09-27-2021, 01:05 PM
Renaud
Renaud seguia naquele estado completamente irracional, tomado apenas por raiva, e embora seu corpo todo reclamasse em espasmos e tremores de dor, o calor febril que lhe assolava apenas o deixava mais e mais irritado, como se estivesse afundando naquele estado colérico e simplesmente não conseguisse mais parar. Tinha o único objetivo de se desvencilhar do aperto e depois se livrar da pessoa que o tinha prendido, a razão do porquê daquilo tudo, sequer passava pela mente do jovem Blanco, ele era tão somente movido pelo impulso de destruir tudo ao seu redor. E no decorrer das várias tentativas de cabecear o estranho que lhe segurava, em algum momento o chão ficou distante de seus pés, e o corpo foi jogado para lateral com velocidade, mesmo que instintivamente conseguisse perceber que iria cair, o moreno mais novo não tinha qualquer condição física de impedir a queda de acontecer.
Sentiu o impacto com o chão sobre o ombro, e por consequência o calor se espalhar por todo o corpo, irradiando daquele ponto e formigando por toda extensão dos braços. A visão tremeu e a mente ficou turva e o tempo de reação teve um atraso considerável, o corpo não queria reagir adequadamente no momento que queria, e por isso o estranho conseguiu manter seus braços firmemente presos, e ainda conseguir girar o corpo de ambos, de forma que Renaud ficou contra o chão, impedindo-o assim de sair de onde estava.
Naquele momento toda a adrenalina desprendida deixava o Blanco completamente alheio a sensação de dor, convertendo tudo num calor enlouquecedor, cada centímetro do corpo estava queimando em febre, o ar era insuportável de por pra dentro e ficar preso naquela situação, o deixou ainda mais agressivo. Renaud apoiou os joelhos e a testa contra o chão, e arqueou a coluna se debatendo violentamente, e rosnou com toda força que seus pulmões lhe deixavam.
E se antes o mais novo parecia muito agitado, agora ele parecia completamente ensandecido a se soltar, e seguiu se debatendo com toda força que tinha, sequer se preocupando se estava machucando os braços, a testa ou qualquer parte do próprio corpo. Os gritos ficavam cada vez mais altos e agudos, a ponto das veias saltarem no pescoços o rosto ficar totalmente vermelho como se todo o sangue tivesse subido a cabeça.
Isaac
Isaac achou que conseguiria segurar melhor Renaud naquela posição, mas além de não lhe ouvir de novo, pareceu que toda a força dele se intensificou quando viu que estava ainda mais encurralado. Ele não lhe ouviu de novo, e naquele process de tentar segurá-lo, Isaac ainda continuou a chamar pelo nome do outro, tentando se fazer ouvir, o que parecia inútil. Quanto mais sentia os braços cansando, mais apertava a trava, na noção quase desesperada de que Renaud conseguiria se livrar se ele se rendesse ao cansaço e o que poderia vir de ruim daquilo.
Quando ele apoiou os joelhos no chão para tentar se erguer, Isaac usou os pés, enganchando-os na altura da coxa de Renaud e puxando uma perna por vez, para impedir que ele realmente erguesse o corpo mesmo com o seu peso pressionando-o para baixo. Mas fazer aquilo mais de uma vez era complicado, principalmente com a energia e a força de Renaud que simplesmente pareciam não ceder mesmo com toda a descarga de adrenalina até então.
- Renaud! Sou eu! O Isaac! Pare com isso!! - ele tentou, pela milésima vez, se fazer ouvir no meio do momento de fúria do mais novo, e quando prendeu a perna na dele para impedir que ele erguesse os quadris mais uma vez, sentiu a perna deslizar, e quando Renaud conseguiu apoiar os dois joelhos com segurança no chão, o impulso dos quadris e das costas foi suficiente para finalmente jogar Isaac para o lado.
Ele ainda manteve a trava nos braços como podia, puxando Renaud caindo para o lado também, mas daquela vez, sentiu os braços cederem e quando o movimento para trás de Renaud lhe atingiu numa cotovelada na altura do tronco, ele conseguiu se soltar dos seus braços antes que pudesse racionalizar o que fazer a seguir. Isaac nem teve tempo de levantar ou pensar em como segurar Renaud, mal entendeu a própria situação, estava de costas para o chão, com Renaud avançando para se colocar em cima de si, e a única reação automática foi erguer os braços para impedir que os golpes que certamente viriam das mãos já machucadas acertasse seu rosto em cheio.
Didier
Apesar de ter conseguido ligar para Renaud no dia anterior quando ele saiu para casa da família dele, não negava estar preocupado. Não fosse o moreno lhe assegurar que estava tudo bem de manhã, estaria altamente pilhado para lidar com os primeiranistas naquele dia. Não que tivesse um trabalho difícil: iria apenas ajuda-los com os estudos de algumas matérias nas quais era bom, e prestar um socorro pré-provas, pois pelo visto o Quartanista era ele, mas os garotos quem precisavam de ajuda.
Tinha combinado com Renaud de ir até o Conselho Estudantil. Admitia que depois de tudo, seria bom retomar a normalidade das atividades do conselho. No fim das contas, tinha dado mais que trabalho para Isaac nos últimos quatro anos. Não lhe custava ser um bom presidente nos meses restantes de St. Clavier. Não que de fato pretendesse ser um bom presidente, mas sentia falta da interação dos três naquela sala, em que ainda não tinha pisado desde sua briga com Renaud. Não queria levar dela só as memórias ruins.
Quando terminou com os primeiranistas, foi de uniforme até o outro prédio onde ficava a sala, afinal, Isaac merecia lhe ver de uniforme de vez em nunca. Pensava nisso como um prêmio pelo moreno ter sido um bom ouvinte e estranhamente um bom conselheiro para ele e Renaud.
Porém, mal tinha pisado no prédio, foi impossível não ouvir o berro aterrorizante que ecoou pelos corredores.
Sentiu o coração acelerar, e até ignorou as cabeças dos alunos que curiosos, abriram as portas de suas salas. Só viu o caminho a frente, e disparou nele. Didier não tinha nada que o direcionava melhor que sua memória, e o som daquela voz, naquela rispidez de ódio não lhe lembrava mais nada a não ser os urros de Renaud, que muto tinham marcado sua vida. Poderia não ser o mesmo tom, ou o mesmo sentido, mas era a mesma voz, e conhecia bem demais aquela voz para que não corresse tanto quanto podia na direção dela.
Quando chegou na porta da sala, respirou fundo, notando alguns alunos já começando a rondar ali com expressões assustadas. Não teve receio algum de empurrá-los do caminho sem delicadeza alguma para abrir a sala do conselho, os sons muito mais intensos agora que estava frente a porta.
- Sai! – berrou com um garoto que estava tentando espiar pela brecha da sala, e abriu a porta, vendo logo a cena de Isaac sendo jogado para o lado e Renaud, com as mãos muito machucadas, completamente fora de si como infelizmente já tinha presenciado, embora algo ali tivesse feito um calafrio percorrer todo seu corpo. Não lhe era um cenário muito distante na memória. – RENAUD! PARE!! – berrou, mas não deu uma pausa sequer naquela porta, se lançando em direção ao mais novo, aproveitando que os braços dele estavam abertos para se posicionar para bater e agarrando-o por trás, usando toda a força e impulso que tinha com os pés plantados no chão para afastá-lo de Isaac, puxando-o para que caísse consigo no chão, pois mais que certamente não conseguiria levantar ou arrastar um homem do tamanho do moreno. – Arrghh!! Renaud...!! Renaud, é o Isaac!! O que está acontecendo aqui!!??
Renaud
A sensação de estar impedindo de se mover trazia ao jovem Blanco o pior dos seus instintos de sobrevivência, podia ignorar a dor física que assolava cada pedaço do seu corpo, e a efervescência de seu sangue correndo ligeiro de baixo da pele, mas não podia ignorar o fato de que sua existência estava ameaçada. Estava bufando e se debatendo como se sua vida dependesse dele se ver livre daquela imobilização, e quanto mais tempo demorava ali contido, a sensação de raiva se misturava com a urgência e desespero de estar livre.
Em determinado momento, o aperto sobre seus braços afrouxou, foi um instante, mas foi o suficiente, para que o jovem Blanco impusesse mais força nos braços para se soltar definitivamente, cerrando os punhos, as bandagens totalmente estragadas as mãos úmidas do próprio sangue. Já que não tinha velocidade, iria fazer tudo na base da força jogando o estranho para trás e ignorando todo o tremor e choque de cãimbras que irradiavam por todo seu corpo, o moreno mais novo conseguiu apoio o suficiente sobre os joelhos, e girou o corpo se virando na direção da pessoa que o tinha segurado, e ergueu os punhos fechados, os dentes cerrados, o olhar guiado com o único objetivo de marretar o outro, embora na sua visão ele fosse apenas um borrão mal definido pra ser abatido.
No entanto, antes que pudesse seguir a voz familiar rasgou-lhe os ouvidos, fazendo sua cabeça doer, e mesmo percebendo que vinha alguém em sua direção o corpo não se mexeu, e logo estava sendo jogado para trás com força. O choque da voz chamando por seu nome de forma que conseguia compreender, tomou ciência quem era.
“mas porque estava brigando?”
ela não resistiu…
“porque tudo doía?”
o translado do corpo
“Que corpo?”
“Do corpo morto!!”
“morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! [...]”
Após ser jogado para trás Renaud ainda jogou o corpo pra frente, a expressão furiosa gritou a voz saindo do fundo das entranhas e rasgando-lhe a garganta, num urro longo visceral como um animal que tomava ciência que tinha sido abatido e estava desfalecendo. A reação exagerada do jovem Blanco, sendo vista claramente através da porta do conselho estudantil trouxe terror para os alunos que bisbilhotavam a cena, fazendo-os se afastar do local e recuar, com medo real do que aconteceria ali. De fato, ninguém iria querer ser chamado pra ter de explicar o que viu ali.
A voz de Renaud foi subsidiando e o que parecia apenas selvageria e raiva, tornou-se num gemido lamurioso, longo e triste, que refletia o cansaço físico e mental do jovem francês. A voz tornou-se um engasgo com a garganta arranhando, e o rosto de Renaud se distorceu numa expressão desesperada, com a consciência que voltava diante dos fatos, o corpo cedeu ao cansaço e toda a força que dispunha sumiu de si, sendo tomado por espasmos e tremores involuntários, a respiração ficou pesada e curta, e logo o mais novo começou a soluçar.
- mãe…! - foi a única coisa inteligível que Renaud conseguiu pronunciar, numa voz baixa e fraca, antes que pudesse perceber os olhos se encheram e as lágrimas começaram a rolar pelo rosto incessantemente, os ombros tremendo com o choro desolado que não conseguia conter, as mãos levadas ao rosto de forma completamente desengonçada. Renaud segurou nos próprios fios escuros apertando-os em pleno desespero enquanto irrompia em um choro esganiçado e desconsolado.
Isaac
Isaac tinha certeza de que a sua posição era péssima e só podia torcer para que o surto de adrenalina de Renaud chegasse ao fim para que ele tivesse uma possibilidade de se livrar da surra certa. Podia ser maior que o outro, e até ser ágil, mas no estado em que Renaud estava, e que ele até conhecia, a pancada seria dolorosa e no mínimo perigosa. Ele cobriu o rosto como podia e apoiou os pés no chão, na esperança de conseguir erguer o quadril e lançar Renaud para o lado antes de levar a primeira pancada. E antes de fechar os olhos instintivamente, ainda teve um vislumbre das mãos enfaixadas e ensanguentadas se erguendo em cima da cabeça dele para descer com toda a força que ele tinha nos braços e no corpo, daquela vez Isaac estava realmente com medo do resultado.
Mas a pancada não veio, e o secretário se arriscou em abrir os olhos para confirmar que o peso em seu corpo tinha sumido. Os braços completamente tensionados relaxaram um pouco apenas, antes de perceber que Renaud tinha sido puxado para trás e ouvir a voz estridente de Didier invadindo a sala. Isaac foi tomado primeiro por uma sensação de alívio, e puxou o ar todo de uma vez para os pulmões como se não tivesse respirado direito até então. Mas logo ele ficou em alerta de novo, imaginando se Renaud tentaria fazer o mesmo com Didier, e quando se levantou quase num pulo, foi em tempo de avistar Renaud tentando se soltar dos braços de Didier mais uma vez, mas ele não insistiu, gritou a plenos pulmões de novo e aquele gesto, junto à voz familiar de Didier, pareceu frear as reações desesperadas do outro. O grito cortante foi diminuindo, e a expressão de fúria se contorceu numa de desespero, e o grunhido furioso se tornou um choro copioso quando ele se deixou render ao cansaço e, o que Isaac imaginou, à sensação de perda.
O secretário pareceu sentir o alívio tomar conta do corpo finalmente depois de ver que Renaud não ia continuar se debatendo nem tentando destruir as coisas ao redor, e até ele sentiu o corpo todo dolorido e cansado. Procurou a mesa para se apoiar, mas ela estava longe, então ele só se sentou no chão, a respiração pesada do esforço e o ombro começando a latejar bastante da queda e do golpe anteriores. Ele ouviu o chamado de Renaud em meio ao choro e ergueu o olhar, uma expressão de pesar tomando o seu rosto também, mais pelo estado do amigo do que pela realização da perda dele. Ergueu o olhar na direção de Didier, que estava completamente confuso àquela altura.
- Ele... recebeu uma ligação. - Isaac falou, e percebeu a voz falhar, tanto pelo cansaço, quanto pela notícia que ele não queria compartilhar, ou pelo menos fazer com que Renaud ouvisse de novo. - A mãe dele... num acidente de carro... - o moreno engoliu em seco, quase na esperança de que Renaud podia estar com os ouvidos tomados pelo próprio choro e pelos próprios pensamentos para ouvir tudo de novo.
Didier
Sentiu o solavanco de Renaud tentando puxar o corpo de volta por um instante na direção do secretário do Conselho Estudantil, e até sentiu o suor escorrer pela têmpora do esforço que foi necessário para manter Renaud longe. Já tinha ouvido muitos urros e rosnados vindos do rapaz a sua frente, já tinha até sentido a força quase feral do corpo dele, mas talvez fosse a primeira vez que ouvia uma voz tão desesperadora, quase como um animal sendo abatido, e isso fez gelar bem na base da sua espinha.
Mas não se afastou um centímetro, por mais que a voz esmorecesse em um som derrotado, cansado e desesperado. Pelo contrário, com a imagem de Renaud aos poucos se tornando mais consciente, seu instinto natural foi de se aproximar e levar as mãos até os ombros e o pescoço e o rosto do namorado, sem entender exatamente o que tinha engatilhado aquela reação tão extrema. E foi aí que ouviu ele dizer “mãe”, e as lágrimas começaram a rolar de um jeito pesaroso pelo rosto do moreno.
Didier já tinha visto o poder que a mãe dele tinha sobre ele, assim como tinha sentido o poder que a sua tinha sobre si. Então ouví-lo lamentá-la lhe gerou uma série confusa de sentimentos, pois não sabia o que tinha ocorrido, apenas que na noite anterior ele estava com a família e tinha voltado de extremo bom humor, e agora, ela, o que quer que tivesse feito, tinha destruído Renaud. Sentiu quase uma tontura do tanto de coisas que subiram pra sua mente, e apertou os dentes e respirou tão fundo para controlar o ódio e não apertar Renaud por por acidente que sentia uma veia pulsando em sua testa. O que caralho aquela mulher tinha feito?
Olhou então para Isaac, que estava agora sentado e parcialmente recuperado do susto, os olhos azuis completamente fixos nele enquanto as mãos tentavam acalentar Renaud só pela presença. A mãe de Renaud tinha se envolvido em um acidente de carro. E pela hesitação até de Isaac de falar, e as lágrimas que lavavam a cara de Renaud, o resultado só poderia ter sido o pior.
Didier sentiu uma dor imensa no estômago, e os lábios apertados tremeram enquanto ele tensionava cada músculo do corpo. Ela não tinha direito. Ela não podia ter morrido e deixado Renaud daquele jeito. Tinha vontade de berrar, berrar tão alto quanto o moreno tinha feito, mas respirou fundo, porque... também tinha uma mãe. E sentia imensamente o sofrimento de Renaud naquele momento.
- Renaud…! - foi só o que conseguiu dizer, afinal, e buscou espaço como podia próximo a ele. E ignorou completamente as mãos ensaguentadas, e o surto anterior, e Isaac cansado no canto. Só queria apertar Renaud em um abraço, e envolvê-lo de algum jeito que ele se sentisse pelo menos não tão sozinho. - … Lo siento.
Renaud
Por mais que tentasse conter o choro sequer conseguia respirar, nem sabia direito o que estava acontecendo consigo só sentia que tudo doía num misto delirante de dor física e dor emocional. Sabia que Didier estava ali, sabia que Isaac estava ali, mas as palavras se perdiam facilmente em sua boca, apenas conseguia chorar e chorar, como se tudo que seu corpo tivesse de energia agora fosse pra tentar por pra fora toda a dor que lhe cortava e consumia por dentro. Engasgou algumas vezes e soluçou, os pulmões ardiam e ergueu o rosto lavado de lágrimas apenas pra se deixar ser trazido para próximo do loiro, queria ser amparado, queria ser segurado, sentia que estava se desmanchando, quebrando, se espatifando em pedaços pequenos demais para serem postos de volta no lugar, e quanto mais chorava mais sentia que iria chorar.
“tão injusto…”
Era tudo que conseguia pensar ou fazer sentido na sua cabeça, a mente latejava e doía como se o próprio coração estivesse batendo em concordância com a enxaqueca que lhe consumia. Fechou os dedos com força no fios escuros, e cerrou os dentes, mas não conseguia fazer juízo dos fatos, só conseguia repetir incessantemente.
“injusto…!”
O jovem Blanco se encolheu como se todo aquele caos emocional o fizesse se contorcer se debatendo pra não morrer ali de tanto sofrer. A verdade é que já tinha passado de morrer várias vezes em brigas, já tinha se perdido no escuro da própria mente e acordado completamente desorientado, já tinha brigado com as pessoas que mais amava nesse mundo, mas nada disso sequer se comparava com o que estava sentindo e perpassando todo o seu corpo, era como se tudo estivesse falhando e se desmanchando.
“injusto!!”
O jovem francês abriu e fechou a boca e arfou como se estivesse engasgando sem conseguir respirar direito, mas só não sabia mais como fazer nada, só sentia que estava afundando e afundando sem ser capaz de conter a enxurrada de pensamentos que agora tomavam sua consciência.
“ela se acidentou, e se foi minha culpa? E se eu tivesse dito pra ela ir embora? E se eu tivesse negado ir pra casa? era melhor estar brigado com ela o resto da vida e saber que ela estava viva do que o fato de que ela não existia mais! o que fazer agora? era verdade isso? Não poderia nunca mais ouvir a voz dela? Não podia nunca mais falar com ela? “
“E se… E se…”
- Eu… - A voz saiu totalmente esganiçada entre soluços e a respiração entrecortada: - Eu… nem consegui dizer adeus... ! - O jovem Blanco se lembrava que nem tinha conseguido se despedir direito da mulher na saída de St. Clavier porque apesar de tudo, achava que teria tempo praquilo tudo: - nem me desculpei... pelas coisas horríveis que eu disse no carro… - Claro que aquela altura o rapaz nem estava raciocinando que os dois não iam entender tudo que estava falando, porém, as palavras deslizavam em um tom de lamento, misturado com o choro copioso: - … nem disse desculpas por todos os anos que escondi as coisas dela... nem consegui dizer… o quanto eu a amava... e que a queria tanto por perto… - Renaud se engasgou mais no próprio choro, parecendo pequeno demais naquela sala e nos braços de Didier, parecendo pequeno e insignificante, porque queria do fundo do coração pelo menos ter tido a chance de fazer sua mãe lhe ouvir em um dia bom, em um dia que pudesse dizer que estava feliz, e sendo feliz ao lado dela: - nem consegui cantar aquela canção… aquela música do recital… eu queria tanto… tanto…!
Isaac
Isaac não precisou falar mais do que aquele par de palavras para que Didier entendesse a situação, e pelo estado de Renaud, jogado às lágrimas e ao próprio desespero, ele não precisava mesmo ser mais pontual que aquilo. O secretário do Conselho Estudantil já tinha visto algumas muitas faces de Renaud Blanco, inclusive, nas últimas semanas, ele tinha se rendido a um estado físico e emocional tão abatido que Isaac não conseguiria reconhecê-lo se fosse alguns anos atrás. Mas nada podia se comparar ao modo como o rosto se contorcia e o corpo se encolhia nos braços de Didier, procurando por proteção e amparo que ele devia esperar de alguém além do presidente do Conselho.
Mas ele estava se apoiando em Didier, e tinha ouvido a voz do namorado, e aquilo devia ser pelo menos um bom sinal, não era? Só que ver o modo como o choro só aumentou e como ele buscava desesperadamente colocar tudo pra fora fez com que a dor no corpo e o cansaço de Isaac parecessem irrisórios. Ele sentiu um nó na garganta e a sensação de completa inutilidade em ajudar o amigo naquele momento de confusão e sofrimento. Se Isaac já estava se sentindo fraco pelo esforço de tentar mantê-lo longe dos móveis no conselho e impedi-lo de se machucar, agora tinha perdido o resto das forças para o estado emocional do moreno. Ele abriu e fechou a boca um par de vezes, mesmo que tentasse fazer algum sentido, certamente as palavras não encontrariam o caminho para fora da garganta. Na verdade, a voz que encontrou o caminho e invadiu o conselho foi a de Renaud, no meio do choro copioso, e com palavras que Isaac podia não entender, mas que lhe trouxeram a mesma sensação de desespero e falta de ar do mais novo.
Ele podia não entender muito da relação de Renaud com a família ou com a mãe, mas era impossível não perceber o peso que a presença dela tinha feito na vida do filho. E com todas as coisas não ditas e atos não realizados, Isaac sentiu de novo o nó na garganta e antes que pudesse dar conta, tinha deixado algumas lágrimas escaparem também na sensação de tristeza.
- Eu sinto muito, Renaud. - foi a única coisa que ele conseguiu responder, e num tom de voz baixo que provavelmente não seria ouvido pelo outro.
Didier
Podia sentir o corpo trêmulo de Renaud sob seus dedos, os soluços do choro e o corpo dele vacilando da dor da perda. Queria que ele pudesse só não pensar sobre tudo que tinha acontecido, mas podia só imaginar o que passava na mente dele, e sabia que se para Didier tinha quase lhe causado uma tontura com a notícia, o que ela não seria para Renaud? Não que precisasse de mais explicações que as lágrimas. Quando foi que Renaud tinha se deixado ser tão inconscientemente frágil, e se entregado a tanto pesar? Só o que conseguia pensar também é que era “injusto”. Toda aquela situação era extremamente “injusta”.
Tentou tirar as mãos de Renaud dos cabelos, pois estavam muito machucadas e ensanguentadas, e não era bom que ele ficasse apertando ainda mais com os dedos machucados. Não forçaria ele a nada, mas tentou trazer as mãos para seus ombros. Preferia que ele lhe abraçasse, pois faria mais uso dos braços que das mãos, consciente ou não. Era uma tentativa. Mas de todo modo não largaria o moreno. Apertou ele forte, as mãos afagando as costas e os cabelos escuros, trazendo-o tão junto de si quanto podia, porque se havia algo para qual era completamente impotente, era aquele sentimento de tristeza que pertencia a Renaud e mais ninguém.
Ficou preocupado por um instante quando a respiração dele também vacilou, imaginando como lidar se lhe faltasse mais, mas não demorou tanto e finalmente ele falou algo, o que pôs um peso intenso no corpo de Didier.
Quando ele disse, naquela voz vacilante e a respiração entrecortada que não tinha conseguido se despedir, apertou inconscientemente as costas com os braços no entorno do moreno, olhando para Isaac além de si, os olhos claros marejando. E buscou desesperadamente no que focar, para tirar a sensação que lhe assomava, mas não importava, importava? Era impossível controlar as lágrimas de virem, e até tentou abafar um soluço do choro, encostando o rosto no de Renaud. Podia não entender tudo que ele estava dizendo, mas entendia todo aquele sentimento. Entendia perfeitamente. Era fácil sentir o que ele estava sentindo, ainda mais quando tinha visto o quanto a mãe dele o afetava.
E achava injusto, que ela tivesse decidido reabrir uma ferida tão antiga e partir em seguida, como se tivesse vindo fazer uma despedida. E podia até querer dizer isso um dia para Renaud, ou dizer que inúmeras coisas que haviam passado por sua cabeça com a notícia do falecimento da mãe dele, e como nada daquilo que faltou os dois viverem era culpa dele. Mas não era o momento, e não era a pessoa, porque sabia que aquela era apenas pura dor que ele sentia, e mesmo que dissesse qualquer coisa, não faria nada melhor por ele senão se agarrar firmemente ao corpo que definhava de tristeza em seus braços.
- … Lo sé… que la quería mucho… ahh, Renaud… - a voz de Didier vacilou por conta do choro, porque realmente não tinha nada para dizer. Aninhou a cabeça do moreno mais perto de si, abraçando-o e encostando contra os cabelos escuros. Então olhou para Isaac, e com a mão que estava acariciando as costas do moreno, fez um sinal com os dedos para que ele viesse também, afinal, se não tinham palavras, restava aos dois tentarem alicerçar Renaud para que ficasse de pé pelo menos um instante, para que pudessem cuidar das mãos, que pelo menos era uma dor tratável por ora.
Renaud
Quando tinha se sentido tão ridiculamente pequeno e insignificante? Era paradoxal que sentisse que seu “eu” enquanto pessoa não significava nada, mas que inversamente proporcional era a dor que corroía todo seu corpo, e que era tão grande e insuportável ao ponto do seu corpo não fazer nenhuma resistência aos toques de Didier. Sabia que era o loiro, sabia que era a voz dele, mas ao mesmo tempo a sensação de estar pesado e sendo tragado para um lugar escuro e solitário era ainda mais real, e era assustador na mesma medida, como se fosse algo lhe perseguindo e consumindo junto com toda a tristeza que não conseguia administrar.
As mãos machucadas se agarraram ao uniforme do namorado, como se ele fosse sua “boia salva-vidas” no meio daquele oceano escuro de sofrimento, sequer tinha a força para apertar o corpo dele. Mas era notória a urgência com a qual o moreno mais novo, buscava a figura do outro, se aninhando e buscando salvação no meio daquele turbilhão de sentimentos confusos. E embora soubesse que tanto ele quanto Isaac lhe falavam, não compreendia as palavras ditas, elas não faziam sentido para si, eram apenas as vozes conhecidas próximas. O calor de alguém próximo, e aquilo era uma linha tênue entre estar aqui e ficar perdido em todos os pensamentos que aquela altura não conseguia mais absorver ou entender. Renaud sentiu o peso de outro corpo junto a si, e os braços em volta do seu corpo miúdo, só existiam duas outras pessoas ali, além do pequeno e jovem Renaud Blanco, que eram Isaac D. Lemont, e Didier Callas.
Não estava sozinho, não estava sofrendo sozinho, mas mesmo assim, ainda doía tanto, e tanto. Mesmo que se agarrasse aos outros, o ar não era mais fácil de respirar, e nem a dor no seu corpo parava de existir, e mesmo não estando sozinho, nada, absolutamente nada, nem ninguém mudaria os fatos.
“sua mãe estava morta…”
A realização do pensamento fatídico de que não importasse o quanto sofresse o quanto a amasse, ou o quanto estivesse amparado pelo namorado e pelo amigo; ou mesmo qualquer outra circunstância que pudesse ou não estar sob seu controle, não mudariam o rumo das coisas, e trariam sua mãe de volta, fizeram com que o Blanco parasse de chorar.
Como se a respiração tivesse parado por um momento, e toda força despendida para se segurar em Didier sumiu, como se o corpo tivesse simplesmente desligado por alguns segundos. E naquele instante o tempo, o espaço da sala, as pessoas ali, os fatos, quem era, tudo derreteu e se misturou até virar uma mancha escura e vazia.
Renaud puxou o ar com força depois da parada súbita, erguendo um pouco a cabeça do apoio que tinha encontrado no ombro do namorado, mas sem ter qualquer força para lhe amparar, o olhar escuro vagueou pelo espaço como se não reconhecesse onde estava, sem foco, como se espiasse apenas o abismo vazio dos próprios pensamentos. O corpo esfriou de pronto perdendo toda a sensação de febre que lhe consumia anteriormente, até que a visão escureceu, e os olhos se fecharam, jogando tudo no nada.
Isaac
Isaac só observou enquanto Renaud se entregava ao momento e como Didier estava também desesperado para servir de suporte para o mais novo. Ele ficou estático onde estava apenas porque não sabia o que mais fazer ou como reagir, e só quando viu o gesto de Didier para que se aproximasse, foi que ele saiu do momento de inércia no chão para se levantar, passando a mão pelo rosto para limpar os rastros de lágrimas e se aproximando de Renaud com cautela. Não porque ainda tinha receio de ser atingido, mas porque o outro parecia tão vulnerável que era como se um mísero toque pudesse quebrá-lo de vez.
Estava preocupado com o amigo, fosse no estado físico ou no estado mental, mas o que mais lhe deixou preocupado foi sentir o corpo fraco debaixo de suas mãos e notar quando ele se movimentou. Mas o movimento de Renaud não foi consciente, o corpo dele relaxou demais nos braços de Didier e Isaac até percebeu quando as mãos soltaram o aperto em volta das costas do loiro. Ele se afastou do menor por um momento, olhando-o com mais atenção e até se sentiu mais tranquilo quando ele puxou o ar todo de uma vez, antes e relaxar o corpo de novo. Mas não foi um relaxar de alguém que tinha cessado o choro, ou uma pessoa tomada finalmente pelo cansaço, de novo, o corpo de Renaud estava quieto, com uma respiração muito curta e mole.
Isaac levou a mão até o topo da cabeça de Renaud e buscou encará-lo no rosto, ele estava com os olhos fechados, e a falta de reação lhe deixou mais preocupado de pronto.
- Renaud? - Isaac o chamou, descendo uma mão pelo braço do outro e alcançando o pulso dele, ele não estava movendo a mão, o pulso estava fraco e não era como se Isaac entendesse muita coisa para ajudar além daquilo. No mínimo, ele tinha desmaiado pela exaustão da notícia, mas que efeito aquilo teria com os remédios que ele já tomava e o passar da adrenalina, ele não fazia ideia, então era melhor responder à situação com rapidez. - Didier, é melhor levá-lo pra enfermaria.
Didier
Agradeceu silenciosamente a aproximação de Isaac, ainda que não fossem muito de apoio naquele momento. Renaud só soluçava e chorava desesperado, de um modo que precisava de algum sinal, ou alguma voz dele para lhe indicar que poderiam tirá-lo daquela sala completamente exposta para os olhares curiosos e pudessem cuidar das mãos dele, que precisavam urgentemente de atenção.
O sinal veio de um modo um tanto mais alarmante do que esperava. Renaud subitamente parou de chorar, e não achou que era porque ele tinha cansado, ou porque não haviam mais lágrimas a serem vertidas. Simplesmente sentiu o corpo dele pesar, como se ele não fizesse mais esforço nenhum em sustentá-lo. E mesmo com Isaac ali para servir de apoio, notou os braços em torno de si e as mãos em suas costas se tornarem sem força.
- Renaud...!? - Didier chamou prontamente quando notou que ele havia literalmente apagado por um instante em seus braços, as mãos sustentando as costas dele rapidamente mesmo que Isaac estivesse ali, mais por instinto de protegê-lo. Então ele tomou o ar de novo, mas ao invés de acordar de uma vez, Renaud apagou, o que lhe deixou extremamente alerta. - Renaud…! - chamou mais uma vez, notando a movimentação de Isaac para sentir o pulso do moreno, e ouviu atentamente quando ele disse que deveriam levá-lo para a enfermaria. - Si!
Não sabia exatamente o que fazer com Renaud no estado em que estava. Só não queria deixá-lo pior. Soltou-o aos poucos, deitando-o com cuidado no chão e observando Isaac. Ele deveria saber o que fazer. Didier só não arrastaria Renaud até lá como faria na rua. Engoliu em seco porque certamente a última coisa que precisavam era que a impaciência ou falta de cuidado só piorasse o moreno.
- Levamos nós dois…? - Didier perguntou em genuína dúvida, talvez porque ver Renaud tenha lhe deixado em um momento breve de pânico. Já estava se sentindo bastante inútil por não poder fazer nada por Renaud. Pior era não fazer nada quando precisava.

