[Drive] Under Pressure [Aleksei; Emil; Dieter; Vivien; Leona]
#3
Aleksei

Com a informação do aluno que tinha levado o presente para Aleksei, Leona se adiantou logo em pedir para que Vivien tomasse as providências para chamar o rapaz ali. Claro, deveria chamar também outros alunos para que não despertasse qualquer tipo de suspeita sobre a investigação e o que estava de fato acontecendo dentro de St. Clavier. Emil tinha encontrado com Kyle e não sabia quem ele era, a despeito das informações sobre ele e do seu rosto estar rondando os noticiários da cidade. Ele já devia ter mudado ao menos um pouco de aparência, o que lhes causaria ainda mais problemas.

Mesmo que Aleksei estivesse evitando encarar Vivien, ouviu a confirmação de que providenciaria o que a oficial tinha pedido e aquilo lhe deixou sozinho na sala de reuniões com Leona. Embora fosse, a certo ponto, "reconfortante" que Kyle não pudesse se aproximar de si por conta da segurança extra, dos policiais e do reforço em sua casa e em St. Clavier, não diminuía em nada o fato de que ele estava, lentamente, se aproximando. Podia até sentir aquilo na precisão das mensagens dele, que lhe faziam pensar que ele estava lhe observando de muito perto, mesmo que seu lado racional soubesse que eram todas técnicas de abordagem e de terrorismo psicológico.

Com o presente vindo de Emil, agora tinha certeza, assim como Leona, que as primeiras visitas à sua sala para deixar as rosas e o olho não tinham sido apenas para aquilo, mas para investigar algo a mais do seu trabalho. As anotações de Leona apenas se juntavam aos seus próprios pensamentos e isso lhe deixava cada vez mais impaciente. Especialmente quando ela disse que a intenção dele era ter controle sobre a sua vida.

- E ele já não tem? - respondeu, depois de um longo suspiro resignado. - Eu não posso fazer nada. Não posso ter contato com ninguém, ele sabe cada passo que eu dou, ele espera cada reação e cada situação, minha, da polícia. Ele sabe as roupas que uso, os horários que saio de casa, os pacientes que eu cuido, as pessoas que tenho contato dentro da Academia. E ele só está brincando... esse tempo todo. E eu estou sendo um ótimo brinquedo, só esperando que ele se canse pra me quebrar e jogar fora também.

As colocações foram um pouco mais incisivas do que o tom cansado anterior. A sensação de impotência, de ser observado e de ter uma pessoa como Kyle Bailey à espreita lhe deixava ainda mais consternado e o cansaço não era suficiente para disfarçar aquilo.

Leona

A medida que a conversa seguia, todos os sinais de cansaço e exaustão ficavam mais e mais evidentes, mas até que ponto o cansaço do psicólogo tinha chegado, era algo que iria se mostrar conforme seguissem com a conversa. Não que esperasse que ele estivesse em perfeito estado mental e com uma postura otimista, principalmente diante dos fatos de que agora em diante, mais e mais pessoas iriam se envolver no caso diretamente. Principalmente, porque medir o nível de estresse do outro, determinaria se a oficial continuaria passando informações ao mesmo do caso, afinal, se ele estivesse tão cansado, mas tão cansado da perseguição, saber mais detalhes do andamento do caso apenas o deixaria pior.

Diante das colocações do outro, a oficial teve de manter a postura mais neutra, e a expressão tranquila. Em outros dias, talvez ficasse irritada, mas diante da situação mental em que ele se encontrava, sabia que aquilo era apenas uma reação natural:

-- Não. -- respondeu simples e diretamente, enquanto observava o psicólogo a sua frente, transparecendo a mesma calma e assertividade que carregava durante todo o processo: -- Ele não tem controle das suas ações, ele restringe o seu espaço, e o senhor é quem escolhe Dr. Vlahos, se vai seguir no jogo que ele está fazendo, se vai se expor, ou se vai para um programa de proteção a testemunhas. -- Leona ressaltou que sim, ele ainda tinha opções, embora elas não fossem de fato as melhores: -- É óbvio que dentro dessas opções, tem escolhas e escolhas. E o senhor tomou algumas decisões e está lidando com elas, nós dois sabíamos que não seria fácil pegá-lo, muito menos rápido. E o senhor está sendo informado de todos os detalhes enquanto a investigação transcorre, e nós dois também sabemos, que isso não é convencional em uma investigação. -- não chegou a pontuar se eram boas ou ruins, apenas destacou o fato de que sim, ele ainda tem escolhas, apesar de parecerem todas péssimas:

-- Pelo perfil dele, e o senhor sabe, que ele tem noção completa do seu guarda-roupa, dos seus trejeitos e dos mínimos detalhes da sua personalidade, porque isso faz parte do comportamento obsessivo dele. Não à toa, que as mensagens parecem muito precisas, é tudo tática de perseguição e terrorismo psicológico que ele aprendeu no treinamento de SEAL. As ações seguem uma lógica que parece sempre partir de algo minimamente planejado, e muitas até são, mas não tudo. E dentro das coisas que nós já conversamos e percebemos ao longo desses dias, os níveis dele de excitação podem fazer com que ele tome decisões menos precisas. -- E dentro daquela lógica de pensamento lhe ocorreu o pensamento de que talvez não seja o Kyle que iria cansar do jogo, mas sim o próprio psicólogo, mas o que exatamente ele alcançaria deixando o Dr. Vlahos tão, mas tão cansado a ponto de que ele desistisse? Qual seria o ganho para um predador diante da desistência de sua presa de lutar.

Era no mínimo algo irritante chegar para um psicólogo formado, que tratou o próprio Kyle, e explicar por menores do desenvolvimento do perfil dele ao longo da investigação, porém, acreditava que reforçar aquelas informações seria mais benéfico que negativo.

Aleksei

Aleksei ficava cada vez mas impaciente e sabia que aquela impaciência era por conta de todo o estresse que estava passando. Pressionou mais as mãos nos braços da cadeira, mas agora sem Vivien na sala, acabou levando uma das mãos até a camisa de gola alta, puxando-a para baixo e arranhando o pescoço na área que já havia a cicatriz, a área ficando ainda mais vermelha do que já estava anteriormente. Baixou a mão de novo quando Leona reforçou que ele tinha escolhas que poderia seguir e desviou a atenção dela por um instante.

- É, são ótimas escolhas que eu tenho, não acha? Em todas elas, mais gente morre, ou eu morro primeiro. - suspirou longamente de novo, agora batendo o pé no chão ritmado. Era verdade que estava recebendo todos os detalhes da investigação, o que não deveria acontecer em hipótese alguma. Mas assim como Leona tinha uma quantidade limitada de especialistas para perfilar Kyle, ele era a pessoa que o conhecia mais a fundo.

Ouvir da policial tudo o que ele já sabia, mas em que não conseguia de fato acreditar só lhe deixava mais impaciente. Sabia tanto quanto ela que Kyle lhe conhecia bem, sabia tudo o que usava, podia lhe mandar mensagens precisas o tempo inteiro. Mas o quanto daquilo era treinamento e o quanto era observação pura e diretamente, era uma linha que começou a achar que estava muito tênue. Havia mensagens excessivamente precisas, havia a possibilidade dele estar lhe observando, de ter alguém que estava passando as informações para ele e todas aquelas inconstâncias lhe deixavam muito mais perturbado.

- Eu já não tenho certeza se tudo é treinamento ou se ele não está mesmo ao meu lado, atrás da porta, ou no banco de trás do carro. - Aleksei se levantou, incapaz de continuar sentado com a sensação de impotência. Andou de um lado para outro da sala, agora com as duas mãos em volta do pescoço, puxando o tecido da camisa e machucando ainda mais a área já avermelhada com as unhas curtas num gesto tão natural que nem sentia mais o incômodo. - Nós não estamos nem no rastro dele, enquanto ele já até está treinando outra pessoa pra matar por ele. Nós não vamos conseguir pegá-lo.

Queria não ter dito aquela sentença com tamanha certeza, mas o seu tom já era de quem estava bem conformado com a situação.

Leona

Não tinha como evitar olhar para o homem a sua frente, e não enxergar uma pessoa em desespero, por mais que o senhor Aleksei Dimitri Vlahos fosse um psicólogo brilhante, ainda assim, era uma pessoa. E como tal, estava passível a ser levado por todo o estresse que a situação causava, principalmente porque saber como a investigação caminha, faz parecer que tem muita informação sendo levantada pra pouco andamento. E por mais que o outro fosse acostumado a lidar com ex-militares em reabilitação, de fato, acreditava que Aleksei jamais tinha se envolvido em uma investigação como perfilador propriamente dito, então o mesmo não tinha parâmetros pra julgar se estavam agindo rápido ou devagar. Era fato, que pra uma cidade pequena como Cerise, supostamente haveriam poucos locais para se esconder, no entanto, era justamente por ser uma cidade pequena, que o local não estava acostumado a ser ágil em suas burocracias e andamentos de processos, não na velocidade que uma investigação dessa pedia:

-- O senhor não vai morrer Dr. Vlahos. -- Afirmou aquele ponto, sem qualquer dúvida, mantendo o tom calmo, porém assertivo. Muito embora não pudesse garantir com 100% de certeza que não haveriam outros assassinatos no meio do processo. Leona assistiu todo o conjunto de gestos que apenas indicava que o outro estava no início de uma crise nervosa, o bater de pernas, seguido da agitação para se levantar e o gesto característico de coçar a região do pescoço. Mas ainda assim persistiu na explicação acerca da situação atual do caso: -- E Kyle não está próximo porque o policiamento não permite, por isso está usando outras pessoas para chegar ao senhor. Se ele quiser chegar perto, vai ter de se expor em algum nível, e se o fizer, nós vamos pegá-lo no ato. Mas não é isso que estamos procurando neste momento, o foco é justamente evitar sua exposição e o senhor sabe disso. Por isso a investigação está caminhando justamente para achá-lo antes que ele chegue ao ponto de vir atrás do senhor diretamente.

Leona se levantou também, já que não era adequado conversar com uma pessoa transtornada em pé e agitada estando sentada e calma. Até porque tinha de impedir que ele continuasse se auto flagelando como estava fazendo. Se aproximou do psicólogo de forma bem clara para que ele pudesse vê-la, e levou a mão até a dele que estava flagelando o próprio pescoço, para pausar o gesto. Talvez fosse o ponto da investigação de deixar Aleksei apenas na posição de pessoa protegida, ao invés de deixá-lo fazer parte ativa da investigação.

Aleksei

Ouvir que não ia morrer não era de muito consolo na situação em que estava. Podia estar arranhando o próprio pescoço, mas sentia como se fossem as mãos de Kyle de novo, do mesmo jeito que quando estivera sozinho com ele no carro, sendo puxado pelas mãos fortes contra o encosto do banco. Ouvir também que se Kyle quisesse chegar perto teria de se expor não lhe deixou mais tranquilo, porque afinal, havia a possibilidade dele fazer aquilo e sabia, tanto quanto Leona, que as pessoas que estavam lhe protegendo não tinham o menor treinamento para impedir que ele chegasse perto demais.

- Eu devia ficar menos preocupado com menos exposição? Com o policiamento que estou tendo? - perguntou, de um jeito mais incisivo, a respiração começando a ficar um pouco descompassada de novo e a voz subindo um pouco com as suposições que surgiam em sua cabeça. - Se Kyle quiser, pode matá-los no caminho e resolver o problema muito fácil. Eu não preciso me expor, eu já estou completamente exposto! Ele já está vindo atrás de mim, mesmo que indiretamente. Os restos na minha cama, os olhos da menina, a próxima coisa que chegar em mim vai ser pelas mãos dele e vai ser de um adulto!

E queria até dizer que se ele não fosse o próprio adulto, seria alguém muito parecido, mas não teve tempo de pensar naquele detalhe quando se virou e notou que Leona estava se aproximando, mesmo que pudesse ver cada passo dela, sentiu a respiração ainda mais inquieta e quando ela levantou a mão até a sua, que mal percebia ainda estar em volta do pescoço, reagiu automaticamente ao bater na mão dela para afastar de si.

- Não me toque! - a voz foi bem mais alta daquela vez e ele manteve a distância. Não voltou a arranhar o pescoço, mas a respiração ficou mais intensa e a perturbação óbvia no tom que continuava alto demais. - Essa investigação não está dando em nada, ele está pior do que estava nos EUA e lá ele ainda teve liberdade de matar quem ele queria sem que investigassem a fundo! Ele mudou de assinatura, mudou de aparência, mudou tudo, menos o alvo principal dele! Foi loucura concordar em ficar aqui, no meio de todos os alunos e professores, eu já devia ter respondido as mensagens dele, já devia ter aceitado ir com ele, porque vocês sequer conseguiram pegar um assassino, não vão conseguir pegar dois!!

Leona

A reação do psicólogo foi mais rápida do que tinha suposto dado ao estado dele, batendo contra sua mão dizendo para se afastar dele, a sequência de palavras que se seguiram, foi apenas pânico generalizado. Se ele continuasse gritando, além de chamar atenção desnecessária, ainda tinha a chance de que ele desmaiasse por esta muito exaltado. A loira fechou a expressão e em um instante muito rápido, levantou a mão e desceu contra a face esquerda de Aleksei. Não aliviou a força, sabendo que para tirá-lo do estado eufórico que se encontrava ele precisava de uma boa injeção de adrenalina, e um tapa suave não lhe serviria para despertar. O som do tapa foi seco, mas ecoou na sala de reuniões, e foi pesado o suficiente para que ficasse a marca evidente de todos os dedos da mão da oficial no rosto do loiro:

--Se gritar comigo de novo eu vou lhe prender por desacato a autoridade. -- Leona usou um tom de ordem claro, em bom som, mas sem de fato gritar: -- Se você dá tão pouco valor a sua vida, isso é uma escolha que você também pode ter, posso lhe prender em uma cela, e esperar que ele venha lhe buscar. Mas VOCÊ sabe, que isso não ajuda em nada na investigação e é uma péssima decisão. VOCÊ está desistindo porque acha que o Kyle não é possível de ser pego, mas ele é, tão vivo quanto eu você, e se está vivo pode ser morto também, e é o final que ele vai ter, acredite você nisso ou não. -- Leona continuou falando no mesmo tom de ordem e assertivo, e se ele estava absorvendo suas palavras ou não, era uma questão diferente, mas falaria mesmo assim:

-- A investigação está caminhando sim, triangulamos os bairros em que ele deve está escondido, as vias principais são vigiadas, e é por isso que para fazer qualquer coisa ele precisa de terceiros. E eu já tinha levantado no perfil dele, que ele começaria a machucar pessoas assim que ansiedade dele estivesse alta, e eu sei que a próxima vítima vai ser um adulto, e a lista de desaparecidos é checada todos os dias, filtrados pelo perfil, biótipo e classe social das pessoas que moram nos arredores do bairro onde ele está, porque se tudo está vigiado ele não tem como caçar longe de onde está escondido. E sim, temos um segundo assassino, que não é treinado como um militar, que é alguém jovem, inexperiente, e que diferente do Kyle vai cometer erros e vamos pegá-lo antes mesmo do Kyle ou simultaneamente a ele. -- A oficial respirou fundo buscando aliviar o tom de ordem, mas mantendo a assertividade: -- Nos EUA ninguém sabia que ele era um assassino em potencial, a diferença é que agora o senhor, Aleksei Dimitri Vlahos, não está sozinho, e mesmo que dê tão pouco valor a sua própria vida a ponto de querer desistir dela, tem outras pessoas que se preocupam com você, e eu não vou desistir de mantê-lo vivo. Goste você disso ou não.

Vivien

O trabalho que tinha era de sair de sua sala com uma lista escolhida a dedo com nomes de alunos para serem chamados. Entregou ao coordenador pedagógico para que fizesse o chamado pelos alto falantes, e explicou que era para prestarem um favor a St. Clavier, para dar-lhe a impressão de falsa importância. A mensagem não demorou a ser passada pelos alto falantes, seguidas de uma série de sobrenomes franceses pomposos. Vivien retornou para a sala em seguida, ou certamente se renderia a fumar um cigarro, dado o nível de estresse que lhe consumia naquele dia, de antes mesmo do evento todo com Aleksei, mas que agora parecia lhe roer pensando que não fosse Dieter ajudar o loiro e ser muito discreto, todas as suas tentativas de deixar a escola mais segura poderiam ter sido estragadas. Isso a poucos metros de sua sala.

Estava tudo muito próximo a si, mas fora do seu controle. Isso incluía Aleksei. Não que pudesse ajudá-lo a se sentir mais seguro, mas até sua presença perto dele o deixava nervoso, e tinha que se manter afastado a pedido do próprio grego. Como isso podia ajudá-lo ainda não tinha certeza, mas supunha que assim não seria um alvo direto de Kyle, e esse tipo de sacrifício era o que o outro estava disposto a fazer. Ficar sozinho, para proteger as pessoas ao redor.

Aproximou-se de sua sala e ouviu uma voz mais exaltada que parecia ser de Aleksei. Franziu a testa, ainda sem conseguir discernir as palavras, em seguida notando que os ânimos estavam um pouco mais exaltados do que quando tinha saído. Por reflexo, fechou a sala atrás de si, chegando em tempo apenas de ouvir o som da voz de Aleksei disparar suas frustrações contra a policial sobre a investigação na América, sobre como Kyle se tornava impossível de capturar, como tinha sido um erro ficar ali em Cerise... e como ele já deveria ter se rendido, porque pelo visto ele não acreditava que estava mais seguro.

Não conseguiu se mover um passo além depois de ouvir aquelas palavras, não sabendo exatamente o que sentir daquelas palavras disparadas em pura frustração, medo e desespero de Aleksei, o corpo todo tremendo, as mãos fechando-se em punhos ao lado do próprio corpo, porque sabia que em parte, se não tinha simplesmente enviado o loiro para um programa de proteção tinha sido parte sua responsabilidade. Se a polícia que tinha chamado não estava dando conta daquele trabalho, tinha sido parte sua responsabilidade também. Se St. Clavier não estava segura, a despeito de todos os seus esforços, era culpa sua. Sentiu os lábios tremerem, já nem sentindo mais a ponta dos dedos, porque mesmo depois de tudo isso, não podia culpá-lo por desistir, mas tinha dito a ele que ele não podia. Ele não podia desistir, porque se já não tinha o controle de nada que estava acontecendo, e se de nada servia estar ali, então também preferia ignorar a merda do pedido do loiro se isso fosse pelo menos provar a ele que não estava enfrentando aquilo sozinho.

Encheu a mão e enfiou na parede próxima, batendo de palma aberta, querendo de fato bater com a cabeça para retomar o pensamento normal. Mas o som foi abafado por outro som de tapa, que lhe acordou no mesmo instante do fluxo de consciência em que tinha se metido, e que sequer tinha percebido que eram os mesmos pensamentos de dias que apenas retornaram por um instante.

Sem entender o que estava acontecendo, saiu da inércia e andou até a porta da sala, encontrando Leona claramente irritada com a postura de Aleksei, pelo que assumia serem as marcas da mão dela. O corpo ainda não tinha parado de tremer, sentia um incômodo na boca do estômago ouvindo aquelas palavras, não porque eram ruins. Pelo contrário. Mas porque eram muito similares as suas, só que mais pontuais, e mais lógicas, e porque se não acreditasse nelas, a única alternativa que tinha era acreditar que Aleksei ia morrer. Mas preferia acreditar – e queria que não estivesse com tanta coisa na cabeça para usar sua autoconfiança pra afirmar aquilo com certeza – que se Kyle estava vivo, então podia morrer. E se morresse, finalmente teriam paz.

Sentiu a cabeça doer, o corpo na porta da sala de reuniões, a respiração lenta mas alta. Passou a mão pelo próprio rosto, o cenho franzido porque não conseguia estar outra coisa senão transtornado, mas com a mão lhe segurando ali na madeira ao redor do portal, tentou manter a postura, e a despeito de todos os sentimentos de que não devia abrir a boca naquele momento, encarou o loiro diretamente.
- Acredite nela. Só... acredite nela. – disse de maneira firme, e aquelas palavras eram tanto para Aleksei quanto pra si. Porque era só o que lhe restava.

Aleksei

Aleksei poderia ter esperado uma série de reações que ditavam o protocolo para uma oficial altamente treinada como Leona, mas certamente não esperava sentir o peso da mão dela em seu rosto, fazendo com que cambaleasse no local a ponto de precisar se apoiar na parede atrás de si para ficar de pé. A respiração que já estava descompassada pareceu intensificar, mas ao mesmo tempo, sentiu o sangue esquentar nas veias e arregalou os olhos em raiva para a mulher que tinha lhe acertado um tapa no rosto. Puxou o ar todo de uma vez, um milhão e meio de coisas passando sua cabeça e parando só no tapa que tinha recebido, até ouvir a ordem bem incisiva dela.

A sua primeira reação mental foi pedir para que ela lhe prendesse de uma vez, resolveria o problema dos dois e Kyle facilmente iria até a delegacia, mas não respondeu de pronto, sentindo o calor no rosto e no resto do corpo, para ouvir o resto do relato num tom bem mais comedido mas ainda assim, assertivo. Sabia, num lugar ainda bem distante na própria mente, que suas reações eram apenas resposta ao estresse e à falta de descanso. O fato de Leona pontuar muito intensamente que ele sabia as consequências daquela escolha lhe fizeram retomar um pouco do sentido lentamente.

A respiração intensa gradualmente voltou ao ritmo comum e todos os músculos estremeceram. Todas as coisas que Leona pontuava eram coisas que eles já tinham discutido antes, sobre o progresso da investigação e sobre o perfil de Kyle e que pareciam ter sido apenas jogadas fora em sua mente cansada. Todos os pontos levantados pouco a pouco lhe faziam só perceber o quanto estava se deixando levar pela influência de Kyle, pelo treinamento que sabia que ele tinha e pela demora numa investigação que, no fim das contas, ainda não tinha sido longa o suficiente comparada a outras situações que enfrentara nos EUA. Não fazia sequer um mês que tinha encontrado Kyle e ele já estava lhe deixando naquele estado deplorável.

Ouvir particularmente que não estava sozinho e que havia pessoas que se preocupavam com ele, principalmente que a oficial não ia desistir de lhe ajudar, lhe deixaram ainda mais ciente de toda a cena que tinha provocado ali dentro. O apoio na parede apenas com o braço se tornou em um encosto e no momento seguinte, tinha se sentado no chão, levando uma mão ao rosto, escondendo os olhos fechados e pressionando os dedos na altura das têmporas.

- Desculpe... - pediu, numa voz tão fraca quanto o seu estado físico àquela altura. - Desculpe, eu só...

Só estava cansado. E Leona sabia bem daquilo. Levantou a mão para passar pelos cabelos e foi bem a tempo de encarar Vivien de volta, mesmo sentado no chão, pedindo para que acreditasse na policial. Abriu e fechou a boca, pressionando os lábios sem responder ao francês diretamente, mas encará-lo e deixar que ele lhe visse naquele estado depois de tanto tempo também pareceu lhe deixar incomodado. Engoliu em seco e, também encarando Vivien de volta, só concordou com um aceno de cabeça.

Leona

Para a oficial, estava muito claro em sua mente o que precisava ser feito naquele caso, era basicamente uma cruzada para matar Kyle. Por mais que nos relatórios e inquéritos estivesse escrito que o objetivo era pegar o culpado por tudo aqui, sabia, tinha plena certeza que nada faria com que Kyle Baile fosse reabilitado. Uma das mentes mais brilhantes da psicologia tinha despendido de tempo e tratamento para que ele apenas ignorasse tudo isso. Leona podia até ser uma oficial justa e honesta, mas naquela situação, não havia qualquer chance de deixar Kyle sair vivo, por mais que admitir isso fosse tratar suas decisões acima da lei. Queria que o homem à sua frente pudesse depois de tudo isso, voltar a ter uma vida normal depois de todo esse terror.

Leona tomou ciência de que o diretor estava ali, um pouco antes dele de fato falar, mas tinha sua atenção toda voltada para o psicólogo a sua frente. E quando ele começou a se desculpar, a oficial se abaixou sobre um dos joelhos dobrados e completou a frase dele: -- Está cansado. E eu entendo, mas como lhe disse, não vou lhe deixar desistir de você mesmo, por isso vamos matar o Kyle definitivamente. -- Encarou o loiro e ofereceu suporte para que ele se levantasse, puxando uma cadeira para que ele se sentasse em uma das cadeiras novamente. O tom era mais calmo e pausado, mas ainda mantinha a assertividade que tinha sustentado durante toda a tarde:

-- Senhor Vlahos, eu sei que está usando seu trabalho como válvula de escape, para não ter de pensar na investigação, porém, eu sugiro que considere reduzir suas horas de trabalho aqui na instituição, principalmente nos casos mais densos que requerem uma atenção e foco especial. Em seu atual estado de cansaço, o senhor não estará prestando o devido apoio que seus pacientes mais complexos precisam. Sei que se preocupa com estas pessoas a quem presta tratamento na instituição, porém considere também, que o senhor precisa de algum descanso. A nossa conversa de hoje é a maior prova disso.

Sabia que era negativo falar para Aleksei que ele deveria trabalhar menos por não estar em condições de prestar um tratamento adequado a seus pacientes. Porém, se falasse qualquer outra coisa seria mentira, preferia ser transparente e falar diretamente qual era a problemática da situação. Seria muito pior perder a confiança de pacientes densos por causa do cansaço decorrente da investigação. Não muito depois o perito retornou para a sala, observando com cautela a situação, mas tão logo encontrou a expressão severa de Leona, mudou de postura, focando apenas na mulher:

-- Terminei de recolher o material, e o prof. Rupert seguiu para as aulas do horário da tarde.

-- Muito bem, o senhor pode retornar para a delegacia, quero os resultados das análises no mais tardar amanhã de manhã, repasse tudo para oficial Riviere. -- O perito acenou positivamente, mesmo sabendo que teria de fazer uma boa leva de horas extras pra estar com tudo pronto de manhã. Leona tornou a observar para Aleksei e depois em seguida para o diretor da instituição: -- Senhor St. Clavier, ainda vou me manter na instituição para a conversa com os alunos. Em seguida, vou precisar conferir as gravações das câmeras dos arredores da instituição. Assim que tivermos mais informações os senhores serão devidamente informados.

Leona falou com a mesma calma e convicção com que tinha entrado naquela sala, embora estivesse em parte inquieta com o andamento do caso, aquele sentimento não era negativo. Em algum lugar de sua mente, tinha plena certeza que pegariam Kyle, custasse o que custasse, ele seria pego e morto. E por acreditar nisso com tanta certeza, conseguia passar aquilo em sua postura e palavras.

Aleksei

A policial se aproximou para se abaixar também a sua altura e completar o que tinha deixado de lado. Concordou com um aceno de cabeça quando ela disse que não o deixaria desistir e ainda mataria Kyle. E ela deixou aquela decisão bem clara, que ele seria morto e não preso. Aceitou a ajuda para se levantar e sentou-se de novo numa das cadeiras à mesa, daquela vez mais ciente da presença de Vivien na sala a ponto de buscar o outro algumas vezes com o olhar enquanto Leona explicava a situação geral e o fato de que não estava em condições de tratar dos pacientes em St. Clavier.

- Eu pensei... se eu não estiver trabalhando, ele vai estranhar a minha rotina. - embora estivesse de fato usando o trabalho para ignorar a presença de Kyle, sabia que se ele não estivesse fazendo o que o psicopata sabia que ele fazia, podia causar mais problemas e deixá-lo desestabilizado. Tinha medo que ele viesse lhe abordar de novo, perguntar por que estava cansado, como tinha feito da primeira vez, mesmo que fosse mais difícil lhe alcançar agora que estava escoltado. - Mas como você disse, eu não tenho condições de trabalhar agora. Vou ver o que fazer para adiar os tratamentos mais complexos. Eu vou para casa, tentar descansar...

“Tentar descansar” porque mesmo com os remédios que tomava era difícil se manter adormecido por muito tempo quando até nos pesadelos Kyle lhe atormentava, superando o efeito dos medicamentos. Logo o perito surgiu na sala para informar que tinha avaliado seu escritório e Dieter também tinha retomado o trabalho. Ele deixou o celular sobre a mesa de reuniões e Aleksei apenas observou as inúmeras notificações de mensagens na tela de bloqueio. Ignorou as mensagens e pegou o aparelho, devolvendo-o ao bolso antes de se levantar.

- Eu envio as mensagens depois. - informou a Leona, já que ela estava a par de todas as mensagens que recebia também. Só não queria ter que desbloquear o celular e se deparar com a confiança exagerada do outro por saber que tinha recebido os olhos.

Observou enquanto ela falava com Vivien também e olhou de um para outro, suspirando pesadamente antes de dar a volta na mesa e seguir para a saída da sala de reuniões. Inevitavelmente, teria que passar por Vivien e encará-lo diretamente, mas diferente de mais cedo, não evitou devolver o olhar preocupado ao francês. Ao contrário do que ele mesmo esperava, parou bem de frente para o diretor da academia depois que Leona lhe passou as instruções.

- Desculpe. - o pedido foi direcionado a Vivien daquela vez, e sem pensar muito, inclinou a cabeça até encostar a testa no ombro dele, suspirando longamente e usando o apoio breve como um modo rápido de recarregar as energias que já não tinha. - Eu não esqueci.

Falou mais a última sentença só para Vivien, referindo-se ao fato de que tinha prometido também que não ia desistir, mas o seu discurso de alguns minutos atrás estava bem óbvio que era o que queria fazer. Como o próprio Vivien tinha reforçado, lhe restava acreditar em Leona. Afastou-se de novo do diretor, sem devolver o olhar outra vez para poder sair finalmente da sala e seguir para casa. Seriam mais longos dias incapaz de descansar e na espera de uma boa notícia sobre a morte de Kyle. Tinha que se manter sensato, de algum jeito.

Vivien

O tapa e as palavras de Leona provavelmente despertaram Aleksei para as mesmas coisas que fizeram à Vivien. A diferença era que o loiro estava esgotado, e pode ver isso no modo como ele achou um lugar no chão para esconder o rosto e refletir sobre a enxurrada de palavras duras anteriores, até tudo recair em um pedido de desculpas. Era até difícil ver o grego daquele modo, porque sabia o quão controlado ele conseguia ser, mas sabia e entendia que havia limites para o quanto de incerteza uma pessoa conseguia aguentar, ainda mais nas circunstâncias daquele caso. Seguiu observando atentamente Aleksei, até finalmente sentir ele lhe devolver o olhar. E não importava que não lhe devolvesse a palavra. Aquele momento em que assentiu com a cabeça fez com que a testa de Vivien deixasse de a tensão e a expressão aliviasse, junto com um longo suspiro que escapou dos seus lábios.

Leona podia dar mais segurança a Aleksei do que era em sua capacidade, e ouví-la dizer, com todas as letras, que Kyle seria morto – não preso, não detido, morto – lhe fortaleceu nem que fosse um pouco. Porque queria aquele maníaco morto. E se ele não morresse, que garantia havia que teriam paz? Se a polícia estava passando por cima do protocolo para isso, então nem que fosse apenas Leona, alguém se importava com os efeitos que a existência daquele desgraçado tinha em Aleksei.

Assumiria que a oficial sabia o que estava fazendo demandando que Aleksei tirasse um pouco mais a cabeça do trabalho. Um arrepio percorreu seu corpo ao se lembrar que aquela era uma demanda de Kyle, e a lembrança da invasão em sua casa lhe deixava irritado, mas se era isso que o psiquiatra precisava, não negaria. Concordou silenciosamente com Leona.

O perito chegou em seguida, mas logo foi dispensado. Queria ter dado a mesma chance ao professor Rupert, que além de ter ajudado com tudo aquilo, ainda tinha retornado as aulas depois de auxiliar guiando o perito para a sala onde tinham encontrado os olhos. Julgava que o homem era um profissional em sua área, mas isso não o tornava pouco empático. Acharia tempo assim que terminasse as conversas com Leona para dispensá-lo propriamente do trabalho por aquele dia, se ele assim julgasse conveniente. Restava ainda dar atenção aos alunos, ou melhor, ao jovem Emil, que tinha encontrado com Kyle. E foi essa a próxima demanda de Leona.

- Terá acesso a tudo, oficial. Os alunos, nesse momento, devem estar a caminho desse prédio. – comentou, ocasionalmente ainda prestando atenção a Aleksei, como quando ele pegou o celular ou lhe devolveu o olhar antes de dar a volta na mesa. Porém, ao invés de se desviar ou lhe ignorar, como havia feito o resto dos momentos em que esteve na sala, o loiro parou bem a sua frente, o que fez com que Vivien não se impedisse de observá-lo de volta, igualmente direto.

O pedido de desculpas, direcionado a si, fez com que prontamente a tensão do seu corpo se esvaísse. Respirou fundo, suspirando longamente em seguida, os ombros pesando um pouco para baixo enquanto mostrava muito mais da preocupação no rosto do que tinha até então. Queria não passar aquela impressão de preocupação nem todas as emoções confusas em sua cabeça para o loiro, mas foi inevitável, no momento em que ele encostou a testa em seu ombro e lhe disse que não tinha esquecido. Fechou os olhos por um breve instante, e ergueu o braço mais próximo a Aleksei, acariciando-lhe os cabelos loiros por um breve instante, apesar de também lembrar, daquele mesmo dia, daquela mesma conversa, que ele não queria aquela proximidade, justamente por precisar dela. Infelizmente, estava percebendo não saber obedecer em um caso como aquele.

- Eu não ia deixar... – respondeu igualmente baixo, a voz bem menos firme que no desespero que as palavras da policial tinha lhe tirado, ao mesmo tempo deixando Aleksei sair daquela proximidade. Porém, não era mentira, se dizia que não deixaria ele esquecer. Porque era insuportavelmente teimoso. E se já estava se agarrando a um fio fino que não lhe sustentava, se apegaria a ele até o fim.

Aleksei saiu sem lhe lançar mais o olhar, supondo que aquele era o limite de proximidade que podiam ter diante do que o loiro tinha limitado. Andou até a mesa da sala de reuniões e apoiou ambas as mãos na superfície, observando que já tinha parado mais de tremer depois de todas aquelas idas e voltas de seus pensamentos. Mas ainda lhe pesava certa culpa de ter pensado primeiro em si mesmo, ao invés de como Aleksei ficaria melhor. Agora já não tinha como voltar atrás nessa decisão, e lhe restava crer que aquela era melhor saída, afinal, quando tudo terminasse, não seria por uma fuga, e sim, porque o mal seria encerrado e enterrado, e só poderia atormentar o grego em pesadelos.

- Os meninos já devem ter chegado no prédio. Eu vou lhe levar para a coordenação pedagógica, oficial Blanche... – Vivien afirmou para a mulher, ainda permanecendo com as mãos sobre a mesa de reuniões, encarando a superfície da mesa e suas mãos, antes abertas que agora tinham se fechado e não tinha forças para abrir. – Só... me dê um minuto.

Precisava se recompor, afinal, ainda encontraria com outros membros da escola. E estava transparecendo seu nervosismo. Talvez precisasse se render, de fato, a caminhar até a cobertura do prédio principal e se dar ao luxo de fumar um cigarro. Ou dois.

[Thread encerrada]


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RE: Under Pressure [Aleksei; Emil; Dieter; Vivien; Leona] - by Lil - 09-17-2021, 03:19 PM

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