[Drive] After Hours [Natalia; Karen]
#1
Natalia

Mais uma vez, estava cansada ao sair do plantão e precisava de alguma coisa para forrar o estômago. Infelizmente, não conseguiu fazer suas refeições no hospital porque alguém de fora havia precisado de seus favores de última hora. Aparentemente alguns de seus clientes ainda precisavam de cuidados depois de algumas sérias discussões entre grupos distintos. Sentia falta de poder sair com seu celular e carro mais à vontade sem o medo de ser rastreada o tempo todo pelo novo policial na cidade.

Saiu do trabalho extracurricular guardando o jaleco sujo na bolsa que usava transversalmente, ajustando a alça mais uma vez que ficava lhe marcando de forma desconfortável o busto. Pelo menos a maquiagem ainda estava sustentando suas olheiras. O cabelo estava preso em uma trança frouxa improvisada enquanto a blusa de tecido fino e confortável, branca, contrastava com a calça de linho e corte fino. Não estava fedendo por se preocupar bastante com sua higiene pessoal, mas estava desejando um banho relaxante depois de passar mais algumas horas costurando homens ingratos e viciados.

Passou em uma loja de conveniência perto de onde estava morando para comprar alguns produtos que estava precisando. Pegou a cestinha de compras e encheu com quatro garrafas de cerveja, uma barra pequena de chocolate, um esmalte nude barato e ainda precisava comprar algo mais consistente para encher sua barriga. Estava passeando pelas prateleiras em busca de alguma comida instantânea, quando percebeu, pela brecha de alguns produtos, um de seus macarrões instantâneos preferidos. Sentindo-se com sorte, ao invés de dar a volta pelo corredor, estendeu o braço entre os produtos para alcançar o pote, animada com a ideia de poder misturar aquele macarrão com algum queijo que não estivesse mofado em sua geladeira.

Karen

A frequência de trabalhos estava menor naqueles tempos e Karen gostava do ritmo mais lento das viagens. Eventualmente, ele teria que se mover entre países mais rápido e não teria tempo nem para descansar, menos ainda se recuperar de ferimentos eventuais. O corpo estava tão em forma e livre de machucados que era quase uma sensação estranha não ter nada que consertar ou algo de que sentir dor. Mas a cidadezinha pitoresca no interior da França que tinha trazido umas surpresas interessantes se tornou o seu refúgio temporário e quase um lar.

Tão convencional quanto um lar, porque ele até frequentava o apartamento do agente funerário quase como se fosse seu e conversava até com estranhos como se não fosse uma pessoa perigosa. Ainda mais ordinário era passar numa loja de conveniência para comprar comida que fosse fácil de preparar. Se estivesse talvez um pouco mais relaxado, estivesse até sem boné, o que não era o caso. A calça jeans era mais discreta do que as calças militares, as botas de caminhada também mais simples do que os coturnos, a camisa básica branca e um boné preto para disfarçar mais a cicatriz gritante no olho.

Ele pegou uma caixa de cerveja num dos corredores e em outro, ponderou sobre uma comida mais consistente ou algo fácil de preparar. Cedeu a estender a mão até um dos copos de macarrão instantâneo, mas não antes de notar que outra mão tinha atravessado a prateleira para tentar pegar a mesma coisa. Ele olhou através dos produtos para enxergar com um pouco de dificuldade um rosto até levemente conhecido. Não foi difícil pegar o pote de macarrão, já que era bem fácil assustar pessoas que conheciam o seu lado profissional. Mas ele fez questão de dar a volta na prateleira para encarar a médica que tinha lhe costurado muito bem nos últimos meses, erguendo o copo de macarrão para ela.

- Você é uma médica. Não devia comer melhor que isso?

Natalia

Piscou algumas vezes ao se deparar com aquela mão masculina maior que a sua, tomando o copo plástico grande com a comida instantânea. Puxou a própria mão de volta em um reflexo, cerrando os lábios, inquieta ao reconhecer a figura do profissional do outro lado da prateleira. Olhou ao redor, incerta sobre qual caminho deveria tomar quando o sujeito enorme apareceu na sua frente no corredor, erguendo-lhe o que seria seu jantar naquela noite.

Encarou o sujeito ainda em silêncio, e logo em seguida observou o copo de macarrão, aceitando o mesmo com certa hesitação antes de verificar o que o outro estava levando na própria cesta. Sorriu antes de apontar para a cestinha dele, rindo baixo.

- Você toma a mesma cerveja? - arqueou uma sobrancelha, voltando o olhar para cima ao encarar o sujeito antes de se dar conta novamente do tamanho dele. - Oh, eu não… - fez uma breve pausa, pensando em como poderia explicar aquilo. - … não cozinho. - admitiu, desviando o olhar do sujeito para poder colocar o copo de macarrão a sua frente, tentando verificar as informações nutricionais que já sabia que eram péssimas. O semblante ainda estava cansado e realmente não queria ter que pegar nenhuma receita no celular para tentar queimar uma panela em sua cozinha ou comer algo sem tempero porque sempre errava na medida das coisas. - E por que está comprando isso aqui? Um homem do seu tamanho deveria comer mais proteína, carboidratos. - deu de ombros, colocando o copo de macarrão instantâneo em sua cestinha. - E aí? Tudo bem? Está “a trabalho”?

Sorriu um pouco sem graça, achando melhor perguntar primeiro sobre o motivo de ter reencontrado o sujeito em Cerise. Sempre imaginava que, ao encontrá-lo, ele estaria a serviço e talvez alguém finalmente estivesse tentando lhe matar. Era uma das paranoias com as quais tinha que conviver por estar no ramo de saúde clandestina.

Karen

Ele nem olhou para a cerveja que ela estava apontando, notou que ela estava com a mesma na cesta, mas parecia só a mais fácil de tirar da prateleira. E não era como se ficasse bêbado com aquela água.

- Não quero ficar bêbado. - ele respondeu, dando de ombros sobre a cerveja enquanto ela pegava o copo de macarrão instantâneo para conferir informações, revelando que não cozinhava, o que parecia um pouco mais surpreendente. Não pretendia prolongar a conversa, mas ela que perguntou por que estava comprando o macarrão. - Porque eu não tenho uma cozinha.

Certamente era mais fácil fazer um macarrão instantâneo do que comprar os ingredientes para preparar alguma refeição minimamente decente. Não era um chef, mas sabia pelo menos se virar e preparar o suficiente para sobreviver.

- Não. Eu gosto de cidades pequenas, é calmo. - ele respondeu, dando uma última olhada na comida toda pronta que ela carregava na cesta e depois um olhar obviamente analítico na mulher dos pés à cabeça. - Você que deveria comer mais proteínas e carboidratos. Dar exemplo.

Natalia

Imaginou que um homem daquele tamanho precisaria de tanto álcool quanto seu carro para conseguir ficar embriagado. Achou curioso o fato dele não ter uma cozinha, sugerindo que ele deveria estar em algum tipo de motel ou coisa do gênero. Ou ele também poderia estar dormindo em algum abrigo, daqueles que recolhem pessoas das ruas e oferecem um lugar apenas para dormir durante a noite.

Observou melhor o sujeito quando ele olhou de cima a baixo e acabou por abafar o riso novamente ao ser criticada sobre sua alimentação. Pelo menos podia dizer que tinham gostos similares, tanto para amigos fúnebres como para cidadezinhas pequenas e tranquilas.

- Eu costumo comer no hospital, mas precisei sair mais cedo para trabalhar de novo. - suspirou conformada ao se explicar para o sujeito, recordando um pouco de como não era a primeira vez que ouvia aquele tipo de comentário. - Se o problema é uma cozinha, quer usar a minha? - sugeriu após ponderar por alguns minutos, não era como se o sujeito tivesse muita dificuldade em lhe encontrar de qualquer forma, estava perto de seu apartamento, de qualquer modo, ele poderia ter acabado com sua vida naquela lojinha se quisesse. - Quer dizer, você sempre pode usar a do cara da funerária, não é como se ele fosse lhe expulsar de qualquer forma.

Deu alguns passos para poder passar pelo sujeito, passando pelo lado dele ao observar melhor o tamanho do sujeito, estreitando o olhar para qualquer machucado que ele poderia ter sobre a pele, aparentemente.

- Hm. Você parece bem. Foi para a praia? - brincou, imaginando que ele, assim como ela, também podia se dar ao luxo de vez em quando tirar alguns dias de folga.

Karen

Karen seguiu para pegar outro do mesmo macarrão instantâneo, já que era o que tinha de mais prático, mas parou o gesto quando ouviu a proposta inusitada da médica para usar a cozinha alheia. Parou o que estava fazendo para se virar quase completamente na direção dela, ouvindo também sobre a casa de Diodoro em que podia usar a cozinha se quisesse também. Não era comum receber aquele tipo de convite, por isso ele demorou alguns segundos antes de responder alguma coisa, enquanto a médica passava direto por ele.

- Você tem carne na sua cozinha? - ele perguntou, seguindo os corredores da conveniência para procurar alguma coisa que pudesse preparar numa cozinha decente, e que fosse consistente, mas também rápido. A parte boa das conveniências era não ter que arrancar a pele de nenhum animal morto para tratar antes de comer.

Ele só parou de pegar comida de verdade nas prateleiras quando ouviu a pergunta se tinha ido à praia. Se virou totalmente na direção da médica de novo.

- Não se não tiver ninguém pra morrer lá. - ele respondeu, seguindo o caminho para pegar mais itens para preparar uma refeição decente, devolvendo então o mesmo olhar analítico para a médica. - Você não parece bem. Trabalho?

Natalia

Ficou surpresa quando o sujeito começou a selecionar os ingredientes do que imaginou ser algum preparo na cozinha que ele pretendia usar. Demorou alguns instantes até se dar conta do que estava acontecendo: havia oferecido sua cozinha sem pretensão a princípio e o homem grande havia aceitado sua oferta.

- Ah… não. - respondeu sobre a carne em sua cozinha, seguindo-o conforme ele selecionava o que precisava para preparar o que quer que ele fosse fazer em sua cozinha. Pensou em voltar atrás em sua oferta, mas de qualquer forma, não queria ser rude com o maior, muito menos estava com energia para fugir naquele momento.

Acabou rindo quando ele lhe admitiu que não havia frequentado a praia por não ter ninguém para matar lá. Não sabia se ele não entendia seu humor ou se era sério demais para se dar ao luxo de sorrir de qualquer forma. Contudo, parou de rir quando ele comentou sobre sua aparência, suspirou derrotada.

- Também, tive um plantão hoje e trabalho extra. - explicou, jogando o cabelo agora mais loiro que azul por sobre o ombro, aproximando-se para observar o que ele havia escolhido e colocado na própria cesta. - Já que vai cozinhar, eu pago pelos ingredientes. Não quero ficar devendo nada. - sorriu amistosa, considerando que não era de bom tom ficar devendo nada para o sujeito. - Acha que isso é suficiente para nós dois? - perguntou, curiosa com o que ele poderia preparar. Era estranho estar ali discutindo como iriam comprar os ingredientes para o jantar. Até se sentia em uma cena normal de uma vida cotidiana se não fosse pelo fato da vozinha no fundo de sua cabeça sempre lhe lembrar sobre o outro ser um homem perigoso e forte o bastante para lhe cozinhar se precisasse. O pensamento lhe fez sentir um arrepio percorrer sua espinha, mas arqueou os ombros, afastando a ideia pelo cansaço.

Karen

Karen não estava acostumado a o que era normal na cozinha de uma pessoa com um trabalho e uma vida convencional, mas até ele ficou um pouco surpreso que ela não tinha isso em casa. Seguiu para pegar arroz, tempero, verduras, nada muito complicado para fazer uma refeição muito simples. O importante era a carne, de todo jeito, e para duas pessoas como os dois, teria que ser bastante comida.

Eles mal alcançaram a sessão de frios quando ela respondeu sobre o plantão e o trabalho extra, com o qual Karen já estava bastante acostumado, tinha se tornado um paciente frequente da doutora naquele sentido. Também não foi surpresa que ela não quisesse ficar lhe devendo, dada a natureza do seu trabalho, mas quando ela perguntou se a comida era o suficiente para os dois antes mesmo dele pegar o prato principal, parou onde estava, olhando para a médica de cima abaixo de um modo analítico.

- Acho que é mais do que suficiente. - ele respondeu, numa insinuação nada saudável de canibalismo. Mas com um sorriso discreto, ele pegou alguns pedaços grandes de bife congelados para colocar na cesta e seguirem até o caixa.

A reação de medo e receio do atendente foi apenas esperada quando Karen chegou com os itens para que Natalia pagasse. Talvez o homem tivesse tentado se comunicar com a doutora apenas pelo olhar, como se quisesse perguntar se ela estava sendo sequestrada ou ameaçada, mas Karen só esperou paciente até que as compras fossem pagas para deixarem a loja de conveniência e ele se voltar na direção da médica, levando metade das sacolas mais pesadas com as cervejas.

- Para onde?

Natalia

Encarou o sujeito de volta enquanto ele lhe analisava, dando-lhe aquela resposta sobre a quantidade de comida que precisavam. Arqueou uma sobrancelha desconfiada logo depois, sem entender direito se ele estava falando sério ou se tudo aquilo era uma piada de mau gosto. Ao menos ele parecia ter pego bastante carne. Gostava de comer carne e sentia falta de comer algo bem temperado. No hospital só conseguia se alimentar com pouco sódio e comidas de nutrientes balanceados.

Aproximou-se do caixa para pagar pela comida, observando o homem mais jovem que lhe atendia desconfiado do cara maior ao seu lado. Olhou para o mais alto em silêncio, considerando que de fato ele deveria parecer assustador para muita gente. Sorriu discretamente com pena do atendente, considerando que ele não fazia ideia da metade do que aquele homem era capaz.

- Ele sempre fica assim quando está com fome, não dê importância, querido. - comentou com o caixa enquanto colocava a senha de seu cartão, agindo como se fosse íntima do sujeito de alguma forma. Ajudou a separar os itens nas sacolas e, ao sair, aproveitou para segurar o braço do homem mais alto, saindo da loja de conveniência como se estivessem juntos.

Entretanto, assim que se viu longe do olhar do caixa, afastou-se, desculpando-se rapidamente pelo inconveniente com o amigo de seu amigo. Ouviu a pergunta sobre para onde deveriam seguir e tomou um passo à frente, guiando o sujeito.

- Duas ruas descendo, esquerda, condomínio. - explicou rapidamente. Naquele horário que voltava do trabalho, não havia muita gente na rua e era comum se deparar com alguns dos moradores da região, a maioria era de trabalhadores da região portuária de Cerise. Não demorou mais que quinze minutos para chegarem na porta de seu apartamento. O silêncio era comum naquele andar, considerando que a maioria dos outros apartamentos estava ainda vazio. Destrancou a porta e adentrou, dando passagem para o sujeito maior fazer o mesmo assim que também ligou o interruptor da sala.

O lugar era muito simples, um sofá, uma televisão, mesa de jantar pequena ao canto próxima da janela que estava com as cortinas fechadas, e um pequeno corredor que levava para os quartos e cozinha. Largou a bolsa sobre a mesa de jantar e foi direto para a cozinha, ligando um novo interruptor antes de verificar que a pouca louça que havia usado no dia anterior ainda precisava ser lavada.

- Eu vou tomar um banho, mas fique à vontade. Pode deixar que a louça eu posso lavar depois. - avisou, colocando a sacola de compras que carregava sobre o balcão da cozinha antes de colocar as cervejas na geladeira. - Se precisar de alguma panela, faca, elas devem estar em algum lugar nos armários. - avisou antes de seguir para o corredor onde poderia finalmente encontrar o banheiro e tomar um banho quente relaxante e se livrar de todo aquele odor de álcool e antiséptico. - Qualquer coisa, pode chamar! - gritou já do banheiro, encostando a porta.

Karen

Karen não deu muita atenção à proximidade da médica, nem ligou para a reação assustada do atendente, só seguiu pelo caminho indicado pela mulher para chegarem até o apartamento dela. Já tinha sido atendido por Natalia algumas vezes em Cerise, mas certamente não tinha ido até onde ela morava. Não que não soubesse, afinal, precisava saber muitos detalhes das pessoas com quem se envolvia, só não tinha sido convidado diretamente.

Ele não teve problemas em se fazer confortável no apartamento, passou direto pela sala para ir até a cozinha depois do corredor, acompanhando a mulher. Para um apartamento não tão grande e com duas pessoas como os dois, seria um espaço apertado para preparar qualquer coisa. Mas Natalia só deixou as compras e avisou que iria para o banho, o que lhe dava mais espaço útil para preparar alguma coisa.

Karen só concordou com um aceno de cabeça discreto e a mulher seguiu de volta pelo corredor enquanto ele procurava tudo para começar a preparar provavelmente a única refeição decente que tivera em alguns longos meses. E já fazia tanto tempo que não tinha uma cozinha para preparar algo que quase estranhou o ambiente. Ficou mais familiarizado com as facas, preparando os bifes primeiro e procurando as panelas nos armários, deixando uma das cervejas geladas para tomar enquanto fazia a comida e as demais colocou na geladeira.

Ele não preparou nada complicado e nem pretendia, separou o arroz para fazer numa panela, e deu mais atenção a temperar a carne e colocar os bifes numa assadeira maior. Cortou as verduras de um jeito mais grosseiro, mas bem eficaz, para fazer também um ensopado com mais verduras e legumes, assim como pedaços de carne, num dos poucos pratos tradicionais que tinha aprendido a preparar ainda na Rússia. Não tinha muita oportunidade de preparar uma refeição decente, então até se distraiu por uns instantes no preparo enquanto o cheiro da carne temperada e da sopa invadia o apartamento pequeno.

Natalia

Tomou um banho mais demorado, relaxando no banheiro ao usar a água quente para aliviar a tensão em seus ombros. Após usar seu hidratante corporal e vestir sua roupa íntima, colocou o roupão de seda que costumava usar para dormir. Talvez aquele visual lhe fizesse parecer um pouco mais excêntrica, mas era o que gostava de usar para dormir. Deixou o banheiro depois de colocar a roupa que estava usando no cesto para lavar, saindo descalça e com a toalha nos cabelos claros, secando os fios com paciência.

- Own… - respirou fundo, sentindo o aroma delicioso de carne bem temperada no ar, guiando-a para a cozinha. Parou na porta, observando o mais alto enquanto ele terminava de preparar o que deveria ser o jantar. Recostou-se no arco da porta e ficou quieta durante alguns instantes, encarando aquela cena. Era estranho e ao mesmo tempo agradável ter alguém onde morava preparando-lhe o jantar. Sorriu amistosa, deixando a toalha que usava para secar os cabelos em seus ombros. - Se quiser tomar um banho, o banheiro fica no final do corredor. As toalhas limpas ficam no armário.

Foi até o armário para poder pegar a louça e colocá-la na mesa para o jantar, tomando cuidado ao equilibrar tudo para não deixar que nada caísse. Ficou na ponta dos pés, sentindo falta dos saltos que costumava usar, ao buscar os últimos pratos limpos na prateleira mais alta.

Karen

Por mais incomum que fosse ter uma cozinha para preparar uma refeição decente, ele não se importou em se sentir bem confortável para fazer a comida. E tanto quanto ele estava tomando conta da cozinha, pelo visto, a médica também estava confortável até demais com um estranho que ela sabia exatamente o que fazia para ganhar dinheiro. Mas se a mulher tinha aparecido naquelas roupas no portal da cozinha, parecia ter sido um belo desperdício começar a fazer a comida se eles iam se distrair com outra coisa.

Karen mexeu na carne e voltou na direção dela, para tirar os pratos que ela não alcançava na prateleira.

- Se era pra transar primeiro, não devia ter começado a comida. - ele comentou, apoiando a mão na mesa ao lado da médica, mantendo a proximidade dela, em lugar de cobrir logo o resto da distância, afinal, era bem óbvio que ela estava se insinuando naquelas peças de roupa.

Natalia

Já estava alcançando sua louça com a ponta dos dedos quando notou a presença próxima do maior, retirando os pratos que quase nunca usava. Estendeu as mãos como se fosse pegar as peças das mãos dele para colocar tudo na mesa após limpar a poeira na pia, afinal, quase nunca usava aquela louça, quando se deu conta do comentário do sujeito sobre “transar primeiro”. Olhou para o lado onde ele apoiava a mão na mesa, mantendo a proximidade perigosa.

Deixou a louça de lado com cuidado, virando-se de frente e erguendo ambas as mãos em defesa na frente do próprio corpo, erguendo o olhar para observar o sujeito de atmosfera sóbria.

- Só um momento, por favor. - colocou as mãos no peito do sujeito, esperando que ele não avançasse sobre si por algum mal entendido de sua parte. - Você. - apontou o dedo para ele, tentando falar com calma, apesar da presença do outro próxima demais lhe deixar tensa, justamente por ter a impressão de que o sujeito não tinha muito ideia de como controlar a própria força. - Quer… - apontou para si mesma, sorrindo descrente. - … transar comigo? É isso?

Não sabia de onde tinha nascido aquele desejo do outro. Claro, era uma mulher bastante atraente, sem sombra nenhuma de dúvida. E entre os sujeitos com quem já havia tido a oportunidade de ir para a cama naquela cidade, não lembrava de nenhum com quem já tivesse tido uma completa boa experiência. Nos últimos meses, estava tão estressada com a situação do assassino da garotinha loira que sequer teve disposição para sair e procurar aquele tipo de conforto. Contudo, não imaginava que o homem à sua frente fosse do tipo carente ou coisa do tipo, às vezes lhe custava assimilar a ideia de que ele também se machucava e que precisava dela de vez em quando para uma costura mais precisa.

Karen

Karen baixou o olhar brevemente para a mão dela que encostava em seu peito, mas não era para continuar algum avanço, pelo visto, porque ela pediu para esperar ainda. Era melhor desligar o fogo primeiro, claro, ou iriam acabar provocando um incêndio. Mas a dúvida dela mais genuína ficou mais clara quando ela perguntou se ele queria dormir com ela. Karen não mudou a expressão, olhando-a de cima com a diferença de altura considerável já que ela não usava saltos.

- Não faz diferença pra mim. - ele deu de ombros, como se fosse só mais um gesto casual do dia-a-dia, sair dormindo com pessoas com quem encontrava, claro, as que não queria matar e que não queriam lhe matar de volta. - Vai querer ou não?

Ele ainda olhou para o que tinha deixado no meio do preparo da comida, o cheiro agradável invadindo o apartamento pequeno que poderia facilmente se tornar um cheiro de queimado se eles ficassem naquela conversa por muito tempo.

Natalia

Piscou algumas vezes ao ouvir a resposta do maior, observando a linguagem corporal dele ao dar de ombros sobre toda aquela situação. Teve vontade de rir, pois sentia que estava preocupando-se demais por conta de suas próprias suposições sobre o desejo de um homem que não parecia sequer atraído por sua presença como a maioria dos sujeitos com quem já havia ido para cama.

- Eu quero comer, no momento. O jantar já está pronto? - perguntou finalmente ao notar que ele também parecia mais interessado com a comida que estava no forno do que em sua pessoa. Não se importava com o desinteresse sexual dele em sua pessoa. Na verdade, estava mais interessada em como um sujeito como ele conseguia agir daquela forma mais passiva e educada quando ele poderia facilmente fazer o que quisesse consigo naquela situação, a própria linguagem corporal dele parecia ameaçadora aos seus olhos. Todavia, naquele momento, começava a duvidar de seu próprio julgamento.

Aproveitou a oportunidade para pegar os pratos que o sujeito havia lhe ajudado a tirar do armário para poder colocar os objetos, juntamente com os talheres, à mesa. O aroma da comida preparada pelo sujeito já lhe deixava com água na boca pela fome e pela saudades que sentia de comer algo caseiro de verdade.

- Onde foi que aprendeu a cozinhar assim? - arriscou perguntar enquanto abria uma latinha de cerveja para poder acompanhar a refeição. Normalmente não perguntaria nada para o sujeito, porém, como ele estava sendo tão solícito em sua residência, resolveu testar a própria sorte com a simpatia do homem.

Karen

A resposta dela até poderia ser de conotação duvidosa, mas Karen ficou mais satisfeito de que teria uma boa refeição ao invés de comida de conveniência. Ele voltou para as panelas e foi conferindo o que já estava pronto para desligar o fogo e tirar a comida para servir na mesa de jantar. Natalia voltou para pegar uma cerveja e ele aproveitou a deixa para estender a mão pedindo por uma lata também.

- Estão prontos. - ele indicou o que ela podia levar para a mesa e pegou uma cerveja para si também, acompanhando a mulher de volta até a mesa para se sentar num dos lugares em que o fazia parecer ainda maior, em comparação aos móveis.

Enquanto se servia das porções de comida, ele pareceu ignorar a pergunta de Natalia por longos minutos que se transcorreram de um silêncio incômodo. Só depois de ter começado a comer, foi que ele quebrou o silêncio para responder a pergunta anterior da médica.

- Rússia.

Natalia

Pegou uma cerveja para o sujeito enorme, acompanhando-o para a mesa de jantar. Ficou até um tanto constrangida após ter sua pergunta aparentemente ignorada pelo sujeito, mas acabou contentando-se em comer a comida feita em casa que parecia de fato muito saborosa para o seu paladar, gostava de uma boa carne. Ao ser respondida, arqueou uma sobrancelha, estranhando aquela resposta por alguns instantes antes de recordar sobre o que havia perguntado. Riu baixo com a resposta mais tardia dele, mas não deixou de se alimentar, considerando se deveria pegar um pouco mais da comida ou não.

- Hm. Queria te perguntar… - fez uma pequena pausa, arrumando a postura enquanto uma das alças de seu roupão escorregava pelo ombro, revelando a alça do sutiã de renda que gostava de usar quando estava em seu apartamento. Encarou o sujeito que parecia bem maior que sua própria figura, apontando o garfo para ele com um pedaço de carne na ponta. - … como eu posso te chamar? Acho que já sabe que meu nome é Natalia, mas eu nunca soube o seu. - fez uma nova pausa, levando a carne até a própria boca, mastigando e engolindo. - É meio estranho te chamar de o “cara” que o Dio conhece. Ou o “cara grande” que anda por aí. Claro que não estou falando do seu nome-nome, mas tem algum nome que eu posso usar? Eu sou horrível com apelidos, então se depender de mim criar um pro senhor, é capaz de eu continuar te chamando de “cara”. - explicou, desatando a falar enquanto jantavam. A sensação agradável de satisfazer seu estômago lhe trazia uma sensação de conforto que lhe permitia se sentir menos assustada na presença do sujeito maior.

Karen

Assim como a médica tinha se concentrado na comida, ele fez o mesmo, achou que o resto da refeição seria mais tranquilo, até ela quebrar o silêncio depois da sua resposta sobre onde tinha aprendido a cozinhar. E o que antes era um silêncio quase sepulcral foi tomado pelas palavras receosas, mas um pouco mais firmes da doutora, que pareceu perceber a sua resposta sobre a Rússia como uma carta branca para seguir falando e falando. E tudo aquilo para perguntar o seu nome. Ele parou de comer só um instante para encará-la de volta, não devia ser muito agradável para ela ou qualquer outra pessoa ser encarada fixamente por ele enquanto segurava uma faca na mão.

- Você fala muito. - ele respondeu, sem dar qualquer informação antes de voltar a comer, assim como a primeira resposta tinha demorado, ele ainda comeu da carne e bebeu cerveja, sentindo-se mais saciado antes de dar uma resposta direta. - Karen.

Natalia

Engoliu o pedaço de carne de uma vez assim que o sujeito maior lhe respondeu sobre seu costume de falar demais. Baixou o olhar, apoiando o queixo na palma da mão em silêncio, desviando o olhar sobre a cena da mesa posta para a televisão em sua sala que estava desligada. Pensou em silêncio sobre ligar o aparelho e acompanhar o noticiário para não ter que incomodar o sujeito que parecia desgostar do tom de sua voz. Já estava perto de terminar sua porção quando ouviu o nome peculiar que saia dos lábios do moreno.

Arqueou uma sobrancelha, observando o homem em silêncio enquanto mastigava. “Karen” era um nome simples, ao seu ver, mas não tão comum por aquela região. Não havia sobrenome e não podia dizer que julgava que esse nome cabia bem no outro, mas também nunca havia sido questionada sobre nomear ninguém em sua vida.

Ao invés de dar continuidade à conversa, resolveu permanecer em silêncio durante a refeição, levantando-se apenas para pegar mais uma cerveja, trazendo outra para o maior por educação. Até se recordava um pouco de seus jantares em família em que costumava comer em completo silêncio a julgar pelo gosto pessoal de seu pai pela “paz” doméstica. Quando estava perto de terminar sua refeição, espreguiçou-se, satisfeita.

- Ahh, tava muito bom! - apoiou os cotovelos sobre a mesa e o queixo sobre as palmas das mãos. - Ei, Karen. - fez uma pausa, esperando a atenção do outro. - Você está mesmo trabalhando por aqui? Não acha meio perigoso ficar por aqui depois que aquele maluco lá estava sendo procurado pela polícia? Eu pensei que te encontraria bem menos vezes nessa vida, mas parece que gostou tanto da cidade quanto eu. Arrumou namorada, foi? - desatou a tagarelar novamente, julgando que já havia terminado sua refeição.

Karen

Depois de dar a resposta sobre o nome, a médica voltou a ficar em silêncio e eles seguiram a refeição sem interrupções. Ele não hesitou em aproveitar da comida que tinha raras oportunidades de provar, ou mesmo de fazer, e ainda pegou mais cerveja para compartilhar com a médica, o que era uma situação bem estranha e tranquila que estava se tornando recorrente naquela cidade pacata.

O silêncio só foi quebrado quando ela terminou a refeição e chamou sua atenção, perguntando sobre trabalho e uma série de coisas desatando a falar como antes. Ele levou a cerveja aos lábios, encarando-a por cima da bebida por um instante longo.

- Não estou trabalhando aqui. Eu não tenho nada a ver com ele, nem ele comigo, não tenho porque me preocupar. - ele respondeu, dando outro gole grande na cerveja que chegou fácil na metade, ouvindo a pergunta dela sobre ter uma namorada, mas não mudou em nada a expressão e seguiu bebendo. - Não. É uma cidade quieta, boa para descansar.

Natalia

- Sim, é boa mesmo. - sorriu mais amistosa, concordando com ele sobre ser uma cidade boa para descansar. Estava mais aliviada em ouvir do outro que ele não tinha nenhuma relação com o sujeito maluco que havia cuidado alguns meses atrás. Sabia que ele poderia estar muito bem mentindo, mas preferia seguir seus instintos e acreditar no sujeito que já havia costurado diversas vezes. - Bom, se um dia precisar de ajuda com a sua namorada, ou namorado, não sei, é só me chamar. Não é como se nessa situação a gente pudesse falar abertamente sobre os nossos relacionamentos.

Levantou-se de repente, arrumando o roupão com a alça de volta para o ombro ao seguir para a cozinha. Abriu a geladeira, afastando algumas das embalagens quase vazias que tinha ali para alcançar um pote de berry and jerry de creme. Voltou para a mesa com duas canecas lindas e colheres.

- Conhece o cara que trabalha no The Capitol? Um loirinho, ele sempre anda meio cheirado, sabe? Urgh, saí com ele quando cheguei aqui. Péssimo. - comentou, servindo uma porção do sorvete para si mesma antes de se sentar e ligar a televisão no noticiário, o ruído ambiente lhe fazendo recordar mais de seu próprio trabalho. - Eu sempre quis saber como foi que conheceu o Dio. Ele é um cara legal, mas muito certinho, fiquei surpresa quando apareceu machucado lá na funerária. Foi você que fez aquele… - mencionou, usando a colher para sinalizar o formato da cicatriz que Diodoro possuía em seu próprio rosto. Na verdade, não tinha certeza nenhuma que havia sido ele que tinha feito aquilo, apenas desconfiava. Estava jogando a opção no ar da conversa.

Karen

Karen continuou tomando o que restava da cerveja depois de ter terminado o almoço, ainda encarou a mulher de lado quando ela foi muito solícita em oferecer ajuda caso precisasse com uma namorada ou namorado, mas não mudou em nada a expressão de novo, só aproveitando o tempo para relaxar.

Mas ela não parou de falar, e não esperava diferente já que estava na casa dela. Estava começando a sentir falta do apartamento de Diodoro ou da sala de cadáveres na funerária em que tudo era mais frio, silencioso e quieto. Até lembrou das palavras atrapalhadas de Lui que eram mais baixas e medidas do que as da médica. De novo, só a encarou de lado quando ela perguntou sobre uma pessoa no The Capitol, mas não deu uma resposta direta, focando a atenção na cerveja da qual deu outras goladas generosas. Quando deu o último gole, foi em tempo de ouvir a pergunta muito direta sobre se a cicatriz no rosto do agente funerário tinha sido obra sua. Ele devolveu a cerveja vazia à mesa, ainda sem se alterar muito pela pergunta bem específica.

- Devia perguntar a ele. Está na cara dele, não é? - e deixou a cerveja de lado para se levantar, sem esperar ser acompanhado pela médica. - Obrigado pela comida.

E seguiu na direção da saída do apartamento, estava realmente interessado em ir até a funerária e achar uma maca fria e silenciosa onde descansar.

Natalia

Ficou com a colher do sorvete parada na própria boca ao receber aquela resposta e apenas conseguiu se virar na cadeira, acompanhando o homem agradecer pela comida e trilhar seu próprio caminho para a saída de seu apartamento. Não respondeu ao sujeito, imaginando se ele havia se ofendido com todo o seu falatório. Bem, ao menos havia conseguido uma boa comida e agora poderia descansar melhor para seu próximo plantão.

- Venha de novo quando quiser cozinhar, eu prometo ficar quieta enquanto como! - gritou já de longe antes de fechar a porta e se certificar de que havia trancado a passagem e as janelas.

Pegou o pote de sorvete e se acomodou no sofá, alongando-se antes de mudar de canal para acompanhar um programa aleatório sobre casamentos ciganos na América do Norte. Pelo menos, aquele tipo de programa ridículo de drama sem necessidades lhe ajudava a ter uma boa noite de sono.

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[Drive] After Hours [Natalia; Karen] - by Lil - 08-29-2021, 09:55 PM

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