09-17-2021, 03:46 PM
George
Apesar do clima ter ficado tenso devido a sua falta de capacidade em lidar com o comportamento do próprio filho, George se viu auxiliado pela amiga de longa data que parecia entender que Mikhael precisava de atenção para se acalmar enquanto pensava em como resolver o problema. Na verdade, sabia que aquele problema não era algo pontual como uma pequena birra de Samuel, aquele tipo de comportamento vindo do filho era recorrente de anos. E talvez nem fosse um problema no comportamento do menino, mas sim em sua falta de capacidade em lidar com o mesmo. Estava tão habituado a ser paciente e tranquilo com seus filhos, tentando sempre ser um bom pai diante das próprias atuais condições de vida, mas era difícil lidar principalmente com o comportamento de Samuel na maior parte dos casos. Não queria admitir, mas tinha receio de que, ao crescer, Mikhael também começasse a lhe responder ou a discutir sobre assuntos delicados como a falta que a mãe de ambos fazia ali.
- Pode guardar o que sobrar das panelas na geladeira, por favor? - foi só o que conseguiu pedir antes de se erguer. Mikhael, por sua vez, parecia responder muito bem a presença de Lilú. O pequeno foi diminuindo o choro assim que a mulher lhe ergueu nos braços, parecendo animada em brincar consigo. Talvez fosse um menino ainda muito pequeno, mas a ideia de poder ajudar a tia loira lhe alimentava a ideia de que estaria ajudando o próprio pai também.
Enquanto isso, o pai dos meninos seguiu para o quarto de Samuel e Mikhael para poder procurar pelo filho mais velho. Não sabia ao certo como dar início aquela conversa, nunca sabia na verdade, então apenas bateu na porta antes de entrar para encontrar o pequeno Samuel na própria cama, jogando o que estava ao seu alcance dentro da mochila.
- Samuel. - chamou o menino que lhe ignorou, continuando a jogar com violência alguns objetos como caderno, estojo, um boneco de aventura, borracha, na mochila da escola, irritadiço. - Samuel, me escute.
- Não quero! O senhor faz tudo sozinho! - brigou o menino, erguendo o tom de voz no que logo George voltou a franzir o cenho diante da reação exagerada do menino.
- Samuel, você sabe que eu deixo você fazer muita coisa sozinho também. - defendeu George, sentando-se na cama, a uma distância pequena do menor, agradecendo mentalmente o ruído de rádio que começava a vir da cozinha. - Olhe para mim, por favor.
- Não quero! Eu só queria cozinhar também e o senhor não deixa! - discutiu com o pai novamente ao ponto de George se aproximar para tirar a mochila da criança e segurá-lo pelas mãos. Foi necessário respirar fundo diante do exato momento que o filho começou a se debater, lutando para se livrar de suas mãos. Não era sequer necessário muita força para segurar a criança para que ele pudesse lhe encarar. Esperou primeiro que o menino se acalmasse ou, no caso de Samuel, cansasse de gritar consigo e de lutar para se livrar de seus braços.
- Samuel, eu só não quero que mexa com fogo ou facas sozinho. Isso é perigoso para crianças. Entendeu? Eu não quero que você fique bravo comigo por isso. Vamos cozinhar no final de semana então, eu fico com você já que quer tanto aprender. - ofereceu para o menor que logo tentava desviar o olhar, ofegante e ainda irritado.
- Mentira…! Não fica com a gente… o senhor sempre… trabalha! - disse o pequeno, lutando para segurar as lágrimas de frustração por não conseguir escapar daquele confronto. Talvez a imagem do filho fazendo birra lhe irritasse, mas lhe incomodava ainda mais a ideia de que não estava fazendo o bastante pelos meninos e aquilo se materializava nas acusações de Samuel por sua ausência devido ao trabalho. Por isso, não houve como evitar a aproximação do menino, soltando-lhe os braços com ele já cansado para poder finalmente lhe responder:
- Samuel, o papai trabalha muito para poder cuidar bem de vocês dois. Vamos cozinhar juntos se é isso que você quer aprender. Não tem problema. - cedeu ao menino, ciente de que muitas vezes era ausente por conta do trabalho. Samuel ergueu o olhar para sua figura como se buscasse sinceridade nelas e uma promessa de que realmente cumpriria sua palavra. O garoto terminou por concordar brevemente com a cabeça, mas não se aproximou de novo do pai, ainda parecendo incomodado com a situação.
George aceitou aquilo como se tivesse resolvido parcialmente a situação e acabou por se erguer da cama, fazendo menção de sair do quarto, mas sem antes observar o pequeno Samuel fazendo o mesmo para poder organizar, agora com menos raiva, os objetos na própria mochila. Deixou o quarto com um suspiro de conformação diante da própria falta de capacidade em lidar com o temperamento do filho mais velho. Seguiu para a cozinha a fim de verificar se estava tudo bem com o caçula, mas acabou surpreso com o que encontrou. Encarou a cena de Lilú dançando enquanto terminava de secar a louça ao som de uma balada popular francesa que estava tocando no rádio. Mikhael, por sua vez, estava rindo, divertindo-se com sua velha amiga de infância, dançando com os bracinhos de pé sobre uma das cadeiras da mesa de jantar, perto da pia. Parou no portal de acesso ao cômodo, boquiaberto com a cena. Era tão estranho ver uma cena como aquela em sua casa que não disse nada para não destruir o momento, apenas sorriu, levando a mão até a própria face para poder esconder a própria reação.
Lilú
A loira não estava preocupada com a conversa entre George e o filho mais velho, sabia por experiência que crianças podiam ser irritantes e teimosas, e também sabia por experiência que o amigo era péssimo pra lidar com conflitos, pelo visto os anos não tinham lhe dado mais tato com isso. Estava terminando de lavar a louça e enxugar e quando guardou o último pratinho de plástico de Mikhail, estendeu a mão para o menor esperando que ele batesse, para fazer um gesto de “ok” com o polegar:
-- Olhaí, nós fazemos um bom time! -- brincou afagando os cabelos da criança e bagunçando, e depois desceu o mesmo do banco alto para o chão: -- agora vá lá que eu acho que o seu pai também quer conversar com você! -- se abaixou sobre um dos joelhos para ficar na altura da criança: -- posso lhe dar um beijinho de boa noite? -- perguntou, apenas esperando a aprovação do menor, para só então apontar a própria bochecha dando permissão para o menor poder lhe dar um beijinho também.
Deixou que a criança se afastasse para ir ao encontro do pai, e então voltou a atenção para o fogão, guardando o restante das comidas em depósitos plásticos, na geladeira, para que não estragasse.
Em seguida pegou a garrafa de vinho e os copos de vidro que estavam tomando e levou para a sala junto com a tortinha que tinha comprado para a sobremesa, mas que ficaria para a sobremesa dos adultos. Não era exatamente o tipo de coisa que se harmonizava com vinho, mas talvez fosse exatamente o que o amigo de longa data precisava naquela noite amarga depois de brigas com o filho. Sentou-se confortavelmente no sofá simples, achando o aspecto da casa todo muito confortável, sem nada que chamasse demais a atenção, mas incrivelmente confortável, exatamente como o amigo era, simples, mas uma pessoa confortável de se lidar.
George
Observou o filho pequeno se aproximar após a despedida com Lilú e olhar para sua figura como se aguardasse uma palavra de aprovação pelo serviço que havia feito com a mulher. Estendeu a mão sobre o cabelo do menino, esboçando um breve sorriso quando Mikhael pareceu animado com a ideia de ter ajudado na cozinha. Talvez seus filhos apenas quisessem muito ajudar o próprio pai com o trabalho doméstico. Estendeu a mão para o pequeno, acompanhando-o até o quarto que ele dividia com Samuel para encontrar o mais velho ainda acordado, ainda que estivesse já visivelmente sonolento e quieto.
Sentou-se de lado na cama do mais velho, trazendo Mikhael para seu colo, ajustando-o ali para poder falar diretamente com os dois meninos. Conversou com os garotos, desculpou-se com Mikhael e prometeu aos dois que tentaria organizar as coisas de novo para que eles pudessem ajudar mais na cama, deixando mais uma vez a promessa de que ficaria mais com os garotos em seu tempo livre.
Após colocá-los na cama e desejar uma boa noite, saiu do quarto para se juntar a velha amiga de infância, encontrando-a com o vinho e a torta que Samuel havia escolhido para todos. Tentou sorrir, mas apenas conseguiu suspirar, sentindo-se exausto por toda a discussão.
- Obrigado pela ajuda. - disse a Lilú, buscando o próprio copo para beber um gole do vinho antes de se acomodar no sofá ao lado da loira, pensativo. - Melhor deixar um pedaço para Samuel comer amanhã. Ele vai ficar chateado se não provar do que ele e você escolheram. - avisou, levando uma das mãos até a própria cabeça ao se reclinar para trás, massageando a própria têmpora em silêncio, fechando os olhos enquanto tentava processar aquele encontro. Queria que a amiga de longa data tivesse um momento agradável em sua casa, com seus filhos, mas não esperava que fosse ter problemas com seu drama familiar justamente naquela noite.
Lilú
Não demorou tanto para que George voltasse depois da conversa com os próprios filhos, ele parecia cansado e nem tinham começado a conversar de fato. Assim que o amigo de longa data de sentou no sofá ao seu lado, a loira prontamente se livrou das sandálias altas que usava, e jogou as pernas sobre as dele sem nenhum remorso de seu jeito folgado de se portar na casa do outro:
-- Eu com certeza não sou fã de doces a ponto de comer uma torta inteira, então se não sobrar para Samuel a culpa não vai na minha conta! -- a loira ergueu o copo de vidro pela metade, lançando um sorriso maroto para o amigo de longa data: -- mas agora as crianças já foram dormir, pode deixar o lado “pai do ano” um pouco de lado e falar sobre qualquer coisa que lhe interesse.
A loira bebericou do vinho, indicando com o pé que o mais velho cortasse a torta já que estava mais perto dele, do que de Lilú de fato: -- espero que seus gostos tenham melhorado, não seria nada legal se você me dissesse que ainda curte saias colegiais.
Lilú riu sem remorso, embora tenha moderado o tom da risada sabendo que não deveria incomodar o sono das crianças. Mas sabia também que era um assunto sensível para o amigo, na época era bem justificável porque ele tinha interesse nas fitas “saias colegiais”.
-- Mas vamos lá, brincadeiras a parte, me diga o que você vem aprontando de bom, afora a parte de você ter dois filhos pequenos.
Lilú repousou o copo de vidro no chão próximo ao sofá, apoiando o corpo de forma confortável, dando maior atenção para George para que ele não sentisse que tudo que a loira faz é apenas gozação com a cara dele. Fazia aquelas coisas porque era um bom jeito de quebrar o gelo e diluir a tensão, porque de fato, George parecia tenso todo o tempo.
George
Observou ela tirar as sandálias e colocar as pernas sobre as suas, surpreendendo-o por um breve instante. Não porque aquele tipo de ousadia lhe fosse estranha vindo dela, mas não esperava que depois de tanto tempo ela se sentiria inclinada a voltar a fazê-lo. Baixou o olhar por um instante enquanto ela dizia para deixar de ser o “pai do ano”. Prestou atenção nas unhas da mulher e ao tamanho das pernas dela. Lilú não parecia ter mudado tanto, as pernas sempre foram compridas como as das garotas que via sendo famosas na televisão. E foi com essa ideia que foi bombardeado pela ideia daquela recordação sobre saias escolares. Voltou a atenção para a loira, descrente que ela havia trazido aquele assunto a tona. Riu da pergunta, a risada escalando em uma breve gargalhada ao levar a mão livre até a própria cabeça de novo, cobrindo os olhos com a mão em negação.
- De todas as coisas que eu disse, é disso pelo que eu sou lembrado? - riu de novo, pousando a mão livre sobre os pés dela, pressionando-os de leve em reflexo. A graça acabou assim que ela pareceu querer lhe falar sério, perguntando-o sobre o que fazia, além de cuidar dos filhos. E a questão chegou a lhe chocar por um minuto, justamente por não fazer ideia de como respondê-la. Não possuía hobbies além de arrumar mais trabalho para si mesmo.
Fez uma pequena pausa para poder cortar uma fatia de torta para servir para a loira, utilizando do tempo que fazia aquilo para poder pensar na resposta. Serviu a torta para a mulher, evitando encará-la enquanto pensava.
- Para falar a verdade, eu não me lembro de fazer nada além de… cuidar dos meninos. - respondeu, voltando o olhar por um instante para encarar Lilú, pensativo. - Eu não faço muito. Só trabalho, cuido dos meninos e volto para casa. - bebeu o restante do vinho em seu copo, demorando alguns instantes para retomar sua fala. - Muito aconteceu… desde… que não nos encontramos mais… - sorriu discreto. - Mas você já parece ter uma ideia do que aconteceu, certo? - perguntou apenas para se certificar, nostálgico e cabisbaixo com a ideia de recordar do que de fato havia acontecido em sua vida.
Lilú
A loira observou o amigo de longa data rir diante de seu comentário engraçadinho sobre minisaias, quem observava assim até conseguia julgar que o outro ainda tinha senso de humor, ou talvez, fosse talento de Lilú trazer humor até as pessoas mais sérias. Pegou a fatia de torta, sem se importar se iria sujar os dedos e pegou um pedaço com a própria mão, levando a boca e lambendo os dedos em seguida, entretida com o doce enquanto George lhe narrava agora em um muxoxo que não fazia nada além de cuidar dos filhos. Imaginava sim que era trabalhoso cuidar de crianças, e trabalhar em prol delas, mas também as pessoas se acostumam a qualquer situação, principalmente depois de perderem alguém importante em suas vidas.
A loira terminou de comer sua fatia de torta, observando a garrafa de vinho já pela metade, dividiu o restante da bebida entre os dois, enchendo o próprio copo e o de George: -- eu devia ter trazido mais de uma garrafa, temos muito que conversar e pouco álcool pra ajudar a engolir tudo. -- falou da forma leviana de sempre: -- e sim, se você era casado e sua esposa não está aqui, alguma coisa aconteceu, e bem nós moramos em uma cidade pequena o suficiente para que eu saiba superficialmente o que aconteceu. -- bebericou do vinho sem se prolongar no assunto sobre a esposa falecida, porque aquele não era o foco da conversa:
-- Bem, você fala como se cuidar de duas crianças pequenas fosse trivial, mas não é, ao menos você não se debandou pra alguma coisa violenta ou nociva, ocupou o espaço vazio da vida com trabalho, e mais trabalho, serve de paliativo pra tristeza mas não resolve ela. -- bebeu mais pouco, deixando o copo pela metade: -- Mas bem, já se passou um tempo desde o ocorrido, você tem uma casa boa, aparentemente você é um bom cidadão francês que paga suas contas todo mês, acho que deveria se dar um pouco mais de crédito e tirar umas folgas, aproveitar os filhos, ou fazer algo pra você, já pensou em ter um hobby? tem gente que cria peixes ou hortas em casa.
Comentou em tom leve, sem se dar muito crédito, e sem dar palpites demais sobre a vida do outro, afinal, como tinha bem ressaltado, ele parecia esta bem e estável, não tinha nada aparente que lhe faltasse fisicamente. Talvez o amigo precisasse apenas de algo que aliviasse aquela cara de cansaço e tristeza, que apenas dois ou três copos de vinho serviam de leve paliativo, ou uma conversa entre velhos amigos, um alento breve. Fazer algo para si mesmo não devia ser tão difícil e nem criminoso, embora a maioria das pessoas que conhecesse achasse algo para se afogar e se ocupar, para não ter de pensar demais nos próprios problemas.
George
Sorriu discreto, gostando da forma genérica como Lilú colocava a situação da morte de sua esposa. Talvez não fosse bom de fato falar sobre a mulher com Lilú, justamente por se lembrar de como a esposa falava sobre sua amiga de infância quando ainda estava viva. Ouviu as sugestões da amiga de infância, servindo-se de uma fatia da torta também para saborear a sobremesa adocicada que tinha o sabor de parte de sua infância, quando conseguia juntar dinheiro para comemorar algo especial com Lilú. Talvez aquele encontro fosse digno de comemoração, pois não sabia dizer o quanto a amiga de longa data lhe fazia falta até ela de fato se fazer presente mais uma vez em sua vida.
Não via como discordar do pensamento da loira. No fundo, sabia que tudo aquilo era verdade. Desde a morte de sua esposa, havia buscado sentido em sua vida como pai e apenas como tal. Dedicava-se a cuidar dos meninos, por eles e para eles, e lhe frustrava quando via que não conseguia cumprir seu papel quando era apenas aquilo que havia lhe sobrado. Ficava angustiado pela ideia de não estar ajudando ninguém e por ter crescido durante tanto tempo para servir aos outros. Assombrava-lhe a ideia de tentar fazer algo apenas para si. Contudo, sabia que a mulher tinha razão e que deveria tentar buscar formas se de entreter e de fato tratar aquela angústia e tristeza que muitas vezes ficavam explícitas em suas feições.
- Tanto tempo sem te encontrar… e quando finalmente nos encontramos, você precisa lidar com meus problemas… - comentou, terminando sua fatia de torta para tomar mais um breve gole do vinho que lhe foi servido sabe-se lá quando. - E você, Lilú? - tocou-lhe os pés de novo, dando-lhe breves tapinhas na canela. - Você está feliz? - perguntou, olhando diretamente para a loira, de fato interessado em saber sobre a atual situação da mulher. Sabia que Lilú não era de falar sobre suas lamúrias, sempre sorridente e animada. Lembrava ainda que esse era um dos aspectos que lhe incomodava em Lilú quando era uma garota. Sentia como se não fosse um amigo digno o bastante da confiança dela para dividir as dificuldades da loira. Talvez fosse algo recíproco também, justamente por ele não se sentir confortável em admitir quando precisava de alguma ajuda ou quando não se sentia confortável com alguma situação.
Lilú
O amigo de longa data parecia relaxar a medida que a conversa prosseguia, estava satisfeita de conseguir trazer ao menos vinte centavos de relaxamento a George. Se quando jovem aquele jeito excessivamente preocupado já fazia o amigo parecer um velho, agora que ele era velho, o fazia parecer um ancião, diante do jeito cabisbaixo e desanimado. Mas tão logo ele estava confortável o suficiente sobre si mesmo, e suas próprias limitações, era hora de reverter as perguntas em sua direção. Sentiu os dois tapinhas leves sobre suas canelas e sorriu em resposta à pergunta sobre ser ou não feliz:
-- Se eu não estivesse feliz, nem estaria aqui, conversando com você, estaria tentando resolver minhas infelicidades. -- riu de forma leviana como de costume, tomando o restante do vinho, para não prolongar demais o término do álcool, o que fossem conversar seria regado no máximo a água e torta, era bom, porque ao menos evitava a ressaca no outro dia: -- Como você deve saber eu trabalhei muito anos como prostituta, se não sabe, já deve ter ouvido fofocas, uns anos depois eu fui apadrinhada, que é o nome que se dá quando se trabalha para cafetina que toma conta de você e da maior parte das suas contas. Nunca tive nada a reclamar da minha madrinha. -- Admitiu sem ter qualquer remorso em sua fala, e mantendo um sorriso singelo no rosto de traços ainda jovens: -- Cuidei dela também quando ela adoeceu, e gerenciei as coisas depois que ela faleceu, já fazem três anos.
Lilú comentou com um ar de nostalgia, mas sem de fato derrubar o sorriso que carregava, sempre ali. Repousou o copo de vidro no chão ao lado do sofá novamente, já que não tinha mais qualquer líquido para beber, e então voltou a encarar o amigo: -- atualmente como lhe disse, cuido de uma casa noturna, o que quer dizer que agora eu sou madrinha de outras pessoas, cafetino elas, administro a grana, cuido das contas, preparo shows entre outras coisas, é quase como ter 20 filhos, todos adolescentes ou adultos, cheios de problemas emocionais, e com histórico de abandono, mas eu faço meu melhor, e como também lhe disse antes, pago todas as minhas contas e meus impostos todos os meses como uma boa cidadã francesa. -- riu sem se levar a sério, mas sabendo que o amigo era sério demais para ver humor em suas palavras, mas não via nada de triste em sua realidade, algumas pessoas sabia, não tinham estômago para aquele mundo.
Mas haviam pessoas como a própria Lilú, que davam conta desse tipo de lugar e do tipo de gente, no fim não se sentia anormal. Sentia-se apenas como uma pessoa de realidade diferente, certamente se escrevesse uma biografia não seria um bestseller no máximo, um pornô chanchada de comédia de banca de revista.
George
Apesar da resposta vir acompanhada da risada da amiga de infância, a narração da loira não lhe parecia tentar esconder algum sentimento de arrependimento. Comeu um pouco da torta enquanto ouvia a história dela, tomando um pouco mais de cuidado com os farelos que ficavam em seu bigode. Não sabia sobre a vida dela como prostituta e certamente se sentia mal por não saber. Não porque sentia algum poder sobre a amiga que pudesse impedi-la se seguir aquela tipo de profissão, mas justamente por não ter conhecimento nenhum naquele período na vida dela. Pressionou uma das canelas da loira, logo passando a mão pela área, procurando se havia deixado cair algum farelo da torta ali.
Sorriu apenas em reflexo para o riso contagiante de Lilú, tomando o que sobrava de vinho em seu copo. Diferente dela que parecia tão realizada e feliz com a própria vida, não sabia se podia dizer o mesmo sobre si. Tinha receio de perguntar sobre o histórico da loira, a julgar que a tal madrinha que havia cuidado dela deveria ter ensinado a ela justamente como lidar com pessoas abandonadas como ela própria. Tinha vergonha, na verdade, de admitir que uma das pessoas ali que havia abandonado a loira havia sido ele.
- Lilú. - chamou pela então mulher, voltando sua atenção para a loira, enxergando apenas aquela jovem garota sorridente que fugia do trabalho para andar em sua bicicleta e lhe fazer esquecer das responsabilidades ainda tão novo. - E-Eu… - encarou-a por alguns instantes, quieto, antes de desviar o olhar, o rubor lhe tomando a face. Não sabia mais ser era só pelo vinho ou pela vergonha de estar falando aquilo diretamente para a amiga de longa data. - … eu sinto muito… por não… procurar… por te abandonar também. - admitiu, erguendo o olhar para o teto da sala, segurando a respiração por um instante e o nó preso em sua garganta. - Eu sei que não sou… o amigo que você merece, mas… - voltou a encarar a então mulher, envergonhado por estar admitindo aquilo com remorso e o marejar nos olhos. Talvez fosse esse o efeito de reencontrar a amiga de infância e ter de reviver aqueles sentimentos mais sinceros que ela conseguia fazer com que expressasse. - Me desculpa. Eu só… estou feliz que ao menos ainda está falando comigo.
Não podia esconder que havia medo de que a mulher que tão bem conhecia quando era só um adolescente reconhecesse que a tinha abandonado e escolhesse lhe ignorar agora que eram adultos. Não a culparia se esse fosse o caso, pois não se julgava no direito de pedir o reconhecimento dela em qualquer aspecto. Contudo, ela estava ali, havia conhecido seus filhos, ido jantar em sua casa, não para apontar suas falhas, mas para agir como se nada tivesse mudado e como se continuassem os bons amigos de sempre. Queria dizer que conseguia ignorar tudo, mas não podia. Sabia o que havia feito. E como ela mesma havia apontado: 16 anos era muito tempo.
Lilú
A loira tentava ao máximo não pensar demais sobre as coisas que aconteceram e as coisas que aconteciam ao seu redor. Refletia até onde dava pra resolver, e o que era sua função organizar, e o que não era e estava além do seu controle. Parecia uma pessoa incrivelmente desapegada, mas o desapego era só com as complicações e voltas excessivas para lidar com os assuntos. Se algo doia, ela certamente ia tentar resolver, se não fosse ela a resolver, paciência, ia ficar doendo até que alguém viesse dar conta. Lilú tinha aprendido que as mãos dela só davam conta do que ela podia alcançar, todo o resto ela entregava a própria sorte, e cada um que lide com sua consciência, ela deitava todos os dias, com a mente limpa, porque trabalhava duro todo dia, pra proteger e cuidar de quem estava no alcance das suas mãos, e mesmo quando isso não era o suficiente, se ela tinha dado tudo que dava, não tinha mais nada que pudesse fazer. Era pra ser ou não era pra ser, o mundo é simples a gente que complica.
Lilú riu descontraída, de quem não estava se levando a sério, e nem estava sendo embalada por aquele clima de tristeza: -- Olhe George, eu não sou do tipo que fica feliz quando as pessoas choram por mim, mas eu entendo que precise por isso pra fora de algum jeito, então que bom que eu posso lhe ajudar. Mas não tem porque você me pedir desculpas, eu não esperava que você viesse me salvar ou resolver meus problemas, nunca esperei que ninguém fizesse isso por mim, e sei também, que ninguém tem obrigação nenhuma de fazer.
A loira esticou o pé e passou a ponta dos dedos do pescoço até a parte inferior do queixo com barba do amigo. E em seguida encostou toda a sola do pé, e empurrou de leve, como se fosse chuta-lo: -- Mas eu tenho minha cota de choro, então se continuar eu vou lhe chutar pra você ficar dolorido, e aí ter um motivo pra choramingar.
A loira afastou o pé do rosto do outro, voltando a se sentar confortável no sofá e até certo ponto preguiçosa depois do jantar farto, da curta dose de vinho, e da generosa porção de açúcar: -- Você tinha coisas mais importantes pra lidar, como a sua família, mulher e filhos, se você tivesse deixado eles de lado pra tentar me ajudar, eu ficaria uma fera com você. -- Lilú estalou os dedos e apontou na direção de George, com uma expressão que quase podia ser entendida como séria, mas ainda sustentava aquele sorriso leviano, de quem estava levando tudo na brincadeira: -- mas agora que a gente se viu de novo, não espere tantos anos pra vir falar comigo de novo, que eu não mordo, eu chuto, mas só se você voltar a chorar de novo.
George
Segurou o polegar e o indicador contra as pálpebras, secando as lágrimas em seguida com as costas das mãos enquanto ouvia todo o discurso da loira ao seu lado. Bem sabia que ela nunca esperava ser resgatada ou que sempre vivia com aquele espírito mais independente do que ele estava acostumado a ver na maioria das mulheres ao seu redor. Ainda assim, não conseguia afastar o sentimento de arrependimento e de frustração por ter apagado durante muito tempo a presença da garota que por anos havia sido sua melhor amiga.
Não se importou com o pé dela em sua face. Na verdade, a sensação de proximidade que ainda havia entre os dois lhe trazia conforto e esperança de que as coisas ainda eram diferentes, porém isso não significava que ela lhe odiava pelas escolhas que havia feito. Dessa vez, ao ser ameaçado, foi sua vez de rir ainda com os olhos marejados.
- Mas você sempre judiava de mim, Lilú. Não é como se nunca tivesse chorado na sua frente. - admitiu, certo de que por muitas vezes apenas ela havia sido sua companhia em momentos tristes de sua vida em que havia chorado por frustração ou por algum tipo de dor. Não era de chorar em público, mas na presença da amiga, se sentia menos pressionado a ser sempre forte e responsável como havia se prestado a ser toda sua vida.
Observou a loira ao seu lado com aquela expressão familiar entre seriedade e brincadeira e se acomodou melhor no sofá, procurando um pouco mais do resto do vinho para beber mais um último gole. Ainda que já tivesse chorado na presença da mulher, obedeceu a ela e secou as lágrimas mais uma vez, voltando a atenção para a figura sentada ao seu lado.
- Eu sei… que você não me faria abrir mão da minha família por você, Lilú. - concordou, estendendo a mão para alcançar a mulher ao seu lado até conseguir encontrar a dela também, evitando encará-la pela vontade ainda presente de chorar. - Mas sabe… quando éramos crianças, você era… a família que eu tinha… - fez uma breve pausa, fechando os olhos e apoiando a cabeça para trás no apoio do sofá. - Eu não imaginei que passaríamos tanto tempo distantes. Talvez, se eu não tivesse aberto mão de você também, as coisas tivessem sido diferentes.
Soltou a mão da mulher, sentindo que aquele assunto mais melancólico nunca era o forte dela e que não estava sendo de novo o melhor dos amigos trazendo suas mágoas do passado a tona. Principalmente quando ela era quem deveria estar magoada por ter sido ignorada durante todos os anos que se passaram.
- Obrigado por ainda estar aqui. Eu jurava que havia ido embora daqui e conseguido uma carreira fora, em Paris quem sabe. Você sempre foi bonita e essa cidade sempre foi muito pequena para a sua disposição. - riu baixo, tentando se livrar da própria tristeza.
Lilú
A loira sabia que apesar da cara fechada e do rosto de paisagem George sempre foi o garoto sensível, sentimentos demais, expressão de menos. Mas era curioso como mesmo depois de tantos anos ele continuava tendo aquele aspecto gentil e carinhoso que era sua característica principal, talvez por isso as pessoas tivessem judiado tanto dele ao longo da vida. Lilú ouviu todo o discurso do amigo sobre ser família e era um sentimento bem familiar para si, não era uma mulher sem coração, se deixava sentir amores por outras pessoas, e tinha certeza que o amigo sempre fora e sempre seria uma pessoa querida. A menos que lhe decepcionar de alguma forma, mas o único real fraco de George, era que ele pensava demais nos outros e de menos nele mesmo, e assim acaba negligenciando os próprios amigos no meio do processo:
-- Olhe as coisas seriam exatamente como são, a diferença é que você provavelmente teria chorado mais vezes no meio do percurso por estar mais perto de mim. Eu tenho esse efeito nas pessoas, trago emoções fortes. -- a loira riu, sem se levar a sério demais, até porque bastava que um deles fosse melodramático: -- E eu também lhe considero como uma pessoa próxima e importante, não demore anos pra falar comigo de novo e vamos ficar bem.
A loira colocou um falso tom de ameaça, rindo imediatamente depois de falar, se jogando no sofá já com muita preguiça de ir para casa dormir, mas sabendo que teria de ir em algum momento: -- Sabe George, é muito bom conversar com você, mas eu tenho de dizer que para o tanto de coisa que tem ainda pra ser posto em dia, vamos precisar de muito mais bebida, muito mais! -- o sorriso foi mais leve e espontâneo que os demais, e era fácil de notar quando Lilú estava tão relaxada e preguiçosa como naquele momento: -- E você precisa arrumar algo pra fazer, algo pra você! Sério! você precisa relaxar de alguma forma que não seja trabalhando pros outros!
Se fosse em outro dia e na companhia de outra pessoa, ofereceria uma noite de sexo desvairado, mas isso não combinava nem com o tipo de coisa que faria George relaxar, e seria algo estranho até para a loira imaginar.
George
Concordou com as condições dela sobre não demorar a falar com a loira novamente. Voltou a observar a mulher ao seu lado quando ela fez menção de mais bebida. Não costumava ter bebida com álcool em casa. A última vez que havia bebida foi com o novo amigo japonês e quando saíra com ele e os seus colegas de trabalho do corpo de bombeiros.
Ouviu a conversa alheia sobre ele relaxar fazendo algo para si e voltou a se apoiar com a cabeça no encosto do sofá, olhando para o teto. Não fazia ideia do que de fato gostava de fazer. Sempre vivera daquelas trabalhos para os outros, fosse limpando piscinas e jardins no verão, fosse como bombeiro, fazendo alguns bicos de eletricista ou encanador aqui e ali, cuidando de seus filhos que ainda eram pequenos.
- Fala tipo um passatempo? Mas eu saio de casa além do trabalho para passear com os meninos. Levo eles na praia, no parque. - comentou, julgando que o seu tempo livre deveria ser colocado para as crianças e que cuidar dos garotos era sua prioridade. No fundo, fazia tudo pelo bem das crianças, receoso que a falta que a mãe deles fazia pudesse deixá-los em uma situação desagradável. Sabia muito bem como era não ter os pais ainda muito jovem na vida e não queria ver seus meninos passando por aquele tipo de privação.
Tentou se recordar do que costumava fazer quando ainda era adolescente, mas havia começado a trabalhar ainda muito jovem. Recordava de sair para passear e explorar a cidade quando era ainda mais jovem. Suas saídas eram mais constantes quando começou a sair com a loira, a amiga de infância. Lembrou então que o amigo japonês havia falado sobre uma tal floricultura em que trabalhou na cidade e de como lhe trazia alguma calma poder sair com sua bicicleta e visitar algumas áreas mais distantes e floridas da cidade. Os jardins das áreas nobres eram bem bonitos, mas duvidava que poderia ter dinheiro para ter um espaço daqueles algum dia.
- Tem um amigo meu que trabalhou em uma floricultura. Você ia gostar de conhecer ele. Ele tem uma filhinha pequena bem animada, a Kanon. Ele é zelador lá em St. Clavier. Ele é bem grosso comigo às vezes, mas ele é um cara bacana. - comentou, desconexo da conversa anterior, distraído com suas próprias lembranças.
Lilú
A loira estava esparramada no sofá, preguiçosa, balançando de leve uma das pernas, como faria se estivesse em casa. Lilú tinha aquela mania de quando as pessoas lhe davam espaço, agia como se estivesse tranquila em casa. E enquanto o amigo de longa data tentava se convencer de que tinha hobbies, Lilú tinha plena certeza que o homem não sabia o que era uma folga a muito tempo:
-- Não George, saí para o parque com os seus filhos não configura relaxar. Você com um filho pequeno como Mikhail, tem de ficar alerta o tempo todo para que ele não corra e não se perca da sua vista. Tem de tomar cuidado com o que levar pra comer, pra não gastar na rua. Além de se atentar ao horário de voltar para que eles não fiquem exaustos demais para não irem na aula no outro dia. Isso obviamente é um tempo investido com seus filhos, que é ótimo, porque eles vão ter boas lembranças de você, e saber como é ter um pai super legal. Mas isso não te relaxa. -- Lilú criou 20 centavos de coragem e se sentou no sofá, com as duas pernas cruzadas como se estivesse em um posição de borboleta, e apontou na cara do amigo: -- Quer que eu lhe explique de forma simples a diferença? Pense assim, pra ser divertimento e ser relaxante, você primeiro, não pode pensar que tá desperdiçando dinheiro, e sim investindo na sua saúde mental, porque todo mundo precisa relaxar. Segundo, tem de ser algo que não envolva o George como pai, e sim o George como pessoa. E terceiro tem de ser algo que ao final lhe der uma sensação de prazer e satisfação pessoal.
A loira pontuou os critérios que achava mais importante sobre sua visão do que era relaxar de fato, ouvindo do amigo de longa data sobre um amigo que era dono de uma floricultura, até já sabia quem era, não porque o sujeito lhe chamasse a atenção, mas porque conhecia a dona anterior: -- Se você acha ele bacana não deve ser porque ele é grosso com você, porque sempre te considerei Hétero, mas também se estiver se descobrindo agora, não tem problema, tem meu total apoio. -- Lilú riu sem se levar a sério, sabendo que esse tipo de comentário no mínimo deixaria o amigo desconcertado: -- E bem, é bom ter amigos, sair pra beber, passear ou só jogar uma bola na praia no final de semana, mas é bom também passar algum tempo sozinho, ser capaz de ser feliz apenas com você mesmo, sem se sentir culpado, e isso devia ser prioridade pra todo mundo.
George
Se sentia conversando com algum tipo de psicóloga ao invés de conversar com uma amiga de longa data. Recordou de quando seus colegas de trabalho no corpo de bombeiros lhe fizeram ir a uma sessão com a nova psicóloga do lugar só para ter uma desculpa de descobrirem se a mulher era solteira e quais seus interesses. Não gostava daquele tipo de conversa, justamente por se sentir excessivamente julgado. Já trabalhava o bastante, tentando dar o seu máximo para tratar de suas responsabilidades para chegar ao ponto de encarar a verdade de que não estava cuidando de si mesmo. Nunca precisou se importar com questões como saúde mental, mas se recordava dos médicos responsáveis pelo hospital geral na época do falecimento de sua esposa lhe recomendaram acompanhamento psicológico diante do inevitável destino da mulher.
Olhou para a loira quando ela falou sobre satisfação pessoal. Não era como se pequenas coisas não lhe traziam satisfação, mas elas sempre acabavam dependendo da aprovação alheia. Arqueou as sobrancelhas com a suposição dela de que poderia ter algum tipo de interesse no amigo japonês além da própria amizade. Franziu o cenho em resposta. Não enxergava Tamotsu daquela forma, na verdade, conseguia associá-lo a Lilú como uma das pessoas por quem tinha respeito e até certo carinho e compreensão, mas não se sentia atraído da forma que a loira parecia querer insinuar. No fundo, não pensava muito sobre tal assunto também, a julgar que não se sentia preparado para tentar dar início a nenhum novo relacionamento com ninguém desde o falecimento de sua esposa.
- Você sempre entendeu mais sobre isso que eu, Lilú. Mas… eu não acho que tenho mais idade para isso, sabe? Eu tenho dois filhos pequenos, um emprego, não é tão simples me colocar em prioridade na maioria das vezes. - admitiu, cruzando os braços, inquieto. - Agora mesmo, por que depois de tanto tempo sem te encontrar, precisamos falar dos meus problemas? Eu imagino que tem tantos problemas quanto eu e ainda está aqui, me ouvindo choramingar minhas frustrações.
Reclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos. O álcool não havia sido o bastante para deixá-lo alto, mas toda aquela conversa sobre sua própria satisfação lhe deixava com dor de cabeça.
- É tão errado assim se sentir feliz pelas realizações dos outros? Eu… eu não sei o que eu posso fazer… por mim mesmo. Você sabe que eu não sou assim. - admitiu, ciente de aquele tipo de comportamento não havia nascido com o falecimento de sua esposa, mas desde quando era adolescente, não fazia muito por si mesmo. Gostava de sair com a loira e conseguir dinheiro extra com alguns bicos aqui e ali, mas dificilmente fazia isso por algum motivo único e pessoal, ao menos não conseguia enxergar seus próprios interesses mais egoístas no que escolhia fazer.
Lilú
Observava George falar sobre si mesmo, e teve de revirar os olhos e suspirar quando ele se chamou de “velho demais” pra poder namorar ou pra sair com alguém. Era triste que uma pessoa tão boa quanto o próprio amigo se tivesse em tão baixa estima, quando pessoas muito menos honestas, tiravam tanto tempo pra si mesmos e se divertiam. Era injusto que o amigo pensasse tão mal de si mesmo:
-- Olhe bem George, eu não falo tanto dos meus problemas, porque eu sei o que fazer com eles, o que me falta as vezes é paciência e disposição pra entrar em ação de fato. E por vezes o que eu preciso mesmo, é só um bolo doce, bebida barata e conversar sobre qualquer outra coisa senão a minha vida. Então, se eu não estou falando das coisas que me afligem, é principalmente porque eu não preciso que você me ajude a resolver, o que eu preciso é exatamente isso que temos aqui, “descontração”. -- A loira sorriu, de forma simples e despreocupada, como se tivesse de lembrar o amigo de coisas que são primordialmente simples de se lidar: -- veja bem, pra ser um bom amigo, você não precisa entrar na minha vida, e buscar resolver diretamente meus problemas, o ponto que eu sempre te coloquei, é exatamente do tipo de amigo que desfruta comigo, os momentos de relaxamento. Eu lhe dou a oportunidade de descansar junto comigo, quando eu me permito descansar, por isso parece que eu não estou dividindo nada. Quando na verdade, eu divido justamente as partes mais sensíveis e pessoais, meu descanso.
Comentou com a propriedade de quem já estava acostumada a lidar justamente com aquele aspecto da própria vida. Sabia que se não se permitisse descansar e tirar tempo para aliviar a própria cabeça, não daria conta do mundo quebrado e distorcido que eram suas noites, as pessoas de quem cuidava e tudo que estava sempre em suas mãos. Protegia seus amigos de sua vida mais intensa, da mesma forma, que dividia com eles justamente seu lado mais humano e sensível:
-- E eu vou lhe falar algo, nós temos basicamente a mesma idade, eu tenho uma profissão que todos pensam que não há espaço pra ter relacionamentos, e eu já tive vários namorados e namoradas, nunca pensei em casar propriamente dito, e sempre tomei cuidado pra não ter filhos, mas isso nunca me impediu de me relacionar com outras pessoas. Não jogue em cima de você a idade como um limitador, ou mesmo seus filhos, ou sua rotina de trabalho. Nada disso impede ninguém de conhecer pessoas, de se deixar amar e de se deixar viver. -- falou muito seriamente, observando o amigo, e lhe deixando com um sorriso tranquilo no rosto, como quem dava uma informação valiosa demais para que o outro deixasse passar: -- experimente tirar esse bigode, e sorrir mais, e eu te dou certeza que vai notar as pessoas ao redor te observando, muito mais do que você acha que é.
Deu dois tapinhas no ombro de George, porque aquilo eram as palavras mais certeiras que tinham para oferecer ao amigo de longa data.
George
Nunca havia visto a amizade que tinha com Lilú daquela forma. O fato dela preferir se descontrair em sua presença ao invés de falar dos próprios problemas lhe incomodava, era verdade, justamente por ainda ter aquele sentimento de preocupação sobre a loira, considerando o que ela passava desde a época em que estudavam juntos. Mas se sua presença e a conversa eram o bastante para que ela ficado mais descontraída e se sentisse melhor, não faria objeção alguma.
Contudo, ergueu a mão até a próprio rosto de novo quando ela continuou a falar sobre gostar daquele tipo de cenário em que saía para descontrair com seus amigos. Segurou o riso, balançando a cabeça em negação. Ela gostava de lhe fazer chorar, então? Lilú estava com a língua bem afiada para conseguir lhe atingir daquela forma, nos pontos certos. Ou talvez só estivesse tão cheio de seus próprios problemas que na breve brecha de poder falar sobre eles com alguém que conhecia sua história, se sentia frágil, como se ela já soubesse de tudo o que estava prestes a falar.
Voltou a encarar a loira quando ela falou sobre sua idade de novo, relembrando-o que ainda podia se permitir ser amado por alguém ou sentir algo por outras pessoas, que sua idade, nem seus filhos eram desculpa para aquilo. A verdade é que não tinha experiência alguma naquele aspecto, pois a única garota por quem havia se interessado em sua vida, havia se tornado sua esposa, lhe deixado dois filhos e viúvo. Lilú era diferente, pois ela sempre atraía a atenção para si, magnética, não era como se ela pudesse passar despercebida das pessoas. Embora reconhecesse que aquela característica tinha seus pontos negativos. Então apenas concordou com um aceno positivo da cabeça, ajustando-se no sofá para se reclinar, apoiando os cotovelos nos joelhos, as mãos unidas.
- Eu vou tentar. - não fez promessas, pois a loira deveria saber que quando dizia que faria, era difícil que não estivesse falando sério. Não tinha certeza alguma se aquilo daria certo ou se melhoraria a forma como encarava a si mesmo, mas não lhe custava tentar, considerando as palavras de apoio da velha amiga de infância.
Ficou em silêncio durante alguns instantes até coçar o próprio bigode, levantando-se e pedindo licença para ir na cozinha pegar um copo com água para si mesmo e para Lilú, considerando que o álcool já havia acabado. Comentou sobre mais alguns aspectos relacionados ao tempo em que estivera distante da mulher, como sobre quando conseguiu o emprego no corpo de bombeiros; ou sobre os casos mais surpreendentes que já tivera de atender por conta do trabalho; sobre como voltou a conversar com outras pessoas após a morte de sua esposa; sobre como a família dela não havia se manifestado para nada e como esperava que continuasse daquela forma, a julgar que os meninos não precisavam conhecer aquela gente nem tão cedo; sobre os bicos que conseguia para ganhar algum dinheiro extra. Chegou até a oferecer seus serviços, a julgar que a loira deveria administrar algum tipo de lugar para o atendimento dos clientes dela. Não havia problema em adentrar lugares suspeitos, seu foco sempre fora no trabalho de qualquer forma, e para a amiga, faria sem problema algum.
- Você quer passar a noite aqui? - convidou a loira, considerando que ela ainda lhe fazia companhia. - Pode ficar com a minha cama, se quiser. Posso dormir no sofá. - ofereceu, deixando separada parte da torta que havia sido comprada para que Samuel e Mikhael pudessem experimentar um pouco do doce ao despertarem.
Lilú
A loira sabia que todas as palavras que saiam de sua boca tinham um efeito forte sobre o amigo, para o bem ou para o mal. Mas isso também queria dizer que a loira ainda era uma pessoa importante na vida de George mesmo tendo se passado tanto tempo desde que tinham sentado pra conversar. Imaginava que ele tinha sentido sua falta, da mesma forma que em algum lugar tinha sentido falta da companhia dele, mas toda pessoa tende a se acostumar com as situações que lhes são impostas por vida, ela tinha se acostumado a própria vida, e ele a dele. Não o julgava em nada, mas queria que ele ao menos tentasse ser mais feliz, agora não tinha uma esposa para lhe arrasta-lo a seguir outros caminhos, que não o que ele mesmo escolhesse:
-- Sei que vai. Confio na sua palavra. -- comentou de forma despretensiosa e tranquila, a despeito de ter dado uma sequência de broncas em George mais cedo. Mas era seu jeito de ser e de se preocupar com as pessoas próximas, embora muitas vezes parecesse só reclamação. E ouviu toda a conversa sobre a vida do mesmo, acrescentando comentários aqui e ali das pessoas que conheciam em comum. Cerise era uma cidade pequena e não era impossível que muitos dos bicos que fizesse fosse justamente para pessoas que a loira também conhecia. Riu principalmente de como o mais velho se focava tanto nos bicos que perdia completamente a noção do tempo. Aproveitou para falar de suas desventuras amorosas, e namorados e namoradas, como era a vida de namorar uma prostituta? extremamente casual, no fim das contas, a diferença era só o horário de trabalho muito mais voltado pra noite, enquanto o dia só começava depois das 14hs.
Já era bem tarde na madrugada quando George lhe ofereceu água, o alcool já tinha perdido seu efeito a muito tempo, mas ao menos se sentia bem relaxada depois de por as conversas em dia.Mas teve de acenar negativamente quando o mais velho lhe ofereceu dormir lá, era invasão demais, e ele tinha uma rotina completamente diferente da dela, não podia perder a sua própria e nem atrapalhar a do outro:
-- não, nessas horas é que eu peço um taxi e vou pra minha própria casa. -- deu dois tapinhas no ombro do amigo como se indicasse pra ele não se chatear diante de sua recusa: -- Samuel foi dormir um pouco chateado, pode acordar bem mal humorado, você tem sua rotina e eu a minha, não queremos nos atropelar não é mesmo? -- brincou, puxando da carteira um dos cartões do próprio bar e casa noturna: “Le Corde lier” um cartão com laminação furta cor que brilhava o nome apenas quando colocado contra luz, o número de telefone do local discreto em linhas finas:
-- Fico esperando uma ligação, seja pra você vir visitar minha casa noturna com seu amigo, ou para sairmos pra qualquer lugar. Ainda sei andar de bicicleta viu? -- brincou, levando ambos os braços em torno do pescoço de George e o abraçando longamente, de forma carinhosa com a qual estava acostumada a tratar seus amigos. Depositou um selinho amistoso e saiu do apartamento do mais velho logo mais quando recebeu mensagem do taxista constumeiro. Jonah não se atrasava mesmo.
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