09-27-2021, 01:08 PM
Isaac
Didier reagiu rápido também à sensação de Renaud amolecendo nos braços. Ele se afastou e ajudou Didier a colocá-lo deitado no chão, e o máximo que fez foi avaliar os sinais vitais com o pouco que sabia de primeiros socorros, no pulso, nas pupilas e na respiração. Tudo indicava que ele estava desmaiado, mas de novo, o moreno lembrou do excesso de medicação controlada que Renaud estava tomando todos os dias e como aquilo podia também afetar as funções do corpo. Ele voltou para Didier quando perguntou se os dois deveriam levá-lo para a enfermaria, bom, Renaud precisava ser tratado logo, e como ele não tinha sofrido nenhum acidente para não ser movido, podia levá-lo para lá antes de chamarem o enfermeiro.
Isaac se adiantou em passar um braço por baixo do pescoço de Renaud e o outro por baixo das pernas para levantá-lo do chão, mesmo que fosse pesado, só sentiu o desconforto no ombro que já estava machucado, mas não lhe impediu de prestar a assistência a Renaud. Na verdade, com o moreno nos braços naquele instante, ele até sentiu o corpo mais leve do que tinha previsto, de quando já tinha estado com Renaud outras vezes num estado de saúde melhor.
- Eu vou levá-lo pra enfermaria, Didier, chame o psicólogo da Academia, ele sabe sobre os remédios do Renaud e se isso pode causar algum efeito colateral. - Isaac instruiu ao loiro. Não sabia se ele ia aceitar se afastar de Renaud, mas era a escolha mais lógica para prestar assistência rápida ao moreno.
A quantidade de alunos do lado de fora da sala do Conselho Estudantil era certamente bem maior do que o tanto de gente que devia de fato estar no prédio administrativo. Mas de uma coisa servia a má fama dos membros e do conselho, assim como a péssima expressão costumeira de Isaac, porque eles abriram caminho quase às pressas quando Isaac saiu com Renaud apagado nos braços. E ele não deu atenção a aglomeração de alunos, mas no caminho para a enfermaria, o mais rápido que ele conseguia andar, notou que embora Renaud parecesse inconsciente, os lábios dele se moviam e ouviu murmúrios indistintos no topo da garganta dele, sons abafados e distantes. Ele poderia estar sonhando com algo no momento de inconsciência, então chamar o psicólogo parecia uma ótima escolha naquele momento.
Quando Isaac finalmente chegou na entrada da enfermaria, com os braços ocupados, ele só encontrou os pés para chutar a porta algumas vezes e esperar que o enfermeiro abrisse para lhe dar passagem com Renaud desacordado, mas ainda assim pronunciando mais coisas indistintas.
Didier
Para algumas coisas, Isaac certamente estava mais preparado que ele. Não falava só dos primeiros socorros, mas quando ele mencionou os remédios com tanta certeza, pensou que ainda estava alcançando ele no conhecimento sobre o que Renaud estava tomando e como isso poderia afetar o corpo dele naquele momento. Os olhos azuis abriram e embora estivesse relutante de deixar Renaud, o que poderia fazer melhor ali era obedecer o secretário e buscar ajuda.
Deixou que ele pegasse o moreno, e notou só então a comoção de alunos do lado de fora. Havia muito tempo em que não olhava com tanto ódio para uma massa de idiotas, mas fosse sua cara ou a de Isaac não querendo que ninguém atrapalhasse os dois de ajudarem Renaud como podiam, os garotos se dispersaram, e Didier fechou a porta do conselho estudantil atrás de si, sequer dando qualquer tempo para repreender os garotos, porque honestamente, não importava.
Seguiu na mesma direção de Isaac, mas ao invés de ir direto para o outro prédio com ele, parou para bater na bancada da portaria, pelo caminho, contendo imensamente o desejo de agarrar o funcionário pela camisa.
- Chama o Centro de Aconselhamento e diz ao Dr. Vlahos que vá para a enfermaria, uma emergência com Renaud Blanco. AGORA. - ordenou rapidamente em puro e claro francês, para não deixar brecha para desentendimentos.
Isso pelo menos poderia adiantar a ida do psicólogo até lá. Se não, também não deixaria o trabalho nas mãos de outra pessoa, e correu para a mesma sala, esperando encontrar o doutor livre, já em urgência para a enfermaria no meio do caminho ou na sala. Mas se aquela porta estivesse fechada, certamente a derrubaria. Chegou tão rápido quanto podia correr e bateu na porta com quase o som de uma marretada da força causada pela tensão que lhe tomou no percurso.
- Doutor Vlahos!! É uma emergência!! Com Renaud Blanco!! - falou com a voz alta o suficiente apesar da falta de ar da corrida. Não havia sentido em ser discreto depois de tudo.
Enquanto isso, Isaac bateu com a porta na enfermaria trancada naquele momento pelo zelador que aproveitou a saída do enfermeiro para por a limpeza em dia. Os chutes foram fortes o suficiente para que Tamotsu arrancasse os fones de ouvido que tinha pendurados nas orelhas com ódio. Ele escancarou a porta quando abriu, e encarou o garoto do outro lado diretamente, em irritação. Mas não precisou mais do que um olhar nele, e no outro que ele trazia nos braços, para sair do caminho e tirar o que tivesse lá do carrinho da limpeza para que ele passasse para um dos leitos vazios.
- Precisa do que? - Tamotsu perguntou no tom ríspido para Isaac, mas certamente não era hostil. Pelo contrário. - Vou chamar o enfermeiro.
Isaac
A resposta do outro lado da porta demorou apenas alguns segundos, mas para Isaac, num momento de nervosismo com Renaud apagado e balbuciando coisas desconexas em seus braços, pareceu uma eternidade. A porta se abriu para mostrar o zelador, e Isaac nem fez muito sentido da pergunta dele, passando direto para conseguir colocar Renaud deitado numa das macas, a enfermaria estava vazia naquele momento. Ele já ia se virar para o zelador para pedir que chamasse o enfermeiro, mas ele foi mais rápido em fazer aquilo, então só voltou a atenção para Renaud. Conferiu os sinais vitais dele de novo, que pareciam estáveis, e notou que os murmúrios desconexos pareciam ter um ritmo específico.
Ele não prestou atenção de início nas palavras, ao olhar a sua roupa suja de sangue e as mãos de Renaud muito machucadas, ele correu até alguns dos armários para procurar soro e gaze para retirar os curativos da mão de Renaud, porque era só o que conseguia pensar em fazer. Quando ele voltou para a maca em que o mais novo estava, puxando uma das mãos dele, percebeu duas coisas, a primeira era que estava com as próprias mãos muito trêmulas pelo nervosismo da situação toda que parecia ficar cada vez mais concreta. A segunda, que os balbúrdios de Renaud pareciam fazer mais sentido aos seus ouvidos: … Ma soeurette Marlène… A pris bien de la peine… Quatre autres s'arrêtèrent à leur tour… Eram trechos muito específicos de um conto, dos que ele costumava compartilhar com Renaud. Concentrou-se em tirar as bandagens sem machucá-lo ainda mais, alguns pedaços de pele saindo junto com o tecido, e tentou manter as mãos firmes no processo. Mas com o tom de voz de Renaud ficando mais firme, ele ainda tentou chamar pelo mais novo de novo.
- Renaud? Está me ouvindo?
Àquela altura, Aleksei já tinha recebido um chamado muito inusitado com o som do baque forte contra a porta do seu consultório. Teria sido um dia comum cuidando de alunos problemáticos num internato, às vezes alguns deles eram muito intensos. Mas um susto causado dois dias atrás lhe fez demorar a reagir à batida na porta e processar a voz do outro lado lhe alarmando para o fato de que havia uma emergência com um de seus pacientes. Ele saiu do estado de tensão com o som do barulho na porta, e as coisas que tinha derrubado no susto, deixou no chão, dando meia volta nos calcanhares para correr até a porta e abri-la, encontrando o jovem Didier Callas, presidente do Conselho Estudantil e parceiro de Renaud em muitos sentidos.
- Onde ele está? - Aleksei perguntou prontamente, mas nem parou para esperar a resposta, fechou a porta atrás de si e já seguiu a passos rápidos. - O que aconteceu?
- Na enfermaria. Lemont levou ele para lá. - Didier respondeu o psicólogo, mas não diminuiu o ritmo para responder as perguntas, com pressa o suficiente para fazer o doutor correr até lá. - Ele recebeu a notícia de que a mãe dele sofreu um acidente de carro… ela faleceu… e ele está desolado, doutor. Ele atacou o Isaac e depois entrou em desespero e desatou a chorar… e desmaiou… as mãos dele estão… tão machucado…! - embora Didier tivesse começado com a urgência de quem queria ajudar o namorado o mais rápido possível, mesmo mantendo o ritmo da corrida, foi notável as respostas ficando engasgadas na garganta, e o leve desespero de quem estava aos poucos percebendo o que tinha acontecido depois de colocar em palavras.
Aleksei ouviu o relato enquanto seguia às pressas para a enfermaria, passando inclusive por mais alunos do que esperava ver. E a última coisa que ele precisava era ouvir que Renaud tinha recebido a notícia da morte da mãe, bem no meio do tratamento deles, e sabendo como a mulher era uma figura importante cujo papel ele ainda estava entendendo. Ele até esperava a reação violenta pelo relato de Didier, mas não era a violência que lhe preocupava, era ele acordar depois do desmaio e como ia assimilar aquilo. Aleksei nem esperou chegarem a enfermaria, mas no ritmo da corrida, ele ainda afirmou com segurança para o aluno ao seu lado.
- Ele vai ficar bem. Fez bem em me chamar e levá-lo para a enfermaria. - Aleksei respondeu pontual, e queria dizer que Renaud precisaria de Didier e dos amigos, mas quando exatamente, só depois de dar uma boa olhada no estado do rapaz. E ele chegou na enfermaria, entrando sem nem bater, para pousar os olhos sobre Renaud deitado numa das macas, Isaac sentado ao lado dele tirando as bandagens com manchas de sangue e os sons se misturando entre uma voz murmurada de Renaud com trechos em francês e o chamado do outro aluno para tentar trazer Renaud a consciência. - Isaac, não é? - Aleksei o chamou pelo primeiro nome, aproximando-se de Renaud para ouvir com mais clareza as rimas em francês. - Por que não me deixa fazer isso?
Sem a menor ideia de como Renaud reagiria de volta à consciência, pelo menos era mais seguro que Isaac e Didier não estivessem na mira dele.
Renaud
O tempo que tinha ficado no escuro nunca era tempo, porque no escuro no breu o tempo não existe, então o que existe? não sabia, não tinha como responder aquilo, não sabia quando o psicólogo lhe perguntava o que tinha no escuro, mas assim como uma criança que já tinha ouvido todas as histórias sobre “bichos papões” que se tinha pra ouvir, Renaud tinha medo do escuro. Não gostava de admitir pra ninguém, mas nas frias noites quando estava sozinho no próprio quarto espiando as sombras se formarem nas paredes vindas da luz da lua que refletia através do vidro da janela agradecia o fato de que existia luz, mas na mesma medida que ela vinha, ela ia embora, e jogava todo o quarto num sombrio e escuro, que nem mesmo seus olhos muito acostumados à escuridão conseguiam discernir o que tinha lá pra se ver. Queria mesmo ver o que tinha do outro lado? Precisava ver o que tinha do outro lado? Tinha sido ensinado a ser sempre o garoto forte, a ser um garoto inteligente era constantemente elogiado por isso, mas a verdade é que tinha muito medo das coisas que não compreendia, e em verdade mesmo estando mais velho tinha tantas coisas que não compreendia. O tempo era uma delas, era relativo segundo a física, talvez fosse verdade, ou talvez ele nem existisse e fosse apenas algo que se inventa pra fazer sentido “viver pra morrer”, porque que de outra forma valeria a pena acordar todos os dias pra ser jogado num mundo enorme e estranho cheio de coisas horríveis para se vivenciar em cada momento que se tinha pra respirar. Até respirar matava, porque segundo a química era o oxigênio que ajudava a deteriorar o corpo um pouco de cada vez, então significava que respirar pra viver era o mesmo que respirar pra morrer. Porque viver? porque morrer?
“Você pensa demais, não acha?”
“Eu nunca disse que não pensava…”
“Talvez você devesse parar de pensar tanto sobre tudo”
“Mas se eu penso eu existo, se eu deixar de pensar eu deixo de existir, não?”
“Será?”
“Quem é você?”
“Eu sou alguém que sempre esteve aqui…”
“Eu não sei quem é você, mas se você me diz que é pra parar de pensar, se eu parar, eu vou deixar de existir”
“Isso é bobagem, ninguém deixa de existir porque parou em algum momento”
“Você diz isso mas pode provar?”
“Não, mas você pode… porque não para um pouco?”
“E se eu sumir?”
“Você não vai sumir”
“Quem me garante?”
“Eu garanto”
“Promete?”
“Prometo.”
Os lábios continuavam se movendo de forma ritmada seguindo aquela sequência de frases que nem precisava se lembrar para falar, elas funcionavam como uma forma de “ligar” seu modo “teatral” ou era como o jovem Blanco gostava de tratar sua forma peculiar de interpretar outras pessoas. Em nenhum momento da própria vida tinha se questionado de onde vinha aquele talento, afinal vindo de uma família cheia de atores e dançarinos que eram ligados ao teatro e apresentações, era apenas esperado que ele tivesse alguma facilidade pra isso. Nunca tinha se interessado em de fato ter aquilo como uma profissão, mas sabia que fazia aquilo bem, o jovem francês sabia roubar as vozes, aprendia os trejeitos e absorvia tudo aquilo, e os territorializava como se fossem seus.
- Ah, se eu tivesse um filho que fosse vermelho como o sangue e tão branco como a neve! - a voz saiu dos lábios do jovem Blanco, mas não era o tom de voz dele, era baixo e murmurando, como se perdesse o timbre convencional que Renaud normalmente sustentava, mas continuou movendo a boca, e levou a mão livre até o rosto, bateu com as costas da mão contra a testa um par de vezes, o mindinho aleijado normalmente com atraso, se movia em concordância com os demais dedos, e o rapaz respirou fundo, a voz saindo mais audível daquela vez:- Se eu morrer, quero que me enterrem debaixo do pé de junípero.
O corpo todo do Blanco sofreu um espasmo seguido de um arrepio, e todos os pelos do corpo se eriçaram, o rapaz abriu os olhos escuros num instante, e ergueu o torso do corpo sentando-se na cama, o solavanco foi rápido, mas em seguida cambaleou girando o tronco balançando de um lado para o outro e pendeu a cabeça pra frente. Os dedos se moviam insistentes num tique nervoso intenso, quase como se estivesse tremendo apenas naquela porção do corpo, e então parou. Moveu cada dedo separadamente como se estivesse contando silenciosamente até dez. Respirou fundo e o corpo mudou de linguagem corporal assumindo um trejeito mais lânguido e quase feminino:
- Mamãe, eu quero uma maçã. - a voz certamente seria estranha a qualquer um deles, afinal eles não conheciam quem o rapaz estava imitando, talvez se houvesse uma quinta pessoa ali, o teatro estivesse completo, mas não estava, então esse pedaço seria estranho provavelmente: - Mamãe, eu quero uma maçã. - O rapaz repetiu a frase.
E naquele momento, todos os presentes ali, talvez ainda tivessem dúvidas, ou não, mas não era Renaud que estava na frente deles. Mas o rapaz pendeu a cabeça para baixo, e era como se sentisse um arrepio perpassar seu corpo, e as mãos machucadas apertaram os lençóis abaixo de si: - Sim, minha filha. - E apesar do diálogo ter começado devagar, a medida que o Blanco girava a cabeça para direções diferentes, como se estivesse recebendo várias pequenas descargas em choques, as falas se amontoavam, e as vozes mudavam, e mudavam: - que olhar assustador o da senhora! Sim, mãe, eu quero uma maçã… Venha comigo … o meu irmão está sentado na porta, e ele parece pálido e tem uma maçã em suas mãos… Volte até lá onde ele está,” disse a mãe, “e se ele não te responder, aplique nele um tapa na orelha...Meu Deus, mãe, e arranquei fora a cabeça do meu irmão com um tapa!
O Blanco até imitou o gesto de pender a cabeça como se ela fosse cair, seguindo de um “pfffff” com os lábios e uma risadinha baixa, que também não era a sua.
Aleksei
Renaud não respondeu ao chamado de Isaac, e ele só continuou com as faixas até ser interrompido pelo psicólogo, quase pego num momento de susto não tivesse ouvido antes o som da porta se abrindo. Isaac olhou de Renaud para Aleksei, engolindo em seco e concordando com um aceno de cabeça para se afastar para que o médico pudesse fazer aquilo. Não que ele não confiasse que podia dar conta dos machucados, mas as mãos ainda estavam trêmulas e ele não entendia os murmúrios de Renaud.
- Eu sei que vocês estão preocupados, mas eu vou precisar que vocês esperem do lado de fora, sim? - Aleksei instruiu a Isaac e Didier, e sabia que talvez não fosse muito fácil convencê-los a deixar a sala com Renaud naquele estado debilitado.
Mas antes que qualquer um dos dois pudesse protestar, a voz que se fez ouvir foi a de Renaud, e eles se voltaram para o rapaz que ainda estava deitado na maca, mas que tinha pronunciado uma frase bem audível, e num tom de voz levemente diferente, baixo. A voz seria o menor dos problemas, pelo menos até ele bater na testa com a mão já machucada. A reação de Isaac foi de pronto, querendo se aproximar para impedi-lo de bater contra a testa, mas Aleksei percebeu o movimento, e sem ao menos desviar o olhar de Renaud, ele estendeu a mão até o peito de Isaac, impedindo que ele ou Didier se aproximassem.
Claro que os dois não iam ficar feliz de ver Renaud se machucando e Aleksei apenas observando. Mas o tom de voz diferente, o gesto com a mão e o movimento errático dos dedos deu mais pistas a Aleksei do que os outros dois estavam acostumados dos trejeitos do amigo.
Isaac não gostou de ser impedido por Aleksei, mas não protestou. Achou que se o médico estava lhe impedindo de ajudar Renaud é porque ele o faria. Mas o médico também ficou parado, e o secretário franziu o cenho. Outra fala em uma voz estranha saiu dos lábios de Renaud e Isaac teve então a confirmação de que conhecia aquelas palavras, e conhecia muito bem.
- Ren-
Daquela vez, ele não completou o chamado, mas foi porque Renaud se sentou de um movimento só, lhe causando até um susto momentâneo. Aleksei nem se moveu de onde estava, o olhar bem focado que foi da cabeça pendendo para frente até os dedos se movendo ritmados, separados, antes de outras falas escaparem dos lábios dele de um jeito que nem pareciam pertencer a ele. E de fato, não pertenciam, não inteiramente, Aleksei estava bem familiarizado com processos dissociativos, mas com Renaud, lembrava muito bem dele ter lhe mostrado em primeira mão como podia assumir uma personalidade alheia e imitar vozes, e de ter lhe explicado como aquela necessidade de atuação tinha surgido ainda na infância. Agora, as duas características estavam sobrepostas, e ele não tinha feito aquilo de forma voluntária, daquilo, estava certo.
- Por qu... - Isaac sentiu um calafrio estranho passar na espinha, principalmente porque ouviu a própria voz saindo dos lábios do outro, assim como a de Didier.
- Eu realmente preciso que vocês me escutem agora. - Aleksei tentou fazer sentido para Isaac e Didier, já que fazer sentido para Renaud não daria certo naquele instante. E ele não podia perder muito dos movimentos de Renaud se precisava lidar com todo o processo de dissociação. - Preciso que esperem do lado de fora...
- Por que ele está recitando esse conto? - Isaac perguntou, ainda muito confuso com os trejeitos e as falas em tons completamente diferentes saindo dos lábios de Renaud. Nem pareciam sair dele.
- Ele está passando só por um momento de estresse por causa da notícia. Eu... - Aleksei parou a própria tentativa de tirar os alunos da enfermaria, atento a Isaac daquela vez. - Você conhece as falas?
- Sim. É o conto favorito do Renaud, o Pé de Junípero... - Isaac respondeu, e o fato do outro continuar recitando as falas lhe dava calafrios ainda mais incômodos, porque ele sabia exatamente o conteúdo do conto.
Didier
Ouvir do psicólogo que Renaud iria ficar bem lhe trazia um alívio momentâneo. Mas não demorou para que esse alívio desse lugar novamente a preocupação intensa com o namorado, especialmente vendo Isaac tentando trocar as faixas nas mãos muito machucadas. Didier seguiu Aleksei de perto, e até iria ajudar Isaac se o médico não tivesse pedido para dar conta dele, mas ao ver Renaud bater na própria testa com aquelas mãos e Aleksei até impedir que Isaac ajudasse, acabou direcionando a confusão e irritação com a própria impotência para o médico.
- E você não vai fazer nada…!? - rosnou, mas não deu continuidade a reclamação e nem o fez em voz alta, porque podia incomodar Renaud, e porque perto como estavam, conseguia ouvir aqueles murmúrios estranhos do moreno. E subitamente ele sentou, e Didier, ainda que não tivesse se movido, acabou tão hipnotizado pela visão estranha quanto Isaac, porque já tinha visto muita coisa em briga de rua, mas certamente não tinha visto aqueles tipos de cacoetes senão talvez em uns filmes de terror estranhos.
Franziu a testa, ouvindo Renaud imitando aquelas vozes, e embora soubesse que ele conseguia fazer aquilo de uma maneira fascinante, pela primeira vez, poderia se dizer assombrado pelos gestos. Ainda mais quando ouviu ele imitar sua voz e a de Isaac - o que lhe trouxe a infeliz lembrança da última vez que esteve próximo a uma enfermaria, e não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo lá dentro, por sua própria teimosia. Agora estava vendo o que estava acontecendo, mas não conseguia pensar em nada, a não ser na irritação de não poder fazer nada e no estranho medo daquelas frases estranhas sendo balbuciadas nas vozes que não eram de Renaud.
E o doutor Vlahos mais uma vez, enquanto estava perdido olhando a imagem do moreno, tentou tirar os dois de lá. Didier prontamente olhou para o outro, e pretendia até agarrar a borda da maca com firmeza, mas ouvindo que Isaac estava também colaborando com o médico e sendo obediente mesmo em sua preocupação, apenas cerrou o punho com força e mordeu os dentes, porque também não queria ser um peso a mais naquele momento. Honestamente só queria que o médico ajudasse mesmo Renaud.
Só não se foi, porque o máximo que pudesse ficar ali, ficaria. Então só seria verdadeiramente obediente quando fosse absolutamente necessário.
De repente a porta se reabriu, o que chamou sua atenção para um japonês largo com uniforme da manutenção da escola, que conhecia pelo menos pelo apelido de “Touro Verde”, espalhado pelos moleques dos primeiros anos.
- Não consegui achar o enfermeiro, doutor. - Tamotsu falou, olhando pra trás e vendo um moleque conhecido na cadeira de rodas, fechando a porta antes dele chegar perto o suficiente para incomodar o que quer que estivesse acontecendo na enfermaria.
- OU! Peraí, caralho! Eu quero saber o que tá pegando aí mesmo!! - o rapaz chamou, mas de onde ele estava, ainda longe no corredor, mal chegava a incomodar com a porta fechada.
- Quer que eu enxote esses moleques daqui? - perguntou, olhando de Didier para Isaac sem a menor paciência, porque o que quer que estivesse acontecendo ali na enfermaria tinha um clima extremamente pesado. Todo mundo parecia muito mais sombrio do que já tinha visto os moleques da escola parecerem, e o clima certamente não estava para enrolação.
Renaud
A risada que surgiu nos lábios do rapaz não pertencia a ele, o jovem francês sequer queria rir, mas era inevitável quando a jovem “Marlenita” era tão facilmente enganada pela própria mãe. Era um eco de alguém que não fazia parte daquele enredo; Então o corpo do moreno mais novo prosseguiu com o jeito lânguido e feminino no mover do corpo, sentando-se como se esperaria de uma nobre senhora, cruzando as pernas, levou as costas da mão esquerda ao próprio queixo e ergueu o dedo anelar o olhar espiando o nada:
- o que você fez minha filha? Mas fique quietinha e não deixe ninguém saber disso; como nada pode ser feito, nós vamos fazer com ele um chouriço - em seguida o jovem Blanco deixou a cabeça pender e começou a chorar com uma voz feminina ja dita, a linguagem corporal se alterando na medida que mudava de personagem, o indicador da mão direita apontando para nada, as lágrimas rolando no rosto contorcido como se tivesse acabado de vivenciar a cena do irmão irmão sem cabeça.
O jovem francês cobriu o rosto com as costas das mãos, deixando amostra apenas a parte vermelha e machucada sem pele e então moveu os dedos de forma descompassada novamente, como se sentisse espasmos de um choque percorrer o corpo e desembocava nas mãos, rangeu os dentes a ponto deles fazerem um ruído de estalo, movendo o anelar da mão direita em um tic próprio:
- Mas onde está o meu filho? - a voz se alternou novamente e a cabeça pendeu de um lado para outro conforme o rapaz mudava as vozes e acelerava o diálogo quase como se uma voz estivesse passando por cima da outra: Ah, ele resolveu atravessar o país- Ele nem sequer se despediu de mim— Oh, ele quis ir! - eu me sinto tão triste como se alguma coisa tivesse acontecido. - E disse que ficará lá por um tempo -Marlenita, porque você está chorando?- ora, ele será bem cuidado lá - O teu irmão certamente voltará. - Ah- como esta comida está deliciosa, coloque um pouco mais, não vai sobrar nada hoje - E ele comeu sem parar e jogava todos os ossos debaixo da mesa, até que comeu tudo!
O moreno mais novo se encolheu na maca, subindo as pernas e chorando copiosamente, as mãos tremendo, e ele começou a puxar as próprias bandagens ensaguentadas da mão sem qualquer pudor em magoá-las ainda mais, depois subitamente parou de puxar e juntou todos os pedaços e com o rosto lavado de lágrimas:
- Marlenita, retirou o seu melhor lenço de seda ..., e pegou todos os ossos que estavam debaixo da mesa, amarrou-os bem amarradinho... e os levou para fora da porta, chorando lágrimas de sangue…. - O corpo do Blanco se moveu como se fosse se levantar da cama, mas não tinha energia para aquilo, estava tão absurdamente cansado da explosão de adrenalina anterior, que ao tentar plantar os pés no chão, as pernas falharam fazendo-o cair sobre os joelhos, fazendo-o sentar-se no chão da enfermaria, e continuar chorando desconsolado fazendo a voz feminina, o olhar guiado fixamente para o montante de bandagens ensanguentadas como se estivesse olhando os próprios ossos recém comidos do irmão.
Aleksei
Aleksei teria apenas reforçado para os dois alunos saírem do quarto antes que Renaud continuasse o conto, mas ele parou olhando para Isaac quando ele lhe disse que conhecia o conto que ele estava recitando. Renaud ajustou a postura na cama, de uma forma mais feminina, e a voz que saiu depois foi conhecida, mas com os trejeitos femininos. Aleksei fechou os olhos por dois segundos e se voltou para Isaac apenas porque talvez pudesse usar aquilo em seu favor.
- Sobre o que é o conto? - ele perguntou, pontual, e num tom de voz um pouco mais baixo para não despertar Renaud de alguma forma indesejada. Mas Isaac não pareceu ouvir a sua pergunta, estava muito focado ou confuso com a visão de Renaud naqueles trejeitos estranhos, o jeito como ele se movia, falava e agia era tudo tão fora do que estava acostumado que Aleksei precisou se colocar de frente para ele para conseguir chamar a atenção do secretário. - Sobre o que é o conto, Sr. Lemont?
- Sobre… - Isaac piscou algumas vezes e finalmente voltou a atenção para o psicólogo. - Um garoto, que é morto pela madrasta, tem os ossos enterrados debaixo do pé de junípero pela irmã mais nova. Ele volta como um pássaro e se vinga da madrasta. - ele resumiu da forma mais sucinta e apontou para Renaud naquela postura recitando aquelas falas da mãe que, ao longo do conto, tentava acusar a própria filha de tê-lo feito.
Aleksei voltou a encarar Renaud em tempo dele começar a chorar e logo depois voltar aos espasmos em que o corpo se alternava entre um personagem e outro num período de tempo muito curto. E era mais uma voz conhecida. Ele se virou de novo para Isaac e Didier, e foi bem em tempo do zelador voltar para a sala e oferecer para tirar os alunos de dentro da enfermaria.
- Sr. Callas, Sr. Lemont, eu vou ser bem direto e preciso que vocês me ouçam agora. - Aleksei disse, com um tom apenas um pouco urgente porque ele precisava estar atento às reações de Renaud. - Eu posso lidar com Renaud, mas não posso lidar com os três aqui dentro. Menos ainda com as reações dele para a presença de vocês. Então vou pedir de novo para que se retirem e esperem do lado de fora, ou para que o Sr. Saito o faça. É para o bem do Renaud, e de vocês também.
Aleksei deu a chance para que eles cumprissem com o seu pedido voluntariamente, voltando-se de novo para Renaud e deixando a presença dos dois ali para que o zelador desse conta, caso eles não quisessem se retirar. Mas foi bem em tempo de Renaud ter encerrado mais uma troca de comentários consigo mesmo e, então, começar a arrancar as bandagens de um jeito certamente doloroso. Isaac ainda foi impelido a se aproximar e impedir, mas se tinha uma coisa que ele sabia que não podia fazer era ajudar Renaud naquele estado abalado mentalmente. A contragosto, ele seguiu para a saída da sala mesmo que Renaud estivesse se machucando ainda mais.
Aleksei se aproximou de Renaud como podia, e estendeu as mãos para segurar os braços dele com pouca pressão, sem impedi-lo de fazer o que estava fazendo no fim das contas. Se fosse muito agressivo para que ele realmente parasse o trajeto dentro da própria cabeça, tinha receio das reações que viriam a seguir. Depois de juntar o bolo de bandagens, ele trouxe outra voz, outro momento de choro em desespero, e se moveu para se levantar da maca. De novo, Aleksei manteve a proximidade mesmo sabendo que podia ser atingido no processo, mas quando Renaud não teve forças para ficar de pé, ele só se abaixou junto com o outro, sem fazer qualquer movimento brusco para impedir a queda. mas se manteve no nível dele, então se ele caísse para frente ou para trás, tinha certeza que poderia apoiá-lo.
- Renaud… preciso que ouça a minha voz. - ele falou próximo o suficiente de Renaud, na tentativa de que a voz fizesse algum sentido na mente dissociada dele. Mas sem conhecer o conto e tentar entrar em algum ponto, o que também era complicado em muitos níveis, podia só esperar que ele associasse o seu tom de voz com a sua figura de profissional.
Didier/Tamotsu/Sasha
Para Didier, a reação de Renaud novamente contando o que parecia ser um conto com a sua voz (e de outros) era hipnotizante de certa forma. Mas quando ele começou a chorar, quase deu um passo a frente, não fosse a conversa do doutor e de Isaac sobre a tal história do pé de Junípero, que era no mínimo, algo assustadora pelo que estava ouvindo e vendo. Até o zelador certamente pensava assim, porque desde que tinha entrado na sala, parecia que ele estava carregando toda a tensão do momento nas costas, mesmo sem saber o que raios estava acontecendo ali.
O tom um tanto mais urgente do psicólogo deixou Didier atento para o fato de que realmente não teriam o que fazer ali, e poderiam até atrapalhar o doutor Vlahos. Porém a imagem dele deixando Renaud se machucar anteriormente lhe deixava extremamente hesitante, e diferente de Isaac, que parecia ter um melhor entendimento ao menos do papel de Aleksei ali, Didier não se moveu, senão quando viu novamente Renaud machucar as mãos, dando um passo instintivo para frente mas sendo arrastado de uma vez para trás.
Tamotsu agarrou o presidente pelo blazer, puxando-o em um solavanco, porque estava na cara, expressão e movimento de Didier que ele não iria sair dali sem o entendimento completo de porque deveria.
- Ele mandou você sair. - Tamotsu reforçou de um modo muito claro, o que fez o loiro virar até ele e apertar os dentes com tanta força que podia ver a tensão na mandíbula e na expressão.
- Eu não posso…! - Didier respondeu de volta, e já pretendia revidar para se soltar apesar de saber que seria melhor sair em paz, quando ouviu algumas batidas na porta.
O presidente ser desarmado pelo mínimo som da porta foi só o que Tamotsu precisava para agarrá-lo pelo braço com força, abrir a porta e empurrá-lo para fora, fazendo o mesmo com um tapinha para adiantar o secretário, fechando a porta atrás de si.
- Mas que merda tá acontecendo aqui??! - Sasha, que tinha batido na porta, bradou, ao ver Didier sendo expulso, assim como Isaac até, franzindo a testa. - Eu ouvi no corredor que rolou uma merda na sala de vocês, com o menino! Por que a enfermaria tá trancada, caralho?
Didier, que até então tinha guardado toda sua vontade de berrar pela própria impotência, mesmo depois de ver Renaud daquele jeito, mesmo depois de se atrapalhar para chamar o dr. Vlahos e mesmo depois de ser expulso a força pelo zelador, olhou para as reclamações completamente ignorantes de Sasha Peyrac parado a porta e levou a mão de uma vez, como um bote, até a mandíbula dele, apertando como se quisesse descontar toda a frustração de uma vez, e recebendo de volta um olhar extremamente amargo em retorno.
- Me… solta… - Sasha rosnou, levando a mão até a do loiro, apertando o pulso dele de volta.
Mas ao invés de sentir a presa folgar porque estava aplicando força, olhou direto para Didier e simplesmente parou de sentir a força dos dedos na própria cara, porque Didier simplesmente desabou na sua frente. E podia ter visto ele fazer muitas caras e bocas, mas nunca tinha visto ele chorar tão obviamente desolado na sua frente. Até acompanhou quando ele finalmente soltou sua cara, e sentou no chão, parecendo muito cansado.
- Lemont… o que tá acontecendo…? - Sasha perguntou, certamente mais tenso do que quando chegou.
Isaac até se alarmou para a reação de Didier quando saíram da sala, e nem sabia se tinha mais forças para impedir o loiro de se atracar com Sasha, mas antes de avançar e puxar o loiro de volta, ele mesmo soltou a mão em volta do queixo de Sasha e caiu no chão, sentado, jogado às lágrimas. Isaac também soltou o ar todo de uma vez e se encostou à parede, voltando a atenção para Sasha quando ele perguntou o que estava acontecendo.
- O Renaud… ele teve uma… crise? - ele não sabia outro jeito de nomear. Surto? Qualquer um parecia demais pro seu entendimento. - Ele recebeu a notícia na sala do conselho, que a mãe dele sofreu um acidente de carro… ela morreu. - ele conseguiu completar a informação, e aproveitou que o chão estava perto para escorregar e se sentar também. - Ele ficou violento e estava batendo nas coisas… machucou as mãos. Trouxemos pra enfermaria e… eu não sei o que aconteceu. - ele concluiu com a última coisa que tinha visto dentro da enfermaria, que era confusa e assustadora.
O cadeirante ouviu a explicação, mas não processou inteiramente o que estava acontecendo. Uma “crise” para explicar o estado de Isaac ou o estado até de Didier parecia pouco. A notícia, talvez, tenha sido mais chocante. A raiva e machucar as mãos que tão recentemente tinha sido machucadas, e ninguém necessariamente entendendo o que estava acontecendo, só fizeram com que Sasha olhasse para a porta, sentindo que ficariam ali um bom tempo, nem que fosse para saber qualquer notícia melhor de Renaud. Até pensou em falar algo, ou em como responder, mas não tinha certeza do que os dois estavam sentindo naquele momento, exceto que estavam cansados, cansados demais. E queria ter os braços longos o suficientes para poder tocar os dois, mas sabia de suas limitações, e apenas, porque não sabia o que fazer, arriscou-se a colocar a mão no topo da cabeça de Didier por um instante, antes de estacionar a cadeira perto de Isaac, e fazer o mesmo.
- Obrigado por ajudarem ele. Acho que não dá pra fazer muito a não ser esperar, né…? Ele vai ficar bem. - Sasha falou, mas por impulso. Honestamente, o que passava pela sua cabeça é se, o zelador, por exemplo, conseguiria segurar Renaud se ele explodisse de novo. Didier e Isaac pelo visto não tinham.
Renaud
Ao contrário do esperado o jovem Blanco estava muito longe pra poder ouvir a voz de Aleksei a sua frente e ao invés disso, o rapaz levou as mãos machucadas ao rosto, a sensação das lágrimas e da carne exposta queimando, fizeram o moreno mais novo grunhir de dor longamente se inclinando pra frente e balançando uma, duas, três vezes, até parar. Afastar as mãos do rosto, e erguê-las, o fato delas estarem trêmulas, era apenas amostra de como o corpo do menor estava cansado:
- o pé de junípero começou a se mexer novamente, e os galhos se dividiam, e se moviam novamente, parecendo que alguém estava muito feliz e batia palmas. - o moreno moveu as mãos como se fosse bater palmas, mas não chegou a encostar as palmas como se soubesse que o gesto lhe causaria dor, esticou o indicador da mão direita, o olhar estava ainda voltado pra baixo para as bandagens, e ele sorriu, cansado, e então começou a cantarolar o ritmo da canção que tinha dado início aquilo, e as palavras se embaralharam na boca:
- A minha mãe, ela me matou,"O meu pai, ele me comeu", "A minha irmã, a pequena Marlenita," "Juntou todos os meus ossos", "Amarrou-os bem firme num lenço de seda," "Os colocou debaixo do pé de junípero,"...!
E embora aquele trecho fosse o falado mais próximo da voz de Renaud, ele parecia mais distante e menos teatral enquanto cantava, a frase final da canção não foi dita. O dedo mindinho da mão esquerda que geralmente tinha o movimento atrasado, estava lá com seu movimento descompassado, mas nem com aquilo o jovem Blanco tinha voltado. Em verdade era possível ver a fadiga no corpo, de que até para o próprio a extensão daquela interpretação estava indo além do que ele costumeiramente conseguiria fazer. Afinal, não eram apenas personagens o que ele estava fazendo, eram pessoas reais e únicas para o moreno mais novo.
- “Passarinho,” disse o ourives então, “como você consegue cantar com tanta beleza! Cante para mim essa canção novamente.” - “Passarinho, como você canta bonito!”— disse o sapateiro, “cante para mim essa canção novamente.” - Os moleiros talhando uma pedra, e cortavam, “rique raque, rique raque, rique raque,” e o moinho fazia “clipe clape, clipe clape, clipe clape.”“Passarinho,” disseram eles, “como você canta bem! Deixe-nos ouvir também. Cante mais uma vez para nós”
A medida que Renaud mudava as vozes e alternava entre pessoas, moveu o polegar direito para primeira fala, o dedo do meio direito para a segunda, o dedo mindinho para a terceira, os sons de risque e claque, foram as vozes do polegar esquerdo, e do dedo do meio esquerdo. E o rapaz movia os dedos das mãos de forma aparentemente descompassada, mas era como se houvesse certo ritmo naquilo, mesmo que fosse algo nervoso e intenso. E quando a sequência de vozes cessou, veio apenas uma palavra de resposta:
- “não” - dito de forma seca e não amigável, pra depois tornar a mudar a expressão e vaguear o olhar, movendo o dedo mindinho aleijado mesmo que descompassado: - “Eu não posso cantar duas vezes de graça! Dê-me a corrente de ouro, Dá-me a pedra de moinho, deves me oferecer mais alguma coisa, e então, eu cantarei novamente.”
Aleksei
Aleksei não voltou mais a atenção aos outros alunos depois de dispensá-los, e considerando que não tinha sido interrompido, no mínimo o zelador os tinha tirado da sala. Ele se manteve diante de Renaud, e talvez fosse imprudente estar ao alcance das mãos dele, mas também não podia deixar que ele continuasse se machucando mesmo involuntário e precisava se fazer ouvir.
Em cada gesto das mãos, Aleksei tentava interferir para impedir que ele se machucasse, mas nunca segurando-as de um modo firme. Quando ele fez um gesto para bater palmas, Aleksei colocou as duas mãos entre as dele, na altura do antebraço, deixando que ele só sentisse o obstáculo caso tentasse juntá-las, mas ele não o fez, talvez ainda por um instinto de preservação?
- Renaud, precisa me ouvir... - Aleksei o chamou mais uma vez, entre uma voz e outra, mas a canção se seguiu, e ao ouvir o tom mais próximo da voz dele mesmo, ele ainda não estava consciente de sua voz.
Aleksei percebeu como os dedos dele se moviam, e o gatilho que ele costumava usar para sair dos personagens com o ritmo do dedo mindinho errático não bastou também para tirá-lo do momento de transe. O médico piscou por longos segundos, atento ainda aos movimentos alheios, mas sabia que se continuasse daquele jeito, o único modo de falar com o próprio Renaud seria se ele fosse vencido pela exaustão.
- Esse não é você, Renaud. - Aleksei seguiu com as tentativas de fazê-lo lhe ouvir. Podia não fazer nenhum sentido para o moreno, mas se pelo menos a sua voz chegasse a ele, seria mais fácil de trazê-lo de volta.
Mais vozes vieram todas de uma vez, sobrepostas, cada uma acompanhando o ritmo de um dos dedos machucados, e Aleksei deu atenção aos comentários, e entre cada um deles, o chamou pelo nome, e repetiu que aquele não era o rapaz, e fez o processo mais e uma vez para que ele continuasse ouvindo a sua voz em meio à balbúrdia de informações.
E então, ele ouviu um "não" firme e seco, e num tom de novo muito semelhante ao de Renaud. O conto se seguiu, e dentro das falas, ele pediu algo em troca da canção. Aleksei não queria que ele imergisse mais no conto, e nem queria tentar entrar nele, mas se ele não respondia à insistência da sua voz, ele aproveitou as últimas palavras para responder.
- Eu ofereço a minha ajuda então. - ele respondeu, remetendo a uma das conversas das sessões antigas dos dois. - Mas só se você quiser ser ajudado, Renaud. - e colocou mais firmeza no nome dele daquela vez.
Renaud
O corpo estava cansado e isso era visível nos tremores e espasmos involuntários como se fossem cãimbras e choques perpassando corpo, as palavras só se desenrolaram como se estivessem apenas seguindo a canção, sem qualquer controle de para onde estivesse sendo guiado ou para onde seria levado. Mas alguma coisa estava errada, tinha muitas coisas faltando, não tinha uma corrente de ouro, nem o sapateiro tinha lhe surgido com um presente e não tinha uma pedra.
- Pra quê queria a corrente dourada? - o rapaz falou baixo, “Renaud!” parecendo confuso: - Para dar ao seu pai. - reafirmou movendo o dedo anelar na mão direita: - Pra quê o sapateiro teria que lhe dar algo? - reafirmou movendo o indicador da mão direita: - Como iria presentear sua irmã? - Então parou, pensando sobre a pedra, “Renaud” qual a finalidade dela: - porque os moleiros precisavam te dar uma pedra? - moveu sequencialmente os polegares de cada mão, o dedo médio de cada mão, e o mindinho da mão direita: - Porque precisava matar… sua… m- - Antes que terminasse a frase Renaud fez uma expressão de dor e susto e as mãos tremeram:
- não! não! não! não! não! não! não! não! não! não! - O rapaz repetiu erraticamente misturando as vozes, a expressão de dor lhe assolando por toda extensão do seu corpo. “Renaud”. A voz engasgando no topo da garganta e o moreno mais novo se protegeu com os braços se encolhendo mais na posição em que estava num grunhido inicialmente alto que não dizia nada mas que era uma bagunça errática de vocábulos: - AARGHHHHRGRHHHHHHHHHH --!
E depois da voz ficar baixa o suficiente pra sumir, a respiração se tornou rápida e urgente e o jovem Blanco iniciou um diálogo sozinho, mas dessa vez ele parecia conversar consigo mesmo, e as vozes eram a dele, ou pelo menos parecia que as duas vozes eram as dele:
- não posso deixar ela morrer! -- não foi culpa sua! -- não posso eu mesmo esmaga-la com uma pedra,! -- E não vai…-- ela não tem culpa de nada! -- não, não têm…-- "Piu, piu, que belo pássaro eu sou!”-- É sim… é sim… vamos ficar bem… vamos ficar bem Renaud…!
O moreno mais jovem levou as costas da mão ao peito batendo sobre o local de leve, prendendo a respiração por um momento, e depois soltando todo o ar pela boca de uma vez, os ombros relaxando o olhar anteriormente sem foco e sem brilho, agora se levantava vagarosamente espiando o homem à sua frente.
O rosto de traços comuns de Renaud Blanco, agora parecia um caos de lágrimas, manchas de sangue, olheiras fundas e escuras como seus olhos estreitos, o cansaço mais que evidente, porém, ainda assim, agora não parecia estar delirante ou fora da realidade.
Aleksei
As palavras que se seguiram de Renaud foram no tom mais próximo da voz dele, e mesmo que Aleksei não conhecesse o conto, as perguntas e justificativas certamente não deviam fazer parte da narrativa original. Era algo que ele estava dizendo a si mesmo, e confirmando no processo, porque ele não tinha conseguido nada do que esperava conseguir no trajeto da narrativa infantil.
Aleksei notou o tremor no corpo e nas mãos, a expressão de medo e dor misturados quando todas as vozes saíram uma atrás da outra, um personagem atrás do outro, porque ele não podia se permitir concluir o conto. E as mesmas vozes se misturaram num grito desesperado que foi subsidiando à medida que ele perdia o fôlego ou a energia. Renaud estava exausto, física e mentalmente, e talvez aquela fosse uma das confirmações para que Aleksei não tivesse receio em ficar perto dele, mesmo que ele ainda pudesse descarregar nele, ou ter outro surto de adrenalina. A saúde mental e física do rapaz ainda era a sua prioridade, afinal, se tivesse uma chance de impedi-lo de ir mais longe ou de se machucar, ele tentaria.
Quando o grito cessou, a voz de Renaud surgiu de novo, e era a dele, com perguntas e respostas em uma variação de tom pontual, que fez com que facilmente parecessem duas pessoas conversando mesmo que o corpo fosse um só. E o modo como ele tentava se convencer de que não tinha culpa do acontecido trouxe Aleksei para uma distinção bem crucial da personalidade dele. Não eram várias pessoas que estavam ali, como denunciavam a voz que tinha reconhecido do secretário do conselho, do presidente, ou do presidente do Conselho Disciplinar. Eram só duas, e as duas com a voz de Renaud.
Subitamente, ele se acalmou, com um toque no peito, a respiração escapando pela boca e os ombros relaxados, ele ergueu a cabeça para encarar Aleksei de volta. Aleksei afastou as mãos que tinha usado para impedi-lo de bater palmas, ou de tentar se machucar. Ficou parado a frente dele, com um joelho no chão e o braço apoiado na outra perna.
- Você conhece a minha voz? - Aleksei perguntou, mantendo a distância curta de um braço, sem desviar o olhar. - Você está aí, Renaud?

