[Drive] Esbarrando no Passado [George; Lilú]
#2
George

A voz da amiga de velha data lhe deixava com um estranho sentimento de nostalgia de quando ainda era jovem, só um adolescente, e achava que não poderia arrumar mais responsabilidades em sua vida. Fechou os olhos por um instante e franziu o cenho brevemente com o peteleco, sorrindo discreto logo em seguida. Sentia falta daquele tipo de atitude da loira e, curiosamente, só havia se dado conta daquele sentimento após reencontrá-la.

- Fique à vontade. - respondeu sobre o vinho, relembrando que já havia dividido algumas cervejas com seu amigo Tamotsu. As crianças já sabiam que não podiam beber álcool e não esperava que ela fosse oferecer nada como vinho para as crianças.

Estava até animado com a presença da loira ali, até ela lhe responder a pergunta sobre onde ela morava. Abriu a boca, pensando em justificar sua ausência durante todo aquele tempo, mas logo retornou a baixar o olhar, ciente de que não havia justificativa de fato. Ele havia se afastado, por seus próprios motivos. Não fazia ideia do que havia acontecido com ela nos últimos anos, mas não imaginava que a loira fosse lhe contar, ela também não lhe devia nenhuma satisfação depois de tanto tempo. Passou tantos anos preocupado com a relação com a falecida esposa, tentando ajustar seu casamento, cuidando das crianças, até a descoberta da doença da mãe dos meninos.

Aproximou-se do armário, buscando nas prateleiras inferiores a panela grande que usava para fazer massas, cozinhar arroz, preparar carne ao molho. Não havia muitas panelas em sua cozinha, apenas o necessário para preparar as refeições diárias.

- Desculpe… por não ter te procurado. - pediu, entregando a panela para ela antes de voltar sua atenção para os legumes que havia separado para serem cortados. Separou a tábua que usava tanto para legumes, como para carnes, e começou a cortar as cenouras e batatas, descascando-as quieto. Não sabia ao certo o que dizer para a loira ou como se justificar, ou se até tinha algum direito em manter contato com ela. No fundo, só se sentia mal por reconhecer que sentia falta da amiga de infância, mas não sabia como começar de novo aquele relacionamento. Lilú era sempre a mais versátil para aquele tipo de resolução ao mesmo tempo que sempre desconfiava que ela falava de assuntos sérios sorrindo e sempre acaba rindo, mesmo que tivesse vontade de chorar. Era assim que se recordava da amiga de longa data, e tal lembrança não lhe deixava confortável com o que havia feito daquela amizade.

Lilú

A loira já estava olhando nos armários de cima da cozinha, quando o amigo de longa data se abaixou pegando uma panela de tamanho grande, já maltratada pelo tempo e uso. Estendeu a mão para pegar a mesma, em tempo de ouvir aquele pedido de desculpas, dito em voz amuada. Não perdeu o sorriso do rosto, manteve aquela expressão descomplicada:

-- Desculpas aceitas. -- falou em tom suave, abrindo a torneira para encher a panela com água suficiente para cozinhar macarrão para quatro pessoas, ou melhor, três pessoas e meia: -- vou precisar de óleo e sal aqui também, por favor. -- A loira já abriu o sorriso e estalou os dedos: -- e do abridor também!

A loira abriu a garrafa de vinho tão logo pegou o abridor em mãos, deixou a bebida respirar um pouco, o aroma frutado invadindo o ambiente, era um vinho bordô, doce, com notas de framboesa, tranquilo para se tomar a noite, sem chances de uma ressaca terrível pela manhã. Serviu os dois copos, sem maiores problemas e aproximou do amigo em sinal para que brindasse: -- Trate o nosso encontro como uma festa, e não como uma despedida, o que passou, já foi, eu não estava lá, então não faz diferença pra mim, mas eu estou aqui agora, e podemos ter conversas agradáveis, rir de coisas idiotas e comer boa comida, eu acho uma perspectiva muito melhor! não concorda?

Brindou, e bebericou do vinho, da mesma forma despreocupada de sempre, como se nada fosse capaz de abalar aquela tranquilidade e seu jeito maroto de ser. A loira deu alguma atenção a massa, agora que a água já estava fervendo, despejando o pacote inteiro, e mexendo um pouco para que não ficasse tudo liguento no final. Muito embora por não estar acostumada a cozinhar para tanta gente, no mecher de garfo, acabou derramando um pouco fora da panela e sujando o fogão. a loira estendeu a língua para fora, como se fosse uma criança que tivesse acabado de aprontar uma arte:

-- Juro que não é culpa do vinho, eu limpo tudo no final! Hehe!

George

Voltou sua atenção para a loira, ainda quieto, quando ela aceitou suas desculpas e pareceu voltar ao bom humor costumeiro. Estranhou o comportamento da mulher, mas não deixou de brindar com ela, contente que ao menos ela não parecia chateada com a situação. Contudo, baixou o olhar para a bebida no copo, ignorando a sujeira que Lilú havia feito enquanto ele próprio cortava os legumes e os colocava para cozinhar em outra panela no fogão.

- Parece que não mudou quase nada. - comentou sobre sua perspectiva da loira, pois ainda lembrava dela daquela mesma forma despojada e animada. - O que fez esse tempo todo? - perguntou na esperança que a vida tivesse sido mais generosa com ela do que fora consigo. Não havia aliança nas mãos da mulher. Ainda podia se recordar dos dias em que a deixou de encontrá-la. Apesar da culpa, na época, era mais importante para si mesmo permanecer ao lado de sua então namorada. Mal sabia o quanto se arrependeria por todas as pessoas que havia afastado por não saber como se impôr naquele relacionamento.

Pegou algumas laranjas em uma cesta próxima da janela da cozinha para fazer um suco para os meninos enquanto aguardava alguma resposta de Lilú. Podia ouvir os filhos saindo do banheiro e Samuel gritando para que Mikhael não corresse sem roupa até o quarto porque tinham visita.

- Também teve filhos? - perguntou despretensiosamente para a amiga de longa data, considerando que ela parecia se dar bem com os meninos. Na verdade, não se recordava dela tendo problema com crianças pequenas, as dores de cabeça eram sempre com pessoas mais velhas.

Lilú

Apesar da bagunça que estava fazendo na cozinha do outro, não se sentia de fato culpada, era o tipo de coisa que acontecia em cozinhas não era? Afinal fazer bagunça com amigos era o tipo de coisa que não se dava ao luxo de fazer com certeza frequência, mas era sempre muito bom quando tinha oportunidade para tal.

Deu espaço próximo ao fogão, de entretendo com seu copo de vinho, e principalmente dando espaço para que George pudesse manusear a panela com os legumes sem problemas. Até que veio a pergunta de praxe, do que a loira tinha feito durante todos esses anos. A loira deu uma espiada no líquido rubro dentro do copo, e sorriu, um pouco diferente, mas era quase imperceptível a diferença de quando estava sorrindo por estar feliz, e quando estava falando de assuntos sérios com um sorriso no rosto:

-- 16 anos é um espaço longo de tempo pra cobrir em um comentário só. -- comentou lembrando ao amigo o quanto de tempo estavam sem se falar adequadamente: -- comecei a trabalhar no que eu faço com 16 anos, e estou nisso até hoje. Administro uma casa noturna e faço uns serviços por fora, pra ganhar uma renda extra. Pago meus boletos todo mês como se espera de uma verdadeira cidadã francesa.

Riu, mas sem se levar a sério demais, se George tinha qualquer noção do que fazia da vida, não ia querer falar sobre o assunto na frente dos filhos. Se não tinha, bem, não tinha como explicar metade do tempo de sua vida em um jantar mesmo. Deu de ombros mexendo a massa do macarrão para que ele não ficasse muito grudado, e logo veio uma pergunta sobre filhos, no que a loira teve de rir mais descontraída, certamente o amigo de longa data “não fazia ideia de com o quê trabalhava” se não ele não lhe faria aquela pergunta:

-- Não George, gente na minha profissão não tem filhos, ou um lar assim como o seu. Até acontece de eventualmente surgirem crianças, mas não é porque a gente esperava, sabe? -- manteve o tom de brincadeira, e imaginava que se o amigo continuasse lento como era talvez ele não percebesse, ou talvez já tivesse dado dicas o suficiente, não tinha problema de falar sobre o que fazia, mas não era o tipo de coisa que bons adultos queriam conversar na frente de suas crianças: -- podemos falar com mais detalhes depois que seus filhos forem dormir se quiser, claro. Por mim podemos passar metade da noite lembrando de feitos ridículos da sua adolescência e deixando seus filhos apar de como vc era meio lento pra entender as coisas desde sempre.

A loira manteve o ar zombeteiro, enquanto bebericava mais um pouco de seu vinho. Certamente não dava pra saber se Lilú estava falando sério ou não.

George

Estava pronto para espremer as laranjas e coar o caldo para o suco quando ouviu a resposta sobre a amiga de longa data ser dona de uma casa noturna. Fez uma pausa, voltando-se para a loira, surpreso e, de certo modo, chocado. Chocado sim, pelo modo como aquela profissão da loira não era algo tão surpreendente, devido aos comentários que ouvira de sua falecida esposa, de colegas na época de escola, todos sobre a garota que um dia defendeu tanto. Baixou o olhar, triste. O que de fato lhe confundia era o sentimento de que a mulher não parecia ter vergonha do próprio trabalho ou estar infeliz. Como ela mesma havia colocado, 16 anos era muito tempo para colocar em um comentário. Respirou fundo, voltando a espremer as laranjas, ciente de que, independente da profissão da mulher, ele não tinha nenhum direito de julgá-la pelo que fazia, ainda que aquele tipo de papel fosse justamente o que sua falecida esposa lhe incitaria a ter.

- Meus filhos são bem diferentes de mim, mais espertos. - respondeu, ciente de que Samuel e Mikhael eram seus preciosos meninos e que não imaginava que eles fossem crescer e se tornar adultos como ele. Esperava que ao menos eles tivessem mais sucesso.

Tão breve comentou sobre as crianças, Samuel apareceu na cozinha, segurando Mikhael pela mão, indicando que o menor se sentasse na mesa de jantar com o caderninho, mas o menino correu para as longas pernas da mulher loira, agarrando-a pelo joelho.

- Tia Lu! Ajuda com a tarefinha? - pediu a criança. Samuel apenas suspirou resignado e franziu o cenho de leve com o comportamento infantil, se sentado à mesa, vestindo uma bermuda e uma camiseta velhos com um ursinho na frente. A criança colocou sobre a mesa seu próprio dever de casa e começou a resolver os problemas sozinho a priori.

- Mikhael ainda é muito pequeno. Por que não mostra primeiro o que aprendeu hoje? - sugeriu George, terminando de preparar o suco para colocar a jarra na geladeira e terminar de cuidar dos legumes cozidos no vapor. Retirou da geladeira um frango do almoço para desfiar e picar, decidindo focar a atenção nas crianças e deixar a conversa de adultos para depois.

- Hoje eu aprendi a família do D e a família do B, tia Lu! - disse Mikhael, pegando o próprio caderno cheio de algumas folhas meio amassadas no meio para colocar a peça sobre a mesa da cozinha, apontando onde haviam alguns garranchos e tentativas de fazer algumas palavras com os novos fonemas.

Lilú

Imaginava que de alguma forma falar sobre o seu trabalho deixaria George desgostoso. Também não esperava que todo mundo aceitasse com um sorriso no rosto o que fazia, mas lhe incomodou um pouco a cara de enterro que o amigo de longa data pôs no rosto, ainda bem que os menores chegaram na sala e podia mudar de assunto momentâneamente.

A loira abaixou o fogo do macarrão do seu lado, para dar atenção a criança em seus pés. Levou a mão aos fios do menor, fazendo uma bagunça na cabeleira da criança:

-- eu nunca fui de fazer tarefas antes do jantar. Mas posso abrir uma exceção hoje. George fique de olho no macarrão então. -- a mulher caminhou até a mesa e sentou-se puxando o garoto menor para o próprio colo, dando uma olhada no que ele tinha rabiscado: -- sabe, esses rabiscos me lembram quando eu e o pai de vocês estudávamos na mesma sala.

Fez uma breve pausa botando um sorriso de mostrar os dentes com a recordação, na mesma medida que ia guiando a mão do Mikhail pés que ele fizesse o contorno das letras da tarefa pra que ele pegasse o jeito: -- era meu primeiro ano em Cerise eu tinha acabado de me mudar, e tinha de fazer um trabalho em dupla com o George. Passamos horas tentando fazer um cartaz bonito, seu pai sempre foi inteligente mas nunca teve muito jeito nem pra desenhar nem pra apresentar os trabalhos.

Lilú deixou que o menor tentasse fazer as letras sozinhos e espiou por cima o que Samuel estava fazendo. Erguendo o polegar em sinal positivos por ele está fazendo a tarefa direitinho: -- então, quando chegou o dia da nossa apresentação, o George não queria falar, nem lembro direito o que a gente tava explicando, acho que era a história do Marco zero da cidade ou era do rio? Você lembra? Enfim… daí eu disse a ele: “se vc não vai falar então segure o cartaz enquanto eu falo!” Ele acenou positivo e fomos lá.

A loira começou a desatar em risos enquanto chegava na parte mais engraçada da recordação e pegou uma folha solta da tarefa dos meninos para substituir o cartaz do trabalho: -- então lá estava o George morto de vergonha, e eu disse: “abre o cartaz George!” Ele abre e a folha está de cabeça para baixo, eu dou um toque nele com.o cotovelo e falo baixinho: “tá de cabeça pra baixo!” Ele virá o cartaz e se esconde atrás! Foi muito engraçado!!!!

Conforme a loira ia encenando as coisas que aconteceram naquele dia, ia rindo cada vez mais, esperava ao menos tirar algumas risadas das crianças. Ou pelo menos no mínimo, tirar o ar de enterro que o amigo de longa data carregava constantemente nas costas. Aquela casa precisava de um ar mais leve urgentemente.
George

Mikhael ficou animado em poder sentar no colo da mulher que segurava sua mãozinha para lhe mostrar como escrever. George não pareceu ter problemas em ficar de olho no macarrão enquanto preparava o frango desfiado para acompanhar a massa e os legumes. Estava prestando atenção nas crianças e em Lilú também e quase deixou a tampa da panela cair no fogão com a menção dela ao seu passado infantil. Samuel, por sua vez, parecia interessado na narrativa da loira a ponto de parar de olhar para sua tarefinha de casa e prestar atenção na história de seu pai.

Samuel corou com a reação positiva da mulher, aprovando seu cuidado com a atividade de casa. Mikhael, por sua vez, havia parado de tentar escrever para erguer a cabeça e observar a loira, interessado em como ela falava sobre seu pai. Mikhael tinha risada fácil e não demorou a rir com a loira, acompanhando-a na divertida lembrança de seu pai se escondendo atrás de um pedaço de papel. Samuel sorriu, desviando o olhar até baixar a cabeça, fingindo se concentrar na tarefa de casa.

- Eu ainda tenho as coisas da época que estudávamos juntos. - admitiu o pai dos meninos, arrumando parte da mesa para colocar os quatro pratos, copos e talheres para o jantar. Mikhael ainda parecia se divertir com as risadas da mulher enquanto que Samuel evitava encarar Lilú justamente por não querer dar o braço a torcer sobre a graça com o cenário do próprio pai sem tato algum para falar em público.

George tratou de dar atenção ao macarrão e ao frango, usando um pouco de molho de tomate e queijo ralado para terminar de preparar a massa que havia ficado um pouco grudenta pelo tempo na panela.

- Não tem problema. Eu ajudo vocês com a tarefa antes de irem para a escola. - disse George que parecia preocupado com a atenção de Samuel ao próprio caderno. Mikhael sequer parecia se preocupar mais com as letras, interessado em procurar pelo cabelo de Lilú para segurar entre suas mãozinhas. - Desculpe. Não recebo muitas visitas em casa.

Pediu a velha amiga de infância pelo comportamento do filho caçula enquanto que Samuel separava os cadernos e material da escola para ser deixado de lado na sala de estar.

Lilú

Claro que imaginava que depois que começasse a contar histórias do passado as duas crianças iam perder o foco das tarefas de casa. Mas não se importava muito, eles teriam outros dias para ficar encarando as folhas pautadas de caderno na chatice do dia-a-dia, era a visita, a pessoa que era diferente no cotidiano da casa morna, podia ao menos trazer alguns sorrisos ao ambiente. Estava grata que de todos ali, o pequeno Mikhail era o de sorriso mais fácil, e lhe acompanhava nas risadas altas sobre as vergonhas do passado de seu pai. Samuel era um “mine” George, logo segurava o riso pra parecer muito adulto tentando se concentrar no seu caderno, mas ele era o irmão mais velho, devia estar tentando passar a aparência de sério e sóbrio, mal percebia que seu pequeno irmão, não estava muito interessado em ser “sério e sóbrio” ainda.

Ficou surpresa pelo fato do amigo de longa data ainda guardar atividades do tempo de escola: -- George pelo amor de deus, joga essas coisas fora, só deve está juntando poeira! -- riu sem se levar a sério, deixando que Mikhail brincasse com seus cabelos descoloridos sem se importar muito. Apenas quando o maior começou a por os pratos na mesa, a loira botou o menor no chão: -- vá ajudar seu irmão a guardar os cadernos e as tarefas, lave as mãos e venha para mesa depois, entendeu? -- bagunçou o cabelo do menor e se levantou para ajudar a terminar de por a mesa:

-- notei que essa mania de querer fazer tudo sozinho ainda persiste, e não é de agora não viu! -- cutucou a cintura do amigo, como faria em outros momentos quando ele tentava se esconder entre os braços finos quando estava envergonhado. Terminou de por os copos e talheres a mesa, levando a jarra de suco, e a garrafa de vinho, e deixando os suportes para as panelas de comida, para que ninguém tivesse de se levantar de volta para a cozinha:

-- Ah, macarrão me traz boas recordações também, sabe, eu trabalhei em muitas coisas durante a adolescência, um dos meus primeiros empregos foi em uma lanchonete de almoços. -- a loira observou George, já pra ver que tipo de reação ele ia ter, porque imaginava que ele soubesse de qual história estava falando: -- o pai de vocês sempre foi muito enrolado pra conseguir falar o que pensava, e as vezes quando ele era pego de surpresa ele tinha reações engraçadas, uma vez ele estava almoçando no lugar onde eu trabalhava, e o especial do dia era macarrão com anchovas, prato de terça se eu não estou enganada…! -- a loira observou as crianças que voltavam depois de guardarem suas coisas e lavarem as mãos para finalmente se sentarem a mesa: -- então, ele estava sentado como você samuel, de costas para porta, então ele não tinha como ver quem entrava ou não na lanchonete, ele tinha acabado de dar uma boa garfada no macarrão, quando o sino da porta tocou avisando que alguém tinha entrado, e claro, como eu estava em pé como estou agora, de frente pra porta eu vi primeiro que ele quem tinha entrado, e acenei e falei: “olha quem chegou!” George nem sabia ainda quem era, mas se engasgou a ponto do macarrão sair pelo nariz dele! Consegue imaginar?

A loira desatou a rir a ponto de quase chorar de tanto gargalhar, e teve de abanar o próprio rosto para retomar o fôlego, levando o indicador para enxugar o canto do olho da lágrima que não desceu: -- o mais engraçado é que eram apenas colegas de classe da escola, eles acharam que George estava passando mal quando o viram inclinado, tossindo e se engasgando, só eu vi a cena mágica de como um macarrão pode sair pelo nariz de alguém!

Poderia passar a noite toda lembrando de coisas engraçadas do passado, se conseguisse fazer George gargalhar seria uma vitória para vida. Mas se contentava em divertir as crianças e ouvir a risada gostosa de Mikhail que tinha o senso de humor de um ser humano normal, o pequeno era puro por nós todos.

George

Sorriu discreto diante do comentário de Lilú sobre jogar aquilo fora. Juntava muita coisa de quando ainda era uma criança ou um adolescente. Era bastante apegado aos seus pertences, talvez fosse justamente por todo o trabalho pelo qual teve de passar para consegui-los. Agradeceu pela ajuda da loira com um aceno positivo enquanto Mikhael era o primeiro a obedecê-la, sorrindo animado com o afago em sua cabeça. George baixou o olhar para a mão que lhe cutucava, pressionando os lábios como se quisesse negar que fazia muito sozinho, mas ela estava certa.

Samuel também seguiu com Mikhael, terminando de arrumar as coisas na sala para poder segurar a mão do irmão e levá-lo para lavar as mãos antes de comerem. Contudo, assim que a loira começou com a história sobre o macarrão, Samuel ergueu o olhar, preso a história de quando seu pai era ainda jovem. Enquanto Samuel observava a mulher, interessado na história ao ser usado como exemplo de posição, George suspirava conformado com a lembrança vergonhosa que possuía daquela cena, servindo as porções de Mikhael para que ele pudesse comer principalmente os legumes e não só a massa e o queijo.

- Pff-- Samuel baixou o olhar, segurando o riso de novo até desviar o olhar, rindo baixo com a cena. Não era necessário virar-se para Mikhael para constatar que ele próprio havia caído na risada de novo, imitando a mulher loira que fazia questão de recordar dos feitos do pai de ambos.

- Na época, eu achei que era alguém importante e você fala como se não falasse de propósito para me assustar, Lilú. - comentou George, destacando a parte proposital da loira, mas ainda assim mantendo o sorriso mais descontraído no rosto com a boa lembrança. - Você sempre me assustava de graça.

Mikhael pegou o talher e tentou separar um fio de macarrão com a colher, logo estendendo a peça para o pai, curioso. A cena foi o bastante para que George desse uma risada, breve, mas gostosa, diante da cena do filho tentando lhe entregar o fio de macarrão.

- Haha! Não Mikhael! Eu não vou engasgar de novo com macarrão! O papai é um adulto já, não sabe? - riu enquanto Samuel servia o próprio suco e olhava curioso para a bebida no copo dos adultos.

- O que é isso, pai? - a criança apontou para os copos com as bebidas diferentes, logo diminuindo a risada do pai que logo tratou de olhar para Lilú antes de responder.

- É vinho, Samuel. É uma bebida de adultos. - sorriu mais tranquilo, explicando para o filho que logo franziu o cenho com a resposta, entendo que aquilo significava que não podia experimentar do conteúdo do copo.

- Pensei que só cerveja fosse bebida de adulto. - disse Samuel, comendo boa parte do macarrão enquanto deixava o frango e os legumes por último. - E ela pode beber também? - questionou de novo, olhando para a visita. - Nenhuma das tias da escolinha bebe isso. Nem a tia Fleur.
George respirou fundo, olhando rapidamente para Lilú, sorrindo discreto diante do comportamento do próprio filho.

- Você só vê as suas professoras e a tia Fleur no trabalho, Samuel. A gente não pode beber no trabalho, meu filho. E não é bom beber sempre. Estamos bebendo vinho porque faz muito tempo que não nos vemos. E somos adultos. - explicou, tentando minimizar a irritabilidade do filho mais velho que parecia já se achar adulto o bastante para fazer qualquer coisa.

Lilú

Claramente a loira tinha um gosto peculiar por provocar o amigo de longa data, em verdade, George sempre foi facilmente provocável: ficava vermelho com facilidade, se engasgava, e fazia expressões de genuína surpresa. Claro que não era fácil tirar reações exageradas do amigo, ele sempre tinha aquele ar pleno e tranquilo de quem estava sempre muito calmo, ou com a mente em outro mundo de minissaias escolares. Mas Lilú se esforçava para tirar alguma vida das reações do moreno mais velho, e estava pessoalmente orgulhosa, por conseguir tirar alguns risinhos da versão mini George, que era o pequeno Samuel:

-- Eu? Nunca! Calúnia e difamação! -- a loira apontou o talher na direção do mais velho, falando com ares de ironia, enquanto sustentava um riso fácil no rosto: -- a questão é que você “morria de peru”, o que quer dizer crianças, que seu pai sempre ficava muito surpreso antes mesmo de saber do que se tratava as situações. Guardem essa expressão pra vida!

Mas definitivamente teve de rir quando o filho mais novo do amigo, decidiu que teria de ajudar o pai com o macarrão. Que comida perigosa era aquela massa com queijo, frango e legumes. Riu descontraída enquanto bebericava de seu vinho, sentindo muito pouco do álcool da bebida, já que estava pondo comida no estômago simultaneamente enquanto bebia. Ouviu o questionamento de Samuel, e alguma coisa lhe incomodava no jeito daquela criança de falar, talvez fosse por ele agir muito como uma miniatura de adulto e pouco como uma criança, ou talvez fosse algo mais:

-- Mulheres também podem bebe Samuel, e existem um monte de bebidas de adulto, não só cerveja e vinho. Assim como, existem um monte de tipos de suco de caixinhas para crianças, refrigerantes, sodas, achocolatados e todas essas coisas que estragam os dentes e o estômago mas tem um gosto bom! -- Sorriu enquanto explicava as coisas a seu jeito para os menores:

-- Mas bem, como tudo na vida, tem tempo para as coisas, você tem de aproveitar enquanto é pequeno e as pessoas não te julgam por você falar coisas bobas ou não saber como as coisas funcionam. Depois que você fica adulto, todo mundo espera que você sempre saiba o que está fazendo e que nunca erre, além de ter boletos pra pagar, essa é a pior parte -- A loira deu duas garfadas no macarrão, apreciando a massa e aquela conversa sobre crianças ingerindo álcool lhe trouxe várias recordações, principalmente com a citação do nome de Fleur:
-- Sabe, eu conheço a Fleur também, cuidei do Arman, o filho enorme dela…-- a mulher gesticulou com a mão, tentando imitar a altura que o jovem Arman tinha atualmente, e em seguida desceu a mão, para o topo da cabeça de Mikhail: -- quando ele era só um pouco mais alto que o seu irmão, e a Carbella tinha o seu tamanho Samuel! -- a loira começou exemplificando as alturas e as idades para mostrar como isso fazia tempo, já que as duas pessoas comentadas eram adultos agora:

-- Certa vez estávamos os três cozinhando: eu, Arman e Carbella, fazendo bombons recheados, porque queríamos fazer uma surpresa para Fleur, ideia da ruivinha com certeza. Eu estava cuidando de mexer na parte que envolvia o fogão e derreter o chocolate em banho maria, porque eu não ia deixar as crianças mexerem no fogão. Carbella estava escolhendo a forma para os bombons, e eu tinha deixado Arman mexendo a massa do Recheio. -- a loira fez uma pausa balançando o copo de vidro com vinho, enquanto ria sozinha da recordação: -- então, eu pedi pra Arman ir buscar licor de chocolate, sendo que ele não sabia ler direito ainda, e pegou um licor de adulto, com álcool. E colocou uma garrafa inteira na massa de recheio.

A loira fez uma pausa para beber o conteúdo do copo e depois repousa-lo de volta a mesa para então encarar os dois menores:

-- O corpo dos dois ainda eram muito pequenos, e quando eles comeram os bombons, Carbella ficou falando estranho e Arman ficou ainda mais calado, os dois tiveram uma baita dor de barriga e eu levei uma bronca da Fleur. Corpos pequenos não ficam bem com o álcool, isso porque naquele dia estava misturado com chocolate, o álcool puro, como eu e o seu pai tomamos aqui, é algo que só aguentamos tomar porque nossos corpos são grandes, e mesmo assim não podemos exagerar. Entendeu?

George

Samuel prestou atenção na narrativa da mulher mais velha enquanto Mikhael apreciava a história e o afago que recebia. Mikhael estava ocupado tentando comer os legumes depois de algumas garfadas no macarrão. O filho mais velho de George parecia intrigado com a história da loira, principalmente quando ela comentou sobre pessoas que conhecia. Até o semblante aliviou de uma criança que estava chateada porque estava sendo privada de fazer algo pelo que tinha curiosidade.

- A senhora conhece a irmã da Clementine? Elas tem uma cor de cabelo esquisito. A Clementine é chata comigo às vezes. E a Kanon também. - Samuel relatou, o semblante voltando a parecer irritadiço pela lembrança das meninas na escolinha.

George respirou fundo, estendendo o guardanapos sobre a mesa para limpar o queixo de Mikhael pela baba enquanto o menor se esforçava para mastigar o frango e os legumes juntos. O pai de Samuel já sabia muito bem onde iria dar aquela conversa. Samuel era teimoso quando brincava com os amiguinhos na escola, pois sempre queria que os outros brincassem do que ele queria. E no que dizia respeito às meninas, podia dizer que Kanon era bem especial pelo pai da criança gostar de brincar de golpes de luta com a mocinha.
- Tia, a senhora sabe fazer docinhos, então? A tia Fleur trabalha muito, eu não acho que ela me mostra como fazer docinhos. É muito difícil? - perguntou, animado com a ideia de poder fazer algo na cozinha que não fosse ajudar o pai com as refeições diárias. - A Clementine já sabe cozinhar, sabia? E ela é muito pequena ainda. Menor que eu. Não é justo.

George tomou o vinho em seu copo, deixando o recipiente vazio sobre a mesa antes de olhar para Lilú, esboçando um sorriso discreto de quem estava apresentando a própria família para a amiga de longa data, deixando-a ciente de como seus filhos se comportavam. Não julgava que nenhum deles tivesse sérios problemas de comportamento, Samuel era um menino teimoso, cabeça dura, às vezes birrento, mas nada além do normal; e Mikhael era pequeno e inocente, sempre risonho e animado para qualquer bobagem do dia.

- Beba o suco, filho. - aconselhou o pequeno enquanto ele parecia brincar com a colher e o restante dos fios de macarrão no prato plástico com desenhos de animaizinhos. - Quem sabe se você comer bem fica tão grande quanto o filho da tia Fleur, Samuel? - sugeriu George, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo sobre a mão enquanto sorria mais compreensivo para o filho mais velho.

- Não, pai. - disse Samuel, sério, cruzando os braços logo em seguida. - Eu já sei o que faz as coisas crescerem. É fermento. Eu vi a tia da escolinha conversando com a tia da outra turma sobre um bolo de aniversário que ela ia fazer pra filha dela. E a tia Fleur tem um monte disso lá na padaria. Ela devia colocar aquilo na comida do filho dela, por isso ele ficou tão grande. - o menino explicou, causando uma expressão de surpresa no próprio pai que logo em seguida segurou o riso, impressionado com a imaginação de Samuel e ao mesmo tempo preocupado com a capacidade dele de ouvir as conversas alheias.

Lilú

A loira agora aproveitava que George estava conversando com os filhos e Samuel tinha começado a tagarelar para se servir de seu macarrão antes que esfriasse. George não era um chefe de cozinha e estava bem longe disso, mas tinha aquele gostinho de comida caseira, do qual não podia saborear com frequência dada a sua vida, e principalmente pela preguiça e falta de disposição. Não entendeu exatamente qual a parte de ter cuidado de Carbella ele não tinha entendido, e nem conhecia a irmã mais nova da garota para saber se ela era chata ou não, mas se tivesse puxado 20 centavos da personalidade da irmã quando mais nova, e os outros 80 centavos da personalidade de Fleur, podia entender porque Samuel não gostava dela. A menina devia ter mais atitude do que ele está acostumado a ver em qualquer garota ou menina que conheça.

Mas a Loira acabou soltando uma risada mais alta do que gostaria quando o menor disse que Arman tinha comido fermento para crescer tanto, naquele ponto até fazia sentido, e teve de rir mais abertamente, mas não a ponto de macarrão sair por seu nariz, não tinha o talento de George pra esse tipo de façanha:

-- Então basta mergulhar você num saco enorme de fermento! Não é Mikhail?-- Lilú riu sem se levar a sério, levantando os braços e gesticulando na direção do menor, para que ele lhe acompanhasse nas risadas. Em seguida deixou os talheres de lado, já com a porção de macarrão no fim e voltou a bebericar de seu vinho: -- Então Samuel deixa eu te contar uma coisa, não é porque eu sou mulher que eu sei cozinhar, longe disse, sou uma negação, certamente eu queimaria o macarrão, e jantaria miojo por preguiça de tentar fazer algo melhor. Logo eu não faço ideia de como se faz qualquer um dos doces que tem na Antique, gosto muito deles, mas não saberia fazer nem o mais simples.

A loira deu de ombros, não tinha vergonha alguma de explicar aqueles pontos, e se depois George quisesse lhe repreender por comentar essas coisas sobre obrigatoriedade da mulher e do homem, faria questão de ressaltar para o amigo de longa data, que ele tinha um pézinho bem machista ali. Não daria pitacos obviamente na criação de um filho que não era dela, mas também não iria negar algo que estava bem claro a seus olhos:

-- E sim, respondendo sua pergunta anterior, eu conheço a Carbella de muito tempo, mas não conheço direito a Clementine, lembro dela bem mais nova, quando era uma criança de colo. -- Ponderou que seria bom fazer alguma visita qualquer dia desses para trocar conversa com a ruiva cereja e atestar se Clementine era esse pequeno demônio ruivo que Samuel estava pintando: -- e bem, se ela já sabe cozinhar sendo tão nova, é porque ela deve ter treinado e praticado pra isso, quantas horas do seu dia, você dedica a aprender a cozinhar? -- a loira questionou o mais novo como se aquela pergunta o ajudasse a pensar melhor sobre a situação:

-- As vezes a gente quer coisas que nem sempre a gente dedica tempo pra conseguir. -- a loira mudou de posição na cadeira, como se fosse falar mais sério agora: -- por exemplo, seu pai trabalha um bocado, sempre trabalhou um monte, e ele sempre teve essa cara de quem está com sono por trabalhar demais. As pessoas se perguntam porque o George parece saber resolver qualquer problema, desde: canos, paredes, energia, gatos perdidos a pessoas perdidas, mas isso é porque ele sempre trabalhou! E nunca foi de deixar de fazer algum serviço porque não gostava ou porque era feio, ou pagava pouco, daí, por ter treinado desde sempre, ele é bom em muita coisa. É simples não é?

George

Ficou mais tranquilo também em observar que a amiga de longa data estava se servindo de macarrão. Apesar das provocações, gostava de estar com seus amigos comendo e bebendo. Aquele cenário mais familiar lhe deixava com a sensação confortável de que realmente estava em seu lar. Contudo, olhou para a loira assim que ela fez questão de pontuar sobre como era uma mulher e nem por isso precisava saber cozinhar bem. De fato, não se recordava de Lilú sendo a melhor das cozinheiras, pelo contrário, lembrava dela já ter trabalhado em alguns fast foods na cidade. Nunca havia tido aquele tipo de oportunidade, porque os gerentes sempre lhe achavam lerdo e não carismático para atender os clientes. Imaginava que alguém como ela que havia trabalhado bastante com frituras e aquelas besteiras ao próprio redor poderia ter paciência de cozinhar quando chegava em casa.
As risadas que encheram a cozinha com o comentário do filho mais velho lhe fizeram sorrir e até rir um pouco também. Não tinha como negar que a risada de sua velha amiga tinha aquele poder contagiante. E tal como ela, Mikhael parecia empolgado em gargalhar. E tão pronto ele caiu na gargalhada, soltou um pequeno arroto e pareceu surpreso ao fazê-lo, antes de cair no riso de novo, animado com a presença da mulher de sorriso amplo. Samuel, por outro lado, parecia emburrado com a ideia de que cozinhar bem era algo pelo qual ele tinha culpa por não se dedicar direito.

- Mas eu quero cozinhar! Mas o pai não deixa! Ele diz que é perigoso o fogo! - Samuel acusou, apontando para George que apenas suspirou.

- Você é muito pequeno ainda, Samuel. O fogo e as facas na cozinha são perigosos para crianças. Você não pode cozinhar sem um adulto por perto. - George explicou, tranquilo como de costume.

- Mas você nunca tem tempo para a gente cozinhar junto! A Clementine tem a tia Fleur e a irmã dela! Não é justo! - Samuel continuou irritadiço ainda pelo sentimento de ter sido acusado pela amiga de seu pai como alguém que não se esforçava o bastante para aprender a cozinhar. George, por sua vez, encarou o garoto, sem saber ao certo o que dizer para o filho na frente de Lilú. De fato, não tinha muito tempo livre com os filhos e, quando tinha, estava sempre cansado pelo trabalho durante a semana. - Se a minha mãe estivesse aqui, ela ia me ensinar!

- Chega, Samuel!

A paciência que possuía com os próprios filhos era imensa a julgar os anos que havia tido de experiência em criá-los na maior parte do tempo sozinho. Contudo, havia um limite para as birras que conseguia ouvir, principalmente do filho mais velho. O garoto não era mais tão pequeno como Mikhael e ele sabia muito bem como havia sido sua relação com a mãe dele, e como fora a perda da mulher para ambos. Tratar do assunto de uma forma leviana, principalmente trazendo aquilo a tona quando recebiam a visita de uma amiga com quem não falava há muito tempo, lhe deixava irritado.

Samuel, por sua vez, ao encarar o semblante do próprio pai, não parecia recuar, franzindo o cenho de volta para o mais velho, ainda, porém, sem respondê-lo. George não precisou falar mais nada para que o menino mais velho afastasse a própria cadeira de forma grosseira, corado pela bronca e emburrado. O garoto se afastou para sair da mesa e seguir para o corredor que levava aos quartos. Mikhael observava tudo com ar confuso e tão pronto o irmão deixou a mesa, ele ergueu o bracinho com a colher de plástico, como se chamasse o outro para ficar ali com ele.

- Sam… - chamou, só então se dando conta de que ele não voltava, os olhos do pequeno se encheram de água ao ponto dele começar a chorar, mesmo sem entender o motivo pelo clima da situação ter se tornado tão pesado. George respirou fundo de novo, levantando-se da cadeira para pegar o filho menor nos braços, tentando tranquiliza-lo.

- Desculpe por isso. - pediu a Lilú, ciente de que ela não precisava passar por toda aquela situação de drama doméstico em sua família. Era comum ter discussões com Samuel pelo gênio forte do menino, mas ainda não havia aprendido a tolerar quando ele falava sobre a mãe, principalmente quando estavam com outras pessoas. De fato, conversas sobre a mãe dos meninos não era algo constante de acontecer.

Lilú

Aparentemente George ainda tinha alguns problemas de adolescência que tinha trazido para a vida adulta: dificuldades de conversa. Sabia que o amigo era introvertido, e tinha certa dificuldade de se expressar a ponto de que precisava ir tirando dele as informações a medida que iam conversando. Mas ele sempre tivera uma personalidade tranquila, então podia ir tirando aquelas travas uma a uma a depender do assunto que estavam abordando. No entanto, podia notar que o filho mais velho de seu amigo tinha herdado um gênio um pouco mais forte, ou talvez fosse apenas birra infantil, não era ninguém pra julgar mas sabia, que aquele quadro só iria ficar mais complicado, se ele tentasse resolver tudo no grito ou apenas deixando em “silêncio”. Não era de se meter, e nem queria, não estava em posição e nem gostaria que fizessem isso consigo se estivesse do outro lado da situação, então prestaria sua ajuda na medida do possível:

-- Não se incomode com isso George, a comida está ótima, e eu estou bem satisfeita, acredito que Mikhail também já comeu o suficiente, não é? Quer me ajudar a tirar a mesa e lavar alguns pratos? Já que seu pai cozinhou nada mais justo que eu lave! -- comentou com tom sereno, chamando a atenção do menor que tinha absorvido a tensão da situação, tentando passar o aspecto de que não tinha nada de errado acontecendo para que ele precisasse chorar: -- Vem cá! -- estendeu os braços para o menor, e observou o amigo de longa data com seus olhos castanhos, e depois encarou o corredor que dava para os quartos, como se indicasse que ele tinha outro trabalho mais importante do que acalmar o menor.

Ergueu o menino menor acima da própria cabeça como se isso fosse animá-lo, e lançou-lhe uma piscadela com um sorriso maroto: -- pronto, passou! Agora vamos limpar a cozinha! Pra dar uma ajuda ao George, certo? -- confirmou com o menor, e depois o colocou no chão, indicou a ele que jogasse o restante da comida dos pratos no lixo, acompanhou o pequeno em cada coisa, para que ele não se machucasse ou não derrubasse nenhum prato. Levou as panelas mais pesadas de volta ao fogão, já que ele não tinha como fazer aquele serviço.

Depois puxou uma cadeira, colocou a criança em pé sobre ela, deu-lhe um pano de prato e deixou que ele participasse da limpeza enxugando as coisas que se caíssem não quebrariam: -- ah! não dá pra lavar pratos sem uma boa música! -- puxou o celular e deixou rodar músicas de sua playlist, coisas que com certeza tocariam na rádio, e sabia que o som da música abafaria qualquer comentário dito em tom mais alto por George caso ele brigasse com Samuel, e não assustaria Mikhail novamente.

Manteve-se distraindo o filho mais novo do amigo, já que ele sendo tão pequeno ainda não tinha como entender aquela situação completamente. Então quanto menos importante se tornasse aquela sensação de desconforto e medo, menos isso o afetaria no futuro. Bem sabia como brigas em casa afetavam pessoas, podia não ter filhos de sangue, mas tinha muitas pessoas sob sua responsabilidade, todos um pouco quebrados e remendados de lares assim, tão comuns, mas com alguma instabilidade que marcava pra vida toda.


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RE: [Drive] Esbarrando no Passado [George; Lilú] - by Lil - 09-17-2021, 03:46 PM

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