[Drive] Lavando Roupa Suja [Monique; Marco; Yure]
#1
Marco/Monique

Foi uma surpresa desagradável ter Julie ligando de seu escritório de trabalho, inquieta como ela não costumava ser, avisando-lhe que sua ex-mulher estava ameaçando lhe processar por persegui-la e ameaçá-la primeiramente sobre a guarda de Monique. Demorou algumas horas até conseguir ligar os pontos e extrair sentido de toda aquela confusão.

Ligou para seu ex-sogro e ex-chefe para perguntar exatamente o que estava acontecendo e pedir que ele acalmasse a mulher antes que ela tivesse uma síncope por estar telefonando para todo ramal de seu escritório. Praticamente todos os seus sócios e funcionários estavam sabendo da confusão. Só conseguiu telefonar para mulher e conseguir conversar com ela no final do dia, conversando de madrugada no telefone e tomando o devido cuidado para Monique não estar presente em seu escritório em casa enquanto conversava com a loira.

Ao que parecia, o assunto sobre a guarda e a atenção que ela dava a filha de ambos, Monique, havia sido trazido à tona. E a mulher não havia gostado nada de ser contrariada. Sabia como a mulher era mimada e sensível a qualquer crítica direta a sua figura de mãe perfeita a frente da sociedade da capital, a mesma sociedade da qual ela jurava que conseguia esconder a própria história por ter sido mãe de uma garotinha que descobriu ainda muito jovem que ficaria cega.

Pelo que acabou descobrindo, o responsável pela visita inesperada havia sido o senhor Yure Lukashenko, o namorado de sua filha. Pensou que ele poderia ter perguntado sobre a mãe da menina e, para sua surpresa, ela deveria ter falado sobre a mulher - o que era uma coisa boa, considerando a resistência da garota em tocar no assunto. O ruivo, por outro lado, preocupado com os vários amigos que ele parecia ter, deve ter procurado sobre a mãe de sua filha. Explicou a situação para sua ex-mulher e fez questão de se certificar que ela não entraria com nenhuma retaliação contra sua pessoa ou contra Lukashenko, afinal, o garoto não deveria ter ofendido ela de nenhuma maneira que a mulher não merecesse.

Naquela tarde, fez questão de avisar que almoçaria em casa. Monique torceu o nariz primeiramente a contragosto, mas logo o humor da menina pareceu melhorar ao ter a presença do pai em casa. Yure Lukashenko também deveria aparecer em breve. Sabia que naquela tarde, os dois deveriam sair para andar pela cidade ou entrar em alguma das aventuras improvisadas do mais novo. De todo modo, precisava ter uma breve conversa com o menino para lavar um pouco da roupa suja da família Biedermeier.

Monique estava na sala, fingindo interesse no programa de moda, Fashion Police, que estava passando na televisão, enquanto na verdade aguardava a chegada do ruivinho para comerem e saírem. A morena não parecia desgrudar do celular, as pernas para cima no sofá, o cabelo assanhado por estar trocando de posição a cada cinco minutos. Não era difícil dizer quando a garota estava animada pela chegada do namorado, ainda que verbalmente ela negasse.

Munik [12:50, xx, xx, 2014]: Cade vc?
Munik [12:50, xx, xx, 2014]: Vamos comer logo.
Munik [12:50, xx, xx, 2014]: o Marco tá aqui
Munik [12:51, xx, xx, 2014]: Charles vai hj?

Yure

O ruivo estava pilhado, e essa era a única palavra que conseguia pensar pra si mesmo, principalmente com a proximidade das eleições pro conselho que logo aconteceriam, as provas finais, e o fato de ter de estudar um monte de matéria. E principalmente, que depois de uma longa conversa com Charles, tinha de tomar um rumo de como se sentia com Monique e que tipo de parceiro gostaria de ser. Certamente não queria ser uma pessoa passiva na vida da morena queria ajuda-la a crescer e ser uma pessoa melhor e no meio do caminho tomar algum rumo, adquirir algum sonho e ser alguém que pudesse se orgulhar. Ser adolescente era uma bela de uma bosta, mas ter de ir falar com a mãe de Monique era como cutucar merda seca de cachorro meio dia no asfalto quente. E o cheiro com certeza ainda seria mais agradável que a cara de nojo que aquela mulher podia ter.

Estava plenamente enojado, porque não tinha palavra que descrevesse melhor, aquele embrulho no estômago que sentia ao fazer as perguntas que tinha ensaiado no trem a caminho de Paris. Cada uma das perguntas, que imaginava que ela fosse responder mecanicamente, mas não esperava ver o que viu. A mudança de postura, a cara de asco, não conseguia imaginar nem em um milhão de anos sua mãe Katrina lhe tratando com tamanho desdém. Podiam não dividir o mesmo sangue, mas sabia, tinha plena certeza que a mulher lhe amava e saber aquilo doía. era doloroso principalmente porque sabia que Monique sequer tinha passado perto desse sentimento, e pior, criava expectativas sobre a mulher com quem jamais tivera qualquer interação, e indo mais longe, supunha que a morena mais nova não tinha a menor noção de como a mãe biológica, se é que podia chamar “aquilo” de mãe, se sentia e se portava.

Era uma desgraça completa no final das contas e aquilo lhe deixou com um sentimento de urgência de sair com Monique, de lhe dar carinho, abraçar e cuidar, porque queria e porque gostava dela, apesar de não sexualmente falando, queria que Monique fosse plenamente feliz, pra que a desgraça da progenitora dela soubesse que a filha que ela rejeitou tá vivendo plenamente sem ela. Naquele dia estava de calça jeans, com a barra dobrada, alguns rasgos aqui e ali da prática de esportes, cinto preto, uma corrente fininha lateral, tênis vermelho, camisa regata preta, com uma xadrez de vermelho e preto por cima, pulseiras e cordões variados e o fone de ouvido vermelho lhe acompanhando.

Quando sentiu o celular vibrar no bolso da calça, já estava na portaria do prédio da morena mais nova:

[12:55, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Cabei d chegar na portaria
[12:55, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Relaxa o bumbum q eu jaja chego Wink
[12:55, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Charles tá com amigo novo :o
[12:55, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Longa história
[12:55, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Deixe seu pai longe da salada de pepinos :v

Marco/Monique

A morena pulou do sofá e arrumou o próprio cabelo, prendendo-o em um rabo de cavalo frouxo antes de correr para a sacada da varanda a fim de ter certeza que o ruivo estava lá mesmo. Não demorou para a campainha tocar e a garota ir atender a campainha. O porteiro de seu prédio já conhecia bem o ruivinho e já havia deixado avisado que ele almoçaria com sua família no apartamento. Contudo, foi com uma breve surpresa que se deparou com Marco já na sala, parecendo estar aguardando seu namorado também.

- Vai atender a porta, Marco? - a morena perguntou ao pai antes dele lhe dar passagem, sorrindo, e permitindo que visse primeiro o namorado. Sabia o quanto o pai poderia ser superprotetor às vezes, principalmente no que dizia a respeito ao seu relacionamento com o rapaz.

Assim que abriu a porta do apartamento, a morena ouviu o latido ao longe da cadelinha que estava em seu apartamento, mas que era de Lukashenko também, o animal correndo em alta velocidade para pular no colo do rapaz. Monique não conseguiu esconder o sorriso, dando passagem para que Yure entrasse de uma vez no recinto.

- Está com fome? Hoje o Marco que preparou o almoço, então não espere muita coisa. - a morena comentou enquanto o próprio pai fazia uma breve careta de julgamento. - Ah, eu ajudei também. Não espere muita coisa em dobro. - ela revirou os olhos, olhando por cima do ombro para Marco que logo se aproximava.

- Filho, será que podemos conversar antes de deixá-lo a sós com Monique? - o advogado questionou, mantendo o sorriso amistoso no rosto enquanto a morena o observava com certa desconfiança. Já sabia diferenciar quando Marco Biedermeier estava usando o tom de voz de trabalho como advogado e quando estava apenas sendo seu pai.

Yure

O ruivo recebeu primeiro as boas vindas de Mascota, que sempre pulava em cima de seu corpo, e o enchia de carinho e lambidas, quando ela era menor, ficava mais fácil, mas parecia que a cada encontro, ela tinha crescido e ganhado peso, em mais algumas semanas não ia conseguir mais colocar a cachorrinha no colo: -- Sim! sou eu sim! Quem é meu amorzinho de cachorro? é vocêzinha sim! -- Deu a atenção necessária ao animal, deixando no chão em seguida, embora a mesma ainda desse volta em torno de seus pés animada com a sua presença no apartamento.

Fez uma sequência de ‘uhum’ pra o primeiro comentário de não esperar muita coisa da comida feita pelo pai dela, e depois fez outro ‘uhum’ sobre a comida da própria Monique também não ser pra esperar muita coisa. Só porque sabia que a morena mais nova iria ficar irritada, e ela certamente ficava fofa irritada. Mas antes de ter qualquer resposta da namorada, foi interpelado pela voz do pai de Monique, e pelo tom bem comercial, já imaginava o que era.

O ruivo não era necessariamente bom em esconder suas emoções, e imediatamente pós uma expressão mais séria, desviou o olhar, acenando positivamente, respirou fundo e abaixou o olhar, espiando a cadelinha que tinha parado de correr para encarar o garoto, como se tivesse farejado a mudança de clima, levou a mão sobre a cabeça do animal fazendo um afago e aliviando a expressão. Em seguida, se aproximou de Monique fazendo um afago na mais nova também, descendo para o rosto, e piscando em seguida: -- Relaxe, não vai demorar, eu nem curto almoço frio. Volto já, e aí conto as fofocas do amigo novo do Charles.

O ruivo sorriu, não tão natural quanto costumeiro, e pra quem o conhecia era fácil de notar quando ele sorria espontâneo, e quando ele sorria por estar encrencado, e certamente parecia mais a segunda opção que a primeira. Acompanhou o adulto até o escritório, e mesmo que quisesse não tinha como sustentar a expressão alegre costumeira. Então não comentou nada, e nem perguntou nada, apenas esperou o aval para sentar em qualquer lugar, e ouvir o que quer que o pai de Monique fosse lhe dizer.

Monique/Marco

Monique estreitou os lábios e torceu a boca em uma careta de irritação quando o ruivo parecia não estar prestando atenção no que comentava com ele. Contudo, quando seu pai chamou por seu namorado, teve de arquear uma sobrancelha, achando no mínimo estranho que Março que raramente se envolvia em seu relacionamento com Yure estivesse querendo falar com ele de novo. Esperava que não tivesse nenhum pepino envolvido na conversa.

-- É bom mesmo! Que eu saiba você é meu namorado! Marco, lembre que vamos almoçar ainda. Cedo demais para você fazer negócios com Lukashenko. -- de praxe, a morena reclamou. Porém, apesar de ter uma tendência a ficar cega, ela não era ingênua para entender que o assunto poderia envolver um aspecto mais sóbrio.

A morena ficou na sala brincando e segurando Mascote para que ela não corresse atrás de Yure, afinal de contas, a cadelinha era bem apegada a ele. Esperava que nada do semblante sério de Yure tivesse ligação com a situação da família dele ou alguma ligação com Desirée L'mark que era madrinha do garoto e com quem já havia aprontado algumas vezes.

Enquanto isso, Marco indicou o trajeto até seu escritório, já conhecido pelo ruivinho, e mostrou o assento para que o rapaz se acomodasse enquanto fechava a porta para terem mais privacidade. Certamente não queria que Monique escutasse sobre a conversa que teria com o adolescente.

O homem respirou fundo antes de se sentar do outro lado de sua mesa, observando o mais novo com uma seriedade moderada. O assunto não era nem tão sério a ponto de ser uma tragédia, mas considerando que sua ex mulher havia tentado lhe processar, seria cauteloso em informar o namorado de sua filha sobre o ocorrido, e alertá-lo, claro.

-- Então conheceu minha ex mulher, rapaz? Como foi sua impressão? Simpática ela? -- começou um pouco mais descontraído, considerando o caso. -- É uma pena que tenha tido esse desprazer. Imagino que Monique que lhe contou sobre Charlotte. Parece que o encontro de vocês foi pouco amistoso. -- fez uma pequena pausa, encarando o menor com um ar mais analítico. -- Posso perguntar por que decidiu procurá-la?

Era uma pergunta bastante simples a respeito de toda aquela confusão. Não se incomodava com Charlotte ter sido colocada em certo desconforto. A verdade é que acreditava que ela merecia aquilo. Entretanto, era importante estabelecer uma boa comunicação com o namorado de Monique e se certificar da preocupação dele com sua filha.

Yure

Já imaginava o que vinha a seguir, e por mais que estivesse cheio de dúvidas sobre porque a mãe de Monique não interagia com a filha, as dúvidas foram plenamente sanadas ao conversar com a mulher. Sabia que tinha falado pouco, queria ter falado bem mais, porém se conhecia o suficiente pra saber que se fosse dali adiante seria grosseiro e perderia toda a razão de suas ações. Sentou quando foi indicado a sentar e esperou que Marco falasse tudo que tinha pra dizer, e arqueou as sobrancelhas de forma bem nítida quando o homem disse mesmo que de forma irônica que a mulher era “simpática”. E logo veio a pergunta chave daquela conversa de o porquê ter feito aquilo.

O ruivo mudou de posição na cadeira, balançando as pernas um pouco, inquieto e então respirou fundo, pondo uma expressão séria no rosto: -- O senhor provavelmente já tinha notado, que eu e Monique quando começamos a namorar, não éramos bem ‘namorados’ estávamos mais pra ‘amigos com benefícios’, e só depois de convivência que a gente de fato começou a se relacionar mais sério… o que eu quero dizer com sério nesse contexto todo, é que eu passei a ter responsabilidade afetiva com ela, e com o que ela sente ou deixa de sentir, me importar se ela estar bem, feliz e essas coisas. Não que antes essa preocupação não existisse, mas não era nada além do que eu faria por qualquer amiga minha, o que mudou gradualmente como eu já disse. -- O ruivo juntou as mãos e esfregou uma na outra, tirando o olhar momentaneamente de Marco, antes de continuar: -- E daí é na convivência que você aprende que as pessoas têm coisas que conversam e não conversam, eu sou uma pessoa criada por uma mãe, e tenho pai ausente, logo pra mim é a coisa mais natural falar da Katrina e das coisas que ela faz comigo. Então era só uma questão de tempo para perceber que Monique nunca falava da mãe. Nunca.

O ruivo afastou as mãos, e repousou as mesmas sobre o encosto da cadeira, e batucou a ponta dos dedos, era um sinal claro de sua hiperatividade: -- Eu passei a perceber que Monique não se sentia confortável quando eu citava essas situações rotineiras com a minha mãe, então evitei falar, porém durante uma de nossas saídas, enquanto conversamos sobre trivialidades, eu acabei perguntando no automático se a mãe dela não tinha ensinado algo pra ela. E como pode imaginar foi um fiasco, porque ela me respondeu que a mãe dela nunca a ensinou nada, e mesmo tentando remediar o assunto, a Monique chorou. -- Yure apoiou o cotovelo no braço da cadeira e levou a mão ao rosto, passando a mão na região e respirando fundo: -- Então, eu nunca tinha visto Monique chorando, nem perto disso, apenas chateada, irritada, aborrecida, mas nunca triste e amuada, e aquilo me deixou confuso, então, depois de conversamos um pouco além, ela ainda foi evasiva, não queria tocar no assunto diretamente, só de forma mais superficial mesmo. E daí que eu fui atrás de saber mais sobre a mulher, e depois de umas semanas pensando se eu deveria ou não fazer isso, eu fui lá.

O ruivo tornou a encarar Marco, cessou qualquer movimento do corpo que fosse indício de sua ansiedade decorrente da hiperatividade: -- Não me entenda mal, eu sabia que isso causaria algum nível de desconforto pra sua família, mas evitei qualquer menção ao seu nome, ou mesmo fui grosseiro, fiz apenas perguntas, qual era cor preferida de Monique, qual era o sonho dela, e se ela sabia que por lei tinha responsabilidade com a filha porque ela mesma descumpria? E ela não me respondeu, obviamente porque não há resposta lógica, além dela ser uma egoísta sem precedentes… eu pessoalmente estou ‘puto’, por falta de palavra melhor pra expressar meu estado mental, além de triste, eu só queria poder voltar pra Cerise e dizer que esse distanciamento era apenas um grande mal entendido, e não chegar pra Monique e dizer que a mãe dela é uma egocêntrica hipócrita.

O ruivo podia ser um cabeça de vento a maior parte do tempo, mas sabia falar sério quando precisava, e embora gostasse de parecer idiota e bobo, naquela conversa, queria apenas ser claro para o pai de sua namorada que a motivação de suas ações, não eram ruins.

Marco

Concordou com um breve aceno da cabeça sobre já ter percebido que o ruivinho e sua filha eram próximos, mas não necessariamente “namorados”. Na verdade, esse era um dos detalhes que fez com que aceitasse aquele “relacionamento”. Era bom ela ter um amigo para variar, apesar do amigo ser um garoto ruivo. Manteve o olhar sobre o rapaz, tranquilo quanto aquele cenário. Não estava bravo, apenas curioso com a motivação do adolescente. Contudo, o comentário sobre Monique não falar sobre a própria mãe biológica lhe chamou a atenção, colocando-o com uma expressão um tanto desconfortável. Não demorou a neutralizar o próprio semblante, considerando que a menina já apresentava aquele tipo de comportamento quando não queria lidar com conflitos de uma forma que não fosse possível usar os próprios punhos.

Marco levou uma das mãos até a própria têmpora, massageando a região com a ponta dos dedos, incomodado com a notícia de que sua única filha havia chorado por ser questionada sobre a própria mãe. Pensava que com a adolescência e o comportamento mais assertivo e agressivo da menina, ela teria superado a carência da figura materna. Afinal de contas, não faltava nada para Monique Biedermeier, mesmo que ela não pudesse ter a presença de Charlotte, ele estava lá, sabia que Joshua também gostava da menina, ainda havia os avós da menina, o avó materno e alguns amigos da família.

Respirou fundo e se levantou para ir até seu armário quando o garoto acabou de justificar suas atitudes. Buscou uma caixa escura e prontamente levou até o menor, estendendo o objeto para que ele pegasse. Dentro da caixa havia dezenas de fotografias da família, todas de uma época em que ainda estava casado com Charlotte e eram uma “família perfeita” de jovens advogados bem sucedidos com uma filhinha saudável.

- Ser contrariada é uma grosseria para Charlotte. Mas não havia como você ter conhecimento sobre isso. Ela agora acha que eu o mandei para “irritá-la”, como se eu tivesse todo esse tempo livre para fazer isso. - suspirou resignado com a imaturidade de uma mulher que já estava no segundo casamento. - Charlotte e eu tínhamos uma vida perfeita, Yure. E é dessa vida, dessa Charlotte que a minha Monique sente falta. Infelizmente, a mãe dela não tem nenhum peso na consciência sobre o que aconteceu, mas eu e minha filha nunca conversamos exatamente sobre isso. Charlotte é um assunto que me deixa muito… - fez uma pequena pausa, buscando as melhores palavras. - … inclinado à indignação. - sorriu por educação, mantendo o semblante mais neutro. - Sinto muito que tenha se envolvido nessa situação. - o garoto não deveria sofrer as retaliações impostas por Charlotte, até porque as acusações dela eram infundadas e repletas de uma falsa culpa por ter seu novo papel como mãe e esposa perfeita colocados a prova pela própria publicidade do caso, visto que outras pessoas de seu escritório e do dela em Paris já haviam tomado conhecimento da situação.

Yure

Era até fácil de ler que o pai de Monique estava “comercial” demais pra quem estava apenas conversando sobre a ex-mulher, ele provavelmente usava aquela roupagem de homem sóbrio pra parecer que tava bem com isso tudo, mas ele certamente queria xingar a mulher de coisas muito piores que “inclinado a indignação”. Ouviu com atenção todo o restante do relato sobre como a vida deles era boa até que eles perderam esse estado e tudo aquilo incomodava o mais velho e deixava Monique triste:

-- Como eu disse eu não falei nada que possa ser considerado uma ofensa, e eu paguei pela assessoria jurídica dela, e as perguntas que eu fiz cabem bem num caso de divórcio, eu não fui lá no intuito de perseguir ou ameaçar e se ela não percebeu isso, problema dos neurónios dela que não funcionam bem -- O ruivo falou com notório tom de irritação:

-- Ela sabe que juridicamente falando o que ela faz com Monique é errado, se afastar completamente, não dá qualquer suporte emocional, simplesmente tratar como se não tivesse nada acontecendo, ela têm plena consciência disso e ainda assim, faz. Eu não consigo pensar em nenhuma mãe que realmente goste dos filhos que faça algo assim, acho até ofensivo chamar aquela pessoa de mãe. O nome não é dado só a quem teve o ato de parir não, que por no mundo é fácil, qualquer mulher pode botar o feto pra fora e depois jogar na lata do lixo, difícil é criar, e tomar a responsabilidade, e eu não tô dizendo que não é pra ter pai, porque eu não passo pano para o que o meu pai fez abandonando minha mãe biológica não, mas eu também não vou passar pano pra uma mulher que botou a filha no mundo, e sei lá porque ela acha Monique ruim, largou ela de lado como se tivesse jogando no lixo. Isso não é uma mãe, e eu não sei porque a Monique sente falta de uma pessoa horrível assim.

O ruivo deixou o ar todo escapar dos lábios em uma respiração funda, como se tudo aquilo o deixasse igualmente incomodado mas por vários outros fatores. Queria apenas que Monique deixasse de se incomodar por uma pessoa que não vale o esforço.

Marco/Monique

Teve de segurar a vontade de rir com as palavras do ruivo sobre sua ex-mulher. Porém, a vontade passou rápido quando o outro demonstrou estar mais consciente sobre o que deveria ser o papel de um pai e de uma mãe para com o filho. Lembrava que ele era filho de Katrina e que tendo sido criado por ela, sem um pai, como ele havia colocado, deveria ter construído diversas ideias sobre paternidade na cabeça do garoto. Respirou fundo, esperando que um dia ele pudesse ter uma figura paterna significativa na vida dele também.

- Nem sempre a Charlotte se comportou dessa forma. Ela já foi uma boa mãe para a Monique um dia. - fez uma pequena pausa antes de coçar a própria nuca, repensando o que havia acabado de dizer. - Na verdade, eu não sei afirmar até que ponto a felicidade dela era genuína agora que estamos separados, mas enfim…

O advogado se aproximou para poder colocar a mão sobre o ombro do rapaz, oferecendo um gesto amigável considerando o esforço dele em entender melhor sobre sua família. Talvez devesse dar mais um voto de crédito ao garoto e tratar melhor sobre a situação com a própria família dele, considerando que Katrina já deveria ter dito ao rapaz sobre o caso dos avós do mesmo.

- Eu fico satisfeito que apesar da sua própria situação, você possa estar tão pre--

Um baque seco foi escutado ao ruído da porta ser aberta repentinamente.

Marco virou-se de supetão, observando a figura da própria filha parada na entrada do escritório, o cenho franzido e o rosto vermelho. Bem conhecia aquela expressão na face de sua filha, mas ela não parecia estar muito mais interessada em sua presença ali, visto que ela tão breve havia aberto a porta de seu escritório em casa, ela se dirigiu para perto de onde o ruivo estava.

- Ah, Monique, f--

- Isso é verdade? - ela encarou o namorado, o olhar sério e previamente irritado já carregava uma carga de incerteza e nervosismo. Aparentemente, ao contrário do que era esperado, privacidade não era algo tão simples de conseguir na residência, considerando a conversa entre Marco e Yure ocorrida sem o convite para a participação da garota.

Yure

O ruivo ficou em dúvida sobre o que exatamente o pai de Monique queria dizer com sua situação, e supôs que isso se devia ao abandono paterno que tinha, e estava prestes a perguntar quando o baque da porta foi o suficiente pra lhe fazer levantar da cadeira em reflexo, e logo tinha uma Monique bem irritada na sua frente, ela tinha escutado a conversa toda ou parte dela, nem fazia ideia, mas isso não mudava os fatos.

-- Depende, de até onde você ouviu, mas se for o fato da sua mãe ser uma pessoa horrível que foi a última coisa que eu disse, sim, ela é. -- o ruivo comentou de forma calma e pontual, encarando a mais nova com um ar sério, sem sorrisos, sem brincadeiras, sem tom de voz manso, falou do jeito seco com o qual só tratava as coisas que eram sérias na sua vida.

A situação toda de comoção dentro do escritório trouxe a cachorrinha mascota latindo tentando chamar a atenção dos humanos na sala, dando voltas em torno dos dois mais jovens, animada, até notar que os ânimos estavam alterados, e até o próprio animal percebeu que a situação não estava normal, sentando-se e encarando os humanos esperando alguma reação dos mesmos.

Monique/Marco

O sangue subiu a cabeça de Monique. Sabia que sua mãe era uma mulher ausente, mas ainda acreditava que era apenas uma questão de tempo até conseguir a atenção da mulher novamente. Talvez fosse apenas um período devido ao divórcio com seu pai, tinha até planos para um dia poder encontrar a família nova da mulher, mas esse sonho já não seria mais possível agora que seu namorado havia ido até lá, sem lhe informar nada, tratar diretamente com uma mulher que ele descrevia como “pessoa horrível”. Não precisava saber que ela era uma “pessoa horrível”, sabia que Yure Lukashenko nunca entenderia como se sentia em relação a sua mãe.

A garota não pensou duas vezes antes de mover a própria mão, os olhos ardendo pela própria raiva diante das atitudes tomadas pelo namorado. Sem cerimônia, deferiu um tapa no rosto do ruivo de feição séria, a mão passando a arder pelo contato violento com a pele do outro.

- V-Você não tinha esse direito! Ela é minha mãe! - Monique gritou, a voz falhando tamanha sua raiva. Não podia acreditar que o namorado havia ido até Paris para tratar diretamente com a mulher, fazendo-lhe perguntas sobre ela, quando ela própria ainda não havia conseguido arrumar coragem para sequer telefonar para a mulher. - Como você pode fazer isso comigo?! - empurrou o ruivo, o rosto vermelho tamanha sua revolta com a atitude alheia.

Marco assistiu a cena com surpresa, adiantando-se ao perceber que a situação se tornava mais física para poder segurar a garota.

- Não encosta em mim, Marco! - ela gritou novamente, afastando-se do próprio pai. - Eu não acredito que você estava ouvindo toda essa merda e sequer falou comigo! Você nunca fala comigo! Vocês dois sabiam de tudo?!

- Calma, filha, primeiro você precisa manter a calma para que--

- Calma?! Não me diga pra ficar calma! Nenhum de vocês dois tinha o direito de ter feito isso! E pelas minhas costas! - nesse ponto, a garota já estava chorando tamanha sua raiva com aquele cenário.

Yure

O ruivo sabia o que viria dali, a morena mais nova não era exatamente a pessoa mais controlada em relação ao próprio humor, e sabia que aquilo viraria uma briga física. Então apenas esperou, recebeu o tapa no rosto e não se moveu nem um centímetro de onde estava, deixou que ela esbravejasse e nem se defendeu de nada, apenas respirou fundo, buscando calma,porque também não era das pessoas mais pacientes, mas tinha algumas coisas pra falar ainda:

-- se eu tivesse lhe chamado pra ir você iria comigo ver ela? -- a resposta foi dita um tom tão tranquilo que sequer parecia que Yure Tinha recebido um tapa. O ruivo deixou as mãos ao lado do corpo mas estava trêmulo porque também estava nervoso, mas estava tentando se conter: -- eu sei que não, faz quantos anos que vocês não se falam? Também não precisa responder eu sei que são muitos. Porque você está tão brava Monique, se sua mãe fosse quem você pensa que é, uma pessoa boa e amável você acha mesmo que só o fato deu ter ido lá ia estragar tudo entre vocês?

O ruivo seguiu falando sério com uma forma tão calma de falar que sequer parecia ele mesmo: -- você está com raiva porque você já sabia, e já imaginava que sua mãe é horrível, você só não queria confirmar, ninguém chora só de lembrar de alguém como você já fez, ou está fazendo agora, isso é frustração porque você está esperando amor de alguém que nem tem uma foto sua na sala de trabalho dela, e isso eu sei porque eu vi.

Monique/Marco

Ouviu o que o namorado tinha a dizer sobre a situação enquanto as lágrimas continuavam a verter de seus olhos. Sentia a cabeça doer por conta de toda aquela discussão, principalmente por estar lidando com pessoas por quem guardava um grande afeto. Sabia que no fundo de tudo aquilo que o ruivo estava falando, havia alguma verdade, ou ao menos algo em seu inconsciente lhe dizia que ele não estava mentindo. Contudo, as memórias de uma mãe amável e gentil eram dolorosas demais para que pudesse superar tudo daquela forma.

- Cala a boca! Você não tinha o direito de fazer isso sem falar comigo primeiro! Você sempre quer ajudar todo mundo sem nem ao menos perguntar se as pessoas querem a sua ajuda! Eu não preciso da sua ajuda, Yure! Eu não preciso de nenhum de vocês! - a garotinha esbravejou, observando a reação do próprio pai que também parecia surpreso com aquela cena, mas ainda assim tão sério e até tranquilo como seu namorado, o que só lhe dava mais raiva.

Marco olhou para o garoto e respirou fundo, finalmente colocando-se mais próximo ao rapaz, parecendo mais compreensível em relação a toda aquela situação.

- Eu acho melhor cancelar o nosso almoço hoje, Yure. Pelo menos até acalmar os ânimos. - aconselhou, afastando-se para poder ir até a própria filha que prontamente se afastou.

- Não chegue perto de mim! Eu não quero ver a cara de nenhum de vocês dois! - alertou a garota, dando as costas para sair do escritório, deixando ambos para trás a passos duros, rumando para o próprio quarto furiosa.

Yure

O ruivo ouviu as palavras de Monique sobre ele novamente não ter direito de se envolver naquilo, e aquilo lhe fez respirar fundo, sentia o coração bater tão rápido que aquilo lhe dava dor de cabeça, estava levemente tonto, mas estava quieto, calado, ouviu todas as coisas que ela disse e aquilo lhe doeu. Mordeu o lábio inferior, todo mundo só reclamava de o quanto o Yure era inconveniente, mas era natural de seus amigos, mas queria pensar, que pelo menos podia se envolver nos problemas da namorada, ela vivia querendo saber tudo sobre ele, e era apenas natural que se preocupassem um com o outro, e porque ainda assim, ainda assim, só ele era o culpado.

Ouviu as palavras do pai de Monique, e até concordou que não havia mais ânimo para um almoço, até a mascota tinha ido se esconder debaixo da mesa depois da gritaria e choro, não tinha como o animal ficar bem diante daquilo. O rapaz fechou o pulso e sentiu o sangue subir para seu rosto, deixando-o vermelho de raiva, e prendeu a respiração por um momento, mas engoliu qualquer coisa que quisesse gritar, e apenas soltou o ar com a boca aberta:

--Eu concordo que não têm mais ânimo pra um almoço, mas não dá pra deixar as coisas assim pela metade, o problema disso tudo, é porque ninguém aqui sabe conversar. -- O ruivo caminhou em passos lentos e apenas acompanhou Monique seguir até o quarto e se trancar, e parou em frente a porta, respirou fundo e buscou um tom calmo, mas ainda audível: -- O seu problema Monique é justamente esse, você não sabe conversar, é difícil manter um diálogo, você sequer falou comigo sobre o assunto, mas a única vez que tocou no assunto da sua mãe, você chorou, como acha que eu me sentir? Você acha que eu gosto de ver você chorando? Eu fui lá falar com a sua mãe pra entender, tentar entender porque é que mesmo sabendo que é errado ficar longe de você sem lhe dar nenhuma resposta de porque, ela ainda assim o faz, e o que eu encontrei foi alguém que não merece essas lágrimas que você tá aí derramando. -- Mais uma vez foi preciso respirar fundo pra continuar falando: -- Eu tô errado em me preocupar com você? Eu deveria só deixar você sozinha com as coisas que te incomodam? Eu deveria ignorar seu sofrimento? Se for assim qual sentido faz ser seu namorado? Nós não estamos jogando aqui Monique, quando você me pediu em namoro em St. Clavier e eu aceitei foi sério, eu me importo com você como se você fosse minha família, e se você acha injusto o que eu fiz, saia desse quarto, e venha conversar comigo aqui fora.

Monique/Marco

A morena ouviu a voz inquieta do namorado e levou as mãos até a própria cabeça, encolhendo-se aos pés da própria cama em negação ao que estava acontecendo. Não conseguia deixar de chorar, pensando em como a esperança de um dia ter sua mãe de volta havia sido arruinada. E pensando também em como Yure Lukashenko havia sido invasivo ao tentar saber mais sobre sua vida, lhe forçando a chegar naquele ponto justamente quando estava tão feliz com ele. A pior parte era pensar que ele e Marco haviam feito tudo aquilo pelas suas costas. Não havia perdão para aquele tipo de organização às escondidas. Se ele queria tanto assim que confiasse nele, por que não havia falado do próprio plano em primeiro lugar para ela? E por que ainda conversava com seu pai naquele apartamento como se ela fosse uma ignorante? Conhecia bem o próprio gênio, mas pensava que já havia provado ao outro que podia escutá-lo. O assunto era delicado demais para que pudesse aceitar as palavras do outro naquele momento. Naquele momento só que passava por sua cabeça era o quão machucada estava pelas mentiras dos dois. Ele também não entendia que parte daquelas lágrimas eram por ele ter traído a sua confiança, escondendo uma ação tão importante relacionada a sua mãe e agindo sem que ela soubesse.

- Vá embora! Eu não quero conversar! Eu quero que você suma daqui! - gritou a plenos pulmões, segurando um travesseiro contra o próprio rosto logo depois, soluçando.

Marco, no corredor que levava até a porta do quarto de sua filha, apenas suspirou, conhecendo muito bem o comportamento da própria filha diante daquele problema. Não se exaltou, pois já havia gente exaltada demais naquela casa e se havia sobrevivido sem cometer um homicídio ao conviver com Charlotte após o divórcio, poderia muito bem sobreviver aqueles dois adolescentes no momento de desentendimento.

- Filho, ela não vai se acalmar agora. É melhor deixar essa conversa para depois. - aconselhou ao mais novo, ciente de que ele estava sinceramente preocupado com sua filha.

Yure

Quando é que tinha se sentindo assim antes? Não sabia dizer, mas aquela sensação de desgosto era algo inédito para si, afinal, sabia que estava sendo invasivo, e imaginava que Monique iria ficar com raiva, mas porque assistir aquela raiva estava lhe deixando sem fôlego? Estava irritado, frustrado, triste, e quanto mais Monique mandava ir embora mais queria ficar ali. Não queria deixá-la naquele estado, mas também achava injusto a forma como estava sendo tratado ali. Sentia o coração acelerar no peito, num disparo que fez sua cabeça girar, mas apenas respirou fundo mais uma vez, soltando o ar pela boca, as pontas dos dedos trêmulas pelo nervosismo inédito ali.
-- Monique. -- O ruivo falou em tom audível, a voz soando séria e seca, porque a garganta estava seca, do nervosismo ali, embora não conseguisse por aquele sentimento pra fora em grito e lágrimas como a mais nova estava fazendo: -- Eu não quero ir embora, eu não quero sumir, eu não sou a sua mãe, eu não vou sair da sua vida sem dá uma explicação.

O mais novo pontuou encostando a testa na porta, ignorando momentaneamente o pai de Monique que estava bem ali do lado, nem se lembrava que estava com o rosto marcado em vermelho pelo tapa recém dado pela mais nova: -- Venha aqui, vamos conversar, por favor. -- o ruivo pediu, mantendo o tom de fala, sem conseguir se exaltar ali, apenas num misto de irritação e nervosismo que lhe impedia de sair, sentia que se saísse dali, estaria sendo expulso da vida de Monique pra sempre.

Monique

A morena não conseguia parar de chorar e entre soluços, ser lembrada que a mãe de fato havia desaparecido de sua vida só lhe fazia se sentir cada vez mais rejeitada. A mulher estava certa. Deveria haver algo de muito errado com sua figura, principalmente quando seu pai continuava mentindo sobre situações como aquela, e agora Lukashenko, o garoto em quem acreditava confiar até sua própria segurança, havia agido sem seu consentimento, por suas costas, tentando resolver aquela situação a qual não queria ter de lidar justamente naquele momento em que estava conseguindo fazer amigos, amigos de verdade. O problema é que eles apenas haviam se tornado amigos seus por causa do ruivinho. Ou seja, se não fosse pelo garoto, essas pessoas nunca teriam se aproximado, a julgar pela garota defeituosa que ela era. Todo tipo de pensamento negativo atravessava sua mente e definitivamente não queria abrir aquela porta e ter de encarar o garoto que havia traído sua confiança.

- Vá embora! Você mentiu como todo mundo faz! - apertou o travesseiro com o tecido já encharcado por conta de suas lágrimas antes de erguer o rosto, certa de que mais cedo ou mais tarde, o outro iria sumir tal como sua mãe havia feito. - Pode sumir! Eu não preciso de você! Eu não preciso dela também! Eu não preciso de vocês!

A morena rapidamente se levantou, buscando seus fones de ouvido para poder colocá-los, tomando o volume de qualquer playlist que estava em seu aparelho. Não queria ter de ouvir mais nada nem de seu pai, muito menos de Yure Lukashenko. Só conseguia pensar em como as situações sempre se repetiam e em como a confiança era algo sempre muito frágil quando se tratava dela. Não era a primeira vez que se sentia traída, e julgava que não seria a última. Definitivamente não era como o ruivo cuja confiança que recebia dos amigos dele era algo raro. Talvez fosse algo com os Biedermeier, já não sabia direito o que pensar para justificar aquele sentimento amargo em sua garganta e a dor em seu peito. Só sentia o desejo de permanecer no chão, ao lado de sua cama, chorando pela oportunidade destruída de um dia poder rever sua mãe.

Naquela altura do campeonato, conhecendo muito bem a filha que tinha, Marco apenas aguardou no corredor em meio aos pedidos sem resposta do namorado da garota. Sentia dó pelo garoto, mas naquele instante, não havia muito o que fazer a não ser esperar que a garota esfriasse a cabeça.

Yure

O ruivo quanto mais escutava Monique falando daquela forma mais lhe doía, e mais lhe deixava com raiva, torceu as sobrancelhas e a boca em desgosto, e ao invés de fazer como a menor lhe indicou, o ruivo se sentou no chão e apoiou as costas na porta. Não ia sair dali sem por aquilo em pratos limpos, se ela realmente achava sua conduta imperdoável, e não queria mais falar com ele, então queria ouvir aquilo dela ao menos mais calma, sabia que no calor da raiva as pessoas falavam coisas horríveis, e não queria pensar em Monique como uma pessoa horrível, sequer estava com fome.

Não demorou para que Mascota saísse do seus esconderijo no escritório de Marco, e viesse pra deitar entre as pernas de Yure, sabendo que aquele momento era difícil para eles ali, o animal não sabia o que estava acontecendo, mas entendia que o ruivo precisava de algum apoio ali: -- Eu sei, também estou preocupado com ela. Queria que ela não fosse tão cabeça dura, mas se ela nunca mais quiser me ver por causa disso, eu admito que vou ficar com raiva. -- Amargou aquelas palavras ditas pro animal.

E então puxou o celular e seguiu mandando mensagens para a mais nova, se ela não lesse agora, talvez lesse depois, paciência tinha até certo ponto, mas sentia o peito doer, e a respiração ficar curta, estava com os olhos ardendo e as mãos tremendo. Aquilo certamente era frustração, mas não iria gritar com Monique:

[13:45, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Eu não vou embora agora, e eu não concordo com o fato de como você está conversando comigo, você sempre me cobrou saber como eu estou, se eu estou bem, se as coisas com a minha mãe estão boas, se eu sinto falta do meu pai, se eu tenho medo da escola, e eu falei tudo não falei? Falei dos meus medos de ser um aluno medíocre, de não ser bom em nada, de não ter um sonho bem desenhado pro futuro e só seguir gastando as coisas da minha mãe. Eu me abrir pra você, falei das coisas que me machucam e que me deixam com medo. E eu sei que parece que eu trair sua confiança indo falar com a sua mãe… mas eu queria saber porque ela fez isso com você, porque ela não vem lhe ver, ou trata como se você não estivesse aqui.
[13:46, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Uma vez você me perguntou se eu não sentia falta de ter um pai, e eu disse que não sabia como era a sensação porque eu nunca tive um pai, nunca tive uma figura masculina pra chamar de pai, nem perto disso, mas de verdade, se eu pudesse ir falar com meu pai biológico eu iria perguntar porque ele abandonou minha mãe, porque ele me abandonou, se ele não pensava que eu iria sentir falta dele, ou iria precisar dele. E eu não sei exatamente como você se sente, porque pelo que seu pai falou, teve momentos, que sua mãe foi boa pra você, mas em algum momento ela deixou de se importar… sabe-se lá porque.
[13:47, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Ela não me respondeu quando eu perguntei porque ela não ia lhe ver, ela não sabe qual é a sua cor preferida, ela não sabe nada de você… é como perguntar a uma pessoa estranha quem é você, e essa pessoa não saber nada sobre você. E eu fiquei com raiva dela, porque não é justo, não é justo ela deixar você esperando por uma resposta, se ela gosta de você ou não.
[13:48, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Eu só quero que você saiba, que eu estou aqui, sentada do lado de fora do seu quarto, esperando, porque eu não acredito que você não queira mais saber de mim. Que o que eu fiz seja tão mais tão ruim, a ponto de que você consegue perdoar sua mãe por lhe deixar sem respostas, mas você não pode me perdoar por querer saber mais sobre você.
[13:47, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Mas eu também sou uma pessoa, e eu também estou chateado com você gritando comigo e dizendo que eu sou uma pessoa desnecessária… Eu não quero ir embora assim Monique… mas se eu sair daqui desse jeito, eu não sei se consigo voltar depois…
[13:47, xx/xx/2014] Yure ☆ミ(o*・ω・)ノ: Vem conversar comigo por favor.

Monique

Estava com a cabeça entre os braços e os joelhos dobrados quando sentiu o celular vibrar com as mensagens. Sentiu o coração disparar e o ar ficar preso em seus pulmões em meio ao choro que tentava sem sucesso conter. Sabia que o ruivo estava certo em boa parte do que ele estava colocando ali. Por um instante, começou a sentir ainda mais raiva de Yure pela forma madura como ele estava se comportando. Talvez fosse por isso que a mãe dele nunca tivesse abandonado ele como a sua havia feito, ou talvez o pai dele não fizesse ideia de como inconveniente ele poderia ser. Ele julgava o seu tempo de processamento dos fatos igual ao dele para esperar que ficasse feliz sobre algo que já havia demonstrado desconforto em lidar. E ele havia forçado aquilo, forçado o seu desconforto, invadido aquele seu espaço quando não se sentia confortável para falar sobre o assunto sequer com seu pai. Ainda se sentia traída e muito mais irritada pela forma altamente compreensiva como ele parecia se comportar. Preferia que ele ficasse irritado, que brigasse consigo. Toda aquela condescendência lhe fazia lembrar justamente de sua mãe, de como a mulher nunca parecia irritada, até mesmo nos dias em que acabava aprontando, ela sempre parecia feliz, feliz e decepcionada no fundo do olhar. Sabia que no final de tudo sempre seria apenas aquilo para as pessoas: uma grande decepção.

Levantou-se em meio às lágrimas e jogou o celular na cama. Secou as lágrimas com as costas das mãos e o nariz corizando antes de destrancar a porta, abrindo-a pouco depois para poder observar o garoto que antes estava recostado ali.

- Eu não pedi para você falar nada dos seus problemas para mim, eu não te obriguei a isso. O que você não entende, Lukashenko, é que nem todo mundo quer a sua salvação. Se eu quisesse falar sobre o meu problema com a minha mãe para alguém, eu falaria, tanto que falei para você. Mas olha o que você fez! Eu não pedi nada disso! Até mesmo agora você não percebe o quão inconveniente você pode ser! Você nunca percebe como isso pode magoar as pessoas?! Eu confiava em você, eu realmente achei que você poderia ser alguém que pudesse me entender, mas você queria resolver meus problemas por mim, por que? Porque eu realmente sou tão inútil assim para você que além de fazer amigos, eu preciso da sua ajuda para resolver tudo na minha vida? O senhor Perfeito precisa de uma namorada tão perfeita quanto ele mesmo?! - respirou fundo, já sem conseguir mais conter as lágrimas enquanto segurava firme a maçaneta da porta para controlar o tremor em uma das mãos. - Quando você descobrir que não pode resolver os meus problemas, talvez você faça exatamente como ela… e vá embora. - acabou rindo baixo diante daquela situação, constatando que no final das contas o problema sempre era ela mesma. - Talvez você devesse mesmo ir embora e procurar alguém que aceite a sua inconveniência. - desfez o sorriso, encarando o ruivo com um ar mais sério, ainda muito magoada pela atitude dele em procurar sua mãe sem que soubesse. - Vá embora.

Disse a ele em tom de ordem, ciente de que estava em sua casa afinal. Não queria lidar com aquela situação naquele momento, sequer tinha cabeça para lidar com os próprios sentimentos naquele instante. A única coisa que tinha certeza era que não queria ter de ouvir as justificativas do ruivo diante de todo aquele inferno que haviam se tornado suas emoções e pensamentos.

Yure

O ruivo estava sentindo frio no estômago e sabia que aquilo era nervosismo por causa daquela briga toda, queria que Monique deixasse de toda aquela birra e sentasse com ele pra conversar. Sabia que não tinha feito nada de errado, mas estava se sentindo mal por que a mais nova estava se sentindo tão mal, então só talvez tivesse passado dos limites? Escutou os passos pesados do outro lado da porta e desencostou em tempo da morena abrir a porta, mascota correu pra dentro do quarto da morena e se escondeu debaixo da cama, nem de longe estava acostumada a toda aquela troca de gritos.

Yure se levantou do chão, ouvindo cada uma das palavras dela, e cada uma o deixava mais frio, como se toda a temperatura do corpo estivesse lhe fugindo, mas estava se esforçando pra escutar tudo, porque queria que ela lhe escutasse também, mas ela estava sendo irredutível, e só ela que tinha direito de falar. Quando mais uma vez ela distorceu o seu ponto de vista, colocando como se o ruivo estivesse impondo a ela um tipo de comportamento “perfeito” que jamais tinha pedido, aquilo lhe embrulhou o estômago e sentiu a garganta ficar azeda. Torceu a expressão em desagrado e ficou muito claro no rosto do ruivo que ele estava frustrado e não irritado: -- Eu não te pedi perfeição, pedi só pra gente sentar e conversar sob- …! -- Sequer teve tempo de terminar a frase quando a mais nova foi muito clara em dizer que deveria procurar outra pessoa que aceitasse sua inconveniência, e aquilo pôs uma expressão de surpresa no rosto do ruivo, Yure abriu a boca pra responder mas ela foi mais rápida em lhe mandar ir embora.

Yure fechou a boca e franziu as sobrancelhas, e não desviou os olhos castanhos de Monique, encarando-a firmemente, então sentiu uma onda de calor invadir seu corpo, e só queria realmente ir embora. Porque todo o comportamento de Monique se refletia em apenas ingratidão, um comportamento mimado e egoísta, sabia que a morena tinha todas aquelas características, mas não esperava que ela jogasse seu pior lado, justamente quando mais precisavam conversar.

Deu um passo pra traz e cerrou os punhos mantendo-os juntos ao corpo, porque não queria parecer agressivo com ela no sentido de revidar fisicamente, mas queria deixar claro, que até sua paciência tinha limite:

-- Se eu for embora por aquela porta, eu não volto mais Monique.

Monique

A morena estava arfando ao terminar de falar, o peito subia e descia conforme seu nervosismo batia e a cabeça latejava com a dor do incômodo por estar no meio de toda aquela confusão. Notou quando o ruivo se afastou e lhe deu o ultimato e, sem sequer pensar duas vezes, tomada por toda a raiva que lhe invadia pela atitude do namorado, apertou o punho na maçaneta da porta do próprio quarto e franziu o cenho em resposta a condição dele.

- Vá. embora.

Respondeu com o tom de voz seco e os olhos ainda marejados por conta de toda a raiva e angústia devido a ideia de ter perdido a única oportunidade de ainda conseguir reencontrar sua mãe novamente. E agora, além desse problema, tinha de lidar com a ideia de que não apenas o namorado havia mentido para ela, mas como seu pai também. Não podia mesmo confiar em ninguém. Ele sabia que o assunto era delicado para sua pessoa, mas mesmo assim, ele tomou a atitude de procurar sua mãe quando nem sequer havia falado com sua pessoa primeiro.

Não esperou a reação do ruivo, apenas fechou a porta de seu quarto novamente e voltou para sua cama, derramando as lágrimas antes contidas enquanto era consolada por mascota. Abraçou o animal, apesar da ideia de lembrar que o animalzinho havia sido uma conquista feita com o namorado que mentiu para ela e traiu sua confiança. Só tinha vontade de chorar por toda a bagunça que novamente se tornava sua vida familiar.

Yure

O ruivo estava num misto de raiva e principalmente frustração, normalmente deixaria tudo aquilo muito claro no seu rosto, mas naquela hora em que encarava o rosto de Monique vermelho, sentia toda a sua voz, choro e tudo mais que tinha pra dizer engasgado na garganta junto com o fôlego. Tinha esquecido como se respirava, essa era a verdade, e quando ouviu as palavras ditas novamente em tom de ordem vindas de Monique, a sua reação inicial foi franzir as sobrancelhas, seguido de surpresa, e depois desviou o olhar em direção ao corredor da saída do apartamento, não falou nada, e então caminhou em passos inicialmente lentos, ouviu o bater da porta do quarto da mais nova e só quando levou a mão a maçaneta que percebeu que estava com as mãos suadas e trêmulas:

-- Estou saindo senhor Biedermeier. -- a voz saiu baixa e engasgada, nem sabia se ele estava realmente ouvido, mas não iria falar nada mais que aquilo. Girou a maçaneta e abriu a porta indo pelo corredor, pelo elevador, o porteiro perguntou se ia sair tão cedo e apenas acenou de volta pra ele. O ruivo pegou uma condução de volta a St. Clavier, e estava repassando a conversa que tinha tido com a mãe de Monique, e agora com a mai nova, e como tudo que fazia ou pensava sempre parecia errado, estava tão cansado de estar e esforçando pelos amigos, pelas outras pessoas, pela namorada, ou melhor “ex-namorada” e como sempre parecia que tudo que estava fazendo era errado. Era inconveniente, era imaturo, era exigente, era exibido, era metido a sabe tudo, mas não sabia de nada, mas não entendia os sentimentos dos outros, mas não ligava, e as pessoas se contradiziam e o próprio ruivo estava definitivamente cansado das pessoas.

Quando chegou ao quarto do dormitório masculino, marcou nas redes sociais que estava solteiro, bloqueou Monique de tudo que tinha de ligação com ela, saiu dos grupos com ela e desinstalou os aplicativos de rede social, não queria conversar com ninguém, não queria ver ninguém, botou pra rodar música e o fone de ouvido, e só naquela hora quando estava deitado no seu quarto, que sentiu o corpo todo frio e o rosto quente, e uma vontade enorme de chorar.

Porque tinha de ser uma pessoa mediana em tudo, e não fazia nada direito no final das contas, queria não ser ele mesmo naquelas horas.

[thread encerrada]


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[Drive] Lavando Roupa Suja [Monique; Marco; Yure] - by Lil - 08-29-2021, 09:23 PM

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