09-01-2021, 02:04 PM
Vivien
Apesar de ter notado o tom mais pesado da voz de Aleksei a medida que ele explicava tudo que estava acontecendo, nada lhe parecia muito fora do que esperaria de um homem que estava tão cansado. Porém, na resolução que haviam encontrado, que para Vivien parecia ter resolvido por ora o dilema dos dois, sentiu as mãos do grego lhe buscando com aquela fragilidade cansada e o rosto dele afundar em seu ombro. E soluços. E lágrimas. Sentia lágrimas molharem sua roupa. Sentiu como se algo sumisse dentro de si. Tinha visto Aleksei chorar de dor em uma sessão, tinha visto uma expressão quase chorosa em seu casamento, mas não tinha visto nada como aquilo, e isso lhe deixou momentaneamente em pânico.
Aleksei chorava com a liberdade de uma criança, mas as primeiras palavras na voz trêmula muito lhe lembrava que ele era um adulto. Um adulto que passou por momentos muito difíceis.
Pressionou os lábios e tal como ele tentava lhe segurar, envolveu Aleksei com ambos os braços, puxando-o para si e esperando que o seu abraço firme fosse mais seguro. Ele reclamava do quanto era injusto ter que estar sozinho aquele tempo todo e ainda lembrar de cada momento, com os pesadelos. Por que o corpo não deixava ele esquecer? Por que é que Aleksei ainda tinha que sentir tanto medo de uma pessoa que estava morta? Por que ele tinha que passar por tudo aquilo para começar?
Quando sentiu as mãos dele tentarem lhe apertar mais, puxou-o mais para perto com um movimento rápido, apertando um pouco mais o abraço em volta de Aleksei. Não era o suficiente para machucá-lo, mas certamente Vivien estava ali por ele, ou pelo menos esperava que ele sentisse essa sua presença, mesmo que fosse nas mãos um pouco trêmulas, incertas se era aquilo que Aleksei precisava, mesmo que fosse apenas o que pudesse dar para ele.
- Tudo isso vai passar, Alek. A fadiga... o medo... as memórias todas, vamos trocá-las por momentos melhores. - falou num tom de quem tentava de fato acalmar uma criança, mas a diferença era que enganaria uma criança, enquanto queria mesmo fazer tudo aquilo pelo loiro. E estava otimista que tudo passaria. Mesmo que aquelas memórias ruins permanecessem sempre com Aleksei, eventualmente ele teria memórias melhores para recordar. E tal como queria confortá-lo, supôs que também podia ser confortado pela ideia de que não estava mais sozinho depois de tanto tempo. - Nenhum de nós vai ficar sozinho.
Aleksei
A força nos braços se tornou tão desnecessária quando Vivien lhe envolveu de volta, com mais energia do que ele teria até mesmo num bom estado de saúde. A agonia não diminuiu de imediato, nem as lágrimas, mas poder se dar ao luxo de estar tão fraco ao lado de alguém em quem confiava era algo que não experimentava havia tanto tempo que nem lembrava da sensação. Era bom, pura e simplesmente.
Foi fácil para Vivien lhe puxar para mais perto, não ofereceu qualquer resistência e só se deixou render ao abraço mais intenso. Folgou as mãos, não porque queria se afastar, mas porque podia deixar para Vivien o uso da energia que ele não tinha naquele momento. Queria só continuar ali, dependente dos braços, das palavras e do conforto alheio, mesmo que por uns breves instantes. Sabia que Vivien não podia fazer muita coisa para aumentar a sua segurança ou melhorar o seu estado de imediato, mas as palavras consideradas dele lhe deixaram com uma sensação maior de tranquilidade.
Aleksei ainda continuou com o rosto escondido ali por uns instantes, internamente aliviado com a confirmação de que não estariam mais sozinhos. Respirou fundo, lentamente retomando o controle do próprio corpo, os soluços cessando assim como o choro, para lhe trazer uma sensação de leveza que não esperava sentir nos últimos dias. Algo que podia ter sido resolvido bem antes também, tão simples como numa conversa como aquela que lhe fez perceber como estava encarando a situação de um jeito errado.
- Obrigado, Vivi. - teria pensado em se desculpar de novo, mas qual o motivo de fazer aquilo? Não havia pelo que se desculpar, no fim das contas. - Nós vamos resolver. Você só vai ter que ser um pouco paciente.
Vivien
Estava pouco preocupado com o tempo que levaria para Aleksei se acalmar. Tinha o resto da noite se ele quisesse expulsar todas as lágrimas. Na verdade, muito mais que isso até. Mesmo que a intenção do grego fosse apenas desabafar e eliminar toda a negatividade dos dias de segurança incerta quando estava sendo perseguido por Kyle, sentia como se tivesse ganho um voto de confiança, de que ele se sentia confortável o suficiente para expor toda aquela vulnerabilidade que nunca tinha visto Para Vivien que tinha construído uma boa parte de seus relacionamentos em interações superficiais, ter um momento como esse significava o início do que era a intimidade entre os dois. Isso era apenas mais prova que estavam juntos.
Apesar de não poder fazer muito a exceção do abraço e o carinho singelo nas costas, percebeu que aos poucos o choro ficava mais baixo, até que cessou, afinal. O loiro estava fraco, especialmente aninhado ao seu corpo e já sem sentar lhe segurar deixava isso bem óbvio para Vivien. Talvez fosse mesmo hora de deixá-lo dormir para aproveitar o efeito do remédio, e se ainda estivesse muito fraco para comer sozinho, levá-lo a um profissional quando ele despertasse.
Quando finalmente ele ergueu o rosto, levou uma mão até mesmo, limpando os rastros de lágrimas nas bochechas e embaixo dos olhos. Abriu um sorriso aliviado com o agradecimento e a lembrança de que ainda tinham um caminho a frente.
- Espero que eu possa cobrar o mesmo em outra ocasião. – tentou brincar, embora soubesse que a cabeça de Aleksei e nem o momento pediam isso. – E agora, Alek? Como está? – perguntou, embora já estivesse cansado de martelar na mesma tecla.
Aleksei
Aleksei respirou fundo, fechando os olhos com o toque dos dedos ásperos no rosto. Sentia a dor no peito e no estômago pela pouca alimentação, mas sentia ainda mais o efeito do remédio e a necessidade de voltar a dormir. Não fazia ideia se estava em condições apenas de continuar dormindo ou se precisava tentar se alimentar de novo. Só a ideia de comer algo e ter que se levantar para vomitar era pouco convidativa. O corpo estava pesado e a pele fria por conta do próprio estado. Mas manteve o apoio em Vivien naquele momento, aproveitando o calor alheio.
- Leve. - respondeu, roçando o rosto contra o peito alheio ao se deixar escorregar para deitar melhor ao lado do moreno, dessa vez procurando suporte para a cabeça no travesseiro, mas ainda mantendo a cabeça próxima ao corpo alheio e uma das mãos sobre a cintura dele. - Meu estômago dói... acho que minha pressão está baixa. Mas eu ainda preciso dormir... talvez eu ainda consiga algumas horas de sono, do remédio...
Os comentários foram baixos mais pela indisposição e pela sensação de sono, mesmo que leve, remanescente a medicação. Ele não se esforçou muito para continuar acordado, agora que tinha conversado com Vivien e explicado tudo, agora que tinha chorado tudo, sentia-se mais tranquilo, e esperava que não fosse só uma sensação passageira. Quando dormiu, foi um sono bem mais leve e calmo. Não durou tanto quanto queria e ainda se pegou acordando aos sustos breves na madrugada. Mas foi mais fácil voltar a dormir, e o descanso pareceu bem mais prolongado. Somado o efeito do remédio com o da conversa, sua mente parecia num caminho mais certo de melhorar. E no primeiro dia depois da morte de Kyle, conseguiu acordar normalmente na manhã seguinte, sem surpresas, sem sustos e sem medo.
Vivien
Supunha que Aleksei precisava mesmo daquela conversa, há alguns dias, de ter certeza que havia uma pessoa disposta a cuidar dele apesar dos problemas pelos quais ele ainda passaria apesar de tudo agora estar mais calmo. Talvez fosse mesmo sua vez de ligar para algum profissional que pudesse acompanhá-lo nisso, e outro que pudesse cuidar da alimentação delicada dele antes que o corpo ficasse mais fraco de tanto rejeitar a comida e a bebida, antes mesmo que o loiro estivesse no estado de ir a algum hospital. Deixou que ele se aninhasse perto de seu corpo, ouvindo todos os sintomas que ele sentia por se alimentar e dormir mal esses dias.
- Vou ficar por aqui caso precise. E quando acordar pode comer e tomar algo. – falou calmamente, vendo aos poucos o loiro retomar o sono. Não tinha intenção de sair dali por ora, e demorou pelo menos uma hora para criar qualquer sensação de segurança para soltar Aleksei e sair para jantar e guardar a comida para que não estragasse. Preparou também algo para que ele comesse de manhã e que pudesse esquentar assim que Aleksei acordasse. Seria melhor se ele fosse até a mesa para comer, mas caso se sentisse fraco, contaria com bandejas.
Notou como Aleksei ainda acordava no meio da noite, mas diferente de sentí-lo inquieto como antes, talvez pelo efeito do remédio, em pouco tempo ele voltou a dormir todas as vezes, até que enfim conseguiu descansar o fim da madrugada e acordou apenas cedo de manhã. Como Vivien tinha o costume de acordar muito cedo, já estava desperto quando Aleksei acordou, sentado com o computador no colo, aproveitando para dar uma olhada nos e-mails que tinha ignorado no dia anterior. Estendeu a mão para a cabeça do grego, afastando-lhe os fios claros do rosto em um carinho singelo, vendo se ele estava menos gelado que no dia anterior.
- Bom dia, Alek. – cumprimentou-o, fechando a tampa do notebook e colocando-o de lado por um instante. Voltou preguiçosamente para a cama e abraçou o corpo de Aleksei, puxando-o para perto de si. - Vamos comer?
Aleksei
Aleksei se virou na cama para encarar Vivien e constatar que ele estava com o computador no colo. A cama ainda estava quente, a proximidade foi apenas reforçada quando ele deixou o computador de lado para se virar em sua direção. Até abriu a boca para responder ao "bom dia", mas desistiu no caminho, sentindo a garganta seca. Aproveitou mais do calor do corpo alheio, só concordando com um aceno de cabeça quando ele chamou para que fossem comer. Não olhou a hora e não estava de fato interessado, mas ainda se demorou alguns minutos preguiçosos na cama para terminar de acordar, preguiça que era em muito contribuída pelo estado físico já debilitado.
- Eu vou só lavar o rosto. - respondeu finalmente, a voz um tanto rouca, para se levantar da cama com um pouco mais de disposição e esforço também.
Aleksei seguiu até o banheiro, enquanto Vivien ia até a cozinha para preparar mais uma refeição leve que, ainda assim, ele provavelmente teria dificuldade em digerir. Deixou a porta aberta, apenas para que Vivien não tivesse que lidar com a mesma situação da noite anterior. Não que pretendesse entrar na banheira, mas pegou a cartela de remédios que tinha deixado ali e arrumou em suas coisas outros frascos com medicações diferentes. Não tomou nenhum, voltou até a cozinha a passos quase arrastados, sentindo a pouca força que tinha nos músculos.
Chegou no cômodo para se sentar à mesa, já sentindo o cheiro do café invadindo o ambiente e da comida que Vivien estava terminando de esquentar. Colocou os remédios sobre a mesa, chamando a atenção do francês.
- Esse aqui foi o que tomei ontem de noite. - Aleksei apontou a cartela, explicando de um modo bem prático. - É para ajudar a dormir, é forte. E esses são para tomar três vezes ao dia, ou em algum momento de pânico, me ajuda a... manter as emoções em ordem. - ele deixou os remédios de lado, cruzando as pernas e se recostando à cadeira. - Eu estive aumentando as doses para conseguir dormir e trabalhar no último mês. Mas agora que as coisas se resolveram, parcialmente… eu preciso de tratamento.
Vivien
Concordou silenciosamente que Aleksei fosse lavar o rosto, levantando preguiçoso enquanto assistia ele entrar no banheiro sem trancar a porta para seu alívio. Só depois seguiu em direção a cozinha, indo requentar a comida que tinha deixado pronta no dia anterior e fazer um pouco de café para si mesmo, pois com Aleksei ainda acordando no meio da noite, não pode dizer exatamente que teve uma noite tranquila. Deixou servido para ele uma torrada pequena e uma tigela igualmente reduzida com um mingau e algumas frutas. Embora soubesse que não era a melhor comida do mundo, bastava um pouco daquilo para encher e precisava que Aleksei comesse nem que fosse um pouco.
Quando Aleksei chegou, um tanto arrastado por estar debilitado, observou-o enquanto ele ainda se sentava a mesa se segurando para poder lhe mostrar um pouco sobre os remédios que estava tomando. Sentou-se junto dele à mesa com seu café e um pedaço de pão apenas, observando-o a cartela conhecida do dia anterior e outros que pelo visto era de algum remédio psicoativo. Até podia imaginar que ele tomava algo para poder suportar estar sendo perseguido por Kyle, mas ouvir diretamente do loiro era bem mais real.
Apertou os lábios, tomando mais um gole de café para terminar de despertar.
- Estava pensando o mesmo quando acordei hoje pela manhã, mas você está mais ciente do que precisa que eu, Alek. Mas eu posso procurar alguém. Só que Cerise não é exatamente cheia de bons psiquiatras. – respondeu, puxando então um pedaço de pão para comer, esperando se Aleksei tentaria também comer o que tinha servido.
Aleksei
Aleksei começou se servindo das frutas, apenas para tentar abrir mais o apetite. Sabia que não era fácil para Vivien saber o que ele tinha passado e o motivo daqueles remédios, mas assim como tinha detalhado a situação para ele na noite anterior, não queria deixar as explicações pela metade. Além do mais, o fato de ter se aberto para Vivien, o que devia ter feito há mais tempo, lhe fez perceber que era exatamente o que precisava: compartilhar com alguém, e um profissional exatamente da sua alçada era a melhor alternativa.
O grego ainda sorriu para o comentário dele de que não havia bons psiquiatras em Cerise. Precisaria de um, de um terapeuta, provavelmente um nutricionista, mas aquilo era mais fácil de arrumar com seus contatos. De todo modo, o pensamento mais breve lhe levava até Paris. Cerise não era o melhor lugar para estar, dado todo o cenário da perseguição e a falta de profissionais adequados. Mas Aleksei ainda pensou nas alternativas e imaginou que seria um problema se deslocar constantemente para Paris e como aquilo poderia ser inconveniente para Vivien também, que precisava resolver a situação em St. Clavier.
– Eu agradeço, mas tenho alguns contatos também a quem posso recorrer. De qualquer modo, eu imagino que o lugar mais próximo para atender às minhas necessidades atuais seja Paris. – ele explicou, pegando o mingau para se servir, mas desistiu no meio do caminho, voltando a atenção para Vivien. – Eu sei que você tem coisas a resolver em St. Clavier e eu tenho pacientes a encaminhar. Mas no estado em que eu estou, não acho que seria muito prudente viajar para Paris regularmente. Na verdade… mesmo que Cerise seja uma bela cidade, eu não sou completamente avesso à ideia de me mudar para Paris. – ele adicionou. O fato de não comer não era tanto pela falta de vontade, mas pela inquietação do assunto. – Eu não quero continuar em Cerise, Vivi. – daquela vez, expressou o desejo bem mais direto. – E eu não quero ir sozinho pra Paris.
Vivien
Supunha que sendo um médico formado e um sujeito de muitos contatos, Aleksei saberia que profissionais procurar. Deveria ter algumas pessoas de confiança no meio, algumas que teriam mais experiência com situações de traumáticas como a dele e que fossem bons profissionais. Pensando bem, os nomes que ele indicasse seria muito mais bem vindos que as recomendações de pessoas de seu meio social.
Assistiu enquanto ele pegava o mingau e desistia antes de comer, fazendo uma nota mental para fazer algo que fosse menos nutritivo mas mais apetitoso, afinal, Aleksei precisava comer, e não necessariamente comer algo bom para a saúde. A vontade de comer já era necessária. A segunda coisa que lhe chamou atenção foi ele mencionar Paris. Encarou-o mais atentamente quando ele mencionou a cidade, ouvindo todas os pontos levantados por Aleksei. Não era avesso a ideia de mudar para Paris também, embora isso não tivesse passado em sua mente antes. Estava tão focado no estado dos dois que não tinha parado para pensar que não só Kyle, mas a cidade toda deveria ser bem desagradável para Aleksei agora. E enquanto não compartilhava o mesmo sentimento, sabia como era estar desagradado com o lugar onde estava. Até sua casa tinha sido invadida por Kyle, por exemplo.
Claro, notou o desconforto de Aleksei de admitir que não queria ficar em Cerise, e que isso significava que Vivien teria que acompanhá-lo. Assentiu silenciosamente com a cabeça assim que ele terminou, rapidamente pensando possibilidades lógicas e estáveis pra a proposta de Aleksei, embora não fosse recusar caso essa estabilidade fosse complicada.
- Então vamos os dois para Paris. – afirmou com segurança, talvez porque essa fosse a única certeza que tinha na mente então. – Não tenho intenção alguma de lhe deixar sozinho, ainda mais se você vai passar por tratamento. Caso esteja preocupado com o que tenho para resolver em Cerise, não é nada que precise de mim todos os dias aqui, e mesmo que precisasse, eu comutaria entre lá e cá até tudo se resolver. Não vai levar tanto tempo assim. – adicionou, embora não tivesse detalhado tudo. Os dois eventualmente lidariam com sua situação sem St. Clavier.
Aleksei
Aleksei notou o breve tremor da mão segurando a colher e movendo-a dentro do mingau. Sabia que não haveria uma negativa de Vivien, mas a mera possibilidade de resposta lhe deixou ansioso. Pareceu até mais fácil respirar e soltar o ar quando ele respondeu bem diretamente para os dois irem a Paris juntos. A sensação de ouvir a resposta e ainda de escutar que não ficaria sozinho foi de alívio, como tinha sentido ao confessar o que estava passando na noite anterior.
- Ainda bem que os assuntos inacabados aqui não vão demandar tanto tempo então. - ele respondeu, com um sorriso breve, finalmente começando a se servir do mingau. - Ao menos não preciso pensar na alternativa de você não poder ir.
Ele continuou o café da manhã até terminar pouco mais da metade do mingau. Era uma comida leve e mais uma tentativa de não lhe fazer vomitar, mas adicionou ao final do prato um dos comprimidos que tinha mostrado para Vivien antes.
- Eu acho que vou ocupar meu tempo e fazer algumas ligações agora. Posso encontrar logo alguém com quem falar em Paris. - Aleksei avisou, levantando-se apenas para levar o prato à pia e parando encostado ali para se virar para Vivien. – Espero que não se importe de fazermos uma mudança um pouco rápida, dependendo das respostas que eu conseguir. Indicações de onde podemos ficar lá, Vivi?
Vivien
O tremor de Aleksei na mão foi notável. Não sabia se ainda eram efeitos dos remédios ou a fraqueza do dia anterior, mas quando deu uma resposta positiva e o mesmo cessou um pouco, entendeu que talvez sua resposta, por mais certa que fosse, ainda deixava Aleksei em dúvida. Essa dúvida sobre suas escolhas – e principalmente aquelas que priorizam o grego – provavelmente só desapareceriam depois de um tempo morando juntos, quando deixassem um pouco mais as incertezas de estarem separados até alguns dias antes e do relacionamento incerto que agora era favorável aos dois enfim.
Sorriu de volta quando ele falou dos assuntos de St. Clavier. Sobre eles, ainda teriam que discutir um pouco. Especialmente porque sabia que isso implicava em uma série de consequências para Vivien, incluindo ficar desempregado. Mas resolveria esses problemas quando chegassem.
- Se surgir algum contratempo dessa mudança, resolveremos quando chegar. Mas tenho confiança de que causariam mais problemas para as pessoas de Cerise que para nós dois. – adicionou com ar de quem tentava se divertir com aquelas possibilidades.
Talvez o alívio da conversa e do rumo mais certo do que fariam deixou Aleksei aliviado o suficiente para que conseguisse comer um pouco. Ainda tinham os remédios, mas não podia fazer nada quanto a isso. Mas era bom vê-lo animado para colocar o plano em prática. Pelo visto quão mais rápido ele saísse de Cerise, melhor. E não teria problemas de fazer essa mudança por ele rápido como quisesse.
- Eu só não gostaria de morar perto de onde morei quando era mestrando. Posso me dar o luxo de alugar um bom apartamento. – franziu a testa, terminando seu café também e levando a caneca a pia, colocando-a do lado de Aleksei. – Vou aproveitar e ligar para meus contatos em Paris também. E avisar a uma amiga que estaremos indo até lá. Confio que ela pode achar um bom lugar para nós dois enquanto nos organizamos em Cerise.
Aleksei
Embora a prioridade renovada de Aleksei fosse iniciar os tratamentos que precisava para lidar com a situação de estresse do último mês, assim como Vivien tinha assuntos para resolver em Cerise, ele tinha algumas pendências. O que era complicado de lidar, já que não estava num estado mental para tratar dos seus pacientes. A maioria dos alunos em St. Clavier só receberia a notificação de que o psicólogo mudaria. O único caso que lhe restava prestar atenção era o de Renaud Blanco, já que o caso de Stefan tinha tomado um rumo completamente fora de suas mãos e nem se quisesse, teria como cuidar do rapaz.
– Eu bem gostaria de ver onde você morou em Paris, Vivi. Mas podemos passar lá só de visita. – Aleksei respondeu, voltando-se na direção de Vivien ao seu lado. – Posso aproveitar e procurar algum lugar para alugar. Eu não acho que precise mudar imediatamente, talvez ainda tenha alguma coisa para resolver na polícia, mas posso marcar as coisas para a próxima semana. Se for preciso, posso reservar um hotel pra nós.
Aleksei se aproximou o curto espaço entre os dois passando um dos braços em volta da cintura alheia e inclinando o rosto até beijar levemente a face esquerda dele, próximo ao canto dos lábios. Embora Vivien já tivesse tirado aquele limite entre os dois, não era a sua reação mais natural.
– Me avise se precisar de ajuda com mais revisões. – sorriu ao se afastar do francês para seguir até o quarto e fazer as ligações que precisava.
Vivien
- Visitar aquele lugar só deve valer a pena se o restaurante indiano da outra quadra ainda estiver aberto. – Vivien respondeu com uma expressão pensativa, embora não fosse admitir que achava divertido que Aleksei tinha algum interesse em conhecer seu passado de estudante pobre. Havia, claro, alguns empecilhos até que pudessem mudar completamente para Paris, mas enquanto visitassem locais para morar, talvez fosse um passeio interessante. Era só ter certeza que não dormiria em uma cama de solteiro de tábuas no fim do dia. – Reserve um hotel então. Até semana que vem, devo ter olhado alguns locais promissores.
Sentiu os braços em sua cintura e não hesitou de voltar-se na direção de Aleksei. Esperou ele se aproximar como ele preferia, porém, ao sentir o beijo no rosto, não conseguiu segurar o sorriso mais largo que surgiu em seu rosto. O hábito que tinha imposto aos dois podia ser terrível, e só percebia isso agora. Mas de certo modo, era adorável que ele ainda respeitava aquela distância.
Concordou silenciosamente com a ida de Aleksei até o quarto para lidar com as ligações, notando que talvez ele parecesse um pouco menos indisposto agora que tinha um objetivo a cumprir. Porém Vivien tinha ficado um pouco incomodado. Coçou a nuca e caminhou atrás de Aleksei, observando-o com o celular em mãos para fazer as ligações. Estendeu o braço para segurar o pulso dele antes que levasse o celular até a orelha e, sem deixar tempo para que ele pensasse demais, beijou o loiro sobre os lábios, um pouco mais longamente que o beijo em seu rosto, propositalmente deixando outro beijo breve em seguida antes de se afastar com um sorriso mais satisfeito no rosto.
- Reserve sua tarde para os artigos. – respondeu, indo terminar de arrumar a cozinha como deveria ter feito.
Aleksei
Aleksei chegou logo ao quarto, pegando o celular que estava na mesa de cabeceira ao lado da cama. Deu uma olhada em algumas mensagens e deixou-as de lado para procurar números de contatos conhecidos ali mesmo na França. Ainda tinha alguns colegas de profissão da época que tinha passado um tempo na Holanda e aquele pensamento lhe deu uma sensação breve de que estava esquecendo alguma coisa.
Já estava discando o primeiro número e levou o celular ao ouvido quando o ato foi interrompido por Vivien para lhe beijar os lábios bem mais diretamente. Não teve tempo de perguntar nada e só se deixou levar pelo gesto que era bem mais completo do que o beijo breve que tinha dado nele antes. Ouviu a resposta do outro lado do celular, afastado do ouvido, e foi bem em tempo de Vivien se afastar e dizer que reservasse a tarde. Só sorriu de leve e concordou com um aceno de cabeça, voltando à ligação para falar com alguém em holandês.
O resto da manhã foi bem mais prático do que Aleksei tinha calculado mentalmente. Conseguiu falar com alguns conhecidos antigos e foi fácil marcar uma sessão com um psiquiatra e um terapeuta logo na semana seguinte, em Paris, como tinha planejado. Aproveitou para reservar um hotel que fosse próximo do consultório pela comodidade, ao menos até arrumarem um apartamento, o que deixaria completamente a cargo de Vivien. Ainda sentiu mal-estar durante a manhã, mas conseguiu não vomitar o café da manhã e assim seguiu ao longo do dia, com refeições leves e agora com o auxílio renovado dos medicamentos que já estava tomando.
O almoço não foi tão feliz quanto o café da manhã e acabou vomitando mais uma vez, e os artigos que tinha prometido revisar, deixou de lado para descansar um pouco durante a tarde. Só levantou para comer algumas frutas quando Vivien lhe chamou perto do fim da tarde, e ainda avisou ao moreno sobre ir tomar banho apenas para que ele tivesse certeza que não ia acabar dormindo na banheira de novo.
No curto tempo em que Aleksei entrou no banho, entretanto, foi o suficiente para o som do interfone chamar a atenção de Vivien na sala. Aleksei não teve como ouvir o interfone e ao atender, o dono da casa só ouviu a mensagem embolada do porteiro do outro lado avisando apenas sobre uma mulher bonita e loira que estava pedindo para subir.
Vivien
Assim como Aleksei teve uma manhã produtiva, parou um pouco os artigos que estava escrevendo para pesquisar propriedades em Paris que pudesse alugar. Admitia que não era sua intenção morar em Paris para começar, mas vendo os apartamentos, até sentia falta do clima de uma cidade grande, estando há 12 anos de volta em Cerise. Ligou para sua prima que morava em Paris e pediu que ela reservasse um dia ainda aquela semana para visitar alguns locais e verificar a veracidade das fotos dos corretores de imóveis. Sua aliada na busca por um apartamento, claro, fez questão de lhe lembrar porque raramente ligava para ela; mas supunha que ela estava feliz em saber que não mudaria de Cerise sozinho.
Aleksei parecia ter melhorado. Ao menos o café da manhã conseguiu segurar no estômago com ajuda dos remédios que ele em breve faria tratamento para deixar, mas o almoço foi outro caso. Sabendo o que esperar, deixou que ele descansasse na expectativa de, depois de um banho (sem surpresas), o loiro conseguisse comer mais um pouco para que o corpo conseguisse se reabilitar.
Quando Alekse entrou no banho, foi atender o interfone com o porteiro e mal falava francês e ele lhe avisou de uma visita loira e bonita. E mulher. Franziu a testa, supondo que se fosse Leona Blanche, ele teria lhe avisado apenas que era “hmdfbs –Leoahsiad-Blaajshaunche”, já que ela tinha aparecido ali mais de uma vez. Porém, o nome que surgiu no interfone foi mais claro do que aquele homem jamais tinha falado. Vivien sentiu os lábios se curvarem em um sorriso automaticamente e deu permissão para que ela subisse.
Abriu a porta do apartamento e como se fosse uma reação automática, ergueu o queixo de leve, observando a figura feminina sair do elevador.
- Boa tarde, madame Jansen. – cumprimentou-a, esperando que ela se aproximasse então. – É uma satisfação conhecê-la.
Maud
Maud Jansen era uma pessoa de muitos contatos, muitos colegas, muitos favores e poucos amigos. Dada a carreira e a vida que tivera, num mundo cheio de pessoas que vestiam máscaras confortáveis, ela tinha aprendido a distinguir desde cedo em quem confiar. E pelos poucos amigos que conhecia bem e que podia contar nos dedos de uma mão, faria muito sem pensar duas vezes.
Foi por aquele motivo que não se importou de sair de Amsterdã num voo marcado de última hora para Paris, para de lá pegar outro carro que lhe levaria até uma pequena cidade do interior, Cerise, que estava no mapa pela famosa academia St. Clavier e onde tinha posto os olhos uma vez há algum tempo para justamente indicar uma mudança de ares para um velho amigo. O mesmo velho amigo, Aleksei Vlahos, que tinha lhe ligado num sábado à noite apenas dois dias antes para lhe atualizar da vida pessoal e dos transtornos que tinha passado durante o longo mês e que retomavam um acontecimento de anos atrás.
Aleksei não colocou em palavras, mas era óbvio pelo tom dele e pelo que conhecia do homem que as coisas não estavam bem. Não fez questão de oferecer sua ajuda, porque a despeito das coisas “não estarem bem”, ele não estava “sozinho”, o que era uma novidade boa e interessante. Mas ele explicou bem onde estava e como estava e por isso, fez questão de ir pessoalmente até lá, mesmo que sozinha, mesmo que desavisada.
Não foi difícil conseguir passagem com o porteiro de língua complicada e imaginou que o próprio Aleksei teria atendido a chamada para lhe mandar subir. Mas a reação também não foi de surpresa quando as portas do elevador se abriram e antes que pudesse procurar o número do apartamento, um homem moreno lhe esperava à porta, de queixo erguido, com uma expressão bem satisfeita, ao que parecia. Observou-o além da aba do pequeno chapéu lateral branco por uns instantes enquanto os passos em saltos scarpin brancos alcançavam a entrada do apartamento. Ergueu o queixo não tanto numa reação, mas pelo simples fato de que ele era mais alto. Estendeu a mão livre da pequena bolsa carteira azul escura que carregava.
– Eu peço desculpas por aparecer sem avisar, Sr. St. Clavier. – ela esperou que ele lhe cumprimentasse de volta. Assim como ele sabia o seu nome, não era segredo que soubesse o dele, considerando a pessoa em comum entre os dois. Quando os nomes tinham surgindo, bom, era um ponto irrelevante naquele instante. – É um prazer conhecê-lo também. Aleksei está aqui? Ou cheguei numa hora inoportuna?

