[Drive] Promissed Practice [Ulysses; Charles; Isaac]
#1
Ulysses

Ulysses estava se adaptando à vida em Cerise de novo, ficava longe dos holofotes e das atenções sobre o que estava aprontando para a federação nacional de esgrima e até internacional. Estava fazendo suas sessões de fisioterapia como devia e, além de aproveitar o clima de turismo da cidade, tinha uma nova diversão, além de já ter reencontrado com amigos de St. Clavier. Nessa conta, tinha falado com Isaac - que estava absurdamente diferente -, conseguido o ginásio de St. Clavier e feito amizade com um rapaz novo arisco e interessante que ia treinar com ele naquele sábado.

Depois de visitar a casa de Charles e confirmar com ele o treino para o fim de semana, acordou cedo naquele sábado, pegando o carro que não costumava dirigir com frequência numa cidade tão pequena, mas que seria bem conveniente naquela situação, para ir até a casa do rapaz dez minutos antes do horário combinado, porque sabia que ele ia tentar ir direto até St. Clavier e quem sabe, podia até encontrar a mãe dele e conversar mais.

Ele estacionou o carro bem diante da casa de Charles e seguiu até a porta de entrada, rodando as chaves numa das mãos. Apertou a campainha, ouvindo a voz conhecida da mãe do rapaz se adiantando para atendê-lo, o relógio marcava quase oito da manhã.

- Bom dia, madame Genné! Desculpe chegar tão cedo, combinei com o Charles de vir buscá-lo às 8h. Vamos treinar no ginásio de St. Clavier que é equipado. Como a senhora está? - ele se adiantou em explicar o horário cedo e ainda jogar o charme de bom rapaz para que a mulher não ficasse irritada com sua chegada tão cedo.

Charles

Charles até teve um restinho de semana calmo, depois da invasão que teve em casa feita por Ulysses. Porém, ficou com desconfiado quando ele passou a não encher tanto sua caixa de mensagens com a mesma frequência de antes. Obviamente, estava feliz por não ter um spam de mensagens vindas do mais velho, mas ainda era estranho. No mais, o restante da semana foi bastante corriqueiro: hospital, fisioterapia, treino com o time de basquete e jogatinas noturnas em seu computador. Inclusive, o mais velho também não apareceu para lhe torrar a paciência no hospital.

Chegando no sábado, acordou com ajuda do despertador, apesar de ter dormido cedo. Por mais que fosse arisco e desconfiado com o outro, não era do tipo de quebrar promessas. Tomou um banho, lembrou de usar roupas confortáveis para o treino, e teve um café da manhã com sua mãe, que estava muito empolgada com a ideia do filho praticar com outro atleta olímpico. Charles simplesmente não conseguia ser arisco com a empolgação da mulher mais velha, apenas respondendo com breves “hms” e “ahams”.

Depois de terminar o café, deixou os pratos na cozinha, escovou os dentes no banheiro e voltou para o seu quarto, terminando de arrumar o que levaria consigo e aproveitando para trocar algumas mensagens com o amigo ruivo que, infelizmente, estaria ocupado com Monique para aparecer no ginásio durante o treino. Enquanto terminava suas tarefas, ouviu o barulho da sala da sua mãe abrir a porta, ouvindo claramente um:

- Bom dia, Lyss, tão bom vê-lo novamente! Estou ótima querido, por favor, entre! Vou chamar o Charles, ele já estava de saída, achei que pegaria um ônibus. Charles! - pode ouvir a empolgação da voz de sua mãe no outro cômodo, mas isso não impediu que a expressão de traição ficasse estampada no rosto do cadeirante. Em poucos instantes, sua mãe estava na por de seu quarto com um sorriso no rosto, avisando da agradável visita.

Charles apenas resmungou baixo, juntando suas coisas e saindo do quarto acompanhado para, novamente, dar de cara com o mais velho em sua sala:

- Eu tinha ido que iria de ônibus, Ulysses - disse antes mesmo que o outro pudesse cumprimentá-lo. Sentiu a mão de sua mãe lhe tocar o ombro, sorrindo bastante satisfeita.

- Ora Charles, se vão treinar juntos, acho que chegar juntos também vai ajudar bastante, não é Lyss? Assim ele pode até te explicar no caminho como vai ser. - a mais velha falava com bastante paciência, sabia que o filho era arredio com muitas coisas e principalmente tinha orgulho de ser independente.

Certamente, aquilo parecia um complô para o cadeirante loiro, que resmungou cruzando os braços. Como poderia desmerecer a mãe que estava tão feliz? Encarou Ulysses com a expressão de quem queria casualmente empurra-lo da escada por colocá-lo naquela situação.

Ulysses

O ânimo da mãe de Charles só colocou um sorriso mais satisfeito no rosto do esgrimista. Ele entrou na casa depois do convite da mulher, pedindo licença e satisfeito que tinha chegado na casa do rapaz antes dele fugir.

- A madame deveria ir assistir o treino com a gente também, aposto que ia gostar. - Ulysses sugeriu, parando na sala enquanto Genné ia chamar o filho no quarto.

Logo os dois voltaram e se deparou com a expressão usual de poucos amigos de Charles que só lhe dava ainda mais vontade de atormentá-lo. Ele até queria mesmo ir de ônibus até St. Clavier, mas claro que não ia deixá-lo se livrar tão fácil da sua companhia.

- Eu disse que passava para lhe buscar, não é incômodo nenhum. A madame está certa, ajuda mais se formos juntos. - Ulysses respondeu. - Além do que, eu consegui equipamentos específicos para o nosso treino, então eu vim de carro de todo jeito.

Ele apontou por cima do ombro na direção do carro. Charles ainda não tinha lhe visto dirigindo, então talvez ele nem soubesse que estava com o carro.

- Então, vamos indo? É bom levar algo para comer quando terminarmos o treino, para repor as energias. Estou levando algumas coisas, mas se estiver numa dieta específica, você pode escolher o que vai levar. - ele instruiu.

Charles

- Ah, e eu adoraria assistir, Lyss. Mas infelizmente tenho algumas pendências do trabalho para resolver hoje. - Genné respondeu à oferta de Lyss assim que voltou para a sala com o filho - Mas tenho certeza que o Charles pode me falar depois do que aconteceu.

O sorriso estampado na cara do mais velho fazia o sangue em Charles ferver. Havia dito claramente que podia fazer as coisas sozinho e não havia necessidade de nenhum tipo de ajuda. Além de sua mãe estar presente, impedia que Charles fosse o tanto direto que gostaria de ser. Afinal, era claro que sua mãe ficava bastante feliz quando esse tipo de “oportunidade” aparecia.

Charles resmungou baixo, enquanto sua mãe esperava sua resposta, o olhando com a expressão que qualquer um reconheceria como “É melhor ir logo para não se atrasar”. O encarou um pouco confuso quando ele mencionou ter “vindo de carro”, apesar que nunca havia visto o outro em lugares que não fosse o hospital ou, infelizmente, dentro da sua própria casa, não sabia se ele dirigia.

- Ugh. Tá, que seja. - respondeu de uma maneira um tanto mimada, derrotado pelos dois pesos da situação. - Achei que St. Clavier já teria o que é necessário.

Não havia pensado no que levaria para comer lá, então pelo menos para uma coisa o outro ajudou de fato, que foi lembrar que precisaria levar algo. E preferiria realmente pegar algo de casa do que aceitar alguma comida vinda dele.

- Tá, só espera eu pegar algumas coisas na cozinha então. Fica aí. - respondeu praticamente instruindo o outro. A última coisa que iria querer é o outro zanzando pela casa, e bem sabia que sua mãe daria brecha para isso. Prontamente foi até a cozinha e pegou alguns lanchinhos que estavam inclusos na sua dieta, e alguns bolinhos que tanto gostava.

- Ele é irritadiço, mas é por que ele gosta de poder fazer as coisas sozinho, espero que entenda - Genné disse, ainda na sala fazendo companhia à Ulysses - Obrigada por oferecer isso à ele, acredito que ele vai acabar se interessando. - a mais velha brincou, conhecendo bem os gostos do filho, sabia que mesmo que ele teimasse, provavelmente acharia interessante. Foi tempo suficiente para que Charles voltasse, e olhasse desconfiado para a mãe, que apenas sorriu de volta.

- … Pronto. - resmungou, a mochila com lanchinhos e outras coisas sobre o colo - Até mais tarde, mãe. - se despediu da mais velha, depois se virando para o outro com uma expressão azeda de traição - Pronto. Podemos ir. - reforçou, sendo bastante azedo. esperando que ele guiasse o caminho até o dito carro.

Ulysses

Ulysses devolveu um sorriso com a negação da mulher sobre ir acompanhá-los no treino, mas concordou com um aceno de cabeça para o trabalho atarefado da outra. Claro, não perdeu a oportunidade de adicionar uma isca para um próximo treino.

- Então outro dia que a madame estiver mais livre, vamos treinar de novo e pode ver pessoalmente, o que acha? - ele sugeriu, enquanto Charles só mantinha a fronte irritada que só suavizou quando ele falou sobre pegar algumas comidas para levar para o treino. Ulysses mais uma vez teve a atenção direcionada à dona da casa que tentou justificar a atitude do filho, e de novo, o esgrimista só sorriu satisfeito. - Ah, eu entendo sim, eu não escolheria uma pessoa que não sabe ser independente para ser um competidor olímpico, pode apostar.

Em alguns instantes, Charles voltou lançando os olhares desconfiados de quem não tinha ouvido os últimos comentários sobre ele, e se despediu da mãe para poderem sair. Ulysses foi até a entrada e acenou animado para madame Genné, avisando que traria Charles de volta são e salvo.

Saíram da casa e ele tirou a chave do carro do bolso, destravando-o, que estava parado bem na entrada, o que achou que seria mais conveniente para Charles, claro. Ele se adiantou para abrir a porta do carona e destravar a mala também.

- Você pode sentar na frente, eu posso colocar sua cadeira na mala. Eu trouxe outra, a cadeira de rodas que se usa em esgrima não tem encosto nem braços, e mesmo que St. Clavier tenha uma boa estrutura, nunca teve esgrimistas cadeirantes, logo, não tem todo o equipamento para isso. - Ulysses explicou, esperando que Charles entrasse no carro para guardar a cadeira dele, sorrindo convencido. - Masss, como eu sou um atleta conhecido e cheio de conexões, eu consegui o básico para treinarmos! Quando for pra St. Clavier, não se preocupe, vai ser a minha primeira requisição ao Conselho Administrativo.

Depois de tudo pronto, ele entrou no lado do motorista, parecendo excessivamente animado em contraste com o azedo de Charles.

- Pronto? Vai ser uma manhã ótima!

Charles

Genné ficava feliz do filho estar conhecendo tantas pessoas e testando coisas diferentes, mesmo que um pouco contra em primeiro momento. Havia sido assim com o basquete também, o no final estava se divertindo em participar do time com os outros membros. Até gostaria de vê-lo treinar mas bem sabia que isso poderia acabar incomodando o filho, então preferia ficar na expectativa de ouvir sobre o dia de Charles dele mesmo.
E assim, a mais velha acompanhou o filho cadeirante e o seu treinador até a porta, sorrindo à animação do outro e fechando a porta. Esperava que conseguissem aproveitar os treinos.

Já Charles se via em uma situação bastante... Desconfortável. Gostava de fazer as coisas sozinho e não via por que a necessidade do outro de vir buscá-lo, não é como se fosse fugir já que haviam prometido. Por outro lado, sabia que ele gostava de lhe irritar mais que o normal. Estava do lado de fora de casa, acompanhado do mais velho, e segurando sua mochila com seus doces favoritos no meio, e o acompanhou até o carro que estava estacionado à frente de casa.

Iria reclamar do fato dele passar a sua frente para abrir a porta, mas ficou mais surpreso da seriedade do outro sobre ter arrumado a cadeira de rodas específica para o esporte. Não que duvidasse da seriedade do outro quanto ao treino prometido, mas ainda assim estava... Surpreso.

- Hm... Agradeço. - Disse, enquanto posicionava a cadeira próximo ao banco para poder se transferir para o outro assento, pegando apoio com os braços e movendo o corpo, em seguida ajustando as pernas, para depois pegar a mochila e colocar sobre o colo. - Eu imagino que não tenham. Meu amigo não costuma mencionar sobre muitos outros alunos cadeirantes além do presidente do Conselho Disciplinar. - Arqueou as sobrancelhas, num ar duvidoso sobre a resposta confiante do outro. Era autoconfiança demais para um ser só - Eu não duvido disso, senhor atleta olímpico deve conhecer mais pessoas do que deve lembrar.

Ficava com um "pé atrás" sobre a certeza do outro que entraria para o clube de esgrima, além da animação excessiva que estava com aquilo tudo. Não tinha nada para detestar o esporte se não fosse o jeito irritante do treinador, mas nunca havia concordado em participar do time. Resmungou baixo quando ele mencionou sobre a manhã ser ótima, ajeitando a mochila contra o corpo:

- Pronto, claro - respondeu, bastante irônica como a manhã já havia começado com a surpresa não requisitada do outro em sua casa. Se perguntava se havia alguma outra surpresa - Já começou muito bem.

O azedume que passava com as respostas mal criadas eram um contraste bem notório com o jeito animado do outro. De todo modo, queria logo ir para o treino e cumprir sua parte da aposta.

Ulysses

Ulysses apenas riu das respostas irritadas de Charles, mas ele mesmo sentou do lado do carona e desmontou a cadeira para colocar no carro também. Seguiu para o lado do motorista, ignorando as respostas mal-criadas e aproveitando todo o caminho para encher Charles de informações inúteis sobre os seus dias de turismo em Cerise agora pessoalmente - já que geralmente fazia aquilo pelo celular - e ele realmente não tinha como tentar fugir de suas anedotas.

No meio do caminho, certamente Charles já estava querendo se jogar da janela com toda a conversa fiada, mas chegaram em St. Clavier em bons vinte minutos de carro e Ulysses usou a autorização que tinha recebido com Isaac para entrar nos terrenos da escola e estacionar próximo do ginásio. O movimento de alunos no sábado pela manhã era mínimo, especialmente agora que os jogos tinham passado e os estudantes precisavam de uns dias de descanso das competições. Ulysses precisou tirar a cadeira convencional de Charles primeiro do porta-malas para montar para ele ao lado da porta do carona e deu uma olhada no prédio conhecido a frente.

- Não mudou muito da última vez que estive em St. Clavier. Pode não tem muitos estudantes cadeirantes, mas pelo menos tudo é acessível. - Ulysses voltou para a mala do carro e pegou um case grande onde havia todos os equipamentos para uma pessoa esgrimando. - Aqui, você consegue levar esse, não é?

Ele entregou a Charles sem ao menos esperar a resposta, para tirar outro case da mala e também a cadeira de rodas específica que usariam no treino.

- Agora podemos ir. Eu tenho só que arrumar a cadeira na plataforma, já deixei as coisas prontas ontem, aproveitei o horário fora das aulas e dos treinos. - ele seguiu andando pelo trajeto no passo de Charles, especialmente porque estava carregando bem mais coisas para o treino dos dois e ainda teria que voltar até o carro, ainda assim, continuava com o mesmo ânimo.

Charles

Pelo menos ele não ofereceu qualquer ajuda para entrar no carro, esse havia sido um ponto positivo naquela situação inesperada por Charles. Tinha certeza que entrar naquele carro seria obrigado a escutar a ladainha do outro por longos minutos, e da maneira que imaginou, aconteceu. Teve de escutar o outro falar sobre seu passeio em Cerise, o que havia visto, com quem tinha falado, que comidas havia provado… Em menos de 10min Charles já sentia arrependimento de ter concordado, preferia pular da janela, e com sorte algum carro passar por cima do seu corpo. Iria evitar de ouvir mais conversa afiada até o hospital.

Depois de mais ou menos 20min, chegaram até St. Clavier, o que fez Charles suspirar de alívio. Já estava sentindo os ouvidos doerem. O cadeirante já estava acostumado como espaço, apesar do seu último passeio só ter o levado até a cafeteria da instituição. Não viu tantos alunos, mas também não se preocupou em procurar ninguém, afinal seu único amigo que estudava lá não estaria naquele dia. Esperou que Ulysses trouxesse a cadeira de rodas até a porta do carona para se colocar de volta na cadeira, sem ajudas.

- Qualquer coisa já fica melhor que boa parte das ruas de Cerise, isso é uma certeza - reclamou enquanto ajeitava as pernas no apoio da cadeira, lembrando dos maus bocados que havia passado por ruas não acessíveis.. Em seguida, manteve certa distância e acompanhou o esgrimista até a mala, apenas para receber uma bolsa, provavelmente tendo todo o material necessário: - Consigo. - respondeu arisco, a bolsa não era muito pesada, e querendo ou não estar em uma cadeira ajudava a transportar, mesmo se fosse difícil de carregar - Obrigado por perguntar.

O tom de voz irônico foi bastante claro Observando Ulysses retirar a tal cadeira específica que não tinha os apoios laterais, igual aquelas que tinha visto nos vídeos super dramáticos que Ulysses havia mostrado da outra vez.

Ficou surpreso quando ele disse que já havia deixado algumas coisas prontas de antemão. Não que duvidasse da seriedade do outro enquanto ao esporte - afinal por algum motivo ele tinha que ser competidor olímpico - mas estava bem mais habituado em ver o moreno sendo… ele.

- Huh… Então se já pode usar o ginásio então você já está dando aulas pro clube de esgrima? - perguntou enquanto faziam caminho até o dito ginásio. Não queria dar mais corda para o outro descarrilar a falar, mas seria bem mais incômodo ficar em silêncio. Por isso tentou ser objetivo com a pergunta

Ulysses

Ulysses até sorriu satisfeito que as respostas ariscas estavam mais controladas só porque ele estava mostrando um pouco de seriedade com o treino. A verdade era que já fazia tanto tempo que estava parado - que para ele, se resumia a pouco mais de um mês -, que a ideia de treinar ou ao menos treinar outra pessoa era estimulante, mesmo que fosse uma pessoa extremamente irritável como Charles - claro que o fato dele ser facilmente irritável era o que deixava tudo mais divertido.

- Na verdade, não exatamente. Ainda não fui efetivado. Mas eu disse que tenho muitas conexões, não disse? - Ulysses sorriu convencido, e depois de alguns longos passos, chegaram até a área de treinamento para esgrima. - Eu falei com o Conselho Estudantil e como eles têm contato com a administração, consegui "alugar" o ginásio por algumas horas. É bom que já passou o período de jogos internos, então estamos exatamente no período de descanso dos atletas.

Mesmo não tendo as estruturas adequadas para treino de cadeirantes, o ginásio de St. Clavier era muito bem equipado. Ulysses seguiu direto até uma área em que havia uma plataforma no chão delimitada para poder posicionar a cadeira de rodas e travá-la. Ele não teve muita dificuldade de colocar a cadeira no local e montá-la, para deixá-la fixa no lugar.

- Eu não vou ligar os equipamentos para marcar pontos, afinal, vamos só mostrar como as coisas funcionam. Mas como eu tinha dito e você deve ter visto nos vídeos, a cadeira fica fixa, por isso precisamos de uma estrutura especial. Dá pra treinar sem fixá-la, claro, mas se você fizer movimentos amplos, pode se deslocar na cadeira e não queremos isso. - Ulysses foi explicando enquanto terminava de fixar tudo. Voltou na direção de Charles para pegar a bolsa que ele tinha carregado e colocar no chão, ao lado da segunda bolsa que ele também tinha levado com os equipamentos extras. - Eu ia voltar pra pegar mais coisa, mas eu acho que isso aqui já é suficiente. E então, vamos começar?! - ele sugeriu, tirando o blazer que usava para ficar só com uma camisa básica por baixo e abrir um dos cases para tirar a parte de cima do uniforme de esgrima. - Você pode sentar na cadeira e ver o que acha dela, já que é um pouco diferente da que você usa no dia a dia.

Charles

Julgou silenciosamente o outro quando ele comentou sobre ter conexões, especialmente pelo sorriso convencido que ele deu. Do jeito que ele falava, parecia ser alguém muito difícil de se convencer, ou pelo menos difícil de se achar. Ao menos, não demoraram a chegar até a parte de treinamento para esgrima dentro do ginásio.

- Huh... Muita sorte, acho. - comentou sobre o período escolhido para o treino casar exatamente com o fim dos jogos internos. Felizmente, se sentia mais à vontade tendo menos pessoas naquele ginásio. Pelo menos, não teria o olhar de pessoas curiosas pensando "no que um cadeirante estaria fazendo ali".

Continuou acompanhando Ulysses até a parte demarcada para o treino, que o loirinho conseguiu perceber por ser bastante similar as plataformas que havia visto nos vídeos extremamente dramáticos mostrados pelo mais velho na Antique.

- Certo, realmente a academia tem equipamento para treinar cadeirantes, mesmo sem ter cadeirantes treinando - Acenou positivamente quando ele falou sobre não ligar o equipamento de marcação de pontos, acompanhando também enquanto ele preparava o espaço para o treinando, fixando os equipamentos - Huh, sem problemas. Assim você não pode insistir que eu preciso treinar uma segunda vez, para ver como é com a cadeira fixa - respondeu de maneira arisca, mas que já estava soando como algo casual, entregando a bolsa que havia carregado até ali para Ulysses.

Ficou um pouco nervoso quando ele sugeriu começar o treino. Não fazia ideia de por onde começaria, apesar de ter alguém ali exatamente para explicar, ainda se sentia um pouco ansioso. Concordou com proposta de sentar na cadeira, afinal mesmo sendo um pouco diferente ainda teria de se acostumar, bem parecido com o que foi com a cadeira para basquete. Se aproximou da cadeira que não tinha encosto, travando a sua para evitar que caísse, e fez a transferência para a outra sem nenhum problema. Ela era bem mais estável que do outro esporte que praticava, e possuía apenas o apoio para mão de um lado, o que se lembrava pelos vídeos que havia visto que era pra auxiliar no apoio.

- É um pouco diferente, mas nada muito gritante - comentou, ajustando os pés no apoio que era um pouco menor do que o da cadeira comum - Acho que só a falta do encosto que vai ser meio estranho, mas fora isso...

Deixou em aberto a última parte, terminando de se ajustar sobre a cadeira de agora e destravando a sua, já que teria de ser removida dali para que pudessem começar o treino. Não sabia bem como o outro era durante os seus treinos, mas como humor péssimo ao menos já estava acostumado.

Ulysses

Ulysses vestiu a camisa do uniforme de esgrima mais por hábito, deixou os capacetes de lado e colocou o par de luvas, entregando um para Charles. Dos cases de equipamentos, ele tirou dois sabres, um florete e uma espada, para poder mostrar ao rapaz quais as armas usadas na competição e qual delas eles iriam usar. Estava separando as coisas enquanto Charles se familiarizava com a cadeira nova, depois de uma reclamação sobre não poder insistir para treinar uma segunda vez.

- St. Clavier já tem o equipamento para marcar os pontos, não é necessariamente para cadeirantes, a plataforma eu que trouxe, mas isso será resolvido semestre que vem. - Ulysses se aproximou para afastar a cadeira de Charles do caminho para que pudesse dar espaço a ele, mas ainda falou de um jeito convencido - Depois que terminarmos, você que vai insistir para treinar de novo, não vai resistir.

Logo o loirinho tinha se ajustado à cadeira fixa e estava percebendo as diferenças entre a cadeira convencional e a que estava usando. Não era incomum para um cadeirante que estava sentando na primeira vez naquele tipo de cadeira.

- Bom, o básico você já entendeu, o encosto alto convencional atrapalha nos movimentos, por isso tem só o apoio para a lombar. O braço é de um lado apenas para que você possa esgrimar com o outro e se segurar se for necessário. - Ulysses começou a explicar, usando um dos sabres para indicar os locais na cadeira à medida que falava, o tom mais focado do que a conversa toda descontraída até então. - As pernas ficam cobertas por um manto no florete e na espada, que são as categorias que não aceitam toques nas pernas, isso evita pontuações erradas. Todas as armas têm sensores para indicar a marcação de pontos. - ele mostrou a ponta do sabre que segurava, onde havia um tipo de botão. - Então, vamos lá, para começar, você precisa saber sobre as armas da competição e sobre as categorias de cadeira de rodas, os cadeirantes são classificados em categorias separadas dependendo do nível de mobilidade deles e as olimpíadas só aceitam as classes A e B, por isso depois vamos fazer uns testes de movimentação para saber em que categoria você se enquadra e ainda sobra tempo para ensinar os primeiros movimentos do esporte.

Ele voltou até o case e pegou as outras duas armas, estendendo os três cabos para Charles, cabos adaptados especificamente para as mãos.

- Eu trouxe as três armas que usamos no esgrima: o florete, que é o mais tradicional e que é muito usado por iniciantes para começar a prática, e a superfície de ataque dele é limitada ao torso e a base do pescoço - ele indicou a arma da qual estava falando à medida que explicava - a espada, que é uma arma mais vertical, usada por esgrimistas mais altos, e que pode ser utilizada no corpo todo, tem a lâmina mais rígida do que as outras duas, o toque dela é mais forte também; e o sabre, que tem a lâmina mais flexível de todas, às vezes ele parece um chicote, mas claro que demanda muita velocidade e agilidade do esgrimista. Esse pode ser usado para atingir o torso, braços e cabeça. - terminou de explicar as armas, deixando que ele segurasse para conferir o que tinha dito sobre cada uma. - Pode segurar e ver o que acha de cada uma delas, vamos usar o florete para os primeiros movimentos depois.

Charles

Terminando de se ajustar sobre a cadeira, e só então colocou as luvas que haviam sido entregues um pouco antes. Aproveitou enquanto se acostumava com a sensação das luvas para prestar atenção nas armas que ele retirava do case. Sabia reconhece-las especialmente pela região da empunhadura, graças ao seu conhecimento pela parte de história. Tirando esse quesito, eram bem diferente das versões não-esportivas. Deixou um breve “Hmm” escapar quando Ulysses avisou que o equipamento para cadeirantes já estaria disponível no próximo semestre. Ele realmente estava convencido que iria se juntar ao clube.

- A sua auto-confiança me assusta às vezes. - comentou, revirando os olhos para o comentário convencido do seu instrutor temporário. Apesar de ter sido arisco na resposta, já estava se acostumando com o jeito do outro, surpreendentemente.

Ficou em silêncio para escutar a explicação do moreno sobre como funcionava a cadeira, o porquê do equipamento ser daquele jeito, e também como funcionava o esporte para cadeirantes. Os conhecimentos de Charles sobre esgrima eram bastante limitados, mas conforme recebia mais informação, relacionava com o que havia visto no vídeo muito dramático que Ulysses havia mostrado na padaria, e aos poucos o esporte fazia mais sentido. Fazia breves acenos positivos conforme assimilava cada nova informação, e por mais que não gostasse, tinha que admitir que o esgrimista gostava do que fazia. Enquanto explicava, até podia dizer que não parecia ser a mesma pessoa irritante que estava importunando o cadeirante nesses últimos tempos.

Depois de escutar sobre as categorias, foi apresentado as armas que havia visto serem retiradas do case. Tinha um pouco de receio sobre qual utilizar, especialmente por ter medo de acabar danificando do equipamento por não saber usar da maneira correta. Quando foi estendido o cabo das três após a explicação de como cada uma era utilizada, segurou com receio, sentindo o peso da arma na mão e tomando nota sobre o que havia sido dito.

- Certo… Uh, não tem risco de danificar nem nada, certo? - perguntou, seguindo para testar o sabre, que no final das contas, foi o que mais lhe chamou atenção. Não só por achar a arma em si atrativa, mas especialmente por ser mais flexível, o deixaria mais seguro no manuseio, e certamente poderia confiar na sua agilidade. Ficou óbvio pela maneira que o loirinho observou a arma, qual delas havia lhe chamado mais atenção - Ah. Uh. Obrigado. Com o florete? Certo, sem problemas.

Devolveu o sabre para Ulysses, e concordou para começarem os movimentos com o florete. Estava um pouco nervoso e tentava ao máximo não deixar que isso transparecer, especialmente para não dar mais “lenha” para que o outro o importunasse mais tarde.

Ulysses

Ulysses teria rido da preocupação do garoto em danificar as armas, ou da disposição dele em concordar em começarem com o treino com o florete. Ele parecia mais interessado e embora gostasse de importuná-lo, levava a prática do esporte muito a sério para tirar brincadeiras num primeiro treino, especialmente quando queria mesmo medir a habilidade dele e se era passível de desenvolvê-la em alguns bons meses de treino.

- Já viu que os cabos das espadas são adaptados para o esporte, a empunhadura é mais prática e principalmente impede que você deixe a arma cair. Precisa ter firmeza no pulso para fazer os movimentos. Vi que gostou do sabre, mas é uma arma mais complicada de se usar no começo pela agilidade, vamos ver o quanto você consegue fazer com o florete para irmos para as outras duas. - ele continuou explicando, deixando as outras espadas de lado e pegando outro florete, um deles ficando com Charles. - Como eu disse, temos que categorizá-lo como classe A ou B, e isso depende da sua capacidade de se movimentar…

O moreno foi explicando as regras da categoria, mostrando o que Charles devia fazer para classificá-lo e então finalmente começando o treinamento com um aquecimento e alongamento rápidos. À medida que o instruía a fazer os aquecimentos, continuava com as explicações e em breves dez minutos, devolveu o florete para que ele começasse a repetir os movimentos que mostrava.

Charles talvez não estivesse tão confortável com o excesso de toques, mas Ulysses não se deteve em ajustar a altura do braço, o movimento do pulso, a postura das costas e o suporte na cadeira quando precisava dar toques aqui e ali. Depois de mostrados os primeiros movimentos, ele mesmo se colocou em posição de guarda diante da cadeira de rodas, os joelhos bem mais dobrados do que a postura convencional, já que no treinamento com cadeirantes ele precisava estar num nível na mesma altura de Charles. Seguiu com o treino mostrando os passos e ataques básicos, mantendo a expressão mais compenetrada do que Charles tinha visto nos últimos poucos dias de encontros inoportunos, e só quando estava avançando e recuando no ritmo do garoto e corrigindo, foi que ouviu uma voz muito conhecida invadir o lugar.

- Lyss!

Ele foi obrigado a parar a movimentação para virar na direção da entrada do ginásio, abrindo um sorriso pronto para Isaac que se aproximava dos dois a passos um tanto apressados.

- Isa! Eu não sabia que estava livre para praticar com a gente! Você já conhece o Charles?! Charles, esse é o Isa, ele foi meu calouro no clube de esgrima e hoje faz parte do Conselho Estudantil, foi ele que nos ajudou com o ginásio.

Charles

Ficou aliviado quando aparentemente não havia dado brecha para que o moreno enchesse sua paciência, ou talvez ele finalmente estivesse se concentrando na ideia do treino. Prestou atenção na explicação sobre as empunhaduras modificadas das espadas, tomando nota sobre as instruções que eram passadas. Foi pego de surpresa quando Ulysses comento, claramente percebendo, a preferência do mais novo. O que fez Charles notar que havia sido óbvio demais enquanto examinava as armas. Se sentindo até levemente envergonhado, mas não retrucou, apenas resmungou de leve ao apontamento.

Seguiram então para a informação mais técnica do esporte, ouvindo sobre as categorias que haviam, e tudo dependeria das suas próprias limitações com os movimentos que poderia fazer. Seguiram então para uma série de alongamentos, o que não foi muito trabalhoso para Charles, já que todas as sessões de fisioterapia se resumiam à longos aquecimentos. Não demorou até que tivesse sido o suficiente, e recebeu o florete de volta.

Seguiu as orientações do seu instrutor, tentando repetir os movimentos que ele indicava e sendo prontamente corrigido. Na primeira vez Charles até mesmo estranhou a necessidade excessiva de Ulysses em encostar enquanto mostrava onde deveria melhorar, oque rendeu um resmungo irritado e uma cara azeda. Mas conforme percebeu que o moreno estava fazendo aquilo sem nenhum intuito de importunar-lo, até a expressão que ele usava era bem diferente do que estava acostumado, o que de certa forma deixava Charles até um pouco mais à vontade. Não seguiu mais com reclamações sobre os toques, tirando inclusive algumas dúvidas quando não entendia exatamente algum movimento ou a finalidade.

O loirinho estava bem concentrado no treino quando ouviu uma voz familiar chamar por Ulysses. Interrompeu os movimentos ali e olhando na direção da voz, apenas para ser surpreendido pela presença de Isaac, ou Máscara de Ferro, como Yure preferia chamá-lo, o que prontamente o fez arquear uma das sobrancelhas.

- Ah. É bom revê-lo. - fez um aceno breve à Isaac, ficou bastante surpreso dele ter lidado com Ulysses ainda quando era calouro. Certamente tinha um pouco mais de admiração por Isaac nesse momento - Eu mal tive como agradecer pela ajuda da outra vez. Obrigado. - bem lembrava que Yure lhe fez o favor de lhe agarrar completamente encharcado de suor, e passou tanto tempo reclamando que mal teve como agradecer ao secretário pelo pequeno tour que havia feito.

Ulysses

Ulysses manteve a expressão animada ao observar Isaac se aproximando, e embora estivesse bem acostumado com a cara naturalmente fechada do mais novo, tinha se acostumado demais com ele para saber que havia algo mais naquela expressão particular dele. Até sentiu o sorriso perder a intensidade um pouco, enquanto o secretário do Conselho se aproximava a passos firmes. Aproveitou o comentário de Charles para tentar amenizar aquela expressão ranzinza do outro.

- Ahhh, então vocês já se conhecem? Você está muito mais popular do que quando tinha essa altura, Isa. - Ulysses comentou, indicando uma altura até o seu peito, mantendo o tom descontraído. Mas Isaac não melhorou a expressão e o esgrimista quase previu o que viria.

- Não precisa agradecer, se precisar de qualquer coisa, pode me procurar. - Isaac respondeu primeiro a Charles, com a educação costumeira, o que deu mais uma brecha para a atitude descontraída de Ulysses e a fuga desesperada daquela expressão fechada de Isaac que anunciava que viria alguma bomba.

- Eiii, ele não precisa procurar você, pode me procurar, afinal, nós somos ótimos amigos agora, não é, Charles?! - Ulysses manteve a proximidade de Charles e fez questão de atazanar o garoto mais uma vez passando a mão no topo da cabeça dele e bagunçando os cabelos. Para a infelicidade de Charles, a cadeira estava fixa na plataforma.

- O que você está fazendo, Lyss?

A tentativa de desvio de assunto de Ulysses não deu muito certo, e a expressão fechada de Isaac em sua direção persistiu.

- Como assim, Isa? Eu te disse que precisava do ginásio para treinar, ora. É o que estou fazendo com o Charles, não é? - ele buscou apoio no garoto, mas Isaac não deixou passar.

- Eu sei disso. Por que está treinando desse jeito? - Isaac foi bem mais pontual, e Ulysses ainda assim evitou o assunto.

- Você não está fazendo muito sentido, Isa, de que jeito eu deveria treinar com um cadeirante? Claro que tenho que manter a postura mais baixa. - ele riu forçado.

- Não é disso que estou falando, Lyss.

- Eu poderia também arrumar uma cadeira, mas ia ser muito inconveniente, e você sabe que eu sou muito bom em jogo de pernas e-

- Ulysses. - o chamado de Isaac foi bem mais firme e finalmente o sorriso forçado de Ulysses diminuiu. - Eu acompanho suas competições desde que deixou St. Clavier, não tente me enganar. O que está acontecendo?

- Não está acontecendo nada, ora. Eu só estou fazendo um treino casual com o meu novo amigo aqui, não seja tão paranoico. - mais uma vez, Ulysses tentou descontrair, sorrindo forçado.

- Não me faça de idiota. - a resposta de Isaac foi bem mais firme e o sorriso sumiu de vez do rosto de Ulysses. - Você não devia estar se movendo desse jeito, o que aconteceu com o seu pé?

Ulysses até pensou em responder do mesmo modo descontraído, mas foi pego completamente de surpresa pelo fato de que Isaac, realmente, tinha percebido uma falha mesmo que irrisória na sua movimentação de pernas enquanto estava treinando quase estático com Charles. Como ele tinha notado aquilo? Mesmo que quisesse reagir com descontração, não teve como esconder a expressão fechada.

- Não se preocupe com isso, Isa, eu não vou morrer por praticar uma hora.

- Eu quero que me responda, Ulysses, o que aconteceu com o seu pé? Você devia mesmo estar pratic-

- Não é da sua conta, Isaac! - a resposta de Ulysses foi bem mais firme daquela vez, a ponto de interromper os questionamentos insistentes de Isaac que ficou momentaneamente sem reação e com uma expressão indecifrável. - Eu estou bem, eu sei me cuidar. Agora, se não se importa, eu tenho um treino para terminar.

A expressão de Isaac finalmente tomou uma forma mais definida, com as sobrancelhas ainda mais franzidas e os olhos estreitos de um jeito que demonstrava claramente a raiva que tomou conta diante da resposta de Ulysses. Ele fechou a mordida com força, a tensão notável na mandíbula, e não deixou de encarar Ulysses. Mas a resposta não veio. Ele finalmente desviou o olhar de Ulysses e olhou para Charles de cima, com uma expressão um pouco mais séria do que pretendia.

- Tenham um bom treino. - falou, antes de dar a volta nos calcanhares e sair pisando mais firme do que quando tinha entrado ali.

Ulysses ainda acompanhou Isaac sair do ginásio e ficou quieto por uns instantes, engolindo em seco ao perceber a própria falha de achar que Isaac não notaria a sua condição física, e a resposta defensiva foi quase automática. Depois de longos segundos foi que ele voltou a atenção para Charles, e forçou de novo o sorriso descontraído de antes.

- Então, podemos continuar?! Paramos na posição de guarda, não foi?

Charles

Charles ficou feliz que o secretário do conselho aparentemente lembrava quem era, apesar de facilmente não demonstrar o contentamento, apenas confirmando com um breve aceno quando o instrutor perguntou se já se conheciam. Ainda assim, sabia que Isaac tinha uma expressão bem fechada em qualquer horário do dia, tanto por experiência quanto pelos relatos de Yure, e a expressão que ele tinha agora era certamente mais fechada do que o comum.

Sentiu Ulysses se aproximar mais de sua própria zona de conforto e já retraiu os próprios ombros tentando se esquivar da mão que veio para bagunçar os fios loiros. Como ele conseguia mudar de uma pessoa normal para alguém tão invasivo tão rápido?!

- Não. Somos. Ótimos. Amigos. Nem amigos somos. - rosnou para o outro em resposta, ainda baixo, e a pergunta mais direta de Isaac chamou até mesmo a atenção do cadeirante. Ulysses não havia marcado o treino? Prontamente pensou que ele havia lhe enrolando, ou enrolado o próprio secretário, já que a expressão ranzinza de Isaac ia diretamente para o mais velho.

Charles franziu as sobrancelhas quando Ulysses jogou a pergunta para o próprio cadeirante, que nem teve tempo - e nem iria - de resposta. Ulysses estava treinando de uma maneira que não devia? A troca de palavras que se seguiu entre o secretário e o professor de esgrima foi pontual, e conseguia perceber claramente que Ulysses estava tentando evitar o assunto.

Charles finalmente juntou os pontos quando Isaac mencionou sobre o pé do moreno. Então era por isso que ele estava visitando o hospital? Faria sentido, se ele estivesse fazendo fisioterapia. Então ele realmente, realmente não deveria estar se esforçando.

Ouviu então a resposta mais firme de Ulysses, cortando completamente as perguntas incisivas do secretário, e com poucas palavras, pedindo que ele se retirasse. Charles observou de relance a expressão de Isaac, que parecia ter ficado bem mais irritado do que no início do encontro. Por um segundo, encontrou com o olhar do estudante e conseguiu compreender quando Yure se sentia ameaçado pelo secretário. Ainda assim, ele se retirou, e a atenção do loirinho virou para o mais velho, o silêncio sendo uma resposta bem clara que tudo aquilo tinha saído de uma maneira bem torta.

Como raios Charles foi se enfiar naquele problema? Certamente, tinha uma imã pra isso.

- ... Claro, podemos. Foi na posição de guarda, sim. - respondeu calmamente quando ele buscou confirmação do loirinho.

Se sentia incomodado, mas não diria exatamente agora. Esperaria o treino terminar. Se ele havia proposto a ideia, então ele deveria saber os próprios limites. Ainda assim, ter usado Charles de escudo para a situação com Isaac foi o que mais deixou o cadeirante incomodado, porém, fez o máximo para não deixar que isso não ficasse notável. Teria tempo o suficiente para falar em breve.

Ulysses

Ulysses manteve a postura descontraída de antes e voltou a se concentrar no treino e embora ele tivesse a mesma disposição quando estava dedicado a prática de esgrima, não dava para ignorar a cara de Isaac e o julgamento dele com uma coisa que Ulysses não esperava que ninguém descobrisse - exceto o seu gerente pessoal e treinador oficial para as competições nacionais e internacionais. Ele manteve o treinamento como tinha prometido a Charles, a mesma postura e um certo incômodo por continuar lembrando de Isaac e principalmente, começar a prestar atenção nos movimentos dos próprios pés. Não estava sentindo tanta dor, nem sabia como Isaac tinha percebido alguma coisa de diferente ali, mas também sabia por experiência que a falta de sensação de dor podia muito bem se dar pelo fato de que estava com o corpo quente.

Ele mostrou alguns novos movimentos para Charles e corrigiu a postura dele como antes, e depois de mais uns vinte minutos de treino constante, resolveu finalmente parar e dar um tempo para que Charles descansasse também. Mais de uma hora tinha se passado desde que eles tinham começado a montar tudo, e tinha prometido o treino de uma hora.

- Olha só, eu disse que você levava jeito, não disse? Está cansado? Vamos encerrar por aqui que eu não sei se mais alguém vai usar o lugar depois do horário que eu tinha definido com o Isa. - ele avisou, começando a recolher os materiais para arrumar tudo e poderem sair depois do ginásio.

Charles

Charles não perguntou sobre o ocorrido, e seguiu o treino que foi proposto por Ulysse. Mas era impossível não ponderar sobre a situação, especialmente com a reação - mesmo que breve - do instrutor no final da discussão. Ele continuava com a atitude mais incisiva e irritante, apesar de se policiar bem quando estava explicando sobre o esporte.

Charles aproveitou o tempo restante do treino para ponderar o que iria falar. Sabia exatamente como, mas entre às tantas coisas, precisava listar. Foi o tempo de ser apresentado a alguns movimentos, ser corrigido, e então, havia terminado treino. Ulysses não perdeu tempo em deixar um pequeno elogio e anunciar o fim do treino, logo em seguida começar a organizar o lugar. O loirinho observou por poucos instantes, esperou que o mais velho trouxesse a sua cadeira para mais perto, e então começou:

- Ulysses. - chamou a atenção, se ajeitando para poder trocar de cadeira - Olhe, eu só vou perguntar uma vez. Eu quero que você me garante que está ok para esses tipos de treino - fez a troca de cadeira, se ajustando sobre a  antiga e aproveitando para colocar as pernas numa posição mais confortável - se você me disser que sim, eu vou acreditar, ótimo, não pergunto mais nada. Mas. Não me use como desculpa pra o que você está fazendo. - deu bastante ênfase na parte final, fazendo questão de encarar bem o mais velho - por que eu não estou aqui pra ser muleta de ninguém, já basta as minhas pernas serem ruins. Arque com as suas consequências.

Cruzou os braços, como se estivesse dando um ultimato, e esperando alguma resposta vinda de Ulysses, mas continuou.

- Se puder manter isso, não me importo com um segundo treino. Mas só sobre essas condições. - concluiu, resmungando no final. Não iria perguntar de Isaac, ele era grande o suficiente para resolver os próprios problemas. Decidiu então pegar o restante dos materiais que podia colocar no lugar - Onde vão essas coisas?

Desviou o assunto um pouco, não para mudar completamente o assunto, mas deixar uma brecha e evitar um clima mais estranho que o de mais cedo.

Ulysses

Ulysses começou a organizar as coisas e ouviu o chamado de Charles pelo seu nome completo. Ainda olhou para ele com uma careta de desgosto disfarçada, mas logo a expressão sumiu para uma de surpresa quando ele disse que precisava que garantisse que estava bem para treinar. Além disso, ainda adicionou que estava o usando como desculpa para treinar. Não bastasse aquilo, com aquela expressão emburrada de sempre, de braços cruzados e esperando uma resposta do seu eu muito surpreso, ele adicionou que podia até ter um segundo treino. Ulysses até demorou alguns longos instantes para reagir, parando no meio da arrumação quando Charles perguntou onde iam as outras coisas, e só então ele abriu um sorriso largo e satisfeito, levantando-se para se aproximar de Charles.

- Ahhhhh, que bonitinhoooo, você está preocupado comigo! - ele agarrou o garoto sem nem pedir permissão, esfregando o rosto no dele, os braços firmes em volta dos dele porque sabia que ele ia fazer qualquer coisa para lhe morder, bater, socar, e tudo que estivesse ao alcance para se livrar. Deu uma risada agradada e soltou o garoto, quase dando um pulo para trás. - Não se preocupe, Charles, eu não estou lhe usando como desculpa. Se eu te chamei para treinar, é porque eu realmente estou interessado em ver o seu desenvolvimento. E eu gosto de pessoas com garra. E eu tenho um olho muito bom para isso. Sabia que até quando o Isa veio treinar aqui, ele treinava com a mão que não era dominante e precisou de um treino comigo pra consertar? Eu sou ótimo no que faço.

Ele continuou arrumando os equipamentos e colocando tudo de volta nas bolsas. Entregou uma delas a Charles para que ele segurasse enquanto tirava os equipamentos da plataforma.

- E agora que você já me deu liberdade para o segundo treino, vamos deixar marcado para o próximo fim de semana. - ele falou, animado, terminando de arrumar as coisas. - Podemos ir agora. Vai me convidar pra almoçar na sua casa, Charles??

Charles

Charles esperava qualquer reação de Ulysses. Que ele mudasse de assunto, ou até que dissesse que não era da conta do cadeirante se meter naquilo tudo. Afinal, era o mais provável de acontecer, certo? Principalmente com a cara surpresa que ele ficou quando Charles terminou de falar.

Foi quando o mais velho sorriu e fez uma aproximação rápida que Charles sabia que havia cometido um erro:

- Nem pense ni— - antes que pudesse terminar a reclamação, foi envolvido num abraço forçado, e o rosto do mais velho contra o seu. Sentiu a face ficar quente, de ódio, mas não conseguia se livrar do abraço do outro, muito menos mordê-lo - Eu não estou preocupado! Me largue! - ameaçou o outro, a voz completamente emburrada.

Quando Ulysses finalmente teve a decência de soltar o loirinho, que estava com os fios claros completamente bagunçados pela situação de desespero. Respirando até pesado pela raiva que sentia.
Ouviu a explicação dele enquanto arrumava os fios e terminava de ajustar a bagunça que ele havia feito, tentando diminuir o ódio que sentia e a vermelhidão no rosto.

- É bom que não esteja mesmo. - pontuou, mas ainda com a expressão emburrada de sempre no rosto. Não comentou diretamente sobre Isaac, apesar de saber através de Yure que ele era um esgrimista muito bom. Até fazia sentido ter treinado com Ulysses, mas nunca diria isso. Apenas revirou os olhos quando ele falou sobre gostar de pessoas “com garra”.

- Próxima semana? Hmn, certo. - repousou a bolsa que havia sido entregue a ele sobre o colo e puxou o celular, apenas marcando para não se esquecer, caso o time de basquete tentasse marcar algo. Em seguida, guardou o aparelho e fez uma expressão confusa sobre almoçar em sua casa - Por que eu faria isso? Não. - foi bem firme na resposta, aproveitando e empurrando a cadeira na frente - Você tem um carro, almoce em qualquer outro lugar, você deve ter algum restaurante favorito.

Ele já havia invadido sua casa uma vez, sem permissão, completamente de surpresa até tirando tempo para conversar com a sua mãe. A última coisa que queria era mais visitas sem aviso prévio.

Ulysses

As reações de Charles eram apenas divertidas quando ele ficava tão nervoso e desesperado por causa da proximidade não permitida. Mas aquilo deixou Ulysses num humor bem melhor do que Isaac tinha causado. E ele concordou em treinar na semana seguinte, o que lhe deixou ainda mais disposto. Claro que a ideia de ir atormentá-lo em casa era algo que conseguiria ainda mais com a ajuda da mãe dele, seria divertido.

- Ora, por que você não faria? Nós estamos nos dando tão bem. Passamos uma hora treinando, você me viu discutindo com o  meu ex, ficou todo preocupadinho comigo por causa da discussão, e a madame vai adorar saber como foi o seu desenvolvimento e o treino de hoje, não é? Vamos lá, vou lhe deixar em casa! - Ulysses terminou de arrumar os equipamentos e seguiu a frente de Charles para saírem do ginásio. - E eu não tenho um restaurante favorito ainda, mas você pode sempre me levar no seu, não é? É o que bons amigos fazem, afinal!

Ulysses nem se preocupou de ouvir as respostas de Charles e continuou atazanando o rapaz o resto do caminho até chegarem na casa dele. era uma ótima distração para o breve estresse recente.

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[Drive] Promissed Practice [Ulysses; Charles; Isaac] - by Lil - 08-29-2021, 12:30 AM

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