[Drive] Fragmentado [Aleksei; Renaud]
#3
Renaud

Havia certa inquietude em lembrar desses fatos infantis, lembrava de ser um garoto que não dava muito trabalho para a própria mãe, se recordava especificamente dos tios lhe dizendo que devia sorrir mais, e que era uma criança muito calada e quieta. No entanto, mesmo ele, às vezes, fazia coisas que irritavam sua mãe, e Renaud detestava quando isso acontecia, porque agora, parando para pensar, era um tanto assustador ser castigado. O jovem Blanco não ficava muito tempo absorto nos próprios pensamentos, porque o psicólogo constantemente pescava sua atenção de volta, fazendo comentários bem pontuais. De forma que eram bem diferentes das conversas anteriores, a ponto de que se assemelhava a uma aula, estava aprendendo com o Dr. Vlahos, a observar as coisas sob outra ótica. Certamente quando tinha 5 anos ou menos, sequer imaginava que os contos de fada poderiam ter versões diferentes, quem dirá suas versões originais. Para si, era apenas legal, e divertido, poder fugir da mansão dos Blancos, ou da casa onde moravam, sem de fato ter de “sair” e assim acabar sendo considerado um garoto desobediente.

Mas a pergunta específica de porque não podia chorar pegou o Blanco de surpresa, a ponto de que o moreno mais novo, precisou sair da postura mais relaxada que estava assumindo com o queixo repousado na mão, para uma com as costas ereta, sentado da forma mais apropriada, mesmo que no chão. Os dedos se moveram inquietos sobre os joelhos, mesmo que o gesto tornasse a magoar alguns dos machucados, e Renaud claramente desviou o olhar para qualquer outro lugar, porque pra falar sobre o assunto não queria ter de encarar o Dr. Vlahos lhe encarando de volta:

– E-eu… Bem…! – a respiração ficou levemente acelerada, e o movimento rápido do olhar pela sala inteira, buscando qualquer coisa lhe desse algum alívio visual, tornava fácil de enxergar o pensamento acelerado na mente do Blanco, e os indícios de ansiedade crescente: – Eu vou falar, só… estou pensando em como explicar isso… – Renaud respirou fundo, passando a mão pelo rosto e depois repousando sobre o peito, como se pedisse calma a si mesmo pra entrar no assunto, e em seguida uniu as duas mãos entrelaçando os dedos, para evitar que eles ficassem se movendo contra a sua vontade, a expressão se contorceu em incômodo e então tornou a encarar o psicólogo, com um pouco de apreensão:

– Porque eu não queria que a minha mãe me odiasse Dr. Vlahos! – era bem notório que Renaud tinha precisado juntar um monte de coragem pra falar aquilo, ou mesmo para admitir: – Eu fui uma criança quieta, sem muita expressão, a ponto das pessoas acharem que eu estava doente por ser assim, eu não lembro de já ter chorado quando eu era mais novo, lembro de ter vontade, mas não de fazê-lo strictus sensu, e depois que o Robespierre veio, eu tive a certeza que a minha não gostava quando a gente dava qualquer trabalho… quem dirá chorar! – Renaud fechou os dedos em torno da própria mão, como se estivesse tentando dar um pouco de segurança a si mesmo, para continuar no assunto: – Diferente de mim, Robespierre sempre estava adoentado e chorava muito, o tempo todo! E eu me recordo especificamente de ver minha mãe do lado de fora dos quartos, parada no corredor, o rosto irritado e cansado, bater contra a parede e falar baixinho: “esse menino não para nunca de chorar? Nunca!” – O Blanco fez uma breve pausa, engolindo em seco, o olhar escuro cheio daqueles sentimentos indescritíveis, que o Blanco estava aprendendo a nomear, mas antes que perdesse a linha de pensamento, o moreno mais novo prosseguiu sua narrativa: – Depois daquele dia, eu passei a ter medo de chorar e ela acabar me odiando por causa disso.

Renaud respirou fundo, enchendo bem os pulmões e depois soltando o ar devagar, lembrando de seções anteriores com o próprio Dr. vlahos quando ele tinha lhe indicado como respirar quando estava hiperventilando: – Por isso era tão ruim, quando eu era posto de castigo, porque eu ficava sozinho sentado virado pra parede, com muita vontade de chorar, mas se ela já estava brava comigo porque eu tinha feito alguma coisa ruim, se eu chorasse, ela ia terminar me odiando, então eu começava a repetir alguma história na minha cabeça, até eu esquecer que estava sozinho, e que estava com vontade de chorar.

Aleksei

Talvez devesse ter perguntado se Renaud sabia o motivo pelo qual crianças choravam tanto, como um pedido de ajuda ou de atenção, mas a sua pergunta pontual sobre a situação dele mostrou que o fato de não chorar era bem um reflexo da criação estrita, tanto que a postura dele automaticamente se corrigiu, ou numa análise mais profunda, se tensionou. Era uma lembrança que o deixava incomodado, mas era também uma lembrança que tinha sido chave na infância dele, o que fazer e o que não fazer, baseado na aceitação dos pais e da família e no caso de Renaud, muito mais especificamente da mãe, o que se provou com as respostas que seguiram.

A postura restrita se tornou impaciente e o rapaz buscou suporte em outros pontos da sala, porque não sabia o que fazer e provavelmente as palavras revelariam mais do que ele usualmente se sentia confortável em compartilhar. Ele ficou ansioso e Aleksei tentou não interromper o processo pelo qual ele passava para aceitar a própria lembrança e o que estava tentando lhe confessar, e quando ele lhe encarou de volta, apenas fez um meneio breve com a cabeça, como um meio silencioso de dizer que estava tudo bem, e que estava ali para esperar o momento em que ele quisesse falar.

E não foi surpreendente ouvir a resposta de que ele não queria ser odiado pela própria mãe. Já tinha determinado que ela era uma parte importante da infância e da vida de Renaud, mesmo que ele talvez não fizesse aquela ligação agora que era mais velho e independente. Depois da revelação principal, Renaud entrou nos detalhes do motivo pelo qual se preocupava com as próprias ações mesmo sendo tão pequeno. Era uma criança criada entre adultos, para se comportar como um adulto e sem espaço para explorar as possibilidades de uma infância cheia de erros, acertos e lições. Podia até dizer que era uma criança que tinha aprendido as lições mais pelos contos que estava acostumado a ler do que com os pais e professores explicando adequadamente. E por isso, havia algumas falhas a se ajustar ao longo do caminho.

O mais importante de toda a situação era que Renaud não estava acostumado a distinguir sentimentos e pelos cenários que ele lhe relatava, desde a infância até a adolescência, as situações tinham lhe colocado diante de sentimentos mais negativos do que positivos. E por isso devia ser tão difícil para Renaud imaginar que sua mãe gostaria dele, ficaria feliz por ele, ou qualquer coisa diferente de puni-lo por algo errado e de lhe causar uma sensação de medo e de solidão. A reação dele em querer facilitar a vida da mãe por ter ouvido a reclamação num momento de estresse era algo que podia ser colocado como a reação de um adulto e não de uma criança. E o momento tão breve tinha causado a impressão que era de se esperar em alguém da idade de Renaud na época. Apenas quando ele encerrou a narração e parecia um pouco mais composto foi que Aleksei retomou a palavra, com as análises bem mais pontuais.

- É normal não querer que sua mãe lhe odeie. Independente das razões e circunstâncias, ou de quem sua mãe é ou o que faz, o instinto natural de uma criança é se apegar à mãe e não decepcioná-la. - explicou o quadro geral. - A sua situação em particular, Renaud, foi o fato de que você foi criado entre adultos para ser um adulto quando era muito pequeno. E você foi exposto a algumas situações que só reforçaram isso na sua mente... outras crianças talvez não tivessem reagido do modo racional que você, ao ouvir a reclamação da sua mãe num momento de estresse.

Aleksei ajustou a postura um pouco também, mas foi uma reação em reflexo dos curtos movimentos de Renaud, para que ele não se sentisse incomodado com a sua postura muito quieta, e também para entrar num assunto um pouco mais delicado.

- Sua reação em não querer piorar o estado da sua mãe foi apenas natural, porque era o que você sabia que podia fazer para ajudar, do seu modo, de um modo infantil e com o pouco de força que tinha. - explicou, encarando o aluno diretamente para se certificar que ele não estava em estado de estresse ou ansiedade que impedissem de continuar a conversa. - Nós já percebemos que estava muito preocupado em não ser odiado e sentimentos negativos estiveram em sua vida por muito tempo. Mas por que não me diz alguma lembrança boa da sua mãe, Renaud? De sensações boas que teve da companhia dela... de algum momento em que você teve certeza que ela não poderia lhe odiar. Você lembra da sensação?

Renaud tinha uma predisposição a lembrar das coisas negativas, talvez ajudá-lo a trazer alguma lembrança boa à conversa acalmasse um pouco a sensação ruim que a conversa tinha deixado.

Renaud

Por mais que quisesse afastar os pensamentos que corriam em caminho negativo, era inegável para Renaud olhar para essas situações do passado e pensar que tinha dado mais desgostos a sua mãe do que coisas para que ela se orgulhasse de si. Talvez por isso ela realmente não gostasse de si, e não fizesse questão de lhe ver com frequência, preferindo o conforto de Paris. Pensar sobre ela, sempre era aquele amalgamado de sensações, sabia que por mais que se esforçasse nada que fizesse seria o suficiente para atender as exigências da mulher, mas persistia indo aos eventos e fazendo a maioria das coisas como ela queria, mesmo que no fim, recebesse quase nada de volta. Estava acostumado a dar 200% de si sempre, e receber 50% de volta, mas tinha aprendido a se contentar com isso, talvez por isso pensar em sua mãe lhe deixasse tão cansado.

E as reações de Renaud foram simplesmente suspirar em resignação, acenando positivamente para o que o psicólogo lhe dizia, não tinha muito mais que pudesse fazer sendo uma criança, e mesmo agora, não sentia como se fizesse tanta diferença na vida da mãe, a ponto de lhe ajudar em algo. Só queria não ser um estorvo, não ser “decepcionante”, e quando o pensamento lhe ocorreu, encarou o chão por um momento respirando fundo, sentindo o coração acelerar e a cabeça doer, os olhos arderem, e precisou passar a mão no rosto, e esfregar algumas vezes, antes de tornar a encarar o Dr. Vlahos a sua frente. Respirou fundo novamente, os ombros um tanto retraídos para dentro, e piscou algumas vezes levou umas das mãos para apoiar o queixo, a expressão era de conformidade e melancolia:

-- Pode ser qualquer coisa? – perguntou apenas a critério de dúvida, tornando a olhar para o médico a sua frente, até receber qualquer resposta e depois vaguear o olhar pela sala, buscando algo na memória: -- Quando eu aprendi latim, ela fez questão de me elogiar, e me levou para vários encontros nas casas das amigas dela, e bem, eu recebia elogios de todos ali, era bom ter atenção completa sobre algo que eu estava fazendo. – Mas a expressão do jovem Blanco não melhorou tanto, porque toda boa recordação vinha associada de uma pequena decepção: -- Mas eu tinha de estudar cada vez mais pra manter o nível alto, enfim, é uma língua morta, tem um limite do quanto se consegue estudar ou falar, e eu não sou um linguista, uma hora ou outra eu ia cometer algum erro, ou ter algum deslize.

Renaud passou ambas as mãos pelo rosto, respirando fundo e mudando a posição das pernas para que elas não ficassem dormente, e respirando fundo, como se estivesse buscando relaxar um pouco de toda aquela tensão que aquelas recordações lhe traziam: -- Bem, eu nunca fui bom com desenho ou instrumentos musicais, mas eu sempre fui um bom cantor, não excepcional, mas eu sempre fui esforçado, entrei no coral aqui em St. Clavier, e trabalhei para me destacar e consegui ser chamado pra um dos recitais importantes, que a instituição faz em conjunto com Limoges-Collet. Eu fiquei feliz porque ela tinha dito que viria ver, mas acabou, que ela não pôde vir porque meu irmão caçula teve uma complicação estomacal e precisou ser hospitalizado. Sei que não foi culpa dela, mas eu me senti mal, é como se todas as boas recordações, tivessem que ter logo em seguida grandes frustrações... é complicado. – Admitiu sentindo-se estranho em falar aquelas coisas em voz alta, fazendo uma expressão de leve surpresa misturado com conformidade, por conseguir falar sobre aquilo. Tornou a encarar o médico a sua frente, com um ar mais cansado, mas não dava pra saber se era da conversa atual, ou da situação com a própria mãe:

-- Eu sei que eu não tenho obrigação de atender as expectativas dela sobre mim, e eu sei que sou muito bom no que eu faço em Química, talvez em 5 anos eu seja um dos químicos mais relevantes na área de pesquisa da França. Eu sei dessas coisas racionalmente falando. Porém, o sentimento que eu tenho, é que nada disso importa, porque ela não liga, ou faz parecer que não se importa, já que não é algo que ela mesma sugeriu. Ou talvez mesmo que fosse em uma área que ela gosta, eu nunca consigo atender o que ela espera de mim, é como se eu fosse persistentemente decepcionante. – o moreno mais novo, falou a última sentença com a voz mais pesada, como se apenas estivesse repetindo algo que ele mesmo tinha escutado

Aleksei

A relação de expectativa de Renaud para com a mãe era provavelmente tão forte quanto as confusões de sentimentos mais recentes que ele tivera envolvendo os amigos e o presidente do Conselho Estudantil. Dado o fato de que era um relacionamento que vinha da infância e que tinha moldado muito da personalidade e dos caminhos que ele tinha escolhido trilhar desde cedo, talvez lhe ajudasse também a descobrir um pouco mais do que Renaud tinha se tornado e se havia algo ali que, de fato, o próprio Renaud desconhecia, como estava supondo diante do apagão dele. Queria ter sido mais incisivo sobre o assunto, mas já que estavam seguindo tão bem em outro caminho, tão melhor descobrir mais sobre a infância dele.

Ou ao menos achava que era melhor, afinal, o questionamento sobre momentos bons parecia ter causado ainda mais confusão e complicação na cabeça de Renaud. A respiração ficou um pouco mais intensa, ele passou a mão no rosto algumas vezes e voltou a lhe encarar com uma postura mais retraída, numa resposta um tanto negativa para o seu pedido. O assunto novo podia ser interessante do ponto de vista médico, mas estava começando a ver traços demais nas respostas do aluno de que ele não estava em condições físicas de estender demais aquela sessão.

Tentou não interrompê-lo mesmo assim, e só concordou com um aceno de cabeça quando ele perguntou se podia ser qualquer coisa. Mas enquanto esperava, de fato, “qualquer coisa” irrelevante ou insignificante na vida de alguém, as primeiras respostas dele sobre bons momentos foram associadas a elogios, e ao invés de se concentrar mesmo nos bons momentos, ele desviou a narrativa para as consequências do que deveria ser pura e simplesmente “bom”. A necessidade de Renaud de ressaltar os resultados de seus atos era recorrente, e os resultados deles, emocionalmente, não eram bons. Cada relato reforçava o esforço empregado por uma criança com a consciência de um adulto para chamar atenção com coisas mais complexas do que um simples desenho mal-feito da família e da própria casa. Mais agravante ainda no caso dele era ter tido um irmão pequeno com apenas alguns anos de diferença, que requisitava mais atenção e que consequentemente lhe deixava de lado, já que o jovem Renaud, mesmo antes dos dez anos de idade, já conseguia se vestir sozinho, comer sozinho, estudar sozinho e praticar as atividades extras sozinho. Era um excesso de independência para uma criança que nem tinha chegado perto da pré-adolescência e não podia culpá-lo pelo ambiente em que tinha sido criado para se tornar daquele jeito.

Mas o fato de que ele se considerava firmemente decepcionante era mais preocupante - esperado, mas ainda assim, preocupante. Sabia que devia haver algo mais nos relatos que davam aquela impressão tão forte ao aluno, provavelmente, alguma atitude ou palavras diretas da mãe dele que tinham deixado aquilo encravado na cabeça dele. Convencê-lo do contrário não seria fácil e não era o que podia fazer, no momento. Com o estado físico dele e as reações, resolveu se focar num ponto bem mais simples que seria de fácil associação para o Blanco.

- Renaud, você percebeu que as suas "boas lembranças" da sua mãe são associadas apenas a elogios e a resultados? Que quando eu lhe pedi para lembrar de uma sensação, você se lembrou, na verdade, de uma sequência de fatos que levaram a outras consequências? - fez as perguntas mais pontuais em cima dos primeiros exemplos que ele tinha dado. Afinal, tinha pedido algo bem específico, para ele lembrar de sensações boas, e aquilo podia ser algo muito pequeno como ele mesmo já tinha narrado sobre a companhia dela para ler, por exemplo, ou a felicidade com o novo idioma aprendido. - Talvez seja um pouco difícil para que desassocie as “sensações” de “resultados”, porque eles foram mais marcantes na sua infância, mas se eu lhe der um exemplo muito simples: a situação é que sua mãe lia para você quando você era muito novo, o resultado é que isso lhe deixava... feliz? Nada além disso. Não pense que isso lhe incentivou a aprender a ler, e que o fato de aprender a ler a afastou porque ela percebeu que você eventualmente não precisava da ajuda dela para isso.

O próprio Aleksei ajustou a postura, espelhando os movimentos de Renaud agora num gesto mais automático e tentando se mostrar mais relaxado para talvez, direcioná-lo à calma também.

- Se eu puder dar um exemplo mais recente... você disse que sentiu algo diferente quando o Sr. Lemont disse que se preocupava com você. Foi aí que descobriu que tinha um amigo, não era? - ele explicou. - A verdade é que você foi condicionado, desde muito pequeno, a mostrar resultados e a ser "grande". Os resultados nem sempre precisam ser grandes, a situação também não. Pequenas coisas são importantes, Renaud... o que o trouxe aqui, hoje, foi o acúmulo de pequenas coisas com as quais você não sabia lidar, até chegar a um ponto em que você não tinha mais como ignorá-las ou entendê-las. E se isso pode fazer a diferença em momentos ruins, pode também fazer a diferença em momentos bons.

Aleksei podia entrar em pontos muito específicos sobre a mãe dele, sobre o fato dele se considerar decepcionante, sobre os dias que tinham sido perdidos e os personagens sem emoção nos contos de fadas que ele recitava. Mas não sabia o quanto ele aguentaria fisicamente de um interrogatório tão longo e o quanto a mente dele poderia acompanhar também.

- Como você está se sentindo, Renaud? - perguntou, agora mais focado no estado físico dele. E queria saber dele o quanto entendia do estado debilitado em que estava e das reações provavelmente inconscientes que tivera ao longo da conversa. - O que acha de continuarmos nossa conversa em outra sessão? Ou você acha que consegue continuar agora?

Renaud

Depois de respirar um par de vezes mais lento, sentiu o corpo se acalmar um pouco, e as batidas no peito se tornarem menos dolorosas. Era um misto de sensações muito estranhas, sabia que a agitação que tinha sentido agora, era vontade de chorar, porque tinha chorado muito esses últimos dias pra ter fresco na memória como é a sensação. Mas o fato de estar conversando justamente sobre sua mãe, lhe fazia justamente não conseguir chorar. Nem se lembrava especificamente de qualquer vez que ela tivesse lhe cobrado aquilo diretamente, mas sabia implicitamente que não devia fazê-lo. E era estranho, lembrar de várias situações com a própria mãe, e ao mesmo tempo, não lembrar como muitas dessas situações acabaram, e pior era ter a sensação latente de que não tinha nada de errado sobre isso. O que era no mínimo inquietante justamente por ter passado os últimos dias atormentados por não conseguir lembrar do fim de semana.

Saiu do estado de contemplação quando o próprio Dr. Vlahos começou a lhe perguntar diretamente como tinha dificuldade de separar as ações dos resultados. Mas para Renaud era algo até lógico de pensar, só tinha se visto como pessoa muito recentemente, se antes ele era apena o personagem, primogênito dos Blancos, então ele era uma coisa, nada mais que um investimento hereditário, por isso sua única função era ter bons resultados. Mas conseguia entender o que o psicólogo estava querendo lhe mostrar em seu jeito de pensar, racionalmente, conseguia associar, mas emocionalmente aquilo era difícil de separar.

Sentiu o coração acelerar quando o Dr. Vlahos citou a felicidade que devia ter sentido quando pequeno quando ela lia para si. E aquilo lhe deu um certo incômodo porque obviamente por ser pequeno não se lembrava de todas as vezes que ela tinha lido para si, mas tinha a sensação que ela tinha lhe falado algo, mas que não se lembrava. Ajustou a própria posição, imitando o psicólogo sem perceber, e levou a mão ao peito, e tornou a respirar fundo, buscando acalmar-se do pânico momentâneo. Acenou positivamente quando Isaac foi usado como exemplo, foi apenas um comentário, mas aquilo lhe deixou feliz, de um jeito que era difícil de explicar.

Tornou a encarar o Dr. Vlahos quando ele lhe perguntou diretamente como estava se sentindo, e em seguida perguntando se tinha condições de continuar. Renaud não respondeu imediatamente, respirando fundo, e sentindo os batimentos se acalmarem um pouco: -- Eu preciso de outro copo de água se não for muito incômodo. – pediu sentindo que precisava molhar a garganta antes de continuar, e porque era um tempo a mais para tomar fôlego, não narrou nada enquanto o psicólogo ia e voltava com o copo de água, aceitando com as duas mãos, sabendo que estava com o manejo fino ruim. Tomou um gole, sem muita pressa, pra não ficar enjoado e respirou fundo novamente:

-- Falar sobre a minha mãe é sempre cansativo, não o tipo de cansaço físico, é como o senhor disse em outra conversa nossa, que o cansaço da mente atinge o corpo, é algo por aí, mas eu consigo conversar um pouco mais. – tomou mais um gole pequeno, lambendo os próprios lábios e repousando o copo ao chão, encarando-o por um tempo. Tinha certa urgência de entender essas coisas todas conflituosas de sua cabeça, e embora soubesse que não deveria apressar nada naquele cenário, não queria simplesmente parar o assunto sem chegar de fato a alguma resolução sobre a própria mãe.: -- Se eu tivesse de descrever como estou me sentindo, tive vontade de chorar, mas não é fácil “chorar” strictus sensu, mesmo que eu tenha vontade. E eu estou surpreso, comigo mesmo, por conseguir falar tanto sobre ela, e também me dá um pouco de medo, porque parece que quando eu falo as coisas assim, em voz alta, elas se tornam verdade, e param de ser apenas pensamentos que assombram a minha cabeça.

Passou os dedos na borda do copo, e deu dois toque na borda do mesmo, como se buscasse na memória algo simples como outro tinha falado, mas era inegável acabar puxando recordações demais no meio do processo: -- A minha mãe sempre teve a mania de arrumar minha gravata, porque ela dizia: “que os homens se separam dos meninos por um bom nó de gravata”. E mesmo que eu dissesse que não tinha mérito se ela fizesse o nó pra mim, ela insistia que ela quem tinha de fazer. – O jovem Blanco continuou sem encarar o psicólogo, e levou as duas mãos na altura de onde uma gravata estaria, e repetiu a ordem de movimentos que sua mãe sempre fazia: -- direita, esquerda, faz uma alça, direita de novo, e finaliza. Sempre um nó semi-Windsor. Eu gostava daquele momento, ela estava tão perto, e eu sabia que depois ela iria arrumar meu cabelo, e passar a mão pelo meu rosto, para que eu erguesse o queixo. Não me lembro dela me abraçar nenhuma vez, mas eu tenho dezenas de recordações dela repetindo essa mesma sequência de gestos, a ponto de que eu não sei quando elas ocorreram ou não.

Renaud fez uma breve pausa, pra tomar o restante da água como se quisesse engolir e digerir toda aquela bagunça de recordações e sentimentos. Depois repousou o copo no chão novamente: -- Da última vez que nos vimos, faz umas duas semanas eu acho, eu fui a Paris pra um evento, e eu optei de noite por sair com uma camisa de gola que não levava gravata. Porque eu sabia que ela iria reclamar, foi uma pequena malcriação, sabe? Eu só queria que ele tivesse qualquer outra reação que não, as de sempre...! – Renaud pausou a narrativa, e pigarreou de leve, cobrindo os olhos com a palma aberta da mão, e começou a simular a voz da própria mãe no diálogo fatídico do outro dia. Não conseguiria repetir encarando o médico a sua frente, provavelmente gaguejaria, mas achava pertinente que ele soubesse, então fez um esforço:

– Deveria ter posto uma gravata, assim você parecesse excessivamente casual Renaud.
– Não estou mal vestido, e não é um evento tão formal ao ponto de ser obrigatório o uso da gravata.
– Não está mal vestido, mas também não está apropriado. Me admira a essa altura não estar acostumado com as formalidades das ocasiões Renaud.
– Não é como se eu realmente dessa toda essa importância as formalidades, principalmente quando elas são excessivas e desnecessárias.
– Renaud Blanco, a questão não é o que você gosta ou deixa de gostar, é o que você tem de fazer, não me faça ter de explicar isso novamente.
– Mãe, eu não sou Robespierre, você não pode puxar as linhas todas as vezes, em algum momento elas vão romper.
– Que seja. Só não seja decepcionante. Não me faça pensar que perdi tempo com você Renaud.

O jovem Blanco respirou fundo, e depois mordeu de leve um dos dedos, como uma resposta imediata as sensações que lhe corriam por dentro. Em seguida ergueu ambas as mãos, com as palmas para cima, como se estivesse reforçando o sentimento de conformidade que tinha diante daquilo: -- eu provoquei porque eu queria qualquer outra coisa, que não fosse o blasé de sempre, e eu tive, só não estou feliz com o que recebi. Agora estou apenas tentando me conformar que as coisas vão ser assim, independente do que eu faça ou deixe de fazer.

Aleksei

Aleksei observou a transição de emoções nas pequenas reações do corpo de Renaud e só levantou para buscar a água quando ele pediu outro copo. Teria feito aquilo antes, mas até para ele era um tanto complicado achar momentos ideais para interromper a sessão e o contato direto com Renaud. O breve tempo entre ir buscar a água e voltar a se sentar no chão, seguido da pausa dele para beber a água, deu tempo para que Renaud se acalmasse e retomasse um pouco do controle diante da ansiedade desperta diante da conversa que estavam tendo. Ele estava cansado mentalmente e fisicamente e a intenção inicial daquele encontro era apenas pegar a nova dieta e os remédios, mas provavelmente ter a oportunidade de falar mais diretamente sobre a mãe e as implicações da sua criação e como interpretar tudo aquilo tinha aberto novas janelas para Renaud que ele nem tinha imaginado antes.

Até se surpreendeu quando ele afirmou que podia continuar a conversa. A necessidade de saber mais sobre aquele relacionamento era bem óbvia para Renaud diante de todas as interpretações que podia oferecer. Era uma pena não ter tido contato com a mãe ou o pai dele, se fosse o caso, poderia dar respostas muito mais assertivas sobre o comportamento dos pais. Mas por enquanto, a sua limitação era ter que falar apenas da perspectiva dele. Aleksei até teve vontade de sorrir sobre ele estar se sentindo surpreso por falar tanto da mãe, ou por não conseguir chorar, o que ia contra tudo o que tinha acontecido nas últimas sessões. Mas se focou na parte das coisas que se tornavam verdade.

- É um entendimento até bastante comum, que quando se diz algo em voz alta, a coisa se torna real. Mas se tornar verdade, strictu sensu... não é exatamente o que acontece. Pode ser uma realidade para você, e pode ser uma mentira para outros. Tudo o que você me diz aqui e que já me disse... tudo isso vem apenas de você, outros podem ter um entendimento diferente até mesmo das suas emoções.

Não sabia o quanto Renaud poderia interpretar das suas palavras, mas ele devia entender que tudo o que discutiam era só referente a ele. Enquanto Aleksei não podia conversar com outras pessoas, a única forma de entender o que estava se passando com o Blanco era ouvir diretamente dele, sobre ele e sobre as pessoas relacionadas a ele. Deixou que ele puxasse da memória os outros momentos que julgava importantes com a mãe, a necessidade dela de ter algo em Renaud que pudesse ajustar, que pudesse mudar. Ele foi bem sucedido em lembrar de algo mais simples que não remetesse a méritos e então, entrou no assunto que seria mais recente e de uma tentativa de mal-criação. Era curioso observar como um rapaz que já tinha se tornado independente muito rápido tentava chamar atenção da mãe. E foi nesse ponto que notou a mudança de novo nos gestos dele, ao deixar o copo de lado e desviar o olhar do seu para replicar uma conversa em vozes distintas como Aleksei já tinha observado mais de uma vez.

Mesmo que não conhecesse a mãe de Renaud diretamente, o tom e as palavras eram algo que ele até esperava de uma pessoa da classe social dela. Era algo que tinha se acostumado a apontar nas sessões em St. Clavier com uma série de alunos com pais ricos que exigiam demais dos filhos. E no caso de Renaud, que já era bem resolvido profissionalmente e individualmente, as exigências pareciam cobranças ainda mais pontuais. Ouviu apenas o diálogo, e apenas do diálogo, sem ter a possibilidade de ver a interação dos dois, faltavam peças para analisar o que tinha chocado tanto Renaud: a possibilidade de ser "decepcionante".

A postura de Renaud depois da narrativa era de retração... retração porque ele tinha medo de ter causado aquilo em sua mãe e mesmo com a sua tentativa de ir contra os ensinamentos dela, para tentar chamar atenção, tinha recebido uma resposta que ele não estava preparado para ouvir. E aquilo ficava bem óbvio porque o "decepcionante" estava bem demarcado naquele diálogo que tiveram até ali... não apenas como palavra, mas como atitude que era refletida nos relatos e reações do rapaz.

- Antes que eu lhe diga algo sobre a sua conversa com sua mãe, Renaud, me diga, foram apenas as palavras? Ela não lhe fez nada que você já estivesse acostumado ao receber ajuda para se arrumar, quando pequeno? Você podia não estar usando uma gravata, mas uma mãe sempre acha algo para ajustar num filho. - Aleksei perguntou, e mesmo que a resposta fosse negativa, que ela não tinha ao menos tocado em Renaud para lhe ajustar ao longo daquela discussão, prosseguiu com um detalhe que talvez Renaud não tivesse considerado ainda. - É bastante óbvio que sua mãe é uma pessoa exigente, e considerando as famílias em volta da sua criação, eu não esperaria menos exigência de alguém assim. Você não sabe, eu também não posso lhe afirmar com tamanha certeza, mas há a possibilidade de que ela mesma foi criada desse jeito estrito, com as mesmas cobranças, com a mesma exigência e talvez não tenha alcançado tão rápido a independência que você alcançou. - explicou um pequeno paralelo que era muito usual em pais: refletirem nos filhos as criações que tinham recebido. - Ela lhe disse para "não ser decepcionante", Renaud. Se você já não tivesse estabelecido um padrão alto, ela não teria qualquer motivo para lhe pedir para não decepcioná-la. Se você pode decepcionar alguém, é porque já permitiu que a pessoa criasse expectativas de sua capacidade.

Aleksei ajustou a postura para uma mais correta daquela vez, mostrando-se um pouco mais direto com as conclusões que podia tirar dos relatos de Renaud.

- Agora, eu posso lhe dar uma nova perspectiva sobre o tipo de criação que sua mãe lhe deu, mas quero que entenda que isso é algo que surge meramente da minha análise do seu discurso, e não da sua mãe diretamente. - ele explicou bem mais pontual, para que Renaud não pudesse achar que era uma conclusão certa para os relatos sobre a própria mãe. - Já pensou na possibilidade de que sua mãe também não sabia lidar com você porque, como criança, sempre superou as expectativas? Ela podia lhe acompanhar na atividade de ler para você, e então você aprendeu a ler. Podia lhe ajudar nos deveres de casa, e então você tirava ótimas notas sozinho. Podia lhe ajudar a se vestir, e então você aprendeu a dar os nós nos próprios sapatos. Por um lado, você se tornou independente e achou que isso a afastou... por outro lado, ela viu o filho independente que tinha e não sabia o que fazer para ajudá-lo como uma mãe. - apresentou a outra alternativa, mas não deu tanto tempo para Renaud pensar logo nela, concluindo o pensamento de antes. - Essa é apenas uma das possibilidades para o modo como sua mãe lhe tratou desde criança. Eu posso lhe apresentar várias outras, algumas boas, algumas ruins. Eu venho lhe mostrando nas últimas sessões como entender seus sentimentos e aceitá-los, Renaud, mas sobre os sentimentos dos outros, só eles têm as respostas.

Poderia ser ainda mais direto e explicar que, se ele quisesse mesmo entender as atitudes da mãe dele, teria que perguntar diretamente a ela. Mas aquele tipo de conclusão e escolha, era melhor que Renaud mesmo pensasse no que fazer, e uma das escolhas dele era ficar com os próprios pensamentos e conformidade.

Renaud

Por mais que quisesse não pensar sobre as coisas que sua mãe tinha lhe dito, era impossível deixar completamente de lado. Mesmo que tivesse sido abandonado por Didier, ou mesmo perdido dias de sua vida num fim de semana completamente infernal. A presença de sua mãe ou a falta de presença dela significavam muito pra si. Por mais que quisesse atribuir todo o seu estado de desgaste mental único e exclusivamente a briga com Didier, pensar em sua mãe, e em todas as coisas que já tinha feito e fazia por ela, ou pela família de forma geral, apenas lhe desnudava a ideia de que estava cansado a muito tempo. A briga foi principalmente o ponto que faltava para que terminasse de arrebentar, se não fosse com Didier, naquele dia, seria em algum outro momento, e perceber que sua vida estava um tanto fora de controle lhe angustiava, porque parecia que agora não era apenas uma situação unilateral que envolvia o loiro. E sim que todos os aspectos de sua vida eram algum nível de fracasso pessoal que estava tendo de administrar.

Mas antes que se perdesse demais em pensamentos autodepreciativos o médico lhe chamou a atenção sobre tudo que trocavam de informação ali, era sobre ele. Seu ponto de vista, seus sentimentos, suas interpretações das situações. E, nem tudo era verdade completa, podia estar equivocado, como quando acreditava que era uma coisa, e precisava viver sendo uma coisa muito eficiente e de bons resultados. Então, mesmo que fosse apenas uma ideia, poderia estar enganado sobre todas as coisas das quais se sentia inseguro e ansioso. Mas essa falta de controle sobre o que era certo ou não, dentro de suas atitudes lhe deixava apreensivo, e por reflexo pressionou as mãos, uma sobre a outra, como se precisasse reafirmar que estava ali, que aquela conversa era real.

E como se pudesse ler seus pensamentos o Dr. Vlahos lhe fazia perguntas muito pontuais que pescavam sua atenção para longe das dúvidas e inseguranças que permeavam sua cabeça:

-- er… sim, ela tocou em mim. Primeiro ela arrumou o lenço que estava no meu bolso, redobrou e colocou de volta, depois tocou no meu queixo e me fez erguer o rosto, alinhou minha camisa e gola, depois se ocupou com a minha franja, que estava maior e caindo um pouco sobre meus olhos. -- Renaud fez uma expressão de leve surpresa, era um conjunto de gestos que já tinha considerado como “mandatórios”, mas se invertesse a situação, se ele mesmo fosse fazer ajustes na roupa e postura de alguém, seria algo bem próximo de apreço, e em algum lugar de sua cabeça agora, o que ela fazia com seus cabelos parecia com os carinhos que Sasha lhe fazia. E a confusão imediata de pensamentos ficou bem clara no franzir de sobrancelhas e no olhar vagando pela sala. Renaud cobriu a boca com a mão, e ficaria vagando em pensamento se o próprio Aleksei não tomasse a sua atenção com outro conjunto de informações que sequer tinha parado para ponderar.

[...]

“Ela lhe disse para "não ser decepcionante", Renaud. Se você já não tivesse estabelecido um padrão alto, ela não teria qualquer motivo para lhe pedir para não decepcioná-la. Se você pode decepcionar alguém, é porque já permitiu que a pessoa criasse expectativas de sua capacidade”.

[...]

A expressão de incredulidade foi tão imediata e tão fácil de ler, que a mão que cobria a boca de Renaud ficou suspensa no meio do caminho como se ele tivesse esquecido que ela estava ali, dada a informação nova que ele buscava absorver. Isso significava que ao contrário do que o próprio Blanco imaginava, sua mãe era exigente porque sabia e tinha plena confiança de que ele sempre podia fazer melhor, e não que ele era insuficiente e precisava provar que era bom. E a surpresa foi ainda mais intensa para Renaud quando o psicólogo propôs a ideia de que justamente por ser tão focado em ser independente e não dar trabalho, justamente aquilo teria afastado sua mãe. Porque ela não saberia o que fazer consigo, e nem lidar com um garoto tão excepcional.

Aquilo deixou Renaud claramente inquieto os dedos se movendo de forma desordenada, os olhos em movimento acelerado desviando constantemente de foco, o coração acelerou como se fosse um zumbido, e momentaneamente se sentia zonzo, como se tivesse perdido o chão:

-- Mas eu… eu não queria afastar ela! Era justamente o contrário, eu queria não dar trabalho, poder cuidar dela também! Eu- eu…! Eu não tinha como saber que ela ia ficar longe…! Que ela não saberia o que fazer comigo! Eu só estava fazendo meu melhor, sempre… sempre… -- sentiu os olhos marejarem, e a respiração ficar difícil por estar respirando tudo muito bagunçado e fora de ordem: -- Eu… Ela… tem tanta coisa que eu queria falar… perguntar… porque? Por que no meio disso tudo ela não falava comigo? Por que eu não conseguia falar com ela? Porque ela não foi me ver? Porque ela me evitou? Porque eu não lembro de tudo? Eu só queria poder conversar abertamente… sem ter a sensação de que eu vou fazer alguma coisa errada... e aí ela vai me odiar e querer me descartar… mas … -- Renaud passou a mão sobre o rosto, sentindo tontura como se sua pressão tivesse caído momentaneamente, um enjoo forte e uma sensação de azedo lhe subiu à garganta.

Então instintivamente repetiu o gesto, levou a mão ao próprio peito, e movimentou gentilmente, como se só aquela mão não estivesse tomada pelo estado de choque de todo o corpo. Puxou o ar devagar enchendo os pulmões e depois soprando o ar vagarosamente, esfregou a mão livre sobre o rosto e os lábios se moveram: “vamos ficar bem… vamos ficar bem…!”

Tornou a olhar para o médico a sua frente engolindo em seco, os olhos levemente avermelhados de quem quase tinha se permitido chorar ali, na frente do outro: -- Por que é Dr. Vlahos... que é tão difícil… falar?

E sobre falar estava se referindo justamente, sobre falar sobre sentimentos e outras tantas coisas emocionais, tanto com sua mãe, quanto com outras pessoas de quem se importava de verdade. E porque era tão difícil que falassem com ele, parecia que todos tinham o mesmíssimo problema de conseguir se comunicar, parecia uma sucessão de mal entendidos porque ninguém de fato falava o que sentia.

Aleksei

As expressões de Renaud tinham se tornado gradualmente mais fáceis de ler com o tratamento, mas com as defesas baixas, era muito simples entender que o que se passava na cabeça do aluno eram, de fato, preocupações convencionais com família e relacionamentos. Ele alternava entre surpresa e confusão à medida que explicava as coisas e eventualmente chegava na expressão de compreensão da situação. Como tinha sugerido, os gestos da mãe dele se estendiam para além das palavras duras, e aquela era a atitude de uma progenitora que estava esperando algo do seu filho.

Renaud podia parecer bem confiante na maioria das vezes, mas saber que sua mãe tinha criado um padrão do que achava dele para que ele pudesse, de fato, decepcioná-la foi tão surpreendente que talvez aquela tivesse sido uma das expressões mais genuínas que Aleksei avistara no aluno desde o início do tratamento. Claro que tudo aquilo era resultado de anos e anos de uma certeza de que a mãe dele não esperava nada demais, que não haveria outra explicação para a atitude dela que devia ter se mostrado mais próxima e orgulhosa dos progressos do filho como era convencional. A reação dele foi tão intensa que isso se refletiu também na estabilidade física dele. Ao engatar os pensamentos sobre o que tinha feito quando criança, tudo o que tinha deixado de falar e deixado de ouvir trouxeram uma crise na respiração, a palidez reforçada do rosto, o olhar um pouco desfocado até levantar a mão ao peito e massagear a área. Aleksei atentou para cada um dos gestos, particularmente aquele com a mão no peito que foi um ponto importante para o fato de que aquilo o acalmava... não bastasse o gesto, as palavras não ditas foram lidas nos lábios alheios, e se o psicólogo estivesse ao menos um pouco menos atento, teria deixado passar aquele detalhe tão importante: "vamos...".

Aquele momento foi tão crucial para a avaliação de Aleksei que ele mesmo ficou focado demais no físico de Renaud, a ponto de perder a deixa para comentar sobre as preocupações que tinham causado uma crise no rapaz. Era como se esperasse algo mais que partisse daquele "vamos", do gesto de acalento no peito, qualquer outro sinal de que uma segunda pessoa estava ali que não Renaud. Mas voltou rapidamente à linha de raciocínio quando ele lhe questionou por que era difícil simplesmente "falar".

- Porque ficamos com medo da resposta. - respondeu muito diretamente. - Tudo o que fazemos e falamos tem reações e respostas. Reações podem ser positivas ou negativas, mas são certamente inesperadas, às vezes até quando você acha que sabe tudo o que há para saber sobre uma pessoa ou uma situação. Podemos falar sobre o passado, e aprender com ele, como estamos fazendo aqui. Mas você já sabe que embora não possa mudá-lo, pode mudar a visão que tinha dele. Se tem tanta coisa que você queria falar e perguntar... é algo que ainda pode ser feito, que deve ser feito. Com uma resposta positiva ou negativa, você terá o encerramento que precisa, Renaud. E eu ainda estarei aqui para ajudá-lo a lidar com a resposta, qualquer que seja.

Aleksei ajustou a postura em que estava sentado e soltou o ar discretamente. A sessão tinha sido cansativa para os dois e já imaginava que teria uma longa tarde de anotações e uma noite de revisões.

- Veja por outro lado, Renaud. Por mais que seja difícil falar, é o que está fazendo aqui, e isso está lhe ajudando, mesmo que seja difícil de notar os progressos agora. - Aleksei prosseguiu. - Mas vamos encerrar a sessão por aqui. Não queremos extenuar seu corpo mais uma vez, por isso, como eu tinha dito, já preparei a sua nova dieta e vou prescrever a sua medicação.

Aleksei levantou-se primeiro, aguardando que Renaud o acompanhasse para ter certeza de que ele estava bem para se sustentar em pé sozinho, ou oferecer um suporte a mais para o rapaz. Ele seguiu até a própria mesa, para pegar o receituário e a dieta detalhada já impressa.

- Agora, eu já lhe expliquei como funcionam os remédios e em que eles vão lhe ajudar. Eu estou lhe prescrevendo ansiolíticos, o suficiente para um mês e precisamos avaliar como você se adapta à medicação. - começou a explicar. - Na nossa situação em St. Clavier, um internato, eu preciso estar certo de que você terá a responsabilidade de tomar o medicamento nas horas indicadas e nas dosagens indicadas. Os resultados não serão os mesmos se você decidir parar de tomar a medicação ou esquecê-la, ou estiver cansado demais para lembrar dos horários corretos. É por isso que prioritariamente, você deve seguir sua nova dieta, estar num bom estado físico e não deixar de seguir os horários prescritos. Posso confiar que vai seguir as instruções à risca, Renaud? - perguntou, muito diretamente, depositando a confiança que já tinha estabelecido com o aluno previamente.

A medicação não era pesada o suficiente para ser preocupante para ele ou outras pessoas em dosagens altas, mas ainda havia o problema dos dias perdidos que Aleksei preferiu não trazer à tona. Se ele perdesse mais algum dia ou horário, não haveria como saber se ele estava seguindo as indicações com os remédios.

Renaud

Certamente, em muito tempo, não se sentia tão abalado em relação a sua família, em muito tempo, não sentia que fazer parte dos Blanco era algo mais além de carregar o próprio sobrenome como primogénito. A ponto de que podia afirmar que se sentia mais em família quando estava com a gangue na rua, mas o lado que Renaud não gostava de olhar, é que apesar de não funcional, sentia falta sim, da sua família em casa, de sua mãe, e da relação que tinham de “proximidade distante”. Mesmo que fosse uma proximidade restrita e cheia de muitas regras de conduta, conseguia enxergar em vários daqueles pequenos gestos, um tipo de contato e ligação. Que por sinal, era o que lhe fazia querer voltar para aquele lugar, querer atender aquelas expectativas, querer repetir aqueles gestos, para poder se sentir feliz, e não apenas satisfeito de ser um Blanco eficiente.

Ouvir do psicólogo que as pessoas não falavam porque elas tinham medo das respostas que poderiam obter, lhe foi algo fácil de digerir. Porque todo seu receio em ir falar com Didier girava em torno de ter medo da resposta que poderia ouvir, talvez coisas terríveis, como as que teve de ouvir, antes na sala do conselho estudantil. Ou pior, ter a confirmação dos seus temores pessoais de que o outro só lhe via como uma coisa e nada mais. Em verdade, percebia que estava exausto, vinha de um lar que embora estável em muitos aspectos, estava arruinando seu emocional ao longo dos anos, do qual não tinha apoio para se sustentar justamente no aspecto que era mais frágil: seus sentimentos. Estava inseguro sobre o que fazer da própria vida, e a pessoa de que mais gostava, tinha brigado consigo, estava com tantos receios, guardando tantas palavras, com tanto receio de encarar os próprios problemas que estava apenas sendo carregado pelo sobrenome da família como se estivesse à “deriva” e o que podia fazer e manter ao menos, era a pose de primogênito Blanco.

Tentou afastar os pensamentos autodepreciativos, bem em tempo do Dr. Vlahos lhe falar que já tinham conversado o suficiente, e que a despeito de não ser capaz de perceber, todas as conversas anteriores estavam surtindo efeito positivo em si. E ele estava certo, sabia que sim, confiava que sim, mas certamente não estava auto consciente o suficiente de si mesmo para notar, mas tinha de se manter acreditando, porque a terapia estava lhe servindo de âncora em meio a tempestade que era sua vida naquele momento.

Se levantou devagar, sentindo o corpo um pouco desengonçado, mas nada que lhe impedisse de andar, pegou a própria jaqueta preta que estava sobre o encosto da poltrona e a vestiu, ajustando a peça sobre o corpo. Recolheu o copo do chão e pôs sobre a mesa no lado esquerdo. E esperou as instruções do Dr. Vlahos, sobre os medicamentos que teria de tomar, junto a dieta que teria de seguir, pegou com as duas mãos, e leu as informações rapidamente, mas logo tornou a encarar o médico a sua frente:

-- Sim, eu vou continuar me cuidando. -- Renaud respondeu breve, e direto, encarando o médico bem a sua frente, mesmo que ainda tivesse uma aparência abatida, a única certeza que podia dar, era se olhasse diretamente para o outro ao falar. Era ao menos no que acreditava, e como podia mostrar ao médico para que acreditasse no que estava dizendo:

-- E sobre os horários, bem, eu posso criar uma agenda on-line e compartilhar o link com o senhor, e sempre que for atualizado, vai gerar uma notificação de aviso, então é possível acompanhar em tempo real, ou checar depois se os horários foram seguidos. -- o jovem Blanco comentou, puxando o aparelho e destravando o mesmo com a digital e abrindo no aplicativo de agenda, mostrou ao médico, e explicou brevemente como funcionava. Não era nada complicado e estava acostumado a usar agenda para ter noção do que tinha de fazer dentro da rotina cheia que tinha. Anotou os horários, não tão agilmente pela falta de destreza, mas logo tinha um link para compartilhar com o e-mail institucional do psicólogo:

-- E para o caso de… de eu deixar escapar algum dia.... O senhor têm como saber. -- Respirou fundo, depois de atentar aquele ponto, não gostava de relembrar a ideia de que tinha perdido dias, e aquilo lhe dava um aperto no peito e certa dor de cabeça. Mas precisava confiar que a terapia iria funcionar inclusive nisso, se ele não acreditasse, não tinha como funcionar, então seguiria, por mais inseguro que por ventura se sentisse:

-- Obrigado de novo Dr. Vlahos pelo tempo e disposição. -- estendeu a mão para o médico em sinal de que estava se despedindo, e a despeito de como tinha saído de lá no dia anterior, sair com a força das próprias pernas e agradecendo pela conversa, era algo bem positivo. Uma pequena vitória num mar de frustrações e tropeços, mas serviria como sua pequena fagulha de guia para melhorar, tinha urgência em se sentir melhor, e faria o que fosse possível para não desistir de si mesmo.


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[Drive] Fragmentado [Aleksei; Renaud] - by Lil - 09-17-2021, 03:51 PM
RE: [Drive] Fragmentado [Aleksei; Renaud] - by Lil - 09-17-2021, 03:52 PM

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