09-17-2021, 03:12 PM
Desirée
Desirée começou a se servir das torradas com geleia e do suco fresco de laranja, Marco se juntou a ela logo em seguida, mas cada gesto dele parecia denunciar ainda mais que ele estava longe de melhorar. Levantou-se com a intenção de pegar o celular e ligar para Natalia, mas parou no meio do caminho quando ele perguntou se precisava mesmo ir trabalhar. Não precisava, e até queria ficar em casa para descansar e fazer companhia a ele, mas também não ia se prestar a admitir aquilo.
- É claro que eu preciso trabalhar, não tenho motivo pra ficar faltando ao trabalho. E você que tem que se recuperar logo, então faça um favor a nós dois e fique quieto o resto do dia. - Desirée respondeu, mesmo contra o que estava pensando. - Mas eu vou esperar a Natalia vir lhe examinar pra ter certeza que é só uma gripe e não algo mais sério. E que você também não vai me esperar sair daqui pra começar a trabalhar. Vou mandar Joshua ficar de olho em você, isso sim. Se for teimoso como Monique, já sei no que isso vai dar.
Colocou suco em outro copo e estendeu na direção dele para que ele se servisse também. Pegou o celular para ligar enquanto se servia de algumas mordidas das torradas.
- E tome um banho frio, vai ajudar a diminuir a sua febre. - mandou, bem a tempo de ouvir a resposta do outro lado do telefone. - Ah, bonjour, Natalia, desculpe ligar tão cedo, mon cher, será que poderia me fazer um favor? Marco não está se sentindo bem desde ontem, poderia fazer uma consulta particular?
Esperou a resposta da amiga, sem parar de se servir, considerando o quanto estava começando a comer mais desde que entrara no quarto mês de gravidez.
Marco
Ficou quieto diante das palavras da morena. Se já se sentia mal por saber que estava incomodando a mulher, o humor não melhorava com a personalidade da mulher lhe tratando como se fosse um adolescente, chegando a compará-lo com a própria filha adolescente. Tomou o suco em silêncio e esperou que ela falasse com a médica, ignorando o assunto sobre o banho, pois não fazia muito tempo que já havia ido ao banheiro tomar um.
“Desirée, eu sei que está grávida e os hormônios são difíceis, mas você tem que pegar leve com o seu marido, querida. Deixe e o homem descansar. Eu não posso curar ele se o caso for o seu fogo incontrolável, viu?” - ouviu a médica falando mais alto pelo telefone, ela parecia estar distante, como se estivesse em uma viagem. A médica, por fim, apenas riu, concordando e aceitando visitar Desirée para tomar um café na casa dela antes de ir de fato para o seu trabalho no Hospital Geral de Cerise.
Marco terminou de mastigar uma torrada e beber o resto do suco em seu copo. O homem logo se ergueu para poder ir ao banheiro, escolhendo escovar os dentes antes que a loira chegasse, pois pela tosse, imaginava que ela gostaria olhar sua garganta. Voltou para a cama e não tocou no celular novamente, segurando os travesseiros e ajustando-os para poder se sentar e não deitar logo após a refeição. Aproveitou a presença da cadela ainda na cama, esboçando um sorriso discreto novamente enquanto aguardava o atendimento da médica a domicílio.
Natalia não demorou a aparecer na residência dos L´mark usando uma calça preta de corte fino e uma blusa branca perolada de alcinhas com uma bela visão para o decote da mulher. A própria carregava uma maleta pequena preta em mãos e o jaleco branco sobre o antebraço. A mulher aguardou até ser recepcionada por uma das empregadas da casa que tão pronto chegou, anunciou sua presença ali. Acompanhou a funcionária, atenta aos detalhes do uniforme na criatura feminina apenas por reflexo.
Desirée
Desirée estava levando alguns morangos à boca quando ouviu a resposta de Natalia do outro lado da ligação e sentiu o rosto corar, quase engasgando com o morango e evitando encarar Marco de volta com o constrangimento da colocação da amiga, crente que ele não teria ouvido aquele comentário na ligação.
- Eu não fiz nada! Pare de falar besteiras, Natalia! - retrucou com a amiga, pigarreando logo em seguida para abafar o resto do comentário indecente da amiga. Não teria problema com aquele tipo de comentário, se fosse com alguma mulher com quem já tivesse saído, com qualquer mulher, na verdade. Todo o estranhamento daquele cenário ainda era com o fato de que estava noiva de um homem. - Bom, junte-se à nós para o café da manhã, pelo menos, pelo trabalho. Estaremos esperando, querida.
Desligou a ligação pouco antes de Marco seguir de novo para o banheiro, mas ainda ficou sentada à mesa, comendo boa parte do que estava disposto nas bandejas, com os sucos, frutas e torradas. Marco voltou para se deitar em sua cama e finalmente se levantou da mesa, levando consigo ainda um cacho de uvas para continuar comendo até se sentar na cama ao lado dele de novo.
- Natalia já deve estar chegando. Vai te examinar e logo pode descansar de novo. - falou, em meio às uvas que terminava de comer sem sequer oferecer para o noivo.
Desirée ainda estava apenas com a calcinha e o roupão que usara para sair do banho, a parte da frente da roupa um tanto indiscreta ao mostrar o decote no colo dos seios fartos. Mal se preocupou em ajustar a roupa, na verdade, nem tinha pensado naquela possibilidade, já que estava apenas na companhia de Marco e quem chegaria para a consulta era Natalia, com quem também não precisava se preocupar. E logo ouviu as batidas na porta do quarto, anunciando a chegada da médica, ao que autorizou com um "Pode entrar" sonoro, levantando-se para ir receber a amiga.
- Bonjour, Natalia, obrigada por sair do seu caminho e vir nos atender. - Desirée cumprimentou a amiga com um abraço e um beijo no rosto, dando espaço então para que ela seguisse pelo quarto até a cama, na direção de Marco.
Marco
Franziu o cenho ao notar o tom de voz da noiva com a médica no telefone, mas logo aliviou a expressão com a aproximação de Desirée para a cama. Sentia-se indisposto, mas ainda não havia ficado demente. Encarou o robe da morena e como o corpo dela estava bem vulnerável ao seu toque. Se não estivesse em uma situação desagradável devido a sua saúde, certamente a teria puxado de volta para a cama e mandado a médica para o inferno. Contudo, não queria se sentir pior por representar um risco para seus filhos.
Tão pronto esperava que a mulher se perdesse no caminho para a casa dos L´mark, ela chegou batendo na porta do quarto e teve de assistir a cena dela abraçando sua noiva, o sorriso endiabrado que não deixava o semblante da mulher de toques inconvenientes.
- Você me ofereceu um café da manhã na sua casa em troca de um atendimento a domicílio. Uma refeição a menos no hospital é o paraíso para mim, meu bem. - notou a risada despojada que acompanhava a loira e tensionou assim que ela pareceu notar sua presença no quarto. - Ah, então vamos ao doente. Andaram namorando na chuva, por acaso? Tem que parar com isso, Desirée.
Suspirou, resignado com os comentários desnecessários da médica que se aproximava de sua figura para deixar a maleta ao lado da cama e retirar alguns utensílios de dentro da mesma, inclusive suas luvas transparentes.
- Olá. Marco, não é? - confirmou com um aceno positivo e sério de sua cabeça enquanto a mulher se aproximava para lhe segurar pelo queixo após um pedido breve de “licença”. Arqueou uma sobrancelha antes de franzir o cenho, tentando levar a mulher a sério. - Calma, querido, eu preciso ver o estado das suas mucosas. Estou procurando uma mucosa bem saudável e rosada, mas você parece pálido. Tem se alimentado direito?
Sentiu o toque abaixo de seus olhos enquanto ela pressionava suas olheiras e lhe erguia a cabeça, segurando-o pelo rosto. Não era um toque desagradável, mas invasivo. Notou quando ela buscou um de seus instrumentos antes de lhe pedir para abrir a boca.
- Faça “aaaah”. Vamos investigar sua garganta, Marco. - ela sorriu, parecendo achar tudo aquilo divertido. Certamente ela deveria, pois não era a mulher que estava perdendo o sono com a tosse irritante na madrugada. Contudo, obedeceu a mulher que tão pronto colocou uma tala pequena em sua língua, ajudando a baixá-la para verificar a fundo o conteúdo de sua garganta, estreitando o olhar e usando uma pequena luz de outro aparelho. - Ah, achei. Há um foco de infecção. Perto das amídalas. Ah, está feio. Vai precisar de antibiótico, senhor.
Relaxou quando ela soltou seu rosto e já estava pronto para respirar mais aliviado e deitar novamente na cama quando sentiu a loira lhe segurar pela camisa, impedindo-o de se mover para se deitar.
- Quem disse que era para se deitar agora? Já estou aqui, vamos fazer o serviço completo. - abriu a boca para protestar, mas ela foi mais rápida, lhe puxando a camisa para cima, revelando o abdômen e o peitoral masculino, bem trabalhado por seu cuidado em sempre se manter em boa forma. - Nossa, Desirée. Agora eu estou entendendo porque desistiu das mulheres. - a médica riu, divertindo-se em meio às provocações e a irritabilidade do paciente. - Pronto, agora fique firme. Vamos ver se os seus pulmões estão bem.
Apesar do modo invasivo, conseguia perceber que a mulher era uma médica de fato, pois ela parecia preocupada com seus sintomas e o estado de sua saúde. Respirou fundo apenas algumas vezes enquanto ela usava o estetoscópio para averiguar o estado de seus pulmões, seus batimentos e a pulsação. Relaxou em seguida, baixando a camisa enquanto a mulher guardava seus instrumentos, descartando as luvas em uma sacola na maleta.
- Vou deixar uma receita separada e algumas amostras do remédio para que ele comece a tomar hoje. Daqui a uma semana ele já deve estar muito bem, obrigada. - ouviu a explicação da médica e se moveu na cama novamente, encarando-a sério.
- Quer dizer que posso estar bem para viajar no final de semana? - questionou, ciente de que Desirée precisava ir a Paris e não queria deixá-la desacompanhada.
- Bom, pode se sentir mais disposto, sim. Mas eu evitaria chuvas, bebidas geladas, esquecer o horário do antibiótico e, por mais que isso pareça difícil, beijar essa boca maravilhosa da sua noiva. - dessa vez não escondeu seu desgosto com a frase da médica que ainda descaradamente falava dos atributos de sua noiva como se pudesse esquecer que elas já deveriam ter tido algo. Havia alguma forma do dia piorar? Já estava doente, de cama, teria de tomar antibióticos e ainda ser atendido por uma das ex-mulheres na vida de sua noiva.
Desirée
Desirée sorriu para a amiga e a acompanhou até próximo da cama enquanto ela ia examinar Marco. Ainda fechou a expressão na usual irritada quando ela insinuou que tinham feito alguma coisa na chuva.
- Nós não fizemos nada disso, pare com essas ideias, Natalia! - Desirée retrucou, bufando em resposta e cruzando os braços enquanto se mantinha numa curta distância da cama para observar a avaliação médica.
Já sabia que Marco não se sentia exatamente confortável na presença da maioria de suas amigas, mas ao menos ele podia ter um pouco de desconto pelo que ela tinha que passar toda vez que ele tinha que lidar com a secretária e com a ex-mulher. Era bem maldoso da sua parte, mas também não ia mudar o jeito como agia com suas amigas por conta das reclamações dele, afinal, eram só amigas - agora.
A avaliação de Natalia seguiu e logo descobriu que havia algo mais do que o simples resfriado em que os dois estavam apostando. Até mesmo a ponto de precisar tomar antibióticos, o que mostrava um pouco mais da gravidade do problema. A morena ficou um tanto mais apreensiva quando ouviu o diagnóstico, a ponto de nem se importar tanto com a insinuação de Natalia sobre o físico do seu noivo ser o motivo por ter deixado de sair com mulheres.
- É grave? Vai ter até que tomar antibióticos. - Desirée perguntou, enquanto Natalia terminava a avaliação para dar o veredicto de que ele estaria bem dali a uma semana. Foi Marco que perguntou sobre a possibilidade de viajar ainda no fim de semana e Desirée quase revirou os olhos. - Não precisa viajar no fim de semana, podemos marcar pra outro dia.
Nem deu tanta atenção também para a expressão de desgosto de Marco com o comentário mais invasivo de Natalia, estava preocupada com outra situação.
- Tem algum problema, para mim e para os bebês, Natalia? É algo que pode ser transmitido? - ela perguntou, preocupada com o estado dos bebês, considerando que sua gravidez tinha sido bem conturbada no início.
Marco
Ficou surpreso com a sentença de Desirée sobre marcar outro final de semana para viajar a Paris. Não esperava que ela fosse deixar qualquer viagem de lado apenas porque ele estava com uma dor de garganta. Natalia, por sua vez, pareceu pensativa por um instante, recordando que a amiga estava gestante de gêmeos. Por ainda estar quase na metade da gravidez, a barriga não estava tão saliente e era fácil esquecer por alguns instantes que ela esperava filhos.
- Bem, eu evitaria beijar seu noivo. Hm. Comer e beber com os mesmos utensílios. O senhor deve evitar o ar condicionado. Tome algumas bebidas quentes, ajudam a relaxar a garganta. - comentou a médica terminando de fechar sua maleta. - Não é o fim do mundo, querida. Seu marido não está de quarentena, mas eu evitaria o contato muito próximo. Você pode ficar gripada e sua imunidade pode cair, não acredito que seja arriscado para os bebês, mas é melhor evitar o desconforto.
Observou a loira se aproximar de Desirée, estendendo os braços para poder envolvê-la pela cintura, lhe dando um abraço demorado.
- Eu vou pegar meu pagamento na sua cozinha. - anunciou a loira, certa de que seria recompensada com comida.
Marco apenas suspirou, observando as amostras dos antibióticos e os horários dos remédios prescritos pela médica ao lado da cama. Afastou os cobertores para se levantar, mas permaneceu na cama, voltando sua atenção para a morena ainda no recinto.
- Desculpe… por te colocar nessa situação… - falou, segurando a vontade de tossir ao fazê-lo. Poderia sentir ciúmes da mulher encontrando aquela médica com segundas e terceiras intenções, mas era sincero quanto ao sentimento de responsabilidade que tinha com a noiva e seus filhos.
Desirée
Desirée ouviu as recomendações da amiga com cuidado, concordando com acenos de cabeça para as indicações. Bom, era uma inflamação na garganta e embora precisasse tomar alguns cuidados para não ficar doente também, não era nada que pudesse lhe deixar tão preocupada. A última coisa que precisava era ter a imunidade baixa para adoecer e trazer algum risco à própria gravidez.
Sorriu mais amigável quando Natalia se aproximou e estendeu os braços para lhe envolver. Devolveu o abraço e concordou com um aceno de cabeça sobre ela ir buscar o pagamento na cozinha.
- Eu vou num instante. - avisou à amiga enquanto ela saía e fechava a porta ao passar. Voltou-se para Marco, que tinha pegado os remédios com os horários de prescrição e virou-se na intenção de se levantar.
Desirée se aproximou, sentando-se de novo ao lado dele, mas sem impedi-lo de levantar, se era o que queria fazer. Rodou os olhos como se tentasse minimizar a preocupação ou o pedido de desculpas dele.
- É só uma inflamação na garganta, não me colocou em situação nenhuma. - ela reclamou, mas estava com o tom até bem mais suave. - Bom, eu vou acompanhar Natalia e agradecer pela consulta. Vou pedir ao Joshua pra comprar os seus remédios. E você, continue descansando, eu volto num instante. - ela avisou, ajustando o roupão daquela vez, já que teria que sair do quarto.
Marco
Encarou a esposa que mesmo após a noite mal dormida ao seu lado, estava tratando a situação com normalidade, ainda estando gestante. Acompanhou a morena com o olhar enquanto ela ajustava o roupão para sair do quarto e não disse mais nada, concordando com um aceno positivo da cabeça antes de escolher tomar o comprimido com um pouco da jarra de água do café da manhã. Escovou os dentes rapidamente no banheiro para voltar para a cama, puxando os cobertores para poder se acomodar melhor na cama.
A médica, por sua vez, estava aproveitando do delicioso café da manhã na cozinha da amiga enquanto jogava conversa fora com as funcionárias dela. Sempre achava que Desirée tinha bom gosto para contratar mulheres bonitas, então estava bem animada com a consulta a domicílio. Ainda assim, ela não demorou muito para se despedir, anunciando que precisava chegar no hospital para dar início ao atendimento clínico do dia, explicando para Desirée que se o quadro de Marco piorasse, que ela lhe telefonasse e viria para verificar a situação do homem de novo.
Marco terminou pegando no sono novamente, tossindo um pouco menos que durante toda a manhã enquanto a mulher não retornava para o quarto. Era curioso como um homem do seu tamanho conseguia adoecer e ficar na cama após anos ignorando situações como aquela. Talvez fosse algo de família, pois não se recordava de cenários em que seu próprio pai havia aparentado estar doente. Se recordava que apenas visitava o hospital para seu tratamento ocular e nos atentados que havia sofrido devido ao tipo de pessoa para quem trabalhava quando vivia em Paris. Era estranho, inclusive, depender dos cuidados de sua noiva que, diferente também do que esperava, estava sendo bastante compreensiva e atenciosa.
Desirée
Desirée seguiu até a cozinha para sentar com Natalia e conversar um pouco com a amiga, enquanto ela se ocupava em dar em cima de suas empregadas descaradamente. Não tinha problema com a atitude e era até refrescante conversar com a outra. Ainda se serviu de algumas coisas na companhia de Natalia e recebeu recomendações novas sobre a gravidez que estava finalmente estabilizada. Mas a loira precisou sair o quanto antes para cumprir o horário no hospital e só se despediu com um abraço e um beijo no rosto rapidamente.
A morena ainda deu instruções às empregadas sobre o que preparar no almoço para Marco e também entrou em contato especificamente com Joshua para que ele comprasse os remédios que Natalia tinha prescrito. Voltou para o quarto para encontrar Marco adormecido de novo. Aproximou-se do noivo para se certificar que ele estava dormindo e ainda ajustou o cobertor sobre ele, observando-o por uns instantes antes de se levantar. Trocou de roupa, colocando um vestido leve de usar em casa e saiu até o escritório para fazer ligações e resolver os trabalhos de Limoges-Collet ali mesmo.
Ainda ligou para a própria mãe para avisar que não teria como viajar no fim de semana por conta do estado de Marco e ficou imersa no trabalho até uma das empregadas voltar para lhe servir um chá com biscoitos por conta do horário do lanche em sua alimentação e depois anunciar a chegada de Joshua com os remédios que tinha pedido.
Marco
Durante sua estadia no quarto de casal, dormiu a maior parte do tempo. Não tinha apetite ou disposição para se levantar e sair do quarto. Conseguiu apenas sentir em alguns momentos uma outra presença no ambiente, mas logo julgou que seria sua esposa. Para um homem acostumado em estar sempre alinhado e disposto, aquele cenário era bem atípico. Estava assanhado na cama, o rosto pálido e o suor vez ou outra lhe tomava a pele. Em alguns momentos em que despertava para ir ao banheiro, sentia o desejo de tomar um novo banho e foi justamente o que fez próximo do horário no final da tarde, quando a febre parecia não voltar mais e a fraqueza no próprio corpo ter dado um intervalo. Quem diria que um problema de garganta lhe deixaria assim tão fraco?
Joshua, por sua vez, não demorou a chegar na casa dos L´mark, solicitando que uma das empregadas avisasse a dona da casa de sua presença. Não desejando incomodar a mulher e ao mesmo tempo preocupado com o chefe, perguntou às mulheres sobre o estado do homem e deixou os medicamentos para que fossem entregue diretamente a morena. Apesar de ter passado boa parte do seu tempo servindo aquela família e cuidando da senhorita Biedermeier, era estranho não se sentir como um membro da família. Incerto do que fazer, o loiro resolveu aguardar no hall de entrada durante alguns instantes, esperando que a mulher conferisse os medicamentos e, se fosse necessário, lhe desse alguma nova ordem sobre o que fazer naquela situação. Também detestava a ideia da filha do homem não saber de nada daquilo. Sabia o quanto a menina se preocupava com o próprio pai, ainda que ela não admitisse isso.
Ficou de pé ao lado de uma das janelas no hall de entrada, observando o jardim da mansão dos L´mark enquanto aguardava, os braços à frente do próprio corpo. Era sempre estranho visitar aquela residência pelo fato de apenas encontrar mulheres ali trabalhando, e pelo constante sentimento de que a noiva de Marco Biedermeier não tolerava sua companhia muito bem. Ao menos ela não fazia questão de esconder as próprias impressões que tinha, diferentemente da ex-esposa do homem, sempre sorridente e carismática, mas que não lhe tolerava da mesma forma ou pior.
Desirée
Desirée começou a tomar conta do próprio trabalho no escritório, já que não podia ficar fazendo companhia a Marco e ele estava descansando. Foi ao quarto algumas vezes, apenas para conferir o estado do noivo e se ele tinha voltado a ter febre, mas parecia tudo em ordem, até Joshua chegar na sua casa para entregar as medicações que tinha pedido. Logo uma das empregadas lhe avisou da chegada do segurança. Já tinha trocado de roupa para um vestido leve e folgado, com o corte ajustado apenas no busto, para seguir até o hall de entrada e recepcionar o segurança com o qual já estava até começando a se acostumar.
- Conseguiu comprar todos os remédios? Marco está dormindo e não quer que Monique saiba que ele está doente. Mas eu não vejo motivo pra isso, já que é só uma inflamação na garganta. - Desirée avisou, pegando os remédios que o segurança lhe passou. - Se eu precisar de outra coisa, eu ligo. Se quiser alguma coisa, peça às empregadas.
Acenou na direção de uma das empregadas que estava cuidando da arrumação do Hall e ela só concordou com um aceno de cabeça. Seguiu pelas escadas para o primeiro andar, sequer considerando a possibilidade de perguntar a Joshua se ele queria ver o patrão. Levou os remédios até o quarto e parou ao lado do noivo, sentando-se no canto da cama para acordá-lo e dar a medicação de acordo com as especificações de Natalia.
- Marco, acorde, precisa tomar o remédio. - ela avisou.
Marco
Joshua apenas concordou com a noiva de seu patrão, entregando-lhe os medicamentos e confirmando que havia seguido a receita que lhe foi repassada. E fez exatamente como ela havia dito, procurou as empregadas para saber do atual estado de Marco e de como estava se recuperando. Apesar de ter conseguido algumas inimizades no trabalho, o homem também era querido por muitas pessoas no escritório e sabia que ainda que Monique não precisasse saber daquele momento dele adoecido, era bom dar um pouco de satisfação para alguns colegas de trabalho. Sabia que não era nada grave pela receita e o atendimento farmacêutico que havia recebido, portanto não era difícil manter a calma e a compostura de sempre. Deixou a residência assim que conversou com uma das empregadas, partindo sob o aviso de que se fosse necessário, poderia ser contato a qualquer hora.
Marco, por sua vez, ainda estava descansando em um agradável sono após a febre não ter mais retornado até sentir a pressão extra na cama e a voz familiar que lhe chamava. Entreabriu os olhos escuros antes de se apoiar no antebraço para se erguer parcialmente, notando a proximidade com a morena que parecia tentar lhe informar de algo novo. Buscou o ar e estendeu a mão para a perna da mulher, aproximando-se até conseguir deitar com a cabeça ali na coxa dela, ainda sonolento.
- Hmm... remédio agora? - balbuciou, esfregando um dos olhos antes de notar que de fato precisava tomar o medicamento. Apoiou-se com as mãos na cama, sentando-se ali para poder esperar que a morena lhe indicasse o que precisava tomar. O semblante ainda era de quem estava dormindo e os fios escuros assanhados não ajudavam a melhorar a habitual imagem do homem saudável e bem disposto de todos os dias.
Desirée
Desirée mal pegou a água e o remédio, Marco tateou o local buscando pela sua presença até deitar a cabeça em sua coxa. A morena arqueou as sobrancelhas, mas acabou sorrindo discreta, considerando que ele não conseguia nem lhe ver naquele estado. Parecia mais uma criança mimada por causa da doença, mas não o afastou da sua perna, deixou que ele mesmo se levantasse para encará-lo com a expressão irritadiça de sempre
- Vocês homens são todos muito mimados, é só uma garganta inflamada e você já nem consegue ficar acordado sozinho. - ela reclamou, entregando o copo com o comprimido que ele precisava tomar.
Deixou que ele tomasse a medicação e pegou o copo da mão alheia mais uma vez, para deixá-lo no criado-mudo antes que o advogado acabasse derrubando. Empurrou-o de leve pelos ombros para que ele pudesse se deitar de novo, ajustando os travesseiros atrás dele. Ainda passou uma das mãos pelos cabelos alheios desalinhados e só então, se curvou na direção dele, apoiando uma das mãos ao lado do rosto dele enquanto mantinha o próprio rosto a uma distância segura, encarando-o de cima.
- Se não melhorar logo, eu vou ter que me distrair com os meus brinquedos, Marco. - comentou, num tom bem sugestivo, para só então se levantar e voltar a falar num tom mais alto. - Eu volto no horário do outro remédio.
Marco
Estava indisposto demais para dizer qualquer coisa em resposta ao comentário da morena sobre ser um homem mimado. Talvez até fosse, mas só deixava aquilo claro quando se sentia indisposto devido a uma situação como aquela de doença. Sentiu o leve empurrão e tão pronto a mulher lhe deu o medicamento e lhe acomodou na cama, ergueu o olhar para encará-la, ouvindo o comentário sugestivo sobre a condições de sua melhora. Esperava que a mulher de fato não se cansasse dele naquele estado e se frustrasse por ter de cuidar de um homem adulto.
Deixou que ela partisse do quarto, entregando-se a mais algumas horas de descanso. A febre finalmente não deu mais sinal até o ponto em que despertou novamente, sentindo-se cansado por estar o tempo todo na cama. Não esperou o retorno da morena, levantando-se para ir ao banheiro tomar um novo banho. Tinha um certo tique nervoso com a ideia de passar o dia todo na cama, aquilo lhe recordava do tempo que havia ficado no hospital enquanto se recuperava de seu acidente com o atentado por arma de fogo.
Despiu-se no cômodo, ligando o chuveiro para tomar um demorado banho antes de encher a banheira com a água morna para poder relaxar alguns instantes. Não sabia quantos dias ficaria longe do trabalho e se recuperando. Na verdade, após o uso do antibiótico, já se sentia até melhor. Contudo, tinha certeza que se fosse trabalhar no dia seguinte ainda fazendo uso da medicação, acabaria preocupando Desirée. Ainda havia muito receio ali de que a morena estivesse sendo importunada por sua doença.
Ergueu o olhar, recordando que havia esquecido de separar a toalha do armário, terminando por dar de ombros, alguns minutos a mais naquela banheira de água morna não poderia lhe fazer tão mal assim. A temperatura estava tão agradável que poderia ficar ali o restante do dia inteiro - mas não adormeceu, tinha ciência do perigo que era acabar dormindo ali dentro.
Desirée
Desirée só voltou para checar o estado do noivo quando a tarde já ia alta. Não o encontrou na cama, mas a porta entreaberta do banheiro mostrou facilmente onde ele deveria estar. Seguiu até o cômodo e arqueou as sobrancelhas em irritação ao ver que ele estava muito confortável na banheira e quase adormecendo. Aproximou-se até se sentar na beira da banheira, puxando o outro pelos ombros para chamar a atenção dele.
- O que pensa que está fazendo na banheira, Marco? Com os remédios e no estado em que está, a última coisa que eu preciso é que você durma aí dentro. - ela reclamou com o outro. - Está na hora do outro remédio.
Levantou-se para pegar uma toalha e um roupão para ele, esperando que Marco criasse coragem para se levantar e voltar para o quarto. Trouxe a toalha quando ele se colocou de pé e ainda o ajudou a vestir o roupão, ainda no banheiro. Passou as mãos pela cintura dele, notando como ainda estava grogue por causa da doença e do remédio, para amarrar a faixa do roupão. Levantou as mãos para segurar o rosto dele entre as suas, aproximando a testa até encostar na dele.
- Hm. Não está com febre, vai acordar melhor amanhã, então me faça o favor de só deitar e dormir. - ela avisou, passando uma das mãos pelos cabelos molhados para colocá-los para trás. - Eu vou estar por perto.
Não teria admitido aquilo se ele estivesse nos plenos sentidos, menos ainda se estivesse saudável, então só o empurrou na direção do quarto.
Marco
Entreabriu os olhos, demorando a se dar conta de que Desirée estava ali, apoiada na banheira e lhe dando mais uma bronca por estar fora na cama e quase adormecendo na água. Levou uma das mãos até a próprio rosto, esfregando-o antes de assistir a mulher se afastar novamente. O tempo de se levantar foi o bastante para que ela lhe trouxesse uma toalha, lhe ajudando a deixar a banheira e ainda lhe colocar no roupão. Sentiu um breve arrepio quando ele passou as mãos pela região de sua cintura para fechar a peça do roupão. Baixou o olhar para a morena que lhe segurava a face e afastava seus cabelos molhados, anunciando que estaria por perto.
Sorriu discreto em resposta, crente que deveria ter entendido errado o que a mulher dizia. Apesar da indicação para que voltasse para a cama, inclinou-se, apoiando a cabeça no ombro da mulher para poder abraçá-la, inspirando o perfume que já reconhecia como dela.
- Não queria… te dar todo esse trabalho. Desculpe por isso… - pediu, ciente que ela deveria estar se esforçando, além do próprio trabalho para estar ali por ele. Sabia que Desirée era uma mulher diferente e atenciosa da maneira dela, mas não estava acostumado ainda com a ideia de ser cuidado por ela e não o oposto. Talvez fossem os anos que havia passado sem enxergar que tivessem lhe forçado aquela independência e o incômodo com a ajuda de terceiros, ainda quando de fato precisasse.
Afastou-se alguns centímetros para poder encará-la, sorrindo ainda com a ideia de que ela ainda estava ali para ele. Finalmente soltou a mulher para fazer como ela havia dito, indo para o quarto para tomar a outra dose do medicamento e comer alguma coisa para poder voltar para a cama. Sem o retorno da febre, já se sentia muito melhor, mas não podia vacilar e voltar para o trabalho logo no dia seguinte, então procurou o celular para avisar a Joshua de sua situação.
Não tinha mais vontade de dormir tanto, mas queria esperar a morena para dividir a cama com ela. Ainda não havia dito a morena, mas havia se habituado a ideia de dividir sua vida com ela e dormir ao lado dela a ponto de esperar que ela sempre saísse do escritório na residência para dormir com ele.
Desirée
- Você já está é delirando. Que paranoia pra ficar se desculpando, só melhore de uma vez! - Desirée retrucou e deixou que ele voltasse para a cama.
Ela mesma tomou um banho rápido e à noite, pediu para prepararem um jantar mais leve para ela e Marco, que tiveram no quarto. Com o trabalho finalizado e o estado adoentado do noivo, não precisou sair de casa e ficou mais confortável o dia todo se dando ao luxo de relaxar também. Apenas quando a noite já ia alta foi que seguiu para a cama, no horário do último remédio de Marco naquele dia, ele já estava melhor e a febre não tinha voltado, então foi mais fácil para que ele se medicasse. Ela só colocou uma das camisolas e antes de ficar tarde demais, se recolheu até a cama na companhia do noivo, mesmo que ele estivesse apenas se recuperando.
- Durma bem ou vou te expulsar da cama hoje, entendeu? - reclamou com o noivo, no tom que já lhe era tão comum. Ainda assim, aproximou-se sorrateira para usar o braço dele como apoio e dormir próxima dele, a verdade era que tinha se acostumado a dormir com a companhia e não conseguia dormir em locais diferentes mesmo que fizesse aquela ameaça. No fim das contas, era até interessante e diferente ter que tomar conta de Marco como se ele fosse só uma criança que tinha feito algo errado.
Marco
Era complicado associar que com Desirée as coisas de fato eram diferentes. Ela, apesar das ameaças, parecia constantemente preocupada com seu estado e com sua recuperação. Assim que a morena se ocupou com seus próprios afazeres, tratou de obedecê-la para se recuperar da melhor forma possível. Trocou de roupa e se acomodou na cama após gastar alguns minutos secando o próprio cabelo.
Não fez ideia de quanto tempo passou adormecido, mas dormiu o bastante para acordar algumas vezes para ir ao banheiro, jantar e logo depois tomar uma última dose de seu remédio. Imaginava se quando os gêmeos nascessem, se a mulher teria aquele mesmo tipo de cuidado com os meninos. Imaginava que sim, a julgar pelos anos dela lidando com tantas meninas e adolescentes em Limoges.
Adormeceu tempo o bastante para poder acordar no meio da madrugada com a sensação de peso sobre seu braço. Despertou por um breve momento para acomodar a morena mais próxima de si, enquanto voltava a dormir. Poucos eram os momentos em que se encontrava adoecido, contudo, não via mais porque ter receio de se encontrar naquele estado quando agora havia Desirée para lhe ajudar. Se continuasse naquele ritmo, se tornaria um marido muito mal acostumado.
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