[Drive] Unlucky Patient [Patrick; Enzo]
#1
Patrick

Já havia imaginado como poderia ser morrer de uma forma comum para um bandido. E foram tantas vezes passando perto do processo que a dor e dormência devido ao frio em que fora encontrado não chegavam a lhe causar choque ou confusão. Porém, lá estava quase inerte agora em uma maca de hospital. Demorou alguns instantes até que pudesse identificar em que tipo de ambiente poderia estar. O cheiro de limpeza e remédios, a luz forte que incomodava sua visão já desajustada pelos golpes que havia tomado na cabeça.

Respirava devagar, pois toda vez que tentava puxar mais ar para os pulmões, sentia uma grande dormência em sua lateral, acompanhada de uma quase imperceptível dor aguda próxima ao peito. Podia sentir a garganta seca e o frio do ambiente refrigerado lhe incomodar ou poderia ser apenas a pressão baixa. Moveu os dedos da mão direita, ainda trêmulo. Não sabia quanto tempo havia passado ali, mas os membros doíam como se não se alongasse há alguns dias, como se estivesse deitado ali há muito tempo.

Tentou erguer o braço, mas desistiu no processo ao notar que estava com um cateter nas costas da mão. Fechou os olhos novamente. Estava muito exausto pra tentar qualquer coisa nova, mas não foi o acaso que lhe despertou. Estava com um incômodo latente em seu baixo ventre, como se precisasse usar o banheiro. Abriu os olhos novamente em busca de ajuda, mas a luz de novo lhe incomodou. Perguntou-se mentalmente há quanto tempo estava ali. Sequer fazia ideia se ainda estava em Cerise.

Desde o seu último plantão na noite em que havia atendido o estranho homem ruivo pelado, havia se preocupado em separar a camisa do senhor que havia trazido o paciente consigo, e se preocupou ainda mais em não deixar seu celular novo sequer perto do homem. Estava em seu local de trabalho e era bem capacitada para assegurar aos enfermeiros, homens e mulheres, da equipe, que o paciente ficaria bem a despeito dos vários machucados na cabeça, contusões e escoriações nas costelas. Ele não estava muito diferente dos pacientes que estava acostumada a tratar das ruas, e ali era um hospital com todos os equipamentos que precisava e muito mais para cuidar do rapaz. Só não entendia o motivo do mais velho tê-lo trazido, principalmente quando o sujeito sequer foi identificado.

Desconfiada do caso, tratou de sondar a situação e acabou descobrindo que ninguém havia acionado a polícia, pois aparentemente alguns enfermeiros do hospital sabiam quem o ruivo era. O sujeito era um velho morador de Cerise, ou deveria ser não fosse pelo tempo que passava ausente da cidade. Não resolveu aprofundar-se na pesquisa, apenas satisfeita em ver no prontuário o nome do sujeito corrigido, assim não precisava ver nenhum policial ali tão cedo. Aquele tipo de encontro sempre lhe deixava estressada.

Já havia ido até seu apartamento, tomado um banho, cochilado um pouco para voltar para a consultoria clínica. A parte curiosa do paciente inusitado era que não havia nenhum acompanhante com ele, além do homem mais velho. Deixou claro na noite do atendimento que não havia mais ninguém ali que poderia ficar com ele, mas que a equipe do hospital cuidaria bem do desconhecido enquanto ele estivesse aos cuidados das instalações ali. Não fazia ideia da disponibilidade de Enzo, principalmente após especificar que o ruivo demoraria mais que um ou dois dias até estar devidamente recuperado.

Enzo

Desde que tinha encontrado aquele homem ruivo na praia, supunha que ficaria em paz consigo mesmo uma vez que família dele o achasse. Ou talvez fosse ilusão demais achar que teria a sorte dele ter uma família. Não se importava de acompanhar o rapaz no hospital, mas tinha certeza que tinha acabado de se meter em alguma confusão muito maior do que um dono de pousada poderia se meter. Mas tinha alguma consciência, e ela lhe dizia que não podia simplesmente abandonar uma pessoa que tinha sido agredida aquele nível no hospital e ficar bem com isso. Ninguém merecia aquele tratamento, mesmo que fosse um homem horrível.

Mesmo que a médica do plantão, sua amiga do celular estatelado tivesse deixado claro que teria que esperar alguns dias para o outro se recuperar, fez um favor a si mesmo de deixar um funcionário na pousada em seu lugar e arrumou um tempo para ir ao hospital nas horas de visitação. Conversava com os enfermeiros e enfermeiras muito abertamente sobre não conhecer o outro, mas pelo visto, ele era um encrequeirozinho de Cerise de longa data. Nada preocupante: um ladrão, um mágico, o que fosse que lhe dissessem, exceto pelo fato dele ter se metido com gente muito perigosa, não parecia nada preocupante a ponto de ligar para a polícia. Aliás, esperava ele acordar para ligar para a polícia: não queria acabar metendo o ruivo em mais encrenca do que ele tinha se metido sem o consentimento dele.

Acabou indo ao hospital com lanchinhos para si mesmo, para conseguir esperar o outro acordar no leito em que tinham colocado ele depois de passado o susto inicial. Sentou-se em uma cadeira e dividiu uma maçã com uma enfermeira que estava no final do plantão cansativo. Aproveitou para avisá-la que a mangueira do soro estava entupida, mas não achava que ela precisava saber que isso provavelmente era pelo seu azar. Desde que não fosse muito ativo, provavelmente o ruivo sobreviveria.

Já estava indo jogar o resto de maçã fora quando notou uma movimentação no leito, e, talvez no susto, acabou derrubando a lixeirinha. A enfermeira crispou os lábios, compreensiva, e foi chamar a médica. Enzo aproximou-se do leito, observando o outro que começava a despertar, mas optou por fechar os olhos de novo. Suspirou longamente, sem muito o que fazer.
- Você é um rapazinho resistente, hm? Pena que demora tanto a levantar. – brincou mais consigo mesmo, supondo que ele não se incomodaria de conversar. – Deveria acordar e ver as enfermeiras, Patrick. Elas são umas gracinhas.

Patrick

Estava sentindo o braço realmente incomodar pelo soro, mas não abriu novamente os olhos até ouvir o suspiro no ambiente e se dar conta que não estava de fato sozinho ali. Buscou ao redor a imagem do indivíduo que começava a falar, estranhando principalmente quando ele havia lhe chamado pelo primeiro nome. Acabou focando no sujeito de cabelos grisalhos, desconhecendo a imagem do homem que estava ali. Ele era um médico? Deveria ser, pela idade. Mas ele não usava nenhum jaleco ou uniforme. Moveu os lábios como se fosse perguntar por algo, mas acabou fazendo uma careta por ainda sentir a garganta seca.

- Merda-- ! - reclamou baixo, voltando sua atenção novamente para o senhor grisalho. - D-Dou...tor? - questionou, a voz saindo arrastada.

Não demorou muito para que a médica chegasse, prontamente notando a presença do senhor Enzo para pedir licença e verificar a situação do paciente. Patrick observou a mulher desnorteado, principalmente quando a enfermeira que a acompanhava logo lhe removeu o cateter, relaxando seu braço e lhe causando um alívio maior ao ajudá-lo a dobrar o braço, massageando a articulação.

- Ele respondeu bem ao processo pós-cirúrgico, só teve alguns problemas após o hemograma como anemia e algumas infecções estomacais. Daqui em diante, ele pode se recuperar fora do hospital, mas vai precisar de cuidado redobrado. - Natalia explicou ao grisalho enquanto o paciente estendia o braço, tentando chamar a atenção da enfermeira.

- Ba-banheiro… eu preciso… ir… - tentou avisar, erguendo a outra mão com maior esforço, colocando-a sobre o cobertor de seu corpo. Estava sem roupas, apenas com um modelo de bata do hospital que certamente não lhe cobria a traseira. A enfermeira parecia não conseguir lhe dar atenção totalmente, principalmente por estar ocupada checando sua medicação ao lado. Não aguentaria segurar aquela necessidade fisiológica urgente por muito mais tempo, então tentou se apoiar no antebraço para se sentar na maca sozinho.

Enzo

Enzo estava na pretensão de arrumar alguns dos vasinhos de planta na janela para dar mais um pouco de vida ao ambiente. Cerise tinha um hospital bem organizado, mas como todos os quartos de hospital, como bem conhecia, era muito sem graça. Porém, quando virou-se para pensar em arrumar um jarrinho em alguma lojinha lá fora (que eventualmente terminaria quebrando), ouviu a voz do rapaz finalmente, a voz rouca de ter passado muito tempo sem uso, de quem tinha acordado e embora estivesse hidratado pelo soro, não tinha bebido água nenhuma. Acabou sorrindo ao ser chamado de doutor.

- Infelizmente, em biologia, apenas. – respondeu devagar, mas simpático, esperando que isso não estivesse apenas deixando ele mais confuso.

Pensou em sair para chamar a médica, mas ela não pareceu demorar para aparecer com outra enfermeira bonitinha e fazer todos os procedimentos apropriados uma vez que rapaz tinha acordado. Ouviu enquanto ela lhe dizia que ele precisaria de ajuda por esses dias, imaginando se ela o liberaria tão prontamente. Ele parecia ainda meio debilitado. Quem sabe no final da tarde depois de tentar mastigar uma refeição leve, estivesse em condições de sair? Ou quem sabe ele ainda iria ao hospital por muito tempo, pelo menos para ter acompanhamento psicológico.

- Doutora, tenha um pouco de dó dele. O rapaz ainda nem acordou direito, você quer mandá-lo embora? – Enzo comentou com um sorriso leve no rosto. – Deixe eu conversar um pouco com ele, ainda não sei se ele quer me acompanhar afinal. – o mais velho respondeu, então andando até a maca.

Pelo visto era o único que tinha ouvido que o rapaz precisava ir ao banheiro, pois a enfermeira ainda estava ocupada com remédios. Calmamente pegou o papagaio de debaixo da maca e enquanto as duas conversavam sobre o paciente, Enzo ergueu o lençol e aproveitou para esgueirar a peça nada discreta por baixo do mesmo, e, pedir licença baixinho para o rapaz para posicioná-lo no lugar correto.

- Não precisa levantar. Vai magoar. – falou, apontando para as próprias costelas lembrando o outro que ele estava machucado. – Aproveite que ninguém está vendo. – cobriu Patrick de novo com o lençol e virou-se, deixando que ele fizesse o que precisava.

Patrick

De fato, não entendeu a resposta do homem grisalho ao responder algo sobre “biologia”. Ouviu a tal mulher por quem ele chamava de doutora rir com a conversa do homem enquanto ele, paciente, ainda estava ali, dolorido com a ideia de precisar ir ao banheiro. Ergueu o olhar confuso para o homem em um reflexo mais brusco, segurou o braço dele, os dedos trêmulos pelo esforço e a expressão de pânico estampada em sua face. Ao sentir o frio do metal daquela peça entre suas pernas, gelou, recordando da sensação desagradável da garrafa de bebida usada para deixá-lo naquelas condições.

Respirou fundo, tenso, e antes mesmo que ele pudesse acabar de lhe dar permissão para fazer o que precisava, já havia urinado, a pressão em seu baixo ventre aliviando consideravelmente. Da mesma forma, aliviou a pressão no braço do mais velho, respirando devagar para tentar se acalmar do breve susto.

- Q-Quem…? - fez uma pausa, sentindo o corpo ainda dolorido pelo esforço brusco. - … onde? Quem são… vocês?

Nesse momento, a doutora se aproximou, dando dois breves tapinhas nas costas do mais velho para poder verificar o estado do paciente.

- Sou a doutora Natalia. Cuidei de você quando chegou. Seu nome é Patrick. Consegue se lembrar? - ela perguntou enquanto o ruivo acenava devagar mas positivamente. Analisou a pupila do homem e a situação de sua gengiva e língua. - Esse homem, o senhor Enzo, foi quem te trouxe para o hospital. Estamos no Hospital Geral de Cerise, querido. Você escapou de uma boa surra, huh?

Ela comentou como se fosse algo corriqueiro em sua carreira, mas apenas obteve um olhar de reprovação da enfermeira que lhe acompanhava e outro mais nostálgico e assustado de seu paciente.

- E-eu… quanto tempo…? - Patrick ainda parecia confuso e desnorteado como se procurasse o que faria após sair daquela cama de hospital. Não lhe restavam muitas opções, afinal de contas, vivia nas ruas. - Posso comer…? - perguntou, ciente dos poucos prazeres que poderia suprir estando ali no hospital da cidade. Pelo menos estava em uma cama, razoavelmente limpo e cuidado.

- Claro, querido. Você teve uma contusão na cabeça, mas já suturamos para você. Vai ficar com uma nova cicatriz na sua nuca. E suas costelas foram trincadas. Precisamos fazer um tratamento menos invasivo, mas você vai ficar bem. - a doutora encorajou, aproximando-se de Enzo para lhe sorrir, amigável. - Vamos cuidar muito bem de você, não é mesmo? - perguntou, aproveitando para passar a mão descaradamente pela nádega direita do mais velho.

Enzo

A reação brusca dele para seu auxílio com o papagaio fez com que Enzo arqueasse a sobrancelha. Supunha que alguém que tinha levado uma surra como a dele tivesse seus traumas, mas não esperava que, mesmo na confusão de ter acabado de acordar, ele ainda estivesse tão na defensiva. Imaginou, com isso, que aquilo significava que os traumas dele eram bem profundos. Não faria perguntas porque não era a polícia, mas certamente queria saber o que tinha acontecido e como ele ficaria dali em diante, talvez apenas pelo senso de responsabilidade de tê-lo trazido para o hospital.

Quando a peça encheu, tirou-a com cuidado de debaixo do lençol para não assustar ainda mais o ruivo e deixou que a médica e a enfermeira tomassem conta do resto. Sorriu amigável quando foi apresentado junto de toda a equipe como o homem que tinha ajudado Patrick, cumprimentando-o. Enzo imaginava que Natalia poderia ter sido mais delicada em lembrar o paciente da surra que tinha levado, especialmente porque ele ainda parecia traumatizado com isso, mas já sabia que ela era uma mulher bem direta. A enfermeira poderia reprovar, mas estava na natureza dela.

- Oh, sim. Cuidaremos muito bem de você, Patrick. Não se preocupe. – Enzo respondeu pelo que Natalia tinha dito, então pensando em ir no banheiro jogar fora o conteúdo do papagaio. Tomou um leve susto com a passada de mão, mas logo seguiu a médica com o olhar, sequer percebendo, enquanto andava até o banheiro, um dos aparelhos no caminho.

Até tentou desviar, mas foi algo tão em cima que do susto, trocou os pés e largou o papagaio para se segurar na parede, para não cair. A peça de metal fez com um som alto, e a urina se espalhou pelo chão, respingando na enfermeira e em Enzo, que riu, nervoso.

- Ahh... bom... eu vou pedir uma refeição para você, rapaz. Tem alguns lanches que trouxe na mesa ao lado de sua cama. – o grisalho explicou, então averiguando o dano que tinha causado com seu azar. – E também vou buscar alguém da limpeza. Urgentemente.

Patrick

Assistiu a médica cruzar os braços e suspirar conformada quanto a cena do homem que supostamente havia lhe salvado. Baixou o olhar para a própria situação, considerando que ainda estava vivo e aquilo ainda era difícil de processar. Sequer deu atenção à cena que se seguia da médica pedindo para o senhor seguir e enfermeira e ir se limpar para que a higiene daquela ala do hospital não fosse comprometida. Pressionou os dedos das próprias mãos, ainda se recordando do pesadelo que havia sido até perder completamente os sentidos. Na verdade, não sabia o que fazer ao certo. Estava vivo e não sabia como se sentir sobre o que precisava fazer dali em diante.

Após quase meia hora, a enfermeira retornou com um uniforme trocado e uma travessa com o que deveria ser sua refeição. Até então apenas havia descansado, finalmente chegando à conclusão de que não fazia ideia do motivo pelo qual o mais velho estava ali. Será que alguém havia dito a ele que era algum homem rico? Que haveria uma recompensa por lhe salvar? Ou será que ele era um daqueles homens da igreja que jurava que estava salvando a vida de mais um necessitado para comprar seu lugar no céu? No fundo, não dava a mínima para o motivo dele ter escolhido lhe salvar. Estava aliviado de ainda estar vivo. Não tinha o mínimo desejo de desaparecer, pois sabia que era isso que aconteceria, a julgar que não possuía mais ninguém preocupado consigo além de si mesmo.

Sorriu discreto em agradecimento para a ajuda da mulher em subir o apoio de sua maca e travá-la para que de fato pudesse se alimentar. Ergueu o olhar de sua comida, procurando pelo tal sujeito que parecia interessado em lhe visitar e ainda por cima havia ajudado com que se aliviasse. Respirou devagar, encarando as porções de comida separadas e servidas em porções pequenas, a maioria pastosa. Pegou a colher sem demora, fechando o punho no cabo por ainda se sentir fraco para se alimentar sozinho e pegou uma porção pequena para colocar na boca.

A sensação de finalmente estar comendo algo bom após o susto do encontro desagradável era inexplicável. Era por aqueles pequenos prazeres que continuava a viver e ainda que não tivesse ninguém com quem contar, estava feliz por poder se alimentar e aliviar as dores em um hospital. Enquanto comia, ergueu o olhar várias vezes, procurando pelo tal homem de cabelos brancos, curioso ainda com a presença dele ali. O cabelo rubro estava assanhado e agora que estava quase sentado, era mais visível a distinção em seu corpo da estrutura óssea pelos ombros e clavícula. Já era naturalmente magro e esguio, debilitado então, parecia que não se alimentava decentemente há algum tempo.


Enzo

Enzo saiu para se arrumar e aproveitou para chamar tanto a equipe de limpeza quanto a enfermeira para que ela levasse comida para o paciente. Enquanto isso ocorria, lavou um pouco sua calça, molhando-se mais do que deveria no processo, e sujando o chão do banheiro, para o qual teve que chamar outra equipe de limpeza, e assim que terminou estava com a barra da calça meio molhada, bem como as sandálias. Trocou-as por sapatos higiênicos, mas passou por um corredor encerado e escorregou derrubando uns remédios... e assim seguiu, até conseguir voltar para o leito do tal Patrick, agora com uma faixa na mão por ter se cortado com um vidrinho quebrado que tinha derrubado por acidente.

Ao voltar, notou que o rapaz já estava se alimentando e sorriu satisfeito. Supunha que uma das poucas alegrias dele deveria ser comer, pelo estado magro em que estava. Se o levasse para casa, pensaria em serví-lo uma fatia das tortas da Antique, assim que pudesse. Isso sempre ajudava depois de uma experiência ruim.

- Que bom que está conseguindo comer. Se precisar de ajuda, é só pedir que eu posso lhe alimentar. – comentou, estendendo a mão com cuidado para os cabelos ruivos bagunçados, em seguida, tentando se acomodar na cadeira que havia trazido até ali para esperar o outro comer sem cometer mais nenhum acidente. – A doutora Natalia cuidou bem de você. Eu queria dizer que lembro o nome dela para ser um homem educado, mas ele é gigante, parece um palavrão. O meu é mais fácil. Enzo Burnell.

Patrick

Quando finalmente o homem retornou, estranhou as novas vestimentas dele, assim como os sapatos higiênicos. Pensou em perguntar se ele não era mesmo um médico ali ou algum enfermeiro, quem sabe. Estranhou ainda mais quando ele estendeu a mão para lhe tocar os cabelos. Afastou-se devagar, desconfiado, mas a proximidade lhe fazendo perceber as faixas na mão do grisalho.

- O que hou--ah! - pressionou os lábios, fazendo uma careta ao sentir a garganta doer de novo. Largou o talher e levou a mão até a própria boca, tossindo por um instante. Deslizou os dedos pelo próprio pescoço, lambendo os lábios antes de continuar. - Desculpe. - apontou com a mão que antes estava em seu pescoço para a mão do homem. - O que houve?

Baixou o olhar, esperando uma resposta até pegar a colher novamente, voltando a comer em silêncio até se dar conta de novo que ele havia se apresentado. Observou o sujeito enquanto mastigava, o olhar cansado de quem mastigava com tranquilidade, sabendo que aquela refeição poderia muito bem não ocorrer duas vezes naquele dia.

- Patrick. - respondeu fora do contexto, apresentando-se casualmente, apesar de já imaginar que ele já deveria ter conhecimento de seu nome pelo que constava na sua ficha no hospital, mostrada pela enfermeira anteriormente. - Eu acho… que devo te agradecer…

Não entendia o motivo pelo qual um homem que sequer conhecia estava demonstrando tanta preocupação assim com sua figura. Ou ele tinha segundas intenções naquela história ou era muito ingênuo. Ao pensar nisso, imediatamente a figura da mulher loira dona do Saute veio a sua memória e respirou profundamente. Tinha certeza que ela estaria muito melhor naquele momento se tivesse sumido com o castigo recebido pelo chinês, japonês, fosse lá o que o homem estrangeiro fosse, queria que ele engasgasse com o próprio membro e caísse duro na frente da delegacia.

- Como foi… que me achou? - perguntou ao grisalho, sem deixar a comida de lado, usando-a como desculpa para não ter que encarar o estranho enquanto ele parecia um ser humano bem feliz e animado. E apesar dos cabelos grisalhos, ele não parecia de todo acabado. Ele estava muito bem alimentado e era grande, o tipo que lhe daria trabalho para furtar em dias normais.

Enzo

O fato do rapaz não querer seu toque nem mesmo num afago amigável lhe fez supor que os traumas que ele sustentava daquela surra e violência tinham sido bem grandes. Deixou que ele comesse em paz, apesar de notar que ele ainda tinha alguma curiosidade sobre o ferimento em sua mão.

- Um acidente enquanto eu caminhava no hospital. Derrubei uns vidrinhos. Caí e coloquei as mãos neles por acidente. – tentou explicar, supondo que esse tipo de azar absurdo era muito comum para si, mas não para os outros. – Por isso demorei.

Enzo encarou os hábitos do rapaz, analisando-o. Pelo visto ele comia muito focado, como quem não tinha certeza que conseguiria outra refeição. E também não lhe encarava. Provavelmente era muito desconfiado. Estava tentando decidir se ele era um herbívoro ou carnívoro, ou se na verdade, como um animal ferido, metade de seus instintos tinham sido reduzidos e agora ele só estava mais focado em sobreviver. Se ele tinha uma má fama de rua, provavelmente tinha mais tenacidade do que mostrava ali naquela cama de hospital. Ou talvez a sobrevivência dele daquela situação já dissesse muita coisa sobre sua tenacidade.

- Você estava na praia. Eu tenho um estabelecimento, uma pousada, que é bem próxima ao local. Às vezes saio para passear muito cedo, e encontrei você lá. – respondeu, então abrindo um sorriso amigável. Cruzou os braços enquanto estava sentado, pensativo. – Chamei a ambulância para você, mas fiquei me perguntando se você ficaria bem. Quando dei por mim, tinha vindo até o hospital e me colocaram como seu responsável. Não que me incomode. Já lidei com muitos animais machucados quando morava na África. Aqui, estou cumprindo meu dever como cidadão.

Patrick

Ergueu o olhar de seu alimento por um instante ao ouvir o mais velho falar sobre ter uma pousada próxima da praia. O que havia de errado com aquela cidade agora que precisava ser encontrado por donos de grandes estabelecimentos? Arqueou uma sobrancelha, atento a parte que ele havia sido colocado como seu “responsável” mais que a parte sobre ele ter morado na África. Baixou o olhar para a comida, terminando sua comida pastosa para abrir o potinho com a gelatina vermelha de framboesa.

Não entendia a necessidade de algumas pessoas ali em serem tão “boazinhas” e preocupadas com seu próprio papel de “cidadão”, como afirmou o tal de Enzo. Todavia, não estava reclamando, muito pelo contrário. Se havia sido internado ali com um “responsável”, talvez não estivesse tão desamparado assim. E o homem ainda havia lhe resgatado quando estava prestes a morrer largado na praia. Tossiu ao comer mais rápido que deveria, fazendo uma careta ao sentir a dor incômoda nas costelas aumentar.

- Hm. Obrigado por me ajudar. - arrumou-se no apoio da cama, finalmente observando o mais velho com maior atenção. Ele não parecia ser assim tão velho, era alto, boa aparência, parecia simpático. - O senhor disse que morou… na África…? Bom lugar? - perguntou com a voz ainda um tanto falha. Buscou um pouco de água para poder ajudar ao sabor da comida finalmente deixar o ressecado de sua garganta lhe incomodar.

O homem lhe parecia o tipo de velho simpático que gostava de falar pelos cotovelos sobre as próprias experiências. As velhinhas que mais conhecia eram da Igreja e do orfanato mais próximo, e nenhuma tinha paciência para a forma como se portava, mas bem sabia ouvi-las quando lhe era conveniente. E no momento em que estava, julgou conveniente ser amigável com o mais velho, não exatamente porque ele já havia salvo sua vida, mas porque não havia nada com o que pudesse pagá-lo, além de um “muito obrigado” e não queria que ele pensasse em lhe abandonar até que pudesse pelo menos respirar corretamente.

Enzo

Observou-o enquanto ele se alimentava, atento as comidas pastosas e depois a gelatina. Ele parecia faminto, mas um paciente com tão pouco no estômago nos últimos dias certamente não deveria comer tanto de uma vez. Pelo visto ele tinha o impulso de quem tinha uma vida difícil: o comportamento habitual de comer até encher por não saber quando seria a próxima refeição. Certamente na vida diária dele era uma presa, ou quem sabe um animal aproveitador, com hábitos de vida urbana.

- Não coma com tanta pressa. Mais tarde, se forem lhe liberar, podemos jantar algo leve. Acho que tenho sopa na geladeira. – comentou calmamente, assegurando para o outro que teriam como sobreviver mais tarde.

Quando o ruivo questionou sobre a África, abriu um sorriso largo. Ele estava interessado? Provavelmente só para que pudesse comer sem interrupções, ou talvez quisesse ouvir alguma coisa que não fosse sobre hospitais, sobre seu acidente ou sobre nada que lhe lembrasse que estava internado.

- Sim, no Quênia. Tem boas cidades lá. Morei um tempo em Nairóbi para estudar, depois em Nakuru e passei muito tempo em Naruk, que era perto de onde eu trabalhava, numa reserva chamada Maasai Mara. Sou biólogo por profissão. – explicou, tão animado quanto sempre ficava quando falava das lembranças daquela época. – Naruk é uma cidade pequena, mais pobre, mas as pessoas são amigáveis. Aprendi a gerenciar pousadas com as pessoas de lá. – apoiou o cotovelo na cadeira e o rosto na mão, entretido com as lembranças. – Quando cheguei, fiquei em uma pousada de uma senhora que tinha dois filhos. Um rapaz e uma moça. O rapaz tinha dificuldade de aprender inglês. Fiquei muito tempo como professor particular dele, já que eu já falava swahili e inglês também. Quebrei o braço em um passeio na terceira semana com ele. Aproveitei para ensinar as partes do corpo. Ensinei cada uma, com uma metodologia bem tátil. Como ele tinha o corpo muito bonito, era mais fácil. Quando tirei o gesso, tentamos levar os ensinamentos mais a fundo, mas por azar, a irmã dele nos pegou em um momento de intimidade... ela não ficou muito feliz, era uma garota de cabeça quente. Eu falo mal, mas um ano depois, casei com ela, hahaha. A África é maravilhosa.

Patrick

Manteve a atenção na gelatina até ele lhe aconselhar a não comer com tanta pressa. Já havia notado o olhar do mais velho sobre si, lhe julgando. Aquele tipo de comportamento era muito comum ao seu redor, mas imaginou que pelo menos em uma cama de hospital teria alguma folga. Ergueu os olhos do alimentando, segurando a colher de plástico com a gelatina entre os lábios. Ele estava mesmo disposto a lhe levar para casa ou era impressão sua? Ao menos a história dele sobre a África fez com que se alimentasse de fato mais lentamente, atento aos detalhes daquela conversa bizarra.

Sorriu com o canto dos lábios em silêncio com a ideia sobre o velho. Ele estava acostumado a lugares mais pobres e a estar cercado de pessoas em situação pior que ele, certamente. Deveria de um daqueles homens excêntricos que amaciava o próprio ego pagando de bom camarada ao ajudar os desprovidos da mesma sorte. Respirou fundo para suspirar no reflexo, acabamento por deixar escapar uma careta de dor justamente no instante em que ele falou sobre a “intimidade” com o filho da dona da pousada. Franziu o cenho por um instante, esperando que o tal rapaz não fosse um adolescente ou coisa parecida. Seria horrível demais ter a vida salva por um pedófilo. Era um canalha, não podia negar, mas tinha lá seus limites.

- Hm. - removeu a colher dos lábios, deixando o pote de gelatina vazio sobre a bandeja que haviam lhe servido e voltou a encarar o mais velho, porém mais sério. - Uma garota? Quer dizer que eram crianças quando o senhor os conheceu? - foi direto ao ponto, dolorido demais para qualquer tipo de rodeio. Se o outro fosse aquele tipo de velho pervertido, preferia voltar para a rua, quem sabe se escorar pelo caminho até a Igreja, sempre havia umas velhinhas que lhe jogavam uns trocados quando aparecia por lá, de qualquer forma. Tendo passado boa parte de sua vida em um orfanato, estava acostumado em encontrar tipos falsamente bem intencionados, mas que sempre queriam se aproveitar de sua não mais existente pureza. Além disso, observando o senhor, desconfiava que ele fosse isso tudo de bondade como fazia parecer que era. Isso ou Cerise estava mesmo repleta de pessoas ingênuas e deslocadas. A memória lhe trouxe à dona do Saute novamente e acabou por erguer a mão esquerda para coçar a cabeça, tentando arrumar os fios rubros que já não se comportavam há anos.

Ainda estava desconfiado das boas intenções do mais velho, mas desejava que ele fosse apenas mais uma alma bondosa da qual poderia se aproveitar enquanto lhe fosse conveniente. A ideia de ter o que jantar, como uma sopa requentada, lhe parecia bastante tentadora. Estava com o estômago cheio, mas como vivia na expectativa do amanhã, preferia contar com a ideia da sopa que depender do próprio esforço de volta às ruas.

Enzo

Estava tão saudosista quanto a história que sequer percebeu como ela poderia ter soado para o rapaz acamado. Ergueu as sobrancelhas, surpreso com o fato dele levantar que os dois eram crianças, o que não era bem o caso. Acabou rindo sem perceber.

- Não, não. Os dois eram adultos, mas eu já era um pouco mais velho que ela na época, por isso chamei de garota. – explicou, supondo que ele deveria estar desconfiado que tivesse sido salvo por algum tipo de sujeito com a moral deturpada. Ainda bem que tinha a moral bem humana, apesar de seus próprios trejeitos animalescos da espécie. – Hmmm... não tenho interesse em crianças. Eu já tive um filho, certamente não aprovaria esse tipo de comportamento. Além do que, há mais sensualidade na experiência dos adultos humanos.

Ponderou então se poderia haver algum outro ponto que incomodava o ruivo em sua conversa, e fez várias suposições: poderia ser a entrega de bandeja de sua sexualidade, ou quem sabe a demora que Enzo declarou no processo de casar com a garota com quem convivia e morava. Achou melhor explicar tudo, afinal, ele poderia comer enquanto falava, e gostava de falar.

- Espero que não lhe incomode, mas não tenho muita vergonha de como sou e das minhas experiências. Acho que porque fui professor muito tempo, acabo sempre contando os detalhes adultos das minhas narrativas para pessoas com idade para ouví-las.Se lhe incomodar, não se incomode de pedir menos detalhes. – comentou, com um sorriso simpático.

Patrick

Se pudesse respirar aliviado pela resposta do mais velho sobre não ter se relacionado com crianças, respiraria. Contudo, como respirar fundo lhe tornava o tronco dolorido pelas costelas, apenas se ajeitou na cama, fazendo uma nova careta com o desconforto nos quadris por passar tempo demais deitado ali. Ergueu uma das mãos, meneando-a de forma negativa sobre o comentário dele, lhe informando que poderia avisar se não estivesse interessado nos detalhes - como se não já tivesse ouvido histórias bem mais bizarras que aquilo. Certo que na maioria das vezes estava bêbado, mas isso não tornava as histórias menos bizarras.

- Não incomoda. - respondeu, o tom de voz mais baixo após se alimentar, a garganta ainda seca. Ocupou-se em beber água em pequenos goles, sentindo o deslizar o líquido devagar no processo. - Eu ficaria incomodado se um pedófilo tivesse salvo a minha vida. Mas não por suas aventuras.

Apoiou-se no colchão da cama ajustada para que pudesse permanecer ali sentado. Suspirou após deixar o copo ainda meio cheio de água de lado, dando mais atenção ao homem mais velho que lhe fazia companhia. Ele havia dito que já teve um filho, a ideia lhe pareceu pesada para ser comentada, certo de que a menção da ideia no passado poderia significar luto.

- O senhor sai com muitas pessoas? - perguntou sobre um tópico que de fato lhe deixava mais confortável. Talvez por ter crescido em meio a prostitutas e ladrões, a ideia de falar sobre os casos sexuais de um homem que apreciava outros homens era algo mais casual que falar sobre o filho no passado dele ou sobre como ele havia ido parar ali em Cerise.


Enzo

Abriu um sorriso quando Patrick disse que não se incomodava com suas histórias. No fim das contas, era bom conversar. A despeito de sempre se cercar de pessoas, ao chegar em sua idade, sem família e sem filhos, a sensação de solidão ficava bem presente. Imaginava que para um rapaz na idade de Patrick, isso não deveria incomodar muito, mas para Enzo, que vivia no marasmo da pousada, ter as histórias ouvidas fazia muita diferença.

- Fico feliz por você então, já que eu tento ser um homem com o mínimo de respeito. – riu, apesar de que entendia o lado moral dele. Só imaginava que, independente do que, por serem animais no fim das contas, a felicidade de estar vivo seria maior do que o dilema moral afinal. Mas dessa discussão pouparia o ruivo, que já parecia bem desconfortável em sua cama.

Ele acabou se ajeitando, provavelmente para tentar arrumar uma posição em que as costas e a bunda, na mesma posição há um tempo, não incomodassem. Não esperava, claro, que ele tivesse interesse em sua vida. Estava muito acostumado as pessoas lhe dizendo para deixar estar suas histórias fantásticas, ou lhe chamando de mentiroso como o Nathan. Era bom ouvir um sinal verde para contar histórias.

- Eu tento. – riu, sendo bem honesto. – Mas eu já tenho meio século, as possibilidades ficam mais escassas nessa idade. Mas eu aproveito cada oportunidade. Um ditado antigo bem dizia “quem não chora não mama”. – abriu um sorriso largo. – Mas eu tive uma juventude bem ativa. O suficiente para passar por bons e maus bocados. Mas nada permanente. Só azar temporário. – riu. – E você? Qual a sua história?

Patrick

Sorriu com o canto dos lábios ao ouvir a referência à idade do homem de cabelos grisalhos. Ele era mais velho, mas parecia bem longe de estar na sua ideia de um velhinho. Estava acostumado ao estereótipo de velhinhos na Igreja ou de velhinhos ranzinzas. Teve vontade de rir quando ele falou sobre ter um azar temporário, já julgava ser um azar permanente ter lhe encontrado na praia. Certamente era um encontro de sorte para o ruivo e azar para o velho bem intencionado.

- Orfanato da cidade. Cresci aqui. Fiquei de saco cheio e fui embora da cidade. Passei um tempo viajando pela Europa de cidade em cidade. Conheci umas pessoas legais, outras estranhas, algumas que eu preferia não ter conhecido. - admitiu, sendo sincero com seu salvador na medida do que julgava pertinente que ele soubesse. - Voltei para cá, fiquei com saudades de alguns amigos. Grande erro, veja só. Tantos lugares para morrer, eu iria acabar na praia dessa cidadezinha. Que vergonha.

Apesar de comentar sobre a lembrança da própria falta de esperança sobre sobreviver ao que havia lhe ocorrido, ainda se sentia bastante desconfortável com as lembranças recentes do que havia ocorrido naquele quarto de motel barato.

- Hey, Enzo. - chamou pelo homem, dirigindo-lhe o olhar, refletindo sobre a oportunidade que mais uma vez parecia ser depositada a sua frente. - Vou mesmo poder sair daqui com o senhor? - começou, acomodado na cama, erguendo a mão até a própria barriga já satisfeito pelo alimento que descansava ali. Se subisse mais a mão em direção ao peito, conseguia sentir o relevo das costelas. Precisava mesmo ganhar algum peso. - O senhor parece ser um velho legal. Não quero lhe arrumar problemas. - defendeu, recordando dos homens desagradáveis e imaginando que o japa não ficaria muito feliz em descobrir que ainda estava vivo.

Enzo

Patrick mostrava todos os sinais de um homem moderadamente reservado que não gostava de se abrir para estranhos por ser muito desconfiado por vida. Isso só se confirmou enquanto ele contava sua história, falando sobre o orfanato e os amigos que não deveria ter contato. Ele era um tipo de criatura solitária, ou ao menos, que se metia em menos problemas quando estava sozinho. Uma pena para ele que era a sua casa que lhe serviria de lugar de descanso, mas quem sabe seu azar não o afetasse tanto.

- Não acredito que exista um lugar vergonhoso para morrer. Os humanos que desenvolveram esse conceito de desonra a depender do lugar onde se morre. No fim das contas, não tem como fugir quando se é predado pela passagem breve que temos na terra. A gente deveria era agradecer que vivemos mais de 60 anos nas cidades e que não vivemos no constante medo de que um Leopardo mergulhe em nossas cabeças de uma árvore enquanto descansamos na sombra. – riu, entretido com a lembrança do comportamento do felino, então abrindo um sorriso largo para Patrick.- Mas você é pequeno, passaria despercebido.

Enzo coçou o queixo de leve quando Patrick mostrou certa preocupação com sua pessoa, provavelmente porque pelo quadro ele, ele tinha se metido com umas pessoas verdadeiramente perigosas. Mas Enzo bem sabia que não poderia abandonar uma criatura como ele daquele jeito, afinal, ele não se recuperaria bem. E, pelo sim ou pelo não, demonstrar certa preocupação consigo mostrava que ele não era uma criatura totalmente oportunista. Tinha algo de domesticado nele, e uma criatura um tanto domesticada precisava passar por um período de readaptação até voltar para a selva. Que bom que sabia o mínimo para lidar com essas situações.

- Não vai me arrumar mais problemas do que eu já tenho, acredite. – brincou, então aproximando-se da cama e apoiando as mãos no ferro de segurança da cama, evitando tocar nele já que o ruivo parecia não gostar. – Além do que, você pode me ajudar mais do que eu posso ajudar você. Primeiro, porque eu ficaria me sentindo culpado de largar alguém que precisa de ajuda a própria sorte. Segundo, porque sou um velho que gosta de conversar e raramente encontro com alguém que me ouça. Terceiro, e mais importante, acho que você vai ficar bem charmoso com uns quilos a mais, e eu gosto de observar criaturas bonitas como você. – começou com um tom sério, gradativamente tomando um ar divertido, até abrir um largo sorriso despreocupado para Patrick. – A única regra que tenho é que não me meta em problemas de propósito. Mas considerando seu estado, acho que é fácil de obedecer, não é?

Patrick

Encarou o sujeito diretamente com a afirmação de que “não havia lugar vergonhoso para morrer”. Discordava certamente daquela sentença. Sabia que havia pessoas e pessoas naquele universo e muitas delas continuariam a morrer sem nenhuma dignidade. Na verdade, se achava com muita sorte ter sobrevivido por conta própria até então. Em alguns momentos em Cerise, pensou em finalmente focar sua vida em algo mais cotidiano e tranquilo. Contudo, sempre que parecia mais certo do que conseguiria, os velhos hábitos lhe traziam para as más escolhas.

O olhar se tornou mais tranquilo diante da narrativa do homem sobre o tal leopardo e a realidade selvagem que ele parecia demonstrar bastante experiência em observar. Pensou em como seria curioso observar a vida selvagem que o homem fazia parecer tão incrível. A única ideia que tinha daquele tipo de realidade era a dos filmes que conseguia assistir em bares ou quando passava na vitrine de alguma loja de eletrônicos, ou nos livros nas bibliotecas que entrava para escapar da chuva ou se aquecer em dias mais frios.

Estranhou a resposta do sujeito sobre já ter problemas piores do que poderia arrumar para ele. Acompanhou com o olhar a aproximação do mais velho, baixando os olhos claros para as mãos que seguravam a barra de ferro ao lado de sua maca. Pensou em perguntar se o sujeito era religioso para pensar daquela forma, como se ele fosse algum tipo de “investimento” de boas ações do velho. Não acreditava que ele precisava se sentir culpado por lhe deixar ali no hospital, ele já havia feito muito salvando sua vida e ainda ido lhe visitar no hospital.

- Charmoso? - não resistiu em repetir e perguntar, baixando a mão para o tubo do seu soro quando ele fez menção de que não queria que o metesse em problemas intencionalmente. O problema era justamente os problemas nos quais poderia envolvê-lo não intencionalmente. Voltou a encarar o mais velho, considerando que ele poderia ver algo de “charmoso” em sua figura. Avaliou que o sujeito deveria mesmo ser solitário se conseguia lhe elogiar daquela maneira.

Não se considerava um homem feio, mas também não se julgava como “charmoso”. Naturalmente, possuía um porte mais magro e esguio, bastante flexível, mas nada muito muscular. Não se recordava de já ter sofrido aquele tipo de aproximação por homens mais velhos, apenas por sujeitos embriagados que costumavam lhe confundir e, portanto, eram alvos mais fáceis para seus golpes. E apesar do comentário lhe causar surpresa, ao mesmo tempo lhe trazia à lembrança da noite que havia sofrido a violência responsável por colocá-lo naquele hospital. Desviou o olhar com a lembrança e apenas concordou com o acordo, repousando as mãos sobre o próprio abdômen, resignado.

- Obrigado pela oferta, então… Enzo. - agradeceu por fim, ciente que era a única coisa que era capaz de oferecer ao sujeito naquele instante.

Enzo

Talvez suas palavras não fossem as mais apropriadas para o momento, afinal, Patrick parecia bem magro e abatido, além de ter sofrido violência, mas supunha que não podia esconder muito de sua honestidade. Era um bom contador de histórias, mas não era um mentiroso como os pescadores, que eram conhecidos por aumentar tudo que diziam. Transformava suas narrativas em coisas fantásticas pela dramaticidade, mas não mais que isso. E se achava que o ruivo poderia ser mais charmoso, era porque tinha certeza que com um peso a mais, ele ficaria bem. Talvez tivesse sido mais fácil que tivesse escolhido tratá-lo por um animal ferido em recuperação.

Ao menos ele parecia uma pessoa fácil de lidar, do tipo que não persistia insistentemente em nomenclaturas mais apropriadas. O ruivo parou em um longo minuto introspectivo, parecendo refletir em qual seria a melhor abordagem para lidar com Enzo, depois que tinha dito tudo aquilo. Porém, para sua surpresa, sua resposta veio em forma de um simples agradecimento, o que fez com que o velho erguesse as sobrancelhas antes de abrir um sorriso tranquilo.

- Por nada, Patrick. Espero que nos demos bem de agora em diante. – o mais velho respondeu, apoiando-se por fim no encosto da cama de hospital, um pouco mais satisfeito com o encaminhamento das coisas.

Só o que precisavam então era aguardar a liberação da dra. Natalia-do-nome-difícil, apesar de não ter pressa alguma. Queria que Patrick saísse dali bem o suficiente, em termos médicos. O que podia fazer por ele era só dar uma cama confortável, companhia e comida todos os dias. De resto, o corpo dele e o psicólogo do hospital deveriam fazer por conta própria. Só esperava que sua ajuda fosse o suficiente, e que seu azar não se estendesse a uma criatura já tão pouco afortunada.

[Thread encerrada]


Messages In This Thread
[Drive] Unlucky Patient [Patrick; Enzo] - by Lil - 09-12-2021, 09:35 PM

Forum Jump:


Users browsing this thread:
[-]
Cerise News
Dia xx/xx/xxxx
População de Cerise come mais Patchdonald's que a média nacional de comedores de McDonald's, diz jornal Le Monde.

[-]
Birthdays
Today's Birthdays
No birthdays today.
Upcoming Birthdays
avatar (37)Skurai

[-]
Latest Threads
Trouble in Paradise [Carbella]
Last Post: Natalia
09-27-2023 04:34 PM
» Replies: 6
» Views: 28
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Last Post: Natalia
09-08-2023 11:08 PM
» Replies: 16
» Views: 42
Run Boy Run [Daniel]
Last Post: Qiang
09-07-2023 06:32 PM
» Replies: 6
» Views: 32

[-]
Recent Posts
Trouble in Paradise [Carbella]
Ao terminar de consu...Natalia — 04:34 PM
Trouble in Paradise [Carbella]
Carbella queria dize...Carbella — 10:02 PM
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Voltou o olhar quase...Natalia — 11:08 PM