09-17-2021, 03:52 PM
Renaud
Certamente Renaud se sentia tenso, porque tinha expectativas sobre as respostas que iria obter do Dr. Vlahos a sua frente, e isso lhe deixava com a garganta seca, e uma leve inquietação que perpassava todo o seu corpo, se suas mãos não estivessem machucadas certamente começaria com algum tique com os dedos. Mas o psicólogo estava sendo muito direto em suas respostas e isso fazia com que o Blanco o encarasse de forma mais direta também em resposta, para absorver melhor o que lhe era dito. Muito embora isso servisse na contramão, para que Aleksei pudesse vê-lo igualmente de forma direta, e tirasse com ainda mais precisão os pequenos tiques expressivos do jovem Blanco.
O franzir de sobrancelhas foi discreto mas denotava estranhamento, diante do fato de estar em tratamento desde sempre, o lamber de lábios breve, sem de fato umedecer os mesmos, era um sinal claro de ansiedade, de quem tem expectativas sobre o que está sendo dito. Ao ser explicado que todo o processo de todas as seções anteriores estava justamente em estabelecer confiança, Renaud desviou o olhar para algum ponto qualquer da sala e ergueu as sobrancelhas de leve, antes de voltar a encarar o médico a sua frente. Como se fosse um gesto que significava compreensão, ao rememorar brevemente conversas anteriores entre os dois. Renaud não fazia ideia de que tinha todos aqueles tiques, tão comuns para expressar nos detalhes as coisas que estava sentindo e pensando, mas tudo estava lá, cada vez mais fácil de ler e de observar.
E saber principalmente que o tipo de conversa não se alteraria, que Renaud continuaria escolhendo sobre o que dizer e não dizer, foi algo bom de ouvir, apesar de tudo mais está confuso e desalinhado, ao menos sobre isso, ainda tinha algum controle, e era um alívio ter aquela pequena segurança. E foi fácil de notar, justamente pela respiração profunda do Blanco ao assimilar a informação.
As explicações seguintes sobre os remédios serem como analgésicos lhe pareceu bastante convincente, não tinha estudado fármaco a fundo, para saber como funcionavam remédios do tipo ansiolíticos, só sabia o básico, que eram destinados a tratamentos que envolvia a parte emocional. E que se o outro poderia lhe prescrever esse tipo de medicamento era por ser um psiquiatra de formação e não apenas um simples psicanalista, explicava muita coisa sobre a inteligência do sujeito, e amplo leque de atuação. Acenou positivamente deixando mais claro que tinha entendido a explicação sobre os remédios, e suspirou conformado quando teve as mãos apontadas como uma possível resultante de crises constantes.
Pigarreou de leve, sentindo a garganta seca, e lambeu os próprios lábios novamente, em sinal claro de que ainda estava um pouco tenso e ansioso dentro daquela conversa. Não era tão confortável saber que iria tomar medicamento, mesmo estando ciente de qual a função deles:
-- Bem... é bom saber que as conversas vão ser como sempre foram, isso me deixa mais aliviado... confortável ou o mais próximo que eu consigo estar dentro da minha situação...! E também... não parece tão ruim tomar remédios do jeito que senhor fala... – porque não fazia parecer que seria para sempre, seria apenas, até estar melhor, seja lá quando isso for. Renaud baixou o olhar de volta para as mãos passando a ponta dos dedos sobre as bandagens bem-feitas pelo outro, era um sinal claro de hesitação, de entrar em um novo assunto, mas finalmente, mudou a posição das mãos, e repousou as mesmas sobre os joelhos e respirou fundo, voltando a encarar o psicólogo a sua frente, em uma postura mais aberta, de quem estava encarando de frente e sem proteções:
-- O que vamos fazer a partir de agora então? Vamos falar do fim de semana? Do Didier? Do Sasha? Ou de alguma outra coisa que senhor acredita ser importante falar? – Parecia ter sido necessário juntar um bocado de coragem para chegar naquelas perguntas.
Aleksei
A recusa de Renaud em entender que a situação dele já era de um paciente há muito tempo foi notável em pequenos trejeitos do rapaz. Estava atento a Renaud e diferente de outras vezes que tentava amenizar o próprio olhar intenso, não queria deixar nada passar daquele momento em diante. Provavelmente o incomodaria, podia desviar a atenção algumas vezes, mas estavam num estágio bem crucial para deixar que certos detalhes passassem despercebidos. Ele estava ansioso pela conversa e com os detalhes que estava colocando a mais em cima dele, não era de se surpreender que estivesse reagindo daquele jeito. Estava sendo mais direto do que já fora até então e no estado fragilizado de Renaud, aquilo devia representar uma atitude bem invasiva.
Baixou o olhar para as mãos dele para não ficar encarando-o tão fixamente, deixando que ele se acostumasse gradualmente com suas palavras. Ao menos o fato dele ainda controlar os assuntos talvez o deixasse mais confortável com a situação. A respiração profunda soou a Aleksei quase como uma reação de alívio e depois que ele assimilou ao menos parte do que tinha lhe dito, notou o aceno positivo tanto sobre as sessões quanto sobre a medicação. Ao menos não tinha recebido uma pergunta inesperada sobre o fim de semana e era melhor deixar aquilo para um pouco mais adiante.
- Não vou lhe dizer que tomar ansiolíticos é a melhor coisa do mundo. Mas eles vão ser muito úteis e à medida que controlarmos a sua situação, vamos diminuir dosagens, trocar os remédios, até que não precise mais dele. É um processo longo, tem alguns efeitos colaterais, mas vai ser para melhor. - Aleksei explicou, sabia que iam ter que falar sobre todos os efeitos dos remédios que ele tomaria e como aquilo afetaria bastante a vida pessoal dele.
Mas por enquanto, podiam continuar com a consulta e conversar, e mesmo com a hesitação de Renaud ao desviar o olhar mais uma vez e se focar nas bandagens de seus machucados, ele mesmo que pareceu se abrir mais, estar disposto a continuar conversando. O primeiro questionamento era sobre falarem do fim de semana, mas Aleksei não reagiu de nenhum modo exagerado, mantendo a ideia no fundo de sua cabeça por enquanto.
- Como eu disse, você que decide, Renaud, podemos falar do que você quiser, o que quiser me contar, ou o que se sentir confortável em falar. - Aleksei respondeu, mas ainda assim, tinha urgência em descobrir um pequeno detalhe. Não transpareceu em nada essa urgência na voz ou nas ações, mas já que ele tinha lhe questionado, resolveu dar uma alternativa do assunto que poderiam abordar. - Eu o ouvi falando pouco sobre sua infância até hoje. Sei algo sobre Sasha, e algo sobre Didier. Sei algo sobre Isaac e o Conselho Estudantil e nós dois sabemos alguma coisa sobre o fim de semana. E antes de St. Clavier? Da sua família, até encontrar o Sasha? Tem alguma coisa que gostaria de compartilhar?
A escolha de palavras especificamente definindo de todos os assuntos como "algo" era para mostrar que ele não saberia de tudo de Renaud nem que passassem uma vida de sessões. Especialmente para tentar passar, mesmo que indiretamente ao aluno, o fato de que ele é que saberia tudo sobre si mesmo e tinha que escolher lhe contar.
Renaud
O jovem Blanco tinha compreendido toda a explicação sobre os medicamentos, sabia que viriam mais delas posteriormente, e para todos os efeitos era praticamente um químico formado, então julgava ser capaz de entender explicações sobre reações colaterais e índices de absorção corporal. Sabia que tinha suas particularidades de metabolismo, que podiam gerar várias reações indesejadas, então se sabia que viria, podia lidar com a ansiedade gerada dela, era uma questão mais técnica, então era algo que podia lidar e absorver com mais facilidade. E não houve qualquer alteração exagerada nas expressões de Renaud sobre ser avisado que o processo de medicação seria longo.
Em contrapartida, ao ser posto em condição de escolher sobre o que conversaria, a reação imediata foi um franzir breve de sobrancelhas. Ainda estava se acostumando a ter essa possibilidade de escolher sobre o que falar, e quando falar, não era algo ruim, mas era algo com o qual ainda estava se habituando;
[...]
Havia coisas que eram relevantes que quisesse falar?
Parecia fácil poder escolher, mas não era, era?
O que seria importante falar primeiro?
[...]
Mas antes que entrasse em um ciclo de pensamentos acerca do que poderia falar, o próprio Dr. Vlahos lhe chamou a atenção novamente ao ponto de que sabia “algo” sobre aspectos de sua adolescência. Sobre Sasha, Didier, Isaac, Conselho Estudantil, St. Clavier de forma geral, mas algo além disso, ele não sabia, e certamente o próprio Blanco não se pegava pensando demais em coisas muito antigas. Renaud levou a mão ao rosto, a ponta dos dedos indicadores e médio, deslizando sobre os lábios pouco ressecados, o olhar vagueando pela sala brevemente como se buscasse algo na memória que valesse falar para o médico. Se perguntava se ele entraria no padrão de consultas, mas ele não precisava construir seu perfil baseado em traumas da infância como outros médicos tantas vezes fizeram, não lembrava de ter situações que julgasse como traumas para serem motivos de sua personalidade peculiar. Arqueou de leve as sobrancelhas e fechou os olhos brevemente, passando a mão pelo pescoço, como se houvesse alguma tensão ali que precisasse ser dissipada, o Blanco moveu a cabeça de um lado para o outro e ainda de olhos fechados começou a narrar:
-- A memória mais antiga que tenho é ainda na mansão dos Blanco, Robespierre não era nascido ainda, o Deodatos meu pai, ainda estava terminando o Doutorado fora da França, logo ele aparecia tão pouco, que eu mal me lembro do rosto dele. A casa era enorme, claro, os meus avós moram lá, os meus tios também, na época, mas eram todos tão ocupados em suas rotinas, que eu também mal me lembro dos rostos deles. – Renaud comentou sem aparentar estar muito empolgado, mas era notório que ele se incomodava em algum ponto de ser pequeno demais em uma casa de pessoas todas mais velhas que ele: -- Eu passava a maior parte do tempo no escritório, porque a minha mãe passava a maior parte do tempo lá. – Fez uma pausa breve reabrindo os olhos e encarando o loiro a sua frente com um ar mais distante como se ainda estivesse absorto em rememorar as coisas, a postura do corpo relaxou um pouco, porque naquela época, podia ficar relaxado: -- Na época ela ainda estava tentando ganhar espaço no mercado com a empresa dela de organização de eventos, e ela passava muito tempo no escritório de casa, fazendo ligações, ela e a Catherine a secretária dela. Eu não lembro sobre o que elas conversavam, mas lembro de pegar livros nas prateleiras e fingir que estava lendo, eu ainda não entendia o que estava escrito, só gostava de ficar lá.
O Blanco repousou o queixo sobre a palma da mão e voltou a encarar o espaço da sala do Dr. Vlahos, que olhando de baixo, lhe passava a mesma sensação de ser um menino pequeno que olhava as coisas apenas de baixo: -- Quando eu não sabia ler, ela lia coisas pra mim, daí me esforcei pra aprender a ler, acreditando que iria ser elogiado, mas saiu bem diferente do que tinha imaginado, ela disse depois daquilo, que se eu conseguia ler sozinho, que ela não leria mais, para que eu pudesse praticar mais. – Deu de ombros levemente como se fosse uma memória sem muita importância, mas era a coisa mais antiga de que se lembrava: -- Por um tempo eu achei chato ler sozinho, até que eu comecei a tentar fazer vozes diferentes, sabe...? Como tentar imitar a voz grossa de um amigo da família que tinha ido lá na noite passada, ou a voz estridente da esposa dele para algum animal das histórias que eu lia, então deixou de ser chato, porque não parecia que eu estava lendo sozinho.
Usava as mãos agora em pequenos gestos, como se usasse para ajudar a guiar a narrativa nas coisas que explicava, o Blanco voltou a se sentar com a postura mais correta e até aquele ponto a tensão voltava a surgir no corpo de Renaud, principalmente na forma como ele mudava o ritmo das explicações. Como se tivesse sido repreendido várias e várias vezes, para se sentar de forma apropriada e falar de forma clara: -- Depois de um tempo, nós mudamos para nossa própria casa, e ela ainda parecia muito grande para apenas duas pessoas, e a terceira que viria. Eu lembro especificamente da semana que chegamos na casa nova, porque eu fiquei muito doente, e atrapalhei a agenda da minha mãe, ela passou a semana comigo em casa, mas eu lembro da voz dela reclamando de longe: “porque aquela não era a semana pra que eu ficasse doente”. Mas ela ficou em casa comigo, eu queria ter ficado feliz, mas eu lembro que fiquei chateado, depois disso eu passei a não dizer quando eu ficava doente, sempre que alguma coisa doía, e incomodava eu escondia, faço isso até hoje se pensar bem. – Admitiu, a expressão se retorcendo de leve com a surpresa diante do fato de que esse acontecimento já fazia bastante tempo, mas ainda persistia fazendo as coisas do mesmo jeito.
Aleksei
Aleksei logo percebeu que o remédio era o menor dos problemas entre os dois. Era esperado, já que Renaud estava acostumado com medicações mesmo que fossem para ferimentos físicos. Lidar com os próprios pensamentos e emoções era o que deixava o Blanco confuso e aquilo foi bem óbvio na expressão dele ao ter o poder em mãos para escolher o assunto sobre o qual conversar.
Logo ele puxou algo da sua memória, o mais antigo que conseguia se lembrar, e a narrativa se iniciou na mansão dos Blanco e com o detalhe de que ele pouco lembrava do pai. Sabia que Renaud tinha uma conexão mais complicada com a mãe porque ele mesmo tinha lhe admitido que tentava agradá-la numa de suas sessões e tinha citado a mulher, mesmo que indiretamente, várias vezes durante um encontro não-casual fora do consultório. Sabia que o sobrenome Blanco era do pai e que a família da mãe tinha mais ligações em Paris e com áreas de arte. De qualquer ponto de vista, as exigências certamente eram grandes sobre ele, fosse de uma família ou de outra.
O modo como ele se comportou também lhe mostrou um pouco de como Renaud se via naquela época, iconicamente, na companhia da mãe, mesmo que fosse incomum para uma criança se sentir bem num escritório, por exemplo. Para alguém tão pequeno num lugar tão grande, a companhia de uma figura que devia representar segurança era bem crucial. A narrativa sobre a convivência com a mãe não parou por ali, aos poucos, novos detalhes surgiam sobre como o relacionamento dos dois tinha se desenvolvido, como a dependência se tornou independência, e como a independência se tornou necessidade por companhia de novo. Aleksei bem sabia que Renaud tinha uma capacidade extraordinária de imitar vozes, de se colocar no lugar de outras pessoas, de se passar por elas... mas saber que era algo que tinha surgido porque ele se sentia sozinho, aquilo era uma novidade interessante e consideravelmente importante para o seu diagnóstico.
Observar a narrativa era talvez mais importante do que ouvi-la, e logo o psicanalista percebeu que o modo como ele se portava reagia àquele avanço nos detalhes. O cenário tinha mudado para uma casa apenas familiar, mas ainda assim, era uma família que não estava sempre lá e uma família à qual Renaud, ainda pequeno demais para entender, não queria causar problemas. Aleksei podia dar indicativos de como ele deveria reagir às próprias relações atuais, mas sobre a infância, não havia nada que pudesse fazer senão escutar e assimilar. Nada do que dissesse mudaria o que já estava feito.
- Acho que nós dois sabemos a que ponto chegou esse seu modo defensivo hoje. - Aleksei explicou, sobre o fato dele esconder as coisas que lhe incomodavam. - Não existe certo ou errado para o modo como alguém reage diante das mais diversas situações. Para você, naquela época, era certo reagir escondendo suas dores e tentando não incomodar seus pais ocupados. Isso também faz parte do que você se tornou. E não estou falando apenas dos problemas com os quais está lidando, mas de quem você realmente é e das coisas que conquistou, inclusive os amigos e família que considera agora.
Aleksei também ajustou a postura, agora com as duas mãos sobre os joelhos, mas com um ar mais relaxado, para se opor um pouco ao modo como a tensão tinha aumentado no corpo de Renaud.
- Eu já tive a chance de ver a sua habilidade com vozes, então imagino que foi aí que surgiu? Era o que lhe "fazia companhia" antes de conhecer o Sasha? - já que tinha proposto o tópico da conversa, não se importou em fazer mais questionamentos na mesma linha. Embora a relação com a mãe de Renaud fosse interessante, saber da necessidade de reproduzir outras vozes para "deixar de ser chato" ler sozinho era mais importante. E Renaud certamente não tinha ideia do que um detalhe tão simplório da sua infância podia ter, talvez, acarretado.
Renaud
Pensar sobre coisas que estavam tão no passado lhe deixavam em um misto de sensações, algumas coisas, sabia que tinham acontecido, mas não lembrava exatamente com todos os detalhes, da mesma forma, que tinha aquela sensação estranha e inquietante que não tinha nada de errado em não lembrar. Era no mínimo conflitante, mas nunca tinha parado para ponderar demais sobre essas recordações. E talvez esse aspecto mais contemplador ficasse mais visível no olhar do Blanco, que vagueava pelo espaço, como se estivesse enxergando algum espaço ou lacuna no passado e não estivesse de fato olhando para a sala de aconselhamento estudantil.
Ouvir de Aleksei que era natural ser daquele jeito, esconder que se sentia mal ou que sentia dor ou incômodo, e que aquilo tinha moldado de alguma forma suas relações com familiares e amigos, fez com o que Renaud saísse do estado de contemplação para prestar atenção no psicólogo. E tinha de pensar sobre as coisas que tinha conquistado, tinha sido tanta coisa assim? Tinha dinheiro, uma carreira inteira pela frente, mas não tinha o afeto e admiração de seus pais, e isso acaba lhe dando a sensação que estava se esforçando em vão. Por ser fechado, tinha demorado pra se expressar a quem importava, e tinha dificuldade de estabelecer até relações simples de amizade. Muito embora, não soubesse ser de outro jeito, e talvez se reconhecesse ainda menos se tentasse ser totalmente diferente.
Ouviu com atenção a pergunta do Dr. Vlahos, sobre suas imitações de vozes, e pigarreou brevemente sentindo a garganta seca novamente, lambendo os próprios lábios demoradamente. Desde aquela época imitava vozes, mas tinha sido justamente aquilo que o tinha afastado da sensação de solidão. Não sabia dizer com exatidão, tinha relação, mas não era exatamente aquilo:
-- Sim e não. – foi a primeira coisa que pensou, e desviou o olhar brevemente do médico, levando uma das mãos ao próprio queixo, como se estivesse buscando com exatidão alguma recordação que lhe indicasse que não estava mais se sentindo sozinho lendo: -- Eu não sei exatamente quando eu comecei a gostar tanto de contos e fábulas, talvez porque elas tivessem um certo padrão, que ajuda você a mergulhar na história e se afastar do mundo em volta. Acho que a minha sensação de solidão diminuiu à medida que eu conseguia imergir mais nas histórias que lia. – Fez uma breve pausa voltando a encarar o psicólogo e pigarreando de novo, sentindo a garganta incomodar um pouco: -- Da outra vez que lhe mostrei o que eu estava preparando, o processo de imersão, é uma técnica derivada do teatro, é usada em aulas particulares também pra você tentar se manter focado, ou como castigo, ficar de frente para uma parede branca, e contar até 10, por exemplo. Ou mesmo repetir uma sequência de frases, repetidas vezes, até excluir o que está fora e focar no que se estar dentro. Eu já fazia algo parecido, mesmo sem ter sido apresentado as técnicas formais propriamente ditas, eu consigo entrar espontaneamente em estado de hiperfoco.
Comentou sem muito remorso, e tentando introduzir o assunto para se fazer entender, imaginava que o Dr. Vlahos estivesse habituado a lidar com pessoas, e esses estados adversos da mente, mas talvez não estivesse tão familiarizado com técnicas de dramaturgia em si: -- Você precisa já saber o texto memorizado, depois você se isola de outras coisas que possam lhe distrair, toda história tem uma introdução, você repete a introdução, e é como pegar fôlego antes de mergulhar, quando se começa a narração, você imagina as situações como se estivesse vivenciando elas, e quando o primeiro personagem for falar, você não pensa: “como ele se sentiria aqui”, pelo contrário, é algo mais próximo de: “como eu me sinto agora passando por isso”, então surgem vozes na cabeça, e imagens mentais de como aquele personagem deve agir. É semelhante ao processo de ler um livro onde você não tem imagens além da sua própria imaginação para ilustrar o texto. – o Blanco explicava e narrava as coisas como se fosse um ator experiente, embora nunca tivesse de fato feito parte do clube de teatro, ou tido aulas formais sobre o assunto: -- pra subir, toda história igualmente termina com uma narração, que é neutra, e isso te ajuda a voltar e deixar os personagens na história.
Renaud fechou os olhos, moveu os dedos de forma ritmada brevemente, duas movimentações depois o atraso no dedo midinho tinha sumido, e ele lambeu os próprios lábios novamente, inclinando a cabeça de lado: -- Vou visitar minha avozinha e levar uns bolinhos e um potinho de manteiga que minha mãe fez para ela. – a voz saiu semelhante ao de uma menina jovem, e Renaud inclinou a cabeça para o outro lado: -- Ela mora muito longe daqui? – a voz soou rouca e abafada, e o Blanco tornou a inclinar a cabeça para o outro lado, no entanto diferente de mudar de timbre, a voz saiu sem qualquer emoção: -- Ah, ah! Até que enfim te peguei, seu patife! Já não era sem tempo. – os dedos tamborilaram, e o atraso no dedo midinho voltou e o jovem Blanco pigarreou , abrindo os olhos novamente, encarando a própria mão, levando uma sobre a outra, massageando a área:
-- Histórias infantis cansam menos de fazer, porque não são pessoas reais, cheias de toques ou maneirismos, ou manias, e essas coisas, dá pra passar algumas horas dentro de uma história pulando de um personagem pro outro sem prejuízo e desgaste. – admitiu aquilo, pensando em quantas tardes tinha passado na companhia desses mesmos personagens a ponto de perder completa noção do tempo. A recordação trouxe um sorriso simples no rosto de Renaud que ele sequer percebeu que estava pondo na própria expressão: -- Eu tenho muitas histórias que associo a pessoas ou a situações, além de canções que eu gostava de repetir, fosse porque eu estava satisfeito, ou por estar desconfortável.
Concluiu a explanação, voltando a uma expressão mais neutra, pigarreou novamente, sentindo a garganta arranhar um pouco. Talvez não devesse ter forçado a própria voz? ou talvez ainda estivesse com a garganta ruim do surto da noite passada onde tinha vomitado diversas vezes. Aquela sensação desagradável não lhe fugiria tão cedo pelo visto, ao menos não estava se sentindo transtornado em conversar com o psicólogo, e se sentia em parte vitorioso por aquilo.
Aleksei
As reações de Renaud com o ambiente eram bem características para quem estava tentando lembrar de algo muito distante. Perdia o olhar na sala e nos objetos algumas vezes, concentrado demais, mas quando fazia alguma pergunta, ele voltava a atenção para si, buscando mais detalhes dependendo do que tinha abordado. E o assunto das vozes era bem interessante e talvez até primordial para Aleksei naquele instante. Não só o que as vozes representavam para Renaud, mas como ele mesmo as compreendia mesmo que fossem apenas um acessório do passado do qual ele podia fazer uso atualmente - como já havia comprovado mais de uma vez.
Ele assumiu uma expressão mais pensativa quando questionado sobre aqueles personagens em vozes diferentes serem a companhia que ele tinha antes dos amigos de rua, de St. Clavier. Logo associou de novo o processo infantil ao ato de mergulhar, em termos diversos, e como aqueles personagens ajudavam a diminuir a solidão. De fato, não era incomum para crianças passarem por experiências em que "amigos imaginários" eram sua melhor companhia, mas talvez fosse um pouco incomum que aquele processo de acolhimento até mesmo infantil fosse tão bem estruturado e desenvolvido como Renaud começou a colocar. Ele entendia mais do que o mero fato de criar personas para diversão infantil e aquela definição provavelmente teria surgido com a adolescência e além, o que significava que o processo de ter imitado vozes quando ainda criança o tinha acompanhado ao longo do crescimento - enquanto em outros casos, os amigos imaginários eram deixados de lado. Renaud era capaz de associar todo o processo com técnicas de teatro e ainda conferir mais profundidade ao que era capaz de fazer, o que ficou bem claro com o discurso a despeito dele não ter experiência profissional na área.
- Eu devo dizer que essa habilidade de entrar em hiperfoco não é algo que se vê todo dia. Nem mesmo na minha profissão. - anotou aquilo em meio à narrativa dele. Não porque era um defeito, mas uma qualidade que era raramente notada em qualquer pessoa ou paciente com quem havia lidado. Mais fácil se perder em distrações do que se manter em concentração àquele nível de profundidade.
O detalhamento a mais da técnica de imersão lhe fez notar mentalmente o fato de que Renaud tinha estudado Stefan muito além do que tinha deduzido na primeira vez em que vira aquela persona. Provavelmente ao ponto de que, numa situação adversa, que ele não saberia como Stefan reagiria, Renaud deveria ser capaz de responder exatamente como o esperado da sua personalidade de referência. Exatamente como ele estava colocando em palavras "como eu me sinto agora passando por isso". A facilidade com que ele entendia do assunto e se fazia entender também despertou a curiosidade em Aleksei para o quanto o corpo e a mente do Blanco eram capazes de experimentar aquilo diretamente: nas vozes, nas imersões, nos personagens mais diversos das histórias de contos de fadas que eram tão convenientemente estereotipados.
Quando ele fechou os olhos, Aleksei moveu a atenção pelo corpo todo do aluno até perceber o movimento ritmado nos dedos com um breve atraso no dedo mindinho que logo foi corrigido, surpreendentemente. Foi aquela correção que pareceu funcionar de gatilho para inclinar o rosto e uma voz feminina escapar aos lábios de Renaud. Era um trecho bem conhecido de Chapeuzinho Vermelho, e Aleksei ficou bem satisfeito com a conveniência dos contos de fadas serem tão facilmente reconhecíveis para acompanhar a interpretação do aluno. Outro inclinar de cabeça, e a fala rouca e masculina que seria do lobo. No terceiro inclinar de cabeça, entretanto, a voz saiu um pouco mais neutra, perto do tom de Renaud e sem a mesma emoção de antes. Aleksei não era um conhecedor exímio de contos de fadas, mas mesmo para um caçador, num conto para crianças e comparado às falas anteriores, talvez faltasse um pouco de emoção naquele momento.
O movimento dos dedos parou depois que notou a falha no movimento do dedo menor. Logo em seguida, um pigarrear e uma massagem na mão trouxeram a personalidade de Renaud de volta para explicar aquela afeição pelos contos de fadas que eram tão fáceis de interpretar se comparadas a pessoas reais. O fato de que aquela situação tinha marcado bem a vida do Blanco e talvez positivamente ficou bem mais confirmado quando Aleksei viu o sorriso quase inconsciente dele para as descrições do passado.
- Acho que se esforçou um pouco demais, não? - Aleksei sugeriu, embora com um tom bem suave, ao fazer um movimento para se colocar de pé. - Um copo de água deve resolver parte do seu desconforto na garganta, se não se importa a breve interrupção.
Seguiu para o canto no fundo da sala para pegar outro copo com água e trazer ao chão de novo, sentando-se no mesmo local para estender o copo esperando que Renaud o aceitasse.
- Eu admito que não esperava o seu interesse real por esse tipo de literatura, mas eu entendo perfeitamente suas descrições e o fato de que aqueles personagens eram mais palpáveis. Embora os contos originais tenham desfechos diferentes dos atuais, como você diz, há mais superficialidade nos personagens e estereótipos que são fáceis de reproduzir mesmo quando você não os conhece a fundo. - Aleksei explicou sobre os personagens das histórias infantis que não eram tão infantis assim, originalmente, e até ele tinha aquele conhecimento, mesmo que limitado. - Nessas histórias que você interpretava com vozes diversas... quais os personagens que mais lhe chamavam atenção?
O pensamento do próprio Aleksei, naquele instante, retornou à voz que interpretava o caçador, imaginando se haveria mais personagens com aquele tipo de timbre e quais os papeis deles dentro das histórias.
Renaud
Não tinha em mente nenhum planejamento sobre o que deveria falar ou não para o psicólogo, e isso era estranho, ou no mínimo uma sensação nova para pensar sobre. Geralmente para o Blanco, lidar com profissionais da área sempre se limitava a um certo nível de informações, e tinha em mente o que ele poderia perguntar e o que deveria responder, como se estivesse apenas seguindo um roteiro. No entanto, diferente de qualquer outra seção, onde estivera falando por estar transtornado, ou representando para não se expor, Renaud estava apenas conversando. Sem saber exatamente onde aqueles assuntos o levariam, mas acreditava, e isso era outra coisa nova para pensar, conseguia acreditar que o outro faria sentido nas coisas que perguntava, e que ouvia, mesmo que para Renaud, naquele momento, tudo fosse apenas conversa despretensiosa.
Tomou nota quando o Dr. Vlahos lhe atentou sobre seu hiperfoco não ser uma característica comum, e não se considerava extraordinário por causa daquilo, mas admitia para si mesmo, que tinha certa noção do quanto aquilo era benéfico para estudar e trabalhar, e negativo no desgaste físico e mental posterior. Acenou positivamente quando o mais velho se dispôs a buscar água para si, não considerando aquilo um nível de interrupção o suficiente para atrapalhar o ritmo da conversa:
-- Efeitos colaterais da noite passada. – pontuou sobre o desconforto da garganta ser consequência da crise passada, e não necessariamente da imitação de agora. Aceitou o copo de água e tomou dois bons goles, sentindo o líquido descer desconfortável a princípio, mas o alívio posterior foi muito bem vindo. Tornou a prestar atenção na narrativa do Dr. Vlahos quando ele ressaltou que os contos infantis tinham origens mais sinistras e bem sabia da trajetória dos mesmos atualmente. Terminou de tomar toda a água, quando o mais velho lhe perguntou se tinha personagens que lhe chamavam mais a atenção, repousou o copo de volta ao chão, deixando-o exatamente entre os dois, e passou o indicador sobre a borda do copo pensativo por um momento, buscando personagens “preferidos” se é que podia usar o termo:
-- Bem... eu sei que os contos tem uma trajetória longa de modificações, e origens até certo ponto macabras. Tenho os originais franceses de alguns contos como o da própria chapeuzinho vermelho, que é estuprada e canibalizada pelo pai na versão original, só nas versões alemãs e inglesas propriamente ditas que o conto assumiu um tom infantil. – tornou a olhar para o psicólogo e levou uma das mãos ao queixo, como se ainda estivesse buscando aqueles personagens que gostava mais: -- Eu não sei se posso usar o termo chamar a atenção, porque todo personagem chama a atenção por alguma coisa, posso dizer que tenho mais afinidade com alguns do que com outros, o que eu considero um pouco diferente...
Renaud moveu os dedos de forma ritmada sobre os lábios, e desviou o olhar brevemente, notoriamente buscando na mente situações em que sentia afinidade por personagens de contos infantis. Parou o movimento com os dedos, passando a mover apenas o indicador em dois toques sutis sobre os lábios: -- Eu gosto do personagem caçador por exemplo, mesmo que ele não exista na versão original da história, o lobo que é a representação da monstruosidade do pai, que pode devorar e matar, é morto pelo caçador, o personagem não pede nada em troca, ele só vai lá e faz. – o Blanco fala como se fosse algo óbvio para se tirar de conclusão, embora fosse uma visão bem particular do moreno sobre o assunto: -- Eu sei que originalmente esses contos relatavam a fome e a miséria dos camponeses franceses, que chegavam a comer os próprios filhos, porém, eu enxergo os contos também como uma forma de alívio, no caso o que eles se tornaram depois... – Renaud já tinha lido e relido sobre a história dessas histórias para entendê-las e para sanar a própria curiosidade, por isso tratava do assunto até com certa confiança na hora de falar: -- um monte de histórias que a despeito de quão terrível tenha sido a situação, no fim acaba com um final feliz. É bobo eu sei… e infantil também imaginar que eventualmente vai surgir alguém que sem pedir nada em troca, vai te ajudar a sair de algum momento ruim, e que você vai ter o seu “feliz para sempre”, mas se você ao invés de tentar tornar realidade o conto, tentar viver o conto momentaneamente, aquilo se torna a sua realidade ao menos temporariamente.
Aquilo fazia sentido na cabeça do Blanco, e lembrava de quantas vezes já tinha fugido de situações estressantes para contos, onde a despeito de o quão mal estivesse se sentindo, ao menos lá, podia imaginar que alguém iria lhe ajudar a ter o seu “feliz para sempre” e isso o ajudava a passar pelo pior momento e dar conta do resto depois: -- Eu lembro de várias vezes na minha infância, de acabar sendo posto de castigo por fazer alguma coisa ruim, e na maior parte das vezes eu não entendia completamente porque eu estava sendo punido, porque eu era punido primeiro, e instruído depois do porquê da punição. -- e a expressão do moreno mais novo mudou um pouco os dedos voltaram a se mover de forma levemente ansiosa a ponto de parar o movimento de forma repentina para passar a mão sobre o rosto, como se a recordação lhe incomodasse demasiadamente: -- e pra conseguir passar pelo castigo sem chorar, porque eu não podia chorar, eu repetia os contos, a ponto de como eu lhe disse, ter certas histórias preferidas pra passar por essas situações.
Aleksei
Renaud se serviu de bons goles da água inicialmente, enquanto ainda ouvia suas colocações, para logo depois beber todo o conteúdo e recolocar o copo no espaço entre os dois, a ponta dos dedos apoiada inicialmente sobre a borda do copo enquanto ele ponderava sobre sua pergunta.
Aleksei tinha um conhecimento breve dos contos de fadas e suas origens, mas a segurança com que Renaud falava deles apenas confirmava aquele gosto por aquela literatura específica. E já sabia de sessões anteriores que ele tinha apreço por livros antigos, inclusive encontrados em livrarias de usados. Mas mesmo com um conhecimento tão profundo do assunto, ele demorou um pouco a definir o tipo de personagem que ele achava "preferido", a ponto de recolocar o fato de "chamar atenção" como "afinidade", o que era um ponto de vista interessante para Aleksei, embora para Renaud soasse apenas como um melhor uso de palavras.
Esperou em silêncio enquanto ele buscava na memória o que lhe chamava atenção de fato. Mais uma vez, os dedos num movimento ritmado estavam presentes, dessa vez sobre os lábios enquanto o olhar desviava a atenção como se procurasse encarar algo que não estava ali. Quando o movimento dos dedos mudou, a resposta também veio, e era um gesto que Aleksei estava apenas reforçando o significado ao longo da sessão em que o aluno não estava com a guarda mais tão alta como tinha se acostumado nas inúmeras sessões iniciais dos dois.
A resposta dele foi exatamente perto do que o psicólogo esperava, mais pelo fato do caçador ser o personagem cujo timbre da voz mais se aproximava de Renaud. E a explicação do porque daquela afinidade não demorou a vir também. Embora Renaud conhecesse todos os significados mais profundos da origem dos contos de fada, pareceu demorar a associar que aquelas origens não estavam exatamente lá quando ele era muito pequeno e que o motivo do apego àqueles personagens era bem mais infantil e superficial do que ele poderia ter imaginado. O fato de ser criança, de ser "bobo" e de se colocar no lugar de um personagem fantástico para ser salvo e ter o final feliz era apenas esperado, a despeito das situações que vieram depois.
- Como criança, você não poderia ter entendido a profundidade da origem dos contos. Esperar apenas que alguém apareça para lhe salvar é algo apenas comum, Renaud, não é "bobo". - Aleksei aproveitou a breve pausa dele para comentar. - Além do mais, contos de fadas são inclusive usados em terapia com crianças.
Não entrou em mais detalhes sobre o fato de alguns deles serem usados especificamente com crianças que tinham sofrido algum tipo de violência. À medida que a conversa prolongava, notava a mudança de postura de Renaud que surgiu primeiro no tom de voz, ao retomar os momentos da infância em que, como qualquer criança, era colocado de castigo ou punido por coisas que viria a entender depois. Mas a inquietação ficou bem mais visível com o ritmo acelerado dos dedos de novo, até pararem de vez num estado aparentemente exasperado. Os contos eram um porto seguro, tinha certeza daquilo, assim como o próprio Renaud. O fato de fugir para um mundo diferente, de se tornar personagens diferentes e viver aquelas vidas fantasiosas era uma forma de escape comum não apenas infantil. Mas o interessante da narrativa não foi o momento de escape, e sim outro.
- E por que você não podia chorar, Renaud?
Ele era uma criança, naquele tempo. Crianças choram o tempo todo, pelos mais diversos motivos. Mas o quanto Renaud sabia daquilo também?

