09-17-2021, 03:45 PM
George
Havia saído do trabalho para buscar os meninos na escolinha. Dessa vez, seu amigo japonês parecia ter conseguido buscar a filha no tempo certo, então resolveu passar algum tempo com seus meninos. Sabia que o armário da cozinha estava ficando vazio, então resolveu juntar os trocados e ir com Samuel e Mikhael para o mercadinho mais próximo do distrito residencial para fazer algumas compras de última hora.
Com as mochilas dos meninos no carrinho pequeno de compras, na parte inferior e Mikhael sentado na parte superior do acessório de locomoção pelos corredores do mercadinho, seguiu pelo setor de laticínios, escolhendo alguns pacotes de leite na promoção enquanto tentava fazer com que Mikhael largasse da ideia de comprar os cereais da prateleira ao lado, repletos de açúcar.
Os meninos estavam com o fardamento da escolinha. Uma blusa de botões branca e uma bermudinha azul clara. Samuel parecia bem suado e afoito, bem sabia que o garoto gostava de brincar com os coleguinhas no intervalo, assim como dificilmente parava quieto durante as aulas. Mikhael, por outro lado, ainda parecia bem arrumado, apesar dos cabelos castanho mais clarinhos estarem assanhados, como se tivessem ficado “amassados” durante a soneca dele da tarde.
- Não, meu filho. Tanto açúcar não faz bem para você. Vai ganhar no máximo um biscoito e se comer todos os legumes que eu colocar no seu prato. - avisou ao menor que logo fez uma cara de desolado, mas nada mais disse, afinal gostava muito de bons biscoitos. - Samuel, eu esqueci de pegar o molho de tomate, filho. Pode pegar para mim, por favor? - pediu para a criança que prontamente franziu o cenho, sério, como se tivesse recebido uma tarefa especial. - Mas não vá corr--! Samuel!
Sequer teve tempo de repreender o menor sobre o que já imaginava que ele iria fazer, afoito como era. O menino, por sua vez, cruzou o corredor tão rápido como brincava de pega-pega na escolinha. O mercadinho era no caminho de casa e como sempre costumava fazer compras com o pai, bem se lembrava de onde ficavam os molhos. O que o garoto não esperava era ser barrado em um encontrão com duas pernas compridas, um sapato esquisito e alto.
- Ai! Ai ai ai… - resmungou, batendo as palmas no chão e se virando para massagear o bumbum após ter caído de costas. Olhou para cima, incomodado, mas logo ainda mais estranhando encontrar uma mulher tão bonita. - Ah…
Lilú
A vida de Lilú não era uma bagunça como a maioria das pessoas deve imaginar que é, tem mais rotina do que a loira gostaria, mais serviço administrativo do que ela estudou, e mais finanças e números do que ela já quis pensar na vida. Mas acima de tudo isso estava a parte de lidar com pessoas, de todos os tipos, cores, posicionamentos, estando ou não dentro da lei, e essa era a parte mais “normal” dentro de sua rotina. Ou diria anormal? Ou vai saber quais são os parâmetros das pessoas sobre isso. Ser uma cafetina em nada mudava o fato de ter horários pra trabalho, e horários fora dele, boletos pra pagar, e salários no fim do mês pra dar conta, e assim como qualquer pessoa com uma vida mais comum e supostamente normal, a loira também precisava abastecer a despensa de casa, que era nada mais que a parte de baixo do armário da cozinha.
Naquele final de tarde, estava no telefone, agendando uma ida de bate e volta pra Paris pro dia seguinte, nada demais, apenas uma conversinha aqui e ali, com algumas pessoas conhecidas, que precisavam de um papo aqui e ali. Em contrapartida, depois de ir ao supermercado, iria pra casa arrumar algumas coisas de viagem, embora em verdade estivesse morrendo de preguiça de arrumar bagagem. Pra sua sorte ou pelo seu bom faro pra funcionários, não precisava se preocupar tanto com o clube noturno, tinha treinado bem suas meninas, e contratado bem as demais, então elas se viravam muitíssimo bem obrigada, sem que tivesse de ficar de vista grossa pra que as coisas andassem em ordem.
A loira seguiu para o supermercado o bairro, mas decidiu caminhar alguns quarteirões a mais porque queria alguma coisa diferente pra comer. Se sentia com mais disposição pra cozinhar do que de arrumar suas roupas, em verdade, estava apenas se deixando levar pela preguiça e o escapismo culinário. estava vestindo uma calça jeans de cintura alta, com rasgões e desfios na altura da coxa e joelho, uma blusinha de alças brancas, que dava folga pra ver praticamente todo o sutiã, que era do tipo simples, cor de pele, cruzado no meio das costas, ideal pra quando se tem mais de 120 de busto e os peitos pesam o dia todo sobre os ombros. O Cabelo estava preso num coque pequeno sem qualquer compromisso com a aparência, duas argolas prateadas grandes, anéis finos no dedo indicador e midinho e polegar da mão direita, na mão esquerda apenas no dedo midinho e polegar, nos pés, sandálias de salto, do tipo plantaforma, mais confortáveis pra andar, mas ainda lhe deixando com o conforto de olhar os outros de cima.
caminhava com cesta pequena, tinha escolhido, mais temperos que comida, alho, ervas finas moídas, dois tipos de pimenta, açafrão, parecia até que entendia do que estava escolhendo, em verdade só lembrava que tudo aquilo tinha um cheiro muito bom, mas se de fato a comida ficaria boa no fim, aí seria outra história. Estava na fila de massas, escolhendo o tipo de massa que prepararia, o bom é que os molhos já ficavam do lado e poupavam o tempo de procurar:
-- Talharim parece fácil de fazer, mas esses macarrão que parecem uns pasteizinhos são tão gostosos! será que eu acerto fazer? -- estava distraida com a mão na cintura quando uma criaturinha pequena bem abaixo do seu raio de visão, virou a esquina de prateleiras em alta velocidade. Por sorte estavam em um supermercado, estivesse a loira mais atenta, ela teria chutado o menino como reflexo pela aproximação rápida, normalmente isso acertaria o meio das bolas de qualquer bebâdo chato, mas sendo um garoto de um pouco mais de 1m, seria um chute na cara praticamente.
O menor caiu no chão, como uma fruta madura, depois de bater contra seu corpo, por sorte a loira só precisou se amparar na prateleira de macarrões, sem derrubar nada. Vendo que o garoto não teve qualquer reação além de um “ah” a loira, deu um sorrisinho maroto:
-- Um pouco mais rápido e o mini Schumacher aí tinha causado um acidente na prateleira aqui. -- a loira deu dois tapas sobre o tampo do mesmo: -- já pensou ter de pagar uma prateleira inteira de macarrão? é dinheiro demais pra mim e pra você! -- apontou para o menor ainda com um sorriso maroto no rosto: -- eu acho que um garoto da sua idade ia ficar ofendido se eu te oferecesse ajuda, mas eu posso me abaixar pra não ter de olhar você tãaao de cima assim.
A loira brincou, pegando um pacote de macarrão qualquer e pondo na própria cesta de compras sem maiores preocupações.
George
Samuel, agora já de pé, observou a mulher alta e bonita a sua frente que ainda havia lhe chamado de um nome esquisito. Franziu o cenho com a ideia dela de que poderia ter causado algum prejuízo ali além do que poderia pagar. Isso causaria sérios problemas para seu pai, isso era certo. Bateu a poeira de sua bermuda da escolinha e voltou de novo a atenção para a loira mais alta, observando-a pegar um pacote de macarrão.
- De-Desculpa, madame.
- Samuel! - ouviu a voz de seu pai lhe chamando, o homem se aproximando com o carrinho pequeno de compras, Mikhael no andar de cima do carrinho. George estava com uma expressão preocupada no rosto cansado, observando o menino menor para se certificar que ele estava bem. - Samuel, eu já disse que não precisa correr aqui. A comida não vai fugir, filho.
Mas foi justamente quando estava pronto para se dirigir a outra pessoa ali presente no corredor para perguntar se o menino não havia incomodado quando George se deu conta do quão familiar era a fisionomia alheia, assim como o uso daquelas roupas, principalmente a blusa que deixava transparecer o sutiã. Estreitou o olhar, intrigado por menos instantes até sua memória não falhar, deixando-o surpreso com aquele encontro repentino.
- Ah… Livié?
A memória de sua amiga de infância ainda era bastante vívida em sua mente. A adolescente de uniforme escolar, disposição animada e imprevisível. Talvez pudesse estar enganado a respeito daquela figura, a mulher era mais alta, mas ambos haviam crescido, afinal. Fazia anos que não ouvia falar da garota, desde que havia noivado e se casado com sua falecida esposa. Samuel observou o pai, curioso e desconfiado, sem entender o motivo da surpresa na feição do próprio pai enquanto que Mikhael, o irmão mais novo, parecia encantado com a figura da mulher bonita no corredor.
Lilú
Não se incomodava com crianças andando por ai desacompanhada dos pais, porque quando mais nova, fazia isso o tempo todo, e em seu bairro as crianças ficavam largadas nas varandas de casa e nas calçadas jogando e brincando enquanto o tempo estava bom. furtando as vezes e pulando muros mas quem criança não apronta no fim das contas? E com a roupinha de escolinha, ele já tinha cumprido a cota de tortura diária.
Mas para sua surpresa a voz do que seria o pai do garoto não lhe pareceu tão estranha aos ouvidos, tinha aquela sensação de familiaridade que não sabia dizer de onde vinha. Mas não era uma pessoa de se preocupar demais com vozes conhecidas, de noite todos eram estranhos em seu trabalho, então podia ser alguém da noite em sua vida pacata diurna. Estava prestes a sair do corredor de massas quando o som do carrinho vindo e fechando o caminho trouxe consigo uma criança pequena o suficiente pra saber que não estava no saldão de promoções no supermercado, e uma pessoa que a muito tempo não via, mas que era impossível esquecer o rosto:
-- ora, ora, é estranho ouvir as pessoas falando meu nome civil. -- a loira pôs o braço na cintura em uma posição relaxada, um sorriso amplo no rosto, e encarou a figura do amigo de longa data, depois teve de levar a mão para cobrir os lábios do risinho: -- George meu amigo, ninguém te avisou que esse bigode não combina com você?
A loira se abaixou sobre um dos joelhos ficando mais próxima da altura do pequeno Samuel, então repousou a palma da mão sobre o ombro do garoto em um toque suave: -- Hey, Samuel, certo? Vamos dar uma ajudinha pro seu pai? Porque você não vai na seção de banho e pega um barbeador bem bonito pra ele? Aquele que tem 3 lâminas embalagem verdinha. Vai lá! -- deu dois tapinhas incentivando o menor a cair na sua conversa, mas ia ser engraçado se o menor realmente fosse, embora ele estivesse com uma cara de quem estava mais confuso do que de fato absorvendo a ideia que seu velho pai podia ter amigas e não somente amigos barrigudos e com bigode. Meu deus do céu, e que bigode é esse?
George
Fez uma pausa em sua aproximação, notando que de fato a mulher a sua frente era sua amiga de infância, a tal garota com quem sempre saía depois da escola para poder vadiar pela cidade em seu horário livre. Talvez a vida como pai tivesse lhe deixado com tantas responsabilidades durante tanto tempo que aquele período de sua vida parecia agora tão distante. Ainda assim, conseguia reconhecer a mulher como a figura vivaz e expressiva como quando eram mais jovens.
Samuel olhou para a loira e depois para seu pai, desconfiado das intenções da figura feminina enquanto seu pai cobria o bigodes com a mão, parecendo então perceber que aquela parte de seu rosto deveria mesmo chamar a atenção de alguém do passado, justamente do tempo de quando nem fazia a barba direito ainda.
- Faz muito tempo que uso bigode. - respondeu, baixando o olhar como quando era só um adolescente. Não estava certo ainda de como se aproximar da mulher a julgar todo o período em que havia passado distante da mesma. Ela havia sumido durante um tempo e depois que havia se juntado com a mãe de seus filhos, não ouviu mais falar de sua amiga. - Ah, essa é uma velha amiga do papai, o nome dela é Livié. - fez uma pausa, novamente incerto sobre como proceder ali. - Desculpe, ainda te chamam de Lilú?
Resolveu perguntar enquanto o pequeno Mikhael já se adiantava para apontar o dedo para a loira, balançando as perninhas curtas no carrinho de compras.
- Lilú! Lilú! - o pequeno sorriu, animado com a sonoridade daquele nome. George respirou fundo e passou a mão pela cabeça da criança antes de se dirigir a mulher:
- Este é Mikhael, meu caçula. Samuel foi pego correndo no corredor? - perguntou a loira enquanto o mais velho parecia ter sumido de sua visão novamente. - Samuel! Onde é que aquele menino se meteu? - mal sabia ele que a criança já havia se afastado para ir buscar o tal item cortante sugerido pela mulher bonita mais velha.
Lilú
A loira deu uma boa risada quando o mais velho cobriu o bigode e direcionou o olhar para baixo, podiam se passar mais de 10 anos, mas mesmo assim, ainda conseguia enxergar facilmente os gestos e manias do amigo de longa data. Ainda podia chama-lo de amigo não podia? Se aproximou mais do carrinho de compra enquanto George apresentava o seu filho mais novo. E era curioso que ele tivesse dois filhos, o tempo passava em uma lufada de vento pelo visto:
-- Olá Mikhael, que nome complicado o senhor tem, não é? Já consegue falar o próprio nome direitinho? Aposto que sim! -- a loira estendeu a mão até a cabeça do mais novo, fazendo-lhe um cafuné gostoso, em seguida descendo para as bochechas redondas, apertando e fazendo a criança fazer boca de peixinho, enquanto simultaneamente a loira repetia a mesma careta fazendo graça para o menor: -- sim! até prefiro que me chamem de Lilú, faz parecer que os boletos que chegam pra Livié nem são pra mim! Hahaha!
A loira manteve o ar de riso enquanto se aproximava do mais velho, levando a mão ao rosto dele, segurando-o pelo queixo e lançando um olhar curioso de sempre, como se estivesse analisando o estrago que o bigode fazia no rosto do amigo: -- nem parece que você é só um ano mais velho que eu George! bote na conta do bigode viu! -- brincou enquanto se aproximava pra depositar um beijo gentil na face direita do amigo, não tomar excesso de ousadias em um reecontro, pelo menos não na frente das crianças pequenas:
-- E então, nem vou perguntar o que veio fazer, é meio óbvio, vamos as perguntas que interessam, você têm a noite livre? Seria uma desperdício enorme se tentássemos por 10 anos de conversa em dia em uma fila de supermercado. Posso lhe convidar pra ir jantar lá em casa, ou posso me convidar pra ir jantar na sua casa. Não é Mikhael? é uma boa ideia não é? -- perguntou para o menor tocando com o indicador na ponta do nariz da criança menor.
George
Mikhael sorriu com o cafuné, parecendo mais inquieto quando ela apertou suas bochechas, como se quisesse morder a mão da mulher que havia acabado de lhe fazer uma gracinha, mas nada violento, apenas porque ela parecia gostar da brincadeira tanto quanto ele. George, por sua vez, com a aproximação repentina, ficou corado e não se moveu, incerto de que, após tanto tempo sem sequer topar com a loira, ela podia lhe tratar com toda aquela intimidade. Era como se ainda fossem os dois adolescentes da época em que estudavam juntos.
- Noite livre? - repetiu, sem entender o objetivo dela com aquela conversa. Lilú era uma boa amiga da época que era só um garoto, e mesmo assim era estranho reencontrá-la depois de ter passado por tantos problemas. - Eu estou comprando alguns ingredientes para fazer o jantar dos meninos. Pode jantar com a gente se quiser. - admitiu, ainda assim com aquela sentimento estranho que não sabia decifrar se era culpa por ter vivido durante tanto tempo na mesma cidade que a velha amiga e não ter mais falado com ela; ou se era a própria falta de tato com a companhia feminina mais uma vez.
Samuel voltou tão pronto Mikhael estava rindo com a brincadeira da amiga de seu pai. O filho mais velho de George aproximou-se com a tal lâmina de barbear, estendendo a mesma para seu pai que só se deu conta do que o garoto trazia quando ele fez questão de sacudir o objeto a sua frente.
- É isso que usa, tia? - perguntou o mais velho, voltando sua atenção para Lilú.
- Você vai ficar usando meus filhos agora para me provocar? - perguntou o homem, guardando, porém, a lâmina de barbear no carrinho de compras, suspirando conformado diante da ideia de que não havia, e não queria, se opor ao bom humor da mulher que lhe trazia nostalgia de uma boa época de sua vida. - Samuel, essa é a Lilú, ela vai jantar com a gente hoje.
- A senhora vai cozinhar pra gente hoje? - perguntou Samuel, observando com certa curiosidade o que a mulher trazia consigo.
- Eu vou passar no caixa e passar as compras primeiro. Se importa? - perguntou George a velha amiga de infância, verificando se tudo que precisava já havia sido colocado no carrinho de compras para enfim se dirigir ao caixa e finalizar sua jornada no mercado. Sempre tinha receio que permanecer mais tempo que o necessário ali e seus filhos começarem a buscar e a pedir por coisas que não podia pagar.
Lilú
A loira acenou positivamente a pergunta do mais novo, em seguida riu abertamente do comentário do amigo, diante da brincadeira feita com o filho pequeno dele, se não pudesse usar os filhos dele contra ele, que graça teria? Quando novamente o menino mais velho lhe dirigiu a pergunta se era ela que iria cozinhar, a mais velha fez questão de abaixar sobre um dos joelhos pra ficar na altura do mais novo, e então repousou a mão sobre o ombro da criança:
-- Funciona assim Samuel, se o seu pai me chamou pra jantar na casa de vocês, é ele que vai cozinhar, porque eu sou visita. Entendeu? E o que as visitas fazem? Levam geralmente algo gostoso pra sobremesa, você gosta de torta? Vamos pegar uma tortinha pronta na padaria! – Estendeu a mão para o menor, como se estivesse fazendo um acordo com o pequeno, depois de se levantar se aproximou de George o suficiente para lhe dirigir a palavra pro amigo:
-- Tia é pra essas coisas, pra estragar as crianças! – Riu descaradamente, na cara do amigo, enquanto ia com o filho mais velho na padaria do supermercado pegar a tortinha mais barata, e aproveitar para pegar uma boa garrafa de vinho, não tinha como passar por aquele encontro sem um bom vinho.
E tinha plena certeza que George não tinha como fugir daquela noite de conversas embaladas em nostalgia, afinal tinha levado um dos filhos dele consigo, ele não iria pra casa deixando uma das crianças dele pra traz: -- Samuel, vou te ensinar outra coisa, tortas baratas são as mais legais, por isso eles deixam elas geralmente por baixo das mais caras! – apontou pra prateleira, tirando várias tortas já embaladas para buscar as que estavam mais escondidas com valor mais em conta. Sorriu divertida, dando trela e conversa para o menor, deixando que ele escolhesse entre morango, chocolate, baunilha e creme, das tortinhas com valor mais barato.
George
Samuel observou a mulher diretamente como se ela fosse algum tipo de professora com roupas estranhas que estivesse lhe ensinando coisas que já deveria saber. Concordou com ela sobre gostar de torta, principalmente aquelas tortas prontas e baratas da padaria, justamente porque sabia que não seria ruim para os gastos do dinheiro de seu pai. George não teve nenhuma reação diferente de manter o ar mais calmo de sempre quando a mulher disse que estava ali para estragar as crianças. Era estranho reencontrar uma amiga de tanto tempo e a personalidade dela ainda lhe recordar tanto a da menina adolescente que fora sua amiga mais próxima antes de conhecer a mãe das crianças.
O filho mais velho de George resolveu escolher uma torta de chocolate, mas logo mudou o sabor para optar pela de baunilha.
- Mikhael não pode comer muito chocolate. - comentou, erguendo o olhar para a mulher sorridente que lhe acompanhava. Carregou a torta consigo, julgando como sua própria responsabilidade carregar algo para a mulher.
Enquanto isso, George já estava na fila do caixa, observando constantemente o paradeiro dos outros dois para poder passar as compras juntos. Vez ou outra, sem se dar conta, parava para observar o próprio bigode em algum reflexo metálico no caminho para o caixa, assim como passava a mão pelos pelos, pensativo.
- Tia Liu! Tia Liu! - Mikhael pareceu animado ao avistar a loira ainda distante e começou a se balançar como se quisesse descer do carrinho, mas George foi mais rápido em pegá-lo nos braços. O pai dos meninos esperou que a mulher voltasse e se chegasse mais perto para observar o que ela estava comprando, dando-se conta da bebida que ela havia colocado junto nas compras.
O homem desviou o olhar, tentando se recordar de quando havia ingerido álcool pela última vez, na lembrança da amiga em sua memória. Samuel parecia empolgado sobre a ideia de comer uma tortinha enquanto que Mikhael não parava de se balançar como se quisesse os braços da amiga de seu pai.
- Ele fica animado com pessoas novas. - tentou explicar, recordando novamente que Mikhael nunca havia encontrado a mulher antes. - Espero que não se importe de irmos de ônibus para minha casa. Eu venho aqui por conta das promoções. - explicou, imaginando se ela não teria nenhum pensamento curioso sobre sua situação após tanto tempo sem encontrá-la, principalmente quando a loira parecia tão bem e alegre como de costume.
Lilú
A loira sorriu diante da disposição do mais novo em carregar a torta, podia fazê-lo sem problema em sua cesta de compras, mas se ele queria ser educado em carregar bem podia fazê-lo sem problema. Era um projetinho de George com uma carinha mais emburrada. Lilú levou a mão a cabeça do mais novo, bagunçando seus fios em sinal de que ele estava fazendo um bom trabalho.
Logo quando se aproximaram novamente do amigo de longa data toda a animação do menino, fez com que Lilé esticasse o braço para segura-lo, sem muito trabalho, um garoto daquela idade devia pesar o que? 8kg? Dava pra levar em um braço só sem problemas, e fez graça pra criança deixando que ela agarrasse seu pescoço e fizesse bagunça com seus fios de cabelo descoloridos:
-- Ah você tá achando que eu tenho um carrão agora? Não George, eu geralmente ando de bicicleta, e de transporte público como todo mundo, ainda sou gente como sempre! -- a loira riu mais descontraída, esperando que o mais velho passasse as compras: -- Ah, Samuel, a torta vai na minha conta, aqui Mikhael segura a carteira da tia, que eu to só com uma mão livre! -- a loira deixou que o menor brincasse com a peça, apenas impedindo que ele colocasse na boca, porque dinheiro era sujo, de todo jeito, mesmo que seu dinheiro também não fosse 100% limpo.
Baixou o menor apenas quando sairam do supermercado, deixando que ele caminhasse, mas fazendo questão de segurar na mão pequena. Pegaram o transporte público, que não demorou muito para leva-lo na zona residencial de Cerise, as casinhas simples, e prédios abarrotados de pessoas, não se comparava obviamente com a área que sempre morou, aqueles lados tinham mais cara de “casa” do que de “refúgio”.
-- E então senhor cozinheiro, quanto tempo acha que demora até preparar o jantar, anh? Sou visita mas posso ajudar com alguma coisa fácil, se me der muito trabalho vou arruinar seu jantar! -- Lilú manteve o ar de riso despreocupado e não fez questão de perguntar se a esposa dele se incomodaria com a chegada dela, porque sabia que não havia mais “esposa”, então, se poupou da gafe de perguntar ou comentar qualquer coisa sobre o assunto, apenas deixando o ritmo da conversa mais leve e aconchegante, porque era assim que se lembrava da companhia do amigo.
George
Mikhael pareceu animado com o braço da amiga de seu pai estendido para ele, agarrando-se a mulher, ficando ainda mais empolgado com o perfume da mulher que lhe lembrava um pouco dos aromas dos lençóis e de sua cama em casa. Passou as mãos pequenas pelo cabelo da mulher, observando o seu arredor mais confortável naqueles braços, principalmente pelo conforto macio que lembrava muito suas professorinhas na escola.
George por sua vez apenas sorriu discreto, mas satisfeito pela amiga não parecer estar assim tão diferente em seus gostos. Imaginava sim que talvez após ficar adulta e conseguir se estabilizar em sua vida, que ela deixaria alguns por menores de uma vida pacata no interior francês para pessoas como ele que não pareciam ter muita perspectiva de mudança. George começou a passar suas compras enquanto Lilú ainda estava de olho em seu filho menor. Samuel
Mikhael pareceu mais empolgado com o novo objeto em suas mãos e acompanhou enquanto a mulher buscava o dinheiro e seu pai passava o objeto de plástico para pagar as contas daquela compra. O menino mais novo baixou o olhar para onde estava apoiado, reconhecendo o colo da mulher e batendo com a carteira ali, rindo sozinho.
- Carteira, tia! Carteira! - ele tentou explicar enquanto chegava a vez da mulher pagar pelas próprias compras e aquela torta.
Samuel e George começaram a arrumar as compras em sacolas, pegando até mesmo as compras da loira para carregarem. Ainda que Samuel fosse apenas uma criança, ele não parecia ter objeções quanto a ajudar o pai carregando as compras. Mikhael era o único que parecia ainda pequeno demais para carregar tantas sacolas sozinho, por isso não se incomodou dele andar de mãos dadas com Lilú. Não demorou para que chegassem em sua residência, afinal de contas, não morava tão distante dali. Colocou as compras para dentro e segurou a porta para que Lilú adentrasse com Mikhael. Imaginava que ela ainda não conhecia sua casa, mas era uma residência tão comum que não achava que valia a pena apresentá-la como se merecesse ser conhecida em cada detalhe.
- Por favor, sinta-se em casa. Desculpe pela bagunça. - pediu, ainda que a casa não estivesse bagunçada. Sempre de desculpava pela força do hábito e por sua falecida esposa sempre ter o costume de reclamar sobre o estado da residência. Fechou a porta e assistiu Samuel já deixar as compras para pegar a mão de Mikhael, levando o menino consigo pelo corredor que levava aos quartos e banheiro. - Ah, não vai demorar muito. Pode cuidar de cozinhar o macarrão enquanto eu descasco os vegetais?
Pediu para a mulher enquanto descarregava os itens para a cozinha, colocando as compras de Lilú também sobre o balcão, incluindo a torta. O homem arregaçou as mangas e lavou as mãos, organizando os itens para preparar o jantar, separando os legumes que iria descascar e cortar para cozinhar, algumas batatas e cenouras, assim como brócolis para cozinhar no vapor.
- Samuel foi levar o Mikhael para tirarem o uniforme da escola e tomarem um banho. - explicou pela breve ausência das crianças, dando espaço para a mulher utilizar sua cozinha. Fez uma pausa, observando a loira antes de pegar uma faca para descascar os legumes, refletindo sobre a imagem da mulher em sua casa como se sempre tivessem sido amigos e que o espaço de tempo em que ela havia sumido e ele havia se casado nunca tivessem acontecido. - Você… ainda está morando na mesma casa? - perguntou, desviando o olhar para os legumes, incerto de que deveria fazer aquele tipo de pergunta depois de tanto tempo sem falar com a mulher. Era estranho e ao mesmo tempo reconfortante como ela ainda parecia agir como a mesma Lilú que conhecera um dia.
Lilú
A loira tinha em mente que estava lidando com um George mastigado pelo tempo e serviço, ouvia muitas histórias e sabia quase tudo que precisava saber, sobre o casamento, sobre o trabalho, sobre os dois filhos. Mas era outra coisa poder lidar diretamente com as pessoas, ouvir a voz do amigo lhe soar tão mais grave e tão incrivelmente cansada, ver os dois projetos de Georgezinho, embora Mikhael não lhe lembrasse tanto o amigo, deveria ter puxado mais a esposa que não chegou a conhecer profundamente. Embora o amigo de longa data se desculpasse excessivamente, sabia que aquilo era da natureza dele, não tinha absolutamente nada que estivesse desarrumado ao ponto de sentir vergonha, e mesmo que a casa estivesse o caos, não era de sua conta, ele estava vivendo e pagando suas contas sem precisar de sua ajuda:
-- Pare de se desculpar sobre tudo homem, eu não pago suas contas, não me deve explicações, sua casa, suas regras oras. -- comentou com a naturalidade costumeira de sua personalidade, talvez mais afiada e aprimorada com os anos, mas logo George se reacostumava: -- é uma casa, um lar, como todos os outros, tem suas coisas e dos seus filhos, tem nada do que sentir vergonha ou ter de pedir desculpas. -- Deu um peteleco na testa do homem, como se estivesse trazendo ele de volta pra realidade.
Observou as crianças sumirem no corredor, e ouviu distante som de chuveiro, e era curioso que os pequenos já soubessem como se virar tão novos, eram filhos do amigo mesmo no fim das contas: -- Claro que cuido, mas vou perguntar, vamos beber só depois que os menores forem dormir? Ou eu já posso abrir a garrafa de vinho pra bebericar enquanto cozinho? -- a loira sorriu marota, enquanto seguia para ajudar a desempacotar as compras separando as suas, das de George, e em seguida foi para a pia, lavar as mãos para começar a mexer em qualquer coisa de comida. Parou apenas para ouvir aquela pergunta sobre onde morava:
-- bem, se você tivesse tentado me visitar ao longo desses anos saberia que eu continuo morando no mesmo lugar de sempre na periferia da cidade. Você pode aparecer lá qualquer dia, posso te dar meu número se quiser manter contato.-- deu de ombros comentando de um jeito despretensioso enquanto pegava os pacotes de macarrão: -- onde encontro uma panela grande pra cozinhar o macarrão? -- perguntou antes de começar a abrir os armários e fuçar nas coisas, claro que se ele demorasse pra responder iria procurar por si só de todo jeito.

