[Drive] Uma Semana de Cão [Isaac; Yure; Ulysses]
#1
Isaac

As últimas semanas não estavam sendo muito felizes para Isaac depois de ter terminado com Ethan e também depois dos problemas com Renaud que lhe deixaram preocupado. Mas o trabalho no Conselho Estudantil e na delegacia lhe ajudavam a se distrair. As coisas estavam mais em ordem e quando tudo estava em ordem, ele ficava satisfeito e calmo. Aquela ordem foi deixada de lado quando descobriu, de um jeito bem indireto, que seu primeiro namorado tinha voltado para St. Clavier para dar aulas de esgrima. Não era como se Ulysses precisasse lhe manter informado do que fazia, mas tinha se entendido com ele depois de uma visita a St. Clavier para lhe pedir autorização para usar o ginásio. Tudo tinha se acertado, até vê-lo treinando e descobrir que ainda havia mais que o outro não estava lhe contando, e provavelmente envolvia um machucado sério nos pés que lhe impediam de continuar os campeonatos.

E o pior de tudo nem era o descaso dele com o próprio estado físico, era o descaso dele com o fato de que, a despeito da preocupação de Isaac, aquilo aparentemente “não era da sua conta”.

A raiva do secretário do Conselho Estudantil ficou tão óbvia naquela semana que todos os alunos pareceram fazer um enorme esforço para não se aproximarem. E a única coisa que lhe distraía mais era o Conselho Estudantil, que agora só tinha a presença de Yure Lukashenko, o futuro candidato a presidente do Conselho Estudantil. Era melhor se dedicar ao trabalho. Realmente se dedicar ao trabalho. Se dedicar demais ao trabalho.

Yure

Normalmente poucas coisas estressavam o ruivinho, ele era distraído demais pra algumas coisas pra que elas se tornassem preocupações, porém nas últimas semanas, estava se sentindo “pressionado”? Talvez, ou isso, ou sua habilidade de ser um cabeça oca estava falhando, porque estava cheio de coisas pra fazer, e com pouca cabeça pra resolver, em verdade a única coisa que lhe servia de distração, era preencher umas planilhas e ficar entretido aprendendo o funcionamento do Conselho Estudantil. Que situação, isso porque não faltavam amigos pra sair e tentar abstrair o término de namoro, e a proximidade das provas finais e da eleição pra o conselho.

No entanto, talvez tivesse jogado pedra em igreja, andando de skate em cima de um cemitério indígena, porque aquela semana foi um passeio pelos infernos todos de Dante. O estudante da máscara de ferro estava mais furioso do que o costumeiro. Como a sala ia ser passada ao novo conselho, teve de limpar tudo, e tirar fichas de alunos que iriam se formar, e separar elas, em várias ordens além de numérica e alfabética, desceu na sala de arquivo tantas vezes que sentia que a poeira nunca mais sairia de si. Revisou cada um dos clubes, membros, motivos de porque eles permaneceriam para o ano que vem, mesmo que não quisesse decorou o sistema de pontuação que mede o índice de desenvolvimento de cada clube. Revisitou a ficha de ca.da. Mem.bro. E isso incluia os gerentes. Como a política contra bullying estaria mais severa, qualquer pessoa com histórico na atividade seria afastado das atividades, porque a escola não arcaria dinheiro para propensos baderneiros. Mudou estantes de lugar, mudou mesas de lugar, o lugar estava tão impecável que recebeu reclamações do touro verde por estar tentando fazer o trabalho dele melhor que ele.

Naquela tarde, Yure tinha ido pro conselho estudantil com a calça que usava quando ia fazer educação física, e o moletom de atividades física, por baixo usava uma camisa do time atletismo que tinha comprado pra ajudar na vaquinha deles. Se fosse fazer mais serviço de carregar, empurrar, puxar, ao menos era melhor fazer isso sem ser com o terno da escola. Usava tênis laranja neon ultra confortáveis, e estava com uma liga elástica, prendendo os fios ruivo desgrenhados pra trás. Estava com as mangas do moletom arqueadas até o cotovelo , e estava separando os documentos que tinham chegado, em ordem de urgência e colocando postits pra indicar pra onde cada um iria. Estava com o celular do lado, com um fone só, pra deixar o ouvido livre, enquanto escutava algum álbum novo de J-rock sugerido pelo Lui. Esperava que o Isaac estivesse mais tranquilo depois de uma semana toda em fúria, talvez, e só talvez, perguntasse se ele estava bem.

Isaac

Isaac estava revisando as fichas que Yure já tinha separado dos membros dos clubes e alunos de St. Clavier, embora tudo estivesse devidamente no lugar e não tivesse muito o que fazer. Também tinham mudado a disposição dos móveis na sala do Conselho Estudantil, além das estantes, e as coisas estavam limpas e organizadas. Ele puxou pastas e pastas, colocando-as de volta no lugar, como se procurasse algo para fazer e estava começando a ficar impaciente com o fato de que não tinha muito o que dar conta. Foi só em meio a irritação de procurar algo que ele lembrou que logo após os jogos interescolares, havia a formatura em vista e não tinha dado atenção devida àquilo ainda. Precisava conferir os orçamentos, separar os fornecedores e enviar os dados para a administração para ser aprovado pela escola. É, podia dar atenção àquilo.

Começou a verificar os dados no computador e Yure chegou à sala do conselho nas roupas de educação física, exceto a camisa interna que era do clube de atletismo, e um tênis neon que chamava atenção desnecessária. A resposta automática de Isaac foi estreitar os olhos para o garoto, olhando-o de cima abaixo, ainda para completar, com um fone de ouvido, ouvindo música no celular.

- Quando vier para o Conselho, esteja com o uniforme adequado. O uniforme de educação física é para esportes, não para atividades do Conselho Estudantil. De que vai servir punir alunos pelas faltas com a conduta de vestimenta se você não está se vestindo de acordo? - ele reclamou, levantando-se de onde estava e pegando os documentos que tinha acabado de imprimir sobre os orçamentos e fornecedores para a festa de formatura. - Esses são os dados dos últimos três anos de gastos com a festa de formatura e a previsão para esse ano, com 10% a mais de orçamento comparado ao ano anterior. Cada serviço tem que ter informações de três fornecedores diferentes e eles precisam ser selecionados até o fim de semana para ser enviado para a administração. Faça um formulário com possíveis atividades para que os alunos preencham e também fazer um formulário para os alunos voluntários para trabalhar durante os preparos da festa. Todos os voluntários precisam ser avaliados para saber histórico escolar, notas e competência, ninguém que tenha notas baixas ou baixa produtividade pode ser aceito. Tudo serve como atividade extracurricular.

Yure

O ruivo mal tinha chegado e já estava sofrendo as consequências do humor flutuante do secretário testa de ferro, tinha trocado conversa com Charles na noite passada e tinha mais ou menos entendido de onde vinha aquilo. Mas a verdade é que tinha nada haver com aquele problema, e nem se sentia tão amigo assim pra ficar intervindo e dando conselhos, mas já fazia uma semana que ele estava naquele estado, talvez nem ele tivesse se dado conta que o nível de rigor dele tinha ultrapassado o limite do aceitável já fazia um tempo, nem quando estava com o braço lascado e ele gritou consigo e tomou seu skate ele estava tão verdadeiramente mal humorado. Yure pausou a música do celular, e tirou o fone de ouvido, antes de ouvir todo o relato do secretário aquele monte de coisa sobre formatura que teriam de organizar:

-- primeiro de tudo, boa tarde! Cumprimentar os colegas e manter a boa educação também faz parte do código de St. Clavier, segundo, hoje é sábado, não tem rigor de vestimenta, pra nenhum aluno, a menos que fosse uma atividade de laboratório, que a gente não tem, então tanto faz. E terceiro, eu passei a semana arrastando coisas estando de terno e camisa social, que não são roupas adequadas pra praticar atividade física, como eu não sabia se teria de fazer algum serviço braçal, eu vim com uma roupa confortável, mas que ainda é uma roupa da escola. -- O ruivo fez seus diversos comentários, sabendo que aquilo só deixaria o secretário mais irritado, mas se era pra seguir o velório, vamos bater os pregos na tampa do caixão não é mesmo?

-- E outra, eu sei que não faço parte de nenhum clube de esportes, mas eu não quero sair com o braço arrebentado por tá mal preparado pra alguma atividade. -- O ruivo testou o assunto, de machucado, e de esportes, pra vê como o outro reagiria, até porque pelo que Charles tinha comentado tinha sido um pega pra capá dele com o tal ex, então não era de cutucar, mas se ele abertamente ficasse alterado por entrar no assunto o ruivo bem que podia perguntar se tinha algo errado acontecendo e se ele queria falar sobre, vai que. Não podia se chamar amigo do testa de ferro, porém, não podia simplesmente deixar o cara no pior humor possível, sem oferecer nenhuma palavra de ajuda, mas pra isso, precisava ter pelo menos uma brecha. O lado bom, é que Yure era taxado de idiota a maior parte do tempo, então não tinha como supor que ele estava sendo malicioso nas palavras.

E independente da reação normal irritada, ou piorada e furiosa, tinha serviço pra arrumar, não que fosse complicado, mas parecia demorado ter de pegar um monte de orçamento com pelo menos três fornecedores pra cada coisa, não era pra já existir uma lista de lugares confiáveis pra essas coisas pra evitar esse tipo de morosidade? “Ah, St. Clavier do meu coração, que gosta de uma burocracia e complicação.”

Isaac

A animação de Yure e as respostas só lhe deixavam mais incomodado, mas tinha que se focar no trabalho que era o seu objetivo. E quando ele falou sobre ser sábado, por isso poder estar vestido daquele jeito, Isaac automaticamente virou o rosto na direção da tela do computador, procurando confirmação do dia, porque ele estava fazendo tudo tão no automático que nem tinha percebido que já estavam no fim de semana.

- Não tem serviço braçal, aqui tem as informações dos fornecedores, pegue os orçamentos atualizados enquanto ainda estão funcionando no sábado. - Isaac especificou, estendendo os papeis para Yure, mas foi bem a tempo de ouvir o comentário muito direto dele sobre não querer sair com o braço machucado por estar mal preparado para alguma atividade. A reação automática de Isaac foi fechar a mão em punho em volta das folhas de papel que tinha acabado de imprimir, amassando todos os orçamentos a ponto das pontas das unhas rasgarem o papel. Se possível, a expressão de Isaac ficou ainda mais fechada, e ele respirou fundo para manter a calma. - Você está machucado, Yure? O trabalho que fez essa semana lhe deixou machucado?

A última coisa que ele precisava naquela semana miserável era que Yure também tivesse se machucado fazendo os trabalhos dentro do Conselho e estivesse negligenciando algum ferimento por causa do excesso de serviço.

Yure

O ruivinho esperava tirar alguma reação do secretário testa de ferro, só não esperava que ele fosse tão claramente expressivo quando estava com raiva, ou muito, muito, muito desgostoso de algo. Olhou dele para a folha de papel plenamente amassada, e depois pra ele de novo, e então moveu o braço que tinha machucado na queda de skate, e então voltou a encarar o outro com a mesma cara de paisagem:

-- Não estou machucado, incomodou um pouco durante a semana, porque roupa social não é feita pra esticar, nem pra qualquer atividade braçal, mas afora isso estou bem, não precisava amassar as folhas de papel por isso, sabe... -- apontou pras folhas na mão dele, depois continuou tagarelando: -- Você disse que era pra entregar tudo até o fim de semana, o fim de semana que você falou é tipo, “hoje”? Se for, ainda bem que eu vim pra ajudar, mesmo sendo sábado -- comentou pegando uma das mesas vagas com computador pra ligar o mesmo e se sentar ali pra fazer o serviço: -- Só reimprimir e me passar que eu resolvo aqui, o que eu não conseguir ligar pra saber os preços, tiro a média por catálogo on-line. -- O ruivo falou, tentando soar calmo, mas em verdade ficou tenso de ver um Isaac tão plenamente irritado, ele deveria estar muito preocupado com o professor de esgrima atual e tals, será que o outro estava com um machucado tão sério? Tinha a brecha pra perguntar, era agora ou nunca, senhor, que sobre algo pra por no caixão no meu velório:

-- Outra coisa Isaac, pra você tá tão distraído que nem sabia que dia da semana era, você tá legal? Tá doente? Machucado? Ou alguma coisa assim?

Isaac

Isaac segurou o papel amassado na mão com tanta força que nem percebeu a tensão que tinha colocado ali. Mas Yure logo esclareceu que não estava machucado e que o incômodo da semana tinha sido por causa do uniforme que estava usando para mover as coisas na sala. Finalmente deixou os dedos cederem toda a força que tinha colocado ali, e suspirou longamente, deixando os papeis amassados de lado e percebendo que sim, tinham que terminar aqueles orçamentos até o meio dia.

- É hoje, geralmente o conselho administrativo demora um pouco para responder, então é melhor adiantar do que atrasar. - Isaac respondeu, voltando até o computador para imprimir outra cópia do arquivo. - Contate os fornecedores dessa página, eu fico com a primeira, até meio-dia, temos que deixar as informações na secretaria administrativa.

Quando voltou para a sua mesa, mal começou o trabalho e Yure perguntou o que tinha acontecido para estar tão distraído. Aquilo só lhe fez lembrar da situação incômoda com Ulysses na semana anterior e ele ficou com a expressão irritada de novo.

- Não. Não estou doente nem machucado. Vamos adiantar isso logo. - ele evitou ainda responder se havia algo de diferente, e conveniente ou não, as batidas na porta da sala interromperam a conversa dos dois. - Entre.

- Eu sabia que estaria trabalhando até dia de sábado, Isa. Mas estou surpreso que também esteja aqui, Lukashenko, não era?

A voz conhecida fez com que Isaac quase quebrasse o teclado do computador ao digitar um enter. Ele levantou o olhar para Ulysses que entrou muito casualmente na sala e precisou se levantar de onde estava antes de realmente quebrar o computador da instituição.

- O que está fazendo aqui? - Isaac perguntou muito pontualmente para Ulysses.

- Ouch. - Ulysses deu uma risada um tanto sem graça pelo tom do outro, que era muito pior do que quando tinha o encontrado pela primeira vez na sala do Conselho para pedir o ginásio.

Yure

Tinha de admitir que o secretário testa de ferro era difícil de conversar, talvez por isso ele não tivesse tantos amigos, mas não iria desistir, conseguia lidar com a chatice esquiva de Charles a uns anos, só porque o Isaac tinha 1,20 a mais que seu amigo, não era motivo pra se amedrontar; Não muito pelo menos. Acenou positivamente depois da cortada de assunto, e já estava com telefone no ouvido pra primeira ligação, quando ouviu as batidas na porta seguido do “entre” do secretário. Ao ouvir a voz do novo professor de esgrima, o ruivo prontamente desligou o telefone, mal dando tempo da outra pessoa na linha responder adequadamente:

-- Ah, é sim, Lukashenko, boa memória prof. Ulysses. -- Claro que o clima tenso que se formou, fez o ruivo apontar para os papéis que deveria resolver, e moveu a boca sem emitir nenhum som, mas que queria dizer: “vou sentar aqui e trabalhar caladinho”, o ruivo baixou o olhar e voltou aos papéis e ao invés de telefonar, resolveu mandar mensagens e e-mails, para os fornecedores, não era prático, mas era o que dava pra fazer, a última coisa que precisava era alguém acabar ouvindo do outro lado da linha uma possível briga de professor com membro do conselho estudantil, que na verdade são ex-namorados.

Aproveitou pra mandar mensagem para Charles, já que estava usando o telefone mesmo, e digitou tão rápido com uma mão só, que apenas através da habilidade adquirida ao conviver com um asiático - obrigada Lui - poderia ter aquele tipo de resultado:

[10:55, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: pode chamar o padre, vô morrer, o Ulysses tá aqui na sala do conselho com o isaac!!!!! @@

Ulysses

O ânimo de Isaac estava péssimo, já dava para notar de longe, e talvez não tivesse sido a melhor escolha de Ulysses ir conversar com ele ali em St. Clavier. Mas sabia que seria mais difícil tentar convencer o ex-namorado a lhe encontrar depois do que tinha dito no último fim de semana sobre seus assuntos não serem da conta dele. Ulysses deu uma risada um tanto sem graça, aproximando-se com cautela de Isaac, ele podia até ser fofo com raiva quando era menor, mas agora ele era um pouco mais assustador do que fofo.

- Já vi que não sou muito bem-vindo aqui, Isa. - ele ainda tentou usar um tom mais descontraído, rindo forçado, e lançou um olhar para o ruivo que prudentemente tinha enfiado a cabeça no trabalho. - Se importa de nos deixar a sós, Lukashenko? Prometo não demorar des-

- Não. - quem respondeu foi Isaac, parando a dois passos de distância de Ulysses, os braços cruzados diante do corpo. - Você fica. - ele falou direto para Yure, e depois virou a atenção para Ulysses. - Você, sai.

- Não seja tão ranzinza, Isa, estou querendo falar sério com você! - Ulysses insistiu, ainda forçando o tom descontraído.

- E eu estou querendo trabalhar. Não que isso seja da sua conta. - Isaac retrucou, tão pontual quanto antes, e Ulysses percebeu que o buraco era bem mais embaixo.


Yure

Tão logo tinha enviado a mensagem para seu amigo, a situação na sala do conselho cresceu de preocupante para explosiva, como se o mundo estivesse prestes a desabar bem ali, na sua frente, e não sabia o que era mais angustiante daquilo tudo, se era o fato do prof. Ulysses está verdadeiramente tentando conversar ali, ou do fato de Isaac estar tão plenamente irritado que sequer percebia que estava agindo de forma, meio, um pouco, quem sabe “birrenta”

[10:58, xx/xx/2014] Charles ΦωΦ)ノ:em janela? A melhor ideia seria fugir porque não acho acho que ele vá ajudar
[10:59, xx/xx/2014] Charles ΦωΦ)ノ: Pensando no que aconteceu da outra vez,
[10:55, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Não que uma Janela do segundo andar fosse me salvar agora, ferrou de vez… aiai vô morrer

O ruivo respirou fundo, pegou o telefone, a lista que tinha de fornecedores pra ligar e se levantou de onde estava, olhando pros dois adultos como se eles fossem incapazes de se resolver naquele estado: -- Prof. Ulysses, o senhor realmente precisa conversar com o secretário Lemont, ele anda distraído e nem sabia que hoje era sábado, acho que esta de cabeça cheia. -- depois se virou pro secretário testa de ferro, que com certeza iria querer lhe comer vivo, mas era um mal necessário: -- E Isaac, eu perguntei se você estava legal, e você desconversou, se você não vai falar comigo, pelo menos fale com ele! E eu? Eu preciso ligar pros fornecedores e não dá pra fazer isso com vocês dois conversando aqui, eu vou lá pra fora, lembre que o trabalho é pra hoje. Daqui uma hora pra ser mais exato.

O ruivo esperava que com aquilo, o secretário desse o braço a torcer e deixasse pelo menos ele passar pra ligar do lado de fora, era mais coragem do que o ruivo tivera em uma vida, e se não fosse a calça de moletom, daria pra ver as pernas tremilicando de tá falando naquele tom com o secretário testa de ferro.

Ulysses

Ulysses acabou coçando a nuca sem jeito, sabendo que ia ser muito difícil de convencer Isaac da sua atitude impensada no fim de semana anterior. Mas qual não foi a sua surpresa quando o ruivo que se levantou de onde estava para dizer que precisava mesmo falar com Isaac, que ele estivera distraído a semana inteira, e ainda usou o próprio trabalho para fugir da sala e se salvar da tensão que tinha se formado ali.

Isaac ainda tentou protestar, mas ele só conseguiu estalar a língua no céu da boca, afinal, Yure tinha razão de que tinha que terminar o trabalho, então foi forçado a voltar a atenção para Ulysses e manter a expressão fechada.

- Veio pedir o ginásio de novo? Diga a data e o horário e vou deixar reservado. - Isaac voltou na direção da própria mesa.

- Então você estava tão distraído assim a semana toda, Isa? Foi por minha culpa?

- Não é da sua conta. - Isaac retrucou na mesma sentença que tinha ouvido de Ulysses e que martelava na sua cabeça a semana inteira.

- Já entendi, já entendi, Isaac, foi culpa minha, ok? - Ulysses finalmente deixou o tom descontraído de lado para assumir um tom mais sério, o que chamou atenção de Isaac.

- Não sei do que está falando. Seus assuntos pessoais são seus, eu não tenho nada a ver com isso e você já deixou bem claro. - Isaac retrucou. - Era só isso? Já pode ir, o Lukashenko tem que voltar a trabalhar.

- Não vou embora com você ainda me olhando com cara feia. - Ulysses respondeu, aproximando-se de Isaac de novo.

- É a única cara que eu tenho.

- Isa, vamos lá, estou tentando falar sério aqui e você não está ajudando. Sabe que eu não sou bom nisso. - Ulysses massageou as têmporas.

- Vamos falar sério, então, Ulysses. - Isaac apoiou as mãos na mesa. - Sobre como você não me disse que ia voltar para St. Clavier. Como não me disse que vai ser professor. E acima de tudo, como não me disse que está com o pé machucado e por isso não está treinando para competições? Acha que eu sou idiota e que não ia notar? Eu não sou mais uma criança, Ulysses, não me trate como uma.

Yure

O ruivo mal saiu da sala, ainda podia ouvir as frases bem assertivas de Isaac sendo ditas em bom som, mas com a porta fechada ao menos podia fazer as benditas ligações, sentiu as pernas fraquejarem e sentou no corredor momentaneamente, ligou pra um fornecedor, e perguntou o que tinha de perguntar sem muito fôlego na voz, ainda bem que os dito cujos estavam acostumados com os contato vindos de St. Clavier e já iam enviar tudo por e-mail, era só imprimir. Checou o celular pra receber não só a resposta dos e-mails que tinha mandado com as tabelas que precisava como também tinha recebido mensagem de Charles.
[11:00, xx/xx/2014] Charles ΦωΦ)ノ: Cair de uma altura de 2m parece bem melhor.
[11:03, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Nem brinca filhote de Ratel, consegui me sair da sala por uns minutos, mas jajá tenho de voltar, pra continuar o serviço que tenho de entregar jajá, eu me sinto num seriado tipo 24 hora, sendo que ao invés de ter um dia, eu tenho 60 minutos de tensão. ;-;

Yure mandou as planilhas pra imprimir pelo Wi-fi, só não contava que o som da impressora puxando as folhas fosse tão alto, em verdade nem era, provavelmente algum papel tinha enganchado e ele teria de entrar, arrumar, botar pra imprimir e pegar a outra lista. O ruivo levantou de onde estava, deu um toque na porta, com a cara de sofrido: -- foi mal!!!!

O ruivo como um ninja especializado em impressoras, desenganchou a folha, botou pra rodar as planilhas de preço que tinha recebido, foi na mesa de Isaac, deixou as coisas impressas novas e pegou a lista que seria do secretário: -- Vou fazer a sua lista também Isaac, continuem aí, finjam que eu não interrompi. -- O ruivo não teve nem a pachorra de olhar na cara dos dois adultos, só saiu de cabeça baixa de volta pro lado de fora. Que dia meus senhores, que dia.

Ulysses

Ulysses até ficou sem o que responder diante do comentário muito pontual de Isaac de não tratá-lo como criança, e até tinha que admitir que metade daquilo era verdade. Ele levou uma mão até a nuca, um pouco desconsertado, tentando achar as palavras certas.

- Escute, Isaac, não é que eu esteja exatament-

Ele precisou interromper o comentário quando ouviu o som travado da impressora, olhando para a mesma, que foi acompanhado logo pela entrada rápida de Yure falando um "foi mal". Toda a tensão da cena pareceu dissipar enquanto tanto Ulysses quanto Isaac voltavam o olhar para Yure que arrumou a impressora na velocidade da luz e pegou o resto da lista de trabalho para sair da sala de novo, pedindo para fingirem que não tinha interrompido. Ulysses e Isaac encararam a porta ao mesmo tempo, e no instante seguinte, Ulysses caiu na gargalhada, ao mesmo tempo em que Isaac suspirou longamente, passando uma mão na frente do rosto.

- Eu gosto desse garoto, ele faz parte do Conselho? Espero que esteja aqui quando eu começar as atividades. - Ulysses respondeu em meio às risadas.

- Ulysses. - Isaac o chamou, num tom agora até menos tenso.

- Desculpe, desculpe, não deu pra ignorar. - Ulysses se voltou na direção de Isaac de novo. - Desculpe, Isa, eu não devia ter escondido nada de você. A verdade é que eu não queria voltar pra cá e admitir logo pra você que estou impedido de continuar os torneios por causa de um acidente muito idiota que machucou meu pé mais do que eu queria. Foi um acidente estúpido de uma pessoa inconsequente, e o que eu achei que não era nada sério, acabou piorando porque eu fiquei negligenciando os cuidados.

- Quão sério é? - Isaac perguntou, agora menos irritado.

- Eu continuei os treinamentos mesmo depois de torcer o pé. A lesão se agravou, precisei parar com os treinos e campeonatos, agora estou fazendo fisioterapia. - Ulysses deu de ombros, sentindo a própria voz e o sorriso forçado cederem um pouco. - Os médicos disseram que eu vou me recuperar e voltar aos campeonatos, mas... foi assustador. Ninguém além do meu técnico e gerente sabe, Isa.

Isaac suspirou longamente, e a tensão e a irritação pareceram dissipar com o ar também.

- E eu fiquei surpreso que você percebeu só com aqueles movimentos leves na semana passada.

- Eu acompanho a sua carreira desde antes de St. Clavier, como eu não ia perceber, acha que eu sou burro? - Isaac retrucou.

- Isso eu sei que você não é. - Ulysses respondeu, aproximando-se mais de Isaac. - Vai me desculpar agora?

- Vai parar de treinar até melhorar?

- Vou. Com uma condição. - Ulysses sorriu, levantando o dedo para indicar que teria uma condição.

- O que?

- Vou precisar da sua ajuda. - ele manteve o sorriso no rosto, que só fez Isaac arquear uma sobrancelha em resposta.

Yure

Esperava de coração que sua entrada e saída não tivesse atrapalhado demais o que os dois estavam conversando, não era amigo de Isaac, não pelo menos de forma íntima e tals, mas torcia por ele, pra que ele ficasse melhor. E de fato, pelo amor de tudo que era mais sagrado nessas terras francesas, ele precisava melhorar de humor, não aguentaria até ele se formar naquele estado de semi escravidão moderna que tinha passado durante a semana. Assim que voltou a se sentar no corredor pra checar a segunda lista de fornecedores, chegou mensagem de Charles, indagando o que seria um enterro duplo.

[11:05, xx/xx/2014] Charles ΦωΦ)ノ:.Da no mesmo que o seriado
[11:05, xx/xx/2014] Charles ΦωΦ)ノ: Parece que temos dois enterros ao invés de só o meu
[11:08, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Se eu tiver um enterro, se eu não for tão simplesmente desovado no meio do mato até o prédio antigo de St. Clavier
[11:08, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: eu tenho um talento pra fazer bobagens, mas hoje eu tô me superando, mais tarde se eu estiver vivo, ligo pra você pra narrar a desgraça toda como foi, agora eu tenho de terminar de ligar pra fornecedores, terminar um relatório, e entregar no setor administrativo até 12:00hs
[11:09, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Me deseje sorte

Terminou de enviar a mensagem para o amigo e então o ruivo se concentrou em fazer as ligações que precisava, pediu desculpas por ser justo no horário pouco antes dos estabelecimento fecharem, mas por ser pra St. Clavier, havia um apelo adicionou e somado a voz de pedinte do ruivo, o mais novo conseguiu com êxito que enviassem os orçamentos por e-mail, agora só precisava juntar tudo em um relatório só, justificar e correr pra entregar no setor administrativo. Ou melhor correr não, andar muito, muito rápido, no limite do que pode ser compreendido entre andar e correr.

O ruivo enviou os documentos pra impressora por Wi-fi só depois do ato falho se tocando da possibilidade de se repetir o problema anterior, então em dois tempos o adolescente se levantou de onde estava e entrou na sala do conselho: “foi mal de novo!” pra desligar a impressora antes que ela enganchasse novamente e suspirando em seguida, sentando do lado do aparelho, pra só então encarar os dois adultos que agora pareciam menos tensos:

-- Sabe uma coisa que a gente têm de fazer Isaac, pedir orçamento pra uma impressora nova. -- o ruivo religou o aparelho, pra poder imprimir as coisas, e checando pra que os papéis não ficassem presos: -- eu peguei todos os orçamentos que deu, faltou pouca coisa, mas é suficiente pra adiantar o relatório, se quiser eu mesmo escrevo justificativa, mas eu não tenho como levar o computador lá pra fora, então eu não sei se eu fico ou se eu saio…Eu não falaria nada se não fosse pra entregar tipo, em meia hora.

Riu meio sem graça, sabendo que estava sendo inconveniente, porque a conversa dos dois não era da conta do mais novo, mas não tinha como realmente montar os computadores lá fora, pelo menos não em tempo hábil pra entregar o que tinha de entregar.

Isaac

Antes que Isaac tivesse a oportunidade de perguntar com que exatamente Ulysses precisava de ajuda, o som da impressora invadiu a sala do Conselho de novo e eles voltaram a atenção para um Yure que entrou mais uma vez na sala de modo exasperado para terminar o próprio trabalho. Ulysses acabou rindo de novo e agradecendo mentalmente o fato de que o menino tinha ajudado bastante a aliviar a tensão que tinha se formado ali.

- Você pode ficar, Lukashenko. - Ulysses que respondeu, voltando-se para o garoto. - Desculpe atrapalhar o trabalho dos dois, mas eu acho que já me resolvi com o Isa aqui, não é mesmo?

- Sim. - Isaac concordou num tom muito mais amigável daquela vez. - Pode anexar os orçamentos, eu escrevo a justificativa.

- Bom, eu vou deixá-los terminar o trabalho em paz. - Ulysses informou, parando ainda assim muito perto de Isaac. - Posso te encontrar mais tarde, Isa? Vou resolver outro assunto, depois eu digo com o que preciso de ajuda.

- Certo. Estarei nos dormitórios. - Isaac concordou.

- Até mais tarde então. - Ulysses se aproximou e descaradamente roubou um beijo nos lábios de Isaac, para se afastar logo em seguida e acenar para o ruivo. - Até a próxima, Lukashenko. Espero que você esteja no Conselho no próximo ano, você é muito competente.

Ulysses saiu da sala e Isaac já tinha voltado a se sentar ao computador, pegou um modelo do orçamento do ano passado e ajustou os dados e a justificativa que já estava pronta para imprimir tudo e anexar ao relatório que estava pronto em menos de dez minutos.

- Aqui. - ele estendeu o relatório completo para o ruivo. - Bom trabalho, Yure. - nem se importou de chamar o outro pelo primeiro nome. - E pode correr dessa vez. Só dessa vez.

Yure

O ruivo olhou do professor novo para Isaac, e depois de volta ao professor, arqueando de leve a sobrancelha, se soubesse que tudo que o secretário precisava era daquela conversa e de um beijinho, teria arrumado um jeito de ligar pro sujeito bem antes. No fim das contas, apenas acenou em concordância sobre poder ficar na sala, e seguiu para a mesa onde estava com o computador ligado, deu baixa no sistema da atividade cumprida, e juntou todas as folhas de orçamento que Isaac precisava pra anexar no documento que iria ao setor administrativo.

Antes de ir embora, o novo professor ainda lhe disse que era muito competente e que queria vê-lo no ano que vem ali, o ruivo inchou o peito de ar, e os olhos castanhos brilharam, satisfeito, reconhecimento de outras pessoas de que podia ocupar aquele espaço e que sim, estava fazendo um bom trabalho, o ruivo respondeu com mais vigor do que a situação pedia: -- Estou fazendo meu melhor!!! -- Depois seguiu sorridente pra deixar as coisas na mesa do secretário.

No fim das contas, talvez o maior mal de Isaac seja que ele precise relaxar, ele fica tenso com qualquer assunto muito rápido, e tão logo percebe que as coisas eram menos grave do que supunha volta a ficar tranquilo. Podia apostar que isso era a falta de Ethan no fim do dia pra jogar conversa fora, ou só pra ficar abraçadinho. Pensando agora, o testa de ferro não tinha lá muitos amigos, não o via falando de filmes, quadrinhos, ou qualquer outro hobby que não o conselho, trabalho e essas coisas. E antes que pudesse abrir a boca, teve a estrela dourada do seu dia, o secretário lhe chamou pelo primeiro nome, e mais disse que tinha feito um bom trabalho que podia correr.

Se fosse possível, teria aspirado todo o ar da sala para os pulmões, mas já estava inflado e radiante o suficiente só com aquilo, fez valer a raiva que tinha passado durante a semana na companhia estressante do moreno mais velho. O ruivinho acenou repetidas vezes sobre ir correndo e sobre ser “só” daquela vez.

-- Pode deixar comigo! Obrigado por hoje Isaac! -- O ruivo pegou os papéis, e seguiu todo risonho, besta, depois de entregar as coisas no setor administrativo, tinha de ligar pra Charles e dizer que não ia ter velório no fim das contas, pelo menos não do ruivo.

[thread encerrada]


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