[Drive] Off the Record [Aleksei; Renaud]
#1
Aleksei

A situação com Renaud tinha tomado uma volta para melhor nas últimas semanas com uma confiança estabelecida entre eles em que o aluno finalmente estava disposto a lhe pedir por ajuda tal como precisava. Ainda havia algumas lacunas muito importantes que Aleksei precisava cavar, mas a oportunidade simplesmente não parecia surgir. O estado físico de Renaud estava se equiparando ao seu estado mental e o que precisavam naquele momento do tratamento era que ele ficasse fisicamente bem. O que acabou se mostrando algo mais difícil do que deveria ser, especialmente quando chegou aos ouvidos do psicólogo da instituição o acidente que tinha acontecido ao Blanco durante uma das aulas fora da academia.

Aleksei nem precisava se esforçar muito para saber os detalhes que já estavam correndo a academia na mesma tarde do acidente (afinal, jovens trancados num internato precisavam de muito com o que se distrair), mas como psiquiatra de Renaud, tinha plena certeza que parte do problema podia ter se dado devido ao corpo do rapaz se ajustando às novas medicações fortes. E foi por aquele motivo que ele não hesitou em sair de seu consultório no meio da manhã em um horário vago do dia seguinte para ir até os dormitórios, onde sabia que Renaud já estava por conta, mais uma vez, dos comentários que corriam por St. Clavier sobre o retorno dele para a academia. Precisava saber qual o estado dele, se o acidente tinha sido de fato um acidente, ou se tinha sido causado pelas perturbações físicas e mentais (o que parecia mais lógico, já que Renaud não costumava se machucar na cozinha, ao menos não desde o tempo que tinham iniciado suas sessões).

Com o horário já avançado na manhã, por volta das 10h, não havia muitos alunos nos corredores dos dormitórios, o que facilitou o trânsito do psicólogo que optou por ir até o prédio com o seu jaleco. Seria mais fácil se identificar com um jaleco, e já chamava atenção naturalmente de todo jeito. Confirmou o quarto de Renaud com o responsável dos dormitórios e foi direto até o último andar do prédio. Havia mais alunos circulando ali, já que os quartanistas tinham grades de matérias em horários variados, mas só seguiu direto até a porta e bateu algumas vezes, esperando uma resposta do outro lado.

Renaud

Depois de toda a confusão que tinha se instaurado, o jovem Blanco ainda se sentia atordoado, talvez por isso tivesse buscado abrigo sentado no chão, com as costas apoiadas na cama, ainda estava encarando o celular, porque estava digerindo em uma velocidade muito lenta as palavras ditas por seu pai alguns minutos antes. Todo aquele cenário era tão surreal e inédito, que se não fosse a constante sensação de desconforto gerada pelas queimaduras em suas mãos, talvez acreditasse ser um lapso, ou fruto de um pesadelo muito desconfortável.

Chegou em um momento, que cansou de pensar sobre pensar, a dor de cabeça lhe aborrecendo, e empurrou com o pé o celular pra longe, largando-o no meio do quarto. Jogou a cabeça para trás achando conforto no colchão da cama. O moreno mais jovem sequer sabia como iria lidar com sua dieta, agora que tinha perdido os horários, estava com uma noite mal dormida nas costas, antiinflamatórios pra tomar, afora o ansiolítico que precisava conversar com o Dr. Vlahos, pra quem sabe trocar. E isso era só o começo da lista de coisas pra pensar, e buscar resolver. Grunhiu em um resmungo notório, seguido de um suspiro evidente, estava cansado de estar doente, e estava cansado da bagunça na sua rotina.

Renaud permaneceria no chão ocioso por mais algum tempo se não fosse as batidas na porta lhe chamando a atenção. Nesse horário da manhã, não havia ninguém que considerasse estar ali, afinal Sasha tinha acompanhado Renaud no Hospital durante a madrugada, e Isaac estava sabendo de todo o ocorrido de tabela, porque o conselho tinha sido avisado.

Talvez Didier?

A mera ideia de ser o loiro, já fez o moreno levantar a cabeça e sentar-se mais apropriadamente, mas não tinha como pegar impulso para se levantar com as mãos machucadas. E também não era legal, se o loiro tinha ido até ali, só pra saber como o Blanco estava. Não tinha como esconder as mãos machucadas, afinal, depois do banho, o moreno mais novo sequer tinha conseguido aplicar os remédios receitados, então apenas cruzou as pernas e manteve as mãos com as palmas viradas para cima:

– Tá destrancada, entraí…! -- respondeu em tom audível para que fosse ouvido fora do quarto.

Aleksei

Aleksei ouviu a resposta do outro lado bem casual. Era estranho que ele estivesse ouvindo a autorização para entrar na sala quando geralmente era ele que abria a porta para Renaud. Ainda assim, não hesitou, abrindo a porta para entrar e imediatamente colocar os olhos sobre Renaud sentado no chão do quarto, o celular no meio do caminho entre ele e o aluno. Num mero segundo, observou as mãos dele viradas para cima sobre o colo, com as marcas avermelhadas das queimaduras que tinham sido mais sérias do que tinha pensado, mas menos exageradas do que os rumores em St. Clavier clamavam.

- Bom dia, Renaud. - cumprimentou-o, depois de fechar a porta atrás de si e dar alguns passos na direção dele, com as mãos dentro dos bolsos do jaleco. Tomou a liberdade de se abaixar no caminho para pegar o celular e deixá-lo sobre a escrivaninha do quarto, aproximando-se assim o suficiente do rapaz no chão. Também não era incomum observá-lo tão próximo ao chão, quando várias sessões tinham acontecido daquele jeito. - Posso?

Perguntou, ao indicar o chão à frente dele para se sentar também, tão acostumado com aquele padrão. Esperou alguma resposta para poder se acomodar melhor, dando uma longa olhada para as mãos machucadas que pareciam estar sem qualquer cuidado naquele momento.

- Eu sei bem qual vai ser a sua resposta, e mesmo que pareça redundante, por motivos profissionais e por preocupação: como está hoje? - perguntou, estendendo uma mão na direção dele como se esperasse que ele também lhe estendesse a mão machucada. - Posso ajudá-lo com isso, se precisar.

Renaud

O tempo até a porta ser aberta após sua fala, foi pequeno, mas existia alguma expectativa em quem iria entrar, e logo quando a mesma se abriu, e encontrou um loiro, mas não aquele que esperava a primeira reação do jovem Blanco foi erguer as sobrancelhas em uma expressão sutil de surpresa. Abriu a boca de leve, e embora estivesse surpreso por ser o psicólogo, estava um pouco decepcionado de não ser o outro loiro. Mas logo ouviu um cumprimento matinal, e afastou Didier de seus pensamentos, respondendo o mais velho, adequadamente:

-- Ah…! Bom dia, Dr. Vlahos. -- diferente do que se esperaria com a entrada inédita do outro em seu quarto, a despeito de ser seu médico, a postura do Blanco ficou mais relaxada. Não era quem ele esperava ver, mas também não era nenhuma ameaça. Acompanhou com o olhar o loiro colocar seu telefone longe de si, e a pergunta se poderia sentar-se no chão. Acenou positivamente, confirmando: -- Fique a vontade, dentro do seu possível.

Porque sabia, que apesar de estar recebendo uma visita em seu dormitório, o Dr. Vlahos estava a trabalho, provavelmente motivado por todo o acontecimento do dia anterior e o acidente ocorrido na cozinha do prof. Funske. Ouviu o comentário que se seguiu, e a pergunta de rotina, que parecia boba, porque era meio óbvio que as coisas não estavam bem, mas que fazê-la, reforçava que era uma conversa dentro das atribuições de trabalho do outro, e isso lhe deixava mais confortável do que se fosse uma conversa casual de fato:

-- Fisicamente, dolorido, machucado e bem cansado, eu não consigo dormir em hospitais, como bem sabe Doutor. -- estendeu as mãos para que ele pudesse observar os machucados das queimaduras, bem acentuadas no peito da mão, indicador e dedo médio, e pouco no anelar e mindinho, a curva com o polegar estava mais desgraçada em um lado do que no outro, mas o Blanco conseguia fechar a mão e mover os dedos, mesmo que vagarosamente: -- Mentalmente, ainda um pouco atordoado, porque eu nunca sofri um acidente nesse nível enquanto cozinhava. -- soltou o ar em um suspiro cansado: -- E emocionalmente falando, diria que estou aborrecido de estar doente, de ter mais alguns remédios pra tomar, e principalmente e estar ficando visível que eu estou doente. -- admitiu sem dar voltas no assunto.

Aleksei

A expressão de Renaud ao lhe ver denunciou que não era a visita esperada, e não esperava algo diferente, afinal, quantas vezes tinha deixado o seu consultório para visitar algum paciente? E era uma atitude que se estendia até mesmo para antes de chegar em St. Clavier. Ainda assim, a postura de Renaud foi mais relaxada do que estava acostumado até mesmo no consultório. Sentou-se com uma postura mais correta de frente para ele, mesmo que no chão, ouvindo a resposta para a sua pergunta padrão.

Renaud lhe estendeu as mãos e deu uma olhada de perto nos ferimentos. Aleksei estava acostumado a ver alguns machucados nele, mas eram todos de brigas de rua, nada até então proveniente de um dos "hobbies" do rapaz, e aquilo incluía cozinhar e mexer com compostos químicos, ambas atividades meticulosas que ele costumava lidar com maestria. Ver os machucados nas mãos tornaram os rumores parcialmente verdade e realmente exagerados. Mas considerando a medicação forte que ele tinha começado a tomar, não era surpresa que houvesse consequências mesmo nas áreas que Renaud tinha mais destreza.

- Para acompanhar o seu raciocínio: fisicamente, você pode se recuperar do cansaço agora que está de volta aos dormitórios, ao menos não perdeu movimentos e embora as queimaduras tenham sido um pouco intensas, não é nada que não se resolva. Mentalmente, sei que é uma novidade, mas não se alarme, à medida que seu corpo se acostumar com a medicação e progredirmos, você vai voltar ao ritmo e às plenas capacidades físicas e mentais. - ele disse, deixando que Renaud recolhesse as mãos de novo. - Emocionalmente, é bom ouvir como já consegue definir melhor o que sente, Renaud. E quem não ficaria irritado por estar doente e ter que depender de mais drogas? Vamos nos certificar de que esse estado não vai durar por muito tempo.

Aleksei deu uma olhada rápida ao redor, não tanto para avaliar a disposição do quarto do aluno, mas mais para buscar creme ou medicação que ele estivesse usando nas queimaduras.

- Por agora, você precisa cuidar dos machucados nas mãos e atentar para a alimentação e os medicamentos. Suponho que tenham perguntado no hospital se estava tomando algo? Desse modo, não corremos o risco de que uma medicação sua anule o efeito da outra. Mas se não se importa, eu gostaria de saber o que está tomando para a queimadura.

Renaud

A presença do psicólogo em seu quarto deveria despertar vários sentimentos de estranheza no jovem Blanco, mas na contramão disso, parecia apenas “natural” que depois de uma crise ou estresse, tivesse de conversar com o doutor Vlahos. Então por mais, que fosse não usual esse atendimento a “domicílio” da parte do outro, em certo ponto, Renaud conseguia perceber em si mesmo, que estava aliviado dele ter ido até ali, lhe procurar. Indicava o mínimo, que ele se importava em fazer um bom trabalho, e consequentemente, com ele, que era seu paciente atual.

Encarou o loiro mais velho, e acenou positivamente para cada uma das respostas e apontamentos feitos sobre como se sentia em relação ao quadro geral. E vê-lo reafirmar que aquele estado era temporário, era algo bom, em nenhum momento o Blanco imaginava que apenas ouvir repetidas vezes que aquele estado alterado seria temporário, seria algo bom, e que aos poucos começaria de fato a acreditar naquilo.

Acompanhou com o olhar na direção que o médico espiava, como se buscasse o que ele estava procurando, até o próprio Aleksei falar claramente que queria ver os remédios prescritos no Hospital:

-- Os remédios estão na bancada do banheiro, a receita e os resultados dos exames feitos lá na hora, estão juntos da minha carteira em cima da escrivaninha, se precisar. Como eu cheguei e fui direto tomar um banho pra tirar o cheiro de hospital do corpo, larguei tudo no meio do caminho -- Por hábito do uso de laboratório, era raro, chegar e não tomar logo um banho para descontaminar dos lugares que estivera: -- A médica que me atendeu, supôs que eu tive uma reação exagerada ao composto, ela levantou várias hipóteses, disse que podia ser causado por má alimentação, ou mesmo falta de descanso, entre outras coisas que eu não prestei tanta atenção porque ela falava muito, ela me disse que provavelmente confundi “rigidez muscular” com “cãimbras musculares”.

Deu de ombros, afinal não tinha tomado nenhum medicamento que causasse aquele tipo de efeito para saber a diferença entre as cãimbras costumeiras que sentia devido aos treinos no clube de natação: -- Basicamente: pomada para queimadura, anti-inflamatório e um analgésico forte, que eu não estou afim de tomar. -- Sabia que se era um analgésico forte o suficiente para causar efeito no seu corpo, isso o deixaria ainda mais lerdo, e com menos reflexos do que já estava, e não queria acabar causando outro acidente. A dor física certamente era algo com o qual já estava bem acostumado, podia administrar melhor, do que a letargia que estava lhe acometendo já, e que não precisava ser ampliada.

Aleksei

Aleksei olhou para a porta do banheiro quando ele disse que tinha deixado os remédios lá. De fato, os remédios que Renaud estava tomando poderiam afetar bastante o seu desempenho, mas ele ia se acostumar gradualmente com o tempo de reação lento. Além do que, para alguém acostumado a ter muita agilidade e rapidez adquirida de brigas, esportes e situações adversas, o tempo de reação atual dele devia estar mais próximo de uma pessoa "normal" com a atuação das drogas.

- Se não se importa, vou dar uma olhada na medicação.

Aleksei seguiu até o banheiro para pegar os remédios, dando uma olhada rápida ainda no pequeno armário sem porta com as outras medicações e compostos. Mas atentou-se ao que precisava ajustar naquele instante e voltou ao lugar em que estavam, para dar uma lida rápida nos compostos do anti-inflamatório e do analgésico. Não era como se fosse especialista em medicamentos que não eram da sua área, mas ainda encaminharia os nomes e informações para algum colega especialista em farmacêuticos para ter certeza dos efeitos que poderiam atrapalhar o tratamento geral dele.

- Vamos por parte agora: pelas informações que eu reconheço dos remédios, não há nada que possa atrapalhar nosso tratamento, mas vou contatar uma pessoa especializada na área para lhe certificar disso. - ele avisou, devolvendo os remédios para a sacola e buscando a pomada para as queimaduras. - Sobre seu estado físico, eu não sei como o seu acidente aconteceu, mas é bom reforçar que você é uma pessoa cujas habilidades físicas são bem mais acentuadas do que a média. Seu tempo de reação vai reduzir, claro, e a nova alimentação juntamente com a falta de descanso e de costume com o remédio novo vão afetar o seu desempenho. Não me surpreenderia que você estivesse, agora, só num nível "mediano" em questões de força física, agilidade, destreza. - ele tirou a pomada para as queimaduras da bolsa, abrindo-a e fazendo um sinal para pedir autorização dele para aplicar nos ferimentos. Já estava ali, ele estava com as mãos machucadas e já tinha tomado banho, nada que não pudesse prestar assistência também. - E sobre não estar afim de tomar o analgésico, espero que essa seja uma das coisas que possamos trabalhar daqui para frente, Renaud. Você gosta de sentir dor?

Estar acostumado a sentir dor e gostar dela eram coisas bem distintas e Aleksei sabia daquilo até mesmo além de sua profissão. O fato era que Renaud estava tão acostumado a sentir dor das brigas e disputas, acostumado a atender às expectativas da família, que talvez não soubesse mais diferenciar o fato de que poder suportar a dor não queria dizer que precisava senti-la necessariamente.

Renaud

O jovem Blanco apenas assentiu com a cabeça deixando que o médico ficasse livre para caminhar até o banheiro e buscar a medicação que tinha deixado lá. Embora estivesse confortável com a presença do doutor Vlahos em seu dormitório, eventualmente encarava as mãos destruídas, a dor persistia, e mesmo que ainda estivesse sob efeito de medicação, servia apenas para amenizar a dor, a queimação ainda estava ali, formigando entre seus dedos.

Tornou a erguer o olhar quando Aleksei lhe dirigiu a palavra explicando as partes sobre os remédios e acenou positivamente concordando. Espiou as mãos dele, no pedido silencioso para que deixasse cuidar de seus machucados, e deixou por sua vez, um suspiro baixo escapar, concordando igualmente de forma silenciosa, não tinha porquê negar, afinal, não tinha como fazer aquele serviço sozinho de toda forma.

A explicação sobre ser uma pessoa de rendimento mediano, lhe fez torcer a expressão em desagrado, já tinha confirmado aquilo algum tempo antes, mas não imaginava que seus movimentos estariam assim tão comprometidos devido ao uso da medicação e todo o seu quadro de saúde. Mas a surpresa realmente veio da pergunta feita pelo médico, o jovem Blanco ergueu a cabeça, encarando o loiro mais velho com uma expressão de estranheza notória:

-- Gostar em que sentido, doutor Vlahos? -- respondeu uma pergunta com outra porque realmente tinha sido pego de surpresa sobre o assunto: -- Se for “dor física” ou seja, dor no corpo em si, eu não tenho nada contra, sabe… não sei bem como explicar… é algo de quem briga muito e acaba se machucando demais.. Hmmm-! -- fez uma pausa breve desviando o olhar, e mudando a posição das pernas para não ter formigamento nas mesmas: -- Vou dar um exemplo, as minhas mãos queimadas, eu senti muita dor na hora, mas eu sabia, que não era tão grave justamente porque eu estava sentindo dor. Entende? -- O Blanco tornou a encarar o loiro, como se buscasse na expressão dele que ele estava lhe acompanhando no raciocínio:

-- é algo como, se está doendo, eu ainda estou no controle, mais ou menos, se eu parar de sentir, aí é que mora o problema. Porque quer dizer que eu estou muito machucado ou perto de desmaiar. A ausência de dor que me deixa preocupado.

Fez uma breve pausa, desviando o olhar novamente, para olhar qualquer ponto do quarto, antes de continuar o assunto: -- Agora se estiver falando de dor enquanto fetiche, eu sou muito Vanilla, eu até curto, mas não sempre, e nem com qualquer pessoa.

Aleksei

Aleksei não estava sequer surpreso com a resposta de Renaud ao lhe perguntar qual o sentido de "gostar" de sentir dor. Passou a pomada nas queimaduras com cuidado, deixando que ele mesmo assimilasse que tipo de resposta lhe daria. Também não foi surpresa ouvir a primeira explicação sobre dor física: Renaud estava acostumado a sentir dor como um indicativo de sobrevivência, era quase um instinto animalesco. Só fez um aceno de cabeça concordando quando ele explicou a sensação de dor durante a queimadura, que deveria ter sido bem intensa para deixá-lo debilitado àquele ponto. As queimaduras mostravam muito bem o quão ruim tinha sido. Sentir dor, para Renaud, era apenas uma divisória entre estar consciente e no controle e estar apagado por conta da intensidade de um ferimento.

- Estou falando sobre a possibilidade de não sentir dor apenas porque ela está lá. - Aleksei explicou, depois das duas definições dele, ao terminar de aplicar a pomada na queimadura. - Pelo que acabou de me dizer, você não é uma pessoa que necessariamente gosta de sentir dor, ou que sente prazer com ela, como um masoquista. Gostar de dor e estar acostumado a ela são duas coisas distintas.

Aleksei colocou os medicamentos de lado, ajustando muito pouco a própria posição, as pernas já estavam bem acostumadas àquelas restrições.

- Só por estar acostumado a dor e conseguir lidar com altos níveis dela, não significa que precise senti-la o tempo todo, Renaud. Sua definição de dor está estritamente ligada ao instinto de sobrevivência e isso é apenas o nível mais "animalesco" de sentir dor. - Aleksei explicou, buscando na expressão do aluno se ele também estava acompanhando o seu raciocínio. - Você não precisa apenas sentir dor para saber que está vivo e no controle, pode sentir que está vivo de outro jeito, com outras relações, com suas escolhas. Acima de tudo, como pessoa, você pode se reservar ao direito de não sentir dor, por isso os analgésicos.

Não sabia se Renaud acompanharia a sua explicação ou se ao menos estaria considerando a sua sugestão. Talvez pudesse se dar a liberdade de ser mais objetivo daquela vez.

- Tome os analgésicos, Renaud. Você não precisa sentir dor o tempo todo, e eu creio que as pessoas que estão ao seu redor e que se preocupam com você também não iam querer isso.

Renaud

O jovem Blanco estava com a área das mãos plenamente sensíveis por causa das queimaduras, e só por isso conseguia sentir o toque sutil do psicólogo com a pomada, ele era preciso e suave até naqueles momentos. Observou por um momento o gesto, mas logo tornou a encarar o loiro mais velho, principalmente quando ele começou a responder sobre seu conceitos de dor serem muito superficiais. Não era mentira, nunca tinha parado pra refletir profundamente no porque sentir dor, em verdade, só estava passando a praticar mais esses pensamentos agora após o início da terapia de forma mais intensa.

De fato, Renaud tinha seus momentos, onde conseguia ter prazer em meio a situações que envolvia muita dor, mas não era exatamente a dor que lhe trazia a satisfação, e em geral, não curtia apanhar ou violência que não tivesse expressamente pedido. Não perdeu a linha de raciocínio do doutor Vlahos, estreitando o olhar e curvando de leve as sobrancelhas diante da definição do outro que podia se sentir vivo e no controle, sem necessariamente se submeter a estados de dor. Puxou o ar como quem queria rebater o comentário sobre de fato tomar os analgésicos, até o próprio médico lhe lembrar que tinham pessoas preocupadas com seu bem estar e que não queriam lhe ver sentido dor. Fechou a boca e engoliu em seco, e desviou o olhar, observando qualquer ponto do quarto, como se estivesse digerindo aquela frase, acenou positivamente de forma tímida um par de vezes, antes de tornar a encarar o médico:

-- Eu vou tomar os analgésicos, mas eu não gosto da ideia de ficar ainda mais letárgico do que eu já estou. -- Comentou em tom mais defensivo, estava ciente do benefício do remédio, mas estava se tornando cada vez mais autoconsciente das suas atuais limitações e isso o aborrecia: -- E eu também não gosto da ideia de ficar cada vez mais dependente dos outros na minha rotina. Eu passei tanto tempo pra me acostumar a fazer tudo o tempo todo sozinho, que agora que eu preciso de fato, da ajuda de outras pessoas, eu me sinto ficando cada vez mais incapaz.

Por um momento pensou em dizer aleijado, mas não gostava de usar o termo como agente pejorativo, e acabou murchando os ombros um pouco, e abaixando a cabeça, como quem tinha agido de um jeito mimado só pra não tomar a sua medicação:

-- Eu não sei.. Só não quero ficar pior.

Aleksei

Era notável que a preocupação de Renaud era o fato de que estava perdendo controle das próprias reações. Para alguém que tinha se acostumado a uma vida alerta o tempo todo, devia ser, de fato, muito difícil perder o controle da própria independência. Mas embora o processo parecesse lento, doloroso e até assustador, era o necessário principalmente para que ele entendesse um pouco mais do lado "humano" que tinha voluntariamente deixado para trás ao se propor a ser o "cão" de Didier. E os relacionamentos eram a parte mais importante dele.

- Você não precisa fazer tudo sozinho, Renaud, e é aí que entra a importância das pessoas ao seu redor. Se você tem alguém que se importa com você, que gosta de verdade de você, eles vão querer lhe ajudar até nas coisas mais simples. - Aleksei explicou muito calmamente, notando o modo como o corpo dele se retraía ao se deparar com aquelas situações que demandavam que ele precisava abrir mão da independência, do controle que tinha sobre si mesmo e deixá-lo para outras pessoas. - Vou lhe dar um exemplo que é um exercício simples e ao mesmo tempo difícil, para alguém como você que está muito acostumado com independência: coloque-se no lugar de um dos seus amigos. Seja o Lemont, do Conselho Estudantil, o Peyrac, do Conselho Disciplinar ou mesmo o Callas. Se um dos três tivesse queimado as mãos como você queimou, no seu lugar, você iria querer que eles passassem por uma recuperação completamente sozinhos? Com dores? Sem aceitar sua ajuda, por exemplo?

A pergunta era uma dúvida genuína. Um mês atrás, poderia até esperar de Renaud uma resposta positiva, em que ele esperaria que os outros se cuidassem sozinhos, porque era assim que a mente do Blanco funcionava. Mas com uma visão diferente sobre si mesmo e sobre os próprios sentimentos, talvez até mesmo aquele exercício básico fosse suficiente para ajudá-lo a entender um pouco mais sobre as relações ao redor.

- Você não vai piorar, Renaud. E mesmo que piore, eu garanto que posso fazê-lo melhorar. - a sentença de Aleksei certamente tinha um tom de certeza que Renaud talvez só tivesse ouvido algumas raras vezes. E não só o tom, mas a postura e o encarar direto do psicólogo apenas reforçavam que naquele aspecto, naquele ponto do tratamento, Aleksei sabia que podia ajudá-lo e podia passar aquela segurança também. - Contanto que você queira isso e que continue permitindo minha ajuda.

Renaud

Era notório tanto na expressão do jovem Blanco quanto em sua linguagem corporal que ele estava retraído. Pensar sobre aquela situação lhe deixava confuso, estava acostumado a deixar para os outros decidirem coisas para si, mas quando se tratava de sua recuperação e autocuidado fazia tudo sozinho, agora, tinha de tomar decisões e escolhas sozinho, mas tinha de dividir seu autocuidado com outras pessoas. E entendia racionalmente que aquilo era necessário para sua melhora, mas emocionalmente se sentia péssimo, frágil, e até certo ponto vulnerável, e isso lhe dava um nó no estômago, e um amargor na boca, que se o psicólogo a sua frente não estivesse falando de um jeito tão assertivo, teria recolhido as pernas para se encolher.

Ergueu o rosto, encarando o doutor Vlahos enquanto ele narrava o exemplo, da possibilidade de quem estaria machucado fosse algum dos seus amigos e pessoas mais próximas, e torceu os lábios em uma careta, de quem não ia concordar se o cenário fosse inverso. Acenou positivamente de quem compreendia o exemplo dado, não iria querer que qualquer um dos citados se isolasse pra se negligenciar ou se cuidar de qualquer jeito por pura teimosia. Estava sendo cabeça dura e mimado, disso tinha mais consciência, mas não conseguia evitar aquela sensação de desgosto que tomava seu peito em um aperto, quase como se estivessem lhe impedido de respirar.

A surpresa tomou conta da expressão no rosto de traços comuns de Renaud, quando Aleksei afirmou veemente que não pioraria, ele nunca tinha falado daquela forma. Talvez pela estranheza ou pelo fato da fala do outro ter sido muito intensa, o moreno mais novo relaxou os ombros, e ergueu mais a cabeça para encarar o médico:

-- Eu não tenho intenção de me afastar da terapia... apesar de me sentir doente, de estar doente de fato, eu consigo perceber que não fico mais em pânico, não como antes.-- Encarou os olhos do médico por um instante: -- E isso se deve a sua ajuda doutor Vlahos. Eu posso não externar isso em palavras, mas eu estou grato pelo seu trabalho comigo.

Estava na defensiva, não porque não confiasse no trabalho de Aleksei, mas porque o sentimento de vulnerabilidade era algo que Renaud não conseguia lidar muito bem. Desviou o olhar para encarar qualquer outro ponto na sala e recolheu as mãos machucadas com pomadas, usando as costas da mão que não estavam feridas para esconder parcialmente a boca. Tinha aprendido a se defender e a não se sentir mais frágil e facilmente atingível, mas no momento em que estava, ficar ciente do seu próprio nível de fragilidade, lhe deixava com medo, e isso aparecia no leve tremor dos lábios, e na mudança de respiração, para mais curta e descompassada:

--Eu… eu só não estou confortável… com estar tão fraco e frágil… é como se eu tivesse catorze anos de novo… e isso me incomoda de um jeito que é difícil por em palavras.

Aleksei

O exemplo de se colocar nos pés de outras pessoas foi bem simples até mesmo para Renaud compreender. Podia não ser capaz de fazer aquilo cem por cento, mas ao menos ele teria uma compreensão melhor de como os amigos se importavam com o seu estado. Talvez aquela concepção o ajudasse a pensar melhor em tomar os analgésicos e não sentir dor.

Mas foi a sua assertividade ao garantir que podia tratar dele que o fez relaxar mais a postura retraída em que tinha se colocado. Aleksei ficou internamente satisfeito que aquilo fosse um ponto positivo, que Renaud confiava de fato que o psicólogo poderia ajudá-lo a sair daquele estado letárgico e permanentemente ruim. Era ainda mais satisfatório para o próprio Aleksei ter chegado àquele ponto com o paciente, em que ele tinha certeza de que precisava da terapia e que não se afastaria do processo.

- Eu estou satisfeito que está percebendo seu próprio progresso, Renaud, essa é a parte importante. E continuaremos assim daqui em diante. - Aleksei afirmou, bem a tempo de notar a postura dele mudar de novo.

Não foi a mesma postura retraída ou fechada de antes, daquela vez, ele parecia incerto e até um tanto temeroso, com necessidade até mesmo de esconder o rosto diante da onda de sensações que lhe acometeu. Aleksei observou Renaud com cuidado para entender exatamente de onde aquela nova reação tinha vindo, mas a resposta só veio nas próprias palavras dele ao admitir que não se sentia confortável com o próprio estado vulnerável. Muito especificamente, relatando a situação a uma idade anterior, em que não tinha conseguido se defender como era capaz de fazer então.

- Você já não tem mais quatorze anos e nunca vai voltar a ter essa idade. Do mesmo jeito, você não tem a vulnerabilidade que tinha naquela época e não há medicação que possa lhe devolver àquele estado. - Aleksei explicou, mantendo o tom de certeza anterior. - Mas vai ser incômodo sim, e vai parecer que essa fraqueza e fragilidade vão permanecer aí por muito tempo: mas isso é mentira, você não é mais uma criança, não é fraco e nem incapaz, Renaud. Os remédios e o tratamento vão fazer com que se sinta melhor, pode ter alguns entraves no caminho, mas você vai se surpreender com o quão pode ser adaptável às mudanças. Minha recomendação como seu psicólogo: não fique sozinho enquanto se recupera. Se deixe depender dos seus amigos um pouco, garanto que eles vão ficar satisfeitos em lhe ajudar.

Renaud

Por mais que estivesse plenamente consciente da ajuda que as ações e o trabalho do doutor Vlahos eram fator importante em sua melhora. Era justamente por estar muito autoconsciente de suas fragilidades que acabou servindo de gatilho para uma série de más recordações, de coisas que pensava estarem resolvidas em seu subconsciente. Queria conseguir evitar que aqueles pensamentos reverberassem pelo próprio corpo de forma tão óbvia, mas a essa altura não tinha como esconder suas reações para o psicólogo a sua frente, e nem tinha de fato essa intenção. Queria apenas retomar a sensação de controle, e foi bem em tempo que as palavras e a postura mais assertiva de Aleksei chegaram aos seus ouvidos.

De fato, não tinha mais quatorze anos, nem o tempo voltaria para que retomasse ao corpo e ao estado mental que tinha. E certamente era bom saber que as medicações não lhe deixariam vulnerável aquele ponto. Não teve como esconder a surpresa na própria expressão quando Aleksei ressaltou que a forma como pensava que aquela fraqueza seria permanente era uma mentira. Não fazia ideia de como ele podia ter tanta certeza, mas também, não tinha motivo nenhum para duvidar do que ele lhe dizia. Gradativamente abaixou a mão machucada, e piscou algumas vezes assimilando tudo que tinha sido dito:

-- Não ficar sozinho. -- Repetiu, seguido de um aceno positivo, compreendendo aquele ponto, em verdade, não gostava de ficar sozinho todo tempo, era justamente por isso, que procurava ocupar seu tempo com tantas coisas, porque ficar sozinho e se sentir solitário era algo com que já lidava a muitos anos de sua vida: -- Eu não duvido que eles vão ficar felizes em me ajudar. Eles todos são legais, quando querem. -- respirou profundamente, inspirando o ar, e depois expirando vagarosamente, sentindo-se menos tenso, por falar aquilo em voz alta, e saber que era verdade.

Mas era fato que estava incrivelmente cansado, agora não só fisicamente, mas mentalmente cansado, muitas coisas para pensar e praticar paciência com as novas limitações do próprio corpo. Mudou a posição das pernas, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e encarando o médico a sua frente:

-- Obrigado por hoje, doutor Vlahos. -- Comentou, sabendo que mesmo o homem a sua frente era capaz de perceber que não tinha mais condições de continuar conversando, e que acabariam aquela sessão extra oficial a domicílio. Tinha sido uma conversa menor em relação as anteriores que tinham dividido na sala de aconselhamento estudantil, mas tinha cumprido sua função. E estava verdadeiramente grato, não se lembrava de ninguém da sua família além de Sasha, ter ido bater na porta de seu dormitório para saber se estava bem ou não de saúde. Isso lhe trazia um misto de sensações, mas preferia se ater ao fato de que Aleksei era um profissional dedicado, e que podia confiar plenamente no trabalho que ele estava fazendo consigo.

Aleksei

A repetição de Renaud do que ele tinha sugerido era a confirmação de que ele estava disposto a colocar a sua proposta em prática. Já tinha se acostumado com Renaud fazendo aquilo mais de uma vez nas suas sessões anteriores, como se ele precisasse repetir para assimilar. Daquela vez ao menos o rapaz tinha certeza que podia depender dos amigos e que não queria ficar sozinho, o que era outro enorme avanço comparado a um Renaud de dois meses atrás, por exemplo. Só concordou com um aceno de cabeça para as conclusões que ele tirou e bastou ouvir o agradecimento para sorrir em resposta.

- O vejo em alguns dias, Renaud. Sabe onde me encontrar caso precise. - avisou, colocando-se de pé para sair do quarto, sentindo as pernas apenas um pouco dormentes por conta da posição que tinha ficado até então. - Cuide bem desses ferimentos.

Aleksei ainda pegou os remédios que estavam na sacola e os deixou de volta sobre a pia do banheiro antes de se despedir com um aceno breve para poder deixar o quarto e fechar a porta atrás de si. Ainda não havia muito movimento no dormitório, o relógio indicava que menos de uma hora tinha se passado, então era tempo suficiente para retornar ao seu consultório antes dos próximos alunos já agendados. A decisão de ir até o dormitório para visitar Renaud tinha sido bem acertada: ele precisava daquela ajuda e aos poucos, estava realmente se abrindo e se permitindo ajudar. Acima de tudo, se sentia plenamente satisfeito por poder ajudar o rapaz.

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[Drive] Off the Record [Aleksei; Renaud] - by Lil - 09-17-2021, 04:16 PM

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