[Drive] Atrito [Renaud; Didier]
#2
Didier

Didier franziu a testa para a ameaça de Renaud de fazer charminho.
- Entonces revoco mi decisión. Si haces charminho vai ficar sem mordidas na barriga! – resmungou, esperando que ele logo continuasse a narrativa, ou acabaria perdendo a paciência.

Quando ele recomeçou a história, ficou tentando imaginar o tipo de buraco velho e caído que eles tinham se metido, ainda mais quando Renaud tentou lhe fazer visualizar o tal do andar e as quatro salas pelas quais os dois garotos exploravam. Porém, quando ele fez um pouco de mistério sobre a sala, e do nada levantou a voz, Didier não pode evitar de tomar um susto leve, o que prontamente fez com que o loiro levantasse a mão e desse um tapinha na cabeça de Renaud.

- Ridículo. – reclamou baixo, deixando o moreno se acomodar como quisesse para terminar de contar a narrativa.

A figura dos irmãos querendo aprontar com o moreno era bem engraçada, talvez porque o Renaud que conheceu ainda muito moleque era alguém usualmente menos infantil do que a idade dele permitia. Era um cachorrinho de briga, e mesmo que o moreno quisesse não podia negar o fato. Mas ouví-lo contar sobre os amigos pregando uma peça nele, discutindo e afins, e o fim todos se reunindo para tomar cerveja escondidos lhe fazia pensar se durante tanto tempo, não tinha sido o próprio Didier que tinha imposto esse estigma em Renaud, e na verdade, apesar de brigar com raiva e com força, a ponto de lhe assustar, ele era um garoto arruaceiro como outros que encontrava na rua. Exceto que era seu.

Riu da experiência dele com cerveja, lembrando bem que teve a mesma impressão a primeira vez que bebeu. Mas era engraçado como eles se acostumaram ao gosto, mesmo que não gostassem de cara. Também não achou estar em lugar de questionar o favor que Renaud tinha feito para os dois irmãos, quem era a pessoa. Não que não tivesse curiosidade. Mas os casos dos moleques com quem andava eram sempre tensos. Não era o tipo de coisa que se contava para todo mundo.

- Seu amigo merecia levar esse chute mesmo, pra criar juízo. Pero fue una buena historia. Mesmo que você estivesse tentando me dejar enojado durante ela toda. – Didier comentou, afundando o rosto nos cabelos de Renaud, beijando o topo da cabeça dele, olhando para a parede do quarto por um instante. – Me dá vontade de marcar una cita com você... pra jogarmos pebolim. Creo que ha pasado mucho tiempo desde a última vez que joguei. E mira... eu bebo cerveja, mas cambiaria por vinho em qualquer proposta, porque cerveja tem mesmo gosto de água suja. – propositalmente ignorou que tinha dito que morderia a barriga dele, para ver se Renaud lhe jogava charme, ou se ele mesmo lhe cobrava sobre as mordidas.

Renaud

O jovem Blanco se pegou rindo mais tranquilo do que podia imaginar em dias, e era curioso como Didier era capaz de alterar drasticamente seu humor, ou talvez o próprio Renaud estivesse se percebendo capaz de mudar de humor, e não ficar preso a tragédia que era a sua vida. Tinha de deixar de lado o vício de ficar se lamentando da sua vida o tempo todo, mesmo que de fato estivesse se sentindo mal, assim como agora, nem tudo era apenas ruim. Como também não podia se enganar que teria aquela sensação leve todo o tempo, em algum momento ela iria embora, mas ficaria tudo bem não é? Mais cedo ou mais tarde voltaria também.

Se deixou abraçar, e aproveitou que o rosto de Didier estava perto para farejar a pele alva, e dar-lhe mordidinhas na linha do maxilar. e foi bem em tempo de ouvir a proposta de tirarem um dia pra jogar pebolin, e aquilo abriu uma expressão de surpresa e até leve empolgação no rosto normalmente neutro do Blanco. Acenou positivamente, para a proposta de saírem pra jogar e que vinho era de longe um acompanhamento melhor que cerveja no geral, embora vinho fosse muito classudo pra pebolin:

-- Eu sei de uns bares que tem pebolin onde a gente pode ir jogar, só não garanto que tenha vinho.-- o jovem Blanco comentou de um jeito bem tranquilo mas ainda bem empolgado com a ideia: -- Vem cá, deita aqui comigo. -- Renaud chamou o outro, para que se deitasse junto consigo, e a despeito das mãos queimadas, ainda se aninhou junto ao corpo do outro, e enlaçou as pernas, fazendo questão de manter proximidade entre os dois:

-- Eu sei que está cedo, ainda tenho de almoçar e o Sasha quando acordar vai passar aqui mais tarde pra saber como é que eu estou… mas queria saber se você não quer dormir comigo hoje? -- a pergunta do Blanco foi exatamente aquilo, se podiam dividir cama juntos e dormir, como um casal que eram: -- da última vez que eu pedi isso, lá no seu quarto depois do nosso joguinho, eu nem consegui dormir. -- Admitiu com uma voz mais baixa e confidente.

Didier

Fazia tempo que não sentia Renaud lhe farejar, e apreciava bastante aquela sensação das mordidas leves. Se pegou sorrindo quando ele aceitou sua sugestão de encontro. Certamente não haveria um pebolim em nenhum lugar que servia vinho, mas também imaginava não haver nenhum lugar tão ridículo onde não pudesse contrabandear uma boa bebida sem o dono do bar perceber.

- También bebo tequila. – brincou, e tinha certeza que haveria algum bar por aí com uma tequila que cheirava a álcool de posto que poderiam descer sempre que um fizesse um gol no outro. Parecia um encontro muito bom para Didier.

O loiro deitou devagar na cama junto com Renaud ao ser convidado daquele jeito animado, tirando os cabelos do caminho para se aninhar junto do moreno. Pegou as mãos dele com cuidado e deixou que ele enlaçasse as pernas nas suas, aproximando-se o suficiente para roçar a ponta do nariz na dele e até morder de leve a pontinha, só porque parecia divertido.

Ouvir falar de Sasha fez com que Didier entortasse os lábios, e se concentrou para não transparecer demais aborrecimento com o cadeirante, quando afinal, ele tinha ajudado bastante Renaud nesse tempo. Porém foi pego de surpresa pelo pedido do moreno, que fez seu coração acelerar um pouquinho. Tinham vivido muito tempo com a restrição de não dormir, e talvez da última vez tinham feito tudo de um modo muito errado. Mas agora tinham conversado apropriadamente, e honestamente, dividir a cama com Renaud lhe parecia muito bom.

- Lo quiero. Eu volto mais tarde pra dormir com você. – Didier respondeu, respirando fundo e deixando um beijo na testa de Renaud, antes de deixar outro breve nos lábios e se aninhar perto dele.

Infelizmente não pode ficar tanto mais tempo lá, pois eventualmente os dois tinham vários afazeres em St. Clavier. Almoçou e deu conta dos pollitos, além de questionar Isaac se ele tinha pego anotações de aula pra Renaud ou se deveria ajudar com essa tarefa. Só claramente não entrou em contato com Sasha, porque podia se privar de estresses. Mandou uma mensagem apenas para confirmar que Renaud já tinha jantado, se precisava de ajuda e se podia ir até o quarto dele antes de aparecer quando os dormitórios começaram a encher de alunos retornando para seus devidos quartos.

- Como estás? – perguntou enquanto entrava no quarto do moreno após umas batidas na porta, vestindo uma blusa folgada e um short confortável estilo esportivo, porque por mais que estivesse acostumado a andar pelos dormitórios muito calmamente usando shortdolls de seda, sentia que se fizesse isso indo até o quarto de Renaud, podia também pegar pepinos para pôr nos olhos, um filme e pipoca, para uma festa de pijama, e não um momento agradável com o namorado. Simplesmente nem sabia como agir naquelas situações, e era engraçado como ficava consciente de tudo que estava fazendo.

Renaud

Renaud estava precisando do conforto da companhia de Didier e da conveniência de estarem com os rostos tão próximos a ponto de receber uma mordida amistosa no nariz. Ficou feliz do loiro aceitar dormir consigo, não sabia se daria certo dessa vez, mas queria muito que desse certo, queria muito que seu corpo lhe obedecesse pelo menos naquela noite. Aproveitou do aconchego do corpo do outro junto ao seu por mais uns minutos até se despedir do mesmo com um beijinho e deixá-lo seguir para sua rotina.

Ainda ficou deitado na cama um tempo com preguiça de levantar e aproveitando o calor latente que Didier tinha deixado ali. Mas foi lembrado por Isaac que precisava almoçar, e foi praticamente arrastado para o refeitório onde teve o prazer de ser o protagonista de mais uma cena ridiculamente engraçada com o secretário impaciente porque não tinha coordenação motora para comer sozinho, então o seu bom amigo decidi que seria mais prático lhe dar comida na boca que vê-lo bagunçar todo o prato. Seria fofoca da academia por uns bons dias, até tinha curiosidade de saber qual o nível da cara azeda de Ethan para essas fofocas.

Na volta ao dormitório passou no quarto de Sasha, ele tinha separado assuntos de aula que tinha perdido, então não precisava se preocupar com aquilo pelo menos. Conversaram bastante, e o principal assunto era como Jonah parecia que ia botar um ovo de preocupação na noite anterior. Ficou sabendo de algumas coisas sobre o desdobramento do acidente da cozinha e que o professor Funske provavelmente seria afastado de St. Clavier. Renaud jantou na companhia de seus Frater e se despediu apenas porque precisava se medicar pra descansar, afinal aquela hora os analgésicos já não estavam mais fazendo efeito, Sasha se ofereceu pra fazer os curativos mas o moreno mais novo disse que teria um enfermeiro naquela noite de companhia que fez o mais velho bufar, diferente de Didier, seu irmão não era tão bom - ou não fazia questão - de esconder que não gostava de Didier.

Renaud mandou mensagem para o loiro avisando que estava de volta ao quarto e que precisaria de ajuda com os curativos das mãos. Tomar banho era complicado sem poder pegar as coisas e se enxugar apropriadamente, mas fez o melhor que podia sem magoar muito as queimaduras. Vestiu uma calça folgada, e usava uma blusa regata, estava com a toalha no pescoço porque não tinha conseguido secar bem os cabelos curtos quando Didier entrou no quarto. Renaud se levantou se aproximando do outro um sorriso simples desenhado nos lábios finos: -- gostei do pijama…! -- destacou as roupas não usuais, e passou os braços sobre os ombros de Didier porque era um jeito de garantir que não magoaria as mãos e reduziu a distância dos rostos para beijar o loiro, unindo os lábios, em uma carícias mais demorada do que os beijos que já tinham trocado depois de terem começado a namorar.

Se afastou depois de alguns instantes encostando testa com testa: -- não queria te beijar com gosto de remédio… então vim garantir que você estaria bem beijado pela noite toda…!-- o moreno falou num tom de brincadeira, muito mais consciente de que tinha uma intimidade real com o loiro, e talvez por isso não tivesse feito qualquer esforço de se afastar para ir tomar suas medicações.

Didier

Apesar de ser uma figura muito ousada, Didier se pegava pensando no quão intimidador era finalmente considerar Renaud como um namorado, ainda mais quando o viu com os cabelos pingando precisando de uma toalha com urgência. A mão foi até um cacho que caía por seu peito, e enrolou ele no dedo de modo inconsciente enquanto olhava o moreno, lembrando quase que imediatamente que se ele não tinha enxugado os cabelos era por conta das mãos machucadas, e deveria parar de ficar admirando o outro como uma virgem dormindo a primeira noite na casa do namorado.

Afastou os pensamentos com uma sacudida discreta da cabeça, retornando a realidade e menos aos devaneios de sua ansiedade por aquele momento um pouco diferente para os dois.

- Podrías ter esperado mi ayuda. – resmungou, ouvindo logo em seguida do sorriso, o elogio aos pijamas que tinha escolhido não tinha ideia do porquê, mas imaginava que seriam menos chamativos dos que usava usualmente. O fato de Renaud ter pontuado especificamente o pijama lhe fez as orelhas queimarem, mas deu sorte dele não ver tanto assim a expressão que tomou seu rosto, pois não demorou para que ele viesse lhe roubar um beijo mais longo.

Demorou ainda alguns instantes para reagir aquela aproximação, mas deixou-se levar pela carícia passando as mãos pelas costas de Renaud, estranhamente satisfeito que aquele beijo não era só uma carícia singela, e um pouco triste que não tinha durado mais.

- Chama isso de garantia...? Hah. Quiero doble o nada. – brincou de volta, um pouco mais confortável com a proximidade, aproveitando que Renaud estava ali ainda perto demais para beijá-lo novamente, deixando a carícia se prolongar enquanto levava as mãos ao rosto do moreno, descendo até a toalha para puxá-la aos cabelos escuros, mordendo de leve o lábio dele enquanto começava a enxugar os fios muito molhados. – Pronto. Ahora vá tomar su remédio. – murmurou, um pouco mais confortável do que quando tinha entrado. – Mas só para avisar, eu realmente no me importa se quiser me beijar mas tarde también.

Renaud

Trocar carícias com Didier tinha um gosto e uma sensação completamente diferente, antes sentia a mente ficar branca e ser tomada apenas pela tensão sexual, e agora, sentia que a cada beijo, abraço, ou carícia, dava um passo a mais para conhecer um Didier que sabia que estava lá, mas que nunca tivera acesso de verdade. E esperava que do seu lado, estivesse deixando espaço para ser conhecido, embora não tivesse muita noção o quanto disso o loiro iria gostar de conhecer. Mas era certo, que gostava de sentir a textura da boca dele na sua, o fôlego se perdendo, o paladar ser tomado pelo sabor da boca do outro; e o moreno mais novo cedeu fácil as carícias, retribuindo o beijo até ter o lábio inferior mordido, respondendo com um risinho diante da gracinha:

-- Não se preocupe, eu arco com os juros e as taxas, não vai faltar carinho pra você. -- deixou que seu namorado mexesse em seus fios molhados, era certamente mais fácil pro outro fazer aquilo, que para o Blanco estando com as palmas das mãos danificadas. Seguiu para o banheiro tomar seu coquetel de remédios, que incluem os antiinflamatórios, analgésicos, e ansiolíticos pra dormir, tudo aquilo mais um remédio pra proteger o estômago do impacto dos remédios mais pesados que tomaria enquanto estava com as mãos em recuperação. Devia ser uma cena no mínimo curiosa ver o Blanco puxar vários remédios diferentes da farmácia na parede do banheiro, medir e tomar, mas era sua realidade para aqueles dias, e embora isso fosse algo que lhe irritava, era um aborrecimento menor, que lidar com todas as sensações adversas que vinham da ausência dos fármacos. Escovou os dentes como dava, pra tirar o gosto amargo da boca, antes de voltar para o quarto em si:

-- vou precisar de ajuda com a pomada e os curativos das mãos, nenhuma novidade pra quem já enfaixou uma gangue inteira de moleques, conto com sua experiência em bandagens. -- o moreno falou em tom notório de brincadeira, erguendo as mãos queimadas e balançando os dedos das mãos, incluso seu mindinho que sempre se mexia com atraso em relação aos demais; Renaud parecia muito relaxado de estar ali na companhia do outro, e para além disso, aparentava estar confortável com a ideia de deixar Didier cuidar de si.

Sentou-se na cama e esperou que o loiro trouxesse a caixa de primeiro socorros que já deixava em cima da mesa de estudo, para fazer o processo mais fácil, e enquanto o outro cuidava de suas mãos, o moreno mais novo decidiu puxar conversa: -- você viu os primeiranistas hoje? Como eles estão? -- parecia a coisa mais absurda possível para o moreno perguntar, mas era verdade que lidar com os pirralhos do primeiro ano até certo ponto também fazia parte de sua rotina antes de brigarem, e era algo que eles meio que faziam juntos, então porque não perguntar?

Didier

Didier se pegou sorrindo satisfeito com a promessa de Renaud de fazer o balanço patrimonial do que lhe devia de carinho, e na verdade, devia a ele também. Não estava muito acostumado aqueles tipos de interação, especialmente porque desde que mal se entendia por pessoa, sempre que pensava em se envolver com alguém, pensava em sexo. Mas se sentia estranhamente preenchido pela proximidade com Renaud, e por descobrir que ele era não só um cafajeste charmoso, como um namorado estranhamente romântico.

Não sabia dizer, porém, se estranhava a visão de Renaud tomando tantos remédios. Lembrava bem das surras que tomaram, e sabia que muitas noites sobreviveram na base de analgésicos tomados de qualquer jeito. Mas ver tantos remédios de uma vez, talvez tivesse atiçado um pouco da sua curiosidade. Seria rude perguntar o que eram todos eles?

Acomodou-se enquanto esperava ele terminar de escovar os dentes, vendo ele chegar com a ideia de que Didier lhe faria os curativos daquela vez, o que lhe deu um leve alívio de pensar que ele confiava em si para cuidar dele, pelo menos um pouco.

- Pode contar com minha experiência, só não conte com a minha delicadeza. Pero yo haré todo lo possible. – Didier respondeu, se perguntando onde Renaud teria escondido as bandagens, ou se ainda deixava elas em um lugar que lembrava. Só então viu a caixa de primeiros socorros em cima da mesa, e trouxe para a cama, acomodando-se novamente para começar a fazer as bandagens, ainda pensando como perguntar sobre os remédios.

Mas antes que pudesse questionar qualquer coisa, ouviu a pergunta sobre os pollitos enquanto desenfaixava as mãos dele, o que lhe levou prontamente a parar, levar uma mão até a testa de Renaud e uma até a sua própria.

- Hm, no parece fiebre. – falou mais consigo mesmo, então esquecendo por um instante os remédios. Não era estranho que conversassem sobre os primeiranistas, mas era muito estranho Renaud perguntar ativamente sobre eles, e não só esperar que contasse suas aventuras casuais com as crianças, para as quais ele geralmente responderia resmungando. Acabou rindo. – Si, los vi. Estão todos bem, e estranhamente preocupados com você. Sabia que foi o Adam que veio me contar sobre lo que había pasado? Bom, como não pensar que foi o Adam, para falar a verdade? Me alegro que eles ainda pensam em mim... eu fui horrível com todos quando tivemos nossa pelea. E por mais que você tenha metido muito medo neles, acho que todos sabem que a mama sin ti é um loiro muito ranzinza. – Didier brincou, embora tudo isso fosse bem verdade. Mas também sabia que os primeiranistas também já tinham corrido atrás de Renaud por ele, com medo ou não. Eram boas crianças. – Está pronto para assumir ser o papá deles? – Didier falou com uma voz aterrorizante, rindo baixo em seguida.

Renaud

Sabia que o loiro não era exatamente delicado, embora a aparência enganasse qualquer desavisado, bem sabia que existia uma pessoa cheia de características marcantes e “delicadeza” não era uma delas, mas isso não incomodava o moreno mais novo nem um pouco. Enquanto Didier se ocupava com os curativos para as mãos queimadas de Renaud, a pergunta sobre os primeiranistas trouxe uma reação de surpresa ao rosto do loiro mais velho, ao ponto de que ele seguiu com a mão livre para tirar a temperatura do moreno mais novo, não o culpava por tirar piada daquela pergunta. Logo mais veio a narrativa sobre como os mais novos estavam e mesmo que em dias usuais não quisesse saber, não era como se fosse completamente indiferente, agora começava a perceber melhor esses nuances em torno de suas relações com os outros, mesmo que não fosse exatamente próximo dos alunos menores.

Ouvir naquela história que os primeiranistas nutriam algum grau de "preocupação" por sua pessoa, lhe soava estranho, afinal Renaud não tinha dado qualquer motivo para que eles sentissem admiração por sua pessoa. Diferente do que tinha acontecido com o próprio moreno mais novo e Sasha no passado de brigas de rua, onde um Renaud jovem de doze anos achava na figura de seu Frater alguém pra admirar, seguir e se espelhar. No entanto, antes que Renaud pudesse chegar a uma conclusão dos próprios pensamentos Didier lhe lançou aquela pergunta se estava pronto pra assumir a “paternidade” dos mais novos:

-- Quê? -- o loiro tinha conseguido tirar uma expressão de leve surpresa do rosto neutro do moreno mais novo: -- Ah não, não mesmo! -- Renaud negou enquanto movia de leve os dedos, avaliando os curativos que o loiro tinha recém feito em suas mãos, assistindo enquanto ele se ocupava em guardar o restante dos utensílios de volta a caixa de primeiros socorros para devolvê-la à mesa da escrivaninha:

-- Eu não contribuí com nada na formação deles nesse tempo todo aqui em St. Clavier, aí eu não vou assumir ser Pai, pra ser um bosta de um "pai ausente", de jeito nenhum! -- tão logo estavam livres da obrigação dos curativos, podiam dar atenção um ao outro e Renaud podia ficar próximo de Didier sem qualquer ressalva; e foi o que ele fez se aproximando mais do corpo do namorado abraçando-o pela cintura, tomando cuidado para não magoar as mãos, o moreno curvou o rosto e farejou toda a extensão do pescoço até o rosto do outro, e depositou um beijo breve sobre os lábios de Didier em um selinho carinhoso, se afastando apenas o suficiente para encará-lo de perto: -- Se fosse pra ser pai, eu teria de ser um que presta pelo menos.

Didier

Renaud claramente tinha estranhado que os primeiranistas se importavam minimamente com ele. Mas se fosse colocar as coisas bem claras para ele, poderia justificar facilmente. Afinal, Renaud era seu namorado, mesmo que os dois não se vissem assim, e eles se importavam de verdade com a figura da mama e as pessoas que ele gostava, por mais absurdo que fosse. Outra coisa era que, por mais que eles tivessem medo de Renaud pelas muitas coisas que ele tinha aprontado com os meninos, ele era mais um bicho papão do que uma figura cruel de verdade. Como o monstro ranzinza para quem eles poderiam pedir ajuda se Didier insistisse muito. E ver o monstro do armário perdendo forças e sendo muito humano de repente, claramente isso ia despertar algum sentimento nos meninos. Nem que fosse só a sensação de “ele também é uma pessoa que merece nossa atenção”. De uma coisa podia assentir quanto a sua criação, todos os pollitos eram muito bem criados.

Didier riu da reação de negação de Renaud, deixando-o sacudir as mãos cobertas como quisesse enquanto ia guardar o kit de primeiros socorros de volta. Porém, ainda de costas pro moreno, quase sentiu o pescoço fazer 180º de curva para trás quando ele falou que não queria ser um “pai ausente”. Didier franziu a testa, encarando Renaud com os olhos claros quase que não acreditando no que ele tinha dito, andando de volta cautelosamente até a cama e Renaud, sentindo os apertos carinhosos sem as mãos, e devolvendo o beijo carinhoso no lábio, até ele dizer na sua cara que teria que ser um pai que presta.

Didier nem fez questão de esconder quando juntou os lábios e fez um sonoro “pffff” antes de cair na gargalhada na cara de Renaud, notando que ele nem tinha percebido as próprias palavras.

- Hahahahaha! Renaud...! Os pollitos vão ficar muito aliviados de saber disso...! Hahaha! Afinal na melhor das hipóteses, eles deben piensar que você daria coscorróns em todos para tirá-los de perto de mim e monopolizar meu tempo! – Didier falou com um ar muito divertido, quase chorando de tanto rir. – Al contrario, posso contar não só que você não quer ser papá deles... mas que não quer ser papá deles porque se importa o suficiente com eles para não se dar o título de padre que esse tempo todo foi ausente! – Didier tentou colocar para o moreno de novo o que ele tinha dito, para deixar mais claro o que ele tinha acabado de dizer. – O Emil vai ficar comovido com seus sentimentos...!

Didier achou que poderia andar zoar Renaud pela noite inteira com isso, mas sabia pela reação avessa dele a ser pai dos meninos que seria melhor controlar um pouco o quanto poderia fazer piada com ele. Afagou os cabelos escuros, enchendo-o de beijos pelo rosto e apertando-o em um abraço porque ele simplesmente tinha sido surpreendentemente adorável. E então, ainda abraçando o moreno, abriu um sorriso largo.

- Se lhe alivia, pienso que usted hice alguns trabalhos de padre sem perceber. Você certamente disciplinou bem los niños... e poucas vezes foi mais maldoso que o necessário, por isso eles não te odeiam. – Didier então parou, aninhado a Renaud e aninhando o moreno a si. – Bom, talvez o Noa tenha mesmo muy miedo de você... – adicionou, convidando Renaud a se aninhar na cama. – Pero... se não precisa ser papá deles, tão seriamente. Se quer saber... acho que do jeito que você pensa seriamente sobre eles... se der a chance deles serem menos irritantes, podem ser amigos. – então Didier riu, dando mais um tapinha discreto no ombro de Renaud. – Pensar que eu viveria para dizer que você e os pollitos poderiam ser amigos! Há!


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[Drive] Atrito [Renaud; Didier] - by Lil - 09-01-2021, 01:58 PM
RE: [Drive] Atrito [Renaud; Didier] - by Lil - 09-01-2021, 01:59 PM
RE: [Drive] Atrito [Renaud; Didier] - by Lil - 09-01-2021, 01:59 PM

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