09-21-2021, 12:53 PM
Leona
Não tinha palavras no momento para descrever tudo que tinha visto ou ouvido ao longo do dia, precisava gerenciar todas aquelas informações, repensá-las e reorganizá-las em sua mente, para só então poder registrar, mapear, planejar e agir. Estava tantos passos atrás naquela investigação, que o caso todo estava assumindo níveis muito delicados, onde precisaria agir com mais cautela. Tinha tantas coisas pra por em andamento na delegacia, desde checar as gravações cedidas pelo condomínio do diretor St. Clavier, a investigação que agora não seria mais sigilosa, e precisaria de uma equipe competente para dar conta do trabalho, os testes da perícia e os dados que ainda esperava chegar do banco de desaparecidos da França pra identificar o dono do olho. Tantas coisas, e isso tudo, ciente da realidade que por todos esses dias e até semanas, o maníaco estava reconhecendo a cidade, e conhecia aquele lugar o suficiente para dar trabalho.
Era um cenário todo novo para Leona, lidar com um caso de alto nível, com um psicótico de alto nível de periculosidade dado o treinamento dele, estando em um departamento pequeno que mal dava conta de lidar com os problemas de furto da orla da cidade. A loira estava sentindo a garganta coçar e não era por sede, precisava fumar e por tudo em ordem.
Claro, que não conversou com Carissa durante o caminho até o apartamento, estava mais intrigada com os próprios pensamentos, e a morena mais nova, também não acrescentou nada durante todo o trajeto, em dias normais, estranharia o silêncio prolongado dela, mas no estado de alerta em que estava, só conseguia pensar nas coisas que tinha de fazer - que não eram poucas.
Quando finalmente chegaram ao complexo domiciliar de kitnets onde viviam, a loira tomou ciência que por aquela noite precisaria dormir, ao menos para está suficientemente produtiva para lidar com o volume de trabalho a qual estaria responsável no dia seguinte. Logo que chegaram no apartamento, a loira tirou os sapatos e respirou fundo, Kitty ao ouvir o barulho de chave já tinha descido do sofá e estava buscando uma das pernas para se esfregar, recepcionando as duas com miados:
-- Carissa, se quiser tomar banho primeiro, eu posso por comida pro Kitty, não vou trabalhar noite adentro, preciso dormir, pra dar conta de amanhã. -- a loira comentou com muita casualidade, sabia que tinha dito que explicaria tudo a Carissa, mas imaginava que tal como ela, a mais nova estivesse cansada e quisesse somente dormir, no outro dia, tomaria tempo para explicar as coisas sobre a investigação em andamento.
Carissa
O dia tinha sido muito mais cheio do que Carissa tinha pensado. A semana inteira tinha sido cheia e confusa, especialmente com o modo de Leona que, inicialmente, achou que era pura TPM. Mas a loira estava dedicada a algum trabalho específico, e um trabalho que logo descobriu que não era tão simples quanto parecia. Além de investigar fichas de criminosos de alta periculosidade - e que nem pareciam franceses -, ela estava já no meio de uma investigação em que duas pessoas chegaram ao ponto de ser ameaçadas de morte. E pra completar, tinha precisado inclusive da ajuda de Jack. Podia estar virada de raiva achando que ela estava só flertando com o loiro, mas depois da cena ridícula na delegacia em que ela tinha acesso a algumas fichas de criminosos americanos... a irritação com a presença de Jack era só superficial. "Eu não sou tão burra quanto você pensa, idiota", resmungou consigo mesma enquanto voltava para casa naquele fim de noite, depois de longos relatos que só lhe deixaram mais irritada. Irritada especialmente porque estava preocupada.
Não comentou nada no caminho nem para irem ver o tal Dr. Vlahos, que era a vítima principal do criminoso, nem no caminho para a residência do tal Vivien St. Clavier, que tinha também sido uma vítima colateral daquele quadro de psicopatia que Cerise certamente não tinha visto desde sua fundação. Tudo o que escutou lhe deixou bem alerta que a saída de Leona naquela mesma semana até St. Clavier estava relacionada já com o início da investigação... e agora só estava descobrindo aquilo por causa de um acidente com as fichas de suspeitos e isso lhe deixava furiosa. Tão furiosa que não comentou mais nada no caminho até o apartamento, a cara fechada.
Seguiram até o apartamento e Leona entrou primeiro, mas só deu tempo de passar a porta e fechá-la de chave, passando a corrente da trava para ouvir o comentário muito casual da loira para que fosse tomar banho e que ela precisava dormir.
- Tomar banho uma ova! Você, sentada, agora! - falou com a loira como se ela fosse uma criança, indicando o sofá e pouco se importando se morreria por causa disso. Até pegou Kitty com uma das mãos para tirá-lo do caminho, parando diante de Leona com uma expressão irritada que a loira tinha visto poucas vezes, mas que para o seu usual, deveria ser só engraçado. - Você precisa dormir? Você precisa é sentar e me ouvir, isso sim! O que estava na cabeça que passou a semana toda no meio de uma investigação criminal com um psicopata perigoso e não pediu ajuda? O que você acha que é?! Liam Neeson tentando salvar a filha de mafiosos?! Você sumiu sozinha no meio da semana pra ir em St. Clavier resolver um assunto específico que o chefe de polícia pediu, voltou e não falou nada, só enviou um olho pra avaliação no laboratório. Você acha que eu não ia saber?! Eu sei de tudo que fazem nessa delegacia, porque sou eu que trabalho com tudo aqui! E não bastasse isso, aquela cena toda do Jack lhe passando informações sigilosas pra te mandar um monte de suspeitos que não tem ficha aqui em Cerise?! E pra completar, se eu não estivesse lá quando você ligou pra o Dr. Vlahos, ainda não saberia a que nível isso chegou. Tem um psicopata na cidade e você já estava investigando sozinha! Você odeia tanto trabalhar aqui em Cerise que quer morrer ou está tentando dar uma de super herói?! Nós somos policiais, ninguém aqui trabalha sozinho, não importa o quão competente você acha que é! E eu sou sua parceira, como acha que eu ia ficar se você se metesse de novo com esse cara aí, super perigoso, e só recebesse depois o chamado da emergência que você foi morta no meio do caminho?! Você não tem juízo nessa sua cabeça oca não?! Todo o espaço no seu cérebro foi ocupado com os milhões de formação que você tem?!
Leona
A loira estava pronta para tirar a noite de descanso, afinal, com o volume de informações que tinha recebido precisava de tempo para organizá-las em sua mente, mesmo com sua boa memória natural, por hora estava com a mente pesada e uma secura na garganta que só lhe remetia a vontade iminente de fumar. Tanto que para uma perfiladora de carreira como Leona era, ter deixado passar o estado de humor de Carissa apenas deixava bem claro que a loira não estava mais tão atenta quanto mais cedo, e que o cansaço mental lhe pesava.
Se sobressaltou erguendo o rosto quando Carissa lhe deu uma sequência de indicações, em tom de ordem, e não tinha qualquer disposição para ir de encontro, talvez deixando que ela falasse de uma vez, a morena se desse por satisfeita e finalmente fossem descansar. Mas o que Leona pensou que fosse uma reclamação curta, se estendeu em um longo discurso, mais parecia que Carissa estava dando uma bronca em algum de seus sobrinhos.
Não podia negar que em várias coisas que eram ditas, estavam certas, pra começo de conversa nem tinha uma filha pra resgatar como o tal Liam Neeson que ela falava e não sabia quem era, portanto não tinha como achar ou ser ele. E não estava de todo sozinha já que tinha sido uma ordem direta do chefe de Polícia, tinha o apoio dele pra fazer aquele reconhecimento do caso.
Concordou e discordou de muita coisa no meio do caminho, mas ela falava tão atropeladamente que não estava em seu melhor momento para acompanhar. Então apenas resumiu tudo que queria dizer a um breve comentário:
-- Era uma investigação sigilosa. -- não que esse argumento servisse pra justificar tudo, mas era a diretriz que estava seguindo para tomar decisões, agora o caso iria assumir outro rumo, precisaria de uma equipe, então poderia explicar tudo em todos os detalhes, in- ou felizmente, Carissa estava lá conforme ia descobrindo as coisas e não podia simplesmente deixa-la para trás. Bem, se o argumento estivesse sendo usado a risca, até poderia, mas tinha escolhido não fazer. Paradoxo que lhe dava dor de cabeça.
Carissa
Estava realmente irritada com a atitude da loira, mas tão logo despejou tudo nela, começou a se sentir um pouco mais leve. Bom, até ouvir a resposta bem direta e simples de Leona de que era uma "investigação sigilosa", o que lhe fez encher as bochechas de ar em ainda mais irritação e indignação.
- Sigilosa?! SIGILOSA?! Sigilosa meu--!! - mordeu os dentes, irritada, fechando as mãos em punho ao lado do corpo e curvando o corpo na direção dela, as mãos apoiadas nos quadris de novo como se fosse uma mãe reclamando com o filho. - Você não conseguiria ser sigilosa nem se passasse por um treinamento inteiro com o Jack de como esconder as emoções, sabia?! Você pode ser uma ótima perfiladora do FBI, mas eu não tenho notas excelentes nas matérias de criminologia por nada também! Acha que eu não sei quando está fazendo alguma coisa diferente?! Eu sei até quando você fica aí se remoendo inquieta no apartamento porque quer assistir alguma coisa, mas eu estou vendo os meus seriados. E como você fica toda se limitando nos cantos porque está morando no meu apartamento e não no seu e não pode ser muito exigente aqui. Desde o minuto que você entrou na sala do chefe de polícia, eu sabia que tinha alguma coisa errada. E não é muito difícil saber que foi em St. Clavier porque os carros têm GPS, gênio! Eu posso listar todas as suas tentativas frustradas de esconder que estava fazendo uma investigação sigilosa e contar nos dedos de uma mão! Não fique me tratando como idiota só porque eu trabalho numa delegacia no interior da França e não sou personagem principal de nenhum filme policial americano que nem você! - retrucou, cruzando os braços irritada, ainda encarando-a com a mesma expressão frustrada. - Mesmo que fosse sigilosa, você devia ter falado comigo, devia ter no mínimo retrucado com o chefe pra dizer que não podia seguir nessa investigação sozinha e que precisava de reforço, é pra isso que policiais trabalham em dupla! Se fosse só pra arquivar BO em dupla, seria fácil demais! Mas isso você não pensou em fazer, não é? Porque é egoísta demais e só pensa em fazer as coisas sozinha pra poder sair daqui o quanto antes. Eu sei que você não gosta daqui, mas mesmo que você não goste da cidade, nem de mim, nem de ninguém, não vai morrer comigo por perto! E nem se meter no trabalho sozinha! Será que ficou fácil de entender assim, ou quer que eu desenhe?!
Puxou o ar com força, cansada da própria série intensa de palavras. Mas tinha atingido o seu propósito de deixar as coisas bem claras, isso se ela não desatasse a dar alguma desculpa que lhe deixasse muito irritada também. Nem considerou o fato de que talvez conseguisse ler mais reações de Leona porque ela podia estar mais acostumada com a sua presença, de qualquer modo, não tirava crédito da sua capacidade de leitura - em contraponto, também estava bem mais acostumada aos maneirismos da loira, afinal, se aquela situação tivesse acontecido quando ela chegou à delegacia, jamais teria chegado àquelas conclusões tão rápido.
Leona
E imaginava que seu comentário fosse despertar mais reações da mais nova, mas não esperava que ela chegasse perto de lhe xingar diretamente, e conforme ela foi lhe jogado que não estava sendo sigilosa, aquilo lhe deixou mais pensativa sobre as próprias reações, sobre as próprias decisões, mas não imaginava que qualquer pessoa estivesse realmente preocupada naquela delegacia com o que andava investigando. Exceto claro, pelo fato que Carissa era a única oficial que realmente trabalhava, devia ter questionado as decisões do chefe de polícia, já tinha feito isso antes ao propor uma revisão nas estatísticas criminais da cidade, mas não tinha questionado o pedido do chefe de polícia.
Estava em verdade ficando com uma dor de cabeça ainda mais forte, e franziu o cenho, parecendo irritada, mas não estava com raiva de Carissa diretamente, e sim de como a situação tinha se desenvolvido até chegar naquele ponto. E encarou a morena mais nova com bem menos intensidade do que normalmente encararia em outros dias em que elas discutiram por questões mais triviais:
-- Não é questão de gostar ou não gostar, não reduza minhas conclusões a questões passionais -- Encarou a mais nova, com um olhar severo, estava séria mas não estava brigando com a mais nova: -- e mais, eu não sou uma personagem, eu não sou uma caricatura de um policial pra protagonizar um seriado Carissa. -- Comentou massageando as têmporas com uma das mãos: -- Eu tomei as decisões baseado no meu julgamento no momento em que as situações chegaram, porque julguei que era o melhor a se fazer para o possível caso que poderia ou não se desenvolver. Agora se foram as melhores decisões, as mais efetivas, ou as mais justas, isso é um processo. Ou você acredita que tudo que eu faço é perfeito sem margem pra erro? Eu entendo tudo que está me dizendo, e concordo com parte, mas discordo também. -- respirou fundo, sabendo que a partir daquele ponto não tinha como fugir de continuar aquela discussão, queria chegar num meio termo, em um ponto de equilíbrio mas não parecia que iriam alcançar isso tão logo.
O ponto que mais martelava a cabeça da loira era: porque tinha evitado envolver Carissa na investigação? A julgava inteligente, a julgava capaz, não era? Porque estava deliberadamente evitando envolver Carissa em situações de risco. Afinal todo policial assume riscos de acordo com as demandas de sua profissão, se ela tinha assumido o risco de ser policial, não deveria tentar protegê-la, afinal isso seria uma decisão passional.
Carissa
Não ligou tanto pra expressão mais incisiva de Leona quando lhe disse tudo aquilo. Estava com os nervos à flor da pele e cansada, provavelmente por isso todo o seu senso de segurança tivesse ido pro saco ao resolver discutir com a loira e repreendê-la. Quando o sangue esfriasse, com certeza iria se arrepender muito daquela discussão, mas naquele momento, nem o olhar irritado alheio foi o suficiente para lhe deter quando ouviu aquela justificativa sobre as atitudes de Leona. Pelo contrário, só lhe fizeram inchar ainda mais de frustração.
- Tomou decisões "baseada no seu julgamento"? Eu não acredito que o seu julgamento seja assim tão errado. Você sabe por que motivo policiais trabalham em duplas! Você foi pra dentro de St. Clavier com um psicopata lá dentro que poderia ter feito alguma coisa com você e com os alunos porque não tinha reforços e nem avisou a ninguém o que tinha acontecido. Você devia ser mais competente que isso, não é?! Eu não estou dizendo que tudo o que você faz é perfeito, nem que não tem erro, mas errar numa coisa tão básica como essa?! Leona, você ia sair hoje pra ajudar aquele psiquiatra depois de uma ligação dele e sozinha. E se fosse uma armadilha? Você pelo menos considerou essa possibilidade? Se ele estivesse sob ameaça de vida por causa do agressor e estivesse só atraindo você pra situação? Esse tipo de erro não é uma coisa que um policial que está atuando há tanto tempo como você faz. - suspirou cansada da discussão, levando a mão até a testa e massageando as têmporas. - Eu me preocupo com você também, sabia? Dá pra parar de agir como se estivesse sozinha?
Suspirou longamente, cansada da discussão. Sentou-se na mesinha de centro só porque era o que estava atrás de si, apoiando os cotovelos nas pernas. Podia ter medo de Leona em geral, mas no fim das contas, já tinha se acostumado tanto com a presença da loira que a ideia dela no meio de uma investigação com um psicopata assassino sozinha lhe deixou muito mais incomodada do que as ameaças ilusórias dela sobre a sua vida.
Leona
Não via como aquela conversa poderia chegar a um ponto onde as duas chegassem em acordo do que estavam pensando, não totalmente, afinal eram pessoas com pontos de vista muito diferentes sobre o trabalho, e com experiências completamente diferentes. Não estava reduzindo a capacidade de Carissa, ou sequer estaria ouvindo tudo aquilo de bom grado, estava considerando a opinião da mais nova, e embora não a tivesse ouvido antes, estava fazendo isso agora. Mas não tinha como concordar com tudo, e aquele era o ponto em que iriam continuar discutindo aparentemente pelo restante da noite e madrugada adentro.
E claro, que como Carissa não sabia de tudo em todos os detalhes, ela não tinha como saber que da primeira vez que foi a St. Clavier, não tinha qualquer informação dada pelo chefe de polícia que o caso poderia envolver um psicótico, sabia apenas que tinha de ser sigiloso porque era em uma instituição renomada que não podia ter sua “aparência manchada”. E claro, tinha ido ao encontro do doutor Vlahos que era vítima e sim, podia ser uma armadilha, naquele ponto não tinha do que se desviar. Tinha quebrado leis pedindo ajuda de Jack que mesmo sendo um agente, não estava em sua jurisdição e não podia ser envolvido no caso, e nem sabia o quanto aquilo tinha lhe custado, mas precisava de mais informações do que uma nota que o suposto serial estava morto.
A verdade é que só conseguiu andar naquele caso porque Carissa tinha encontrado pessoalmente com o sujeito. O que era algo preocupante, visto que sendo um sujeito altamente treinado ele provavelmente tinha em mente quem a oficial era, podia ter tantas ou mais informações sobre a cidade, os postos de trabalho e tudo mais. E a visita ao apartamento de Vivien era o que colocava tudo aquilo em cheque, como se já estivessem tão envoltos naquela construção feita pelo psicótico que restavam poucas saídas para tomar decisões:
-- Você quer que eu diga o quê, afinal? Que tudo que estou fazendo até o momento é errado pelo fato de não ter lhe envolvido nisso? -- Leona só podia se manter encarando, não tinha qualquer outra expressão para deixar transparecer, estava séria, e cansada, e não estava errada em tudo, ter de admitir aquilo era errado em sua cabeça. E a última sentença de Carissa não lhe fez ficar necessariamente feliz, mas estava pensativa:
-- Se quer me ouvir admitindo erros, tudo bem, eu cometi vários equívocos. Mas não julgue como se soubesse como eu me sinto em relação ao meu trabalho como policial, ou a esta cidade ou em relação a você. -- a loira levou as duas mãos ao rosto, esfregando o mesmo, como se estivesse pondo as ideias no lugar a medida que ia pondo-as para fora -- Você está reagindo também Carissa, agindo sem pensar propriamente falando, pode não ter se dado conta, mas você gritou comigo, não é você que tem medo de uma suposta morte encomendada por mim? Fica sussurrando isso pelos cantos, ou mesmo falando que vai morrer enquanto dorme. Mas estar preocupada não lhe impede de agir como uma pessoa impulsiva no fim das contas, mesmo que esteja cobrando de mim para que eu não aja impulsivamente. E não estou lhe acusando de hipocrisia, longe disso, estou apenas destacando que esse é um comportamento reincidente de pessoas que trabalham sozinhas, porque estão preocupadas em não envolver outras pessoas em riscos. -- Respirou fundo, erguendo o olhar para encontrar o de Carissa em sua linha de visão, agora que a mais nova estava sentada na mesa de centro: -- eu posso tentar lhe vender a imagem de que tudo que faço é plenamente racional, tudo milimetricamente pensado, como um robozinho altamente eficiente, mas eu tenho sim uma parcela bastante passional, como você mesma apontou, baseado da nossa convivência aqui, e é por isso que eu estou aqui, na França, e não nos EUA, porque se envolver alguém com quem eu me importo, eu vou quebrar leis, eu vou passar por cima do que for necessário pra poder chegar no meu objetivo. Eu não estou agindo sozinha porque eu desconsidero sua capacidade como oficial, eu faço as coisas desse jeito, principalmente porque eu me preocupo… com você.
Era contraditório, daquela forma parecia subestimar a capacidade de Carissa de reagir a uma situação de perigo, mas em verdade depois do dia no hospital, das reações dela a um tiroteio, não queria ter de passar por aquela preocupação de novo, mesmo sabendo que isso é parte da rotina de um policial. Tinha receio que dessa vez, Carissa se machucasse de verdade, e se na sua cabeça tinha condições de levar a investigação sozinha, ou por seus meios, não iria querer envolvê-la nisso. Só não tinha imaginado o tanto de carga emocional que isso colocava sobre a morena mais nova, já que não esperava que ela de fato, se preocupasse de volta.
-- E se dessa vez, você se machucar de verdade? se não for só um susto? -- A loira acenou negativamente, como se não quisesse dar voz aos pensamentos, e pensar naquilo tudo lhe deixava com muita dor de cabeça.
Carissa
Leona não parecia muito interessada em retrucar no começo, mas à medida que lançava as acusações sem pensar duas vezes, a loira ia ficando mais alerta à cada uma de suas palavras. Pelo visto, a necessidade dela de lhe contrariar era maior do que a força que tinha restado depois do dia cansativo e da semana longa de investigações. Quase rodou os olhos quando ela perguntou o que queria que dissesse, franzindo o cenho em irritação, mas ainda assim, mantendo o semblante mais sério.
Até abriu a boca para responder, mas surpreendentemente, a americana foi mais rápida em continuar o discurso lhe refutando em todas as palavras que tinha lançado. Abriu e fechou a boca algumas vezes, o rosto acompanhando as expressões de quem queria responder o que ela estava dizendo, mas sem coragem de interrompê-la. “Eu estou mesmo agindo sem pensar, mas o que é que eu ia fazer...? T-tá que eu não fui discreta quanto a achar que você ia me matar, mas... eu até sou impulsiva às vezes e…”, interrompeu a própria linha de pensamentos quando ela chegou ao momento no discurso em que admitia estar preocupada em envolver outras pessoas em riscos. Não achava que Leona era uma pessoa robótica e sem sentimentos. Perigosa, sim, com certeza. Ameaçadora, absolutamente. Mas por mais que ela mantivesse a aparência, podia notar algumas reações passionais que tinha percebido mais depois da convivência no dia-a-dia.
Mas ficou verdadeiramente surpresa quando ela admitiu que se preocupava consigo. Ficou tão surpresa que não conseguiu responder de imediato, até ela mesma retomar a linha de raciocínio sobre a possibilidade de se machucar de verdade. Pela primeira vez desde que Leona chegara em Cerise... ela parecia só uma adolescente muito confusa. Acabou sorrindo com o pensamento, até o sorriso se tornar uma risada um tanto mais leve.
- Eu não vou me machucar. Você é orgulhosa demais pra deixar alguém se machucar no seu turno. - respondeu, apoiando então o queixo numa das mãos, encarando Leona de perto pela posição. - Eu não sou tão competente em campo, mas... eu prefiro saber no que você está metida do que ficar no escuro. Eu sirvo pelo menos pra pedir reforço. E só pra constar, eu não quero que admita que errou, só quero que diga que não vai fazer de novo.
Respirou fundo, a cabeça mais leve por ter descarregado todas aquelas palavras em Leona. Ajustou a postura, apoiando as mãos nas pernas e esperando ao menos alguma resposta dela.
- Eu acho que vou fazer café, você quer?
Leona
Estava seguindo uma linha de pensamento bastante conturbada em sua cabeça, mas que era bem clara em alguns aspectos de preocupação com o trabalho e principalmente com a oficial que era sua parceira de trabalho e de dia-a-dia. Não sabia o quê exatamente de todas as coisas que tinha dito, tinha mudado o rumo da conversa, e após a risada de Carissa ficou momentaneamente sem reação, como se não esperasse aquele gesto, como se ele não fosse cabível naquele cenário.
Mas no fundo, sentia-se tremendamente aliviada que o estado de humor da morena mais nova tinha mudado, entre tudo que tinha dito, mesmo que de forma “impulsiva” reagindo ao momento, tinha servido para que entrassem em um consenso. Certamente nunca iriam concordar 100% em suas decisões, principalmente no que se refere ao trabalho, mas poder entrar em um parâmetro de meio termo, num consenso de fato, era bom.
Deixou o ar escapar entre os lábios em um suspiro, e desmanchou a expressão mais séria, deixando-se contagiar pelo clima mais leve, estava tensa e cansada, e precisava realmente tirar aquele “peso” dos ombros, de não estarem bem, se não estavam bem, não tinha como o trabalho das duas sair bem: -- certamente que não. -- observou a menor quando ela lhe pediu que prometesse não deixa-la mais no escuro durante as investigações: -- ...não vou. -- respondeu sucinta, levando as duas mãos aos cabelos longos que ainda estavam presos para pode desmanchar o penteado e finalmente se deixar descansar.
Observou enquanto Carissa se preparava para levantar, lhe oferecendo um café, então acenou positivamente: -- em verdade, eu preciso de um chá pra relaxar, precisamos descansar, vai ser um dia longo, longo como aquela delegacia jamais viu. E nós duas temos muita coisa pra fazer. -- apontou para si mesmo e para Carissa a sua frente, para reforçar a ideia de que iriam trabalhar juntas naquilo. Levantou-se em conjunto com a mais nova e a acompanhou até a cozinha.
Carissa
Leona pareceu relaxar ao fim da conversa e aquilo lhe deixou mais aliviada também. Concordou apenas com um aceno de cabeça para o chá e em um par de passos, as duas já estavam na cozinha para dormir logo em seguida. O dia tinha sido realmente cansativo, especialmente para Leona, então o sono seria longo.
Não demoraram muito na cozinha, mas ao menos Carissa estava se sentindo mais leve. Por brigar com Leona - com coragem sabe-se lá de onde -, e por ter uma resposta positiva dela que não fosse uma indicação de que estava tentando lhe matar como em suas fantasias mais corriqueiras. A despeito de toda a confusão que o dia tinha sido... estava feliz por conseguir ter a sinceridade da loira, ainda mais ao saber que ela realmente se importava. Era uma sensação estranha e muito bem-vinda.
Em menos de meia hora, as duas já tinham passado do banho para a cama e achou que teriam um bom descanso até ter que voltar ao trabalho, mesmo no sábado, para dar continuidade à delegacia. Seus planos foram interrompidos no meio de um sonho muito animador com cenas de seriados americanos em que ela era a heroína para o som insistente de batidas distantes. Achou que era ilusão, mas abriu os olhos para confirmar que o som estava vindo provavelmente da porta de entrada do apartamento. Esfregou os olhos para acordar melhor, constatando o horário no relógio de cabeceira ainda em 4h10. Olhou para Leona, dormindo no mesmo quarto, ela com certeza teria sido a primeira a acordar com o barulho, mas devia estar exausta.
Teria ido conferir quem era o visitante inquieto, mas a perspectiva nova de que estavam investigando um psicopata não lhe deixou muito corajosa. Engoliu em seco, ouvindo mais batidas insistentes e aquela foi a deixa para ir até Leona, que já se remexia na cama - provavelmente em resposta às batidas distantes também -, para empurrá-la de leve pelo ombro. Carissa estava bem encolhida ao lado da loira, agarrada ao próprio travesseiro.
- Leona? Tem alguém batendo na porta... - anunciou à loira, esperando alguma resposta mais corajosa para a novidade na madrugada.
Leona
No fim das contas o clima tinha realmente amenizado, e estava satisfeita e insatisfeita, sabia que tinha cometido muitos deslizes, e tinha tomado muitas decisões que poderia ter sido melhor elaboradas, mas sabia lá no fundo que parte de tudo isso girava em torno da preocupação constante de que ninguém se machucasse, principalmente para que Carissa não se machucasse, e aquela perspectiva de que ao menos a mais nova tinha entendido e aceitado aquele ponto, era o que lhe deixava mais satisfeita ao final de uma conversa onde saía como a “errada” da situação.
Não demoraram muito na cozinha ou para se preparar para dormir, e de fato, logo ao deitar na cama, a loira pegou no sono, pesado, precisava de tempo para descansar a mente e reorganizar as informações, certamente de manhã teria uma perspectiva nova sobre o caso, e sabia que podia contar com os pontos de vista de Carissa sobre o assunto. Mas sua noite de sono não foi tão longa quanto esperava que fosse, em algum momento durante o sono profundo, sentiu pancadas, vibrações como se algo se chocasse, e antes que pudesse tomar forma de um sonho, sentiu o toque sobre o ombro e a voz conhecida lhe chamando. Teve um pequeno delay para se virar e reagir ao chamado de Carissa, abrindo os olhos devagar, e antes que pudesse compreender as palavras ditas, mais uma sequência de batidas na porta lhe chamaram a atenção e lhe despertaram ao fato de que tinha alguém na porta.
Se sentou, e esfregou o rosto tentando afastar o sono da expressão, em seguida fez um gesto para que Carissa lhe desse espaço para finalmente levantar, estava usando uma calça longa de malha fina que lhe cobria os pés e arrastava no chão: -- vou lá, ver quem é… -- não tinha qualquer nome em mente, e imaginava que fosse algum vizinho, como era de costume, seguiu em passos rasteiros, até pesados mas que eram apenas sinal de que ainda estava cansada fisicamente, e faziam algum barulho no apartamento silencioso, Kitty se mexeu no sofá, quando ouviu o barulho de Leona caminhando até a porta em tempo de ouvir mais uma sequência de batidas insistentes:
-- Já vai! -- A loira adiantou o comentário, para seja lá quem estivesse do outro lado da porta, mas não abriu de pronto, como normalmente faria, olhou pelo olho mágico para dar de cara com a figura do amigo de longa data: -- Ah, é você…! -- foi a reação da loira, e não tomou muita atenção na expressão ou no que o loiro trazia, já o tinha reconhecido e se estava batendo a sua porta, precisava de ajuda com alguma coisa.
-- É o Jack! -- Adiantou para Carissa quem era, em tom que ela pudesse escutar de onde estava, enquanto se ocupava de tirar as trancas e destravar a porta. Quando finalmente abriu a porta para dar passagem ao loiro: -- Desculpe a demora, eu estava dorm-... -- sua atenção mudou de pronto, ao notar que ele não trazia uma bagagem, e sim alguém nos braços, pra ser mais específica, uma criança pequena. Não sabia ainda o que tinha levado Jack a estar ali com uma criança no colo, mas com certeza estava começando a ter urgência em entender o que estava acontecendo.
Jack
Jack já tinha irritado Leona uma enorme quantidade de vezes na longa convivência dos dois. Desde ligações no meio da madrugada para que ela conversasse com alguma prostituta sem formação no ensino médio, até batidas na porta às quatro da manhã para saber se pinguins viviam no pólo norte ou sul, e visitas inesperadas com a cara e o resto do corpo quebrado. Todas as vezes eram bem comuns especialmente quando reagia com a mesma atitude malandra de sempre e era bem sucedido em irritar a loira e se divertir.
Naquela noite em Cerise, particularmente, o caso era diferente. A viagem a Paris tinha sido bem breve, as informações foram úteis até certo ponto, mas o que trouxera para Leona não tinha sido uma pergunta básica de matemática. O "pacote" em seus braços era bem maior do que Leona certamente poderia engolir... mas era maior até mesmo do que as suas mãos conseguiam segurar. Apenas não tivera a capacidade de ignorar aquela criança no meio de suas investigações e numa cena que lhe remeteu a certas memórias que estavam tão enterradas que nenhum dos seus amigos mais próximos sabiam do que se tratava. E talvez, nenhum deles já tivesse visto uma expressão tão pesada como aquela ao encarar uma Leona sonolenta no meio da madrugada.
Jack forçou um sorriso provavelmente pela primeira vez para a loira a sua frente. Mas estava cansado e sabia que não havia ninguém mais que poderia lhe ajudar de verdade naquela situação.
- Você disse que eu podia cobrar o que achasse suficiente, não era? - perguntou, tentando forçar um tom despretensioso, ajustando o garoto em seus braços com cuidado para que ele não acordasse do sono profundo, com a cabeça deitada na curva do seu pescoço. - Nós precisamos mesmo de um lugar pra dormir…
Leona
A primeira reação de Leona foi observar o estado da criança, porque aquilo era bem mais do que qualquer brincadeira que o amigo de longa data já tivesse lhe aprontado. Certamente o outro podia ter seus desvios de conduta, mas uma criança certamente não seria uma “brincadeira” para Jack. E teve a confirmação quando observou ele sustentando um sorriso forçado, quando já o tinha visto forçar um sorriso? Certamente não muitas vezes, e nenhuma das situações anteriores se comparava com o tipo de tensão que sentia em cada gesto do outro. Se podia perceber todas aquelas coisas estando cansada como estava, então era porque a situação era muito delicada até para passar a densa e espessa camada de bloqueio pessoal que o loiro gostava de sustentar.
-- Entre. – deu espaço para que ele e a criança em seu colo entrassem no apartamento: --Você sabe que eu sempre cumpro com as coisas que falo. – afirmou para o outro que: sim, ele tinha nela um lugar pra chamar de seguro, para os dois no caso, ele e a criança. A loira não queria estar analisando os trejeitos e falas do amigo de longa data, no entanto, primeiro: seu sono tinha ido embora diante da visão inédita da aparência de Jack, estava agora muito alerta a tudo que o outro lhe dissesse ou fizesse. E segundo: era complicado simplesmente ignorar os sinais, quando estava tão claro na fala dele, que ele precisava daquela “confirmação” que independente do que fosse, teria o “apoio” necessário para o que estava fazendo. Muito embora, diferente de outras noites, onde prestaria a ajuda sem perguntar do que se tratava, imaginava que Jack sabia que se estava levando um menor para a casa de duas policiais, ele teria de prestar alguma explicação sobre aquilo.
Leona terminou de fechar a porta, trancando-a novamente, e depois se voltou para o corredor que dava acesso aos quartos, e se aproximou de onde provavelmente Carissa ainda estava: -- Carissa...! – chamou pela mais nova em tom mais reservado para não causar alarde a criança com as vozes estranhas: -- você pode por favor arrumar a minha cama para a criança? Ele vai descansar melhor em uma cama do que no sofá, ou no ombro dele – pediu sem acrescentar qualquer explicação adicional. Muito embora encarasse a menor com uma seriedade que era diferente da que a loira sustentava no trabalho. Leona estava tensa, mas não estava escondendo isso de Carissa, estava pedindo ajuda dela, para lidar com aquela situação nova, e esperava que ela notasse isso sem precisar por em palavras:
-- e bem... – a loira fez uma breve pausa, respirando fundo, se virando para observar o loiro mais alto: -- nos dois temos muito que conversar pelo visto.
Jack
Se Leona ainda estava sonolenta de ter sido acordada tão tarde da noite, com certeza o sono tinha acabado ao lhe encarar de volta. Jack estava tão imerso nos próprios pensamentos e no cansaço que mal prestou atenção numa Carissa curiosa que estava a alguns passos de distância da loira, no fim do corredor que conseguia ver além da porta aberta. Entrou depois da autorização dela, mais satisfeito de ouvir que teria a ajuda que precisava naquele instante. Carissa estava lhe encarando com uma curiosidade excessiva de quem queria, com certeza, fazer uma série de perguntas, mas não produziu nenhum som e nem Jack teve condições de retrucar com alguma piadinha como estava acostumado. Na verdade, ele apenas olhou ao redor, procurando um lugar em que pudesse se sentar ou ao menos deixar o garoto em seus braços deitado, ele precisava descansar bem mais. Antes que pudesse perguntar a Leona onde o menino podia ficar, ela foi mais rápida, pedindo para que Carissa arrumasse a cama. A morena apenas concordou com um aceno de cabeça e seguiu direto para o quarto, ao que Jack apenas a acompanhou com o olhar a tempo de ouvir o comentário mais direto de Leona.
De novo, Jack devolveu com um sorriso cansado, embora fosse bem menos forçado do que ao abrir a porta.
- Você não vai nem me deixar descansar, Kitty? - perguntou, desviando o olhar para o quarto em que Carissa tinha sumido. Num gesto automático e quase instintivo, pressionou um pouco mais a mão sobre as costas do rapazinho que usava uma camisa sua muito grande, como se pensasse duas vezes em deixá-lo dormindo na cama confortável ou continuar segurando-o como tinha feito praticamente o caminho todo até ali. Mas soltou o ar num suspiro pesado, bem a tempo de Carissa aparecer no fim do corredor, ainda estranhamente contendo o monte de palavras que costumava falar. - Vou deixá-lo na cama, ele precisa mesmo descansar.
Jack passou até o quarto, agradecendo Carissa no caminho com um "obrigado" sem som. Abaixou-se ao lado da cama e, com cuidado, colocou o garoto deitado ali. O terno que o cobria foi substituído pelo lençol, mas ainda assim, deixou a peça de roupa ao lado do menino, ajustando os cabelos desalinhados dele e demorando bem mais que o necessário para se levantar e deixar o quarto. A camisa social bem alinhada dentro da calça e marcada por um coldre no tronco estava na sua cor da sorte naquele dia... mas não sabia exatamente como medir aquela "sorte" que tivera.
Voltou para a sala esfregando os olhos e pressionando o espaço entre eles, tentando se manter um pouco acordado, olhando ainda para a porta entreaberta do quarto onde o garoto estava dormindo. Mas finalmente voltou a atenção para Leona, retomando aquele sorriso malandro e cansado.
- Então, noite bonita, não é?
Leona
Não tinha como mensurar naquele momento a importância de Carissa poder ser uma pessoa controlada, e principalmente de poder contar com ela, pra lhe ajudar a lidar com todo aquele quadro inédito, era bom no fim das contas, poder confiar em alguém. In ou felizmente a cabeça da loira estava trabalhando no momento em avaliar o estado do amigo de longa data, e quanto mais observava, mais suposições se formavam em sua mente. E isso só lhe deixava cada vez mais apreensiva com toda a situação.
-- uma coisa por vez. – a loira não era de fazer brincadeiras, e nem de respondê-las, mas a única coisa que podia pensar sobre o assunto, é que não tinha como dar conta de todos os problemas e demandas que surgiam simultaneamente, então restava declarar, que cada coisa seria resolvida, uma por vez. Embora imaginasse que no estado que o outro estava, a última coisa que ele iria fazer, era descansar, mesmo que tivesse a oportunidade para tal.
E enquanto Jack deixava a criança no quarto para descansar, Leona se aproximou de Carissa e falou em tom reservado, principalmente para não acordar a criança, que parecia minúscula em uma das camisas do amigo, e o fato da criança não ter roupas próprias já lhe dava mais sinais de preocupação: -- Carissa, eu preciso que você fique de olho na criança, eu não sei como ele pode reagir quando acordar, e depois, nós duas conversamos, certo? – esperou qualquer confirmação da morena mais nova, não tinha como evitar que ela escutasse a conversa que teriam na sala do apartamento, mas também não queria deixar a criança sozinha, ela parecia pequena e fragilizada, acordar em um lugar estranho com pessoas estranhas já é suficientemente assustador, quem dirá acordar sozinho. A preocupação de Leona girava ali, na criança trazida, em não abusar da ajuda de Carissa, e principalmente ser capaz de ajudar o Jack no que ele tivesse se metido daquela vez.
Retornou a sala, quando o loiro mais alto fez o mesmo, notando a camisa social, e o coldre. E se ele estava andando armado, em outro país, ele certamente não estava a passeio. Ele estava a trabalho, muito embora sendo americano e estando em outro país, ele não poderia estar circulando assim tão abertamente, se fosse simplesmente um caso da narcóticos americana, isso geraria um conflito internacional com a França. A menos que todo o caso, seja de fato internacional e esteja sendo dirigido por um órgão apropriado para crimes desse tipo. Leona observou o comentário de Jack, que era tão inteiramente o tipo de comentário que ele faria, que aquilo só indicava que ele estava querendo se defender da loira, de suas perguntas e de todo o resto. Não podia negar que era um comportamento natural, se defender, mas não estava ali para “ataca-lo”, queria de fato ajudá-lo e só poderia fazer isso se ele se deixasse ser ajudado:
-- Sente, não vamos conversar em pé. – a loira indicou o sofá e se sentou na poltrona a frente dele, as mãos repousadas sobre as coxas, o olhar atento: -- E como sempre, você tem opções Jack, você pode tentar um jeito de explicar as coisas até onde conseguir, ou eu posso tirar todas as conclusões sozinha.
Jack
Mesmo no estado cansado, Jack podia ver a curiosidade de Carissa sendo contida quando Leona lhe pediu para cuidar do garoto. Mas a morena não protestou, deixou-os a sós na sala e ficou no quarto para manter vigia sobre o menino que era uma novidade e tanto para os três ali. Jack sequer percebeu a própria inquietação, até Leona lhe indicar para que se sentasse no sofá. Suspirou e fez o que ela disse, sentando-se no sofá e finalmente relaxando um pouco. Apoiou um dos braços no encosto e só com o movimento foi que se tocou do desconforto do coldre, para perceber como tinha sido imprudente aparecer para Leona já cansado, com uma criança e tão arrumado como ela sabia que ele não estaria numa viagem de passeio. Mas a loira também não era idiota para achar que ele estava há tanto tempo em Cerise apenas de férias.
Tirou o coldre para sentir os braços mais livres, desabotoou os primeiros botões da camisa e arregaçou as mangas. Deixou a arma ao lado no sofá, durante o longo processo, evitando obviamente encarar Leona.
- Não é justo tirar as coisas de mim nesse estado, Kitty, golpe baixo... - disse, finalmente levantando o olhar para a amiga, o braço sobre o encosto do sofá e a cabeça apoiada na mão. - Desse jeito, com o seu treinamento, até eu sou um livro aberto.
Suspirou longamente, desviando de novo o olhar de Leona e instintivamente olhando para o lado, como se pudesse ver a porta do quarto ou atentar para qualquer som infantil que viesse de lá.
- Mas, bom, não dá pra fugir de uma explicação desse tamanho... - fez um aceno breve com a cabeça, para indicar obviamente o garoto que tinha trazido de pacote. - Eu ia contar, cedo ou tarde, mas já ficou bem óbvio que estou trabalhando oficialmente aqui agora. - indicou o coldre ao seu lado no assento. - Eu vim nas minhas férias, de fato, mas já tinha cuidado da transferência antes de sair dos EUA. Agora estou trabalhando para a Interpol, e eu estava no meio de uma investigação em Paris... algumas horas atrás.
Leona
Queria dizer que não estava tirando informações de Jack a medida que conversavam, mas estaria mentindo descaradamente, era de sua natureza observar e avaliar, principalmente em situações de crise. Claro que reduzia a intensidade dessa avaliação, quando na presença dos amigos, tinha aprendido que a principal moeda de troca entre eles ali e a base do relacionamento era privacidade e esse espaço largo, entre a convivência e a intimidade. Mas também sabia, que dentre os seus amigos mais íntimos, Jack era o que certamente mantinha sua intimidade e vida pessoal em lugar mais distante. Já tinha pensado sobre isso várias vezes, já tivera muita admiração por esse lado esquivo, da mesma forma que tinha desenvolvido ao longo do tempo muita raiva em relação a essa mesma característica, e atualmente, só conseguia se preocupar com esse lado evasivo. Se o amigo não conseguia confiar nem nos amigos mais próximos, imaginava quando ele poderia descansar dessa obrigação de manter vista e cuidados, alerta sobre tudo e todos, uma hora até pra ele, seria demais. Não daria pra ignorar esse lado passional, ou jogá-lo de ombros em superstições de signos, ou mesmo fazer um joguinho pra se livrar de uma explicação direta, franca e honesta. Três palavras que passam bem longe de Jack naturalmente:
-- Por isso estou lhe dando opções, é mais hospitalidade de mim do que você costuma ter. – comentou em tom brando, observando como o mais velho evitava lhe encarar, e claro que ele sabia que invariavelmente não poderia ficar se esquivando em toda a conversa. E notou principalmente como ele mantinha o olhar concentrado no quarto onde a criança estava. E claro que a leitura mais óbvia seria que o menino tão novo era um filho perdido do outro, mas claro, sabia que para Jack, isso estava fora de cogitação, um filho era intimidade demais até para ele. Ao menos biologicamente falando. Mas estava se perguntando como aquela criança tinha afetado tanto a cabeça do amigo de longa data a ponto, dele quebrar todos os maneirismos usuais. Esperava entender, e que isso lhe fosse dito diretamente, estava cansada pra ter de tirar todas as conclusões sozinha.
-- sim, estava óbvio, tive apenas a confirmação. – concordou brevemente, para fechar o assunto de porque ele ainda estava perambulando pela França, não era da sua jurisdição, então não precisava saber com detalhes no que ele estava metido em relação a investigação, no entanto, se estava no trabalho a poucas horas, então o garoto fazia parte da investigação? Muito provavelmente sim, pra ele ter fugido tão rápido a ponto de aparecer ali tão arrumado ainda:
-- Não precisa me dar detalhes de nada da sua investigação, está fora da minha jurisdição, então não me cabe. No entanto, o menino, ele faz parte da sua investigação, e agora ele está aqui, em Cerise, e aqui é minha jurisdição Jack. -- Não gostava de ressaltar o lado policial da coisa em uma conversa pessoal, mas falava aquilo não em um aspecto de cobrança, mas no sentido de tornar claro que se precisasse de desdobramentos policiais, que estava bem disposta a arcar:
-- O que eu preciso saber sobre o menino, Jack? – e claro que sabia exatamente cada coisa que precisaria, mas estava dando a Jack o espaço para lhe explicar o que achasse pertinente explicar, era o máximo que podia dar de espaço para ele dentro dessa situação. Não estava negando ajuda, estava afirmando que iria usar do fato de ser policial pra ajudar na situação, e estava perguntando o que ele podia lhe explicar sobre. Era realmente mais hospitalidade do que Leona já tinha dado a Jack e isso significava muito.
Jack
Tinha ido até Leona porque sabia que, das pessoas em quem confiava ela era uma das que poderia lidar com aquele assunto e lhe ajudar a acobertar o que fosse preciso. Não estava disposto a continuar fugindo das explicações nem se esconder debaixo da fachada usual. Era bem óbvio até para a loira que tinha ficado abalado com a presença do garoto e admitir que estava no meio de uma investigação lhe obrigava a entrar em detalhes que não poderia comentar com qualquer pessoa fora de sua jurisdição.
Mas tinha aberto mão daquela sensatez do momento em que encontrara o garoto e se dispusera a ajudá-lo. Leona sabia que não podia entrar em detalhes, mas se ela queria saber mais dele, era impossível não comentar sobre toda a situação anterior.
- O nome dele é Adrian. - respondeu a primeira coisa que podia pensar sem ter que entrar no assunto do caso da Interpol, mas ao vasculhar a cabeça pelas outras informações relevantes, não sabia exatamente por onde continuar. Coçou a nuca, desviando o olhar de Leona mais vezes do que queria. - Eu não sei quantos anos ele tem, não sei se ele sequer tem uma certidão de nascimento. Não sei quase nada sobre ele, mas... eu sei que ele precisa de ajuda.
Jack voltou a encarar a loira mais sincero do que de costume e curvou o corpo um pouco para frente, apoiando os cotovelos nas pernas e encarando a amiga mais de perto, com um tom mais confidente.
- Eu não podia deixá-lo lá, Leona. - admitiu, a voz num tom um pouco mais baixo. - Ele precisa de ajuda. - nem percebeu a insistência naquela sentença, ou a intensidade do "precisar", e talvez estivesse vulnerável demais, mas se não podia entrar em detalhes da sua investigação, ou se nunca tinha entrado em qualquer detalhe de sua vida pessoal, só aqueles instantes estavam deixando tudo um pouco mais claro. Para uma perfiladora como Leona, provavelmente claro até demais.
Leona
Novamente a resposta demorou para vir, Jack sempre foi e sempre será a pessoa mais difícil de ler entre seus amigos, porque normalmente ele se utiliza de todo um arsenal de palavras, e trejeitos para mascarar suas reais intenções. Mas dessa vez, ele estava diferente, em um nível que Leona ainda não conseguia mensurar, poucas vezes o loiro foi tão cuidadoso sobre as palavras que tinha pra dizer. Isso só acrescentava a percepção de Leona, que a cena geral daquilo tudo era ainda mais complicada do que estava pensando, mas não estava tentando perfilar Jack, não porque respeitava o espaço dele, mas ia aos poucos puxando informações menores, porque ele estava aos poucos deixando-se mais visível em meio a preocupação com o garoto.
A loira arqueou a sobrancelha de leve, ao ouvir o nome do garoto, manteve-se na mesma postura, e observando longamente o outro, enquanto esperava que ele não parasse apenas naquela informação. Mas o que se seguiu, foi um conjunto de gestos mais espontâneos do que talvez Jack estivesse percebendo que estava fazendo. O coçar da nuca e o desviar os olhos só deixava mais evidente a relutância do amigo em entrar em detalhes sobre o assunto, que provavelmente estavam bem além de sua jurisdição. Mas apenas esse aspecto, uma questão de trabalho, não deixaria o outro tão apreensivo em tratar do assunto, algo no trabalho, que envolve o menino, o deixou incomodado a ponto de ignorar as diretrizes da interpol e o próprio bom senso, para cuidar do garoto.
Não sabe a idade, verdade, não sabe se ele tem uma certidão de nascimento, verdade, não sabe quase nada sobre ele, verdade também, mas “quase nada” é diferente de nenhuma coisa, mas a frase dizendo que o garoto precisava de ajuda lhe soou com mais peso que todo resto. Avaliando a situação, o garoto não ter documentos e poucos vestígios sobre quem é, indicam que o garoto vivia em uma situação periférica, e sendo um caso da Interpol, o nível de importância da situação se elevava, podia facilmente traçar que o garoto periférico estava no meio do “fogo cruzado” entre o trabalho da interpol x objetivo criminoso a ser detido.
A mudança de postura e de tom de Jack, fizeram a loira ficar mais alerta as reações do amigo de longa data, mais sinceras, ele estava verdadeiramente abrindo espaço para que olhasse, escutasse e o ajudasse. Leona encarou os olhos de Jack de volta, longamente, avaliando o peso daquelas palavras, e a repetição da frase “ele precisa de ajuda”, estreitou os olhos, como se estivesse vendo algo que não tinha visto antes, em nenhum outro momento durante todos os anos em que se conheciam:
-- Só ele precisa de ajuda? – o comentário foi bem pontual, porque Jack tinha ido lhe pedir ajuda em relação ao garoto, mas algo naquilo tudo estava o incomodando de forma que precisava saber se para além do garoto Jack não precisava de algum outro tipo de ajuda. Só ainda não tinha ideia exatamente com o que naquela situação, que ele poderia ter tido essa conexão tão forte com o garoto, a ponto de se deixar envolver emocionalmente. Porque era fato, estava lidando com um Jack emocionalmente envolvido.

