09-21-2021, 12:57 PM
Didier
Ficou inicialmente inquieto, pois não sabia exatamente como deveria se sentar. Tinha achado uma posição mais confortável na mureta, mas estava inquieto com as pernas, talvez por não saber como se portar agora que o corpo tinha esfriado da quentura do choro e do drama. Acabou sentando com as pernas em borboleta, cruzadas, pois não queria retomar a posição de abraçar os próprios joelhos. Não queria mais esconder sua expressão de Renaud. Tinham conversado, e embora ainda tivessem sentimentos confusos no meio dos dois ali, tinha que forçar-se a se abrir. Fechar-se não ia ajudar em nada depois de cuspir para fora tudo que tinham cuspido.
Arqueou a sobrancelha para ouví-lo e se pegou sorrindo com o canto dos lábios para o comentário que deveria ser uma declaração bem triste. Mas era a verdade entre os dois. E conseguia rir daquele humor ácido de Renaud, se não estivesse tão cansado, tal como o próprio moreno.
– Se lhe consola, você nunca foi muito engraçado mesmo. – respondeu, então apertando os lábios num pretenso sorriso, mas até aceitou o fato que não era o momento para fazer piadas e pôs a língua para fora em um gesto infantil, cansado de manter a pose. Respirou profundamente, olhando para a expressão cansada, com olheiras e marcas de lágrimas no rosto de Renaud. Sabia que não estava tão mal, mas estava sim com os olhos levemente inchados e olheiras mais evidentes, e as mãos e os cabelos mostravam sinais de que nos últimos dias, não tinha ligado muito para a própria vaidade. A falta de maquiagem mostrava isso. Abaixou o olhar, então para as sapatilhas nos pés e tirou-as, colocando-as do lado de seu corpo para ficar mais confortável. – Pero me gustan... tu bromas. – se corrigiu num suspiro, na expectativa que ele, cansado, não entendesse suas palavras mal.
Deixou que ele falasse sobre as sessões do doutor Vlahos. Estranhamente, não conhecia bem aquele Renaud tagarela e menos charmoso, mas ao mesmo tempo, conhecia sim. Lembrava daquele tipo de disparada desesperada de quando os dois eram um pouco mais novos, de quando ele lhe procurou para ajudar com roupas para o recital, de quando ele mostrou o lado decepcionado com a falta da mãe. Estava há tanto tempo, de fato, ignorando que ele tinha aquele outro lado, assumindo, do próprio medo de se envolver com Renaud, que ele era só um cão perigoso; e depois alguém que não queria que lhe abandonasse. Supunha que nunca tinham tido um relacionamento saudável para começar, mas tinham tido oportunidades, que foram jogadas fora em prol... do que, afinal? Mais incertezas.
Apertou os lábios ao ouvir o nome “frater”, mas não estava em lugar nem posição para criticar o sujeito. Afinal ele “juntava os pedacinhos” de Renaud, algo que Didier tinha ajudado a quebrar. Se muito, ouvia a voz dele ecoar em sua cabeça lhe lembrando de sua covardia óbvia. Era desconfortável, especialmente por saber que Renaud se sentia mais confortável chorando para Sasha e dormindo com ele d que jamais tinha dado o conforto do moreno fazer consigo. Mas incomodado como estivesse, lhe restava aceitar.
Será que o moreno percebia que tinha amigos muito próximos e valiosos para ajudá-lo com todo aquele processo? Esperava que ele soubesse. Sasha, Isaac e Lilú, seja lá quem essazinha fosse... alguma coisa ele tinha ali se tinha juntado essas pessoas ao seu redor. Isaac, pelo menos, sabia ser um sujeito direito (mesmo com seus problemas); e Sasha outro sujeito direito, meio torto, mas que prestava para o que Renaud precisava: ser um amigo. Isso, admitia, invejava nos dois. Ao mesmo tempo, sabia que não queria ser um “amigo” também. Era mais egoísta que isso.
– Ainda bem que você tem essas pessoas pra te ajudarem... – sorriu de leve, supondo que de certa forma deveria ser grato por elas fazerem o que ele nunca tinha feito. – E o Zac... eu brinquei muito com ele, e acho ele terrivelmente fastidioso mas... ele é meu amigo apesar de tudo isso. – apertou os lábios, então levando as mãos até os pés cruzados a frente do próprio corpo. – Foi ele quem disse para eu ser honesto... não sei ser tão honesto quanto o Zac, mas... essa Lilú está certa... a gente complica demais las cosas. – abaixou a cabeça e levou a mão até os fios claros da nuca, coçando-os de leve. – Eu fiz tanta maldade com o Zac... e ele ainda me ajuda. Acho que devo pelo menos galletas y disculpas a ele também. – entortou os lábios, e tornou a encostar na mureta. – Ele disse que se você não viesse me ver para conversar, ele iria lhe arrastar até aqui... na hora, não tive coragem de dizer a ele que ele não conseguiria. – sentiu os dedos estremecerem ao pensar na ansiedade que sentiu antes de Renaud responder sua mensagem.
E surpreendentemente estavam ali conversando. Quem sabe ainda podia ter alguma esperança de se sentirem inteiramente bem estando um com o outro novamente, em outro momento. Mas primeiro, precisava mesmo simplificar tudo que havia complicado ao longo dos anos.
– Funciona mesmo conversar com o doutor “guapo” Vlahos? – riu, apesar de não achar graça nenhuma na própria piada. Estava seriamente cogitando que seria bom ter alguém pra lhe ouvir que não fosse o Isaac. Talvez o doutor pudesse lhe ouvir sem julgar sua personalidade terrível, suas ações cruéis e seu jeito nada honesto de ser.
Renaud
Apesar do cansaço físico proveniente do estresse mental e emocional, a medida que observava o loiro ao seu lado tão cansado quanto ele mesmo, tinha uma breve sensação de satisfação. Dificilmente podia ver Didier tão empenhado em algo a ponto de ficar naquele estado, de certa forma, saber que ele tinha se esforçado tanto para estar ali, e tentar ser honesto, lhe dava algum conforto. De que não estava brigando sozinho pelos dois de novo, e que podia se dar ao luxo de deixar o loiro brigar por si mesmo, coisa que não fazia a bastante tempo.
Era bom lidar com outro espectro de emoções de Didier, e de certa forma isso não seria possível sem exposição, embora doesse muito, conseguia ver algum benefício naquela conversa, principalmente porque a muitos dias não sentia “alívio”, ainda se sentia pesado, lento, muito fora do que era quando estava “bem”. Mas a perspectiva, não lhe assustava tanto, não tanto quanto antes, porque ainda podia tirar tempo para conversar com o loiro, embora fosse tudo diferente, ainda tinha coisas que eram como sempre. Soltou o ar por entre os lábios quando foi dito que não era engraçado com frequência, e terminou a latinha, balançando a mesma vazia entre os dedos, enquanto assistia Didier ficar mais confortável sem sapatilhas.
Ouviu os comentários seguintes, e sabia sim, que tinha alguns amigos mais próximos, embora precisasse da confirmação sempre, não sabia como, mas de alguma forma, tinha construído laços profundos com pessoas. Laços mais complexos do que um cachorro teria, certamente. E o loiro conseguiu arrancar um sorriso do Blanco ao falar sobre Isaac, claro que os dois tinham aprontado muito com o secretário ao longo dos anos, tantas coisas, tantos tocs ele tinha para serem explorados e transformados em brincadeira, que não tinha como simplesmente deixar passar. E ouviu o outro comentar sobre o Dr. Vlahos, e deu dois toques na latinha, como se tivesse ficado mais pensativo:
– Bem, o que eu posso dizer sobre o Isaac é que mesmo que você peça desculpas, ele não vai lembrar de quando foi, e se você contextualizar, ele vai dizer que não se importava com as brincadeiras, no máximo diria para que aparecesse mais no conselho, isso sim seria uma boa compensação. – O Blanco riu da situação hipotética, podendo desenhar em sua mente muito facilmente todas as variações de expressões do secretário, confuso diante do pedido de desculpas, e descrente que ele estaria se desculpando por 3 anos e bullying que ele nem tinha notado. Apontou a latinha vazia para o loiro, lançando um olhar mais compreensivo e um sorriso sutil no rosto cansado: – Mas se você sente que precisa se desculpar, faça isso porque você precisa, e não pense tanto se ele vai entender ou não. É o “Zac” ele vai ser apenas ele mesmo.
Respirou fundo, ainda sentindo o nariz congestionado do choro recente, e respirou mais pela boca do que pelo nariz, moveu os dedos enfaixados, e observou a latinha por um tempo, como se estivesse buscando um jeito de responder a pergunta de Didier. As consultas com o Dr. Vlahos eram essenciais em sua melhora, mas não tinha dado bola para o psicólogo logo de cara, tinham levado alguns bons meses para desenvolverem aquela relação de confiança, a ponto de se importar até de lhe pedir desculpas.
– Sobre o Dr. Vlahos, é relativo sabe... Ele é um psiquiatra, não um simples psicólogo, então ele tecnicamente sabe o necessário para ajudar gente como a gente... porém vai um pouco além de ser só a profissão dele... – fez uma pausa, organizando os pensamento na cabeça, Didier devia saber que ia a consultas compulsórias desde muito novo, ou talvez ele nunca tivesse prestado atenção nisso, até porque nem o próprio Renaud dava atenção a isso. A expressão divagou um pouco, e então decidiu encarar o loiro diretamente, suspirando porque respirar pela boca era um tanto desconfortável: – Veja bem, não adianta ir numa seção de terapia se você não pôr na sua cabeça que precisa disso. Eu digo isso porque vou a terapia compulsória desde os 14 anos, e só fui levar a sério do começo do ano para cá, pra ser mais exato de janeiro.
Renaud colocou a latinha de lado, esticando as pernas e depois dando dois puxões leves na calça social, pra poder sentar com elas dobradas, em uma posição mais confortável, e que pudesse ficar levemente virado na direção do loiro: -- eu já passei por vários médicos diferentes, péssimos a medianos, no começo eu tinha muita raiva da terapia, porque eu estava sendo obrigado a ir, depois aquilo se tornou apenas mais uma obrigação tediosa, até que eu transformei numa forma de importunar meus psicólogos apenas pra me divertir... foi diferente com o Dr. Vlahos, porque ele não caia nas conversas mais superficiais, e nem tentou me perfilar como se fosse um seriado policial nas primeiras seções, então eu aos poucos fui cedendo a conversar sobre outras coisas e pra minha surpresa o psicólogo da instituição é um homem muito inteligente, dá pra conversar sobre praticamente qualquer coisa, e esse foi o jeito que ele achou pra construir confiança junto comigo, o que não quer dizer que vai ser do mesmo jeito com você Didier.
Renaud juntou as mãos com as pontas dos dedos, e os moveu de forma ritmada, como se estivesse pensando, depois fechou e abriu a mão, sentindo os cortes pequenos arderem mais, e sabendo que teria de trocar aqueles curativos mais tarde: – Eu posso dizer que ele vem me ajudando muito, mas porque eu fui pedir ajuda na porta do consultório dele, e eu sabia o que viria no pacote... – o Blanco olhou para o loiro de forma mais questionadora, como se estivesse jogando a ideia de “você iria lá pedir ajuda com todas as letras?”: – Você vai ouvir perguntas que não quer responder, ele não vai te dar respostas sobre nada, mas vai te fazer pensar muito, o suficiente pra você mesmo achar as respostas, e isso vai doer e vai ser cansativo, mas se tiver disposição, vai perceber que vale a pena, eu não teria coragem pra vir aqui sem a ajuda de terapia... então a nossa conversa também está na conta do Dr. Vlahos.
Didier
Isaac era sempre um assunto divertido pelo visto. A seriedade honesta dele era insuportável, mas ao mesmo tempo que o nível de retenção anal do secretário era alta, ele sabia bem cuidar das pessoas em sua volta, sendo sempre dolorosamente honesto. Talvez só agora conseguisse apreciar isso. Ou pelo menos começava a apreciar, pois tinha sido a honestidade dele que tinha lhe feito sair do mofo do seu quarto para conversar com Renaud. Dolorosa como fosse aquela conversa, era uma conversa.
– Mismo que eu quisesse lembrar quando foi que comecei a bromear, não saberia dizer também. Então melhor me desculpar por todas até então. – só não tinha certeza se todas eram perdoáveis, afinal, especialmente quando estava irritado com as questões de Renaud, tinha cutucado o moreno e seu relacionamento com a oruguita e deixado Isaac pior de propósito. Nessas horas que lembrava do que fazia com o moreno, era inevitável pensar que era um insuportável. Olhou de volta para Renaud com aquele conselho e levantou o canto dos lábios um tanto conformado. – Ainda bem que o Zac é assim. Alguém precisa ser estável naquele conselho.
Então notou que Renaud estava se voltando para seu lado, mexendo-se e dobrando as pernas para ficar mais confortável. Observou-o de volta, sem saber exatamente por que toda aquela seriedade, até que ele começou a explicar sobre seu processo de terapia.
Sabia bem que Renaud fazia acompanhamento com os psicólogos, e talvez isso não tivesse adiantado muito considerando o tipo de coisa que faziam a noite. Mas como ele mesmo tinha comentado: se fossem pessoas que o tempo todo olhassem pra ele da forma que essas pessoas queriam vê-lo, sem procurar conhecê-lo primeiro, era certo que ele fosse se fechar ou enganá-los com truques. Renaud devia ter treinado muito do seu charme político girando piscólogos no dedo mindinho. Em outra parte, sabia que a família dele estava naquele ramo de conversa fiada. E em outra parte ainda mais, sabia que ele tinha exemplos como Sasha com ele. Então Aleksei tinha pego ele pela inteligência? Bom, não adiantava muito para Didier. O presidente do conselho estudantil estava bem ciente que tinha a inteligência emocional de um livro de auto-ajuda para adolescentes e que por mais que estudasse, não era exatamente feito para a vida acadêmica.
Suspirou longamente e encostou a a cabeça na grade, supondo que talvez tivesse que mudar seu plano. Renaud lhe olhava provavelmente sabendo que não era o tipo de pedir socorro ou ajuda para ninguém, porque era muito orgulhoso. Mas... até queria. Olhar tudo por cima não tinha lhe ajudado a resolver o problema com Renaud.
– Levo galletas para o doutor Guapo também então. – respondeu, tentando achar certa graça naquela situação. – Perguntei porque... eu até quiero hablar. Mas não um moralista, nem com alguém que se importe comigo de verdade... quiero alguém que me ouça sem me julgar como certo ou errado, sem me interromper quando eu falar absurdos, que não me olhe torto pelo que eu fiz... sei que me pondré muy enojado se isso acontecesse. – entortou os lábios, e então jogou o corpo de volta um pouco para frente, juntando as mãos sobre as pernas. – Se estou certo ou errado isso eu quero perceber sozinho. O jeito que eu te tratei... sabia que estava sendo estúpido, ninguém precisou me dizer isso. Só funciona se eu mesmo admitir. – bufou levemente irritado consigo mesmo por saber que funcionava daquela forma. – Acho que preciso de um padre excomungado. Ou do confessionário. Ou de uma porta. Ou do Isaac. – brincou, até rindo um pouco de sua sequência de ideias absurdas.
Renaud
O Blancou ouviu com atenção tudo que o loiro lhe dizia, tudo em suas pequenas reações, as desviadas de olhares, o torcer de lábios, até as respirações mais exageradas. E pelo que o loiro narrava, fazia parecer que ele nunca estivera em uma terapia de verdade. Não lhe surpreendia, em nada, mas não sabia exatamente como ajudar nesse caso. Não queria ter de entrar em detalhes sobre o que conversava nas consultas, mas também não queria que Didier desistisse da ideia simplesmente por não achar uma boa perspectiva:
– Temos um ex-padre como professor de filosofia, mas não acho que é o que você precisa no momento. -- comentou tentando achar um pouco de graça, mas sem muito sucesso, respirou fundo algumas vezes, ainda sentindo o nariz congestionado, não funcionaria tão cedo pelo visto. Terminou de tirar a gravata e a enrolou para por no bolso interno do terno: – E o Isaac, ele tem limites do quanto ele pode te ajudar, porque ele também é tão gente como nós, com os problemas dele para dar conta...! – Renaud desabotoou a camisa social em dois botões, sentindo-se um pouco mais livre para respirar mas ofereceu ao loiro um olhar mais suave, como provavelmente Didier estava pouco acostumado a receber, mas conhecia o suficiente das outras facetas do Blanco, pra poder notar as diferenças entre as forma como Renaud o observava:
– Claro, que você sempre pode pedir colo e um cafuné ao Isaac, ele não é bom pra entender sentimentos difíceis de nominar, nem vai saber sempre o que lhe dizer, mas se você perguntar se pode ficar perto dele, ele geralmente deixa, não vai te cobrar nada de volta. Vai ser só ele, do jeito dele...! – E era notório que Renaud falava de uma forma um pouco diferente quando tratava de Isaac, tinha muitas pequenas nuances ali, respeito, confiança, até certo ponto, cumplicidade.
Mas Renaud não deixou que o assunto sobre o psicólogo ficasse de lado, esticou a mão e repousou sobre o joelho de Didier, sobre uma das mãos dele que repousava ali, como se o gesto fosse dar mais ênfase as palavras que queria dizer:
– Eu não estou em posição de dizer pra você, o que é melhor ou pior, muito menos sirvo de exemplo pra nada, meu emocional é uma porcaria frágil e desgastada, mas eu acredito que você deveria pelo menos tentar conversar com o Dr. Vlahos...! – o Blanco fez uma breve pausa, engolindo em seco, e acariciando a mão do outro com o polegar, como se o gesto trouxesse algum conforto para o outro: – Se ele consegue me fazer acreditar que existe solução para os meus problemas, mesmo no estado em que eu estou, então ele pode cuidar de qualquer pessoa...! – e era cada vez mais perceptível como era desconfortável pra Renaud admitir esse “estado” em que ele se colocava nas frases, como se fosse alguém quase sem possibilidade de recuperação, até certo ponto, havia melancolia nas palavras do Blanco: – Acredite, ele não me julgou por nada, eu fui lá mesmo depois de todos os meses de enrolação e brincadeira com o trabalho dele, mas no dia que eu disse: “me ajuda...”, ele simplesmente me respondeu: “é pra isso que eu estou aqui, não é?”
Renaud respirou fundo, como se a recordação lhe causasse desconforto, fungou e voltou a encarar o outro com um olhar mais cansado: -- Só vá, experimente você mesmo achar o seu jeito ou suas palavras de como pedir ajuda, e então tire suas próprias conclusões da terapia.
Didier
Será que se tivesse alguma vez feito terapia, seria menos quebrado do que era? Possivelmente não, sabia que tinha um gênio terrível, mas até passou a se questionar isso, considerando que não era exatamente algo que sua mãe recomendaria. Aliás, era exatamente porque ela não recomendaria que talvez estivesse sendo puxado a ir, sendo apenas alimentado pelas palavras de Renaud. E essa perspectiva, por mais progressiva que fosse, considerando que se nunca haviam procurado ajuda profissional, era admitir um pouco a origem humilde e ignorante dos dois, Didier e sua mãe, algo que no outro dia, sequer pensaria em questionar. Mas estava inclinado a acreditar que não tinha sido tudo tão perfeito quanto pintava para os outros. Aos poucos descobriria o quanto podia mudar dessa perspectiva.
Esperava que Renaud apenas achasse a mínima graça em seu comentário, mas ao invés disso, notou como ele voltou-se para si, ligeiramente preocupado, e tentando justificar porque nenhuma das alternativas que tinha dito era boa. Apertou os lábios, sem entender porque estava sendo acuado por conta de uma piada, mas provavelmente Renaud bem lhe conhecia para saber que aquele comentário engraçadinho poderia virar uma desculpa para que fugisse de uma sugestão que poderia lhe ajudar bastante. Ele estava tentando ser compreensivo com sua covardia, e embora fosse um tanto frustrante, supunha que isso apenas demonstrava que Renaud era atento o suficiente a si - mesmo naquele estado - para impedir que Didier se autossabotasse quando tinha condições de dar um passo para frente.
Respirou fundo, e acabou se arrependendo um pouco de tentar fazer graça naquela situação.
Renaud parecia ter uma proximidade bem especial com Isaac. Quer dizer, já sabia disso, não era idiota a ponto de não ver que ele não se aborrecia e nem queria jogar Isaac do primeiro andar mesmo quando estava estressado com as coisas do conselho, mas em algum ponto enquanto não estava observando, Renaud tinha passado a confiar no secretário de um jeito que só lhe lembrava aquela animação infantil que há muito não reconhecia nele. Isaac era um amigo, supunha. E achava bem irônico que esse tempo todo tenham convivido com ele nas mas diversas situações e irritado o pobre coitado até cansar, mas até há pouco não havia considerado que ele poderia ser um amigo também. Aliás, tinha alguém proximo além dos dois no conselho?
Não, e talvez por isso fosse tão reconfortante que Renaud colocou a mão sobre a sua e acariciou a mesma como que tentando lhe acalentar. Olhou brevemente para aquele gesto, e a insistência em lhe aconselhar a ver o doutor, e então, encarou-o longamente enquanto ouvia a questão do "estado" do moreno, incerto se ele estava confortável o suficiente consigo ainda para que saísse daquela fala vaga para algo mais claro do que estava passando ou sentindo. Mas uma coisa era certa. Deveria ter algo haver com aquilo que tinha acontecido na enfermaria. Será que teria coragem de admitir que tinha ido lá? Aliás, será que faria algum bem admitir que tinha ido até lá? Respirou fundo, lembrando de ter sido obviamente chamado de covarde por ficar escondido atrás da porta e por não querer que Renaud soubesse que esteve ali.
Virou a mão que ele acariciava, segurando a de Renaud sobre a sua, apertando com alguma firmeza, para tentar passar segurança.
– Lo haré. - respondeu, encarando o moreno de volta, o tom assertivo como o toque na mão dele. Ainda parecia bastante cansado, mas estava sério o suficiente para dar a entender que não fugiria daquela sugestão. – E não vou esperar um dia propício. Eu vou hoy, nem que seja marcar um dia com o doutor. Eu disse que ía me cuidar, então não vou te preocupar com isso. Sei que vai ajudar, nem que seja tentar conversar com ele. Não é qualquer idiota que consegue sua confiança assim. – sorriu cansado, pensando que era um idiota que ainda não tinha conquistado tudo aquilo. Ao menos não do Renaud que tinha jogado fora. Aliás, talvez nem mesmo do que era um cachorro. Sabia mandar, mas sempre, sempre tinha aquele receio do dia em que ele diria "não". Aquela conversa era uma das pequenas consequências desse dia ter enfim chegado. Era horrível, mas sentia que estavam indo bem.
Apertou um pouco mais a mão de Renaud, folgando até deixar em um aperto que poderia ser dito carinhoso, e aproveitou que ele tinha voltado o corpo para si para observá-lo mais atentamente. Entreabriu os lábios para dizer algo, mas acabou hesitando, o pé mexendo de leve impaciência consigo mesmo. Então engoliu em seco.
– Renaud, no sé quais são esses problemas que você está me dizendo, não sei se sou eu ou todas as outras coisas que você listou e não tem certeza... mas... se um dia quiser conversar comigo, te he dicho... eu posso lhe ouvir, e posso me preocupar também. – encolheu um pouco os ombros e levou uma mão até a nuca. – No dia em que você passou mal... e-eu... - mordeu o lábio inferior, folgando um pouco as mãos das de Renaud, sentindo que as suas suavam. - Os pollitos me avisaram, e eu fui até lá na enfermaria... mas eu pedi pro doutor não dizer... porque estávamos brigados... e... eu sei que fui covarde de não dizer que estava preocupado, mas eu... – sentiu o ar faltar de leve, talvez porque não tivesse uma certeza inteira do que estava dizendo, e embora tivesse dito que queria se preocupar por Renaud, tinha medo que ele se recusasse, considerando tudo que tinham conversado aquele dia. – Eu sei que não sou de confiança, não tanto quanto o Isaac ou o Peyrac, mas... é uma merda não saber o que você está passando...! E ter que ouvir do doutor pra não me preocupar e ficar satisfeito com isso sem saber o que está acontecendo... quer dizer, talvez nem você saiba... mas ficar no escuro... eu admito ser estúpido, pero no soy como uma malva. – apertou os lábios ainda mais, franzindo a testa e lembrando do que tinha acontecido aquele dia. Lhe dava um leve incômodo toda aquela situação. – S-se você disser que não é da minha conta... eu vou ficar chateado, e ainda vou estar preocupado, mas vou entender. Mas não quero aceitar isso de ninguém além de você... creo.
Renaud
Estava exausto, tinha plena certeza disso, mas ao mesmo tempo sentia que toda palavra trocada naquela cobertura com Didier, era plenamente importante e essencial para si, para quem era agora, e para o que precisava arrumar de si mesmo. Estava com os olhos avermelhados do choro recente, e o nariz não dava sinal de que iria descongestionar, precisava respirar com a boca aberta, e isso lhe deixava com o aspecto cansado que de fato estava. Mas não estava de todo errado, pois sentir a mão de Didier mudar de posição e apertar a sua em retorno, foi uma sensação indescritível, tinha a certeza de que ele iria se cuidar, tinha um retorno direto a sua preocupação dita nua e crua ali, e tinha carinho ali. Um montante de coisas que sabia que sempre estiveram ali, na relação dos dois, mas que nunca tinha sido posta de forma tão direta e clara entre os dois.
Sorriu de volta para Didier, partilhando daquele cansaço, que diferente de todos os tipos de cansaço que já tinham dividido ao longo dos anos, aquele era um novo tipo, e que passava a ideia de que eram realmente cúmplices, próximos, amigos, algo que sempre ansiou confirmar que existia entre os dois. E sentiu o peito apertar, o coração bater forte, estava inquieto com o montante de emoções que lhe tomavam, mas devolveu o aperto, sem muita firmeza pela mão ainda estar machucada. Prestou atenção em Didier quando ele ficou tenso, e por reflexo ficou igualmente tenso, e novamente não estava errado, quando o loiro entrou no assunto de ter percebido que estava com problemas.
[...]
“não sei se sou eu ou todas as outras coisas que você listou e não tem certeza...”
“eu posso lhe ouvir, e posso me preocupar também”
[...]
Renaud não teve uma reação imediata, sentindo o aperto no peito se tornar mais intenso, o coração batendo acelerado, a ponto do sangue correndo depressa lhe dar dor de cabeça. Um frio intenso se alastrou por suas vísceras como se tudo ali tivesse desaparecido, a respiração que já estava difícil com o nariz congestionado, ficou curta e acelerada. Não podia sentir o suor nas mãos do loiro porque as suas já estavam molhadas do próprio suor, além do leve tremor que perpassou todo o seu corpo, desembocando na ponta dos dedos, e Didier certamente perceberia aquele montante de gestos; Sabia exatamente como o loiro se sentia, já tinha estado naquela posição quando era Sasha quem estava internado, já tinha estado naquela posição quando o outro passou pelo corredor e tinha se escondido em uma sala de aula, aquilo era covardia, até podia ser, mas não era mentira que existiam fortes sentimentos por trás, um medo enorme de decepcionar, de não ser capaz de cuidar, que eram todos frutos de preocupação. E ter passado por todos aqueles sentimentos, ter tido ciência de todos eles ao longo do tempo, e perceber que eles existiam em Didier, e existiam por que ele se preocupava com seu bem estar lhe encheu de tantos sentimentos que os olhos marejaram como se aquilo fosse transbordar de si:
– Eu… eu preciso de um instante… por favor…! – o Blanco puxou a mão de Didier que segurava, e envolveu entre as suas duas, como se fosse algo precioso, e levou até o próximo dos próprio lábios, depositando um beijo carinhoso ali, antes de aproximar a testa e repousar o rosto ali um pouco: – Eu sei que você já tinha dito hoje… nessa conversa… que você se preocupa comigo… mas…– a voz falhou um pouco, e Renaud puxou o ar com força com a boca, como se tentasse digerir o montante de sentimentos que lhe tomavam, aquilo era uma pequena crise, podia lidar com ela: – mas… você não faz ideia… nem imagina… a quanto tempo…! Quantos anos…! Eu esperava escutar isso da sua boca… que eu valho a sua preocupação…– O Blanco piscou e uma lágrima escorregou e ele esfregou o rosto sobre a mão do outro, ainda respirando fundo: – A ponto deu ficar assim… de ter um gatilho… mas eu entendo… eu entendo tudo que você está dizendo…!
Renaud levou mais alguns segundos respirando fundo, sem de fato chorar, e beijou a mão de Didier mais uma vez com muito carinho, mantendo-o perto de si como se precisasse estar tocando nele, e tendo certeza que ele estava ali, pra ter poder continuar falando. O jovem Blanco encarou Didier diretamente nos olhos, eles estando marejados para além de avermelhados, os tremores subsidiando lentamente, pela pequena crise sendo aos poucos controlada:
– Se você é um covarde eu também sou, porque eu já estive ai, eu já quis ir falar com Sasha quando ele estava internado no hospital, e eu não consegui, ele salvou minha vida mais de uma vez, me ajudou no pior momento da minha vida, e eu não tive coragem de ir até o hospital e falar com ele. Sou covarde, sou, passei anos sem falar com ele por causa disso, até que só agora, somente agora, eu conseguir pedir desculpas, e dizer que esse tempo todo, eu sempre me preocupei com ele. – Admitiu mesmo sabendo que o outro não gostava de Sasha, mas não pararia ali, ainda tinha outras coisas pra falar, voltou a passar os lábios mornos sobre os dedos da mão de didier, e dava pra notar que estava trêmulo, então fechou os olhos enquanto prosseguia com a narrativa: – Quando nós brigamos, eu tentei ir no seu quarto falar com você, mas eu não consegui… eu não consegui nem chegar perto da sua porta… era como se houvesse um abismo entre a gente que eu não conseguia contorna… eu fugi, sabe…? Isso me torna covarde? Sim, porque eu também lhe evitei várias vezes no decorrer desses dias… mas eu só queria poder falar tudo e dizer que a gente não precisava ter brigado, que apesar dos meus medos, dos meus receios eu só queria poder aproveitar o tempo com você aqui em St. Clavier, já que depois eu não sei mais se a gente vai se ver… ou conviver… ou todo resto… e eu vou morrer de saudades de você… todos os dias…!
Admitiu a voz morrendo de novo, e a vontade de chorar vindo, mas Renaud tornou a respirar fundo, tentando manter o ritmo da conversa e responder devidamente o que o outro lhe perguntava: – E sim, eu tenho um monte de problemas, e não é só você: a minha família, a minha mãe…! – a voz ficou pequena na garganta: – O meu trabalho, a minha insatisfação, o vazio de estar correndo atrás do mundo pra todo mundo menos pra mim…! O medo de não ter controle da minha vida e nem do que eu faço com ela… tudo isso junto com a nossa briga… vem acabando comigo um pouquinho por dia… até o ponto que eu estou agora… eu não posso falar sobre tudo, porque nem eu sei direito porquê ou como… só posso dizer que eu fico grato…! Muito grato por você se preocupar comigo.
Renaud tornou a abrir os olhos, observou o loiro a sua frente longamente, como quem estava muito cansado daquilo tudo, das conversas, das cobranças, até das próprias emoções confusas e conturbadas. Então se aproximou mais de Didier reduzindo a distância, e depositou um beijo breve sobre os lábios do loiro, mas igualmente carinhoso. Renaud encostou testa a testa: – De verdade… obrigado por dizer que se preocupa comigo… eu precisava disso… e a tanto tempo…! Só me perdoa está desse jeito… não tenho nada demais pra te oferecer… estou só machucado demais… demais…! – riu fraco, no que se tornou num soluço de quem estava quase chorando de novo, mas ainda assim conteve as lágrimas, embora a voz soasse embargada e pesada: – eu queria poder demonstrar o quanto eu estou feliz… mas eu só tenho vontade de chorar… e chorar… desculpa estar desse jeito… eu não sei quando eu vou ficar melhor…!
Didier
Não esperava reações positivas de Renaud. Não depois da tensão de toda a conversa entre os dois. Porém, o tremor, os olhos escuros, o suor, podia notar cada uma das expressões dele, estando tão próximo e tão atento agora que tinha visto um lado do francês que desconhecia. Em sua mente, podia ver a cor se esvaindo de Renaud a medida que tocava no assunto que era próprio dele e do doutor, porém, não sentia o desejo de voltar atrás com o que estava falando. Porém mesmo tendo chegado a alguma conclusão de sua própria fala e deixado esborrar aquele desejo de saber e conhecer os problemas do outro – algo que nunca tinha feito – Renaud não tinha prontamente chegado há alguma sobre si. Ou melhor, tinha. De que algo em suas palavras tinham trazido de voltas aquelas emoções intensas e sentiu tudo ficar frio dentro de seu corpo, começando pelo estômago, talvez porque tudo estivesse sendo bombeado para o coração, que começava a doer. Será que havia algo que não dissesse que não trouxesse algo ruim para o moreno?
Só que ao invés de lhe rejeitar, com aqueles olhos cheios de lágrimas, Renaud segurou sua mão com cuidado. Prendeu a respiração, porque já tinha sido cuidado várias vezes, mas talvez há um tempo não tivesse sido tratado como algo tão precioso a ponto de merecer um beijo honesto sobre os dedos. Sem charme. Sem pretensão. Só cuidado. Isso fez o sangue subir para seu rosto e os olhos arderem. Cobriu parte do rosto com a outra mão, ouvindo aos poucos as palavras falhas de Renaud, mas que ele colocava com tanto carinho. E sentindo aquela lágrima sobre sua pele, sobre os dedos que ele colocava sobre o rosto, como se esperando seu cuidado, deslizou o polegar para tirá-la do caminho, mesmo que lhe parecesse apenas a primeira. O rosto dele estava tão quente.
Porém não foram mais lágrimas que vieram. Só um longo silêncio em que Renaud mais uma vez lhe tratou com carinho, um vermezinho de saudade lhe infectando, porque aquele era o limite da distância entre os dois naquele momento em que ainda tentavam se acertar, e que estava claro que era parte do problema que tinha deixado o moreno tão frágil. Seus lábios tremeram ao ter que encarar Renaud naquele estado, mas devolveu o olhar de frente, menos receoso que no começo da conversa. O que tinha dito que gostaria de retirar? Nada. Aqueles eram seus sentimentos. Então tinha que encarar os de Renaud com igualdade. Se machucava, tinha que ser machucado.
Renaud lhe surpreendeu ao se chamar de covarde. Ele? Por que? E aos poucos a narrativa sobre Sasha, que deveria lhe deixar muito bravo foi mais que esclarecedora. Assim como Didier, o rapaz tinha se acovardado em expor sua preocupação. E vendo o caso dele, parecia até ridículo esconder de alguém gratidão, cuidado, amor. Não que achasse Sasha merecedor, mas não o achava porque tinha inveja daquela capacidade dele de ser honesto, de tornar tudo tão simples, de tomar a iniciativa, enquanto Didier se escondia do trabalho árduo de arcar com os próprios sentimentos. E eram tantos, tão confusos, tão intensos. Apertou os lábios em um leve bico, a voz escapando em um volume mínimo com um “desculpa também”.
A confissão que Renaud também tinha tentado ir lá até seu quarto fez seu corpo todo estremecer. Então ele queria consertar tudo também, desde o princípio. A respiração falhou, mas seguiu encarando o moreno, apertando os olhos apernas quando sentiu o coração ficar miúdo ao ouvir que ele queria seguir ali, e que sentiria saudades. Queria ter coragem para dizer que não precisariam de saudades, mas mal podia entender seus sentimentos agora. O que sabia sobre si mesmo, uma vez que não estivesse preso naqueles muros?
Sabia pelo menos que não esqueceria Renaud. Não esqueceria o menino perdido. Não esqueceria o cão protetor. E muito menos esqueceria o homem sincero a sua frente. Quem mais, além de sua mãe e dele, tinham lhe tratado com tanto apreço?
Engasgou um breve soluço, a cabeça começando a doer de segurar as próprias emoções atrás dos olhos, embora seu corpo todo falasse a intensidade com que sentia aquelas palavras. Ele tinha tantos problemas que conhecia, alguns que conhecia bem, e outros que talvez compartilhasse mais que nunca tinham conversado sobre, e ainda sim, mesmo sendo um dos problemas dele, Renaud achava espaço para lhe agradecer. Agradecer de verdade só por finalmente abrir o jogo que se preocupava. Não sabia há quanto tempo, claro, mas em algum ponto, passou a se preocupar imensamente com Renaud. Mas em nenhum momento isso tinha ficado claro. Quantas coisas sua capa de dono mandão ou de patife exigente e egoísta tinha deixado passar?
Sem saber o que esperar daquela aproximação singela de Renaud, sentiu o beijo breve em seus lábios. Encarou-o com surpresa por um instante, até ele encostar em si, e então sentiu a mente ficar em branco, o resquício da sensação dos lábios trêmulos dele nos seus. Apertou os dentes, sabendo que sua expressão não era nada bonita, mas tentando entender o que sentia naquele momento em que estava triste por Renaud e ao mesmo tempo, sentia uma fagulha de luz clara dentro de si lhe dizendo que havia alguma esperança daquele não ser um beijo de despedida, e sim, um carinho em um recomeço. Podiam não recomeçar de fato agora. Renaud tinha muito na cabeça para lidar com o muito que Didier tinha na cabeça. Isso estava claro. Mas queria tanto outro beijo. Queria outros. Queria mesmo que St. Clavier não acabasse. Ou queria que nunca tivessem que sentir saudades um do outro. Queria que fossem amantes... ou amantes de novo, se fosse aos olhos de Isaac, por exemplo. Queria Renaud. Queria tanto a gentileza assustadora dos toques dele.
Desviou o olhar do dele, os olhos vermelhos a respiração pesada, porque tal como o moreno, segurava firmemente as lágrimas, mas escorregou para os braços dele mais uma vez, apertando o corpo do moreno e acariciando-lhe os cabelos escuros com as unhas descuidadas dos últimos dias.
– No necesito favores para amarte, Renaud... ya basta de eso... solo necesito a te, maldición...!– apertou o corpo do moreno, tirando a testa da dele, beijando-lhe o rosto e a cabeça enquanto apertava ainda mais o moreno. E bem sabia que por mais que dissesse isso não podia tê-lo só assim. Aliás, nem merecia. – Las desculpas no son necesarias... pode chorar... não precisa sorrir quando não quiser. Você nem sabia fazer isso, lembra...? Por isso se você disser que está feliz, eu acredito. Eu não estou rindo... mas também estou feliz que posso hablar com usted de novo... – estava feliz por mais que isso, embora também fosse consumido por uma tristeza imensa de ver Renaud naquele estado, e de saber que tinha muito para enfrentar também.
Respirou fundo, então soltando Renaud aos poucos mas não saindo daquela distância curta entre os dois. Levou ambas as mãos até o rosto do moreno, encarando-o diretamente, a expressão levemente angustiada.
– Eu também no lo sé quando você vai ficar melhor, mas vai...! Não sei nada sobre você, mas sei que é forte... e resistente... eu vi isso... mesmo surrado, e caído... você tem suas cicatrizes pra provar... essa vai curar também... – respirou fundo, sabendo que todas as suas palavras provavelmente eram bobas perto da honestidade de Sasha, da lógica impecável de Isaac ou do conhecimento do doutor Vlahos. Mas eram suas palavras, para Renaud. Eram suas. Levou a mão até o topo da cabeça de Renaud e beijou-lhe longamente a testa, não sabendo se aquele tipo de proximidade o agradava ou se o moreno estava apenas sendo gentil e paciente consigo, mas não podia evitar gostar dele ali. Riu, fraco, começando a temer que se ficasse mais tempo ali, ficaria mais egoísta, no desejo de não deixar que aquele momento em que se tratavam daquela maneira singela passasse. Ao mesmo tempo, queria que o moreno saísse por aquela porta e aos poucos, de fato curasse aquelas feridas que tinha abertas dentro de si. Encostou testa com testa mais uma vez, achando aquela posição confortável, e ao mesmo tempo, a respiração quente de Renaud próxima a si reconfortantemente desconfortável.
Renaud
Amar as pessoas deveria ser fácil, e talvez até fosse, se houvesse isenção das responsabilidades, e da convivência, e de todas as dificuldades geradas por pessoas diferentes decidirem partilhar do próprio tempo com outra pessoa. E sendo assim, mostrar lados vulneráveis, poucos vistos, que talvez nem as mesmas gostassem, mas que estavam lá, faziam parte da “essência” da pessoa. O jovem Blanco não era necessariamente versado nessas questões muito filosóficas, embora gostasse sim, de ler e discutir sobre o assunto, o cerne da questão lhe fugia o pensamento. Todas essas divagações sobre sentimentos, reciprocidade, cumplicidade, proximidade, ausência, frustração, carência, desejo, compreensão, e inconformidade, eram um leque muito extenso de desdobramentos emocionais que não eram preto no branco. Eram cinza, turvos, misturados, onde a realidade provava que diferente da literatura romântica, pode-se sim, estar feliz e angustiado simultaneamente, sem que isso seja anormal.
E era nessa mistura inconstante, nessa vibração entre feliz e caído, frustrado e fortemente inconformado disposto a mudar a própria situação, mas cansado demais pra reagir aquela proximidade, desejando demais prolonga-la, mas sabendo que não tinha como arcar com ela ainda, que Renaud se permitia ficar perto de Didier. Nem sabia qual seria as extensões e efeitos colaterais daquela conversa, só sabia que estava cheio, preenchido até o topo de sentimentos dos mais diversos, de coisas que queriam transbordar para fora de si, fosse nas lágrimas que não queria deixar chorar, ou fosse na respiração quente e rápida por tentar digerir aquilo tudo que acontecia entre os dois.
Não houve qualquer resistência do corpo de Renaud ao ser abraçado, apenas fechou os olhos brevemente, se sentindo totalmente absorto naquele momento, na voz próxima de Didier, como se estivesse boiando no mar, ao mesmo tempo que chovia morno sobre si, o importante é que não estava afundando, e nem sentia como se fosse afundar.
E era verdade, sequer sabia sorrir de verdade, espontaneamente antes de conversar com o loiro, antes dele lhe falar com todas as letras as diferenças de estar feliz e satisfeito. E quando Didier se afastou, reabriu os olhos para encara-lo, a expressão apreensiva do outro lhe parecendo tão fácil de ler, porque tinham brigado? Porque tinham deixado as coisas chegarem aquele ponto, para ter de estar tão, mas tão machucados? A reação do jovem Blanco foi de suspirar como se fosse sua resposta para o outro sobre ser “resistente” e saber que aqueles machucados iriam cicatrizar também. Tinha ouvido aquelas mesmas palavras muito recentemente, não sabia ainda quando estaria melhor, mas tinha ideia de como faria aquilo, a medida que fosse progredindo no próprio tratamento. Acharia a si mesmo no meio daquele turbilhão de sentimentos, daria ordem a eles, aprenderia a lidar com as crises, e quem sabe com sorte, não se perderia mais nos dias sem memória e sem recordação que lhe assombravam.
Levou ambas as mãos ao rosto do Didier também, deslizando a ponta dos dedos calejados sobre a pele do outro, reconhecendo a sensação da pele do outro embaixo de suas digitais, acariciou com cuidado e carinho até a região da nuca, sentindo os fios loiros entre os dedos: – Eu nunca te disse… – falou em tom baixo, revestido de um tipo de cumplicidade nas palavras, muito particular: – Mas eu gosto de você desde que eu te contei aquela história no seu quarto, tarde da noite… foi quando eu senti que podia cuidar de você… que podia te abraçar e te proteger do mundo. Te dar algo que ninguém mais podia… minha companhia e meu carinho… mesmo que eu sequer conseguisse nominar nenhum desses sentimentos…– admitiu aquilo, a voz embargada e pesada do cansaço e dos sentimentos que admitia ali, acariciou a nuca do outro com a ponta dos dedos: – Eu sabia naquela noite… que eu queria poder olhar pra você dormindo… escutar sua voz ao acordar ou sorrir… reclamando ou apenas pra falar sobre qualquer coisa… sabia que queria estar sempre perto de você… sempre… sempre…! – roçou a ponta do nariz contra a do loiro, as respirações se cruzando naquela proximidade ínfima entre os rostos: – Porque eu amo tanto você… tanto…! – os lábios do Blanco tremeram e os dedos pressionaram de leve e tremeram suavemente, mas aquela distância qualquer nuance era fácil de notar: – Que eu me arrependo apenas de não ter sabido nomear isso antes…e poder te dizer com todas as palavras… te dar segurança… te mostrar que você é insubstituível… e que mesmo antes de saber que eu te amava tanto… eu já o fazia com tanta vontade… que ninguém nesse mundo deve gostar mais de você do que eu…!
Renaud não se aproximou mais, deixando que existisse apenas uma pequena barreira invisível de limites sobre os dois, tinha lhe dado um beijo antes, singelo, carinhoso, reconfortante. Mas agora queria que Didier lhe beijasse de volta, da mesma forma, queria sentir dele as mesmas coisas, pra ter ao menos a certeza, que a despeito de tudo estar uma bagunça, não estava errado em gostar dele, em ama-lo. Por isso em um sussurro baixo, as palavras deslizaram da boca de Renaud, em um pedido singelo:
– Me beija…?!
Didier
Era difícil interpretar aquele suspiro de Renaud. Talvez estivesse cansado de ouvir aquelas palavras, mas Didier acreditava nelas. Acreditava porque tinha visto ele sair de outras situações que muitos diriam ser piores, mas que só Renaud tinha poder de julgar como eram. Mas como fosse, não podia voltar atrás com o que tinha dito, nem queria, porque não tinha outra forma de colocar toda sua expectativa numa recuperação do moreno. E tinha esperança que aquilo tudo iria passar para ele, talvez antes até do que passasse para si, afinal, quantos anos a mais de conversa com doutores ele tinha, em comparação com alguém que nunca tinha se exposto de um modo que não fosse superficial?
Sentiu as mãos ásperas de Renaud, as mãos tão familiares, passando por seu rosto. Fechou os olhos por um instante, reconhecendo os calos nos dedos, até ouvir a voz do moreno, dessa vez mais baixa, lhe chamando para atender a uma pequena confissão. Entreabriu os olhos azuis e deu atenção a ele, ainda deixando aquelas mãos irem do seu rosto até sua nuca, num carinho mais suave do que os que tinham o hábito de trocarem.
Renaud começou com “eu nunca te disse”. E o que poderia seguir ali eram inúmeras coisas, pois havia muito que nunca haviam compartilhado, e mesmo depois de abrirem o jogo um com o outro, tinham anos de história, e provavelmente teriam anos de história ainda para dizer um ao outro que nunca tinham ousado abrir a boca para falar. Mas a dele, a dele fez com que seu coração batesse mais rápido, agitado. A primeira vez que Renaud pensou que gostava, gostava de verdade de si. E lembrava daquele dia, pois tinha sido uma discussão sua com a mãe, e estava trancado em seu quarto escuro, e aquele porre pequeno tinha ido até lá e no fim, contado uma história revoltante que lhe deixou mais calmo.
Ainda lia aquela história.
Naquele momento, ao ler aquela história então, aquele garoto irritante queria lhe abraçar? Cuidar? Lhe proteger? Desde aquele dia? Os dedos em sua nuca lhe causaram um arrepio, e a expressão pareceu cada vez mais cansada, mais cansada de segurar tantos sentimentos que sabia que passavam por seu corpo cada vez que ouvia ele dizer verdades que nunca imaginava, sobre Renaud, sobre os dois, coisas que eram verdade para Didier também, embora não soubesse precisamente nada do que sentia por Renaud, mas sentia exatamente aquilo que ele. Sempre... sempre!
Abaixou um pouco a cabeça ao sentir a ponta do nariz roçando em seu rosto, os lábios apertados trêmulos ao ouvir uma declaração tão direta novamente naquele dia. Levou as mãos até os pulsos dele, segurando-os ali, o corpo tão pesado e tão cansado de lutar para expulsar certos sentimentos e guardar outros, como se fossem proibidos de serem ditos naquela situação em que os dois estavam, enquanto Renaud podia ser claro, podia falar, gritar, ou declarar tantas coisas que pensava mas não tinha posto em voz alta. E ao invés de pensar nele como frágil, fraco, covarde, diferente das situações em sua vida em que o choro tinha sido segurado como sinal de força, enxergava Renaud mais forte agora que estava nu à sua frente. Nu porque seu coração e sua mente estavam totalmente expostas para que Didier visse e julgasse, e pudesse responder, e pudesse rejeitar, e pudesse descreditar. Por isso mesmo ele parecia tão forte.
Cerrou os olhos firmemente, acreditando naquelas palavras honestas. De verdade, não deveria ter ninguém no mundo que lhe amasse mais. E o fato de que chegou a acreditar nisso por um segundo sequer, pelo segundo em que ouviu aquilo declarado com uma voz tão baixa e confidente, mas clara, e limpa, que sentiu algo quebrar dentro de si, pois estava com o corpo todo quente a voz lhe faltou por um instante, quebrando assim que abriu a boca.
Levou ambas as mãos ao rosto de Renaud e, quebrando aquela distância que ele mesmo decidiu impor, beijou o moreno longamente nos lábios. Apertou um pouco mais o rosto dele entre seus dedos e mais uma vez, beijou-lhe os lábios, seu rosto tão quente que parecia estar febril, a garganta seca o suficiente para que começasse a engasgar, o som fugindo dos lábios trêmulos enquanto beijava Renaud, e se não fosse a distância curta entre os dois, não teria sentido algo quente em seu rosto. Olhou para Renaud, mas bem sabia que elas eram suas. Aquelas lágrimas eram suas.
Soluçou alto, sabendo quantas vezes tinha se isolado para chorar, porque se proibia de fazer isso na frente dos outros, porque não chorar era um sinal de força. Mas pelo visto, chorar, e se expor, assim, também era. Estava tão cansado para tentar parar qualquer lágrimas que apenas deixou que elas corressem por seu rosto, controlando-se para não fazer nenhum som além dos soluços pesados, a expressão deixando explícito tudo que estava derramando ali. Ou que queria derramar, palavra por palavra, qualquer que fosse a resposta.
– Eso era... todo lo que necesitaba...! – falou, controlando-se o máximo para o rosto não ficar mais intensamente choroso do que já estava, enxugando-o com as costas da mão. – Não sei desde quando... porque eu também não sabia nomear isso... e ainda não sei... o jeito certo de amar... mas eu amo... te amo tanto... – a voz era igualmente pequena, mas acentuava as palavras com intensidade, tentando deixar as mensagens claras. – E eu não consigo... não vou esquecer nunca... alguém que me ama tanto assim... e não quero... eu não quero ficar longe... eu não quero te perder quando isso acabar... eu... – sentia-se cada vez mais afobado a medida que dizia aquelas palavras, incapaz de conter o choro, a respiração errática, até a voz quebrar e não conseguir dizer mais nada, engasgado. Umas das mãos desceu até a o pescoço de Renaud, mas não segurou-o ali. Não queria mais segurá-lo ali. Não precisava. – ... Eu quero ser seu. Me deixa ser seu...! Como queira chamar... amante... namorado... não precisa ser agora, mas... me deixa ficar com você, mesmo depois de tudo isso...! Porque eu quero você... tanto... e mesmo não achando que eu valha o esforço... companhia, carinho, segurança... quero te dar tudo isso também...!
Era intrigante como não conseguia colocar tudo em palavras tão bonitas quanto as do moreno, mas tinha plena certeza de seus sentimentos. Se sentia ridiculamente manipulador, aproveitando as palavras dele para declarar as suas, quando sabia que elas não seriam realizáveis. Que não afastassem Renaud, por toda a ganância de suas palavras, mas que ele lhe desse uma resposta. Qualquer.
Renaud
Podia dizer que os limites eram cinzas, mas os limites nem existiam completamente distintos naquele momento, estava tão perto de Didier como jamais estivera, principalmente porque estava completamente exposto para ele. Talvez a distância que sentia existir de estarem “perto e longe”, fosse esse acumulado de palavras nunca ditas, esse montante de sentimentos sem nome, que formavam um muro invisível. Claro, doía imensamente falar e ter de nomear tantas coisas que antes não precisavam de nomes, mas era muito pior ter de lidar com o “silêncio”, e ficar apenas imaginando como as coisas poderiam ser. Os “e se...” lhe atormentavam muito mais, do que lidar com a tempestade que era a verdade, nua e crua lhe dita de frente, e agora tinha noção disso.
E sabia que se não era fácil para si, tampouco era para o outro, podia sentir pela forma como ele lhe segurou os pulsos, pela forma como os lábios se encontraram naquele beijo. Que dizia tanto sem nenhuma palavra, queria tanto aquilo, reciprocidade, poder pedir algo a Didier, e ter de volta um sentimento real, não um jogo, não uma brincadeira cheia de regras, apenas os dois, com seus machucados e seus sentimentos. Retribuiu a carícia com cuidado, carinho e um conjunto todo novo de gestos que estava se permitindo ter ao lado de Didier, naquele breve beijo. As lágrimas que vieram a seguir, não lhe surpreenderam por virem só agora, sabia por experiência própria que o choro quando vem, não há nada que se possa fazer para segurar. E preferia que ele chorasse em seu colo, do que sozinho no chão do próprio quarto, porque, ali e naquele momento, podia aparar a queda de Didier com suas mãos.
Se conhecia agora mais do que antes, e tinha uma melhor noção de que seus machucados eram diversos, vindos de outras situações e outros momentos, e isso lhe enchia de manias e até certo ponto, esse jeito era o que tinha lhe impedido de se abrir com o loiro. E tinha deixado espaço para que o loiro lhe machucasse ao longo dos anos. No entanto, sabia que Didier tinha feridas que não tinham sido feitas por Renaud, mas entendia que elas sangravam sobre si, quando o loiro estava triste, enfurecido ou simplesmente decepcionado, frustrado e cansado demais. Queria poder lhe dar a segurança de que ele saberia lidar com tudo aquilo, mas não tinha como lhe dar aquela certeza, da mesma forma que Didier não podia lhe dar certeza de que ficaria bem, apenas podia torcer por sua melhora.
Ouviu as palavras ditas em tom urgente, onde apesar de ter muitos desejos, Didier lhe pedia apenas o mínimo, e sabia como era aquele sentimento: “me deixe ficar perto, isso é suficiente”. Mas sabia, por experiência que apenas estar perto não era suficiente, e não colocaria o outro na mesma situação em que já teve de ficar, como apenas um acompanhante de sua vida, um expectador passivo, ele era mais importante que isso. O jovem Blanco estendeu as mãos na direção do loiro, e fez um gesto pedindo as mãos de Didier, e esperou até que ele repousasse aquelas mãos que bem conhecia sobre as suas, reconhecia tudo ali, os pequenos calos, as cicatrizes, a textura da pele, a temperatura da mão, tudo era familiar. E novamente, acariciou as mãos do outro com seus próprios polegares, se mostrando um rapaz mais carinhoso nos pequenos gestos do que jamais tinha exposto de si mesmo:
– Preste atenção Didier, não faz sentindo ficar longe de você, se eu também te quero tanto perto de mim – Respondeu de forma honesta, o tom baixo embargado, cansado, mas assertivo no que dizia: – Você me disse tudo que eu precisava ouvir, e sim, ainda dói muita coisa que foi dita, e provavelmente ainda vai ficar assim por um tempo... mas além disso, eu sinto um forte alívio! – Renaud pressionou as mãos de Didier nas suas, ignorando momentaneamente os próprios machucados embaixo das bandagens: – Porque eu sei que eu sou insubstituível pra você, e mais importante que isso, você também sabe, que é insubstituível pra mim! – o Blanco piscou longamente, respirando fundo pela boca, ainda sentindo o nariz congestionado do choro ressente: – Eu não faço ideia de como vamos fazer de agora em diante, mas isso não me assusta mais tanto, como antes… sabe? Na verdade, eu quero muito testar… testar bater na porta do seu quarto e pedir um cochilo, assistir qualquer besteira no computador até tarde da noite, pedir uma pizza rabugenta no telefone porque eu estou com preguiça de cozinhar…! – Em meio aquele montante de frases e situações incrivelmente triviais, Renaud achou forças pra erguer um sorriso singelo, discreto, cansado, mas totalmente honesto:
– Eu só quero poder fazer parte da sua vida, e deixar você fazer da minha, o resto… a gente pode ir resolvendo depois…!
Didier
Apertou os olhos, tentando parar de chorar, e embora talvez ainda estivesse com os olhos vermelhos e inchados, os rastros de lágrima no rosto, estava tentando se controlar. Ainda tinha algo na garganta, entalado, mas já tinha posto pra fora tanto do que sentia, que imaginava que aquela sensação era apenas o resto do de sua ansiedade, que não era pequena, aguardando uma resposta de Renaud que não fosse aquele olhar cansado e compreensivo. Não sabia ser calmo, não sabia esperar, então uma resposta tão mais calma que a sua naquele ponto lhe deixava nervoso.
As mãos dele se estenderam a frente e Didier colocou as próprias mãos ali, sentindo a textura áspera daquelas mãos que conhecia de brigas e de preparar comidas gostosas e queimaduras em experimentos com produtos químicos nos dias que voltava do laboratório. Gostava daquelas mãos. E o polegar deslizando nas costas das suas, devagar, lhe causou um arrepio confortável, pois era um gesto carinhoso para lhe acalmar. Não duvidava que Renaud fosse carinhoso, já tinha visto isso em outros gestos, mas agora sentia-se agarrando a ideia de que ele lhe queria bem para tentar se livrar daquele sentimento desesperador.
Prestou atenção tal como ele disse e o corpo até ficou mais leve quando ele disse que lhe queria, e que não fazia sentido ficarem longe, e que tinha dito o que Renaud precisava ouvir. Que tinha feito algo bom para ele. Que embora tivesse dito tudo aquilo com desejos puramente egoístas, porque era Didier quem queria ficar com Renaud, isso não era algo triste para o francês, mesmo que fosse doloroso.
As mãos que apertaram as suas lhe reafirmaram todos aqueles sentimentos, e Didier apenas concordou com tudo que Renaud tinha entendido dos dois daquela conversa, pois sim, ele era insubstituível e ficava muito aliviado de saber que também era insubstituível na vida dele, mesmo que não fosse o irmão ou o melhor amigo. Era alguém que, a despeito de não ter um título ou um lugar definido ainda, não seria deixado de lado. Apertou mas uma vez os olhos, segurando ainda a vontade de chorar, respirando fundo tal como o moreno. Acabou até engasgando o riso quando ele disse que iriam pedir uma pizza rabugenta, lembrando das incontáveis bobagens dos dois nos dias em que não tinham tempo de sair e brigar, ou simplesmente não tinham vontade.
– Pode vir... cuando lo quieras... – respondeu, ouvindo que agora, mais do que sempre que estiveram juntos mas não estiveram de verdade, fariam parte da vida um do outro. Deixaria de estar no escuro sobre tudo que dizia respeito a Renaud. E ele também, agora estava completamente ciente de que era muito mais estúpido e frágil do que todos esses anos juntos tinham mostrado. E seguiam sem um título, sem um nome, sem nada definido, a não ser que eram parte da vida um do outro. Para Didier, que já estava se achando ganancioso demais de pedir a Renaud para se acertarem, depois de tudo que tinha feito, saber que ele lhe queria tinha lhe valido toda aquela conversa.
Pegou a mão do moreno em retorno, aquela mão que tinha lhe apertado a despeito do machucado enfaixado bastante visível. Segurou-a na sua, e curvou-se sobre o moreno, depositando um beijo carinhoso sobre aquela mão que a despeito de todos os machucados tinha sido estendida para si, e que tinha lhe segurado apesar da dor, e que agora podia, nem que fosse com um gesto simples, tentar amenizar um pouco do machucado.
– É tudo que eu precisava. – Didier falou, já com a voz cansada. Já não tinha forças para continuar conversando, estava mais exausto e surrado que se tivesse brigado usando os punhos e garras, mas apesar de tudo, estava satisfeito e aliviado. E também sabia que teriam tempo. Porque tinha dito que queria estar com Renaud e estava determinado a isso. Agora tinha outros problemas para resolver. Mas os faria assim que conseguisse dormir. E pediria desculpas para Isaac afinal, mesmo que ele não entendesse.
[Thread encerrada]

