09-21-2021, 12:54 PM
Jack
Era possível até sentir o olhar penetrante de Leona enquanto tentava lidar com toda aquela situação. Provavelmente por aquele mesmo motivo, não conseguisse encará-la com firmeza e descontração como era o convencional, afinal, a loira era uma excelente perfiladora. Mas como manter a descontração numa situação tão específica e delicada como aquela?
A inquietação óbvia permaneceu ao ponto do silêncio breve da loira parecer muito incômodo. O silêncio do apartamento inteiro parecia lhe perturbar, na verdade, o que se refletia nos pequenos gestos ao mover os dedos das mãos e balançar as pernas. Só voltou a encará-la quando ouviu aquela pergunta tão pontual e daquela vez, foi a sua resposta que se perdeu no encarar constante de Leona. Abriu e fechou a boca duas vezes, até suspirar longamente e achar as palavras certas.
- É ele quem mais precisa de ajuda agora. – respondeu finalmente. Mesmo que sua resposta fosse um óbvio desvio de assunto, também era um jeito de “não” admitir que precisava de ajuda também. A inquietação no mover das pernas ficou mais óbvia e ele olhou para o corredor, falando antes mesmo de pensar. – Eu não sei como fazer isso, Leona… não sei se cons-
Interrompeu a própria fala ao avistar Carissa aparecendo na sala. A morena teria passado despercebida se não estivesse tão atento ao corredor que dava na porta do quarto em que Adrian estava. Jack se levantou tão rápido quanto ignorou o que estava falando para Leona e andou até Carissa.
- O que foi? Ele acordou? – nem precisou da resposta da morena para saber que era aquilo.
- Eu tentei conversar com ele m-
Jack sequer deu tempo para que Carissa terminasse de explicar, correndo até o quarto enquanto a morena apenas voltava a atenção para Leona. Adrian estava acordado, de fato, e numa primeira olhada, não parecia haver nada de errado no garoto sentado na cama com as mãos segurando o lençol e a cabeça um pouco baixa. Mas Jack nem precisou se aproximar demais para perceber que as juntas dos dedos dele estavam brancas da força que colocava no lençol e o corpo todo pequeno tremia. Ele acendeu a luz do quarto e isso chamou atenção do menino, que ainda assim não fez mais do que levantar o rosto para lhe encarar de volta. No quarto pequeno, Jack apenas deu dois passos para se sentar na cama ao lado dele.
- Não se preocupe, está tudo bem. – assegurou à criança, passando a mão no topo da cabeça dele, só agora sob a luz e com o menino acordado, era possível ver as olheiras fundas no rosto infantil. A resposta de Adrian foi apenas estender as mãos para segurar a roupa de Jack com a mesma força que tinha segurado o lençol antes.
Leona
Queria ter menos sinais de que deveria se preocupar sobre o amigo de longa data, por mais que respeitasse o espaço pessoal do outro, e não quisesse ler além do que ele quisesse lhe dizer. Era inevitável, que a preocupação natural, lhe fizesse gradativamente e de forma inconsciente, ler nos pequenos gestos de Jack. Na mesma medida que tentava se conter, a preocupação lhe impelia a continuar observando-o cada vez mais.
O desvio de assunto era uma estratégia clássica do loiro, mas também, era estratégia de qualquer pessoa que não queria admitir que também precisava de algum auxílio. E ler aquilo de forma tão clara, fez com que Leona sentisse um aperto no peito. Jamais tinha imaginado que em algum momento Jack lhe chegasse com um problema “real” algo que nem ele conseguisse resolver com todos os contatos, todos os joguetes, e todas as formas possíveis do loiro de escapar, evitar ou driblar problemas. O corte na fala de Jack fez com a loira também desviasse a atenção para o corredor onde Carissa surgiu, mas não o suficiente para deixar passar despercebido a reação urgente de Jack de ir ao encontro do garoto.
A loira ponderou, e tentou pensar de forma mais neutra possível, embora tivesse tantos sentimentos passionais ali, e tantos anos de convivência que buscar uma neutralidade era quase impossível. Levantou-se de onde estava acompanhando o que Jack conversava com a criança no quarto, o apartamento silencioso tornava fácil ouvir ao menos parte do que era dito.
“Não se preocupe, está tudo bem.”
A loira pensou naquela frase, e o pensamento que lhe passou pela cabeça imediatamente era se Jack estava falando isso apenas para criança, ou falando pra si mesmo também? Encarou Carissa que estava confusa com toda aquela situação, não a culpava, afinal, nada tinha sido explicado de fato, e tudo estava acontecendo no apartamento dela, o que a tornava cúmplice de tudo. Levou a mão ao ombro de Carissa, chamando a atenção dela, e então se aproximou para lhe falar em tom mais baixo e reservado:
-- Eu não quero deixar você no escuro dessa vez... eu ainda não sei o “quão séria” é a situação entre o Jack e esse menino. O que eu sei até agora, é que ele não consegue fazer isso sozinho, por isso veio pedir “socorro”. -- a loira falou a ultima palavra mais baixo ainda, e depois se afastou apenas um pouco para poder encarar os olhos claros da mais nova: -- e eu vou ajudar ele com isso... mas eu vou precisar de ajuda “também.” – fez um aperto leve com os dedos sobre o ombro de Carissa, mais como um carinho, de quem estava buscando ali uma apoio, também, porque sabia que iria precisar, normalmente não pediria ajuda, mas tinha recebido uma bronca sobre tentar fazer tudo sozinha, então se era pra envolver a mais nova nisso, ao menos pediria diretamente, e ela claro tinha todo o direito de negar.
Leona deu tempo para que Jack pudesse acalmar o menino, Da porta do quarto podia ter noção do porte físico da criança e do estado em que ela estava, tão debilitado, a urgência do menor em achar no mais velho que acabara de conhecer abrigo, lhe deixava mais claro que o menino tinha sido tirado de uma situação traumática pelo loiro. Mas o que lhe destacava mais na situação era a distância que Jack estava do menor, ele não parecesse muito bom em lidar com crianças. E observar aquele ponto, lhe deixava pensativa sobre o tipo de suporte que Jack poderia ter recebido no passado, pra que ele não soubesse lidar com crianças, ou mantivesse aquela meia distância de “segurança”. Aparentemente não tinham sido muito bons em lidar com ele também. E pensar naquilo deixou Leona com uma sensação de inconformidade no peito, por reflexo apenas comentou:
-- você pode abraçar ele, Jack. – Como se o amigo precisasse da confirmação de outros, que podia dar mais atenção aquela criança. Como se ele não soubesse como dar carinho a uma criança. Como se ele não soubesse o que se faz com uma criança com medo. Como se ele não soubesse o que é receber apoio quando se estar com medo… Leona se afastou um pouco da porta, e tirou a visão de Jack e do garoto menor, queria frear um pouco os pensamentos, podia estar vendo coisas demais, ou coisas que sequer existiam, esperara que Jack acalmasse o garoto para que pudessem continuar conversando. Mas aquele peso no peito, agora que tinha se instaurado, não passava de jeito nenhum.
Carissa
Carissa apenas observou como Jack parecia extremamente incomodado com a situação, o que era novo o suficiente para lhe deixar atenta para os movimentos do loiro "que coisa mais estranha, eu nunca imaginei que ia ver o Jack desse jeito. Será que a Leona já está acostumada? E quem é esse menino? Será que...?", a própria linha de pensamentos foi interrompida com a aproximação de Leona e a mão dela estendida na direção de seu ombro. Voltou-se para encarar a loira quando ela explicou parcialmente a situação e o fato de que ainda não sabia detalhes sobre Jack e o menino. Mais surpreendente ainda era que ele tinha ido pedir "socorro". Ainda mais surpreendente era Leona admitindo que precisava de ajuda também. Mas bom, tinha passado uns bons dez minutos reclamando da atitude dela, ao menos ela tinha aprendido rápido que não precisava fazer tudo sozinha.
- Não se preocupe, eu posso ajudar no que precisar, principalmente com o menininho. - Carissa respondeu, mantendo o tom baixo também para não atrapalhar no quarto.
Acompanhou Leona até a entrada do quarto, observando um pouco mais distante quando a loira se manteve também na entrada. Até mesmo para ela, a atitude de Jack era cautelosa e estranha ao agir com o menino obviamente traumatizado. Leona que quebrou o silêncio e a situação incômoda para dizer a Jack que ele também podia abraçar o menino. O garoto não se moveu de onde estava, mantendo a proximidade de Jack, e foi o mais velho que voltou-se para encarar Leona com uma expressão até confusa. Carissa tentou ficar longe do campo de visão, mesmo que a curiosidade fosse maior para continuar a espreita.
- Eu estou com você agora, ok? Prometi que não ia deixar nada acontecer, não foi? - não fosse o silêncio absurdo do quarto, Carissa não teria ouvido o comentário de Jack para o garotinho, ao se aproximar mais dele e arriscar envolvê-lo com os braços, onde o menino se escondeu ainda bem receoso, as mãos pequenas se agarrando com mais força à roupa do mais velho. Ele não respondeu nada, só ficou ali escondido nos braços de Jack que parecia bem incerto de como agir. - Vou ficar aqui com você agora.
Pela primeira vez, alguma resposta veio do garoto, que só moveu a cabeça escondida em um breve aceno positivo. Jack conteve um suspiro de alívio, voltando a atenção na direção da porta.
- Podemos terminar a conversa amanhã? Vou ocupar um pouco a sua cama, Carissa, se não se importa?
- Tudo bem, precisam de alguma coisa? - Carissa perguntou, ainda da distância da porta, mantendo o tom baixo.
Jack apenas negou com a cabeça, apenas tirando os sapatos com os próprios pés para se deitar na cama ao lado do menino, mantendo o braço grande em volta dele que o escondia com muita facilidade. A cama era pequena e não devia ser confortável compartilhar o espaço com alguém tão grande quanto Jack, mas o garoto nem tentou colocar alguma distância do abraço confortável para tentar dormir de novo.
Leona
Leona sentiu alívio ao ouvir as palavras de Carissa sobre lhe ajuda, não que imaginasse que depois de bons minutos de briga sobre “não falar” e “fazer tudo sozinha” a morena mais nova fosse lhe negar ajuda. Mas a sensação de poder confiar os próprios problemas a outras pessoas, lhe dava um tipo de segurança que não tinha a bastante tempo. Ajudava a lidar com o peso da preocupação que estava ocupando seu peito agora com a situação de Jack e do pequeno que ele trouxe. E dentro de todo aquele quadro, precisava realmente estar bem segura de suas escolhas, e do que tinha a oferecer, já que Jack estava dentro de seu limite de ação ali, e pelo que podia ver, dentro do seu limite emocional de o quanto lidar com aquela criança.
Notar a demora na reação do amigo de longa data, lhe deixava preocupada, queria ter a certeza que apenas estava entendendo coisas demais ou coisas que não existiam dentro da situação real. Mas aquele tipo de desconforto que Jack demonstrava, não era algo com que Leona estava acostumada, e já tinha dividido bastante intimidade com o loiro, a ponto de poder chama-lo de amigo e ter a recíproca do mesmo. Mas não a ponto do que estava vendo, no trato daquela situação. Seus instintos se misturavam com a sua preocupação, e a cabeça começava a girar em ideias mesmo que não quisesse de fato focar seu pensamento naquilo.
As reações do menor, todas elas lhe confirmavam que ele estava traumatizado, e que tinha achado em Jack um tipo de porto seguro, alguém para confiar, e como o loiro tinha conseguido isso? Só podia julgar que tinha sido em um momento em que o garoto mais precisasse de ajuda, e aquilo fez a expressão da loira ficar pesada, pois constatar que um garoto traumatizado estava no seu limite, era o mesmo que saber que ele estava prestes a morrer de alguma forma muito desumana, ao ponto de que a pessoa que o tirasse de lá, seria para o garoto, seu novo mundo:
-- leve o tempo que precisar Jack. Está em casa, e está seguro. – Leona comentou em tom baixo e calmo, reafirmando apesar do apartamento não ser seu, que o amigo de longa data podia se sentir seguro ali. Sob sua vigilância ao menos.
Observou enquanto o loiro ficava minimamente mais confortável, se é que era possível usar aquela palavra, naquela situação, e observou como o garoto se aninhou naquele espaço para poder voltar a dormir. Sabia que Jack dificilmente dormiria, ele era cheio de maneirismos, e preocupado do jeito que estava muito provavelmente não conseguiria dormir. Ou quem sabe o cansaço mental o vencesse naquela noite? Só saberia com o tempo.
Se afastou e voltou em direção a cozinha precisava de água, e precisava acalmar a própria mente, ou quem sabe um chá calmante. Observou Carissa a certa distância de si, e então esboçou um sorriso simples, um pouco cansado: -- Carissa, sei que você não tem obrigação nenhuma de ajudar, e sei também que disse que era pra pedir ajuda quando precisasse, mas de fato... poder contar com o seu apoio Carissa me deixa minimamente aliviada... por isso, obrigada. – comentou em tom baixo, audível apenas pra morena mais nova.
Ia ser uma longa noite. Com certeza ia.
Carissa
A noite tinha sido suficientemente cheia com todas as novidades para Carissa desde a investigação de Leona, a bronca na loira e toda aquela situação perigosa em que estavam metidos. Mas a chegada de Jack parecia ter sido capaz de abalar o dia muito mais do que a descoberta do criminoso que tinham que prender. Prender criminosos era o trabalho das duas, afinal... mas lidar com um amigo com uma criança debilitada na porta de casa no meio da madrugada, talvez fosse melhor voltar a encarar os vilões dos seriados.
Depois que Jack se deitou na cama, Carissa acompanhou Leona de volta até a cozinha, a mente tão cheia de questionamentos que nem sabia por onde começar ou se teria forças para fazer aquilo. Receber um sorriso de Leona no meio dos pensamentos conturbados não estava em seu planejamento e ao ouvir as palavras da colega de quarto, parceira e comprovadamente amiga, até esqueceu de metade das dúvidas que queria despejar mesmo tão tarde e mesmo tão cansada.
- Se eu soubesse que você precisava de uns gritos pra poder contar comigo, teria feito isso antes. - Carissa respondeu, adiantando-se para pegar uma chaleira e colocar água no forno. - Isso é mentira, eu não ia gritar com você porque ia achar que ia morrer de qualquer jeito. Mas é bom ter certeza de que minha vida não está em risco... - tentou descontrair um pouco, sorrindo em resposta para Leona. - Vou fazer um chá, ok? Se fizer café, não vamos mais dormir. Eu até queria fazer um milhão de perguntas, mas sabe de uma coisa? Já foi conversa e informação demais pra uma noite. Pode pegar as coisas no armário pra arrumar o sofá na sala e dormir um pouco? Não acho que tem lugar pra gente no quarto com o Jack agora e eu não quero acabar acordando o menino por acidente no meio da noite.
Terminou de preparar o chá enquanto Leona ajudava para arrumar o sofá-cama na sala para que as duas pudessem dormir. Nem se preocupou daquela vez em compartilhar o móvel pequeno com a loira, mesmo com os supostos medos de que ela poderia lhe enforcar no sono, por exemplo. Já tinha um sono naturalmente pesado, então com o excesso de acontecimentos daquele dia, não foi difícil pegar no sono. Para Jack, por outro lado, mesmo o cansaço acumulado não foi suficiente para lhe colocar para dormir num sono profundo. Qualquer movimento do garoto ao seu lado, tremor, respiração pesada, era o suficiente para lhe despertar do breve descanso. Ainda assim, foi melhor do que ter tentado descansar num hotel qualquer, quando sabia que para fora da porta tinha alguém a mais para lhe ajudar.
Ficou a noite inteira ao lado do garotinho que dormiu mais do que esperava, e só levantou da cama quando já passava de cinco da manhã, para ir até o banheiro e depois até a cozinha, procurando água ou café para se recompor um pouco mais.
Leona
A loira estava verdadeiramente cansada, nem queria ter de repensar em todas as informações que tinha recebido durante o dia, e todas as demais que teria de administrar no outro dia. Tinha poucas horas pra descansar, ao menos sabia que podia contar com Carissa, ela certamente estaria em humor melhor que o seu no outro dia, mas também sabia que Jack precisava de sua ajuda, então precisaria estar em melhor humor que ele ao menos. Não foi difícil cair no sono porque a mente estava sobrecarregada de coisas pra pensar então o próprio corpo se entregava aquelas horas de limbo, sem sonhos pra aproveitar o pouco descanso para organizar as ideias.
Normalmente dado o nível de cansaço a loira demoraria mais pra acordar, mas estando na sala, era mais fácil captar sons no apartamento pequeno. Ao longe o som de água, provavelmente no banheiro, estendeu a mão para seu lado em um toque suave, e Carissa ainda dormia. Então era muito provável que Jack que tivesse levantado. A loira respirou fundo, e se mexeu devagar para não acordar Carissa, apoiando a mais nova com almofadas pra que ela não sentisse o espaço vazio no sofá.
Ao se levantar de fato já dava pra espiar as costas de de Jack mexendo na cozinha, caminhou em passos curtos e cuidadosos, sabia que ele estava ouvindo, era atento demais pra deixar passar, mas a preocupação da loira era em não acordar o pequeno. No caminho até o banheiro, olhou para o quarto onde o menor ainda estava dormindo, seguiu para o banheiro, a cara era de quem tinha dormido mal, mas quem de fato tinha dormido bem? Imaginava que nem a criança, embora a cama fosse confortável, e a pessoa ao seu lado confiável, o pânico de uma infância de maus tratos faz isso com as pessoas.
“uma infância de maus tratos…”
O pensamento ecoou em sua cabeça, mas ainda era muito cedo pra ficar tecendo ideias, seguiu para cozinha, observar o mais velho, ele não parecia bem noite passada e imaginava que uma noite mal dormida não iria deixá-lo melhor. Se aproximou ainda em passos cuidadosos pra manter as pessoas que dormiam descansando, mas se permitiu repousar a mão sobre o ombro de Jack, e um toque suave:
-- conseguiu dormir alguma coisa? -- perguntou em tom mais baixo possível, observando o rosto do mesmo, tentando ver como o mais velho estava: -- meu café é ruim! você sabe... mas imagino que não queira esperar Carissa acordar pra poder comer alguma coisa. Então eu juro que tento não lhe matar envenenado…!-- afastou a mão do ombro do mesmo, e deu atenção às coisas que podia fazer na cozinha. Até tinha feito um comentário descontraído, embora só quisesse puxar alguma conversa pra medir o estado de reação do amigo. Estava preocupada e excessivamente cuidadosa, até certo ponto, estava tratando o maior, com o nível de cuidado muito maior do que normalmente reservava pra ele.
Jack
Podia ser uma pessoa bem invasiva, mas não conseguiu se concentrar sequer em achar o café ali na cozinha pequena. Olhava constantemente para trás como se esperasse ouvir o choro do garoto - o que sabia que era bem impossível -, ou apenas observá-lo chegando pelo corredor. Distraiu-se a ponto de colocar água no copo de vidro três vezes sem beber. Respirou fundo, a cabeça um pouco pesada da noite mal dormida e pressionou o espaço entre os olhos. Ouviu os passos cuidadosos na cozinha e já os conhecia muito bem - até porque se fosse Carissa, seria mais barulhento -, bebeu a água e sentiu a mão sobre o ombro, que não estava tão pesada quanto estava acostumado também. Mas sabia que Leona estava uma pilha de preocupação, tal como ele mesmo.
- Quando é que eu consigo dormir, Kitty? - respondeu, também mantendo o tom de voz baixo considerando o apartamento pequeno em que facilmente poderiam acordar os outros. Virou-se de frente para Leona, encostando-se à pia da cozinha para ouvir a proposta dela lhe preparar um café antes que Carissa acordasse. - Eu sei que mesmo que tente, não vai conseguir, então, porque não me diz onde está o café e eu mesmo faço?
Bebeu o resto da água e colocou o copo na pia, acompanhando Leona até interromper o que ela estava fazendo para colocar água no fogo e preparar um café para terminar de acordar.
- Obrigado por nos deixar dormir aqui, Kitty. - agradeceu à amiga de longa data, encostando-se de novo à pia para esperar o preparo do café. Não ia tomar liberdade de fazer outras coisas para o café da manhã, mas pelo menos um bom café lhe ajudaria a acordar e colocar as ideias em ordem. - Então, temos algumas coisas pra terminar de conversar?
Sabia que Leona já tinha entendido muito do que estava se passando em sua cabeça. Ler perfis era a especialidade dela, afinal de contas, e sabia que a loira era boa. Se ela não tinha lido demais em suas atitudes e palavras tinha sido por mera consideração. Mas ao menos tinha descansado e estava um pouco mais composto para não se deixar levar tão fácil pelas análises dela, ou se deixar tão aberto. Os pensamentos que passavam em sua mente naquele instante, entretanto, era se realmente queria continuar tão fechado quanto estava tão acostumado. O garoto dormindo no quarto ao lado talvez fosse um bom motivo para ser mais direto e sincero com a amiga de longa data.
Leona
Não foi completamente pega de surpresa pelo comentário de Jack sobre ele mesmo fazer o café, os dois tinham muita consciência que Leona não era nem longe uma pessoa capaz de fazer alguma coisa tragável como alimento. Acenou em concordância para o comentário do loiro, e em seguida abriu uma das portas do armário da cozinha, tirando o que fosse necessário para fazer o café, além de pratos para que pudessem pelo menos comer alguma coisa.
Ergueu o olhar quando ele lhe agradeceu por tê-lo deixado dormir ali, e acenou positivamente, mantendo uma postura mais amigável: -- agradeça a Carissa depois, o apartamento é dela. No final das contas…! – manteve o tom baixo para que só o loiro escutasse na cozinha pequena, puxou uma sacola de pães de ontem e aproximou do outro e seguiu para geladeira próxima, observando o que podia pegar para acompanhar os pães, estava um tanto lerda ainda do sono, o olhar vagueando pelas prateleiras, no entanto, a postura mudou quando ouviu o comentário seguinte do loiro. Pressionou com mais firmeza a porta da geladeira, e o olhar que antes passeava pelo espaço refrigerado, agora estava focado em um único ponto.
“então, temos algumas coisas pra terminar de conversar?”
A loira manteve a porta aberta por um tempo maior do que gostaria de deixar transparecer. Em sua mente, a conversa toda da noite passada perpassava seus pensamentos, em cada mínimo detalhe como se as partes fossem se encaixando a medida que ia revisitando cada memória. Desde quando viu Jack com o pequeno garoto no colo a porta do apartamento tarde da noite e como todo aquele cenário lhe parecia, o aperto sutil nas costas do menino na hesitação de deixa-lo sozinho no quarto. No sorriso forçado, nas desviadas de olhar frequente, o coçar a nuca, o mover das pernas e toda a inquietude que normalmente não estava ali, ou que normalmente não era fácil de captar, vazando em cada gesto que o loiro tentava conter. Até o silêncio, sobre precisar ou não de ajuda, o mover dos lábios silenciosos como se as palavras tivessem escapado, até enfim chegarmos a frase não concluída do outro que admitia não saber se “conseguiria”. Não era só o garoto que precisava de ajuda para lidar com uma situação traumática, e isso estava cada vez mais claro naquela narrativa.
Leona piscou demoradamente e suspirou de forma exagerada, denotando que estava pensando em muito mais do que se iriam comer queijo ou ricota no café da manhã; Puxou os acompanhamentos de sempre de dentro da geladeira e os deixou sobre a pia junto aos pães próximo do outro, embora imaginasse que se começassem a conversa a última coisa que Jack faria seria comer, muito provavelmente. Respirou fundo, passando a mão pelos fios loiros compridos enrolando-os em um coque e largando sobre o ombro, como se estivesse se preparando pra entrar em um assunto longo:
--“Não se preocupe, está tudo bem.” Foi o que você disse a ele, mas com certeza você já repetiu isso a si mesmo muitas vezes, não é...? – a pergunta soou como retorica, e a loira fez uma pausa breve encarando o amigo de longa data: -- Você quase admitiu ontem que não sabia se “conseguiria”... – dito isto se encostou no batente que formava a mesa na cozinha americana do pequeno apartamento, não cruzou os braços, porque não queria ficar defensiva, mas deixou aquele médio espaço como um espaço de segurança para o outro: -- Não é só o menino que precisa de ajuda, e se você veio até aqui eu estou considerando que veio pedir minha ajuda para além de uma cama pra dormir Jack, mas eu preciso que você, também me deixe te ajudar…!
A loira lançou para o outro um olhar mais brando do que jamais fizera antes, mesmo em situações onde ela estava mais emocionalmente envolvida com o outro. Agora tinha um aspecto mais cuidadoso, e era difícil alguém se sentir em posição de ser capaz de “proteger” ou “cuidar” justamente de Jack, que era tão evasivo e esquivo, principalmente porque o amigo de longa data não costumava dar brechas para que as pessoas se preocupassem demasiadamente com ele. Mas naquele momento, podia dizer, que Leona estava se dispondo a tomar conta dele, ou do que ele precisasse que tomasse conta, e estava se referindo a muito mais do que a criança que ainda dormia em seu quarto.
Jack
Mesmo numa casa estranha, na companhia de Leona, ele não se preocupou em tomar a liberdade de fazer o café e ajudá-la com as coisas simples que tirava dos armários e da geladeira para prepararem algo rápido. Nem precisou concordar quando Leona lhe disse para agradecer à Carissa e aquilo provavelmente seria muito bom para irritar mais a loira. Mas os pensamentos divagaram para longe enquanto estava prestando atenção nas pequenas reações de Leona depois de esclarecer que deveriam continuar a conversa, especialmente porque ela demorou mais do que imaginava para deixar a geladeira de lado.
O som que invadiu a cozinha foi apenas o da água fervendo e Jack se dispôs a terminar o café, deixando-o coar na garrafa até a loira juntar todas as ideias. Finalmente ela voltou para o seu lado, deixando os pães e acompanhamentos na pia, com aquela expressão obviamente exasperada. Pela primeira vez, provavelmente em muito tempo, sentiu um nó na garganta só na expectativa das análises que sabia que viriam de Leona. Ficou tão estático que nem parecia estar ocupando mesmo espaço na cozinha, a expressão brincalhona substituída por uma bem impassível. Ouviu as questões dela e ainda assim, não reagiu, mas a última colocação sobre ter ido ali atrás de mais do que uma cama para dormir lhe fez reagir de imediato, a ponto de cruzar os braços no que os dois sabiam muito bem que era uma postura defensiva.
Mas do mesmo jeito, ela também tinha acertado naquele detalhe: precisava se deixar ajudar e naquela vez o assunto não concernia apenas a ele e ao próprio bem-estar. Queria não ter uma reação defensiva tão automática naqueles casos, e talvez não fosse o caso ainda de contar mais sobre si do que Leona sabia ou podia tirar de sua análise. Mas ao menos podia se dar ao luxo de deixá-la ajudar e de pedir por aquilo pelo bem-estar de Adrian.
- Eu não teria vindo se não soubesse que você é minha melhor opção, Kit-- Leona. - ele mesmo corrigiu o modo de chamá-la para reforçar a seriedade do assunto, como raramente fizera no passado. Manteve os braços ainda cruzados pelos instantes que se seguiram. - É verdade que eu não vim apenas por uma cama pra dormir... e como você mesmo ouviu, eu não conseguiria lidar com isso sozinho. Olhe pra mim, Leona, eu não teria condições de cuidar de uma criança. Eu mal dou conta de mim mesmo.
Finalmente descruzou os braços e pegou uma xícara para se servir de café, uma das mãos indo até a cabeça, coçando os curtos cabelos na nuca. Desviou o olhar parcialmente da loira enquanto se servia do café quente, apenas um gole, como se precisasse limpar a garganta para continuar.
- Você é a única pessoa que eu consegui pensar para dar a ele um lar decente. - continuou, finalmente, num tom até mais baixo do que antes. Na noite anterior, não tinha passado nem perto de comentar a mera ideia de deixar o garoto morando com Leona, sabia que o pedido era demais, até para ele e suas loucuras. - Eu não poderia fazer isso sozinho. Não posso deixá-lo em um orfanato agora... se você não puder, não quiser ou eu-- parou de falar, o olhar perdido em algum ponto da cozinha, a xícara parada a meio caminho de alcançar sua boca de novo. Não soube quantos longos segundos passaram até parecer acordar e piscar algumas vezes, devolvendo a xícara fumegante para a pia e encarando Leona de volta finalmente. - Fique com ele, por favor.
Poderia ter dado uma série de voltas, poderia ter feito uma série de brincadeiras ou oferecido milhões de charadas até chegarem naquela mesma sentença. Mas o pedido soou quase como urgência, enquanto encarava a loira com uma expressão séria que ela provavelmente não tinha visto até então. Ele era a pessoa da qual os amigos dependiam na maioria dos casos, se colocar numa situação em que dependia de outra pessoa parecia quase torturante, ainda mais ao esperar a resposta e a reação.
Leona
Apesar de ter de lidar com aquele lado mais sério e impassível de Jack, não sentia-se estranha, não era essa a palavra que definia o que estava sentindo. Sabia, e tinha plena consciência que todos os seus amigos mais próximos reservavam partes de suas vidas e pensamentos apenas para si mesmos. E sabia que dentre todos, Jack era o que preferia manter tudo que lhe envolvia o passado o mais distante de todos quanto podia. Quando mais jovem, tivera curiosidade sobre isso, o suficiente para querer perguntar, mas amizade deles estavam fundamentada principalmente na cumplicidade de não precisar se explicar.
Eram todos policiais, a loira tinha formação em psicologia forense, então ela melhor que ninguém sabia como as pessoas eram capazes de erguer barreiras emocionais para lidar com traumas. E todos tinham traumas, alguns mais profundos que outros, e muito provavelmente Jack era um poço profundo de traumas, com uma muralha emocional densa, que muito dificilmente qualquer um pudesse acessar aquilo... a menos que ele precisasse reviver de alguma forma tudo isso. Então mesmo que ele quisesse se manter dentro do seu espaço fechado, seguro, construído ao longo dos anos, não poderia negar sentir aquilo, seria como negar a si mesmo.
O olhar da loira manteve-se focado nos trejeitos do loiro, desceu o olhar para os braços cruzados e depois de volta para o rosto do mesmo, embora a expressão demonstrasse algum controle pra se manter na defensiva. A medida que ele construía seus argumentos, a voz lhe soava mais pesada, revestida de mais coisas do que a necessidade de proteção da criança. Ele desviou do seu olhar, mas não deixou de encara-lo, notando a hesitação na fala, e a tentativa de manter o discurso em voltas como sempre. Até se tornar impossível manter toda aquela postura, e ele simplesmente parasse, como se estivesse chegando no seu limite entre o que esta dentro da muralha emocional e o que esta fora e que estava ali conversando com Leona.
“Fique com ele, por favor.”
Aquelas palavras lhe soaram tão pesadas, tão cheias, tão densas, que mesmo sabendo que havia toda uma complicação envolvendo cuidar de uma criança, a loira sabia que era a única pessoa que poderia fazer aquilo por ele. E aquilo lhe transferia uma sensação de responsabilidade enorme, muito além de cuidar da criança e lhe garantir um lar, cuidar do garoto também significava cuidar de Jack:
-- Eu fico.
A afirmativa foi dita sem qualquer hesitação, embora soubesse que havia toda uma problemática e logística que precisaria lidar, estava disposta a arcar com aquilo, se era necessário faria: -- vê-lo ir parar em um orfanato acabaria com você de um jeito que nem eu, nem nenhum de nós conseguiria te juntar depois... – e sobre “nós” se referia a Talulah ou mesmo Gustav, então desviou o olhar brevemente de Jack porque sabia que suas palavras apenas acentuavam o fato de que Leona estava vendo as fragilidades do amigo de longa data. Ao menos o conforto de não ser encarado a loira podia prover ao amigo, já que muito provavelmente ele não queria estar sendo observado daquela forma.
Se aproximou finalmente, quebrando a distância que tinha imposto, manteve o olhar guiado para o café fumegante na pia, mas ainda assim estava próxima a menos de um braço do outro:
-- eu vou cuidar do Adrian, porque se ele estiver bem, você vai ficar bem também... certo?! – não encarou o mais alto, mas levou uma das mãos ao pescoço do mesmo e o guiou com cuidado para o próprio ombro, em um abraço gentil, como tinha instruído que ele fizesse com o garoto na noite passada: -- Vai ficar tudo bem...!
Jack
Provavelmente Jack não experimentava aquele sentimento de impotência havia muitos e muitos anos. Porque tinha aprendido a ser a pessoa capaz de resolver os próprios problemas e os problemas alheios, fosse por conta própria, fosse por cobrar favores, fosse pela mera responsabilidade que impunha a si mesmo em proteger as pessoas que lhe eram importantes mesmo que pudesse contá-las nos dedos das mãos.
Mas o sentimento de impotência não veio pela incapacidade de resolver um caso ou de ajudar um amigo, mas por um cenário muito específico que tinha varrido para bem longe no fundo de sua cabeça por conta das próprias barreiras emocionais. E estava jogando aquilo na cara de Leona com uma facilidade de uma pessoa que parecia não saber lidar com os próprios problemas, o que não era verdade.
Pela primeira vez em muito tempo, prendeu o ar na expectativa da resposta, e quando a mesma veio tão rápida e tão firme, ainda assim, não conseguiu respirar. Manteve o ar preso no topo da garganta como se ele segurasse mais do que a sua reação, mas também suas palavras e tudo mais que tinha jogado para debaixo do tapete há tanto tempo. As palavras de Leona eram tão certas que ainda assim, sentiu o nó ficar ainda mais forte em seu pescoço, porque não queria ter que responder, reagir, concordar minimamente com o que ela colocava com tanta clareza. Tinha conseguido a resposta dela, tinha conseguido a ajuda da amiga e aquilo era o suficiente para encerrar o assunto dos dois. Mas por mais que conhecesse bem a loira, não esperou pelo passo que ela deu em sua direção, não esperou pelas palavras que se seguiram com o questionamento de que ele ficaria bem também, se Adrian ficasse. Não esperou pelo toque mais gentil e o conforto do esconderijo no ombro da amiga de longa data.
A reação inicial dele foi de tensão, e Leona mesmo devia ter sentido aquilo nos dedos com a sua resistência a se aproximar. Mas quando ouviu as palavras da loira de que ficaria tudo bem e se deixou levar para um "lugar seguro", finalmente o ar que estava preso escapou num suspiro longo, e um suspiro que trouxe muito mais do que apenas a capacidade de respirar de novo. Tão logo o nó na garganta se desfez, a respiração ficou acelerada e ele enterrou o rosto no pescoço de Leona, escondendo a própria expressão ao sentir o rosto quente, úmido, trêmulo. Levou um dos braços livres até as costas da loira, apertando-a com uma urgência em uma necessidade de abrigo que jamais tivera liberdade de se colocar na companhia alheia. Naquele instante, ele era exatamente como o garoto que tinha acalentado na noite anterior por causa de algum pesadelo. Se deixou desabar emocionalmente pela primeira vez no conforto da companhia da amiga, a roupa dela umedecendo diante de lágrimas quentes e de um choro silencioso que nem ele sabia ainda ser capaz de ter.
Leona
Sabia pelo treinamento que quando tinha de confortar pessoas, era sempre uma tarefa complicada, que nem toda mente estava disposta a dar espaço para que outras pessoas pudessem conversar. Que os traumas mudam as pessoas e as moldam de formas que sequer ainda foram estudadas. E sabia, por experiência, que a tensão no corpo de Jack era totalmente natural, esperava por isso, esperava até mais, que ele sequer cedesse ao seu toque, ou mesmo que não lhe desse espaço para sustentar aquele montante emocional para ele. E queria de verdade, ser para ele, o que ele normalmente era para os outros, a pessoa que apesar de todos os defeitos que tinha, era a pessoa mais confiável quando se precisava de ajuda, qualquer ajuda.
Mas nem o treinamento, nem seu QI elevado, nem sua experiência de vida, e nem nada tinha lhe preparado para os próximos segundos. Sentir o corpo de Jack ceder, e a cabeça dele apoiada sobre o seu ombro, não foi exatamente satisfatório, ouvir a respiração dele mudar, ou melhor, ser capaz de ouvir a respiração dele, ficando cada vez mais curta e acelerada. Não tinha sequer uma palavra em seu vocabulário para descrever como estava se sentindo naquele momento. Aquilo fez com que todo o seu corpo despertasse para o tamanho da pessoa que tinha em mãos, dos sentimentos, das dores, das necessidades.
Leona sentiu medo pelo que estava acontecendo ali, jamais tinha sequer imaginado como seria estar naquela posição, como era pesado, como era angustiante ter ciência do quão machucado Jack estava, por tantos anos, por tanto tempo. A sensação foi como ter o coração tragado por um buraco enorme dentro do corpo, que dava lugar a um sentimento de inconformidade, porque não podia simplesmente arrancar todas aquelas coisas ruins do outro, lhe proteger daquilo tudo.
Mas podia devolver o abraço, e foi o que fez, encostando a cabeça de leve na dele que estava bem escondida em seu ombro, a mão que estava na nuca, acariciou os fios curtos da região, com as pontas dos dedos, com carinho, com um tipo de doçura que nem sabia que existia em si mesma. Levou o outro braço livre para completar o abraço, e passou a mão sobre as costas do outro.
Sabia que era fisicamente menor que ele, mas que naquele momento, seus braços serviam de apoio, queria poder tirar Jack de dentro do muro que ele construiu em torno de si mesmo, pra não ter de lidar com toda essa tristeza que ele carregava. Mas Jack não tinha lhe pedido isso, tinha pedido para cuidar de Adrian, faria isso, e quem sabe num futuro, Jack pudesse por conta própria sair ele mesmo desse lugar onde ele escolheu ficar:
-- Está tudo bem…! Está tudo bem…!-- a voz soou confidente, baixa, como um sussurro, e depositou um beijo carinhoso sobre os fios claros de Jack.
Naquele momento, Leona prometeu pra si mesma, que cuidaria tanto de Adrian, com tanto amor e tanto carinho, para que no futuro aquela pequena criança não precisasse erguer um muro em torno de si.
Faria isso pelo menino, por Jack, e principalmente por si mesma. Leona ofereceu ao amigo de longa data, o tempo, o conforto e o silêncio que ele precisasse pra se recompor.
Jack
Independente de todo o treinamento, da capacidade de ler pessoas e de ler a si mesmo, Jack demorou a entender o modo como ele mesmo tinha reagido àquela aproximação. E a demora em entender o que estava se passando no fundo de sua mente e dos sentimentos que tinha deixado bem enterrados foi tão longa quanto a capacidade de perceber a reação de Leona para o seu estado. Os braços da loira devolveram o seu aperto, a cabeça dela encostou na sua e sentiu o calor da companhia, da compreensão de alguém que tinha visto mais do que queria mostrar, do toque suave mesmo que não esperasse por ele, mesmo que nunca tivesse esperado por aquilo. A reação demorou a vir, por um longo instante, ele ficou perdido entre o que tinha acabado de fazer e o modo como sempre se comportava diante dos amigos... e como era que costumava se comportar? Com piadas? Com respostas evasivas e desafios irritantes? Estava difícil lembrar.
Não achou a resposta a tempo de ouvir de novo a afirmação da loira de que ficaria tudo bem. A última coisa que queria era que as pessoas que considerava importantes tivessem que dizer aquilo a ele... mas era uma sensação com a qual não estava acostumado, e era... bom. Talvez, pela primeira vez em muito tempo, tivesse sentido uma onda de alívio e de segurança.
O tempo que passou apoiado ali pareceu uma eternidade, e ao mesmo tempo, pareceu pouco demais. Folgou os braços em volta da loira, afastando-se do abraço para passar uma mão pelo rosto e conseguir encará-la de volta, mesmo que não estivesse tão composto quanto queria.
- Está sim, Kitty. - respondeu, com um sorriso leve, daquela vez passando os braços em volta do corpo da loira para puxá-la para perto, a diferença de altura convenientemente permitindo que apoiasse o queixo no topo da cabeça dela, para impedir que ela mesma continuasse lhe encarando. Aproveitou a posição para beijar o topo da cabeça dela também. Descansou os braços em volta de Leona, respirando fundo antes de passar a mão nos próprios cabelos naturalmente bagunçados. - Eu vou dar uma olhada nele, tente não explodir a cozinha enquanto isso.
Passou a mão na cabeça de Leona como se fosse uma criança também, numa tentativa possivelmente frustrada de trazer um pouco da descontração entre os dois de novo depois daquela situação complicada. Afastou-se na direção dos quartos, mas antes de sequer alcançar o corredor, parou no portal de entrada da cozinha, onde a mulher ainda poderia lhe ouvir bem.
- Obrigado, Leona. - não a encarou de volta com as palavras sinceras, apenas continuou o caminho até o quarto de Carissa onde Adrian ainda estava tentando dormir um sono profundo.
Leona
Imaginar, era tudo que podia fazer em como Jack deveria estar se sentindo, ou pensando sobre si, e sobre tudo que estava acontecendo ali. Sabia que ele ia levar algum tempo para absorver, não sabia quanto, podia ser muito ou pouco? Não era importante necessariamente quanto tempo levaria, daria a ele o tempo que ele precisasse para se encontrar em meio ao escuro que ele normalmente estava habituado a conviver. Só queria que ele ficasse bem, e tinha se disposto a ajudá-lo a ficar bem, mesmo que ele não tivesse pedido por isso.
Sentiu o abraço folgar em torno do corpo, e finalmente levantou o olhar para expressão chorosa inédita do amigo de longa data, não sabia exatamente como deveria observa-lo mas instintivamente, o encarou com leveza. Porque ele já estava pesado o suficiente de todas as coisas que tinha de carregar, não precisava de mais na conta. Suspirou quando ele apoiou o queixo sobre o topo de sua cabeça, geralmente aquilo era sinal de que ele estava brincando, fazendo pouco caso de sua altura, mas o abraço e a necessidade de proximidade ainda estava ali, apenas aceitou o gesto sem acrescentar comentários, sorrindo sutilmente, mas o suficiente pra naquela curta distância o outro pudesse notar.
Acompanhou todo o conjunto de gestos do maior, ao buscar se recompor, e deu dois tapinhas de leve sobre a cintura do loiro mais alto, como se dissesse “vá lá”, mas sem de fato dizer as palavras, apenas concordando com a cabeça.
Deixou que ele bagunçasse seus cabelos, sem necessariamente conseguir ficar com raiva dele por isso, como normalmente ficaria. Teria outros momentos onde seria mais justo ficar com raiva dele, mas não agora. Passou as mãos pelos fios compridos voltando a enrolá-los e não precisou olhar para o mais velho para saber que ele tinha parado no meio do caminho, estava muito consciente da presença dele na cozinha pequena. E aquelas palavras ditas daquela forma, só reforçavam a promessa que tinha feito a si mesma:
-- Sempre que precisar, Jack.
Era pesado e importante, ter a responsabilidade de cuidar de pessoas tão importantes, e ao mesmo tempo era reconfortante saber que tinha a confiança daquelas pessoas em suas mãos também. Fechou as próprias mãos, como se guardasse algo invisível aos olhos, mas que sabia que estava ali, confiado bem em suas mãos.
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