|
[Drive] Fragmentado [Aleksei; Renaud]
|
Posts: 259
Threads: 121
Joined: Jul 2021
Reputation:
0
Renaud
Tinha sido uma longa terça-feira, talvez a mais longa de toda a sua vida, sabia que tinha conseguido dormir depois de muito cansaço físico e mental do dia anterior, o corpo reclamou descanso, e não sonhou com absolutamente nada, senão como se estivesse flutuando em algo morno, até de fato ser acordado. Não se lembrava da sensação de ser acordado antes, até porque sempre acordava muito cedo. Até se dar conta, que seu corpo não tinha reagido negativamente a ser acordado, apesar do cansaço, das dores dos machucados se recuperando e do enjoo leve que deveria ser fome, não tinha qualquer disposição de ser agressivo, ou como se precisasse se proteger. Aquele fato chamou a atenção do Blanco, tinha muita coisa sobre si mesmo que não sabia reconhecer, se sentia um pouco estranho, por ter essa estranheza latente, como se houvesse partes de si que não conhecia ou não sabia como funcionava. Mas não teve tempo para ficar entregue a pensamentos filosóficos, seu irmão estava lhe chamando porque precisava comer e ele iria se certificar de que iria se alimentar direito de manhã;
Foram até a cafeteria mais cedo do que a maioria dos alunos costumava ir, alguns alunos dos clubes esportivos estavam fazendo refeições apressadas, mas para o Blanco tudo seguia como se estivesse em câmera lenta. Não prestou atenção ao que foi conversado, nem exatamente quanto tempo levou até que um dos funcionários lhe trouxesse uma vitamina escura em um copo de meio litro. Tentou sentir o cheiro, mas ainda estava com o nariz um pouco congestionado da noite passada, em verdade olhar aquela comida lhe deu menos vontade de comer. Mas Sasha insistiu, lhe dando o remédio para enjoo, dessa vez esperando o tempo para que o mesmo fizesse efeito, assistiu seu irmão se alimentar, mas não conversou muito, apenas acenando positivamente ou negativamente. Quando finalmente tomou o líquido o mesmo desceu sua garganta com gosto de fuligem, o sabor áspero sobre sua língua, e a reação imediata do Blanco foi torcer a expressão, mas insistiu, fechou os olhos, e apenas engoliu, gole após gole, até que tivesse terminado. Sasha ainda riu de sua expressão somado a um bigode deixado pela vitamina, fazendo Renaud esquecer-se momentaneamente que estava enjoado, ficando levemente irritado com o mais velho por tratá-lo como criança.
Foi obrigado a levar frutas consigo, para comer em algumas horas, embora soubesse que não teria fome, estava lá “de três em três horas”, qualquer coisa que conseguisse por no estômago seria lucro pelo menos.
Se despediu de Sasha quando voltaram aos dormitórios, não iria para aula naquela manhã, então o mais velho iria pelo menos para mais tarde poder repassar os assuntos com ele. Não tinha esse hábito, mas podia ser algo pra fazer, pra mantê-lo ciente de que dia estava. Quando finalmente Renaud ficou sozinho, em frente a porta do próprio quarto, sentiu uma forte hesitação em entrar, as coisas estariam exatamente do jeito que tinha deixado, e todas as dúvidas que o levaram a deixar as coisas naquele estado. Engoliu em seco, e levou mais tempo do que queria para girar a maçaneta e entrar no ambiente caótico.
Mesmo com o nariz entupido o cheiro de laranja ainda impregnava o ambiente a ponto do ar estar completamente estagnado. O moreno mais novo caminhou pelo espaço com cuidado para não pisar nos cacos de vidro e abriu a janela, deixando que o ar entrasse no quarto. Queria arrumar tudo, mas não sabia se conseguiria, tinha tanta coisa fora do lugar, Renaud se abaixou pegando um dos cacos de vidro, de um dos seus perfumes, conseguia reconhecer o fragmento de vidro colorido, sabia de onde era o pedaço, mas com certeza mesmo que quisesse não conseguiria refazer o frasco do jeito que ele era antes; Assim como ele mesmo, sua memória era como um monte de cacos de vidro colorido, sabia de onde eram, mas não sabia como iria remontar tudo em seu devido lugar, ou se isso seria possível.
Tomou tempo da manhã catando os cacos de vidro, com cuidado para não se cortar ainda mais, não era o que esperava arrumar primeiro no próprio quarto, mas era um começo não era? Pelo menos poderia andar descalço no lugar de novo, sem medo de deixar um rastro de sangue no assoalho. Quando finalmente tinha terminado, o celular apitou.
[...]
Tinham se passado três horas?
Tão rápido assim?
[...]
Pausou o alarme e sentou na mesa da escrivaninha, olhando para a maçã que seria seu lanche. A vontade de comer era inexistente, mas não estava enjoado.
[...]
Precisaria tomar o remédio?
Ele não lhe abriria o apetite de toda forma… então é inútil…!
[...]
Experimentou morder a fruta mesmo sem tomar o remédio. Não tinha sabor algum, era como mastigar papel, sem gosto de absolutamente nada, e aquilo desceu, mas não lhe despertou enjoos ou náuseas suficientes para querer por tudo para fora. Não tentou comer uma segunda fruta, atestando que ter ao menos uma no estômago era um ganho maior, do que tentar comer duas, e vomitar até o café da manhã.
Tomou um banho, e tentou trocar as bandagens nas mãos, sem muita destreza, notando como estava sem manejo fino para fazer os curativos apropriadamente. Vestiu uma calça jeans escura, camisa xadrez vermelha de botões e mangas cumpridas, suspensório preto liso, e por cima pôs um blazer, não iria para aula, então podia dispensar o uniforme, e usar algo mais fácil de tirar caso o médico precisasse verificar algum de seus machucados.
Caminhou até o prédio administrativo, e novamente sentia como se a academia estivesse deserta, porque não conseguia enxergar ninguém, ou ouvir, ou simplesmente sentir o cheiro de qualquer outra coisa. Não estava muito ciente do tempo, mas seus pés já sabiam fazer o caminho de forma inconsciente, e chegou a porta da sala de aconselhamento estudantil, perto das 10hs da manhã.
[...]
Era o meio do horário de aulas,
Não devia ter qualquer outra pessoa não era?
Queria poder conversar com o outro, mas só tinha ido buscar uma dieta pra se alimentar adequadamente...
[...]
Bateu na porta, dois toques suaves: -- sou eu…! – diferente de vezes anteriores, onde o Blanco simplesmente esperava que o outro lhe desse permissão para entrar, precisou reforçar quem era. Estava um pouco ansioso, em verdade não sabia se o outro estava livre ou disposto a conversar consigo. Renaud jamais teria imaginado, que estaria ansioso para conversar com algum psicólogo qualquer que fosse. Realmente, ainda tinha muita coisa que não sabia sobre si mesmo, afinal.
Aleksei
Aquela terça tinha sido provavelmente um dos dias mais cansativos que tivera desde que chegara a Cerise. Isso se não contasse os transtornos que Stefan tinha lhe causado e que terminaram em sessões com Vivien para lhe dar algum alívio físico e mental. Mas agora estava verdadeiramente cansado apenas por conta de um paciente com um quadro complicado e com a sessão que tiveram no dia inteiro, praticamente. Renaud Blanco já tinha se mostrado um caso especial em suas mãos desde que chegara a St. Clavier. Tinha demorado muito até conseguir arranhar minimamente a superfície do aluno, e depois que a confiança entre os dois tinha sido estabelecida, tinham progredido bastante. Ele tinha lhe mostrado algumas habilidades específicas, a ponto de estudar o suficiente outras pessoas e conseguir assumir outras personalidades, o que era até preocupante num quadro psicológico. Mas tinha mostrado também uma série de fraquezas e inconsistências emocionais com as quais estava lidando naquele momento. As últimas sessões que tivera com Renaud tinham sido bem reveladoras, numa definição bem ideal. A avalanche de sentimentos que uma discussão com Didier tinha causado resultou em reações inominadas e fatos que o próprio Aleksei desconhecia e esperava tirar do aluno depois de longos meses de terapia. E já faziam longos meses, certo?
A noite lhe rendeu longas horas de avaliação das fichas de Renaud, adicionada da sessão do mesmo dia, especialmente porque tinha pedido ao Blanco para voltar ao seu consultório na manhã seguinte para pegar uma dieta nova. Claro que tinha entrado em contato com um colega de profissão para pedir uma dieta com urgência, que ele lhe retornou mais ao fim da noite com os poucos dados que tinha fornecido de seu paciente sem entrar em aspectos confidenciais.
O relógio na antessala do seu quarto já marcava quase meia-noite quando deixou os arquivos de lado. Com os últimos relatos de Renaud e o modo como rele tinha reagido na defensiva, além dos detalhes da vida dele na infância e adolescência – em particular aquele sobre ter sido violentado por três homens –, já tinha uma ideia bem concreta do que estava acontecendo com o aluno. Mas apenas com uma perda de memória recente como aquela que ele tinha relatado do fim de semana, talvez ainda não fosse o caso.
Estava tudo lá: estresse, capacidade dissociativa, falta de compreensão e proteção em situações limítrofes desde a infância. Renaud podia ter se tornado um rapaz bem resistente ao longo da infância e da adolescência com aquela carreira em gangues. Mas psicologicamente… ele tinha acabado de perceber que tinha sentimentos. Talvez algo na mente dele já soubesse, e se aquele algo tivesse se desenvolvido a ponto de protegê-lo dos outros e de si mesmo, a situação poderia ser tão mais complicada. Se Renaud tivesse esquecido daquele dia só por algum choque mental, precisava fazer de tudo para recuperá-lo o quanto antes. Mas se algo tivesse conscientemente tomado o lugar de Renaud ao longo daquele período de perda de memória, nenhuma sessão seria capaz de recuperar a informação tão fácil. Pensar no diagnóstico de Renaud Blanco fez com que Aleksei sentisse um frio no estômago. A possibilidade de haver uma outra personalidade que tomava conta da mente do Blanco e que tinha toda a habilidade física dele ser real era assustadora e nostálgica. De um jeito bem desconfortável.
Mas Renaud era só um adolescente, mal tinha chegado à maioridade e estava verdadeiramente perdido, verdadeiramente precisando da sua ajuda. A atitude dele era o que mais lhe incentivava a ir mais fundo em cada uma das próprias pesquisas, estudos e pensamentos para ajudá-lo como fosse possível. Ele tinha ido até seu consultório pedir por ajuda e era o que faria, só precisava traçar uma trajetória mental de como começar aquilo e como abordar a situação, se Renaud teria condições mentais para aquilo.
A noite de sono foi curta, mas chegou ao consultório em St. Clavier bem antes do horário, bem disposto, devolvendo suas fichas e anotações para os arquivos e aguardando o retorno de Renaud, como tinha instruído a ele no dia anterior. Talvez o moreno só voltasse no dia seguinte, afinal, tinha especificado que o queria fisicamente recuperado, mas de qualquer jeito, estava preparado para recebê-lo quando fosse mais conveniente.
Sua manhã foi surpreendentemente livre. Não houve consultas sem marcação, nem crises inesperadas. O relógio marcava quase dez da manhã quando as batidas na porta lhe tiraram de sua concentração nas anotações dos pacientes. Colocou o óculos falso de volta, já estava com o jaleco e ia autorizar a entrada do aluno quando ouviu a identificação. Em um par de passos largos, alcançou a porta e abriu para que Renaud entrasse.
– Fique à vontade, Renaud. – deu espaço para ele. – Estava lhe esperando. Como se sente essa manhã?
Podia especificar se queria um relato físico ou psicológico, mas a resposta dele também lhe diria no que ele estava pensando prioritariamente, sem precisar de uma indicação de caminho a seguir.
Renaud
O tempo parecia uma coisa muito relativa, e fazia sentindo a todas as teorias escritas sobre. Afinal, o tempo de caminhar de seu dormitório até o complexo administrativo, com certeza foi maior do que o tempo que levou até que a porta da sala de aconselhamento estudantil se abrisse. No entanto, sentia com mais expectativa a porta se abrir ali, do que o longo trajeto de um prédio ao outro. Apenas naquele momento Renaud se deu conta de que o psicólogo não o chamava mais de Sr. Blanco, o chamava por seu nome e não pelo rótulo, e perceber aquilo, estranhamente lhe deu alguma sensação de segurança. E era estranho perceber que tinha tanta necessidade de segurança assim, e que podia senti-la junto a um psicólogo do qual conhecia a tão pouco tempo.
Adentrou o espaço, fazendo um meneio de cabeça como um cumprimento breve, sem de fato estender a mão machucada, e esperou em pé dentro do espaço da sala. Muito embora ele tivesse lhe dito, que estava esperando, isso era pela dieta, não queria dizer que iriam conversar. Atentou-se a pergunta do mais velho, fazendo uma pausa breve, observando-o longamente, e só então baixando o olhar para as próprias mãos de bandagens frouxas:
-- Bem… Bom dia Dr. Vlahos. – Cumprimentou primeiramente, afinal, no dia anterior tinha chegado com ares de desespero, era bom mostrar que ao menos não estava fora de controle. O loiro tinha lhe alertado que era pra voltar quando estivesse se sentindo melhor. Não estava se sentindo melhor de todos os seus problemas, mas ao menos, não estava se sentindo desesperado e fora de controle.
-- hm… fisicamente eu já estive melhor, alguns machucados novos... como dá pra ver – ergueu as mãos na altura dos olhos para que o loiro pudesse ver os pequenos cortes de vidro, com as bandagens rosadas em alguns pontos de contato com os ferimentos recentes – mentalmente eu consegui dormir, sem sonhos ou pesadelos, acordei ainda cansado, mas estava menos enjoado, consegui comer… -- fez uma breve pausa, finalmente desviando os olhos para observar qualquer outro ponto da sala, como o lugar de onde ele sempre tirava água ou toalhas, ou chá, só não queria encarar o rosto do psicólogo:
-- Emocionalmente eu estou meio dormente, como se estivesse anestesiado... sei lá, ou algo próximo disso…! – franziu as sobrancelhas e acenou negativamente, pondo as mãos de volta nos suspensórios, deixando-as pendentes de forma um pouco mais relaxada. Como se não fosse de todo estranho ter de falar como se sentia para o outro, embora as descrições não fossem muito precisas, ou fizessem muito sentido:
-- vim buscar a dieta… -- o Blanco fez uma pausa breve, como se hesitasse em exteriorizar o pensamento, mudando as mãos um pouco de posição e curvando os ombros em uma postura um pouco tensa e defensiva: -- e conversar… se tiver disposição e horário livre, é claro.
Existia clara hesitação na fala do moreno mais novo, embora ela estivesse direcionada ao fato do outro ter trabalho a cumprir, e não necessariamente por Renaud não ter disposição para querer conversar.
Aleksei
Se Renaud não estava reagindo bem no dia anterior, estava ainda mais anestesiado naquela manhã. Não esperava nada diferente, cada mínima reação dele, cada demora em responder era bem condizente com o estado físico e mental em que ele tinha saído do seu escritório e da enfermaria na noite anterior. Do mesmo modo, era até estranho vê-lo em roupas casuais dentro de St. Clavier, embora os suspensórios estivessem sempre ali. A última vez que o tinha visto daquele jeito tinha sido fora da escola, o que era apenas esperado. Mas não foi especificamente a roupa que lhe chamou a atenção, e sim as bandagens frouxas com algumas manchas bem específicas nas mãos dele. Ele não tinha deixado a enfermaria com aquele machucado, então só podia supor que a noite tinha sido bem conturbada também. Observou-o com o cuidado de sempre enquanto ele atentava para as próprias mãos, anunciando que aquele fazia parte do seu estado físico e mental.
Deixou que ele entrasse na sala e fechou a porta logo depois, dando espaço para que ele circulasse na sala também antes de decidir onde se acomodar, ou se buscaria logo a dieta dele em seus arquivos à mesa. Ainda ficou de olho no aluno em cada resposta dele e reação, recebendo mais informações do que esperaria em meses de consulta, mas que condiziam com o estado em que eles tinham chegado nas últimas semanas. Era notável, principalmente, como ele evitava lhe encarar, e não tirava a razão dele de não querer olhar diretamente à pessoa que sabia tanto do que havia debaixo daquela capa. Qualquer um se sentiria incomodado em ser lido com aquela facilidade.
– É bom saber que conseguiu dormir e comer. – Aleksei respondeu, para não deixá-lo naquele silêncio incômodo entre as próprias palavras. – Anestesiado é uma boa palavra, podemos trabalhar com isso.
Já era um progresso que ele tivesse feito aquilo, que tivesse conseguido dormir e comer, além de tentar lhe especificar como se sentia emocionalmente. O progresso no estado físico poderia lhe abrir as portas aprofundar o seu tratamento… ou para passar o seu diagnóstico. Mas Aleksei não sabia ainda o quanto o estado mental dele poderia suportar uma conversa mais específica focada no que descobrira das últimas sessões. E afinal de contas, Renaud tinha ido ali apenas por uma dieta, embora a inquietude e a inconstância no olhar lhe denunciassem que ele estava buscando mais que aquilo.
Aleksei estava disposto a sugerir uma conversa quando ele falou sobre ir buscar a dieta apenas, mas o próprio Renaud se ocupou em completar a sentença, entrando num estado defensivo que era bem incomum para ele.
– Já estou com sua dieta. E sempre tenho disposição para conversarmos. Com sorte, também estou com o tempo livre. – Aleksei respondeu, andando então na direção do centro da sala onde havia as poltronas em que geralmente consultava os alunos, mas não parou nelas, seguiu até o fundo da sala e pegou um lenço e um copo com água, improvisando, para voltar até a mesa de centro entre as poltronas e colocar os itens ali. Poderia ter deixado o aluno confuso, mas não se sentou de imediato. – Posso ajudá-lo com isso? Não parece que vai durar até o almoço. – indicou as bandagens frouxas nas mãos dele. – Onde prefere se acomodar?
Deixou que ele escolhesse se queria sentar na poltrona ou no chão, como tinham feito nas últimas sessões. O copo de água e o lenço eram o que tinha de improviso para ajudar a limpar os machucados nas mãos dele e refazer as bandagens. Mais do que aquilo, precisaria ir até a enfermaria e não parecia uma boa ideia sair dali ou sequer levar Renaud consigo. Esperou o sinal verde dele para retomar a conversa.
– Então. Quer me contar o que aconteceu? – indicou os machucados das mãos, que se não estavam ali no dia anterior, tinham sido apenas mais uma resposta à intensa crise do aluno no dia anterior.
Renaud
Renaud não sabia que tipo de cara estava fazendo, em dias normais, teria plena certeza de não estar passando nenhuma impressão além de sua neutralidade costumeira. Mas no estado cansado em que estava, sabia bem, que uma pessoa treinada como o outro era, podia notar todas as suas pequenas hesitações e pausas para pensar e refletir, não sabia definir até onde aquilo era desconfortável ou simplesmente aceitável. Em verdade o moreno mais novo estava pouco acostumado aquela situação em que estava, na posição em que estava junto ao médico, e todas as expectativas que tinha em torno daquelas conversas. E por não ter parâmetros suas reações eram um pouco defensivas, embora não estivesse de fato interessado a se manter fechado.
[...]
Ser daquele jeito não tinha lhe ajudado em muita coisa pra lidar com aquele problema;
Então agora tinha de experimentar se abrir e vê se dava certo...
Tinha de acreditar que daria certo…!
[...]
Voltou a encarar o médico quando ele lhe disse que “anestesiado” era um bom estado, e que era algo possível de se trabalhar, e arqueou de leve a sobrancelha, fazendo um meneio de cabeça sutil, como se concordasse com o outro silenciosamente. Mas foi mais notório o relaxamento nos ombros quando o psicólogo atestou que tinha tempo para conversarem. Não se moveu dentro do espaço, mas observou quando o mais velho se afastou para buscar o copo de água e um lenço, deixando na mesa de centro, e observou tudo com um ar de leve confusão. Até que o próprio médico fez sentido em suas ações, perguntando se podia cuidar de seus machucados. E a expressão de surpresa foi mais notória nas sobrancelhas levemente arqueadas, e observou longamente o outro, os olhos escuros estudando as expressões do psicólogo, mas não respondeu a nenhuma pergunta imediatamente.
[...]
Ele vai mesmo cuidar das minhas feridas?
Porque ele faria isso? Está além do trabalho dele não é?
Mas ele me perguntar, quer dizer que eu posso escolher aceitar ou negar...não é?!
[...]
Renaud Tirou o Blazer e deixou no encosto da poltrona, e em seguida caminhou para o lugar de sempre, no chão, sentando-se sem muitas cerimônias:
-- eu acho que tive uma crise... não sei que outro nome usar para chamar o que eu tive…
Não tinha chegado a abotoar a camisa xadrez por estar sem manejo fino, por isso não precisou desabotoar a peça, e então apenas dobrou duas vezes para expor melhor as mãos, e as manchas roxas que tinha da briga anterior, que agora estavam menos esverdeadas que no dia anterior: -- Eu tomei um banho, pra tirar o cheiro da enfermaria de mim e fui responder mensagens no telefone, muitas delas do Deodatos, do trabalho, muita coisa que eu precisava pelo menos dar alguma resposta, mesmo que fosse “vaga”... mandei mensagem para Sasha e Isaac e depois disso apenas fiquei lá... sentado no chão...
Estendeu as duas mãos com as palmas para cima na direção do outro, como se esperasse para ver o que ele iria fazer, como trataria ou o que faria. E era possível notar que existia certa curiosidade do Blanco nas atitudes do médico, como se ele quisesse achar sentido no gesto. Mas essa inquietude não impediu que Renaud prosseguisse com sua narrativa:
-- Sasha apareceu, trazendo janta, eu estava “desse jeito” como estou agora, sendo que mais abatido, eu acho... tentei comer mas não deu certo...
Pausou no meio da frase, tirando o olhar do médico e dando de ombros, e focou o olhar em como o outro iria cuidar de seus machucados, porque Sasha costumava ser grosseiro, mas cuidadoso do jeito dele, bandagens desarrumadas mas bem presas. Didier aliviava a dor física com remédios primeiros, pra depois cuidar dos machucados, tudo feito, regado a muitos comentários e conversa para que não desmaiasse enquanto ele tomava conta dos ferimentos. Isaac costumava ser malvado, lhe fazia sentir dor, mas ele se certificava de que estaria tudo em seu devido lugar. Não sabia como era o jeito do outro de tomar conta de seus machucados, mas aquilo lhe trazia um conjunto de sensações estranhamente reconfortantes e por isso, não foi tão penoso falar sobre como foi a noite passada:
-- Eu comecei a ter um enjoo forte, e fiquei desesperado porque eu não queria por tudo pra fora de novo, e de novo e de novo... mas não deu certo, e aquilo me encheu de raiva e frustração e eu comecei a rir... – deu de ombros, acenando negativamente sobre aquele detalhe, não sabia explicar porque tinha rido ou qualquer uma de suas reações ao longo do ocorrido, só estava descrevendo o que tinha acontecido, como se lembrava: -- Porque parecia que não importasse o que eu fizesse, não iria fazer diferença, e pensar assim me deixou com ainda mais raiva... – o moreno mais novo respirou fundo, piscando longamente, como se estivesse buscando as melhores palavras pra descrever como tinha sido a noite passada: -- eu comecei a descontar nas coisas do banheiro, quebrei perfumes, o espelho, depois acabei me desequilibrando, tentei me segurar sobre os cacos de vidro, e foi quando percebi o que estava fazendo... aquilo me deu angústia... nem sei dizer de onde veio... só sei que comecei a chorar…
Voltou a encarar o Dr. Vlahos, os olhos escuros parecendo ainda mais escuros do que de costume, porque tinha um montante de emoções ali, mesmo que o próprio Renaud não soubesse nomear e explicar de uma forma convencional:
-- Não sei se você já mergulhou antes Dr. Vlahos, mas quando você cai na água sem ter segurado o fôlego ou está muito nervoso, você afunda! E muito rápido... não dá pra escutar quem está fora d’água, e se você se debate é pior, parece que se é arrastado pro fundo ainda mais depressa... e a partir daí, eu não estava mais sentindo, nem se eu estava chorando ou não, não sabia se eu estava no meu quarto, em que momento estava, tudo... tudo…! estava vazio! e aquilo foi me engolindo, como se eu fosse me afogar…! – Renaud engoliu em seco, e desviou os olhos novamente para qualquer outro ponto na sala: -- Nessa hora o Sasha me puxou e me chamou, disse que “estava lá”, e eu me agarrei a ele, como se fosse uma boia no meio do oceano, e eu precisasse desesperadamente dele pra sobreviver... então eu voltei a sentir tudo de novo, como se estivesse multiplicado por mil e demorou um bom tempo... até que eu parasse... e me acalmasse…! Foi assim que eu fiquei “assim”!
O moreno mais novo voltou a observar o médico a sua frente e ergueu as mãos levemente, para enfatizar os machucados das mesmas, e a relação com tudo que tinha descrito da noite passada e os ferimentos.
Aleksei
Era bem mais fácil acompanhar os trejeitos de Renaud naquele estado, mesmo que não quisesse que o aluno estivesse daquele jeito. Havia alívio à confirmação de disposição para conversar, assim como havia surpresa diante do seu pedido para ajudá-lo. Era uma série de pequenos trejeitos que mostravam como o Blanco não estava acostumado às atitudes mais básicas da convivência entre iguais.
Aleksei esperou que ele se sentasse e o acompanhou, do mesmo modo, sentando-se diante dele. O copo e o lenço na mesa de centro tinham sido colocados ao alcance, mas ainda esperou algo mais em confirmação para cuidar das mãos dele. Ouviu-o dizer que devia ter tido uma crise, mas ao invés de dar alguma definição para o que ele pouco conhecia, observou os gestos até ele arregaçar as mangas, os movimentos nos dedos estavam realmente comprometidos, então imaginou o que haveria debaixo das ataduras e o que tinha acarretado os machucados. Ele mesmo começou a narrar a sua noite, e os detalhes que adicionava só mostravam que o nível de estresse estava realmente nas alturas no dia anterior.
Finalmente ele lhe estendeu as mãos com as bandagens folgadas e entre começar a desatar o tecido e adicionar ao que ele tinha dito, resolveu continuar apenas como ouvinte da narrativa. Segurou uma das mãos dele entre as suas e desenrolou as faixas, mas as deixou de lado, considerando que não havia nada para substituí-las depois. Só ao desfazer as bandagens foi que entendeu a hesitação nos movimentos com as mãos, toda a área cheia de cortes abertos provavelmente causados por vidro ou metal, o que se confirmou como sendo o primeiro depois da narrativa detalhada. Aleksei trouxe o copo com água para si, junto com o lenço e umedeceu o pano limpo para passar pelos ferimentos abertos, tirando o excesso de sangue seco e pressionando um pouco em algumas das feridas que tinham algumas gotas frescas de sangue, provavelmente por algum movimento involuntário dele.
Manteve a atenção principalmente nas mãos cortadas, mas atentou para cada palavra e erguia os olhos com frequência para encará-lo e notar os pequenos trejeitos diante da narrativa, percebendo principalmente como ele tentava dar pouca importância aos acontecimentos com os gestos de dar de ombros, ou especificamente como tentava entender o que tinha acontecido consigo mesmo. Ainda mais indo dos risos à raiva.
Quando ele chegou à angústia, Aleksei já tinha limpado os ferimentos da mão esquerda e a enfaixou de volta, sem apertar demais e deixando a faixa muito mais ajustada do que antes. Devolveu o olhar dele ao revelar que a angústia tinha levado ao choro e antes de interrompê-lo, ouviu uma definição muito específica que comparava a sensação dele com um mergulho. Não precisava ser especialista em mergulho para entender o que Renaud estava lhe descrevendo, e as analogias eram bem convenientes. Mas a melhor parte da analogia era a pessoa que tinha aparecido para puxá-lo do fundo do poço.
- Eu não estou familiarizado com mergulhos, mas posso entender a sua analogia, Renaud. - Aleksei estendeu a mão, num pedido silencioso para que ele lhe estendesse a mão direita para terminar de limpar os machucados e reenfaixá-la. - Você teve sim uma crise. - confirmou a suposição inicial dele de que tivera uma crise naquele dia e talvez aquela tivesse sido uma das poucas vezes em sessões entre os dois em que tinha dado uma resposta tão direta. Não o tinha feito porque não achava que Renaud não conseguiria chegar lá, mas especificamente porque ele tinha chegado na definição e agora faltava a reafirmação. - Estava cansado física e mentalmente, pensando em todos os problemas com os quais tinha de lidar, com a pressão que veio de todos os lados, além do estresse do seu fim de semana incompleto. Foi uma noite difícil, e acho que nós dois sabíamos que seria muito difícil.
Voltou o olhar para a mão dele, limpando os outros ferimentos superficialmente para não causar mais dor, eventualmente molhando o lenço na água que já tinha assumido uma tonalidade mais rosada.
- Você ainda não “pôs pra fora” tudo o que tinha, e é por isso que essas crises surgirão quando menos esperar. É por isso também que além das suas sessões comigo, vou lhe prescrever remédios que vão lhe ajudar a lidar com as situações e ver tudo com um pouco mais de clareza. - Aleksei explicou, agora enfaixando a mão dele de volta para o estado anterior, com as bandagens bem colocadas. Parou no meio do processo e ergueu o olhar para encará-lo de volta, mais direto. - Mas quero que entenda uma coisa, Renaud: você não vai afundar. Seu frater estava lá para você, você tem amigos que estão lá por você. Eu não vou deixar que afunde. Nós estamos sempre aqui. Você não vai conseguir lidar com isso sozinho e não queremos que tente sozinho também. Assim como esses cortes, sua mente vai se recuperar.
Não estava se colocando como um amigo, claro, mas Renaud bem sabia daquela distinção e era o que ele precisava para que pudessem dar seguimento ao tratamento. Voltou a enfaixar a mão alheia e em pouco tempo, finalizou o serviço.
Renaud
Renaud estava sim, surpreso com a própria capacidade de narrar os fatos, das vezes anteriores tinha sido muito mais difícil, quando tinha brigado com Didier tinha passado um tempo falando em espanhol pelo choque. Ontem estava tão abalado que sequer sabia organizar os acontecimentos em sua cabeça, não que no momento em que se encontrava, o moreno mais novo pudesse organizar os fatos em uma sequência temporal concisa. Mas já tinha admitido pra si mesmo, depois da conversa com Sasha, que essa situação, era algo de que não tinha mais “controle” completamente, e precisava achar um jeito de “reaver esse controle”. E a única pessoa que sabia que poderia lhe ajudar, estava ali, a sua frente arrumando suas bandagens.
Se atentou ao fato de que o psicólogo já tinha terminado de cuidar de uma de suas mãos, apenas quando ele fez o gesto indicando que lhe estendesse a outra. Sequer tinha sentido diferença no toque dele, no passar do pano úmido sobre os cortes e sangue seco. Tudo pareceu desenhado de um jeito tão discreto, que passou despercebido para o jovem Blanco, e a reação imediata foi de surpresa. Mas não teve tempo para se apegar aquele sentimento, logo após terminar sua narrativa dos acontecimentos recentes, obviamente o Dr. Vlahos tinha seus próprios comentários para acrescentar do ponto de vista dele sobre a situação. E para a surpresa de Renaud veio uma confirmação.
“Você teve sim uma crise.”
O jovem Blanco estendeu a mão direita, dando permissão para que ele cuidasse da mesma, mas a atenção estava mais direcionada as palavras do psicólogo diante de sua situação. Quando o mesmo destacou que ambos sabiam que ia ser uma “noite difícil”; o moreno mais novo deixou escapar um breve suspiro de conformidade.
Não sabia exatamente ao que ele se referia sobre “por para fora”, estava se referindo a exteriorizar sentimentos mais profundos de forma intencional? Como os que tinha recém- percebido sobre Didier, para o próprio? Ou era um comentário direcionado aos dias perdidos do fim de semana, que precisava dar um jeito de “por para fora”. Aquilo lhe causou uma leve confusão, que foi perceptível no calafrio que perpassou todo o corpo do Blanco, e alcançou a ponta de seus dedos em um tremor suave. Principalmente quando ele lhe destacou que precisaria tomar ‘remédios’ para lidar com aquilo. Chegar ao ponto de precisar de medicamentos, de precisar de um psiquiatra, para além de um psicólogo, lhe deixava apreensivo sobre o quão ruim estava a própria situação.
Mas como se fosse capaz de ler os pensamentos de Renaud, e ler a sequência de raciocínio auto depreciativo, o Dr. Vlahos, fez questão de destacar os apoios que tinha. E que mesmo estando bem na sua cara, não tinha percebido, ou mesmo dado atenção devida.
[...]
Tinha seu frater, sua verdadeira família;
Tinha amigos próximos, surpreendentemente mais próximos do que podia imaginar;
E tinha pedido ajuda ao psicólogo e ele tinha aceitado lhe ajudar.
[...]
Dr. Vlahos tinha escolhido deixar de lado todas as outras seções onde o moreno mais novo se ocupava apenas de brincar com ele, sem de fato levar a sério nada daquilo. Para no momento em que o Blanco tinha mudado de postura, o outro mudou também. O psicólogo não tinha qualquer obrigação de aceitar, poderia ter assumido que pelo fato do moreno mais novo, ter sido um delinquente, não merecia aquele nível de profissionalismo. Mas na contramão do senso comum, estava sim sendo tratado, bastava apenas do lado de Renaud aceitar de forma mais consciente que realmente estava em processo de terapia.
[...]
E que isso significava que estava doente.
[...]
-- Eu-…! -- fez uma pausa reorganizando os pensamentos, e desviou o olhar por um momento, voltando a atenção para as próprias mãos, e movendo os dedos brevemente para sentir a diferença entre os tipos de curativos feitos, mas não se demorou em voltar a falar: -- ...eu estou grato…! -- ergueu as mãos um pouco, sentindo desconforto, não exatamente por estar agradecendo ajuda, mas por não ser exatamente sobre as bandagens o motivo de se sentir grato, e talvez por isso, não tivesse parado a frase apenas naquilo: -- ...por me ajudar a não afundar... já que estamos usando esse termo para a situação…!
Renaud passou a mão brevemente sobre os fios curtos pondo-os para trás, e depois mudou de posição, cruzando as pernas, em uma postura mais confortável, repousando as mãos sobre o colo com as palmas viradas para baixo, uma sobre a outra:
-- e … eu tenho algumas dúvidas, não sei até onde o senhor pode me responder Dr. Vlahos, mas o que puder explicar eu já fico satisfeito, da mesma forma, o que precisar saber... você pode me perguntar, vou tentar responder, na medida do que eu conseguir…! – Pigarreou de leve, focando nas próprias dúvidas, antes de dar espaço para que o outro lhe perguntasse o que ele precisava saber sobre si, que ainda não sabia: -- primeiro, se, eu vou precisar de medicação, isso quer dizer que eu estou doente, certo? Segundo, admitindo que eu estou em “tratamento”, isso vai mudar a lógica das nossas conversas, como vai ser a partir de agora?
Era notório que existia certa hesitação em admitir que estava em “tratamento”, a própria ideia era tão inédita para o jovem Blanco, que ele sequer sabia como proceder naquela situação. Nunca tinha levado terapia a sério o suficiente, para conversar sobre o que é: “fazer terapia de fato”. Nunca tinha realmente se preocupado em querer saber como aquilo funcionava. Mas agora, naquele momento, Renaud tinha muita necessidade de entender o que ele podia fazer, e o que o outro podia fazer, para que não tivesse que ter outras “noites difíceis”, como as que estava tendo.
Aleksei
Renaud tomou um certo tempo para assimilar tudo o que estava dizendo e Aleksei conseguia notar nos pequenos trejeitos dos movimentos involuntários do corpo dele, como na reação a um calafrio, ou no olhar surpreso e desconfiado diante de uma série de informações bem diretas. As sessões dos dois, até então, tinham um caminho bem diferente, considerando o modo como Renaud era sempre evasivo e como Aleksei se esforçava para não ser convencional como o que ele estava acostumado. Mas com um paciente disposto a se abrir, que tinha pedido tão diretamente por ajuda, podia se dar ao luxo de ser direto e de ser invasivo até, ao ponto de conseguir tirar as informações que precisava para um diagnóstico adequado.
Mas revelar a Renaud que ele estava num estado que necessitava de medicação pareceu pegá-lo bem desprevenido. Ele demorou a responder, mas a primeira reação veio num agradecimento. Não pelos curativos bem ajustados, como teria imaginado de início, mas pelo fato de que estava ali por ele e para ajudá-lo. Aleksei apenas afastou o copo e o lenço para a mesa de centro de novo e respondeu ao agradecimento dele com um aceno de cabeça discreto.
Se comparado ao Renaud que tinha entrado em sua sala mais de seis meses atrás, no início do ano letivo, jamais teria imaginado que conseguiria ir tão fundo nas sessões com o rapaz esquivo e com perfil de sociopatia. Mas ele estava fraco, vulnerável, estava pedindo por ajuda desesperadamente... e a cada pedido sincero, Aleksei tinha mais certeza de que poderia fazê-lo se recuperar bem melhor do que o próprio Renaud teria perspectiva. Deixou que ele alinhasse os pensamentos e fizesse os questionamentos primeiro, antes de fazer a sua parte em se aprofundar mais nas questões que desconhecia do Blanco. A recusa dele em perceber que já estava em tratamento era notável no modo como o corpo se retraía e como as próprias palavras se destacavam no discurso em um tom de estranhamento e hesitação.
- Primeiro, eu deveria lhe dizer que esteve em tratamento desde o primeiro momento que entrou na minha sala, Renaud. Pode parecer estranho pensar nisso, ou sequer admitir, e o tipo de tratamento que temos aqui é muito diferente do que você está acostumado quando se machuca. A diferença, em nosso caso, é que um tratamento só é eficaz quando o próprio paciente decide que precisa dele. E não posso demandar que um paciente se sinta à vontade conversando com um completo estranho, não é mesmo? - Aleksei começou a explicar, e sabia que era o suficiente para que Renaud entendesse parcialmente o processo pelo qual tinham passado até haver uma confiança estabelecida ali. Afinal, o pedido de ajuda tinha vindo de Renaud, mesmo que Aleksei sempre estivesse disposto a ajudar. - A lógica de nossas conversas vai mudar de acordo com o que você se sentir confortável em me dizer. Nessa parte, não há alterações.
Precisava, claro, reafirmar que Renaud ainda tinha o controle do que queria e do que não queria compartilhar com ele, dentro daquela sala. Aleksei poderia perguntar o que achava pertinente, mas ele podia escolher não responder. Podia escolher voltar aos muros tão fortes em que todas as respostas eram evasivas, mas ele já sabia que aquilo não lhe ajudaria. Tratou daquela resposta primeiro porque lhe parecia de fácil compreensão, para só então voltar aos remédios.
- Sobre os remédios, entenda-os como os analgésicos que você usa para aliviar as dores de hematomas e cortes de brigas. A diferença é que estes vão aliviar as confusões de sentimentos em sua mente. - Aleksei seguiu com a explicação. - Sua mente está ferida. É por isso que você teve uma crise, é por isso que todos os sentimentos e sensações saem do seu controle e precisam ser extravasados. Com a medicação, você terá uma verdadeira sensação de anestesia. Eles servem para que você evite essas crises, esses momentos de intensidade, até que aprenda melhor como seus próprios sentimentos funcionam e possa lidar com eles. Ter tantas emoções à flor da pele pode ser perigoso, principalmente para você mesmo, Renaud. - indicou as mãos dele, para mostrar como aquela crise, que ele mesmo tinha definido, tinha o machucado fisicamente também. E como aquilo podia ir além dos limites.
Não sabia se aquela explicação seria suficiente para ele, mas esperou, em silêncio, que ele não questionasse sobre a perda de memória. Se seu diagnóstico estivesse certo, aquele tipo de situação talvez não pudesse mais ser evitado com medicações fortes. Eventualmente, os dois chegariam àquele assunto, mas o psicólogo sabia que Renaud não poderia, naquele momento, se aprofundar demais nele.
Posts: 259
Threads: 121
Joined: Jul 2021
Reputation:
0
Renaud
Certamente Renaud se sentia tenso, porque tinha expectativas sobre as respostas que iria obter do Dr. Vlahos a sua frente, e isso lhe deixava com a garganta seca, e uma leve inquietação que perpassava todo o seu corpo, se suas mãos não estivessem machucadas certamente começaria com algum tique com os dedos. Mas o psicólogo estava sendo muito direto em suas respostas e isso fazia com que o Blanco o encarasse de forma mais direta também em resposta, para absorver melhor o que lhe era dito. Muito embora isso servisse na contramão, para que Aleksei pudesse vê-lo igualmente de forma direta, e tirasse com ainda mais precisão os pequenos tiques expressivos do jovem Blanco.
O franzir de sobrancelhas foi discreto mas denotava estranhamento, diante do fato de estar em tratamento desde sempre, o lamber de lábios breve, sem de fato umedecer os mesmos, era um sinal claro de ansiedade, de quem tem expectativas sobre o que está sendo dito. Ao ser explicado que todo o processo de todas as seções anteriores estava justamente em estabelecer confiança, Renaud desviou o olhar para algum ponto qualquer da sala e ergueu as sobrancelhas de leve, antes de voltar a encarar o médico a sua frente. Como se fosse um gesto que significava compreensão, ao rememorar brevemente conversas anteriores entre os dois. Renaud não fazia ideia de que tinha todos aqueles tiques, tão comuns para expressar nos detalhes as coisas que estava sentindo e pensando, mas tudo estava lá, cada vez mais fácil de ler e de observar.
E saber principalmente que o tipo de conversa não se alteraria, que Renaud continuaria escolhendo sobre o que dizer e não dizer, foi algo bom de ouvir, apesar de tudo mais está confuso e desalinhado, ao menos sobre isso, ainda tinha algum controle, e era um alívio ter aquela pequena segurança. E foi fácil de notar, justamente pela respiração profunda do Blanco ao assimilar a informação.
As explicações seguintes sobre os remédios serem como analgésicos lhe pareceu bastante convincente, não tinha estudado fármaco a fundo, para saber como funcionavam remédios do tipo ansiolíticos, só sabia o básico, que eram destinados a tratamentos que envolvia a parte emocional. E que se o outro poderia lhe prescrever esse tipo de medicamento era por ser um psiquiatra de formação e não apenas um simples psicanalista, explicava muita coisa sobre a inteligência do sujeito, e amplo leque de atuação. Acenou positivamente deixando mais claro que tinha entendido a explicação sobre os remédios, e suspirou conformado quando teve as mãos apontadas como uma possível resultante de crises constantes.
Pigarreou de leve, sentindo a garganta seca, e lambeu os próprios lábios novamente, em sinal claro de que ainda estava um pouco tenso e ansioso dentro daquela conversa. Não era tão confortável saber que iria tomar medicamento, mesmo estando ciente de qual a função deles:
-- Bem... é bom saber que as conversas vão ser como sempre foram, isso me deixa mais aliviado... confortável ou o mais próximo que eu consigo estar dentro da minha situação...! E também... não parece tão ruim tomar remédios do jeito que senhor fala... – porque não fazia parecer que seria para sempre, seria apenas, até estar melhor, seja lá quando isso for. Renaud baixou o olhar de volta para as mãos passando a ponta dos dedos sobre as bandagens bem-feitas pelo outro, era um sinal claro de hesitação, de entrar em um novo assunto, mas finalmente, mudou a posição das mãos, e repousou as mesmas sobre os joelhos e respirou fundo, voltando a encarar o psicólogo a sua frente, em uma postura mais aberta, de quem estava encarando de frente e sem proteções:
-- O que vamos fazer a partir de agora então? Vamos falar do fim de semana? Do Didier? Do Sasha? Ou de alguma outra coisa que senhor acredita ser importante falar? – Parecia ter sido necessário juntar um bocado de coragem para chegar naquelas perguntas.
Aleksei
A recusa de Renaud em entender que a situação dele já era de um paciente há muito tempo foi notável em pequenos trejeitos do rapaz. Estava atento a Renaud e diferente de outras vezes que tentava amenizar o próprio olhar intenso, não queria deixar nada passar daquele momento em diante. Provavelmente o incomodaria, podia desviar a atenção algumas vezes, mas estavam num estágio bem crucial para deixar que certos detalhes passassem despercebidos. Ele estava ansioso pela conversa e com os detalhes que estava colocando a mais em cima dele, não era de se surpreender que estivesse reagindo daquele jeito. Estava sendo mais direto do que já fora até então e no estado fragilizado de Renaud, aquilo devia representar uma atitude bem invasiva.
Baixou o olhar para as mãos dele para não ficar encarando-o tão fixamente, deixando que ele se acostumasse gradualmente com suas palavras. Ao menos o fato dele ainda controlar os assuntos talvez o deixasse mais confortável com a situação. A respiração profunda soou a Aleksei quase como uma reação de alívio e depois que ele assimilou ao menos parte do que tinha lhe dito, notou o aceno positivo tanto sobre as sessões quanto sobre a medicação. Ao menos não tinha recebido uma pergunta inesperada sobre o fim de semana e era melhor deixar aquilo para um pouco mais adiante.
- Não vou lhe dizer que tomar ansiolíticos é a melhor coisa do mundo. Mas eles vão ser muito úteis e à medida que controlarmos a sua situação, vamos diminuir dosagens, trocar os remédios, até que não precise mais dele. É um processo longo, tem alguns efeitos colaterais, mas vai ser para melhor. - Aleksei explicou, sabia que iam ter que falar sobre todos os efeitos dos remédios que ele tomaria e como aquilo afetaria bastante a vida pessoal dele.
Mas por enquanto, podiam continuar com a consulta e conversar, e mesmo com a hesitação de Renaud ao desviar o olhar mais uma vez e se focar nas bandagens de seus machucados, ele mesmo que pareceu se abrir mais, estar disposto a continuar conversando. O primeiro questionamento era sobre falarem do fim de semana, mas Aleksei não reagiu de nenhum modo exagerado, mantendo a ideia no fundo de sua cabeça por enquanto.
- Como eu disse, você que decide, Renaud, podemos falar do que você quiser, o que quiser me contar, ou o que se sentir confortável em falar. - Aleksei respondeu, mas ainda assim, tinha urgência em descobrir um pequeno detalhe. Não transpareceu em nada essa urgência na voz ou nas ações, mas já que ele tinha lhe questionado, resolveu dar uma alternativa do assunto que poderiam abordar. - Eu o ouvi falando pouco sobre sua infância até hoje. Sei algo sobre Sasha, e algo sobre Didier. Sei algo sobre Isaac e o Conselho Estudantil e nós dois sabemos alguma coisa sobre o fim de semana. E antes de St. Clavier? Da sua família, até encontrar o Sasha? Tem alguma coisa que gostaria de compartilhar?
A escolha de palavras especificamente definindo de todos os assuntos como "algo" era para mostrar que ele não saberia de tudo de Renaud nem que passassem uma vida de sessões. Especialmente para tentar passar, mesmo que indiretamente ao aluno, o fato de que ele é que saberia tudo sobre si mesmo e tinha que escolher lhe contar.
Renaud
O jovem Blanco tinha compreendido toda a explicação sobre os medicamentos, sabia que viriam mais delas posteriormente, e para todos os efeitos era praticamente um químico formado, então julgava ser capaz de entender explicações sobre reações colaterais e índices de absorção corporal. Sabia que tinha suas particularidades de metabolismo, que podiam gerar várias reações indesejadas, então se sabia que viria, podia lidar com a ansiedade gerada dela, era uma questão mais técnica, então era algo que podia lidar e absorver com mais facilidade. E não houve qualquer alteração exagerada nas expressões de Renaud sobre ser avisado que o processo de medicação seria longo.
Em contrapartida, ao ser posto em condição de escolher sobre o que conversaria, a reação imediata foi um franzir breve de sobrancelhas. Ainda estava se acostumando a ter essa possibilidade de escolher sobre o que falar, e quando falar, não era algo ruim, mas era algo com o qual ainda estava se habituando;
[...]
Havia coisas que eram relevantes que quisesse falar?
Parecia fácil poder escolher, mas não era, era?
O que seria importante falar primeiro?
[...]
Mas antes que entrasse em um ciclo de pensamentos acerca do que poderia falar, o próprio Dr. Vlahos lhe chamou a atenção novamente ao ponto de que sabia “algo” sobre aspectos de sua adolescência. Sobre Sasha, Didier, Isaac, Conselho Estudantil, St. Clavier de forma geral, mas algo além disso, ele não sabia, e certamente o próprio Blanco não se pegava pensando demais em coisas muito antigas. Renaud levou a mão ao rosto, a ponta dos dedos indicadores e médio, deslizando sobre os lábios pouco ressecados, o olhar vagueando pela sala brevemente como se buscasse algo na memória que valesse falar para o médico. Se perguntava se ele entraria no padrão de consultas, mas ele não precisava construir seu perfil baseado em traumas da infância como outros médicos tantas vezes fizeram, não lembrava de ter situações que julgasse como traumas para serem motivos de sua personalidade peculiar. Arqueou de leve as sobrancelhas e fechou os olhos brevemente, passando a mão pelo pescoço, como se houvesse alguma tensão ali que precisasse ser dissipada, o Blanco moveu a cabeça de um lado para o outro e ainda de olhos fechados começou a narrar:
-- A memória mais antiga que tenho é ainda na mansão dos Blanco, Robespierre não era nascido ainda, o Deodatos meu pai, ainda estava terminando o Doutorado fora da França, logo ele aparecia tão pouco, que eu mal me lembro do rosto dele. A casa era enorme, claro, os meus avós moram lá, os meus tios também, na época, mas eram todos tão ocupados em suas rotinas, que eu também mal me lembro dos rostos deles. – Renaud comentou sem aparentar estar muito empolgado, mas era notório que ele se incomodava em algum ponto de ser pequeno demais em uma casa de pessoas todas mais velhas que ele: -- Eu passava a maior parte do tempo no escritório, porque a minha mãe passava a maior parte do tempo lá. – Fez uma pausa breve reabrindo os olhos e encarando o loiro a sua frente com um ar mais distante como se ainda estivesse absorto em rememorar as coisas, a postura do corpo relaxou um pouco, porque naquela época, podia ficar relaxado: -- Na época ela ainda estava tentando ganhar espaço no mercado com a empresa dela de organização de eventos, e ela passava muito tempo no escritório de casa, fazendo ligações, ela e a Catherine a secretária dela. Eu não lembro sobre o que elas conversavam, mas lembro de pegar livros nas prateleiras e fingir que estava lendo, eu ainda não entendia o que estava escrito, só gostava de ficar lá.
O Blanco repousou o queixo sobre a palma da mão e voltou a encarar o espaço da sala do Dr. Vlahos, que olhando de baixo, lhe passava a mesma sensação de ser um menino pequeno que olhava as coisas apenas de baixo: -- Quando eu não sabia ler, ela lia coisas pra mim, daí me esforcei pra aprender a ler, acreditando que iria ser elogiado, mas saiu bem diferente do que tinha imaginado, ela disse depois daquilo, que se eu conseguia ler sozinho, que ela não leria mais, para que eu pudesse praticar mais. – Deu de ombros levemente como se fosse uma memória sem muita importância, mas era a coisa mais antiga de que se lembrava: -- Por um tempo eu achei chato ler sozinho, até que eu comecei a tentar fazer vozes diferentes, sabe...? Como tentar imitar a voz grossa de um amigo da família que tinha ido lá na noite passada, ou a voz estridente da esposa dele para algum animal das histórias que eu lia, então deixou de ser chato, porque não parecia que eu estava lendo sozinho.
Usava as mãos agora em pequenos gestos, como se usasse para ajudar a guiar a narrativa nas coisas que explicava, o Blanco voltou a se sentar com a postura mais correta e até aquele ponto a tensão voltava a surgir no corpo de Renaud, principalmente na forma como ele mudava o ritmo das explicações. Como se tivesse sido repreendido várias e várias vezes, para se sentar de forma apropriada e falar de forma clara: -- Depois de um tempo, nós mudamos para nossa própria casa, e ela ainda parecia muito grande para apenas duas pessoas, e a terceira que viria. Eu lembro especificamente da semana que chegamos na casa nova, porque eu fiquei muito doente, e atrapalhei a agenda da minha mãe, ela passou a semana comigo em casa, mas eu lembro da voz dela reclamando de longe: “porque aquela não era a semana pra que eu ficasse doente”. Mas ela ficou em casa comigo, eu queria ter ficado feliz, mas eu lembro que fiquei chateado, depois disso eu passei a não dizer quando eu ficava doente, sempre que alguma coisa doía, e incomodava eu escondia, faço isso até hoje se pensar bem. – Admitiu, a expressão se retorcendo de leve com a surpresa diante do fato de que esse acontecimento já fazia bastante tempo, mas ainda persistia fazendo as coisas do mesmo jeito.
Aleksei
Aleksei logo percebeu que o remédio era o menor dos problemas entre os dois. Era esperado, já que Renaud estava acostumado com medicações mesmo que fossem para ferimentos físicos. Lidar com os próprios pensamentos e emoções era o que deixava o Blanco confuso e aquilo foi bem óbvio na expressão dele ao ter o poder em mãos para escolher o assunto sobre o qual conversar.
Logo ele puxou algo da sua memória, o mais antigo que conseguia se lembrar, e a narrativa se iniciou na mansão dos Blanco e com o detalhe de que ele pouco lembrava do pai. Sabia que Renaud tinha uma conexão mais complicada com a mãe porque ele mesmo tinha lhe admitido que tentava agradá-la numa de suas sessões e tinha citado a mulher, mesmo que indiretamente, várias vezes durante um encontro não-casual fora do consultório. Sabia que o sobrenome Blanco era do pai e que a família da mãe tinha mais ligações em Paris e com áreas de arte. De qualquer ponto de vista, as exigências certamente eram grandes sobre ele, fosse de uma família ou de outra.
O modo como ele se comportou também lhe mostrou um pouco de como Renaud se via naquela época, iconicamente, na companhia da mãe, mesmo que fosse incomum para uma criança se sentir bem num escritório, por exemplo. Para alguém tão pequeno num lugar tão grande, a companhia de uma figura que devia representar segurança era bem crucial. A narrativa sobre a convivência com a mãe não parou por ali, aos poucos, novos detalhes surgiam sobre como o relacionamento dos dois tinha se desenvolvido, como a dependência se tornou independência, e como a independência se tornou necessidade por companhia de novo. Aleksei bem sabia que Renaud tinha uma capacidade extraordinária de imitar vozes, de se colocar no lugar de outras pessoas, de se passar por elas... mas saber que era algo que tinha surgido porque ele se sentia sozinho, aquilo era uma novidade interessante e consideravelmente importante para o seu diagnóstico.
Observar a narrativa era talvez mais importante do que ouvi-la, e logo o psicanalista percebeu que o modo como ele se portava reagia àquele avanço nos detalhes. O cenário tinha mudado para uma casa apenas familiar, mas ainda assim, era uma família que não estava sempre lá e uma família à qual Renaud, ainda pequeno demais para entender, não queria causar problemas. Aleksei podia dar indicativos de como ele deveria reagir às próprias relações atuais, mas sobre a infância, não havia nada que pudesse fazer senão escutar e assimilar. Nada do que dissesse mudaria o que já estava feito.
- Acho que nós dois sabemos a que ponto chegou esse seu modo defensivo hoje. - Aleksei explicou, sobre o fato dele esconder as coisas que lhe incomodavam. - Não existe certo ou errado para o modo como alguém reage diante das mais diversas situações. Para você, naquela época, era certo reagir escondendo suas dores e tentando não incomodar seus pais ocupados. Isso também faz parte do que você se tornou. E não estou falando apenas dos problemas com os quais está lidando, mas de quem você realmente é e das coisas que conquistou, inclusive os amigos e família que considera agora.
Aleksei também ajustou a postura, agora com as duas mãos sobre os joelhos, mas com um ar mais relaxado, para se opor um pouco ao modo como a tensão tinha aumentado no corpo de Renaud.
- Eu já tive a chance de ver a sua habilidade com vozes, então imagino que foi aí que surgiu? Era o que lhe "fazia companhia" antes de conhecer o Sasha? - já que tinha proposto o tópico da conversa, não se importou em fazer mais questionamentos na mesma linha. Embora a relação com a mãe de Renaud fosse interessante, saber da necessidade de reproduzir outras vozes para "deixar de ser chato" ler sozinho era mais importante. E Renaud certamente não tinha ideia do que um detalhe tão simplório da sua infância podia ter, talvez, acarretado.
Renaud
Pensar sobre coisas que estavam tão no passado lhe deixavam em um misto de sensações, algumas coisas, sabia que tinham acontecido, mas não lembrava exatamente com todos os detalhes, da mesma forma, que tinha aquela sensação estranha e inquietante que não tinha nada de errado em não lembrar. Era no mínimo conflitante, mas nunca tinha parado para ponderar demais sobre essas recordações. E talvez esse aspecto mais contemplador ficasse mais visível no olhar do Blanco, que vagueava pelo espaço, como se estivesse enxergando algum espaço ou lacuna no passado e não estivesse de fato olhando para a sala de aconselhamento estudantil.
Ouvir de Aleksei que era natural ser daquele jeito, esconder que se sentia mal ou que sentia dor ou incômodo, e que aquilo tinha moldado de alguma forma suas relações com familiares e amigos, fez com o que Renaud saísse do estado de contemplação para prestar atenção no psicólogo. E tinha de pensar sobre as coisas que tinha conquistado, tinha sido tanta coisa assim? Tinha dinheiro, uma carreira inteira pela frente, mas não tinha o afeto e admiração de seus pais, e isso acaba lhe dando a sensação que estava se esforçando em vão. Por ser fechado, tinha demorado pra se expressar a quem importava, e tinha dificuldade de estabelecer até relações simples de amizade. Muito embora, não soubesse ser de outro jeito, e talvez se reconhecesse ainda menos se tentasse ser totalmente diferente.
Ouviu com atenção a pergunta do Dr. Vlahos, sobre suas imitações de vozes, e pigarreou brevemente sentindo a garganta seca novamente, lambendo os próprios lábios demoradamente. Desde aquela época imitava vozes, mas tinha sido justamente aquilo que o tinha afastado da sensação de solidão. Não sabia dizer com exatidão, tinha relação, mas não era exatamente aquilo:
-- Sim e não. – foi a primeira coisa que pensou, e desviou o olhar brevemente do médico, levando uma das mãos ao próprio queixo, como se estivesse buscando com exatidão alguma recordação que lhe indicasse que não estava mais se sentindo sozinho lendo: -- Eu não sei exatamente quando eu comecei a gostar tanto de contos e fábulas, talvez porque elas tivessem um certo padrão, que ajuda você a mergulhar na história e se afastar do mundo em volta. Acho que a minha sensação de solidão diminuiu à medida que eu conseguia imergir mais nas histórias que lia. – Fez uma breve pausa voltando a encarar o psicólogo e pigarreando de novo, sentindo a garganta incomodar um pouco: -- Da outra vez que lhe mostrei o que eu estava preparando, o processo de imersão, é uma técnica derivada do teatro, é usada em aulas particulares também pra você tentar se manter focado, ou como castigo, ficar de frente para uma parede branca, e contar até 10, por exemplo. Ou mesmo repetir uma sequência de frases, repetidas vezes, até excluir o que está fora e focar no que se estar dentro. Eu já fazia algo parecido, mesmo sem ter sido apresentado as técnicas formais propriamente ditas, eu consigo entrar espontaneamente em estado de hiperfoco.
Comentou sem muito remorso, e tentando introduzir o assunto para se fazer entender, imaginava que o Dr. Vlahos estivesse habituado a lidar com pessoas, e esses estados adversos da mente, mas talvez não estivesse tão familiarizado com técnicas de dramaturgia em si: -- Você precisa já saber o texto memorizado, depois você se isola de outras coisas que possam lhe distrair, toda história tem uma introdução, você repete a introdução, e é como pegar fôlego antes de mergulhar, quando se começa a narração, você imagina as situações como se estivesse vivenciando elas, e quando o primeiro personagem for falar, você não pensa: “como ele se sentiria aqui”, pelo contrário, é algo mais próximo de: “como eu me sinto agora passando por isso”, então surgem vozes na cabeça, e imagens mentais de como aquele personagem deve agir. É semelhante ao processo de ler um livro onde você não tem imagens além da sua própria imaginação para ilustrar o texto. – o Blanco explicava e narrava as coisas como se fosse um ator experiente, embora nunca tivesse de fato feito parte do clube de teatro, ou tido aulas formais sobre o assunto: -- pra subir, toda história igualmente termina com uma narração, que é neutra, e isso te ajuda a voltar e deixar os personagens na história.
Renaud fechou os olhos, moveu os dedos de forma ritmada brevemente, duas movimentações depois o atraso no dedo midinho tinha sumido, e ele lambeu os próprios lábios novamente, inclinando a cabeça de lado: -- Vou visitar minha avozinha e levar uns bolinhos e um potinho de manteiga que minha mãe fez para ela. – a voz saiu semelhante ao de uma menina jovem, e Renaud inclinou a cabeça para o outro lado: -- Ela mora muito longe daqui? – a voz soou rouca e abafada, e o Blanco tornou a inclinar a cabeça para o outro lado, no entanto diferente de mudar de timbre, a voz saiu sem qualquer emoção: -- Ah, ah! Até que enfim te peguei, seu patife! Já não era sem tempo. – os dedos tamborilaram, e o atraso no dedo midinho voltou e o jovem Blanco pigarreou , abrindo os olhos novamente, encarando a própria mão, levando uma sobre a outra, massageando a área:
-- Histórias infantis cansam menos de fazer, porque não são pessoas reais, cheias de toques ou maneirismos, ou manias, e essas coisas, dá pra passar algumas horas dentro de uma história pulando de um personagem pro outro sem prejuízo e desgaste. – admitiu aquilo, pensando em quantas tardes tinha passado na companhia desses mesmos personagens a ponto de perder completa noção do tempo. A recordação trouxe um sorriso simples no rosto de Renaud que ele sequer percebeu que estava pondo na própria expressão: -- Eu tenho muitas histórias que associo a pessoas ou a situações, além de canções que eu gostava de repetir, fosse porque eu estava satisfeito, ou por estar desconfortável.
Concluiu a explanação, voltando a uma expressão mais neutra, pigarreou novamente, sentindo a garganta arranhar um pouco. Talvez não devesse ter forçado a própria voz? ou talvez ainda estivesse com a garganta ruim do surto da noite passada onde tinha vomitado diversas vezes. Aquela sensação desagradável não lhe fugiria tão cedo pelo visto, ao menos não estava se sentindo transtornado em conversar com o psicólogo, e se sentia em parte vitorioso por aquilo.
Aleksei
As reações de Renaud com o ambiente eram bem características para quem estava tentando lembrar de algo muito distante. Perdia o olhar na sala e nos objetos algumas vezes, concentrado demais, mas quando fazia alguma pergunta, ele voltava a atenção para si, buscando mais detalhes dependendo do que tinha abordado. E o assunto das vozes era bem interessante e talvez até primordial para Aleksei naquele instante. Não só o que as vozes representavam para Renaud, mas como ele mesmo as compreendia mesmo que fossem apenas um acessório do passado do qual ele podia fazer uso atualmente - como já havia comprovado mais de uma vez.
Ele assumiu uma expressão mais pensativa quando questionado sobre aqueles personagens em vozes diferentes serem a companhia que ele tinha antes dos amigos de rua, de St. Clavier. Logo associou de novo o processo infantil ao ato de mergulhar, em termos diversos, e como aqueles personagens ajudavam a diminuir a solidão. De fato, não era incomum para crianças passarem por experiências em que "amigos imaginários" eram sua melhor companhia, mas talvez fosse um pouco incomum que aquele processo de acolhimento até mesmo infantil fosse tão bem estruturado e desenvolvido como Renaud começou a colocar. Ele entendia mais do que o mero fato de criar personas para diversão infantil e aquela definição provavelmente teria surgido com a adolescência e além, o que significava que o processo de ter imitado vozes quando ainda criança o tinha acompanhado ao longo do crescimento - enquanto em outros casos, os amigos imaginários eram deixados de lado. Renaud era capaz de associar todo o processo com técnicas de teatro e ainda conferir mais profundidade ao que era capaz de fazer, o que ficou bem claro com o discurso a despeito dele não ter experiência profissional na área.
- Eu devo dizer que essa habilidade de entrar em hiperfoco não é algo que se vê todo dia. Nem mesmo na minha profissão. - anotou aquilo em meio à narrativa dele. Não porque era um defeito, mas uma qualidade que era raramente notada em qualquer pessoa ou paciente com quem havia lidado. Mais fácil se perder em distrações do que se manter em concentração àquele nível de profundidade.
O detalhamento a mais da técnica de imersão lhe fez notar mentalmente o fato de que Renaud tinha estudado Stefan muito além do que tinha deduzido na primeira vez em que vira aquela persona. Provavelmente ao ponto de que, numa situação adversa, que ele não saberia como Stefan reagiria, Renaud deveria ser capaz de responder exatamente como o esperado da sua personalidade de referência. Exatamente como ele estava colocando em palavras "como eu me sinto agora passando por isso". A facilidade com que ele entendia do assunto e se fazia entender também despertou a curiosidade em Aleksei para o quanto o corpo e a mente do Blanco eram capazes de experimentar aquilo diretamente: nas vozes, nas imersões, nos personagens mais diversos das histórias de contos de fadas que eram tão convenientemente estereotipados.
Quando ele fechou os olhos, Aleksei moveu a atenção pelo corpo todo do aluno até perceber o movimento ritmado nos dedos com um breve atraso no dedo mindinho que logo foi corrigido, surpreendentemente. Foi aquela correção que pareceu funcionar de gatilho para inclinar o rosto e uma voz feminina escapar aos lábios de Renaud. Era um trecho bem conhecido de Chapeuzinho Vermelho, e Aleksei ficou bem satisfeito com a conveniência dos contos de fadas serem tão facilmente reconhecíveis para acompanhar a interpretação do aluno. Outro inclinar de cabeça, e a fala rouca e masculina que seria do lobo. No terceiro inclinar de cabeça, entretanto, a voz saiu um pouco mais neutra, perto do tom de Renaud e sem a mesma emoção de antes. Aleksei não era um conhecedor exímio de contos de fadas, mas mesmo para um caçador, num conto para crianças e comparado às falas anteriores, talvez faltasse um pouco de emoção naquele momento.
O movimento dos dedos parou depois que notou a falha no movimento do dedo menor. Logo em seguida, um pigarrear e uma massagem na mão trouxeram a personalidade de Renaud de volta para explicar aquela afeição pelos contos de fadas que eram tão fáceis de interpretar se comparadas a pessoas reais. O fato de que aquela situação tinha marcado bem a vida do Blanco e talvez positivamente ficou bem mais confirmado quando Aleksei viu o sorriso quase inconsciente dele para as descrições do passado.
- Acho que se esforçou um pouco demais, não? - Aleksei sugeriu, embora com um tom bem suave, ao fazer um movimento para se colocar de pé. - Um copo de água deve resolver parte do seu desconforto na garganta, se não se importa a breve interrupção.
Seguiu para o canto no fundo da sala para pegar outro copo com água e trazer ao chão de novo, sentando-se no mesmo local para estender o copo esperando que Renaud o aceitasse.
- Eu admito que não esperava o seu interesse real por esse tipo de literatura, mas eu entendo perfeitamente suas descrições e o fato de que aqueles personagens eram mais palpáveis. Embora os contos originais tenham desfechos diferentes dos atuais, como você diz, há mais superficialidade nos personagens e estereótipos que são fáceis de reproduzir mesmo quando você não os conhece a fundo. - Aleksei explicou sobre os personagens das histórias infantis que não eram tão infantis assim, originalmente, e até ele tinha aquele conhecimento, mesmo que limitado. - Nessas histórias que você interpretava com vozes diversas... quais os personagens que mais lhe chamavam atenção?
O pensamento do próprio Aleksei, naquele instante, retornou à voz que interpretava o caçador, imaginando se haveria mais personagens com aquele tipo de timbre e quais os papeis deles dentro das histórias.
Renaud
Não tinha em mente nenhum planejamento sobre o que deveria falar ou não para o psicólogo, e isso era estranho, ou no mínimo uma sensação nova para pensar sobre. Geralmente para o Blanco, lidar com profissionais da área sempre se limitava a um certo nível de informações, e tinha em mente o que ele poderia perguntar e o que deveria responder, como se estivesse apenas seguindo um roteiro. No entanto, diferente de qualquer outra seção, onde estivera falando por estar transtornado, ou representando para não se expor, Renaud estava apenas conversando. Sem saber exatamente onde aqueles assuntos o levariam, mas acreditava, e isso era outra coisa nova para pensar, conseguia acreditar que o outro faria sentido nas coisas que perguntava, e que ouvia, mesmo que para Renaud, naquele momento, tudo fosse apenas conversa despretensiosa.
Tomou nota quando o Dr. Vlahos lhe atentou sobre seu hiperfoco não ser uma característica comum, e não se considerava extraordinário por causa daquilo, mas admitia para si mesmo, que tinha certa noção do quanto aquilo era benéfico para estudar e trabalhar, e negativo no desgaste físico e mental posterior. Acenou positivamente quando o mais velho se dispôs a buscar água para si, não considerando aquilo um nível de interrupção o suficiente para atrapalhar o ritmo da conversa:
-- Efeitos colaterais da noite passada. – pontuou sobre o desconforto da garganta ser consequência da crise passada, e não necessariamente da imitação de agora. Aceitou o copo de água e tomou dois bons goles, sentindo o líquido descer desconfortável a princípio, mas o alívio posterior foi muito bem vindo. Tornou a prestar atenção na narrativa do Dr. Vlahos quando ele ressaltou que os contos infantis tinham origens mais sinistras e bem sabia da trajetória dos mesmos atualmente. Terminou de tomar toda a água, quando o mais velho lhe perguntou se tinha personagens que lhe chamavam mais a atenção, repousou o copo de volta ao chão, deixando-o exatamente entre os dois, e passou o indicador sobre a borda do copo pensativo por um momento, buscando personagens “preferidos” se é que podia usar o termo:
-- Bem... eu sei que os contos tem uma trajetória longa de modificações, e origens até certo ponto macabras. Tenho os originais franceses de alguns contos como o da própria chapeuzinho vermelho, que é estuprada e canibalizada pelo pai na versão original, só nas versões alemãs e inglesas propriamente ditas que o conto assumiu um tom infantil. – tornou a olhar para o psicólogo e levou uma das mãos ao queixo, como se ainda estivesse buscando aqueles personagens que gostava mais: -- Eu não sei se posso usar o termo chamar a atenção, porque todo personagem chama a atenção por alguma coisa, posso dizer que tenho mais afinidade com alguns do que com outros, o que eu considero um pouco diferente...
Renaud moveu os dedos de forma ritmada sobre os lábios, e desviou o olhar brevemente, notoriamente buscando na mente situações em que sentia afinidade por personagens de contos infantis. Parou o movimento com os dedos, passando a mover apenas o indicador em dois toques sutis sobre os lábios: -- Eu gosto do personagem caçador por exemplo, mesmo que ele não exista na versão original da história, o lobo que é a representação da monstruosidade do pai, que pode devorar e matar, é morto pelo caçador, o personagem não pede nada em troca, ele só vai lá e faz. – o Blanco fala como se fosse algo óbvio para se tirar de conclusão, embora fosse uma visão bem particular do moreno sobre o assunto: -- Eu sei que originalmente esses contos relatavam a fome e a miséria dos camponeses franceses, que chegavam a comer os próprios filhos, porém, eu enxergo os contos também como uma forma de alívio, no caso o que eles se tornaram depois... – Renaud já tinha lido e relido sobre a história dessas histórias para entendê-las e para sanar a própria curiosidade, por isso tratava do assunto até com certa confiança na hora de falar: -- um monte de histórias que a despeito de quão terrível tenha sido a situação, no fim acaba com um final feliz. É bobo eu sei… e infantil também imaginar que eventualmente vai surgir alguém que sem pedir nada em troca, vai te ajudar a sair de algum momento ruim, e que você vai ter o seu “feliz para sempre”, mas se você ao invés de tentar tornar realidade o conto, tentar viver o conto momentaneamente, aquilo se torna a sua realidade ao menos temporariamente.
Aquilo fazia sentido na cabeça do Blanco, e lembrava de quantas vezes já tinha fugido de situações estressantes para contos, onde a despeito de o quão mal estivesse se sentindo, ao menos lá, podia imaginar que alguém iria lhe ajudar a ter o seu “feliz para sempre” e isso o ajudava a passar pelo pior momento e dar conta do resto depois: -- Eu lembro de várias vezes na minha infância, de acabar sendo posto de castigo por fazer alguma coisa ruim, e na maior parte das vezes eu não entendia completamente porque eu estava sendo punido, porque eu era punido primeiro, e instruído depois do porquê da punição. -- e a expressão do moreno mais novo mudou um pouco os dedos voltaram a se mover de forma levemente ansiosa a ponto de parar o movimento de forma repentina para passar a mão sobre o rosto, como se a recordação lhe incomodasse demasiadamente: -- e pra conseguir passar pelo castigo sem chorar, porque eu não podia chorar, eu repetia os contos, a ponto de como eu lhe disse, ter certas histórias preferidas pra passar por essas situações.
Aleksei
Renaud se serviu de bons goles da água inicialmente, enquanto ainda ouvia suas colocações, para logo depois beber todo o conteúdo e recolocar o copo no espaço entre os dois, a ponta dos dedos apoiada inicialmente sobre a borda do copo enquanto ele ponderava sobre sua pergunta.
Aleksei tinha um conhecimento breve dos contos de fadas e suas origens, mas a segurança com que Renaud falava deles apenas confirmava aquele gosto por aquela literatura específica. E já sabia de sessões anteriores que ele tinha apreço por livros antigos, inclusive encontrados em livrarias de usados. Mas mesmo com um conhecimento tão profundo do assunto, ele demorou um pouco a definir o tipo de personagem que ele achava "preferido", a ponto de recolocar o fato de "chamar atenção" como "afinidade", o que era um ponto de vista interessante para Aleksei, embora para Renaud soasse apenas como um melhor uso de palavras.
Esperou em silêncio enquanto ele buscava na memória o que lhe chamava atenção de fato. Mais uma vez, os dedos num movimento ritmado estavam presentes, dessa vez sobre os lábios enquanto o olhar desviava a atenção como se procurasse encarar algo que não estava ali. Quando o movimento dos dedos mudou, a resposta também veio, e era um gesto que Aleksei estava apenas reforçando o significado ao longo da sessão em que o aluno não estava com a guarda mais tão alta como tinha se acostumado nas inúmeras sessões iniciais dos dois.
A resposta dele foi exatamente perto do que o psicólogo esperava, mais pelo fato do caçador ser o personagem cujo timbre da voz mais se aproximava de Renaud. E a explicação do porque daquela afinidade não demorou a vir também. Embora Renaud conhecesse todos os significados mais profundos da origem dos contos de fada, pareceu demorar a associar que aquelas origens não estavam exatamente lá quando ele era muito pequeno e que o motivo do apego àqueles personagens era bem mais infantil e superficial do que ele poderia ter imaginado. O fato de ser criança, de ser "bobo" e de se colocar no lugar de um personagem fantástico para ser salvo e ter o final feliz era apenas esperado, a despeito das situações que vieram depois.
- Como criança, você não poderia ter entendido a profundidade da origem dos contos. Esperar apenas que alguém apareça para lhe salvar é algo apenas comum, Renaud, não é "bobo". - Aleksei aproveitou a breve pausa dele para comentar. - Além do mais, contos de fadas são inclusive usados em terapia com crianças.
Não entrou em mais detalhes sobre o fato de alguns deles serem usados especificamente com crianças que tinham sofrido algum tipo de violência. À medida que a conversa prolongava, notava a mudança de postura de Renaud que surgiu primeiro no tom de voz, ao retomar os momentos da infância em que, como qualquer criança, era colocado de castigo ou punido por coisas que viria a entender depois. Mas a inquietação ficou bem mais visível com o ritmo acelerado dos dedos de novo, até pararem de vez num estado aparentemente exasperado. Os contos eram um porto seguro, tinha certeza daquilo, assim como o próprio Renaud. O fato de fugir para um mundo diferente, de se tornar personagens diferentes e viver aquelas vidas fantasiosas era uma forma de escape comum não apenas infantil. Mas o interessante da narrativa não foi o momento de escape, e sim outro.
- E por que você não podia chorar, Renaud?
Ele era uma criança, naquele tempo. Crianças choram o tempo todo, pelos mais diversos motivos. Mas o quanto Renaud sabia daquilo também?
Posts: 259
Threads: 121
Joined: Jul 2021
Reputation:
0
Renaud
Havia certa inquietude em lembrar desses fatos infantis, lembrava de ser um garoto que não dava muito trabalho para a própria mãe, se recordava especificamente dos tios lhe dizendo que devia sorrir mais, e que era uma criança muito calada e quieta. No entanto, mesmo ele, às vezes, fazia coisas que irritavam sua mãe, e Renaud detestava quando isso acontecia, porque agora, parando para pensar, era um tanto assustador ser castigado. O jovem Blanco não ficava muito tempo absorto nos próprios pensamentos, porque o psicólogo constantemente pescava sua atenção de volta, fazendo comentários bem pontuais. De forma que eram bem diferentes das conversas anteriores, a ponto de que se assemelhava a uma aula, estava aprendendo com o Dr. Vlahos, a observar as coisas sob outra ótica. Certamente quando tinha 5 anos ou menos, sequer imaginava que os contos de fada poderiam ter versões diferentes, quem dirá suas versões originais. Para si, era apenas legal, e divertido, poder fugir da mansão dos Blancos, ou da casa onde moravam, sem de fato ter de “sair” e assim acabar sendo considerado um garoto desobediente.
Mas a pergunta específica de porque não podia chorar pegou o Blanco de surpresa, a ponto de que o moreno mais novo, precisou sair da postura mais relaxada que estava assumindo com o queixo repousado na mão, para uma com as costas ereta, sentado da forma mais apropriada, mesmo que no chão. Os dedos se moveram inquietos sobre os joelhos, mesmo que o gesto tornasse a magoar alguns dos machucados, e Renaud claramente desviou o olhar para qualquer outro lugar, porque pra falar sobre o assunto não queria ter de encarar o Dr. Vlahos lhe encarando de volta:
– E-eu… Bem…! – a respiração ficou levemente acelerada, e o movimento rápido do olhar pela sala inteira, buscando qualquer coisa lhe desse algum alívio visual, tornava fácil de enxergar o pensamento acelerado na mente do Blanco, e os indícios de ansiedade crescente: – Eu vou falar, só… estou pensando em como explicar isso… – Renaud respirou fundo, passando a mão pelo rosto e depois repousando sobre o peito, como se pedisse calma a si mesmo pra entrar no assunto, e em seguida uniu as duas mãos entrelaçando os dedos, para evitar que eles ficassem se movendo contra a sua vontade, a expressão se contorceu em incômodo e então tornou a encarar o psicólogo, com um pouco de apreensão:
– Porque eu não queria que a minha mãe me odiasse Dr. Vlahos! – era bem notório que Renaud tinha precisado juntar um monte de coragem pra falar aquilo, ou mesmo para admitir: – Eu fui uma criança quieta, sem muita expressão, a ponto das pessoas acharem que eu estava doente por ser assim, eu não lembro de já ter chorado quando eu era mais novo, lembro de ter vontade, mas não de fazê-lo strictus sensu, e depois que o Robespierre veio, eu tive a certeza que a minha não gostava quando a gente dava qualquer trabalho… quem dirá chorar! – Renaud fechou os dedos em torno da própria mão, como se estivesse tentando dar um pouco de segurança a si mesmo, para continuar no assunto: – Diferente de mim, Robespierre sempre estava adoentado e chorava muito, o tempo todo! E eu me recordo especificamente de ver minha mãe do lado de fora dos quartos, parada no corredor, o rosto irritado e cansado, bater contra a parede e falar baixinho: “esse menino não para nunca de chorar? Nunca!” – O Blanco fez uma breve pausa, engolindo em seco, o olhar escuro cheio daqueles sentimentos indescritíveis, que o Blanco estava aprendendo a nomear, mas antes que perdesse a linha de pensamento, o moreno mais novo prosseguiu sua narrativa: – Depois daquele dia, eu passei a ter medo de chorar e ela acabar me odiando por causa disso.
Renaud respirou fundo, enchendo bem os pulmões e depois soltando o ar devagar, lembrando de seções anteriores com o próprio Dr. vlahos quando ele tinha lhe indicado como respirar quando estava hiperventilando: – Por isso era tão ruim, quando eu era posto de castigo, porque eu ficava sozinho sentado virado pra parede, com muita vontade de chorar, mas se ela já estava brava comigo porque eu tinha feito alguma coisa ruim, se eu chorasse, ela ia terminar me odiando, então eu começava a repetir alguma história na minha cabeça, até eu esquecer que estava sozinho, e que estava com vontade de chorar.
Aleksei
Talvez devesse ter perguntado se Renaud sabia o motivo pelo qual crianças choravam tanto, como um pedido de ajuda ou de atenção, mas a sua pergunta pontual sobre a situação dele mostrou que o fato de não chorar era bem um reflexo da criação estrita, tanto que a postura dele automaticamente se corrigiu, ou numa análise mais profunda, se tensionou. Era uma lembrança que o deixava incomodado, mas era também uma lembrança que tinha sido chave na infância dele, o que fazer e o que não fazer, baseado na aceitação dos pais e da família e no caso de Renaud, muito mais especificamente da mãe, o que se provou com as respostas que seguiram.
A postura restrita se tornou impaciente e o rapaz buscou suporte em outros pontos da sala, porque não sabia o que fazer e provavelmente as palavras revelariam mais do que ele usualmente se sentia confortável em compartilhar. Ele ficou ansioso e Aleksei tentou não interromper o processo pelo qual ele passava para aceitar a própria lembrança e o que estava tentando lhe confessar, e quando ele lhe encarou de volta, apenas fez um meneio breve com a cabeça, como um meio silencioso de dizer que estava tudo bem, e que estava ali para esperar o momento em que ele quisesse falar.
E não foi surpreendente ouvir a resposta de que ele não queria ser odiado pela própria mãe. Já tinha determinado que ela era uma parte importante da infância e da vida de Renaud, mesmo que ele talvez não fizesse aquela ligação agora que era mais velho e independente. Depois da revelação principal, Renaud entrou nos detalhes do motivo pelo qual se preocupava com as próprias ações mesmo sendo tão pequeno. Era uma criança criada entre adultos, para se comportar como um adulto e sem espaço para explorar as possibilidades de uma infância cheia de erros, acertos e lições. Podia até dizer que era uma criança que tinha aprendido as lições mais pelos contos que estava acostumado a ler do que com os pais e professores explicando adequadamente. E por isso, havia algumas falhas a se ajustar ao longo do caminho.
O mais importante de toda a situação era que Renaud não estava acostumado a distinguir sentimentos e pelos cenários que ele lhe relatava, desde a infância até a adolescência, as situações tinham lhe colocado diante de sentimentos mais negativos do que positivos. E por isso devia ser tão difícil para Renaud imaginar que sua mãe gostaria dele, ficaria feliz por ele, ou qualquer coisa diferente de puni-lo por algo errado e de lhe causar uma sensação de medo e de solidão. A reação dele em querer facilitar a vida da mãe por ter ouvido a reclamação num momento de estresse era algo que podia ser colocado como a reação de um adulto e não de uma criança. E o momento tão breve tinha causado a impressão que era de se esperar em alguém da idade de Renaud na época. Apenas quando ele encerrou a narração e parecia um pouco mais composto foi que Aleksei retomou a palavra, com as análises bem mais pontuais.
- É normal não querer que sua mãe lhe odeie. Independente das razões e circunstâncias, ou de quem sua mãe é ou o que faz, o instinto natural de uma criança é se apegar à mãe e não decepcioná-la. - explicou o quadro geral. - A sua situação em particular, Renaud, foi o fato de que você foi criado entre adultos para ser um adulto quando era muito pequeno. E você foi exposto a algumas situações que só reforçaram isso na sua mente... outras crianças talvez não tivessem reagido do modo racional que você, ao ouvir a reclamação da sua mãe num momento de estresse.
Aleksei ajustou a postura um pouco também, mas foi uma reação em reflexo dos curtos movimentos de Renaud, para que ele não se sentisse incomodado com a sua postura muito quieta, e também para entrar num assunto um pouco mais delicado.
- Sua reação em não querer piorar o estado da sua mãe foi apenas natural, porque era o que você sabia que podia fazer para ajudar, do seu modo, de um modo infantil e com o pouco de força que tinha. - explicou, encarando o aluno diretamente para se certificar que ele não estava em estado de estresse ou ansiedade que impedissem de continuar a conversa. - Nós já percebemos que estava muito preocupado em não ser odiado e sentimentos negativos estiveram em sua vida por muito tempo. Mas por que não me diz alguma lembrança boa da sua mãe, Renaud? De sensações boas que teve da companhia dela... de algum momento em que você teve certeza que ela não poderia lhe odiar. Você lembra da sensação?
Renaud tinha uma predisposição a lembrar das coisas negativas, talvez ajudá-lo a trazer alguma lembrança boa à conversa acalmasse um pouco a sensação ruim que a conversa tinha deixado.
Renaud
Por mais que quisesse afastar os pensamentos que corriam em caminho negativo, era inegável para Renaud olhar para essas situações do passado e pensar que tinha dado mais desgostos a sua mãe do que coisas para que ela se orgulhasse de si. Talvez por isso ela realmente não gostasse de si, e não fizesse questão de lhe ver com frequência, preferindo o conforto de Paris. Pensar sobre ela, sempre era aquele amalgamado de sensações, sabia que por mais que se esforçasse nada que fizesse seria o suficiente para atender as exigências da mulher, mas persistia indo aos eventos e fazendo a maioria das coisas como ela queria, mesmo que no fim, recebesse quase nada de volta. Estava acostumado a dar 200% de si sempre, e receber 50% de volta, mas tinha aprendido a se contentar com isso, talvez por isso pensar em sua mãe lhe deixasse tão cansado.
E as reações de Renaud foram simplesmente suspirar em resignação, acenando positivamente para o que o psicólogo lhe dizia, não tinha muito mais que pudesse fazer sendo uma criança, e mesmo agora, não sentia como se fizesse tanta diferença na vida da mãe, a ponto de lhe ajudar em algo. Só queria não ser um estorvo, não ser “decepcionante”, e quando o pensamento lhe ocorreu, encarou o chão por um momento respirando fundo, sentindo o coração acelerar e a cabeça doer, os olhos arderem, e precisou passar a mão no rosto, e esfregar algumas vezes, antes de tornar a encarar o Dr. Vlahos a sua frente. Respirou fundo novamente, os ombros um tanto retraídos para dentro, e piscou algumas vezes levou umas das mãos para apoiar o queixo, a expressão era de conformidade e melancolia:
-- Pode ser qualquer coisa? – perguntou apenas a critério de dúvida, tornando a olhar para o médico a sua frente, até receber qualquer resposta e depois vaguear o olhar pela sala, buscando algo na memória: -- Quando eu aprendi latim, ela fez questão de me elogiar, e me levou para vários encontros nas casas das amigas dela, e bem, eu recebia elogios de todos ali, era bom ter atenção completa sobre algo que eu estava fazendo. – Mas a expressão do jovem Blanco não melhorou tanto, porque toda boa recordação vinha associada de uma pequena decepção: -- Mas eu tinha de estudar cada vez mais pra manter o nível alto, enfim, é uma língua morta, tem um limite do quanto se consegue estudar ou falar, e eu não sou um linguista, uma hora ou outra eu ia cometer algum erro, ou ter algum deslize.
Renaud passou ambas as mãos pelo rosto, respirando fundo e mudando a posição das pernas para que elas não ficassem dormente, e respirando fundo, como se estivesse buscando relaxar um pouco de toda aquela tensão que aquelas recordações lhe traziam: -- Bem, eu nunca fui bom com desenho ou instrumentos musicais, mas eu sempre fui um bom cantor, não excepcional, mas eu sempre fui esforçado, entrei no coral aqui em St. Clavier, e trabalhei para me destacar e consegui ser chamado pra um dos recitais importantes, que a instituição faz em conjunto com Limoges-Collet. Eu fiquei feliz porque ela tinha dito que viria ver, mas acabou, que ela não pôde vir porque meu irmão caçula teve uma complicação estomacal e precisou ser hospitalizado. Sei que não foi culpa dela, mas eu me senti mal, é como se todas as boas recordações, tivessem que ter logo em seguida grandes frustrações... é complicado. – Admitiu sentindo-se estranho em falar aquelas coisas em voz alta, fazendo uma expressão de leve surpresa misturado com conformidade, por conseguir falar sobre aquilo. Tornou a encarar o médico a sua frente, com um ar mais cansado, mas não dava pra saber se era da conversa atual, ou da situação com a própria mãe:
-- Eu sei que eu não tenho obrigação de atender as expectativas dela sobre mim, e eu sei que sou muito bom no que eu faço em Química, talvez em 5 anos eu seja um dos químicos mais relevantes na área de pesquisa da França. Eu sei dessas coisas racionalmente falando. Porém, o sentimento que eu tenho, é que nada disso importa, porque ela não liga, ou faz parecer que não se importa, já que não é algo que ela mesma sugeriu. Ou talvez mesmo que fosse em uma área que ela gosta, eu nunca consigo atender o que ela espera de mim, é como se eu fosse persistentemente decepcionante. – o moreno mais novo, falou a última sentença com a voz mais pesada, como se apenas estivesse repetindo algo que ele mesmo tinha escutado
Aleksei
A relação de expectativa de Renaud para com a mãe era provavelmente tão forte quanto as confusões de sentimentos mais recentes que ele tivera envolvendo os amigos e o presidente do Conselho Estudantil. Dado o fato de que era um relacionamento que vinha da infância e que tinha moldado muito da personalidade e dos caminhos que ele tinha escolhido trilhar desde cedo, talvez lhe ajudasse também a descobrir um pouco mais do que Renaud tinha se tornado e se havia algo ali que, de fato, o próprio Renaud desconhecia, como estava supondo diante do apagão dele. Queria ter sido mais incisivo sobre o assunto, mas já que estavam seguindo tão bem em outro caminho, tão melhor descobrir mais sobre a infância dele.
Ou ao menos achava que era melhor, afinal, o questionamento sobre momentos bons parecia ter causado ainda mais confusão e complicação na cabeça de Renaud. A respiração ficou um pouco mais intensa, ele passou a mão no rosto algumas vezes e voltou a lhe encarar com uma postura mais retraída, numa resposta um tanto negativa para o seu pedido. O assunto novo podia ser interessante do ponto de vista médico, mas estava começando a ver traços demais nas respostas do aluno de que ele não estava em condições físicas de estender demais aquela sessão.
Tentou não interrompê-lo mesmo assim, e só concordou com um aceno de cabeça quando ele perguntou se podia ser qualquer coisa. Mas enquanto esperava, de fato, “qualquer coisa” irrelevante ou insignificante na vida de alguém, as primeiras respostas dele sobre bons momentos foram associadas a elogios, e ao invés de se concentrar mesmo nos bons momentos, ele desviou a narrativa para as consequências do que deveria ser pura e simplesmente “bom”. A necessidade de Renaud de ressaltar os resultados de seus atos era recorrente, e os resultados deles, emocionalmente, não eram bons. Cada relato reforçava o esforço empregado por uma criança com a consciência de um adulto para chamar atenção com coisas mais complexas do que um simples desenho mal-feito da família e da própria casa. Mais agravante ainda no caso dele era ter tido um irmão pequeno com apenas alguns anos de diferença, que requisitava mais atenção e que consequentemente lhe deixava de lado, já que o jovem Renaud, mesmo antes dos dez anos de idade, já conseguia se vestir sozinho, comer sozinho, estudar sozinho e praticar as atividades extras sozinho. Era um excesso de independência para uma criança que nem tinha chegado perto da pré-adolescência e não podia culpá-lo pelo ambiente em que tinha sido criado para se tornar daquele jeito.
Mas o fato de que ele se considerava firmemente decepcionante era mais preocupante - esperado, mas ainda assim, preocupante. Sabia que devia haver algo mais nos relatos que davam aquela impressão tão forte ao aluno, provavelmente, alguma atitude ou palavras diretas da mãe dele que tinham deixado aquilo encravado na cabeça dele. Convencê-lo do contrário não seria fácil e não era o que podia fazer, no momento. Com o estado físico dele e as reações, resolveu se focar num ponto bem mais simples que seria de fácil associação para o Blanco.
- Renaud, você percebeu que as suas "boas lembranças" da sua mãe são associadas apenas a elogios e a resultados? Que quando eu lhe pedi para lembrar de uma sensação, você se lembrou, na verdade, de uma sequência de fatos que levaram a outras consequências? - fez as perguntas mais pontuais em cima dos primeiros exemplos que ele tinha dado. Afinal, tinha pedido algo bem específico, para ele lembrar de sensações boas, e aquilo podia ser algo muito pequeno como ele mesmo já tinha narrado sobre a companhia dela para ler, por exemplo, ou a felicidade com o novo idioma aprendido. - Talvez seja um pouco difícil para que desassocie as “sensações” de “resultados”, porque eles foram mais marcantes na sua infância, mas se eu lhe der um exemplo muito simples: a situação é que sua mãe lia para você quando você era muito novo, o resultado é que isso lhe deixava... feliz? Nada além disso. Não pense que isso lhe incentivou a aprender a ler, e que o fato de aprender a ler a afastou porque ela percebeu que você eventualmente não precisava da ajuda dela para isso.
O próprio Aleksei ajustou a postura, espelhando os movimentos de Renaud agora num gesto mais automático e tentando se mostrar mais relaxado para talvez, direcioná-lo à calma também.
- Se eu puder dar um exemplo mais recente... você disse que sentiu algo diferente quando o Sr. Lemont disse que se preocupava com você. Foi aí que descobriu que tinha um amigo, não era? - ele explicou. - A verdade é que você foi condicionado, desde muito pequeno, a mostrar resultados e a ser "grande". Os resultados nem sempre precisam ser grandes, a situação também não. Pequenas coisas são importantes, Renaud... o que o trouxe aqui, hoje, foi o acúmulo de pequenas coisas com as quais você não sabia lidar, até chegar a um ponto em que você não tinha mais como ignorá-las ou entendê-las. E se isso pode fazer a diferença em momentos ruins, pode também fazer a diferença em momentos bons.
Aleksei podia entrar em pontos muito específicos sobre a mãe dele, sobre o fato dele se considerar decepcionante, sobre os dias que tinham sido perdidos e os personagens sem emoção nos contos de fadas que ele recitava. Mas não sabia o quanto ele aguentaria fisicamente de um interrogatório tão longo e o quanto a mente dele poderia acompanhar também.
- Como você está se sentindo, Renaud? - perguntou, agora mais focado no estado físico dele. E queria saber dele o quanto entendia do estado debilitado em que estava e das reações provavelmente inconscientes que tivera ao longo da conversa. - O que acha de continuarmos nossa conversa em outra sessão? Ou você acha que consegue continuar agora?
Renaud
Depois de respirar um par de vezes mais lento, sentiu o corpo se acalmar um pouco, e as batidas no peito se tornarem menos dolorosas. Era um misto de sensações muito estranhas, sabia que a agitação que tinha sentido agora, era vontade de chorar, porque tinha chorado muito esses últimos dias pra ter fresco na memória como é a sensação. Mas o fato de estar conversando justamente sobre sua mãe, lhe fazia justamente não conseguir chorar. Nem se lembrava especificamente de qualquer vez que ela tivesse lhe cobrado aquilo diretamente, mas sabia implicitamente que não devia fazê-lo. E era estranho, lembrar de várias situações com a própria mãe, e ao mesmo tempo, não lembrar como muitas dessas situações acabaram, e pior era ter a sensação latente de que não tinha nada de errado sobre isso. O que era no mínimo inquietante justamente por ter passado os últimos dias atormentados por não conseguir lembrar do fim de semana.
Saiu do estado de contemplação quando o próprio Dr. Vlahos começou a lhe perguntar diretamente como tinha dificuldade de separar as ações dos resultados. Mas para Renaud era algo até lógico de pensar, só tinha se visto como pessoa muito recentemente, se antes ele era apena o personagem, primogênito dos Blancos, então ele era uma coisa, nada mais que um investimento hereditário, por isso sua única função era ter bons resultados. Mas conseguia entender o que o psicólogo estava querendo lhe mostrar em seu jeito de pensar, racionalmente, conseguia associar, mas emocionalmente aquilo era difícil de separar.
Sentiu o coração acelerar quando o Dr. Vlahos citou a felicidade que devia ter sentido quando pequeno quando ela lia para si. E aquilo lhe deu um certo incômodo porque obviamente por ser pequeno não se lembrava de todas as vezes que ela tinha lido para si, mas tinha a sensação que ela tinha lhe falado algo, mas que não se lembrava. Ajustou a própria posição, imitando o psicólogo sem perceber, e levou a mão ao peito, e tornou a respirar fundo, buscando acalmar-se do pânico momentâneo. Acenou positivamente quando Isaac foi usado como exemplo, foi apenas um comentário, mas aquilo lhe deixou feliz, de um jeito que era difícil de explicar.
Tornou a encarar o Dr. Vlahos quando ele lhe perguntou diretamente como estava se sentindo, e em seguida perguntando se tinha condições de continuar. Renaud não respondeu imediatamente, respirando fundo, e sentindo os batimentos se acalmarem um pouco: -- Eu preciso de outro copo de água se não for muito incômodo. – pediu sentindo que precisava molhar a garganta antes de continuar, e porque era um tempo a mais para tomar fôlego, não narrou nada enquanto o psicólogo ia e voltava com o copo de água, aceitando com as duas mãos, sabendo que estava com o manejo fino ruim. Tomou um gole, sem muita pressa, pra não ficar enjoado e respirou fundo novamente:
-- Falar sobre a minha mãe é sempre cansativo, não o tipo de cansaço físico, é como o senhor disse em outra conversa nossa, que o cansaço da mente atinge o corpo, é algo por aí, mas eu consigo conversar um pouco mais. – tomou mais um gole pequeno, lambendo os próprios lábios e repousando o copo ao chão, encarando-o por um tempo. Tinha certa urgência de entender essas coisas todas conflituosas de sua cabeça, e embora soubesse que não deveria apressar nada naquele cenário, não queria simplesmente parar o assunto sem chegar de fato a alguma resolução sobre a própria mãe.: -- Se eu tivesse de descrever como estou me sentindo, tive vontade de chorar, mas não é fácil “chorar” strictus sensu, mesmo que eu tenha vontade. E eu estou surpreso, comigo mesmo, por conseguir falar tanto sobre ela, e também me dá um pouco de medo, porque parece que quando eu falo as coisas assim, em voz alta, elas se tornam verdade, e param de ser apenas pensamentos que assombram a minha cabeça.
Passou os dedos na borda do copo, e deu dois toque na borda do mesmo, como se buscasse na memória algo simples como outro tinha falado, mas era inegável acabar puxando recordações demais no meio do processo: -- A minha mãe sempre teve a mania de arrumar minha gravata, porque ela dizia: “que os homens se separam dos meninos por um bom nó de gravata”. E mesmo que eu dissesse que não tinha mérito se ela fizesse o nó pra mim, ela insistia que ela quem tinha de fazer. – O jovem Blanco continuou sem encarar o psicólogo, e levou as duas mãos na altura de onde uma gravata estaria, e repetiu a ordem de movimentos que sua mãe sempre fazia: -- direita, esquerda, faz uma alça, direita de novo, e finaliza. Sempre um nó semi-Windsor. Eu gostava daquele momento, ela estava tão perto, e eu sabia que depois ela iria arrumar meu cabelo, e passar a mão pelo meu rosto, para que eu erguesse o queixo. Não me lembro dela me abraçar nenhuma vez, mas eu tenho dezenas de recordações dela repetindo essa mesma sequência de gestos, a ponto de que eu não sei quando elas ocorreram ou não.
Renaud fez uma breve pausa, pra tomar o restante da água como se quisesse engolir e digerir toda aquela bagunça de recordações e sentimentos. Depois repousou o copo no chão novamente: -- Da última vez que nos vimos, faz umas duas semanas eu acho, eu fui a Paris pra um evento, e eu optei de noite por sair com uma camisa de gola que não levava gravata. Porque eu sabia que ela iria reclamar, foi uma pequena malcriação, sabe? Eu só queria que ele tivesse qualquer outra reação que não, as de sempre...! – Renaud pausou a narrativa, e pigarreou de leve, cobrindo os olhos com a palma aberta da mão, e começou a simular a voz da própria mãe no diálogo fatídico do outro dia. Não conseguiria repetir encarando o médico a sua frente, provavelmente gaguejaria, mas achava pertinente que ele soubesse, então fez um esforço:
– Deveria ter posto uma gravata, assim você parecesse excessivamente casual Renaud.
– Não estou mal vestido, e não é um evento tão formal ao ponto de ser obrigatório o uso da gravata.
– Não está mal vestido, mas também não está apropriado. Me admira a essa altura não estar acostumado com as formalidades das ocasiões Renaud.
– Não é como se eu realmente dessa toda essa importância as formalidades, principalmente quando elas são excessivas e desnecessárias.
– Renaud Blanco, a questão não é o que você gosta ou deixa de gostar, é o que você tem de fazer, não me faça ter de explicar isso novamente.
– Mãe, eu não sou Robespierre, você não pode puxar as linhas todas as vezes, em algum momento elas vão romper.
– Que seja. Só não seja decepcionante. Não me faça pensar que perdi tempo com você Renaud.
O jovem Blanco respirou fundo, e depois mordeu de leve um dos dedos, como uma resposta imediata as sensações que lhe corriam por dentro. Em seguida ergueu ambas as mãos, com as palmas para cima, como se estivesse reforçando o sentimento de conformidade que tinha diante daquilo: -- eu provoquei porque eu queria qualquer outra coisa, que não fosse o blasé de sempre, e eu tive, só não estou feliz com o que recebi. Agora estou apenas tentando me conformar que as coisas vão ser assim, independente do que eu faça ou deixe de fazer.
Aleksei
Aleksei observou a transição de emoções nas pequenas reações do corpo de Renaud e só levantou para buscar a água quando ele pediu outro copo. Teria feito aquilo antes, mas até para ele era um tanto complicado achar momentos ideais para interromper a sessão e o contato direto com Renaud. O breve tempo entre ir buscar a água e voltar a se sentar no chão, seguido da pausa dele para beber a água, deu tempo para que Renaud se acalmasse e retomasse um pouco do controle diante da ansiedade desperta diante da conversa que estavam tendo. Ele estava cansado mentalmente e fisicamente e a intenção inicial daquele encontro era apenas pegar a nova dieta e os remédios, mas provavelmente ter a oportunidade de falar mais diretamente sobre a mãe e as implicações da sua criação e como interpretar tudo aquilo tinha aberto novas janelas para Renaud que ele nem tinha imaginado antes.
Até se surpreendeu quando ele afirmou que podia continuar a conversa. A necessidade de saber mais sobre aquele relacionamento era bem óbvia para Renaud diante de todas as interpretações que podia oferecer. Era uma pena não ter tido contato com a mãe ou o pai dele, se fosse o caso, poderia dar respostas muito mais assertivas sobre o comportamento dos pais. Mas por enquanto, a sua limitação era ter que falar apenas da perspectiva dele. Aleksei até teve vontade de sorrir sobre ele estar se sentindo surpreso por falar tanto da mãe, ou por não conseguir chorar, o que ia contra tudo o que tinha acontecido nas últimas sessões. Mas se focou na parte das coisas que se tornavam verdade.
- É um entendimento até bastante comum, que quando se diz algo em voz alta, a coisa se torna real. Mas se tornar verdade, strictu sensu... não é exatamente o que acontece. Pode ser uma realidade para você, e pode ser uma mentira para outros. Tudo o que você me diz aqui e que já me disse... tudo isso vem apenas de você, outros podem ter um entendimento diferente até mesmo das suas emoções.
Não sabia o quanto Renaud poderia interpretar das suas palavras, mas ele devia entender que tudo o que discutiam era só referente a ele. Enquanto Aleksei não podia conversar com outras pessoas, a única forma de entender o que estava se passando com o Blanco era ouvir diretamente dele, sobre ele e sobre as pessoas relacionadas a ele. Deixou que ele puxasse da memória os outros momentos que julgava importantes com a mãe, a necessidade dela de ter algo em Renaud que pudesse ajustar, que pudesse mudar. Ele foi bem sucedido em lembrar de algo mais simples que não remetesse a méritos e então, entrou no assunto que seria mais recente e de uma tentativa de mal-criação. Era curioso observar como um rapaz que já tinha se tornado independente muito rápido tentava chamar atenção da mãe. E foi nesse ponto que notou a mudança de novo nos gestos dele, ao deixar o copo de lado e desviar o olhar do seu para replicar uma conversa em vozes distintas como Aleksei já tinha observado mais de uma vez.
Mesmo que não conhecesse a mãe de Renaud diretamente, o tom e as palavras eram algo que ele até esperava de uma pessoa da classe social dela. Era algo que tinha se acostumado a apontar nas sessões em St. Clavier com uma série de alunos com pais ricos que exigiam demais dos filhos. E no caso de Renaud, que já era bem resolvido profissionalmente e individualmente, as exigências pareciam cobranças ainda mais pontuais. Ouviu apenas o diálogo, e apenas do diálogo, sem ter a possibilidade de ver a interação dos dois, faltavam peças para analisar o que tinha chocado tanto Renaud: a possibilidade de ser "decepcionante".
A postura de Renaud depois da narrativa era de retração... retração porque ele tinha medo de ter causado aquilo em sua mãe e mesmo com a sua tentativa de ir contra os ensinamentos dela, para tentar chamar atenção, tinha recebido uma resposta que ele não estava preparado para ouvir. E aquilo ficava bem óbvio porque o "decepcionante" estava bem demarcado naquele diálogo que tiveram até ali... não apenas como palavra, mas como atitude que era refletida nos relatos e reações do rapaz.
- Antes que eu lhe diga algo sobre a sua conversa com sua mãe, Renaud, me diga, foram apenas as palavras? Ela não lhe fez nada que você já estivesse acostumado ao receber ajuda para se arrumar, quando pequeno? Você podia não estar usando uma gravata, mas uma mãe sempre acha algo para ajustar num filho. - Aleksei perguntou, e mesmo que a resposta fosse negativa, que ela não tinha ao menos tocado em Renaud para lhe ajustar ao longo daquela discussão, prosseguiu com um detalhe que talvez Renaud não tivesse considerado ainda. - É bastante óbvio que sua mãe é uma pessoa exigente, e considerando as famílias em volta da sua criação, eu não esperaria menos exigência de alguém assim. Você não sabe, eu também não posso lhe afirmar com tamanha certeza, mas há a possibilidade de que ela mesma foi criada desse jeito estrito, com as mesmas cobranças, com a mesma exigência e talvez não tenha alcançado tão rápido a independência que você alcançou. - explicou um pequeno paralelo que era muito usual em pais: refletirem nos filhos as criações que tinham recebido. - Ela lhe disse para "não ser decepcionante", Renaud. Se você já não tivesse estabelecido um padrão alto, ela não teria qualquer motivo para lhe pedir para não decepcioná-la. Se você pode decepcionar alguém, é porque já permitiu que a pessoa criasse expectativas de sua capacidade.
Aleksei ajustou a postura para uma mais correta daquela vez, mostrando-se um pouco mais direto com as conclusões que podia tirar dos relatos de Renaud.
- Agora, eu posso lhe dar uma nova perspectiva sobre o tipo de criação que sua mãe lhe deu, mas quero que entenda que isso é algo que surge meramente da minha análise do seu discurso, e não da sua mãe diretamente. - ele explicou bem mais pontual, para que Renaud não pudesse achar que era uma conclusão certa para os relatos sobre a própria mãe. - Já pensou na possibilidade de que sua mãe também não sabia lidar com você porque, como criança, sempre superou as expectativas? Ela podia lhe acompanhar na atividade de ler para você, e então você aprendeu a ler. Podia lhe ajudar nos deveres de casa, e então você tirava ótimas notas sozinho. Podia lhe ajudar a se vestir, e então você aprendeu a dar os nós nos próprios sapatos. Por um lado, você se tornou independente e achou que isso a afastou... por outro lado, ela viu o filho independente que tinha e não sabia o que fazer para ajudá-lo como uma mãe. - apresentou a outra alternativa, mas não deu tanto tempo para Renaud pensar logo nela, concluindo o pensamento de antes. - Essa é apenas uma das possibilidades para o modo como sua mãe lhe tratou desde criança. Eu posso lhe apresentar várias outras, algumas boas, algumas ruins. Eu venho lhe mostrando nas últimas sessões como entender seus sentimentos e aceitá-los, Renaud, mas sobre os sentimentos dos outros, só eles têm as respostas.
Poderia ser ainda mais direto e explicar que, se ele quisesse mesmo entender as atitudes da mãe dele, teria que perguntar diretamente a ela. Mas aquele tipo de conclusão e escolha, era melhor que Renaud mesmo pensasse no que fazer, e uma das escolhas dele era ficar com os próprios pensamentos e conformidade.
Renaud
Por mais que quisesse não pensar sobre as coisas que sua mãe tinha lhe dito, era impossível deixar completamente de lado. Mesmo que tivesse sido abandonado por Didier, ou mesmo perdido dias de sua vida num fim de semana completamente infernal. A presença de sua mãe ou a falta de presença dela significavam muito pra si. Por mais que quisesse atribuir todo o seu estado de desgaste mental único e exclusivamente a briga com Didier, pensar em sua mãe, e em todas as coisas que já tinha feito e fazia por ela, ou pela família de forma geral, apenas lhe desnudava a ideia de que estava cansado a muito tempo. A briga foi principalmente o ponto que faltava para que terminasse de arrebentar, se não fosse com Didier, naquele dia, seria em algum outro momento, e perceber que sua vida estava um tanto fora de controle lhe angustiava, porque parecia que agora não era apenas uma situação unilateral que envolvia o loiro. E sim que todos os aspectos de sua vida eram algum nível de fracasso pessoal que estava tendo de administrar.
Mas antes que se perdesse demais em pensamentos autodepreciativos o médico lhe chamou a atenção sobre tudo que trocavam de informação ali, era sobre ele. Seu ponto de vista, seus sentimentos, suas interpretações das situações. E, nem tudo era verdade completa, podia estar equivocado, como quando acreditava que era uma coisa, e precisava viver sendo uma coisa muito eficiente e de bons resultados. Então, mesmo que fosse apenas uma ideia, poderia estar enganado sobre todas as coisas das quais se sentia inseguro e ansioso. Mas essa falta de controle sobre o que era certo ou não, dentro de suas atitudes lhe deixava apreensivo, e por reflexo pressionou as mãos, uma sobre a outra, como se precisasse reafirmar que estava ali, que aquela conversa era real.
E como se pudesse ler seus pensamentos o Dr. Vlahos lhe fazia perguntas muito pontuais que pescavam sua atenção para longe das dúvidas e inseguranças que permeavam sua cabeça:
-- er… sim, ela tocou em mim. Primeiro ela arrumou o lenço que estava no meu bolso, redobrou e colocou de volta, depois tocou no meu queixo e me fez erguer o rosto, alinhou minha camisa e gola, depois se ocupou com a minha franja, que estava maior e caindo um pouco sobre meus olhos. -- Renaud fez uma expressão de leve surpresa, era um conjunto de gestos que já tinha considerado como “mandatórios”, mas se invertesse a situação, se ele mesmo fosse fazer ajustes na roupa e postura de alguém, seria algo bem próximo de apreço, e em algum lugar de sua cabeça agora, o que ela fazia com seus cabelos parecia com os carinhos que Sasha lhe fazia. E a confusão imediata de pensamentos ficou bem clara no franzir de sobrancelhas e no olhar vagando pela sala. Renaud cobriu a boca com a mão, e ficaria vagando em pensamento se o próprio Aleksei não tomasse a sua atenção com outro conjunto de informações que sequer tinha parado para ponderar.
[...]
“Ela lhe disse para "não ser decepcionante", Renaud. Se você já não tivesse estabelecido um padrão alto, ela não teria qualquer motivo para lhe pedir para não decepcioná-la. Se você pode decepcionar alguém, é porque já permitiu que a pessoa criasse expectativas de sua capacidade”.
[...]
A expressão de incredulidade foi tão imediata e tão fácil de ler, que a mão que cobria a boca de Renaud ficou suspensa no meio do caminho como se ele tivesse esquecido que ela estava ali, dada a informação nova que ele buscava absorver. Isso significava que ao contrário do que o próprio Blanco imaginava, sua mãe era exigente porque sabia e tinha plena confiança de que ele sempre podia fazer melhor, e não que ele era insuficiente e precisava provar que era bom. E a surpresa foi ainda mais intensa para Renaud quando o psicólogo propôs a ideia de que justamente por ser tão focado em ser independente e não dar trabalho, justamente aquilo teria afastado sua mãe. Porque ela não saberia o que fazer consigo, e nem lidar com um garoto tão excepcional.
Aquilo deixou Renaud claramente inquieto os dedos se movendo de forma desordenada, os olhos em movimento acelerado desviando constantemente de foco, o coração acelerou como se fosse um zumbido, e momentaneamente se sentia zonzo, como se tivesse perdido o chão:
-- Mas eu… eu não queria afastar ela! Era justamente o contrário, eu queria não dar trabalho, poder cuidar dela também! Eu- eu…! Eu não tinha como saber que ela ia ficar longe…! Que ela não saberia o que fazer comigo! Eu só estava fazendo meu melhor, sempre… sempre… -- sentiu os olhos marejarem, e a respiração ficar difícil por estar respirando tudo muito bagunçado e fora de ordem: -- Eu… Ela… tem tanta coisa que eu queria falar… perguntar… porque? Por que no meio disso tudo ela não falava comigo? Por que eu não conseguia falar com ela? Porque ela não foi me ver? Porque ela me evitou? Porque eu não lembro de tudo? Eu só queria poder conversar abertamente… sem ter a sensação de que eu vou fazer alguma coisa errada... e aí ela vai me odiar e querer me descartar… mas … -- Renaud passou a mão sobre o rosto, sentindo tontura como se sua pressão tivesse caído momentaneamente, um enjoo forte e uma sensação de azedo lhe subiu à garganta.
Então instintivamente repetiu o gesto, levou a mão ao próprio peito, e movimentou gentilmente, como se só aquela mão não estivesse tomada pelo estado de choque de todo o corpo. Puxou o ar devagar enchendo os pulmões e depois soprando o ar vagarosamente, esfregou a mão livre sobre o rosto e os lábios se moveram: “vamos ficar bem… vamos ficar bem…!”
Tornou a olhar para o médico a sua frente engolindo em seco, os olhos levemente avermelhados de quem quase tinha se permitido chorar ali, na frente do outro: -- Por que é Dr. Vlahos... que é tão difícil… falar?
E sobre falar estava se referindo justamente, sobre falar sobre sentimentos e outras tantas coisas emocionais, tanto com sua mãe, quanto com outras pessoas de quem se importava de verdade. E porque era tão difícil que falassem com ele, parecia que todos tinham o mesmíssimo problema de conseguir se comunicar, parecia uma sucessão de mal entendidos porque ninguém de fato falava o que sentia.
Aleksei
As expressões de Renaud tinham se tornado gradualmente mais fáceis de ler com o tratamento, mas com as defesas baixas, era muito simples entender que o que se passava na cabeça do aluno eram, de fato, preocupações convencionais com família e relacionamentos. Ele alternava entre surpresa e confusão à medida que explicava as coisas e eventualmente chegava na expressão de compreensão da situação. Como tinha sugerido, os gestos da mãe dele se estendiam para além das palavras duras, e aquela era a atitude de uma progenitora que estava esperando algo do seu filho.
Renaud podia parecer bem confiante na maioria das vezes, mas saber que sua mãe tinha criado um padrão do que achava dele para que ele pudesse, de fato, decepcioná-la foi tão surpreendente que talvez aquela tivesse sido uma das expressões mais genuínas que Aleksei avistara no aluno desde o início do tratamento. Claro que tudo aquilo era resultado de anos e anos de uma certeza de que a mãe dele não esperava nada demais, que não haveria outra explicação para a atitude dela que devia ter se mostrado mais próxima e orgulhosa dos progressos do filho como era convencional. A reação dele foi tão intensa que isso se refletiu também na estabilidade física dele. Ao engatar os pensamentos sobre o que tinha feito quando criança, tudo o que tinha deixado de falar e deixado de ouvir trouxeram uma crise na respiração, a palidez reforçada do rosto, o olhar um pouco desfocado até levantar a mão ao peito e massagear a área. Aleksei atentou para cada um dos gestos, particularmente aquele com a mão no peito que foi um ponto importante para o fato de que aquilo o acalmava... não bastasse o gesto, as palavras não ditas foram lidas nos lábios alheios, e se o psicólogo estivesse ao menos um pouco menos atento, teria deixado passar aquele detalhe tão importante: "vamos...".
Aquele momento foi tão crucial para a avaliação de Aleksei que ele mesmo ficou focado demais no físico de Renaud, a ponto de perder a deixa para comentar sobre as preocupações que tinham causado uma crise no rapaz. Era como se esperasse algo mais que partisse daquele "vamos", do gesto de acalento no peito, qualquer outro sinal de que uma segunda pessoa estava ali que não Renaud. Mas voltou rapidamente à linha de raciocínio quando ele lhe questionou por que era difícil simplesmente "falar".
- Porque ficamos com medo da resposta. - respondeu muito diretamente. - Tudo o que fazemos e falamos tem reações e respostas. Reações podem ser positivas ou negativas, mas são certamente inesperadas, às vezes até quando você acha que sabe tudo o que há para saber sobre uma pessoa ou uma situação. Podemos falar sobre o passado, e aprender com ele, como estamos fazendo aqui. Mas você já sabe que embora não possa mudá-lo, pode mudar a visão que tinha dele. Se tem tanta coisa que você queria falar e perguntar... é algo que ainda pode ser feito, que deve ser feito. Com uma resposta positiva ou negativa, você terá o encerramento que precisa, Renaud. E eu ainda estarei aqui para ajudá-lo a lidar com a resposta, qualquer que seja.
Aleksei ajustou a postura em que estava sentado e soltou o ar discretamente. A sessão tinha sido cansativa para os dois e já imaginava que teria uma longa tarde de anotações e uma noite de revisões.
- Veja por outro lado, Renaud. Por mais que seja difícil falar, é o que está fazendo aqui, e isso está lhe ajudando, mesmo que seja difícil de notar os progressos agora. - Aleksei prosseguiu. - Mas vamos encerrar a sessão por aqui. Não queremos extenuar seu corpo mais uma vez, por isso, como eu tinha dito, já preparei a sua nova dieta e vou prescrever a sua medicação.
Aleksei levantou-se primeiro, aguardando que Renaud o acompanhasse para ter certeza de que ele estava bem para se sustentar em pé sozinho, ou oferecer um suporte a mais para o rapaz. Ele seguiu até a própria mesa, para pegar o receituário e a dieta detalhada já impressa.
- Agora, eu já lhe expliquei como funcionam os remédios e em que eles vão lhe ajudar. Eu estou lhe prescrevendo ansiolíticos, o suficiente para um mês e precisamos avaliar como você se adapta à medicação. - começou a explicar. - Na nossa situação em St. Clavier, um internato, eu preciso estar certo de que você terá a responsabilidade de tomar o medicamento nas horas indicadas e nas dosagens indicadas. Os resultados não serão os mesmos se você decidir parar de tomar a medicação ou esquecê-la, ou estiver cansado demais para lembrar dos horários corretos. É por isso que prioritariamente, você deve seguir sua nova dieta, estar num bom estado físico e não deixar de seguir os horários prescritos. Posso confiar que vai seguir as instruções à risca, Renaud? - perguntou, muito diretamente, depositando a confiança que já tinha estabelecido com o aluno previamente.
A medicação não era pesada o suficiente para ser preocupante para ele ou outras pessoas em dosagens altas, mas ainda havia o problema dos dias perdidos que Aleksei preferiu não trazer à tona. Se ele perdesse mais algum dia ou horário, não haveria como saber se ele estava seguindo as indicações com os remédios.
Renaud
Certamente, em muito tempo, não se sentia tão abalado em relação a sua família, em muito tempo, não sentia que fazer parte dos Blanco era algo mais além de carregar o próprio sobrenome como primogénito. A ponto de que podia afirmar que se sentia mais em família quando estava com a gangue na rua, mas o lado que Renaud não gostava de olhar, é que apesar de não funcional, sentia falta sim, da sua família em casa, de sua mãe, e da relação que tinham de “proximidade distante”. Mesmo que fosse uma proximidade restrita e cheia de muitas regras de conduta, conseguia enxergar em vários daqueles pequenos gestos, um tipo de contato e ligação. Que por sinal, era o que lhe fazia querer voltar para aquele lugar, querer atender aquelas expectativas, querer repetir aqueles gestos, para poder se sentir feliz, e não apenas satisfeito de ser um Blanco eficiente.
Ouvir do psicólogo que as pessoas não falavam porque elas tinham medo das respostas que poderiam obter, lhe foi algo fácil de digerir. Porque todo seu receio em ir falar com Didier girava em torno de ter medo da resposta que poderia ouvir, talvez coisas terríveis, como as que teve de ouvir, antes na sala do conselho estudantil. Ou pior, ter a confirmação dos seus temores pessoais de que o outro só lhe via como uma coisa e nada mais. Em verdade, percebia que estava exausto, vinha de um lar que embora estável em muitos aspectos, estava arruinando seu emocional ao longo dos anos, do qual não tinha apoio para se sustentar justamente no aspecto que era mais frágil: seus sentimentos. Estava inseguro sobre o que fazer da própria vida, e a pessoa de que mais gostava, tinha brigado consigo, estava com tantos receios, guardando tantas palavras, com tanto receio de encarar os próprios problemas que estava apenas sendo carregado pelo sobrenome da família como se estivesse à “deriva” e o que podia fazer e manter ao menos, era a pose de primogênito Blanco.
Tentou afastar os pensamentos autodepreciativos, bem em tempo do Dr. Vlahos lhe falar que já tinham conversado o suficiente, e que a despeito de não ser capaz de perceber, todas as conversas anteriores estavam surtindo efeito positivo em si. E ele estava certo, sabia que sim, confiava que sim, mas certamente não estava auto consciente o suficiente de si mesmo para notar, mas tinha de se manter acreditando, porque a terapia estava lhe servindo de âncora em meio a tempestade que era sua vida naquele momento.
Se levantou devagar, sentindo o corpo um pouco desengonçado, mas nada que lhe impedisse de andar, pegou a própria jaqueta preta que estava sobre o encosto da poltrona e a vestiu, ajustando a peça sobre o corpo. Recolheu o copo do chão e pôs sobre a mesa no lado esquerdo. E esperou as instruções do Dr. Vlahos, sobre os medicamentos que teria de tomar, junto a dieta que teria de seguir, pegou com as duas mãos, e leu as informações rapidamente, mas logo tornou a encarar o médico a sua frente:
-- Sim, eu vou continuar me cuidando. -- Renaud respondeu breve, e direto, encarando o médico bem a sua frente, mesmo que ainda tivesse uma aparência abatida, a única certeza que podia dar, era se olhasse diretamente para o outro ao falar. Era ao menos no que acreditava, e como podia mostrar ao médico para que acreditasse no que estava dizendo:
-- E sobre os horários, bem, eu posso criar uma agenda on-line e compartilhar o link com o senhor, e sempre que for atualizado, vai gerar uma notificação de aviso, então é possível acompanhar em tempo real, ou checar depois se os horários foram seguidos. -- o jovem Blanco comentou, puxando o aparelho e destravando o mesmo com a digital e abrindo no aplicativo de agenda, mostrou ao médico, e explicou brevemente como funcionava. Não era nada complicado e estava acostumado a usar agenda para ter noção do que tinha de fazer dentro da rotina cheia que tinha. Anotou os horários, não tão agilmente pela falta de destreza, mas logo tinha um link para compartilhar com o e-mail institucional do psicólogo:
-- E para o caso de… de eu deixar escapar algum dia.... O senhor têm como saber. -- Respirou fundo, depois de atentar aquele ponto, não gostava de relembrar a ideia de que tinha perdido dias, e aquilo lhe dava um aperto no peito e certa dor de cabeça. Mas precisava confiar que a terapia iria funcionar inclusive nisso, se ele não acreditasse, não tinha como funcionar, então seguiria, por mais inseguro que por ventura se sentisse:
-- Obrigado de novo Dr. Vlahos pelo tempo e disposição. -- estendeu a mão para o médico em sinal de que estava se despedindo, e a despeito de como tinha saído de lá no dia anterior, sair com a força das próprias pernas e agradecendo pela conversa, era algo bem positivo. Uma pequena vitória num mar de frustrações e tropeços, mas serviria como sua pequena fagulha de guia para melhorar, tinha urgência em se sentir melhor, e faria o que fosse possível para não desistir de si mesmo.
|
Users browsing this thread:
|
|
Cerise News
|
| Dia xx/xx/xxxx |
| População de Cerise come mais Patchdonald's que a média nacional de comedores de McDonald's, diz jornal Le Monde. |
|
Birthdays
|
|
Today's Birthdays
|
|
No birthdays today.
|
|
Upcoming Birthdays
|
(37)Skurai
|
|
Latest Threads
|
Trouble in Paradise [Carbella]
Last Post: Natalia
09-27-2023 04:34 PM
» Replies: 6
» Views: 28
|
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Last Post: Natalia
09-08-2023 11:08 PM
» Replies: 16
» Views: 42
|
Run Boy Run [Daniel]
Last Post: Qiang
09-07-2023 06:32 PM
» Replies: 6
» Views: 32
|
|
Recent Posts
|
|
Trouble in Paradise [Carbella]
|
| Ao terminar de consu...Natalia — 04:34 PM |
|
Trouble in Paradise [Carbella]
|
| Carbella queria dize...Carbella — 10:02 PM |
|
Julgando a vida alheia [Diodoro]
|
| Voltou o olhar quase...Natalia — 11:08 PM |
|