[Drive] Peppermint [Wilbert; Dia]
#2
Wilbert

Esperava uma resposta arisca dela, como de costume, o que não tardou a chegar, mas o movimento da morena de estalar os dedos, tal como uma integrante da família a qual havia comparado a dela anteriormente, lhe fez parar no meio da mastigação, pressionar os talheres em mãos e soltá-los devagar antes de apoiar a testa sobre a mão, segurando o riso diante daquela cena. Baixou o olhar, respirando fundo sem conseguir esconder o riso da cena gravada em sua memória da morena estalando os dedos tal como se fosse mesmo uma Addams. Ela ainda era morena e tinha aquele ar dos Blanco de um rosto europeu aleatório - que não lhe ajudava a apagar a ideia dela realmente poder ser uma Addams.

Diminuiu o sorriso assim que ela tocou no nome do sobrinho dela após todo o discurso de rebeldia contra os pais e a liberdade que ela tanto apreciava. Tomou um pequeno gole da cerveja que lhe foi oferecida, logo em seguida retornando sua atenção para a refeição que havia preparado.

- Eu dou aulas de gastronomia para ele. - respondeu inicialmente, comendo com tranquilidade e respondendo conforme conseguia degustar a comida, o que promovia algumas pausas entre suas falas. - Ele não lhe contou? Pensei que tivessem algum nível de proximidade, considerando que foram juntos até meu bistrô. Ou ele só lhe convidou pelo prazer de me reencontrar? - questionou, ciente do quanto a mulher sentia prazer em lhe irritar, o mesmo sentimento que era bastante recíproco. O tom sarcástico não custou nada para deixar sua boca, considerando as lembranças desagradáveis que tinha da noite de inauguração e do incidente com os tomates.

Arqueou uma sobrancelha quando ela se ergueu para se retirar da mesa, mas não disse nada. Estava desgostoso por ser deixado comendo sozinho após ela ter experimentado o peixe saboroso que havia preparado, mas dessa vez sentia que não podia culpá-la por completo - culpava seu advogado, por ter o talento de lhe telefonar nos piores momentos possíveis. Não gostava de comer sozinho, principalmente quando havia preparado a refeição para outra pessoa, ainda que essa pessoa fosse uma mulher detestável como Dia Blanco.

Dia

Arqueou uma sobrancelha para a reação peculiar de Wilbert para sua piada. O canto de seus lábios ergueu-se, segurando um sorriso com o fato de que o loiro parecia totalmente fora de seu elemento tentando segurar o riso. Um homem como aquele com o humor de um tubarão com fome, que dava dentadas sádicas nos outros e ainda se achava certo, parecia até sarro com a sua cara. Mas ao menos quando mencionou seu sobrinho, o sorriso dele se desfez tão rápido quanto veio, e isso fez com que sorrisse de verdade.

Não tinha nem ideia de qual era o problema entre os dois, e nem queria saber. O importante era que Wilbert não gostava de Renaud, e isso era um Blanco a mais que podia incomodá-lo.

- Pelo contrário, monsieur. Eu que o convidei. – respondeu, sem dar mais detalhes de porque tinha convidado Renaud para ir até lá, deixando que Wilbert entendesse como queria. – Mas não sei como me sinto ao ouvir você assumir que meu sobrinho teria qualquer prazer em lhe reencontrar. Ou fala de mim? Não ache que ando contando para meu sobrinho minhas aventuras... especialmente os piores exemplos delas.

Não pretendia demorar para levar o prato à cozinha. Só não queria ficar vendo o prato sujo a sua frente enquanto beliscava um pedaço de pão ou comia uma fruta. Acabou pegando uma barra de chocolate da geladeira e colocou sobre a mesa enquanto tornava a sentar, vendo a cara amarrada de Wilbert enquanto comia.

- Calma, monsieur. Achou que eu iria lhe abandonar? Sou muito educada para isso. E até diria que você está aturável hoje. – comentou, pegando um quadradinho de chocolate para mastigar, supondo que ele até combinava com o amargo da cerveja que bebia.

Wilbert

Continuou se alimentando com calma, saboreando o que havia preparado sem deixar de acompanhar a morena com o olhar como alguém que estava ciente também que não estava em seu próprio apartamento ou trabalho, ou seja, não era seu território ali. Não sabia dizer como a ideia dela ter convidado o garoto lhe afetava. Cogitou a ideia que ele já deveria ter contado tudo a tia e teria ido até lá de fato apenas para mexer com seus nervos.

Arqueou as sobrancelhas, dando-se por satisfeito pela informação ter sido vaga o bastante para ela pensar que poderia estar falando dela. Manteve o talher na boca durante alguns segundos a mais ouvindo ela falar sobre as “aventuras” como se as saídas com ele tivessem sido desagradáveis.

- Isso é um elogio? - questionou quando ela voltou para a mesa, qualificando-o como “aturável”. Sabia que era um homem de gênio difícil, mas não se arrependia do próprio comportamento. Estava tentando controlar os próprios acessos de raiva pela saúde, mas não considerava a própria personalidade tão nociva quanto ela fazia parecer. Além disso, a morena era uma mulher bem ardilosa e irritante por si só. Contudo, poderia dizer também que naquele dia em específico, ela estava também sendo “aturável”.

Em alguns minutos mais, terminou sua refeição para poder se levantar e então seguir para a pia, cumprir o que disse que faria ao lavar a louça suja e as panelas que havia usado.

- Engraçado ter falado das suas piores aventuras, Blanco. Porque eu não me lembro de ouvir reclamações suas durante elas. - comentou, respondendo à colocação dela sobre os encontros anteriores que haviam tido. De costas, enquanto separava o restante do prato que havia sobrado do preparo, organizou a louça para ser levada, voltando a mesa apenas para remover o restante dos itens. Pegou o próprio copo, acabando de beber o último gole da bebida. - Na verdade, eu me lembro de como se divertiu quando fui preso. Ou deve ter rido bastante quando levou minha cueca embora, não é mesmo?

Relembrou os fatos, ciente de que em todos os cenários, apenas havia se prejudicado. Retornou para a pia a fim de dar início a lavagem dos pratos e panelas, sequer se incomodando de fato com o trabalho, acostumado a realiza-lo sempre que cozinhava sozinho.


Dia

Supunha que só uma pessoa como Wilbert poderia considerar ser chamado de desagradável como elogio. Tanto que olhou para ele com a expressão clara de sarcasmo em resposta, apenas retomando seu lanchinho de chocolate quando deu vontade enquanto ele refletia até o fim da própria refeição sobre algo que claramente não era um elogio a loucura dele. O que valia ali era que tinha se entretido. Se o entretenimento tinha valido a pena, isso era outra conversa. Naquele caso, não tinha certeza inteiramente se teria.

Puxou a cadeira para o portal da cozinha para observá-lo lavar os pratos assim que ele terminou a refeição. Continuou bebendo, mas deixou o chocolate de lado para focar-se apenas na cerveja artesanal até leve que tinha comprado, supondo que poderia voltar lá no próximo final de semana. Sorriu, claro, quando ele disse que não tinha ouvido reclamações nos encontros anteriores dos dois.

- Bom, monsieur Funske. Não acho que tive a chance durante elas, mas eu estou reclamando agora. – respondeu, suavemente seca, com o usual tom politizado dos Blanco. Então cruzou os braços e arqueou a sobrancelha enquanto relaxava na cadeira. – Admito que me diverti no restaurante. E me diverti com a oficial loira lhe dando um chega-pra-lá no carro. Mas está muito fixado na ideia da cueca. Já disse que aquele saí às pressas por outros motivos. E como fazem na minha família: conte uma mentira várias vezes até que você mesmo acredite nela. É a chave para não ser levado a corte por ser babaca. – riu, supondo que estava bem relaxada não tendo que fazer nada ali.

Virou a cadeira para apoiar o braço no encosto, como um menino preguiçoso, exceto pelo fato de estar de vestido e ter que ficar com ambas as pernas para um lado ao invés de poder se apoiar por inteiro.

- Tudo bem que eu não gosto da sua companhia, monsieur Funske, mas quietinho, cozinhando pra mim e lavando meus pratos, até que é bem agradável. – falou como uma criança amarela atestando sua situação de poder ali. – Você é barulhento e desagradável todo dia? Se não fosse, até poderia pensar em lhe dar o quarto vago do meu apartamento. Ahhh... seria bom chegar de um dia de ensinar lavar pratos na academia e não ter que fazer isso em casa também. Não é um mal arranjo, não é? – encostou de modo mais preguiçoso na cadeira. – Mas eu aposto que não levaria três dias pra policial loira bater nessa porta. Você não tem perfil pra morar com alguém além dos seus nervos. – sorriu de lado, já pensando em voltar a se esticar no sofá com muita preguiça.

Wilbert

Teve uma vontade quase incontrolável de revirar os olhos com a resposta dela sobre estar propensa a reclamar naquele momento. Riu de escárnio com a afirmação mentirosa dela sobre ter saído de sobressalto e não ter nenhum envolvimento com o sumiço de sua cueca ou sua quase vasectomia. Estava de costas para a morena, mas observou-a por sobre o ombro, descrente que ela de fato estava falando sério sobre o costume de mentir. Era cínica o bastante para se manter caracterizada como um membro daquela família detestável.

Voltou sua atenção para a louça que lavava e a pia dela a qual tomava o devido cuidado para deixar limpa e organizada. Arqueou uma sobrancelha ao ouvir sobre estar quieto e ser suportável pela morena. Não tinha dificuldade alguma em lavar a louça, acostumado ao processo por ter nascido e crescido em uma família em que era o mais velho e suas irmãs não terem desenvolvido interesse naquele tipo de tarefa doméstica. Também não gostava da companhia da morena que frequentemente testava sua paciência, mas era divertida a ideia de poder sempre ter a oportunidade de ser desagradável para ela que se colocava naquele tipo de situação.

Fez uma pausa com o escorregar dos talheres por seus dedos e o ruído sonoro na pia após a oferta da morena para “lhe dar” o quarto vago no apartamento. Aquilo sim era uma surpresa. Não estava habituado com as pessoas que cedendo coisas. O problema não era a moradia, principalmente porque já passara muitos anos vivendo em apartamentos como aquele da morena. Após estabelecer seu negócio de restaurantes é que conseguiu viver em um padrão melhor, ainda que achasse um desperdício os apartamentos indicados por seu advogado e aprovados por suas irmãs.

Terminou de lavar a louça e limpar a pia, lavando com cuidado as mãos e as unhas como sempre fazia em sua cozinha, ainda que no apartamento que mal visitava nos últimos dias. Estalou as unhas com os polegares para poder se livrar do excesso de água, ainda sentindo as mãos frias pelo processo de lavagem. Contudo, ao invés de buscar o pano de prato para secá-las, aproximou-se da figura relaxava de Dia Blanco, tomando a face dela em suas mãos frias, não se importando em molhar o rosto dela no processo.

- Está sugerindo que eu venha morar com você para me entregar de novo para a polícia? Você tem problema na cabeça? - afastou uma das mãos, segurando o indicador contra a testa da mulher. - Eu também não gosto da sua companhia, Blanco. Principalmente com todos os problemas em que ajudou a me enfiar. - soltou-lhe o rosto, voltando sua atenção para onde havia deixado seu celular. - Se quer um capacho, já disse que é melhor pedir ao seu admirador querido, aquele cozinheiro lá no restaurante da sua amiga. Tenho certeza que ele sentiria muito prazer em obedecer suas ordens e satisfazer todos os seus desejos domésticos. - afastou-se para pegar o celular e guardá-lo no bolso da bermuda para passar pela morena pelo portal da cozinha. - E você não é do tipo silenciosa, mulher. Em nenhum sentido.

Completou, procurando suas sacolas para dar o fora dali. Já havia cozinhado e limpado o que havia prometido e estava até muito bem comportado até ela voltar a lhe ofender gratuitamente. Porém, o que lhe deixava mais com vontade de deixar aquele apartamento naquele exato momento era a ideia de que ela havia acabado de sugerir que vivesse ali com ela. Considerando a loucura da mulher, tinha receio que ela fosse aprontar com sua vida novamente e acabaria naquela tarde mesmo voltando para a delegacia.

Dia

Se pegou rindo da reação dele a seu convite informal. Talvez não devesse brincar com um sujeito desesperado por um lugar pra morar. Supunha que todos os dias receber ligações de corretores era muito entediante. Não que sentisse que um arranjo como aquele daria certo: nem de longe, mas tinha bebido cervejas o suficiente para começar a acreditar que não seria de todo ruim ser uma pessoa boa uma vez na vida. Nada definitivo, só algo temporário em que poderia aproveitar não ter que lavar mais pratos em um fim de dia cansativo no trabalho.

Estava tão relaxada que nem esperou que ele cobrisse a distância curta entre a pia e a cadeira onde estava sentada em um passo e levasse as mãos molhadas a seu rosto, como se aquilo fosse colocar algum senso em sua cabeça. Tremeu por conta da água fria, mas prontamente franziu a testa, esperando para ouvir o que diabos ele queria lhe respondendo com aquele gesto. E não ficou menos indignada quando Wilbert começou a colocar seus contrapontos.

- Não, monsieur, eu não estou dizendo que vou lhe entregar a polícia. Por acaso você está me dizendo que vai fazer algo que mereça isso? – respondeu de volta, abusada pelo toque em seu rosto. Tirou as mãos de Wilbert dali e enxugou a água com as costas da mão. – Pra sua informação, não tenho interesse em dividir o apartamento com nenhum homem que tenha vontade de ter um relacionamento comigo, e dito isso, o fato de que eu e você nos damos tão mal até é bem conveniente nesse aspecto.- respondeu, cruzando os braços. – Mas é fato que não sou tão mal comportada quanto você. Eu certamente conseguiria ser agradável com você, se você também tentasse. Mas você não conseguiria, não é, monsieur Funske?

Dia sorriu com o canto dos lábios e arqueou uma das sobrancelhas em desafio, tudo isso enquanto levantava da cadeira onde estava para cruzar os braços frente a Wilbert.

- O que prova isso é que apenas por receber um convite pouco usual de uma conhecida que odeia e que claramente você não imaginaria lhe ajudando, você explode, ao invés de ignorar como brincadeira sem graça. – enfiou o indicador no peito do loiro, encarando-o. – Parabéns, monsieur. É precisamente por isso que não acredito que possa viver com alguém além de si mesmo. Perdão se a ideia lhe ofendeu.

Wilbert

Pegou suas compras nas sacolas que havia deixado de lado, conferindo o conteúdo das mesmas para se certificar que não estava levando nada dali por engano. Balançou a cabeça positivamente como se estivesse de fato dando atenção a todo o falatório da morena. Acabou por revirar os olhos quando ela se levantou, colocando-se a sua frente com os braços cruzados. Aquele tipo de comportamento de sempre lhe responder e tentar ser a última a ter a palavra ali lhe dava nos nervos.

- Ok. Vamos deixar as coisas bem claras aqui, Blanco. - começou, passando a erguer o tom da voz naturalmente. - O que você chama de oferecer “ajuda” já me fudeu não uma, não duas, três vezes! Você é uma mulher maluca. Deve ter algum problema na cabeça quando acha saudável dividir um apartamento com alguém que não quer ter um relacionamento com você. E quando eu digo “relacionamento” eu quero dizer que nem seu amigo é. - respirou fundo, levando uma das mãos até a próxima cabeça, pressionando as têmporas, nervoso. - E eu não sei porquê diabos eu estou tentando explicar isso para você quando visivelmente você tem problemas! Mas o que se podia esperar de um Blanco, não é?! Você e o raio do seu sobrinho sempre estão tentando me testar! Deve ser um bom divertimento entre os dois, não é mesmo?! Por isso está me fazendo esse tipo de oferta maluca?! - virou-se, já irritado, pronto para ir embora, mas logo voltando atrás e se colocando à frente da mulher. - E olhe aqui, eu posso ser mal educado, grosseiro, como quiser chamar, senhora “eu quero um capacho ambulante”, mas pelo menos eu não sou cínico ou dissimulado como a senhora! - terminou, apontando diretamente para a mulher de feição irritadiça.

De fato, não estava acostumado a ideia de alguém lhe oferecendo qualquer tipo de ajuda. Não era do tipo que as pessoas se sentiam à vontade em ajudar, pois sempre pareceu auto suficiente demais, ou arrogante demais para que terceiros se sentissem impulsionados a lhe oferecer algo. Na verdade, estava muito mais habituado a ideia de que todas as vezes que alguém lhe ajudava, provava sua própria incapacidade de conseguir cuidar de seus problemas sozinho.

- Olhe. - fez uma pausa, deixando as compras de lado, sobre o sofá. - Eu sei que não é de hoje que sente esse prazer mórbido com a minha desgraça, mas eu não tenho intenção alguma de alimentar esse tipo de relacionamento. Nem com você, ou com seu sobrinho. - tentou evitar olhar diretamente para a morena, receoso de conseguir enxergar o rosto da mulher e o sangue lhe subir a cabeça mais uma vez e voltar a se alterar.

Dia

Encarou Wilbert de volta, sequer batendo os cílios para o tom de voz dele que começava e se alterar. Ele era um sujeito de pavio curto, e isso já sabia, e embora Dia também não fosse exatamente a mulher mais calma de Cerise, ao menos ela conseguia controlar o gênio que tinha. E sabia ouvir. O chef até começou apresentando um argumento razoável falando sobre como seria estranho dividir o apartamento com uma pessoa que ela nem gosta, mas tão logo ele apresentou-se razoável, o loiro explodiu jogando nela toda a culpa de várias coisas que nem eram culpa dela, inclusive o fato de ser um Blanco. Cínica e dissimulada, isso era sua natureza, mas um Blanco? Bom, isso era apenas circunstância de seu nascimento.

Estreitou os olhos azuis e encarou-o sem mover-se um centímetro de onde estava, lançando um olhar longo para Wilbert que agora preferia não lhe encarar diretamente, Deus sabe o que tinha sua cara, e tinha tentado se acalmar e fazer mais algum comentário sobre o fato dela e de Renaud estarem sempre no caminho dele para atormentá-lo.

Podia deixar que ele saísse dali calmamente e apertá-lo em outra ocasião, mas não sabia se era o calor das cervejas subindo à sua cabeça ou se já tinha engolido aquele sapo de que sua cara neutra era a personificação do diabo por tempo demais, mas tinha que responder Wilbert. Não porque tinha que ter a última palavra. E sim porque tinha que se dar a palavra contra aquelas acusações.

Mas não levantou a voz. Com a mesma suavidade de quem conversa, observou as costas dele e lhe dirigiu a palavra.
- Então vamos deixar as coisas bem claras também, Funske. Se não fosse por sua conduta repreensível naquele curso de culinária, em que você se comportou sendo condescendente com pessoas que conheço há muito tempo e comigo, certamente não teria criado essa raiva de você que me fez, e agora é bom jogar tudo na mesa, fazer uma brincadeira idiota como esconder sua cueca, o que, considerando o quão insuportável você tinha sido naquele dia, foi até infantil. – explicou de modo pontual, erguendo o dedo indicador para impedir que ele dissesse qualquer coisa. – Mas nem eu, nem meus sobrinho, somos os problemas da sua vida. No dia em que encontramos a policial, você foi desnecessariamente rude com ela, a despeito da culpa da direção perigosa ser minha. No dia do jantar, você que ficou nervoso de servir tanto eu como Renaud e suas falhas na cozinha só você poderia ter cometido, porque sequer pisamos fora de nossas mesas.

Andou então até a porta da própria casa, de queixo erguido, a expressão calma de uma mulher que tinha decidido mesmo ter a última palavra porque estava certa e não aceitaria nenhuma objeção. Então destravou a mesma, mas não abriu de imediato, pois ainda se sentia no encargo de dizer mais.

- Fico feliz que reconheça que é rude e mal educado pelo menos, mas espero que perceba que primeiro, os Blanco não são mau agouros nascidos pra te caçar, porque nem tudo gira em torno de você, Funske, inclusive nosso tempo. Segundo, eu e meu sobrinho somos duas pessoas diferentes que se relacionam com você de modo diferente. Sinta-se livre pra odiar os dois, mas não tome minha raiva de você pela dele. – abriu então a porta, já apertando a maçaneta de tanta raiva que tentava conter, a ponta dos dedos visivelmente brancas da pressão. - Terceiro: quem tem problemas é você, com essa paranoia, essa mania de atacar até mesmo quando lhe estendem a mão, e essa sua incompetência de criar bons relacionamentos. Eu sou cínica e dissimulada com quem pede por isso, mas vendo que você não funciona na simpatia, nem na antipatia, nem no cinismo, melhor ser direta, não é? – ergueu os olhos para ele, porque afinal, ele estava em um nível diferente. Mas não se sentia olhando de baixo, de modo algum. – Cai na real, seu imbecil.

Wilbert

Acompanhou a figura de Dia Blanco com o olhar, irritado com o estreitar dos olhos azuis e com o gesto dela lhe impedir de falar justamente quando estava pronto para retrucar quase que imediatamente as acusações da professora. Revirou os olhos, retornando sua atenção para a morena quando ela tentou lhe convencer que a culpa era de fato sua quando ela falou sobre as pessoas que tanto considerava naquele curso medíocre de culinária. Franziu o cenho e crispou os lábios. Era bastante óbvio para si que ela havia se vingado após tê-la feito chorar quando não conseguia provar que ele estava errado. Teve de respirar profundamente quando lhe acusou de odiar a ambos. Ódio não era exatamente um sentimento que cultivava pelos dois, mas podia dizer que eles conseguiam lhe deixar com dolorosas dores de cabeça - e muitas dores corporais. Fosse no bom ou no mal sentido.

Cruzou os braços ao observar a figura feminina se dirigir até a saída, a mão na maçaneta pronta para expulsá-lo de uma vez do recinto. Arqueou uma sobrancelha quando ela mencionou que Renaud Blanco possuiria raiva por ele - detalhe do qual duvidava bastante - servia mais como uma boa distração para a vida tediosa do garoto que não parecia ter problema algum em se colocar em situações perigosas.

Aproximou-se da porta, sem se incomodar em pegar suas compras, e não removeu o olhar da morena do seu, a tensão dela não lhe causando nenhum remorso, muito menos, fazia lhe recordar do dia em que a conhecera na aula sem sentido de gastronomia do chef pamonha. Antes mesmo que ela fosse capaz de lhe falar mais uma vez, apoiou a palma da mão grande na porta, pressionando-a até que fechasse em um baque sonoro, ignorando completamente a mão que ela forçava em manter sobre a maçaneta.

- Eu não pedi para que fosse cínica ou dissimulada comigo naquela aula de velhas, Blanco. Você não conseguiu admitir a ideia que alguém que realmente soubesse mais que você contestasse o seu querido professor. E até hoje, hoje mesmo na feira, você sente esse doente prazer em me provocar e tentar me irritar! - ergueu o dedo para apontar diretamente para a morena, o cenho franzido e o rubor de irritação lhe tomando a face. - Não me venha agora se passar de santa boa moça generosa quando se diverte às minhas custas! Ou vai dizer que assim que eu sair por essa porta você não vai rir de todo o sermão que conseguiu elaborar e agradecer por eu ter sido imbecil o bastante de ter vindo aqui, feito seu almoço? - sorriu com o canto dos lábios, convencido. - Porque nós dois sabemos que independente dos meus equívocos, eu cozinho muito melhor que você um dia poderia sonhar em poder, mulher.

Dia

Não esperava que ele engolisse suas ofensas de graça, mesmo que estivesse plena de certeza que não tinha dito nada de errado ali, apenas verdades que agora não fazia questão de esconder em prol da boa educação. Porém, Wilbert não pegou as próprias compras e se foi. Ao invés disso, continuou lhe encarando em ar de desafio, algo que fez questão de responder igualmente, até mesmo quando ele chegou mais perto da porta e lhe encarou de cima. Se fosse para medir quem estava mais irritado, ganharia facilmente, mas admitia que a figura de dois metros de altura podia ser bem intimidadora.

Se pegou surpresa quando em um empurrão, ele fechou a porta, a despeito de manter-se presa a maçaneta. Os olhos azuis mostraram uma indignação óbvia: primeiro porque tinha um sujeito detestável a sua frente que não estava disposto a ser o adulto ali, segundo porque aquela era sua casa, e ela deveria ter total controle do que portas eram abertas em sua casa, e quais eram fechadas, de quem entrava e especialmente de quem saía. Não ele.

Respirou fundo, encarando-o com os olhos estreitos, mantendo a mão na maçaneta na intenção de ainda abrir aquela porta e tirar ele dali. Especialmente quando falava tanta besteira.

- Porque você não sabe contestar sem parecer boçal ou passar por cima de todo mundo, como se você fosse o próprio Larrousse de culinária, e eu, ao invés de só mandar você mastigar a própria língua e engolir, tentei ser forçadamente educada, até perceber, hoje, que na sua cabeça, só você é a verdade, Funske. – Dia falou no mesmo tom de voz meticulosamente calmo, embora a voz já estivesse começando a rosnar em certas ênfases, como se ela estivesse contendo a própria raiva.

Ergueu o queixo e sorriu com o mesmo deboche dele, encarando-o com os olhos desejando revirarem de tanta bobagem que tinha ouvido. Então crispou os lábios e silenciosamente concordou com um meneio de cabeça.

- É, tenho um desejo sádico de ver todas as pessoas que odeio sofrerem. Quero que sintam tanta raiva quanto elas causam aos outros de graça. Mas não vou rir quando você for embora, porque certamente começou com um almoço agradável, mas agora estou quase no pico do meu estresse discutindo com uma pedra, e brigar com uma pedra é perda de tempo. – respondeu, estatando o que achava ser óbvio. A última coisa que gostaria de pensar assim que o chef saísse dali era o chef, afinal, tinha o resto do dia para descansar, não se estressar mais ainda.

Revirou os olhos quando ele completou com a parte sobre a cozinha. Porque ele vivia e existia em torno de cozinha. Aquela não era só a profissão dele, era tudo que o constituía, tudo que pensava. Tinha certeza que o cérebro dele era feito de abobrinha.

- Seu primeiro equívoco é achar que eu estou me lixando quem de nós cozinha melhor. Engula seu diploma, Funske. Entale com ele. – respondeu prontamente. Até levantou a mão para gesticular abertamente a própria irritação com a lógica de Wilbert. – O fato de você não entender que você é um imbecil irremediável já me torna, por eliminação, uma pessoa muito melhor que um canudo em uma faculdade lhe faz. Agora sai daqui, está me dando dor de cabeça. – Dia resmungou, esperando que dessa vez, a ordem clara para ele ir embora fosse resolver seu problema.

Wilbert

Respirou fundo e segurou a respiração quando ela lhe comparou a Larrousse, ainda se fazendo de educada quando desde o começo tudo o que ela fazia era lhe dar pequenas alfinetadas tentando testar sua paciência. Franziu o cenho quando ela lhe ajudou de “dono da verdade” quando havia chegado até ali contrariado pelo cenário de não ter comprado o peixe que escolhera de fato. Contudo, não conseguiu esconder o sorriso ainda mais convencido quando ela demonstrava cada vez mais estar irritada com aquela discussão.
Apenas diminuiu a curva do canto dos lábios quando ela admitiu lhe odiar, ainda que naquele tom recheado de orgulho e raiva. Arqueou os ombros assim que ela lhe disse para entalar com o diploma. Em nenhum momento havia se gabado da própria formação, o que não considerava ser o principal fator de sua culinária, era apenas uma questão de título para que pudesse ter dado início a sua carreira.

- Mas eu nunca disse que o meu diploma era importante! Você que pensou isso e tomou suas próprias conclusões, Blanco! E se você está tão nervosinha assim, a culpa é unicamente sua que começou toda essa discussão! É bom que esteja irritada de verdade, porque ao menos assim paga metade da raiva que me fez passar nas vezes que tive a infelicidade de lhe encontrar! - acusou, não se importando com o tom alto de voz que era bastante natural aos seus ouvidos. - Você só continua frustrada porque eu fiz você chorar daquela vez no restaurante?! E desde então você se diverte às minhas custas testando minha paciência todas as vezes que nos encontramos! Mas quer saber?! Ótimo! - uniu as mãos em uma palma sonora pelo ambiente enquanto encarava ainda irritado a morena impaciente para que fosse embora.

Respirou fundo mais uma vez, ignorando qualquer nova sentença que ela tivesse para lhe acusar, e se dirigiu para suas sacolas novamente, unindo as mesmas sem demora, carregando o conteúdo facilmente com uma das mãos. Passou a mão livre pelos cabelos, respirando profundamente para tentar não se enfurecer mais do que o de costume com a morena que lhe expulsava da residência dela. Aproximou-se da saída, direcionando o olhar ainda para a mulher com dor de cabeça, mas fez uma nova pausa antes de colocar o pé para fora dali, pois julgava que aquele detalhe era importante destacar:

- Olhe. - disse, o tom firme de sempre, com o tom de irritação cotidiano. Estava preparado para o caso dela querer lhe empurrar ou bater a porta em seu corpo, tinha força e tamanho o bastante para segurá-la antes de qualquer coisa. Encarou a mulher, contudo, mantendo o semblante dessa vez mais sério. - Só para ficar claro para você que gosta de tirar suas próprias conclusões, eu não odeio você, ou o seu sobrinho. A senhora só tem a maldita capacidade de me deixar extremamente irritado. - admitiu por fim, encarando-a antes de sair, levando a palma da mão até as têmporas, pressionando o espaço entre os olhos pela simples certeza que havia se irritado muito mais que o que deveria e falado além do que precisava. Naquele cenário, bem podia imaginar ela chamando a polícia e acabando por ser preso mais uma vez por sabe-se lá o que ela poderia lhe acusar após ter lhe convidado a estar ali de qualquer forma.


Dia

Qual era o problema de Wilbert, que continuava lhe acusando de perseguí-lo e que continuava achando que quem tinha começado a discussão era ela quando claramente foi ele o primeiro a levantar a voz com uma provocação que poderia ter facilmente saído na urina? Fechou os olhos por um breve instante e em seguida tornou a encarar o loiro, não movendo um centímetro os lábios, deixando-os bem cerrados para que sua resposta aqueles absurdos ficasse bem clara. Estava queimando de ódio, mas tentaria não deixá-lo ver mais daquele seu lado. Porque não era fraca, e nem ele era o santinho daquela conversa. Não sairiam daquele patamar de tentarem se inocentar nunca.

Ao menos ele tentou respirar fundo, e finalmente foi pegar as sacolas para sair dali de seu apartamento. Já tinha engolido Wilbert demais para seu gosto. Queria só que ele sumisse dali para que pudesse ir tomar um banho e deitar no sofá para assistir um reality show de domingo, ou quem sabe pegasse o fim de alguma corrida de Nascar. Só não queria olhar para a cara dele ou pensar nele. Já estava irritada o suficiente.

Então ele tentou lhe corrigir mais uma vez, dessa vez defendendo a ideiade que ele não lhe odiava. Supunha que para Wilbert, então, ser idiota era um ato muito natural, pois se ele não lhe odiava e fazia questão de lhe fazer raiva daquele jeito, se lhe odiasse de verdade, provavelmente cometeria assassinato. Sacudiu a cabeça negativamente e respirou fundo.

- Eu não odiava, Funske. Até compartilhava desse sentimento de que você me irrita, simplesmente. Mas começo a achar que você faz questão de me fazer mal, tanto quanto você acha que eu estou por aí apenas para lhe fazer mal também. – respondeu, mantendo a mão na maçaneta apenas por orgulho. Ele deveria ir embora logo porque assim finalmente teria seu dia de folga de volta. – Eu preferiria não lhe odiar. Mas acho que não sou tão evoluída quanto você.

Mostrou mais uma vez a palma pra cima, indicando o caminho para fora de sua casa, esperando que ele finalmente tomasse a decisão de ir embora.

[Encerra?]

Wilbert

Pensou em dizer a morena que o universo também não girava em torno dela para que pensasse nela todos os dias e em como poderia arruinar a vida dela. Por que ela continuava em teimar que sentia tanto prazer assim em irritá-la? Irritava muita gente e não apenas a morena. Meneou a cabeça negativamente, dando as costas para a morena, certo de que ela estava agindo daquela forma movida não apenas pela raiva habitual, mas pelo álcool que havia ingerido. Era justamente por seu temperamento também ser fraco para a bebida que estava evitando beber demais. Escolheu deixar a situação para depois, não se dirigindo mais a morena após seguir para deixar o corredor.

Não se despediu, certo de que, naquele instante, até mesmo o timbre normal de sua voz irritaria ainda mais a morena. Podia voltar para seu bistrô e a cozinhar. Não queria pensar muito sobre o assunto, mas a ideia da mulher lhe odiar como ela mesmo havia atestado lhe deixava mais inquieto do que gostaria. O almoço, de fato, não havia sido desagradável como imaginava - o que removeu sua paciência foi a ligação do advogado e não necessariamente a conversa com a mulher.

Voltou para o bistrô ainda pensando na discussão que havia tido com a mulher. Sabia que, vivendo em Cerise, mais cedo ou mais tarde, voltaria a topar com a morena por aí. Contudo, pela primeira vez desde os encontros que tivera com a Blanco, sentia-se ansioso com a ideia de reencontrá-la e constatar que de fato ela estava falando sério sobre começar a lhe odiar. Não era seu objetivo ali ser odiado por pessoas como ela, ainda que o comportamento alheio lhe irritasse constantemente, sabia o quão nocivo aquele tipo de cenário poderia se tornar. Talvez fosse o momento de começar a tentar fazer algo diferente antes de continuar repetindo as mesmas ações, esperando resultados diferentes.

[thread encerrada]


Messages In This Thread
[Drive] Peppermint [Wilbert; Dia] - by Lil - 09-01-2021, 03:13 PM
RE: [Drive] Peppermint [Wilbert; Dia] - by Lil - 09-01-2021, 03:13 PM

Forum Jump:


Users browsing this thread:
[-]
Cerise News
Dia xx/xx/xxxx
População de Cerise come mais Patchdonald's que a média nacional de comedores de McDonald's, diz jornal Le Monde.

[-]
Birthdays
Today's Birthdays
No birthdays today.
Upcoming Birthdays
avatar (37)Skurai

[-]
Latest Threads
Trouble in Paradise [Carbella]
Last Post: Natalia
09-27-2023 04:34 PM
» Replies: 6
» Views: 28
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Last Post: Natalia
09-08-2023 11:08 PM
» Replies: 16
» Views: 42
Run Boy Run [Daniel]
Last Post: Qiang
09-07-2023 06:32 PM
» Replies: 6
» Views: 32

[-]
Recent Posts
Trouble in Paradise [Carbella]
Ao terminar de consu...Natalia — 04:34 PM
Trouble in Paradise [Carbella]
Carbella queria dize...Carbella — 10:02 PM
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Voltou o olhar quase...Natalia — 11:08 PM