquisita no trabalho. Ele sempre parecia mais cansado que o normal e sempre que tocava no assunto, ele desviava das perguntas.

Arrumou-se e saiu para passar no mercado e comprar um vinho e uma torta na Antique. Não gostava de visitar as pessoas de mãos vazias, ainda mais quando não havia conseguido avisar que estaria indo visitar o sujeito. Evitou entrar nos detalhes sobre sua visita com Benjamin, pois sabia que apenas irritaria o inglês e discutiriam sobre a necessidade dele levar um vinho para aquele encontro. Se pudesse, claro, marcaria um encontro apenas com o psiquiatra e o professor de biologia, mas ao que parecia, o senhor Dieter estava com os próprios planos agora que se enroscava com a tal dona da Antique. Tinha um pouco de receio de comentar qualquer coisa com a mulher por ela parecer severa, mas imaginou que combinavam muito bem pelo ar do professor sempre ser despojado e brincalhão. Eles deveriam se completar bem. Só não fazia ideia do que o psiquiatra enxergava no diretor irresponsável de St. Clavier. Diretor não. Ex-diretor.

Parou a frente do condomínio, tirando o próprio celular do bolso para verificar se aquele era o endereço correto antes de informar na portaria que era um amigo do senhor Aleksei que deveria estar residindo no apartamento de número específico segundo as informações que havia conseguido em St. Clavier sobre o endereço do senhor Vivien. Aguardou a permissão para poder entrar no condomínio enquanto ajustava o próprio par de óculos, os fios loiros levemente assanhados como de costume e a barba por fazer. Estava correndo contra o tempo nos últimos dias devido ao vestibular para a bolsa de estudos em Medicina de Paris.

Aleksei

A última semana tinha sido uma montanha-russa para Aleksei, desde a morte de Kyle até o lento ajuste na sua rotina agora morando na companhia de Vivien, oficialmente, seguidos de problemas na sua medicação, de visitas inesperadas e assuntos pendentes do trabalho e da administração de St. Clavier. A sua vida profissional e a de Vivien estavam uma verdadeira bagunça, mas ao menos tudo parecia fazer mais sentido na companhia do francês. Mesmo se esforçando para lhe manter companhia, Vivien tinha assuntos urgentes para resolver tanto em relação ao fim da carreira política que tinha apenas declinado no último mês, assim como problemas administrativos em St. Clavier que estava então sob o controle do Conselho Administrativo até então.

Por isso, naquela manhã, depois de se certificar que Aleksei teria pelo menos alguma coisa leve no café da manhã antes de tomar os remédios, ele precisou sair para St. Clavier para continuar todos os procedimentos burocráticos. Aleksei se viu sozinho no apartamento que lhe parecia mais familiar do que a própria casa. Ao menos não tinha más lembranças ali da presença de Kyle, era um lugar seguro.

Se a semana já tinha trazido surpresas interessantes como a visita de Maud e de Dieter, a ligação no interfone naquele dia trouxe mais uma surpresa para Aleksei com o anúncio do porteiro da visita de Mathew. Ele permitiu a entrada e por um instante, ficou até aliviado que teria companhia enquanto Vivien demoraria sabe-se lá quantas horas para retornar de St. Clavier.

Aleksei seguiu até a porta de entrada, parando ali para esperar Mathew aparecer no elevador. Depois de apenas uma semana do fim da perseguição, sua aparência debilitada ainda era facilmente perceptível com o rosto pálido e os traços de olheiras no rosto bonito.

Mathew

O enfermeiro recebeu permissão na portaria para subir e não tardou em tomar o elevador, indicando o andar que iria descer. Parou ao sair da caixa metálica para dar de cara com o psicólogo, um dos primeiros amigos que havia feito naquela cidadezinha. Ele não parecia muito bem, visto as olheiras e a falta do rubor saudável bastante natural dele. Entretanto, não parecia que ele parecia mais inquieto. Sorriu abertamente ao encontrar Aleksei, sorrindo de orelha a orelha ao se aproximar para tocar o ombro do sujeito, dando-lhe algumas tapinhas.

- Então, é aqui que o senhor está se escondendo? Era mais fácil te encontrar quando trabalhávamos no mesmo lugar. - riu do próprio comentário, estendendo a mão para tocar no rosto do amigo, parando antes de fazê-lo, imaginando que talvez ele pudesse ficar desconfortável. Apontou para os próprios olhos em um gesto simples, mantendo o sorriso no rosto. - Tem dormido melhor esses dias? Tá comendo direito? Eu trouxe um vinho para você. Eu não fazia ideia de qual era o seu favorito, então trouxe o que eu geralmente compro quando vou jantar com Benjamin. Ele é bom, eu acho.

Não resistiu ao adentrar no apartamento em observar os detalhes do lugar que não parecia muito a cara do consultório mais simples, objetivo, limpo e prático. Não que o lugar fosse sujo, pelo contrário, mas não se lembrava do consultório do homem ter um cheiro específico de produto de limpeza geralmente utilizado por senhorinhas que lhe recomendavam promoções no supermercado. Gostava daquele novo perfume no ar, não tinha como negar.

- Que lugar bonito. Está aqui há muito tempo? - resolveu perguntar, imaginando se o tal ex-diretor não estaria ali também.

Aleksei

O semblante descontraído de Mathew e naturalmente preocupado era quase uma distração inesperada para Aleksei. O enfermeiro parecia muito satisfeito só de estar ali lhe visitando, o que acabou colocando um sorriso em resposta no rosto do psiquiatra. A presença quase ingênua de Mathew era uma mudança de ares bem diferente para os ares mais carregados das últimas semanas, e até mesmo quando ele foi invasivo ao levar a mão até o seu ombro e o seu rosto, Aleksei reagiu menos do que o esperado ao contrair os músculos em uma tensão breve.

- Bom, sinto muito que seus dias vão ser desinteressantes sem mim por perto, Mathew. - Aleksei respondeu, dando um passo para o lado, deixando o caminho para convidá-lo a entrar. Antes de fazê-lo, deu uma olhada breve no presente que ele tinha escolhido para lhe trazer e quase teve vontade de rir com a escolha, ao segurar a garrafa. - Obrigado pelo presente, mas talvez não seja uma boa ideia beber no meu estado atual. Estou dormindo e comendo o quanto é possível, não posso exigir demais.

Aleksei deixou que Mathew entrasse na casa e fechou a porta quando ele passou, acompanhando a visita até a sala e parando ainda com o vinho na mão na intenção de levar até a cozinha.

- Guarde os elogios para o Vivien quando ele voltar, o apartamento é dele. Eu vim para cá há pouco menos de uma semana. - respondeu o grego, muito ciente mentalmente de quantos dias tinham se passado desde a morte de Kyle. A lembrança lhe fez divagar por um momento no caminho entre a sala e a cozinha, e ele voltou o olhar para o vinho que ainda tinha em mãos. - Eu vou deixar na cozinha, aceita água? Café?

Mathew

Manteve o sorriso, sentindo-se mais confortável com a resposta mais típica do amigo. Contudo, ficou um pouco mais preocupado por ele ainda estar precisando de cuidados com a própria saúde. Não fazia ideia de quais remédios ele estava tomando. Acabou por estreitar o olhar e fazer uma careta quase que automática ao pensar no diretor, ou ex-diretor, de St. Clavier.

- Eu gosto de água. - respondeu, ajustando os óculos para observar melhor a iluminação natural do lugar. - Falando nele, por que ele está te ajudando agora? - resolveu perguntar, nunca havia passado por sua cabeça que o psicólogo estaria junto com o diretor ou que o sujeito estaria ajudando Aleksei por baixo dos panos. - Ele parece um cara educado, mas nunca conversamos de verdade, além do trabalho, claro. Não sabia que vocês se conheciam. Por que nunca convidou ele para quando fomos sair? Ele não bebe? - resolveu perguntar por curiosidade, aproveitando para escolher um lugar confortável para se sentar no sofá.

Sacou o celular do bolso e rapidamente enviou uma mensagem para Benjamin, informando que já havia chegado no apartamento em que o psicólogo estava e aparentemente ele estava bem. Para mudar rapidamente de assunto, por saber que o namorado não gostava muito do psicólogo, resolveu perguntar o que iriam comer no jantar e se o inglês tinha muito trabalho naquela noite ou se poderiam ver um filme juntos, o tipo de programa caseiro que gostava de aproveitar.

Aleksei

Aleksei só concordou com um aceno de cabeça quando ele optou pela água e foi buscar um copo na cozinha enquanto Mathew se fazia confortável na sala adjacente. O gesto de colocar a água no copo foi quase detido pelos movimentos de Aleksei quando ele ouviu a pergunta muito ingênua de Mathew sobre o motivo pelo qual Vivien o estava ajudando. Era até engraçado pensar que o relacionamento deles, de fato, nunca tinha sido óbvio para as pessoas de fora.

Aleksei trouxe a água de volta à sala para o enfermeiro e se sentou numa das poltronas vazias, entretido com as suposições de Mathew sobre Vivien e o relacionamento dos dois. Bom, pelo menos era algo com que se distrair minimamente dado o seu estado nos últimos dias.

- Por que será que ele está me ajudando, Mathew? - Aleksei não resistiu à pergunta retórica, que no caso de Mathew, não devia ser tão retórica. - Não sei, talvez porque eu seja um funcionário muito valioso? Ou porque ele não quer que eu denuncie ele ou a academia pela falta de segurança do último mês? Ou porque na verdade nós sempre tivemos um relacionamento íntimo e o Vivien na verdade é um sádico que gosta de me torturar nas horas vagas? Eu posso ter síndrome de estocolmo também, o que acha?

Por mais estressantes que tivessem sido os últimos dias, era engraçado sentir um pouco de alívio e distração com a capacidade dedutiva de Mathew. Até ficou curioso por um momento para descobrir o que o enfermeiro achava que havia entre ele e Vivien.

Mathew

Estranhou o tom da pergunta do amigo, mas agradeceu pelo copo com água. Começou a beber em silêncio, mantendo o líquido da boca ainda ao afastar o copo, pensativo sobre porquê ele estava lhe questionando tanto sobre algo que ele deveria saber. Foi então que lhe ocorreu que talvez ele estivesse tentando lhe ajudar a chegar em suas próprias conclusões.

- Arg-cof cof coff!!! O-cof-que?! - engasgou exasperado, tampando a própria boca e o nariz quando a água retornou pelo canal nasal, causando desconforto maior assim que engasgou. Ainda bem que não havia pedido café. Encarou o psicólogo, sem entender aquelas perguntas, ainda mais quando ele cogitou a possibilidade do ex-diretor estar lhe torturando. - Ele tá te batendo?!

Deixou o copo de lado, buscando o próprio celular de antemão, ficando mais atento à possível presença do ex-diretor, imaginando se ele não poderia chegar a qualquer momento. Desde quando havia sido assediado em St. Clavier, desconfiava que o homem não era correto, sendo conivente com aquele tipo de comportamento nocivo.

- Você sabe que pode ficar lá em casa, não sabe? O Benjamin vai reclamar no começo, mas eu falo com ele, não se preocupe. É por isso que perdeu peso? E essas olheiras? Ele não te deixa dormir? - fez uma breve pausa. - E o que você quer dizer com síndrome de estocolmo?! Você tá apaixonado por ele? Aleksei, ele bate em você!? - indagou, encarando o amigo, perdido com a ideia de que tudo aquilo estava acontecendo sem que soubesse de nada.

Aleksei

Era divertido brincar com Mathew, mas Aleksei certamente não esperava aquela reação exagerada. Menos ainda quando as opções que tinha sugerido ao enfermeiro eram tão absurdas quanto as que tinha listado. Na verdade, a resposta dele foi tão inesperada que, em uma semana apenas que estava começando a se acostumar com a rotina livre da perseguição de Kyle, Aleksei precisou esconder os lábios com um sorriso divertido. Era inesperado que ele estivesse mesmo achando graça da situação e talvez só Mathew tivesse aquela habilidade.

- Bom, não nos últimos dias. - Aleksei respondeu, sobre a pergunta dele se Vivien estava lhe batendo. O mais irônico é que das opções absurdas que tinha dado a Mathew, podia responder com uma sinceridade distorcida e divertida. - Mas não é como se eu estivesse em condições de fugir, não é?

Talvez não fosse uma boa ideia alimentar a visão que Mathew tinha de Vivien, claro, mas estava há tanto tempo sem um bom entretenimento que ele não teve como resistir à tentação. Era bom também sentir aquela casualidade e descontração que tinham sido impossíveis no último mês.

- Eu agradeço pela oferta, Mathew, mas não sei se consigo sair mais do lado do Vivien. - a resposta foi, igualmente, num sentido dúbio, e o sorriso do psiquiatra se alargou um pouco quando o enfermeiro perguntou sobre a síndrome de estocolmo e muito pontualmente se estava apaixonado por Vivien. - Olha, eu lembro bem de ter agido como um adolescente apaixonado, se é que isso responde à sua dúvida. E sobre as surras, como eu disse, não nos últimos dias, ainda estou muito debilitado do último mês.

Mathew

Sentiu o sangue correr mais rápido daquela injustiça com seu amigo, mas logo empalidece, chegando a conclusão de que Aleksei deveria mesmo estar sofrendo de síndrome de estocolmo. Notou o gesto de esconder o rosto do outro e chegou a pensar que talvez ele estivesse tentando esconder alguma marca que poderia servir de prova contra o ex-diretor.

Não hesitou ao se aproximar, estendendo as mãos para o rosto de Aleksei para poder lhe segurar a face. Encarou-o com seriedade, procurando no rosto dele alguma marca recente de pancada. Notou, com o toque, como a mandíbula dele parecia mais visível, o que indicava que ele havia perdido peso. Usou os polegares para segurar o rosto do psiquiatra no lugar, virando seu próprio rosto ao observar as laterais da cabeça dele. Aproveitou que ele estava sentado e começou a procurar por marcas de pancada no couro cabeludo.

- Isso é muito sério, Aleksei! Se ele te bate, você já deveria ter ido para a polícia! Eu não sou psicólogo, mas você deveria saber que isso não é saudável! - soltou o rosto do amigo, partindo para as mãos dele, investigando se não havia nenhuma marca ali pelos pulsos. - E você tá magro! O que você anda comendo ultimamente? Tá tomando algum suplemento alimentar? E, afinal de contas, por que você está aqui? Ele não te deixa sair, é isso? - perguntou, sentando-se novamente, os braços cruzados, indignado com a situação.

Aleksei

Aleksei não conseguia acreditar que Mathew ia mesmo comprar aquela ideia de que Vivien estava lhe mantendo cativo, mas pelo visto, ainda podia ser surpreendido, ou podia se considerar um ótimo ator, porque antes mesmo de receber alguma resposta, notou a mudança de expressão do enfermeiro para uma que só podia classificar como indignada.

Ele até pensou em cortar a brincadeira e explicar que nada daquilo era verdade, afinal, Mathew também devia ter visto no noticiário que o criminoso que fora morto em Cerise tinha ligação com Aleksei e era melhor explicar tudo devidamente. Mas antes de dar qualquer resposta capaz de esclarecer a situação, Mathew se aproximou de repente, levando as mãos até o seu rosto para avaliar o seu estado físico, e embora Aleksei pudesse ver com muita precisão que era Mathew ali a sua frente, o seu corpo reagiu automático ao avanço.

A tentativa de explicar algo sumiu completamente da mente de Aleksei que, por um instante, processou o fato de que ia ser atacado de algum modo. Todo o corpo do psiquiatra se retesou e ele prendeu a respiração enquanto Mathew movia as mãos pelo seu rosto. O grego engoliu em seco, fechou as mãos sobre o colo, tentando esconder o breve tremor que surgiu ali, para encarar Mathew de volta e confirmar que era ele ali e não alguma sombra de Kyle. Aquela realização só veio de fato quando ouviu a voz de Mathew de novo e ele soltou seu rosto.

Mais uma tentativa de explicar a situação foi por água abaixo quando ele rapidamente buscou seus pulsos. Mas daquela vez, Aleksei foi mais pontual em reagir, livrando-se dos toques de Mathew e, em resposta, segurando as mãos dele daquela vez. Seus dedos estavam um pouco gelados.

- Mathew, acalme-se, nada disso é verdade. - disse Aleksei, soltando os pulsos dele. - Eu não achei que você ia acreditar tão fácil nessas alternativas absurdas, eu estava só brincando com a sua ingenuidade. É claro que Vivien não está me mantendo em cativeiro e eu não estou com nenhuma síndrome. Bom, não de estocolmo, pelo menos. - ele sorriu um pouco fraco, unindo as duas mãos sobre as pernas cruzadas. - Desculpe-me pelos velhos hábitos. Mas se lhe deixar menos irritado comigo, pelo menos sua reação me divertiu um pouco, eu estava precisando da descontração.

Aleksei pensou em levantar para pegar água, mas sentiu que as pernas não colaborariam naquele momento, então só ajustou a posição, apoiando o cotovelo na mesa.

- Eu imagino que você viu nos noticiários sobre o assassino que foi morto pela polícia no fim de semana passado, e um aluno de St. Clavier que era meu paciente e foi vítima dele também. - ele começou a explicar o que já era de conhecimento público, para só então adicionar a informação que não estava rolando solta pela mídia. - Na verdade, Kyle Bailey era um ex-paciente meu, ele era um serial killer que nunca foi condenado pelos crimes nos EUA e que ficou obcecado comigo. Ele veio para Cerise por minha causa, Mathew. Todo o tempo em que ele esteve aqui, na verdade, estava me perseguindo.

Mathew

Ficou surpreso pelo toque em suas mãos e pelas reações do psicólogo. Ficou quieto enquanto ele pedia para que se acalmasse. Franziu o cenho quando ele disse que tudo não passava de uma brincadeira, mas não reclamou, achando melhor ouvir o que ele tinha para falar primeiro. Afastou-se no sofá, dando espaço para o amigo falar sobre o assassino que havia sido morto pela polícia. Arqueou uma sobrancelha, chocado com a ideia de que o sujeito era um ex-paciente obcecado com Aleksei.

- Bem, a polícia fez o trabalho dela. E você não deveria mais ficar pensando nisso. - disse ao loiro, observando as reações dele com mais atenção. - Você está seguro agora, não é? E eu ainda não sei direito o que o diretor tem a ver com tudo isso, mas… bem, se ele está te ajudando, não deve ser uma pessoa tão ruim assim. - coçou a própria nuca, baixando o olhar. - Desculpe por não ter sido de muita ajuda para você nesse período. Eu deveria ter notado que alguma coisa estava errada com você. Bem, eu até tinha notado, mas não consegui ajudar muito. - fez uma breve pausa, antes de sorrir para o psicólogo, mais gentil. - Eu fico aliviado que tudo acabou e agora você vai poder se recuperar, dar mais atenção para sua própria saúde.

Respirou fundo e suspirou, os ombros rebaixados em meio a má postura que normalmente costumava ter. Observou de novo o cenário daquela residência por um momento, antes de retornar a atenção para o psicólogo.

- Vai… morar aqui agora? Não parece muito a sua cara. - riu baixo, imaginando que aquele assunto sobre o assassino fosse algo desagradável para o grego. - Na verdade, parece mais a casa dos meus pais lá no Canadá, minha mãe gosta dessas coisas que juntam poeira. Nunca imaginei que o diretor fosse uma senhorinha acumuladora por dentro. - brincou, imaginando o diretor visitando algum antiquário.

Aleksei

Aleksei ficou mais tranquilo quando Mathew se acomodou de novo no sofá, assimilando o que tinha acabado de explicar. Pelo menos já tinha esclarecido que não tinha nada de síndrome de estocolmo com Vivien, talvez aquela ideia ainda lhe fizesse rir no futuro. Ele só concordou com um aceno de cabeça quando Mathew apontou que a polícia tinha feito o trabalho e que estava seguro. Também não foi surpresa que ele estivesse se desculpando por não ter ajudado, não era como se alguém pudesse tê-lo feito.

- Não se desculpe por isso, ninguém além da polícia podia me ajudar, na verdade. - Aleksei esclareceu. - Foi um mês longo e complicado. Kyle era perigoso, se ele descobrisse sobre todos os meus amigos próximos, podia usá-los contra mim; se eu fosse para um programa de proteção, ele podia fazer algo com as pessoas em St. Clavier. Ele até usou um dos meus pacientes para tentar me atingir... eu estava num beco sem saída. - ele suspirou longamente pela lembrança do que tivera que enfrentar, desviando o olhar de Mathew por um minuto.

O olhar de Aleksei se focou por um instante na mesa de centro da sala e ele até deixou passar despercebido o comentário de Mathew de que ele podia se recuperar, dar atenção à saúde. Só voltou a atenção para o enfermeiro quando ele perguntou se ia morar ali, e ergueu o rosto para dar uma olhada ao redor também no apartamento que não tinha nada a ver, de fato, com seu estilo. De volta à conversa, Aleksei acabou rindo da comparação de Mathew de que Vivien era uma senhorinha acumuladora por dentro.

- Não, eu gosto de Cerise, mas no momento só me traz más lembranças. Você veio na hora certa, porque vou me mudar para Paris no fim de semana. Aliás, nós vamos. - ele corrigiu aquele detalhe com uma sensação de satisfação que não tivera em muito tempo. - O Vivien não tem só a ver com a situação, Mathew, ele tem a ver comigo. Nós nos conhecemos há mais de dez anos, ele me ajudou como podia no caso do Kyle, agora eu posso dizer com convicção que estamos juntos. - era estranho dizer aquilo em voz alta, para uma pessoa que estivera completamente alheia ao seu relacionamento com Vivien, mas lhe causava uma sensação de realização a ponto de sorrir naturalmente da ideia. - Juntos, como um casal, antes que você questione.

Mathew

Ouviu o relato do grego e sentiu um leve rubor tomar seu rosto ao ser indiretamente referenciado como um “amigo próximo”. Contudo, baixou o olhar, ajustando os óculos, concluindo que apesar de tudo o que Aleksei estava dizendo fazer sentido, ainda queria ter sido capaz de ajudá-lo de alguma forma. Notou o olhar do loiro que parava para observar aquele ambiente e ficou até mais tranquilo ao ouvir o riso dele diante de sua colocação sobre viver ali. Entretanto, o sorriso sumiu de sua face com a revelação de que o sujeito se mudaria para Paris. Ficou triste com a notícia, não era bom em esconder suas reações, mas ainda assim também não permaneceu muito absorto em seus próprios sentimentos, surpreso com a ideia de que Vivien St. Clavier e o amigo se conheciam já há mais de dez anos.

- Vocês estão juntos há mais de dez anos já? Mas… ele é não é um político também? E, espera um pouco, ele não ia se casar!? Eu juro que tinha ouvido falar algo sobre um casamento dele com uma mulher! - encarou o grego, indignado. - Ele é seu namorado agora? Como foi que- QUANDO foi que isso aconteceu?

Estava acostumado em ser o último a saber das coisas que aconteciam com seus amigos, até mesmo com sua família, mas isso nunca arruinava sua surpresa ao começar a juntar os fatos, percebendo como os relacionamentos das pessoas ao seu redor eram bem mais complexos do que imaginava.

Aleksei

A mudança rápida de expressão de Mathew era uma boa distração para Aleksei, que não se sentia tão impelido a tentar ler demais numa pessoa que era um livro aberto como o enfermeiro. Por isso gostava da companhia dele, sem ter que se esforçar muito para entender o que ele sentia em relação a qualquer coisa. Mas nenhuma das expressões de surpresa enquanto contava a situação com Kyle superou a indignação de quando ele assimilou, em etapas, o seu relacionamento com Vivien. O grego não teve opção senão rir da reação exagerada, levando uma mão para cobrir os lábios no processo.

- Não estamos juntos há dez anos, nós nos conhecemos há mais de dez anos. - Aleksei corrigiu primeiro. - Sim, ele tinha uma carreira política, sim, ele casou, sim, ele se divorciou e sim, é meu... namorado agora. Ainda é estranho colocar assim. Mas aconteceu oficialmente só na semana passada, depois que o Kyle morreu, então... ainda tenho tempo para me acostumar.

Aleksei deu alguns instantes para que Mathew se acostumasse com as informações que tinha acabado de confessar, e era estranho ele mesmo assimilar aquilo colocado de um jeito tão natural, mas talvez precisasse de uma conversa casual daquela para ver tudo de uma perspectiva mais simples.

- Acho que está tudo mais claro agora? - perguntou Aleksei. - Sinto muito que não pude contar nada do que estava acontecendo antes, Mathew. Mas foi melhor assim.

Mathew

Ficou mais aliviado quando o amigo começou a rir. Era bom assistir um Aleksei mais descontraído e menos inquieto com sua aproximação. Precisava se vigiar para não invadir o espaço pessoal do sujeito que ainda parecia precisar de um bom tempo de recuperação depois do ocorrido com o assassino e ex-paciente dele.

- Desculpa, só é estranho imaginar o diretor, desculpa, ex-diretor, sendo namorado de alguém, eu pensava que ele era um daqueles sujeitos de carreira política clássica, sabe? Esposa e filhos, família tradicional? - suspirou, ajustando os próprios óculos. - Bem, se você se apaixonou por ele, eu posso fazer um esforço também e tolerar o sujeito, não é segredo para você que não vou muito com a cara dele. - desviou o olhar, coçando a própria nuca.

Voltou para seu assento anterior, sentando-se na frente do grego no sofá, encarando o sujeito que realmente parecia ter perdido alguns quilos nas últimas semanas.

- Ele sabe cozinhar, pelo menos? Não vai me dizer que ele é um daqueles caras ricos que manda algum restaurante fazer todas as suas refeições e trazer aqui, não é? - perguntou, preocupado com a alimentação do amigo. - Se quiser, eu posso trazer alguns pratos que sei fazer, bem, eu não sei nada sobre pratos chiques, mas eu sou bom com comida caseira, pelo menos o Benjamin nunca reclamou. - explicou, rindo um pouco da breve lembrança doméstica de cozinhar pensando no que o namorado gostaria de comer. - E conta melhor isso de você estar com ele agora. Quando, quero dizer, como foi que vocês resolveram ser namorados? Ele vai voltar a dar aula? Você vai se aposentar da carreira de psicólogo? E o senhor St. Clavier é professor também, não é? Ele ensina o que?

Tinha que admitir. Às vezes, se sentia como um filho que estava acabando de receber a notícia de que os pais teriam um novo bebê e não fazia ideia de como é que aquilo havia chegado naquele ponto. Não fazia ideia de como a vida de seu amigo era complicada e isso lhe fazia se sentir mal, imaginando que esse tempo todo estava sendo um péssimo amigo, falando mais sobre seus próprios problemas que de fato conversando com o sujeito sobre assuntos em comum. Isso lhe fazia lembrar um pouco também da ruiva cereja, por quem ainda tinha uma admiração pelo esforço e carreira dela, mas que não se sentia ainda pronto para tentar se aproximar novamente da mulher que sempre havia visto apenas como uma amiga.

Aleksei

- Bom saber que ele tinha uma fachada convincente de homem de política com família tradicional cristã. - Aleksei respondeu, relaxado, dando uma risada descontraída especialmente quando Mathew apontou que não gostava muito de Vivien.

Era engraçado conversar com Mathew sobre o assunto, porque enquanto estivera tenso imaginando que todo o assunto de Kyle ressurgiria, seguido de perguntas que lhe seriam desconfortáveis e podiam até servir de gatilho, Mathew estava tão interessado no seu relacionamento com Vivien que pareceu esquecer completamente que estivera sendo perseguido por um serial killer por um mês. Era refrescante, ter que conversar sem se referir ao ex-militar, mais ainda, por falarem de algo tão banal quanto o seu relacionamento com Vivien que tinha passado por maus bocados até se concretizar.

- Eu sou a pessoa que sempre manda um restaurante fazer as refeições, Mathew. - esclareceu o grego com uma risada breve. - Mas por mais surpreendente que seja, o Vivien é bom na cozinha. Você pode não gostar muito dele, mas ele cuida bem de mim, não precisa se preocupar, não estou passando fome... na medida do possível. - ele precisou adicionar, já que ainda estava se readaptando a uma alimentação adequada. Mas as perguntas de Mathew foram bem além, uma por cima da outra, que naquele estado, Aleksei demorou a acompanhar. Ele levantou uma mão para tentar sinalizar para que Mathew contivesse a empolgação. - Calma. Vamos por partes. Eu obviamente não estou em condições de cuidar de outros pacientes agora, não pretendo me "aposentar", mas vou me afastar dos pacientes por um tempo. Vou para Paris fazer o meu tratamento agora. E o Vivien tem formação em antropologia, ele tem contatos em Sorbonne também para dar aulas e seminários, nós vamos dar um jeito de organizar as coisas por lá. E sobre meu relacionamento com ele, bom... já é uma história bem antiga. Nós nos relacionamos por pouco tempo no Japão há mais de dez anos, tivemos alguns encontros ao acaso e quando vim para St. Clavier, eu nem sabia que ele era o diretor, foi outra estranha coincidência. - ele adicionou, levando uma mão ao queixo, um pouco pensativo. - Bom… eu acho que eu já estava interessado nele há mais tempo do que posso lembrar agora.

Certamente, aquela era uma informação que nem os amigos mais antigos do grego sabiam. Menos ainda Vivien, é claro. Mas foi tão natural só dizer aquilo ao enfermeiro que ele se sentiu até estranho.

Mathew

Arqueou uma sobrancelha sobre a tal “fachada hétero cristã” do ex-diretor de St. Clavier, mas ficou mais tranquilo com a risada que se seguiu do amigo. Estreitou o olhar para o amigo quando ele falou que era a pessoa que pedia para os restaurantes fazerem os pratos. Ao menos o homem não deixava o grego com fome. Ficou mais tranquilo quando ele lhe pediu calma. Observou a expressão do homem ao falar que daria início ao próprio tratamento. Ficou surpreso com as informações que lhe foram repassadas, principalmente quando descobriu que os dois haviam se conhecido em outro país.

- Mas que estranho, vocês se conheceram em outro país e agora estão juntos. Quais as chances de um relacionamento desses acontecer? - comentou, curioso para saber como os dois se conheceram. - E o que vocês estavam fazendo no Japão? Ele estudou antropologia no Japão? Que curioso. Eu nunca visitei a Ásia. Não sei se Benjamin gostaria de visitar algum dia, talvez a Nova Zelândia, Austrália, o Dieter é de lá, não é?

Sorriu abertamente para o amigo, animado com a ideia de algum dia poderem talvez fazer uma viagem juntos. Na verdade, tinha até planos em pedir o namorado em casamento, mas só o faria quando conseguisse adentrar a faculdade de medicina finalmente.

- Peraí. - fez uma pequena pausa, lembrando de um pequeno detalhe sobre a possibilidade dos dois manterem um relacionamento ainda que não oficial enquanto estavam trabalhando em St. Clavier. - Vocês já estavam saindo quando eu comecei a trabalhar lá em St. Clavier? Vocês não fizeram nada por lá não, né? - respirou fundo, inquieto. - Argh… uma vez eu recebi uma advertência por… “ruídos obscenos" quando eu estava começando a sair com o Benjamin, logo quando a gente se conheceu. - levou uma das mãos até a própria cabeça, bagunçando mais um pouco os cabelos loiros. - Ah… uma adolescência inteira cuidando dos meus sobrinhos para fazer isso na vida adulta em outro país. - suspirou, conformado e sem nenhum pudor em contar para o amigo que havia sido repreendido por transar no prédio dos professores em locais públicos com o namorado inglês.

Aleksei

Aleksei se convenceu logo de que Mathew nem lembraria da existência de Kyle, por isso não se importou em continuar com a conversa sobre Vivien, e a curiosidade do canadense parecia infindável.

- Não faço ideia das chances e nem acredito em destino, mas dados os acontecimentos recentes, estou grato pela coincidência. - Aleksei respondeu. - Hm... eu tinha acabado de chegar ao Japão por conta do meu mestrado, fiz intercâmbio lá por um ano. O Vivien era salaryman lá, mas estava voltando para Cerise quando cheguei, então só convivemos por pouco mais de um mês. E sim, Dieter é da Austrália, é um país bonito, mas se vocês não ficarem confortáveis no calor, é uma péssima escolha. Eu particularmente já tenho resistência por todos os anos na Grécia.

Antes que eles pudessem seguir a conversa sobre os destinos de viagens, que Aleksei já tinha conhecido bastante, Mathew chegou a uma realização sobre o relacionamento dele com Vivien e, outra vez, o grego foi obrigado a conter uma risada breve, tanto pela presunção sobre o seu relacionamento com Vivien, quanto sobre os "ruídos obscenos".

- Eu acabei de dizer que nós só estamos oficialmente juntos há uma semana, Mathew. - Aleksei se adiantou em corrigir o enfermeiro. - E sobre os seus "ruídos obscenos", eu acho que não tem nenhum funcionário em St. Clavier que não tenha ouvido sobre isso. Bom saber que você e o inglês estão explorando todas as possibilidades do seu relacionamento, mas tentem não extrapolar e acabar indo parar na delegacia por atentado ao pudor, hein?

Mathew

Ficou chocado com a informação de que o herdeiro da família St. Clavier havia ido para o Japão trabalhar como salaryman. Entretanto, acabou constrangido com a menção de que poderia ter ido parar na polícia por atentado ao pudor.

- Muita coisa mudou desde que vim pra cá, sabe? Normalmente eu não consideraria nunca parar na polícia por atentado ao pudor, mas dada a minha sorte, acho que é uma chance provável de acabar na polícia ou no hospital. - riu de si mesmo, fazendo uma breve pausa antes de voltar sua atenção de novo para o amigo. - Fico feliz de que esteja indo para Paris, Aleksei. Pelo menos não é tão distante e posso te visitar quando eu e Benjamin fomos visitar a cidade.

Parou de novo, estendendo a mão para coçar a própria bochecha e arrumar os óculos mais uma vez, pensativo sobre o que havia acabado de dizer. Antes que Aleksei pudesse dizer algo sobre o assunto, estendeu a mão, sinalizando que precisava se explicar.

- Quero dizer, se for tudo bem para vocês, é claro. E-eu estou estudando faz um tempo para conseguir uma bolsa de estudos, se tudo der certo, vamos acabar tendo que nos mudar para lá também. - respirou fundo, encarando o grego. - Na verdade, eu ainda não conversei direito sobre isso com Benjamin. Eu me sinto meio mal que ele tenha que deixar a profissão dele de lado para ficar comigo caso eu precise me mudar para Paris. Isso não aconteceu com vocês? Bem, o que eu quero dizer é que a carreira de vocês é bem sólida, isso não te deixa ansioso? - perguntou mais de forma amistosa, sem conseguir evitar o comentário sobre o próprio relacionamento.

Aleksei

- Bom, no hospital você já passou e eu estava lá. Então quando for parar na delegacia, por favor, me dê o prazer de filmar e mandar para o seu inglês de novo. - respondeu Aleksei, lembrando que ele e Dieter também tinham arranjado uma foto especial de presente de natal para Benjamin que envolvia Mathew e uma ruiva. - Eu gostaria de uma visita em Paris quando você for para lá, também, Mathew. É muito fácil conversar com você, eu estava precisando de uma companhia assim depois do mês de estresse, tenho certeza que Vivien não vai se importar.

Talvez ele se importasse, mas se fosse o caso, seria ainda mais divertido para Aleksei ver a reação dele sempre que Mathew fizesse alguma visita inconveniente e o pensamento lhe fez sorrir brevemente de novo.

- Primeiro, você já devia ter conversado com o Benjamin sobre isso, afinal, vocês já até moram juntos, então é bom ele estar preparado para essas mudanças se você realmente tiver que ir para Paris. - disse Aleksei, com a sensação casual de que estava de volta ao seu consultório no meio de uma sessão. - Mas seu namorado tem cara de que se adapta fácil, e se ele sabe que você está estudando pra isso, também já imagina que vai ter que se mudar eventualmente. Ou quem sabe, ele está planejando lhe deixar até lá? - claro, era ainda mais interessante sugerir alguma coisa para deixar Mathew incomodado com a perspectiva. - Não tenho esse problema com Vivien, ele não vai poder continuar na direção de St. Clavier, não tem nada que o prenda aqui. Eu tenho investimentos e outras fontes de renda além do trabalho de terapeuta, então posso tomar meu tempo para me estabelecer, de todo modo, ele disse que iria comigo e eu não vou insistir no contrário.

Mathew

Franziu o cenho com o comentário sobre sua ida acidental para o hospital. Também já havia sido preso, acidentalmente. Porém, sorriu mais contente pelo grego admitir que gostava de sua companhia. Era uma sensação boa de reciprocidade, pois também gostava de conversar com ele e com o biólogo, ainda que, na maior parte do tempo, fosse julgado por ambos.

Concordou com um aceno em silêncio, coçando a própria nuca quando Aleksei fez questão de lhe lembrar que já deveria ter conversado sobre o assunto com Benjamin. Entretanto, encarou assustado o psicólogo com a possibilidade de que, talvez, Benjamin estivesse planejando se ver livre de sua pessoa assim que conseguisse a bolsa de medicina em Paris. Não imaginava que fosse algo imediato, mas não imaginava sua vida mais longe do outro homem. Talvez ele sequer tivesse pensado sobre o assunto, ou talvez tivesse pensado e estava feliz com a ideia de se ver livre de sua presença enquanto estaria vivendo em Paris.

Baixou o olhar, desanimado com a ideia. Conseguir se tornar um bom médico era seu sonho desde que era criança, mas também queria poder viver o momento com o inglês. Se não pudesse conciliar os dois, não sabia ao certo o que faria, se seria obrigado a escolher ou se acabaria novamente frustrado e sem perspectivas.
- Vocês pensam em se casar também? - resolver perguntar, imaginando que era algo natural para se pensar. Bem, o relacionamento dos dois parecia ter apenas iniciado, mas imaginava que em meio a toda aquela confiança e sentimento no meio do inferno que foram as últimas semanas, não haveria porquê para não considerarem a possibilidade. Ficaria feliz em pensar em ir em um casamento futuro do amigo. Contudo, imaginou que seria mais realista pensar que, talvez, Dieter fosse o primeiro a se casar novamente com a dona da tal padaria Antique.

Vivien

Vivien estava detestando a nova rotina de resolver problemas em St. Clavier. Porque em geral, seu posto de diretor significava não ter que fazer muito, exceto anúncios, cerimônias e diplomacia. E naquele dia, tinha deixado Aleksei em seu apartamento com a perspectiva da visita de Mathew Morrisson, o enfermeiro e amigo do psicólogo. Apesar de não nutrir muita simpatia pelo enfermeiro, estava preocupado com Aleksei e conversar com os dois parecia um tipo de diplomacia mais agradável que o inferno burocrático de St. Clavier.

Quando finalmente foi liberado dos trabalhos do dia, decidiu ir direto para o apartamento, considerando que Aleksei ainda não tinha lhe dado nenhum sinal de que o enfermeiro tinha ido embora. Talvez devesse ter comprado alguma coisa para ser um bom anfitrião, mas podia oferecer café, chá ou alguns biscoitos caso precisasse.

Ouviu apenas de longe a conversa quando finalmente chegou do elevador e entrou no apartamento, dando apenas algumas batidinhas leves na porta para anunciar sua chegada ao par. Mas pegou Mathew fazendo uma pergunta muito inoportuna, o que lhe fez erguer de leve o queixo e olhar para o sujeito longamente.

- Não sabia que iria se casar, monsieur Morrisson. Parabéns? – Vivien respondeu por Aleksei, erguendo de leve uma sobrancelha. Não que quisesse cortar o assunto completamente, mas o grego mal tinha se acostumado a ser seu namorado, talvez fosse um grande susto se admitisse que não tinha nada contra tê-lo como marido. E o enfermeiro estava adiantando em muito os planos.

Aleksei

Mathew não chegou a se desesperar com a sua ideia de que Benjamin poderia já estar pensando em deixá-lo, mas o jeito como ele mudava as expressões deixava claro que a ideia o preocupava. Aleksei quase se sentiu culpado por colocar a dúvida na mente do enfermeiro, mas tinha que admitir que estava se divertindo com a situação geral. Claro, não precisava continuar torturando o enfermeiro mentalmente daquele jeito, mas pelo menos sabia que ainda tinha jeito.

- Não se preocupe, Mathew, eu tenho certeza que do jeito que o inglês gosta de você, vai lhe seguir até Paris. É só pedir com jeitinho. - Aleksei adicionou, com um sorriso breve, e foi bem em tempo de prestar atenção nas batidas leves da porta e ouvir os passos que ele já sabia que anunciavam a chegada de Vivien. Voltou-se para Mathew antes de sequer pensar em se levantar. - Ah, eu acho que é o Viv-

Talvez Mathew estivesse muito assustado com a ideia de que Benjamin podia lhe abandonar, porque ele pareceu não ouvir a tentativa de pergunta de Aleksei, cortando-o no mesmo instante perguntando se “eles” pensavam em se casar. A surpresa se mostrou no rosto de Aleksei mais do que ele queria, o que lhe impediu de responder rápido. Quem interveio foi Vivien, congratulando Mathew por um suposto casamento, só então fazendo Aleksei ter alguma reação, ao desviar o olhar do enfermeiro para Vivien que tinha acabado de aparecer na sala.

- Ah, Vivi… en. - Aleksei ainda demorou um pouco a processar a situação, mas então se levantou, mostrando o sorriso entretido de Vivien para Mathew, seguindo o desvio de assunto. - É uma boa ideia, se você pedir o inglês em casamento, vai ter certeza de que ele vai com você para Paris se precisar, não é, Mathew?

Mathew

Esperava ouvir a resposta de seu amigo, mas foi pego de surpresa quando o dono do apartamento parecia finalmente ter chegado. Arqueou os ombros e franziu a sobrancelha em reflexo à presença de Vivien St. Clavier, mas acabou por sentir o rubor lhe tomando a face com a ideia de que poderia se casar com Benjamin. Claro que já havia pensado na possibilidade de pedir o inglês em casamento, mas não era sobre isso que estava falando.

- E-eu não-- - franziu o cenho de novo, olhando para Aleksei dessa vez, surpreso que o outro ainda estava apoiando o apoio desnecessário do ex-diretor. - Mas… casamento, Aleksei… - fez uma breve pausa, ignorando por um momento a presença de Vivien enquanto ajustava o próprio par de óculos. - … mas e se ele não estiver pronto para isso agora? Quero dizer, a gente se dá muito bem junto, brigamos às vezes, mas nada além do normal, mas casamento… e a minha família… se eles souberem, vão querer vir todos para cá…

Fez uma pausa, observando finalmente como o ex-diretor parecia estranho em sua presença. Não pelo comportamento dele, mas por nunca tê-lo imaginado em um apartamento tão aconchegante como aquele. Relaxou um pouco, recordando que de fato aquele imóvel era do sujeito e que agora ele e seu amigo eram namorados.

- Ah, desculpe. É muito bonito seu apartamento, dire- fez uma nova pausa, erguendo a mão em sinal de correção própria. - … senhor Clavier? - olhou para o homem em sinal de dúvida, esperando que ele lhe corrigisse se estivesse usando a forma de tratamento errada agora que ele não era mais diretor ou seu superior.

Vivien

O francês não pode senão sorrir com a entonação de Aleksei ao falar seu nome, como quem claramente tinha adicionado o “en” só para não revelar seu apelido ao enfermeiro. Não que se importasse, desde que o outro não pensasse em lhe chamar por menos que o seu sobrenome. Mathew rapidamente lhe distraiu, todo nervoso com a possibilidade de um casamento com... Benjamin Vaughn? Sempre pensava que o jovem professor inglês o enfermeiro era um pouco de desperdício, mas já não tinha moral para criticar o rumo do romance de ninguém.

- Um casal estável e uma família participativa. Parece-me um bom caso para casamento, monsieur Morrisson. – continuou, apenas para desviar completamente o assunto da ideia de um casamento seu com Aleksei... pelo menos por ora.

Vivien agradecia o elogio ao apartamento – já que esses eram muito raros –, mas podia dispensar a lembrança que não era mais diretor em St. Clavier, e sim, o irritante Soren Halstein. Bom, não que estivesse insatisfeito com o que havia conquistado com isso.

- Monsieur St. Clavier está ótimo. – deu um sorriso comercial antes de olhar ao redor. – Merci, monsieur Morrisson. Só espero que não se incomode com a bagunça, ultimamente não tenho tido tempo de limpar, mas acho que você compreende. – Morrisson podia não ser a pessoa mais bem relacionada do campus, mas já deveria ter chegado até ele a fofoca de que o antigo Diretor estava respondendo muitos pais por todo o caso recente na escola, além de tentando deixar tudo pronto para o novo diretor. – Alek... sei. Vou tomar um banho e volto em breve para me juntar a vocês. – Vivien brincou de volta com o grego, beijando-lhe o topo da cabeça antes de sair em direção ao quarto para seu banho merecido.

Aleksei

- Eu concordo com Vivien, Mathew. Se a sua família até faria questão de vir para a cerimônia, acho que é indicativo suficiente de que vocês formam um belo casal. - Aleksei adicionou ao comentário de Vivien, ainda de pé ao lado do francês, mesmo que estivesse encarando o seu convidado inusitado. Só voltou a olhar para Vivien quando ele lhe chamou com aquela pausa no nome e disse que iria tomar um banho.

Se foi estranho para Aleksei a tentativa de chamar Vivien pelo apelido na frente de Mathew, pareceu ainda mais estranho quando ele naturalmente se aproximou para lhe beijar o topo da cabeça antes de sair. Estranho para a reação de Aleksei, mas obviamente bem natural para Vivien. Ele finalmente se virou de novo para o enfermeiro, voltando a se sentar para fazer companhia a ele.

- Bom, eu não vou estar em Cerise, mas vou lhe mandar o meu endereço em Paris. Aceito o convite para o seu casamento com o inglês. Inclusive, aceito o convite para ser o seu padrinho também, o que acha que o Benjamin ia pensar disso? - ele sugeriu, com um tom jocoso de quem estava muito entretido com a conversa como não tinha estado nos últimos dias.

Mathew

Por um instante, sentiu como se a conversa sobre seu suposto casamento fosse fonte de entretenimento para os dois, mas ao invés de ficar irritado com eles por isso, ficou inquieto com a ideia que, de fato, sua família viria para seu casamento e ainda ficariam perguntando sobre a família de Benjamin, o que já seria bem complicado de lidar.

Arqueou uma sobrancelha, no entanto, com o pedido de desculpas do ex-diretor sobre a “bagunça” na casa, acabou esboçando um sorriso mais divertido. O homem, apesar de não ter muita simpatia por ele, havia lhe lembrado um pouco de sua própria mãe ao receber alguma visita em casa. Entretanto, ficou um pouco boquiaberto com o gesto dele ao beijar Aleksei, ainda que no topo da cabeça. Não se lembrava de presenciar nenhum tipo de afeição daquele tipo, nem da parte de seu amigo ou do ex-diretor.

- O Benjamin? - repetiu o nome do namorado, desviando o olhar diante da pergunta de Aleksei, recordando-se prontamente que havia prometido ao inglês que voltaria para almoçar com ele na casa de ambos. - Ah! E-eu preciso ir! Eu disse que ia almoçar com o Benjamin! - fez uma pequena pausa antes de se levantar para verificar se havia alguma mensagem perdida do namorado em seu celular.

Aproximou-se do grego como se fosse se despedir com um abraço, mas se recordou da reação do homem com a realização do gesto ao chegar ali e recuou, escolhendo estender a mão e cumprimentá-lo mais amistosamente, deixando o espaço pessoal do outro livre.

- Não se preocupe, eu não pensaria em outros padrinhos que não você e Dieter. Benjamin e eu, com certeza, vamos discutir muito sobre isso. Mas vocês são pessoas importantes para mim. Não vejo como me casar um dia e vocês não estarem lá! - declarou, esboçando um sorriso sincero de quem se orgulhava de se considerar amigo do grego e do australiano.

Despediu-se por fim, partindo para casa ao encontro do namorado. Era reconfortante saber que, na medida do possível, ele estava bem e se recuperando. Além disso, esperava que o ex-diretor de Cerise cuidasse melhor de seu amigo do que fizera com os alunos da instituição. Ainda guardava um pouco de raiva do sujeito, mas conhecer o apartamento do sujeito parecia ter lhe mostrado nossas expectativas sobre o tipo de sujeito que Vivien St. Clavier deveria ser.

[Thread encerrada]


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